Notas iniciais
Escrito por 483ViniKaulitz. Segue o link para as músicas tocadas no capítulo: Superhero - The Pretty Reckless http://www.youtube.com/watch?v=hxR6U0QhMFo Percussion Gun - White Rabbits http://www.youtube.com/watch?v=SoF_ed_M_wk

Era a milésima vez naquela mesma semana que Vini encarava a pilha de documentos, anotações, arquivos pessoais, postagens, notícias, roteiros, conversas e imagens relacionadas a Premonição, um material pesado coletado ao longo de alguns anos mistos de juventude e vagabundagem.

Porém, naquele dia era diferente.

João, Sam e Pedro exibiam o mesmo olhar abatido do dono do apartamento, porém pareciam curiosos com a quantidade de recortes de notícias de jornais relatando casos reais em que a morte dava o troco.

– Tá faltando alguma coisa – Vini soca a mesa repentinamente. Ele levanta-se e encosta na geladeira. A mão no queixo, pernas cruzadas, ele espera alguém finalmente dizer algo novo.

– Porque é que você nunca mencionou todos esses casos reais? – Pedro pergunta enquanto observa outro recorte. – Cara, isso é interessante e assustador pra cacete.

– Por que eu não sabia. Encontrei isso tudo ontem na Internet. Essa porra já aconteceu antes.

Sam ergue o olhar:

– Alguma delas menciona a história da franquia?

– Nenhuma delas. – João completa. – Metade disso aconteceu antes do primeiro filme ser lançado.

O grupo cai num silêncio constrangedor.

– Não acredito que o MV morreu. – Pedro diz mais para si mesmo do que para o grupo. – Não acredito que Vic morreu. Não acredito que --

– Nós tentamos. – Sam o corta, visivelmente estressado. Ele tomba a cabeça para trás e suspira. Vini reconhece aquele gesto.

Significa que você quer ser engolido pela escuridão. Fugir. Desaparecer dessa porcaria toda.

Vini tem tido muito daquilo ultimamente.

Pedro coça o gesso. Irritado. Inquieto.

– Estamos fazendo tudo errado.

Todos se viram para João.

João ajeita o cabelo rapidamente, pego de surpresa atenção repentina e então limpa a garganta:

– Vocês acham que vão achar mastigadinho no papel como iremos acabar a morte?

– Mastigadinho ou não, ganhando da morte já vai ser ótimo – Pedro completa.

Sam esconde o rosto.

– Ainda não acredito que estamos tendo essa conversa.

– Ainda não acredito que MV morreu também. – é Vini quem diz dessa vez.

João ri.

– É isso! Vocês estão andando em círculos! Vocês não saem do lugar. Cara, nós somos experts nessa merda em comparação a burra da Kimberly. E ela sobreviveu por – ele ergue dois dedos num tom arrogante – dois filmes.

Todos concordam com um aceno.

– Quando essas coisas sobrenaturais começam a acontecer, — João continua — você precisa dar a cara a tapa e sair buscando informações, não sentar e esperar o milagre acontecer. Precisamos no mínimo encontrar sei lá, uma cigana, vidente...

– Precisamos começar.

– Perdi a conta de quantos já morreram. – Vini conclui.

– Vini, pelo amor de Deus. Desistiu é? – Pedro pergunta.

– Eu não, eu...

– Então vamos se virar, meu caro. O João tá certo. Precisamos de um plano. Precisamos sair na frente.

– Eu nem sei por onde começar... – Vini gesticula. Olha pro chão.

– Comece pela Keth, caramba. – João insiste. – Vai apenas deixar ela morrer e morrer junto? Ou vai lutar?

– Eu quero lutar.

– Vamos deixar essa entidade canalha ferrar com os nossos planos de um futuro longo?

– Não vamos.

– Então cara, o que estamos esperando?

– Eu já sei por onde começar. – Vini sorri.

– Eu também tenho uma ideia – Pedro diz, a expressão de que está se lembrando de algo no fundo de sua mente. – Merda, como eu não lembrei disso? – Ele começa a rir.

Todos o encaram atônitos.

– Vou achar o Felipe – Sam diz erguendo-se também e mais uma vez, descrente do que estava saindo de sua boca. – Ele pode ser o próximo e eu preciso...

– Vou pra casa rever minhas anotações e então vou pra biblioteca do meu bairro. – João diz repentinamente. — Sabem a teoria da deusa grega? Tô pensando muito nela ultimamente. Uma vez eu até encontrei um artigo.

Alguns fingem que entenderam.

Todos estão andando em direção a porta – João e Sam auxiliam Pedro. Vini rapidamente os alcança e os para.

– Se cuidem. Vocês sabem quando a morte vai agir. Os sinais. O ventinho. Calafrio. Vocês já viram isso antes.

– Ok.

– Por Keth. – Vini suspira.

– Por Vic. – Pedro concorda.

– Por Laís e Bacon. – João coloca os braços na cintura.

– Por É do Lado – Sam diz, um arrepio percorrendo o corpo.

– Pelo MV. – Vini volta.

– Por Lucas, Emerson e Breno. – Pedro suspira dessa vez.

– Por Guib e João Victor. – João sorri, o momento heróico de cada um se manifestando.

– Por todo mundo que não está aqui hoje. – Vini finaliza. – Vamos chutar o cu da morte.

XXX

All alone again searchin for somethin'

There's no one left to save me now

I won't be afraid I just thought you'd catch me

But you're not here to save me now

Vini sentiu o calafrio descendo pela espinha mais uma vez. Superhero.

A música de Keth.

