Notas iniciais
Escrito por PW. Link para as músicas apresentadas neste capítulo: Love Is Dead - Kerli https://www.youtube.com/watch?v=XdXvqMF-6vI Demons - Imagine Dragons https://www.youtube.com/watch?v=mWRsgZuwf_8

O clima anunciava um temporal, enquanto Pedro estava sentado à mesa com seu notebook. O relógio tiquetaqueava na parede sem parar, irrompendo pensamentos diversos em sua cabeça, ao mesmo tempo em que o jovem estudante de Design Gráfico resistia para continuar o trabalho semestral que tanto lhe dava dor de cabeça. Dor essa, agora auxiliada pela catástrofe no Blue River Adventure Park que arrancara de várias famílias, entes queridos e pessoas próximas. Pedro sentia muito por não ter conseguido retirar mais pessoas de lá antes do perigo iminente, muito menos fazer algo para alertar a todas simultaneamente. Foi impotente, mas sensato. Ele retirou o número máximo que conseguiu sob a pressão de ser morto na futura tragédia. Ele tirou seus amigos e pessoas conhecidas; pessoas que ele não queria ver mortas. Pessoas que eram Reapers como ele, fãs de um filme que trazia aquela temática, agora real. Coincidência ou não, aquilo já não importava.

E foi pensando no real que ele lembrou-se de Kethellen, ou Keth como chamava. A garota do sorriso bonito ele já conhecia, mas não a reconheceu no momento do rebuliço, muito menos manteve contato com ela depois. Agora ela estava morta e ele não pode nem sequer ajudá-la novamente. Vini contara tudo o que acontecera numa pequena reunião feita ali mesmo, em sua casa, enquanto seus pais estavam trabalhando e seus irmãos estudando. Márcio (MV), João Melo (Jo) e Samuel (Sam) também haviam participado e contribuindo com a conversa da maneira que conseguiram. Mas antes disso, tivera um papo com MV e Jo no shopping e eles tentaram puxar informações importantes da visão do garoto, sem muito êxito, já que haviam descoberto apenas as maneiras como morreram. A ordem ainda era um tremendo mistério, até para o próprio clarividente.

Vini permaneceu forte, e mesmo que ele quisesse passar aquele semblante de conformação e proteção, Pedro sabia que ele estava despedaçado. Afinal, Vinicius perdera sua outra parte, seu amor, sua namorada, Keth era tudo que ele tinha. Ela não voltaria para seus braços, havia ido para nunca mais. Mesmo que ele quisesse acreditar que Vini era durão, lá no fundo seu coração dizia “sim, eu me rendo”. Era a última coisa que queria pensar do amigo Reaper. MV e Jo eram dois adolescentes confusos no meio de todo aquele problema, e Jo era o que mais tentava transpassar confiança, enquanto MV não escondia seu inteiro desconforto diante das circunstâncias. Sam foi o que mais chamou atenção de Pedro. O visionário descobrira depois de reconhecê-lo, que Sam era o garoto do tobogã atingido pela árvore em sua premonição. O Green Hype.

Samuel despertava a indagação do jovem estudante justamente pela sua placidez de frente à situação. Poderia querer fazer o estrago que fosse, mas era clara a sua paciência e concentração. Talvez fosse o mais cético de todos, talvez o mais paranóico. Pedro não fez questão de desvendar suas expressões apáticas durante a conversa que se desenrolou na tarde anterior, porém, o mistério da face complacente de Sam ficaria no ar, até Pedro obter êxito em classificar suas reações. Como costumava fazer com qualquer um.

A cada vez que o jovem visionário pensava nas desgraças já ocorridas, sentia-se ainda mais impotente. Esse sentimento arrancava cruelmente de si pequenos pedaços de confiança de que tudo aquilo acabasse logo. Ele não poderia acabar como Keth ou... Como Guiby.

A tarde anterior também havia sido marcada pela trágica morte de Guibson, outro Reaper e outra vítima da lista. Pedro não fazia a menor ideia de que ele também saíra do parque, justamente por não tê-lo visto sair (como muitos outros, supôs), mas soube por terceiros que ele tinha sobrevivido e assim como ele e seus amigos, era mais uma alma amaldiçoada na lista da morte. Pra ser sincero, Pedro desconhecia até então o número de pessoas que retirara do parque aquático antes do incidente e isso era preocupante.