Encostado no sofá da sala. Vini se lembrava bem, uma das primeiras vezes que Keth esteve em seu apartamento. Ele bêbado, casualmente murmurava a letra da canção enquanto tocava os primeiros acordes e Keth parecia se interessar, intrigada com o significado daquela canção enquanto o garoto perdido do bar da faculdade tentava lembrar os acordes.

A música de Keth.

I've had my share of criminals

And you're no different from them all

Keth dizia que a música expressava muito bem uma grande parte de sua vida. Ela dizia que estava cansada de criminosos.

Nas últimas semanas, ele acordava de noite, suando e se perguntando, se na verdade, teria sido ele o grande criminoso da vida dela.

Ela morreu em seus braços. Aquele era o crime.

I need a superhero cause I am just a girl

And I have no one who will go

And save me from this world

Come to me you superhero

Cause I am just a girl

I know cause you're no

Superhero

Ele não chorou. Ele só sabia que não era justo. E ali, recostado contra o sofá, mais sóbrio do que o seu próprio reflexo inocente de quando tinha seis anos de idade, ele contemplava aquela realidade gélida e apavorante: ele não tinha sido e nunca mais poderia ser o super-herói da vida dela.

E aquilo machucava. Ele sabia que não tinha tanta culpa na morte de Keth. Ele se lembrava do sorriso desaparecendo, daquele calor se apagando enquanto Keth desvanecia em seus próprios braços, a face bela ainda macia, intocada pela confusão da morte rápida e os cabelos compridos e molhados, camuflados e desenhando novos caminhos nas tatuagens do braço dele.

Ele sentia muito.

Ele tinha trabalho pra fazer. Desligou o aparelho de som e catou a chave do carro em cima da mesa, espalhada entre a pilha de material dos filmes e livros.

Deixando ração no pote do Bill, ele deixou o apartamento.

XXX

Deitado na cama, João encarou mais uma vez a papelada que tinha impresso de uma página da Internet. Amassou de qualquer jeito e arremessou na parede oposta. Observou o monte quicar direto no lixo.

Duas semanas antes, um de seus pensamentos era continuar forte até terminar aquele curso técnico de merda para finalmente dar o fora da cidade.

Agora sua prioridade era sobreviver.

Mas apesar de ele ser o responsável pelo chacoalhão nos meninos, ele não tinha muito com o que lidar. Ele esperava que pelo menos as expressões de determinação que tinha visto nos rostos de Vini, Sam e Pedro significassem que eles descobririam uma maneira de ajudá-lo a durar mais tempo no jogo.

Era seis da tarde. Ele tinha combinado de se encontrar com os meninos no Bar da Correria às oito da noite. Eles iriam repassar tudo o que tinham. Talvez trazer alguma novidade do brainstorm que cada um deles teria (pelo menos deveriam ter) naquele período de quatro horas em que ficariam separados.

– João, – Ele ouviu sua mãe batendo na porta. – Tem visita pra você.

– Visita? — Ele suspirou. Quem iria visitá-lo naquele instante e sem avisar? Algum dos garotos teria morrido? Putaquepariuputaquepariuputaquepariu--

A porta abriu e sua mãe entrou seguida de Vini, sorridente. João ergueu-se da cama, repentinamente irritado pela invasão de sua privacidade.

– Quem morreu? – João perguntou, mesmo sabendo que ninguém teria morrido pelo sorriso no rosto de seu amigo.

– Ninguém morreu amigo. – Vini sorriu outra vez. Usando uma jaqueta de couro com um capuz e girando as chaves do carro nos dedos de forma decisiva, ele continuou:

– Temos um lugar pra ir.

XXX

– Onde é que estamos indo? – João perguntou enquanto colocava o cinto no carro de Vini.

– Minha casa antiga. Deixei um material muito fodão por lá. É sobre a teoria do caos.

João suspirou. O que a teoria do caos poderia ajudá-los em relação a uma entidade sobrenatural, invisível e constantemente em modo de alerta querendo matá-los? Ele não quis falar aquilo para o amigo.

– Sua casa antiga?

– A casa em que morei com meus pais até virmos para a cidade. – Vini completou rapidamente. — Ué.

João notou que Vini estava saindo direto para a rodovia. Fora da cidade.

– Seus pais não moram lá mais, certo?

– Venderam pra alguém. Faz alguns anos já.

– E como é que você sabe que o seu material ainda está lá? Os novos donos podem ter metido fogo em tudo já.

– Eles não fizeram isso. – Vini pausou enquanto dava meia volta e subia o viaduto da cidade. João observou o reflexo dançante dos faróis rápidos dos carros e das luzes da cidade deixando flashes estroboscópicos no rosto de ambos e no retrovisor. – Eu guardei tudo numa caixa no barracão.

– E como você acha que os ratos não comeram tudo ou –

– João, meu velho,você pensa demais.

– Ok.

Vini entrou na autoestrada. João tapou os olhos. Devia ser longe...

– Você entrou na autoestrada. Qual a distância?

Duas.

– Duas? Duas o quê? Duas quilômetros? DO-IS quilômetros. Fale direito cara.

– Duas horas. Duas horas na autoestrada. Duas horas pra ir e duas horas pra voltar.

– PUTA QUE PARIU Vinicius! – João estava gritando. – Meus pais vão me matar!

João estava fuzilando. Ok, talvez Vini fosse louco e irresponsável. Isso não significava que João precisava ser também.

– Não vão não. Relaxe um pouco. Eu faço o percurso em 1 hora e 45 minutos.– ele piscou.

– Velho! E o encontro com os caras?

– Eu já avisei a eles. – Vini disse enquanto enfiava um pendrive no reprodutor de mp3 do veículo.

– E você já parou pra pensar que a morte pode simplesmente virar o teu carro e nos transformar em tinta de estrada em dois segundos?

– Pensei sim. Ela não vai fazer isso.

– Como você sabe? São dois coelhos numa cajadada só. Double strike. Pense bem Vini.

– A estrada é segura. E é vazia. Não tem erro. Além do mais, nós dois sabemos que a morte gosta de espectadores.

– Espectadores que conheçam a lista da morte – João concluiu baixinho.

– Exato. – Vini concordou.

João já estava além de Vini.

– E o que isso impede da morte virar o carro e matar apenas um de nós? Ela teria um de nós como testemunha.

Checkmate. Vini ficou aparentemente desconfortável com a suposição. Ele pausou por um segundo.

– João, velho, você pensa demais.

João virou os olhos. Se as ocasiões que ainda viriam não matassem Vini, naquele momento João considerava aquela ideia.

All I am, is a man

I want this world in my hands.

Sweater Weather.

Vini começou a cantar junto.

Aquela seria uma viagem longa.

XXXXXX

João estava voando. Ele sempre teve sonhos em que caía de prédios ou que simplesmente tropeçava na calçada de sua casa. Aquele era diferente. E ele no fundo, sabia que estava sonhando. Era um daqueles delírios que só as noites e o subconsciente podem trazer.

De repente João estava balançando no ar de um lado pro outro. Ele não tinha ideia de quanto tempo ele ficou balançando. Até que lembrou-se: ele era um avião no ar – e estava em turbulência.

Premonição 1. Ele gritou.

– Oh, chegamos. – Vini disse.

– Oi?

– Chegamos.

João acordou no carro. Ele havia dormido a viagem inteira.

– Uma hora e quarenta e sete minutos. – Vini apontou para o relógio no visor do carro.

João não conseguia acreditar que tinha dormido durante a viagem. Ultimamente, dormir para ele, estava sendo difícil.

Vini encostou o carro embaixo de uma árvore seca. João observou o exterior do veículo, as cercas de uma casa grande de dois andares – coberta por folhagens diversas. O chão da rua, o bairro praticamente deserto, era estrada de terra – João concluiu que a mudança do asfalto para a estrada de terra teria sido a turbulência em seu voo.

Começava a relampejar no horizonte e os primeiros trovões já podiam ser ouvidos.

– Perfeito. – João pensou em voz alta.

– Vem.

Vini saiu do carro. João o seguiu e contemplou a visão que se erguia em sua frente.

Era uma casa bonita. Grande, e ao mesmo tempo modesta.Todas as luzes apagadas, a garagem/barracão no fundo, praticamente do lado de trás da casa. A cerca era relativamente baixa, o que surpreendeu João, justamente por se localizar em uma área deserta.

Um único poste de luz iluminava a frente da casa, João esticou o olhar e viu o próximo poste a pelo menos uns duzentos metros de distância no horizonte da rua. Presumiu que lá haveria outra casa, mas não conseguiu enxergar.

– É um lugar bem tranquilo. – Vini diz. – As luzes estão apagadas, acho que está vazio.

– Não tô vendo carro nenhum.

–Pois justamente deve estar na garagem que é o barracão que precisamos entrar. Vem.

– Vamos invadir?

– Não é invadir. A casa já foi minha.

– Essa sua lógica é estúpida pra caralho.

– Eu sei.

– Vinicius, você pode achar que não tem mais nada pra perder na sua vida, depois da morte da Keth, mas eu tenho muita coisa cara. Eu quero ajudar, mas assim não dá...

Vini o ignorou e estalou os dedos. Alongou as pernas. João o observou e desistiu de falar. Ele já estava ferrado de qualquer jeito.

Ambos pularam o cercado e seguiram pelo gramado, Vini guiando, o celular como lanterna em sua mão.

O coração de João estava acelerado. Eles estavam pertos de conseguir os tais papéis. Poderia ser que ali estivesse pelo menos uma das respostas que precisavam. Merda, qualquer coisa seria suficiente.

Vini finalmente alcançou a porta do barracão, João o seguindo cautelosamente.

– Tá trancada – Vini concluiu. – Pera.

João não acreditou quando viu Vini erguendo uma barra de ferro que estava largada inutilmente ali no chão. Vini iria arrebentar o cadeado.

Foi aí que João percebeu uma luz anormal atrás de si, foi aí que sentiu uma mão muito quente e forte grudando na parte de trás de sua nuca e enrolando em seus cabelos.

Foi aí que sentiu o cano de um revólver beijando a lateral de seu próprio crânio.

É o fim, ele pensou. Fomos pegos por um psicótico. Vinicius filho da--

E aí ele ouviu uma voz muito feminina dizer no tom mais calmo possível:

– Quebra esse cadeado que eu arrebento os miolos do cabeludo.

XXXXXX

Vini suspirou e fechou os olhos enquanto virava para descobrir o que teria acontecido. No fundo ele sabia que ia dar merda. O que ele estava pensando afinal? Agora ele também estava arriscando a vida do João, que não tinha absolutamente nada a ver com as ideias dele. Mas que merda hein. Que merda. Vini estaria disposto a se arriscar muito por João. Seria culpa totalmente dele se acontecesse algo com o garoto. Merda, merda, merda o que afinal ele estava pensando?

Ouviu a barra de ferro escapando de suas próprias mãos e atingindo o chão.

Vini rezou para que a pessoa em questão não fosse psicopata, ou que pelo menos não seja adepta da cultura underground de matar ladrões. Ele realmente rezou para que fosse pelo menos um policial, mas enquanto virava para João, o oponente falou e ele sentiu como se conhecesse aquela voz.