No momento, lembrava da pequena visão de tivera sobre a morte do colega de fandom. Assim como Nick, em Premonição 4, Pedro recebera pequenos trechos de como se daria a morte do outro garoto. Primeiro o ralo sendo entupido por toda aquela água se transformando em sangue, antes de ver uma imensa rachadura serpentear por uma parede, e em seguida um cordão tilintando no chão, portando um pingente banhado em prata com um nome: Danielle.

Mesmo com os esforços de seus amigos, Pedro não tivera tempo suficiente e não pudera ajudar Guiby. Assim como não ajudara as outras pessoas no Blue River Adventure. Assim como não ajudou Keth, mas o intrigante é que ele não teve nenhuma visão de como ela morreria, ou qualquer sinal de que a morte estava chegando para a mesma. Será que aquela falta de sinais voltaria a acontecer e afetaria as chances dele de poder avisar alguém a tempo? Porém, ver o último momento de dor do garoto, ali esmagado quase que por completo pela caixa d’água da sua residência e rodeado pela poça espessa e densa de sangue, só reforçou a ideia de que ele poderia ter força de vontade para deter a lista, mas no final ele seria o mesmo que os outros. O mesmo que Alex, Clear, Kim, Wendy ou Nick... Ou as outras vítimas da morte. Um corpo vulnerável, pronto para ser abatido.

O jovem socou a mesa com força, sem nem ligar para o tamanho barulho que fizera. As duas canetas sobre a mesa pularam, tremeram junto com o notebook ao voltarem para a base de mármore e rolaram até a beirada, pendendo até caírem. O universitário apenas suspirou e apoiou o cotovelo na mesa, encarando a vidraça da janela de maneira estática e sombria. Um sentimento de perda e vazio tomou conta do seu peito e o fez desejar mais do que nunca sair daquela negatividade, daquele aroma de morte.

Estava decidido. Iria sair para espairecer, mas aonde iria? Pensou por breves segundos, guardou seu material, pegou as chaves do carro e seguiu para a porta. Não havia ninguém em casa, e permaneceria assim até que ele voltasse. Se voltasse. Lá fora, indícios do temporal faziam de tudo para evitar a saída do adolescente, mas ele não fez questão de dar atenção. Até a chuva lhe faria bem naquele momento. O cheiro de terra molhada com certeza funcionava mais como um calmante, do que o aroma de tensão.

XXX

Breno despiu-se e colocou a toalha num suporte próximo do box do banheiro. O clima estava frio, lá fora chovia muito, por isso ele ligara o aquecedor do chuveiro. A ducha ficaria quentinha o bastante para ele não reclamar com seu pai, para que o mesmo viesse ajustar aquele tipo de dispositivo elétrico, que ele não sabia como consertar ou sequer nomear. Para ela, tudo o que não fosse interessante, não merecia ser explorado.

Quando ligou o chuveiro, esperou que todos os problemas, preocupações e estresses fossem embora, enquanto a água varria as impurezas do seu corpo. Deixou que o líquido quente escorregasse, respirando fundo e imaginando como seria o recomeço. A chance de viver mais um pouco fora concedida há uma semana, logo após o fatídico evento ocorrido no parque aquático no qual tivera o prazer e desprazer – diga-se de passagem – de ir.

Desde então ele vem virando copos e mais copos de vinho, cerveja e outras bebidas extremamente alcoólicas, porque o importante era afastar o sentimento ruim que permanecia com ele desde o dia do acidente. Não estava nem aí para o que diziam do seu vício no álcool. Principalmente seu pai, que era o que mais o criticava por passar as noites em claro, esperando que o festeiro chegasse da farra, completamente bêbado. Houve noite em que ele precisou ser carregado até o quarto. Tamanha era sua debilitação. Dos sete dias da semana, Breno enchia a cara em seis deles, restando da segunda-feira, apenas os cacos que ele juntava dos demais dias. Era assim que ele se sentia, aos cacos.

Desligou o chuveiro e abriu a porta do box lentamente, esticando o braço na tentativa de alcança a toalha no suporte. Escorregou. No último segundo, se equilibrou, segurando na barra do suporte e quase não foi de cara no chão.