Ele lutou para enxergar contra a luz da lanterna do oponente que agora estava em sua cara. E enquanto sua visão voltava, pode observar quem tinha os pego.

A imagem se formou imediatamente. Uma mulher alta, pelo menos da altura dele, a pele clara, óculos retangulares no rosto anguloso, olhos apertados, cabelos compridos, liso e escuro. Lápis preto nos olhos. O corpo curvilíneo. Quase igual ao de Keth.

E aquela boca.

Alisson?

– Oi? – A moça oponente engoliu em seco.

– Alisson? Eu sou o Vini. Você simplesmente não pode ter se esquecido de mim.

Alisson forçou a lanterna na cara de Vini mais uma vez. Ele viu a expressão confusa dela ao reconhecê-lo.

– Vinicius do céu. Depois de todos esses anos, — ela disse, o humor cínico característico na voz — juro que não esperava te encontrar arrombando minha garagem.

– Eu posso explicar. Então, você lembra que essa garagem também era minha, certo?

– Disso eu sei. É claro que eu me lembro de quando você morava aqui. Eu só comprei essa casa dos donos anteriores pois a minha casa de infância, a que ficava na frente da tua, foi demolida. Ah, eu tenho boas lembranças desse local. – Ela virou os olhos pra cima. Ah que lembranças.

– Ah eu sei como é.

– Mas ainda não explica o que você tá fazendo no meu quintal.

– Ô moça, será que você pode tirar a arma da minha cabeça?

XXX

Alisson, João e Vini estavam sentados no pé da escada da casa.

A luz da lua filtrava através da árvore seca, criando sombras grotescas na calçada e no teto do carro de Vini. O poste casualmente emitia uma saraivada esquisita de faíscas no gramado da casa. Vini sentiu um calafrio.

– Então a morte está atrás de vocês?

– Sim.

– A mesma do filme que você amou?

– Isso.

– Cara, — ela sorriu. — Isso sim eu chamo de karma.

Vini ainda se lembrava de todos os momentos e experiências que compartilhara com Alisson. E ali, observando todas as expressões no rosto da ex-namorada, ele tinha flashbacks de épocas em que vira as mesmas expressões de espanto, susto, humor e risada, só que em outras situações e contextos.

Alisson se mudou para a casa da frente quando Vini tinha 9 anos e ela 8. Ela era um patinho feio em ascensão, parecia odiar o que estava se tornando, e ele era o vizinho adolescente sem amigos.

Aos 15, Alisson era um mulherão, sem resquícios do patinho feio que costumava ser. Uma modelo alternativa, saída direto de um catálogo de pinups. E naquela época, ela estava ao lado dele.

No primeiro colegial, Alisson ganhou um intercâmbio para o Estados Unidos.

Vini nunca mais havia ouvido falar dela.

E ele a esqueceu, não do jeito que se esquece a roupa que você usou duas noites atrás, e sim a esqueceu como uma namoradinha, uma memória boa perdida num passado em que você não tem preocupações. Doeu? Doeu. Mas ele sobreviveu.

– Eu acredito em você – ela finalmente disse.

– O quê?

– Eu acredito em você. – Ela repetiu. Tirou os óculos e limpou as lentes nas mangas da camiseta branca rasgada. Ah, ele conhecia aquele gesto.

– Você não iria simplesmente inventar uma história dessas sobre o que aconteceu com a sua namorada. Isso não é do seu feitio.

– Exato.

– E eu ouvi as notícias. Ouvi falar sobre as mortes estranhas no jornal.

– Exatamente. – Vini completou.

– Mas por que essa droga iria acontecer justamente com vocês?

– É aí que não sabemos. – João interveio. – Ainda queremos saber.

– Você também é fã? – ela apontou para João.

– Sim. – Ele gaguejou. — Era, eu acho.

– Entendo. E por isso, vocês precisam encontrar alguns arquivos na minha garagem.

– É, no meu antigo barracão.

– E porque é que você não bateu na porta e pediu como uma pessoa educada poderia fazer?

– Ele é retardado. – João respondeu.

– Disso eu sei.

– O que te faz pensar que eu não meti fogo na tua papelada? – ela perguntou.

João cutucou Vini e riu.

– Alisson, você não erguia uma palha do lugar na tua casa. Não posso afirmar, mas suponho que isso não tenha mudado.

– Ok, vamos ver se achamos os teus papéis.

XXXX

Metade da garagem estava do jeito que Vini tinha deixado alguns anos mais cedo.

Ele se lembrava do espaço para o carro, que agora guardava um Ônix prateado 2015. A outra metade era ocupada por fileiras de estantes com centenas de caixas pequenas de papelão e plástico,ferramentas, litros vazios, galões e peças sem vida de carros antigos e computadores. Ele se lembrava.

Alisson estava com a maior lanterna e iluminava a maior parte da garagem.

– Eu não vou mexer nessas caixas. Bom trabalho meninos.

Alisson sentou-se num banquinho feito de tronco de madeira. E encarou os meninos trabalhando.

– Você poderia dar uma geral nesse lugar um dia. – João falou. – É perigoso.

– Na minha terra, — Vini comentou enquanto devolvia uma caixa e jogava outra, — isso se chama desleixo. Também tem outro nome, é... pera... ah, ninho de rato. Os ratos vão pra tua casa, sabia? Tá ouvindo esse SHHH? São ratos.

– Adoro ratos. Acostumei com eles. – Ela comentou casualmente, arrumando o óculos no rosto. – Ah, na minha terra você cuida da sua vida.

– Cuida da sua vida e segue sem se preocupar com quem você vai deixar para trás? Mais ou menos isso?

Alisson ficou seca. Ela enrijeceu e assentiu.

– Eu sinto muito.

– Seus pais desapareceram da cidade. Você deveria voltar em dois meses e nunca mais voltou. O que aconteceu, Alisson?

– Algumas coisas são melhores se ficarem em--

– Ok. Se ficarem em segredo. Mimimi– Ele concordou. – Ok então.

Ela cruzou as pernas. Não disse nada por um tempo e só ouviram o som constrangedor dos papéis sendo revirados por algum tempo.

– Você é quem deveria superar isso – ela disse.

– Eu já superei há muito tempo.

– Eu não quero ficar de vela aqui, — João começou — mas também não quero diminuir o fluxo de procura nessas malditas caixas. Vini, por acaso você era aquelas pessoas que não jogavam nada fora e inclusive saía catando papel no lixo das outras pessoas?

– Você não superou e está jogando na minha cara.

João suspirou e saiu da garagem. Vini o observou.

– Não se afaste, João!

Alisson estava em silêncio novamente.

Vini abriu uma caixa e visualizou de imediato o logotipo que reconheceu pertencer ao site que havia retirado tais artigos, quase uma eternidade de anos atrás.

– Achei essa caralha, Alisson.

– Que cheiro é esse?

– Deu trabalho, mas –

Vini levantou-se e observou Alisson cheirando o ar. Sentindo alguma coisa. Por instinto ele repetiu o gesto.

– Cheiro de...

– Vazamento de gás, — ela balançou a cabeça e virou os olhos. – De novo.

Levou um tempo para Vini relacionar aquela frase com o perigo potencial que apresentava.

– Vazamento de gás?

– Isso.

Vini andou em direção a saída com a caixa nos braços, sentindo o perigo prestes a transbordar. Alisson o seguiu.

– Tem um buraco no encanamento do gramado. – Ela comentou. –E o registro da garagem não fecha direito. Porcaria.

Vini observou João a alguns metros de distância, que por sua vez, o viu trazendo a caixa. João sorriu.

E foi Alisson quem viu primeiro as faíscas caindo do poste de luz. O vento soprou e as faíscas caíram diretamente no buraco do encanamento.

Veio o som similar ao de uma rolha explodindo no interior do encanamento, o SHHHHH e uma explosão pequena no registro no interior da garagem.

Explosão pequena que atingiu os papéis revirados de uma das caixas.

O fogo rapidamente se alastrou por uma das estantes. Muito material inflamável naquela merda de lugar. Vini e Alisson ainda estavam praticamente na entrada da garagem, encarando, realmente impressionados com aquela sincronia esquisita e ultra arquitetada.

Ultra arquitetada pela morte.

Ele se distanciou do barracão, puxando Alisson consigo, a caixa de artigos na outra mão. Ambos se afastaram, um pouco atordoados pela cartada da morte.

– Meu carro, Vinicius –

O vento entrou pela frente da garagem e soprou um monte de folhas já queimando para baixo do motor do carro...

... Embaixo do tanque.

– Não dá mais tempo, Alisson --

E naquele mesmo instante, Vini viu João, perplexo e confuso, ainda incerto do que estava acontecendo, se aproximando da entrada da garagem.

Ele não tinha visto o que estava acontecendo.

A explosão do carro seria inevitável. O arremesso livre de destroços que viria em seguida, também.

Vini largou a caixa com Alisson e saiu correndo. Ele se arremessou na direção de João, que ainda confuso encarava a cena.

Antes mesmo de atingir o chão, Vini ouviu a explosão e sentiu o calor em suas costas. Ele gritou. Ouviu Alisson e João gritando, viu uma motosserra em chamas passar voando em alta velocidade logo onde, segundos antes, João estava de pé encarando. A motosserra iria matar João.

A explosão abaixou. Vini voltou a ouvir o som do interior da garagem sendo devorado pelo incêndio. Crack crack crack.

– Vamos sair daqui – ele ouviu João dizendo e o levantando. – Essa porra vai cair.

Vini se viu sendo arrastado para longe por João. Ele viu diversos destroços em chamas no gramado de Alisson. Ele viu Alisson dizendo alguma coisa para ele. Ele finalmente sentiu o ar gelado da noite em suas costas, agora expostas pelo fogo, e viu que João também estava ferido.

Ele desmaiou.

XXX

João não soube ao certo quanto tempo levou para arrastar Vini para longe dos destroços do barracão. O Vini pesava pra cacete.

Após deixar Vini com Alisson, ele se afastou um pouco, observando descrente seus próprios ferimentos. Braços. Mãos. Pernas. Queimaduras. Ele também estava marcado agora.

Ele encarou a motosserra, alguns metros de distância, ainda em chamas, o plástico alaranjado derretendo e pingando no gramado, revelando o metal brilhante do interior do motor da ferramenta,

João caminhou de volta para Alisson, observando a garagem de madeira se engolindo, desaparecendo em seu próprio núcleo, sendo devorados pelas cinzas e chamas, a carcaça do carro ainda reluzindo no meio das paredes já destruídas.

Aí a chuva começou a cair.

XXX

Vini acordou algumas horas depois, na cama e no quarto de Alisson. Ainda estava escuro lá fora.

A princípio, ele não tinha ideia de onde estava, deitado de lado, as costas em dor.

– Calma, — ele a ouviu dizendo. – Tá tudo bem.

De imediato ele se lembrou de tudo.

– E o João?