– Que perigo! – Arfou, aliviado.

Enrolou a toalha no quadril e calçou os chinelos deixados na soleira da porta. Seguiu calmamente em direção ao quarto, mas apressou os passos assim que ouviu o toque de seu celular.

RollerCoaster of Love

"Say What"

RollerCoaster

"Hah huh"

Ooh ooh ooh

Breno cantou o refrão nos poucos segundos que seguiram o toque, até atendê-lo. Já esperava aquela voz suave do outro lado da linha:

– Alô? – Ele sabia quem era. Esperava para ouvir aquela voz o dia todo. – Brê?

– Ems, que bom que você ligou. Achei que você tinha desistido de mim... – Breno fez muxoxo, simulando uma pequena cena dramática. Era péssimo em atuar, mas era o máximo dele.

– Era sobre isso mesmo que eu queria falar.

– Não vem dizer que...

– Calma Brê, me deixa falar! – A pessoa do outro lado da linha ficava mais impaciente com a impaciência de Breno. – Eu iria mesmo perguntar se aquilo ainda estava de pé.

– Como não? Acabei de sair do banho, eu não esqueceria nunca. – Breno estava ciente de que a pessoa do outro lado da linha não iria ver, mas ele sorriu mesmo assim. Um sorriso de ponta à ponta. – Sabe que estou esperando por isso faz uma semana, né?

– Claro que sei, seu bobão. Também estou com a ansiedade fervilhando por esse encontro. – Ems também sorriu, desta vez dando um riso, para que Breno soubesse que, da mesma forma que ele, estava bastante feliz. – No lugar e horário marcado, então?

– Isso! – O rapaz da toalha assentiu. – Beijão.

– Beijo.

E desligaram simultaneamente.

Breno se jogou na cama, com os lençóis e roupas bagunçadas sobre ela e abriu os braços, sentindo a taça vazia e fria na cômoda. Fechou os olhos e resolveu que viver aquela nova vida dada em dobro era a melhor saída para a expulsão, de vez, de seus conflitos internos. Os que mais lhe afetavam.

Moveu o braço de novo e sua mão bateu contra a taça na cômoda. O objeto balançou e virou. Breno abriu os olhos com o barulho ensurdecedor dos estilhaços de vidro.

Cacos e mais cacos de vidro se espalharam pelo chão.

Um fato, cacos realmente seguiam-no onde quer que ele fosse.

XXX

Os passos de Pedro eram robóticos, calmos e precisos. Ele caminhava de frente para um playground, no meio de uma praça. Deixara o carro ali mesmo e decidira fazer um percurso a pé. O céu acima da sua cabeça permanecia escuro e ameaçador. Chovia bastante. O jovem pôs apenas o capuz do moletom vermelho e passou a diminuir as passadas, enquanto sentia o vento forte passar por ele. Pensava no acidente, em Keth, em Guiby, e no perigo que ele e os demais corriam. Ai Deus, me ajuda. Pensou por um breve segundo. Por enquanto, ninguém além de Pedro poderia amenizar aquela agonia profunda que a visão deixara, porque ele não parava de relembrar.

Tanto o olhar vazio de Vini encarando o chão, como o choro desesperado da mãe de Guibson ao ver o filho embaixo da caixa d’água, com o corpo esmagado e retorcido.

O jovem de moletom vermelho sentou em um banco e tombou a cabeça para trás. Agora as gotículas de chuva bombardeavam cada centímetro de seu rosto. Muita coisa acontecia ao mesmo tempo, e ainda por cima a inconsistência da ordem da visão dificultava para ele descobrir quem seria o próximo alvo, ou os próximos alvos.

Fechou os olhos e deixou que a chuva encharcasse-o. Seria um momento relaxante e poderia decidir o futuro dos outros presentes na lista. Se aquele não fosse o momento ideal para descobrir a ordem exata das vítimas, sentindo o aroma da chuva, provavelmente seria difícil dali em diante arrancarem alguma informação sobre a ordem, dele.

De repente, sem mesmo olhar para frente, sentiu que alguém estava posicionado próximo a ele. Podia-se ver uma mínima sombra ali. Lentamente Pedro foi movimentando a cabeça de volta e avistou a figura feminina parada à sua frente, segurando um guarda-chuva roxo. Ela vestia uma blusa da banda “Ramones” customizada, um short jeans e um all star cano alto. Era baixa e tinha uma pele alva. Tão clara, que em contraste com a escuridão do dia naquele temporal, tornava-se brilhante. Os cabelos ruivos cascateavam sobre seus ombros.