– Ele tá bem. – Ela respondeu. – Tá no outro quarto, tirando um cochilo. – Ela sorri, tímida. — Ele avisou pros pais que iria dormir na casa um amigo.

Vini suspirou. Encarou-a. Ela ainda tinha cinzas no rosto. Um pedaço de pelos da sobrancelha havia desaparecido.

– Você tá bem? – ele perguntou.

– Eu tô sim – ela pareceu desconsertada. – Mas meu carro não tá, nem minha garagem. Nem meu gramado.

Ele sentiu a culpa passando em ondas em seu interior. Quis vomitar.

– Me desculpa por trazer isso pra tua casa. Eu não sei onde estava com a cabeça.

– Ah, fazer o quê. Agora já aconteceu. Você tem que lutar com essa força maligna agora. Acho que é isso. E tem que me pagar também.

Ele quis afundar e desaparecer nos travesseiros. Em poucas horas havia destruído um pedaço da casa dela. Poderia ter matado ela também. A presença dele e João ali, eram riscos constante pra ela.

Ele se tocou de o quanto já haviam alterado a lista da morte.

Tentou se levantar, só agora notou que estava sem a camiseta. Sentiu inúmeras gazes em suas costas.

– É, sua camiseta pegou fogo. Um pedaço da sua costa também. Algumas queimaduras no teu braço. Nada grave, mas vão deixar uma cicatriz esquisita.

Ele sentiu o local das queimaduras adormecido. Soube que aquilo incomodaria logo.

– Eu fiz uns curativos. Não tá 100%, mas tá bom.

– Está perfeito, — ele disse, sentindo as gazes presas em suas costas e no braço. E estava.

Ele suspirou e decidiu voltar a deitar mais um pouco.Só mais um pouco.

– Você salvou o João, — ela disse.

– Acho que pulou ele.

– Sabe quem é o próximo?

– Não sei. Pode até ter sido eu, e pulado. O cara que teve a premonição não lembra de muita coisa.

– Ah sim. — Aquela resposta esquisita dele pareceu ter sido o suficiente para ela.

Um silêncio esquisito.

– Onde você aprendeu a fazer curativos? – ele perguntou, tentando trazer algum assunto.

– Na enfermaria. – ela respondeu.

– Enfermaria?

– Da prisão. – ela disse.

– Prisão?

Ela deu de ombros.

– Na primeira semana do intercâmbio, uma garota local começou a arrumar briga comigo. – Alisson parecia quebrada ao relembrar a história. — Eu empurrei a guria, ela bateu a cabeça numa pedra e morreu de traumatismo na mesma noite.

Vinicius ficou horrorizado imaginando o pedaço grande e tumultuoso da vida de Alisson que ele nunca participou.

– Meu mundo acabou né, — ela continuou. – Meus pais foram para a Califórnia, a família da garota me processando, impossível de voltar. Quando finalmente iriam me julgar, eu já tinha 18 anos. Por ser de menor na época do crime, recebi redução de pena. Peguei dois anos. Minha pena acabou e voltei pro Brasil. Meus pais ficaram lá.

Vini encarava com os olhos arregalados.

– Eu não sei o que dizer. – E ele realmente não sabia. Não tinha ideia de como fazê-la sentir-se melhor, ali, na luz das revelações.

– Não precisa. – Ela continuou. – Ninguém nunca sabe.

Vinícius ficou a encarando por um longo tempo. Ainda deitado de lado. Então ele gesticulou para que ela deitasse no lado vazio da cama.

Ela o fez.

Ela deitou do lado dele. Tirou os óculos e ficou o encarando. Olho no olho. Não houve emoção nem nada do tipo naquele momento. Apenas compreensão.

Ela esticou o braço ao lado do dele e ergueu a própria manga.

– Olha, — ela disse. – Nossas tatuagens se casam.

Ele observou os dois braços lado a lado, em ambos um emaranhado de desenhos.

As notas musicais. Um cravo e uma rosa. Um violão e uma guitarra. Palavras em japonês que ambos não tinham ideia do significado (e tinham medo de descobrir). O sol e a chuva. Tribais. Fragmentos da letra de Daughter, do Pearl Jam.

Uma flecha e um coração.

– Sinto muito por sua namorada. – Ela disse e colocou os óculos de volta.

– Sinto muito por você ter sido presa.

Ela riu.

Lá fora, a chuva voltou a cair.

XXX

Era cinco da manhã. Vini e João estavam posicionados no gramado da casa de Alisson. Vini vestia uma camiseta que estava muito grudada no tronco dele – uma camiseta de Alisson – e João timidamente tentava esconder alguns dos furos que o fogo havia feito em suas roupas.

– Vai dar trabalho pra explicar pros meus pais. – João comentou. — Eu tô falando.

E daria. João teria um dia longo. Ele não era de “dormir fora de casa”. Ele não teria ideia por onde começar.

Alisson sorriu.

– Diz que você estava comigo.

João sorriu cinicamente, o tipo de sorriso que quer dizer que você não está realmente sorrindo. Se ele dissesse que estava com uma garota como Alisson, ele estaria com certeza mais do que ferrado.

Vini sorriu. João encarou ambos trocando o mesmo sorriso.

João ficou desconfiado.

– Desculpa por destruir teu carro – Vini comentou, dando uma olhada no estrago. – E sua garagem e teu gramado. Eu vou pagar tudo.

– Seus pais vão pagar tudo. – Ela comentou, olhando a destruição. — Com certeza.

Vini deu de ombros. Ele a abraçou e pegou a caixa de arquivos no chão. João a abraçou também.