Não demorou muito para que ela dissesse seu nome e Pedro a reconhecesse. Victorya, a garota que morrera empalada na sua visão. Outra pessoa que, infelizmente, estava na lista.

– Eu não tive tempo de agradecer. – Antes mesmo de o rapaz falar algo, ela começou.

– Eu só fiz o que tinha que ser feito. – Depois de responder, Pedro pensou “será mesmo que era o melhor a se fazer?” – Vou acreditar que é por acaso que me encontrou.

– Logo depois que começou aquela confusão e chegaram todas aquelas viaturas e sirenes... Minha vida virou de cabeça pra baixo e fiquei muito confusa pra procurar você e, pelo menos, agradecer por ter dado o alerta da sua premonição.

– Então você sabe o que vem a seguir, não é?

Victorya suspirou, deu alguns passos e sentou-se ao lado do visionário. Agora o guarda-chuva impedia-o de ficar mais molhado do que já estava.

– Fala da lista? Da lista da morte? – Os olhos dela passavam insegurança. Seus lábios tremiam.

Pedro assentiu.

– Foi a possibilidade que mais me poupei de pensar. – Retrucou. – Na verdade, quero esquecer isso, sabe? Provavelmente tu pode me chamar de louca, mas quero acreditar que esse aviso foi só uma coincidência. – Mesmo com o semblante incrédulo se formando no rosto de Pedro, a ruiva continuou: – Qualquer um naquele parque poderia ter tido uma premonição do desastre, até aquela cigana fajuta que ergueu acampamento na frente dele.

– Uma Reaper...

– O quê?

– Você é uma Reaper, você não pode ser cética quanto a isso. Não tanto quanto pensei. – O rapaz recuou um pouco, ficando de pé. – Está parecendo até o MV.

– Sabe por que quero acreditar que foi obra do acaso? A última coisa que eu desejo pra mim, é ficar paranóica como Alex ou Clear ficaram. Não quero ver minha morte por onde quer que eu ande. – Os olhos da garota já estavam marejados.

Pedro baixou a cabeça.

– Além disso, pra quê acreditar que vamos enfrentar a lista, se ninguém morreu ainda? A morte sempre ataca pouco tempo depois das vítimas saírem no acidente e conosco isso não aconteceu.

– No primeiro filme ela só veio agir um mês após a explosão do vôo 180. – Pedro interveio. – Mas isso está totalmente fora de cogitação. Você está errada, ela já começou a atacar.

A expressão da ruiva mudou no mesmo segundo, dessa vez seus olhos pararam de produzir as lágrimas e estavam passando algum tipo de pavor.

– Isso é sério?

– Desta vez ela não quer brincar, ela quer chegar e acabar o serviço logo. – Pedro disse com um nó em sua garganta. – Ao contrário do clássico, desta vez ela está com muita pressa.

– Isso quer dizer que não foi apenas um?

– Dois.

XXX

Um casal caminhava em um dos vários corredores do grande Motel California. Mas não poderiam se deixar enganar pelo tamanho do lugar, já que era uma construção velha e já desgastada com o tempo. A chuva não impediu a diversão que Lucas havia preparado naquele fim de tarde para ele e Mylla, sua namorada. Apesar dos dois terem ficado bastante assustados com tudo o que se sucedeu depois do acidente, como Mylla não ter se sentido bem e ter ido parar no hospital, sem um motivo aparentemente grave.

Ela alegou que não estava sentindo nada além de dificuldades para ler. Lucas aconselhou que ela procurasse um oftalmologista, depois de duas quedas e uma enxaqueca absurda causada por uma tentativa frustrante de leitura. A garota assim o fez, e depois do resultado dos exames terem sido anunciados que seriam entregues dois dias depois, eles resolveram adiantar o momento que ele prometera para ela uma semana antes, no dia do incidente com o parque aquático.