O pouco que João havia conhecido de Alisson, era o suficiente para deixarnele uma boa impressão. Tirando a parte da arma na cabeça dele.

XXX

Vini estava de volta na autoestrada, dessa vez visivelmente incomodado com a camiseta curta e as gazes nas costas.

João também estava incomodado com seus próprios ferimentos. Também não tinha falado nada desde que tinham entrado no carro.

– Cara, você dormiu com ela? Puta que pariu, a Keth nem esfriou.

Vini o encarou surpreso, talvez um pouco chocado com a frase.

– Claro que não. Porque eu dormiria com ela?

João engoliu em seco.

– Pois vocês estavam no maior climão.

– Claro que não. Eu não estou preparado para coisas do tipo. Eu sequer me m –

– Não preciso saber dos detalhes – João o cortou. – Eu só, pensei que, --

– Não fizemos nada. E se você quer saber, amo a Keth. E vou continuar amando até o final dos tempos. Mesmo quando eu me envolver com outras mulheres.

João concordou, um pouco envergonhado. Ele sabia que não era da conta dele, mas agora já estava envolvido demais na situação de ambos para voltar atrás.

– João, — Vini começou, dando uma olhada no retrovisor e virando em direção a cidade. Ele apagou os faróis; no horizonte os primeiros raios de sol estavam surgindo. – Lembra que uma vez você nos disse que não pegava ninguém do grupo pois era um bobo apaixonado?

João engoliu em seco. Ele não se lembrava, mas sentia que era um bobo apaixonado e se Vini sabia daquilo, provavelmente tinha dito.

– Claro que lembro.

– Você está mais do que certo. É bom estar apaixonado. É bom respeitar o próximo e coisas do tipo.

João não sabia o que dizer. Decidiu mudar de assunto.

– Cara, porque você não vai embora? Você é independente, tem seu dinheiro, tem seu carro, tem suas coisas. Ficar nessa cidade vai te fazer mal. Vai seguir seus sonhos.

João gostaria de dar o fora daquela cidade. Estava em seus planos. E as vezes, sabendo que uma pessoa tem a chance de fazer algo grande em outro lugar, ter a chance de começar do zero a partir de um acontecimento ruim, o fato da pessoa não agarrar a tal chance o horrorizava.

– Muita coisa pra eu deixar para trás.

João deu de ombros.

– E porque você me trouxe contigo?

Vini fez um gesto de que a resposta estava na cara.

– Porque eu estava com medo de perder o foco. Precisava da sua ajuda. Sem contar que o Pedro tá aleijado, amigo.

João riu.

– É sério, — Vini continuou. – Obrigado por vir a força comigo.

– E você, obrigado por me salvar.

XXX

Vini estava na sala de seu apartamento. Ele estava com a caixa de arquivos na mão, não obtendo muito sucesso com aquilo tudo. Pensava em Keth distante, pensava em como não conseguia sentir que Keth estava bem, fosse onde estivesse. Também pensava em como Alisson tinha apanhado da vida.

Na televisão, a primeira cena alternativa de Premonição 3 se encerrava. Vini encarou a TV por um instante – uma torneira de sensações desencadeando em seu interior.

No começo alternativo, os personagens sobrevivem e tomam rumos diferentes na vida. Wendy se torna uma vidente. Kevin vai para a guerra. Carrie vira uma enfermeira voluntária. Jason cria uma religião nova.

– CARALHA! JOÃO VOCÊ É UM GÊNIO.

Vini levanta-se correndo em direção ao próprio quarto. O gato o encara confuso.

– CARALHA JOÃO VOCÊ É UM GÊNIO – Vini repetiu. Eufórico.

As batidas iniciais de Percussion Gun soaram pelo apartamento.

E Vini corria de um lado pro outro, organizando sua bagagem.

Well how do you do?
Put a kiss on the cheek
It's been a while
So I'll just beg, borrow

No mural de recortes, o subtítulo de uma notícia coberto por um marca-texto verde: “IRMÃOS SOBREVIVENTES DO TITANIC MORREM AO SE ENCONTRAR EM NOVA YORQUE”.

And steal all your time
We'll call it dignified
Well now it all seems to be cut and dried
So I know which way to run
You're tired, my love
I feel the same

“SOBREVIVENTE DE ACIDENTE DE AVIÃO MORRE AO ENCONTRAR O BOMBEIRO QUE O RESGATOU”.

Well take it from me

What else could you do?

Where do you get off?

And how can I get there, too?

“MULHER QUE SOBREVIVEU A ATAQUE DE SERIAL KILLER VOLTA PARA SUA CIDADE NATAL E É ENCONTRADA MORTA EM SEU APARTAMENTO.”

Vini posicionou cuidadosamente sobre a mesa o compartimento que usava para levar Bill em viagens. O gato encarou aquela cena por um segundo e desatou a correr. Vini o perseguiu.

All your time

We'll call it dignified

Well now it all seems to be cut and dried

So I know which way to run

You're tired, my love

I feel the same

Em um cartaz, escrito a mão: TEORIA DE SOBREVIVÊNCIA EM END OF THE LINE: MUDE SUA LOCALIZAÇÃO.

You'll never come back

My god, can't you see that

I know which way to run

You're tired, my love

I feel the same

The living lung won't speak my name

TEORIA DE SOBREVIVÊNCIA EM DEAD RECKONING: NÃO VOLTE A VER SEUS AMIGOS QUE SOBREVIVERAM.

Well everyone's saying rise and shine

It might not be true and that's just fine

'Cause I know which way to run

You're tired, my love

TEORIA DE SOBREVIVÊNCIA EM DEAD MAN’S HAND: DÊ O FORA DE LAS VEGAS!!!

I feel the same

The living lung won't speak my name

Now even rats will jump this ship

Just give me some piece of mind

'Cause I...

Outro cartaz dizia: KIMBERLY E BURKE SOBREVIVERAM POR CINCO ANOS. MORRERAM AO SE ENCONTRAR.

Vini já estava na terceira mala.

CARTER SÓ MORREU QUANDO ESTAVA COM CLEAR E ALEX.

ALEX SÓ MORREU QUANDO SAIU DE CASA COM CLEAR.

CLEAR SÓ MORREU QUANDO SE JUNTOU COM KIMBERLY.

Vini lembrou-se de uma frase da adaptação de Premonição 3: “a morte só ataca com espectadores.”

WENDY, KEVIN E JULIE – MORRERAM AO SE ENCONTRAR NUM METRÔ.

JANET, NICK E LORI – MORRERAM JUNTOS NO CAFÉ.

SAM E MOLLY – MORRERAM JUNTOS NO VOO 180.

No começo alternativo, os personagens sobrevivem e tomam rumos diferentes na vida. Wendy se torna uma vidente. Kevin vai para a guerra. Carrie vira uma enfermeira voluntária. Jason cria uma religião nova. Sobreviveram ao tomar rumos opostos. Longe um do outro. Longe de McKinley.

Poderia não dar certo, mas merda, Vini morreria feliz se pelo menos estivesse se arriscando.

XXX

Vini estava no carro. Duas da tarde e o sol parecia querer derreter a cidade. Ele já tinha cancelado seus cartões de crédito e sacado suas economias.

Vini arrancou o chip do celular. Partiu-o ao meio. O apartamento já estava trancado e sua faxineira tinha a cópia da chave para voltar e fazer a limpeza.

Bill miou de seu compartimento, enfiado entre uma mala e o estojo do violão.

– Já estamos indo, Bill.

Vini acompanhou na tela do notebook enquanto o Rest In Pieces Brasil, dezenas de megabytes e páginas, imagens e arquivos, desapareciam. Inúmeros códigos e textos digitados às pressas indo embora pro lixo da Internet. Aquele lixo em que você não é capaz de recuperar nada.

Durou só um breve momento. Anos deletados em segundos.

Se a teoria estivesse certa, você só morre se manter contato com os outros sobreviventes. Pois só aí você estará desequilibrando a ordem natural do sistema em grande escala. Se você se isolar e se afastar de tudo, você não será nada além de uma vida a mais na multidão.

Você é apenas um vírus na cadeia da vida e da morte. E um único vírus não causa danos. Um único vírus se adapta em novos ambientes sem fazer grandes estragos.

Nos filmes, os personagens só morrem se voltarem a se encontrar. E essa é a mesma teoria que predomina nos livros. E é a única ligação entre todas as vítimas, nas notícias reais de jornais.

Se afaste de todos. Saia da cidade.

E se aquela conexão assustadora não fizesse sentido, então nada mais faria.

Vini ligou o rádio e ouviu os primeiros acordes de Roads Untraveled, Linkin Park. Estradas não caminhadas. Exato!

Weep not for roads untraveled

Weep not for paths left alone

'cause beyond every bend is a long blinding end

It's the worst kind of pain I've known

Vini riu. Lembrou-se do que João havia lhe dito no carro. Ir embora. Gênio.

Sem Keth, Vini não tinha nada para deixar pra trás.

E então Vini já estava longe da rua de seu apartamento.

Longe do quarteirão.

Give up your heart left broken

And let that mistake pass on

'cause the love that you lost

May be worth what it cost

And in time you'll be glad it's gone

Ele observou a cidade desaparecendo no retrovisor do carro enquanto a música lavava seus sentidos. Vini não voltaria para aquela cidade tão cedo. Talvez, nunca mais voltasse. Ele só precisava tentar. Dar o primeiro passo é fácil, o difícil é ficar de pé. Mas ele aguentaria.

Ele se perguntou se Pedro, João, Sam e Felipe já teriam visto o vídeo que ele havia mandado explicando tudo. E no vídeo, ele implorava para cada um tentar fazer exatamente o mesmo. E não deveriam tentar encontrá-lo.

O sol filtrou através do pára-brisa e aqueceu o rosto dele. Vini coçou o queixo e aumentou o volume.

Ele iria desaparecer no horizonte.

Desaparecer na autoestrada. Para sempre.

Notas finais
POR 483ViniKaulitz: "É o seguinte, acho válido, agora que estamos abrindo a terceira e última parte da história, se os escritores sentirem que precisam dizer alguma coisa, que usem as notas finais. E aqui eu estou. Sim, eu desapareci na história. E se eu vou voltar ou não nos próximos capítulos, irá depender de vocês. E pessoalmente, só quero voltar pra ser fodão, não quero morrer à toa. Sim, eu sei de algumas coisas que irão acontecer na fic. Mas se a história acabar com o meu status de vida ou morte como “unknown”, eu estarei feliz. Mas se quiserem me matar também, fazer o quê, ninguém é de ninguém nessa porra. Sinto muito por demorar para postar, tive uns problemas sérios essa semana. Peço ao Pedro para que estenda o prazo para os próximos escritores. E não precisa fazer banner não, só escreve lá e fixa o negócio mesmo, tá mil de bom. Obrigado por comentarem, por elogiarem, por criticarem. Obrigado por lerem. Obrigado por estar participando do projeto com vocês. Adiós, mis amigos Reapers." Não esqueçam de comentar, é importantíssima sua colaboração como leitor para a continuidade do projeto. Encontro vocês nas reviews!