Eles já tinham feito aquilo antes, mas experimentaram um local novo. Aquele ar sombrio do Motel California, ao mesmo tempo em que os arrepiava, os excitava. Ainda por cima, quando o lugar possuía um passado obscuro escondido atrás de uma tradição hereditária dos proprietários. Ao passar pela recepção, Lucas arriscou perguntar sobre os fatos, mas recebeu resignação da mulher gorda que tomava conta daquele espaço.

Ambos os adolescentes conseguiram passar despercebidos pela administração justamente por eles aparentarem serem mais velhos, devido suas faces serem de jovens mais maduros. E Lucas portava uma identidade falsa, o que facilitava muito, acrescentando a lábia de Mylla, que conseguia bastantes coisas com sua face pseudo-angelical.

Caminhavam no corredor parcialmente escuro, procurando o quarto de número 18, indicado no início do corredor por uma plaqueta fixada na parede. Parede essa que não escondia as rachaduras e infiltrações que denunciavam a idade do motel.

A cada olhada que Lucas dava para sua namorada, ela devolvia com uma mordiscada nos lábios. E em meio àquela ansiedade hormonal, ele parou de frente à porta com um número “18” pintado de vermelho-escarlate e não resistiu. Puxou Mylla e encheu-a de beijos calorosos. Com seus corpos grudados do jeito que estavam, o tesão aumentou e ele ergueu-a no ar. Mylla cruzou as pernas ao redor do quadril do namorado e mordeu sua orelha, enquanto ele beijava seu pescoço.

Lucas encostou-a contra a parede e agarrou seus cabelos com força, incitando-a e puxando sua madeixa castanho-escura para trás. Até ela sussurrar em seu ouvido:

– Hoje eu quero me perder em você.

Enquanto continuava a beijá-la, Lucas abriu a porta e chutou-a para que ela abrisse completamente. Entrou ainda carregando Mylla nos braços. Ela gargalhou e ele jogou-a na cama. Chutou a porta de volta e tirou a camisa com uma rapidez incrível. A garota não tardou em também tirar a sua e ficar apenas de sutiã. O rapaz deitou lentamente sobre ela, deixando que seus lábios se encontrassem e que um beijo molhado surgisse no meio de tanta tentação.

XXX

Quando o táxi estacionou em frente ao Motel California, as portas traseiras abriram simultaneamente e de lá saíram dois adolescentes bem vestidos e sorrindo um para o outro. Um estava mais agitado, deveras bastante animado; o outro apenas sorria calmamente, ajustando os óculos de grau sobre o nariz. Os dois tinham tamanhos extremos, absurdamente incompatíveis. Enquanto o primeiro tinha claramente um e setenta de altura, o outro não passava de um e sessenta. Dois extremos. O forte e o franzino, o pardo e o bronzeado, o de olhos escuros e o de olhos mais claros, o mais largado e o mais comportado.

Breno e Emerson eram dois extremos. Extremos que desafiavam a lei do “par ideal”, mas que eram fortificados pela lei contrária: os opostos se atraem. E atraiu de imediato. Os dois rapazes já vinham se conhecendo a praticamente cinco meses. E era de se esperar que um deles tinha pressa, enquanto o outro não hesitou em concordar.

Ali estavam os dois, prontos para comemorarem o milagre que os devolvera suas respectivas vidas. Se o destino conspirava a favor deles, ele não seria capaz de apunhalá-los. Tanto Breno quanto Emerson aceitavam que o destino havia eleito Pedro como o condutor para este feito, e agradeciam pela nova chance dada, mesmo que a ironia de terem de enfrentar a lista viesse à tona.

De mãos dadas, prontos para entrarem, Emerson disparou:

– Acha que entramos na lista? Tipo. Vai acontecer a mesma coisa que aconteceu nos filmes?

– Quer que eu seja franco?

– Se parar de me responder com perguntas, sim, por favor. – Emerson brincou.

– Somos fãs, mas não precisamos associar o que aconteceu com a gente só porque aconteceu nos filmes.

– Tecnicamente sim. – O outro rapaz retrucou de imediato. – Precisamos.

– Não entendo você às vezes. – Breno sorriu e entrou.

– Sabe o que eu não entendo? Seu otimismo, mesmo ciente de que estamos correndo risco de vida. – Caminhava solenemente logo atrás.

– Enquanto não tiver certeza de que alguém que saiu daquele parque está em perigo, vou continuar otimista.

O outro não disse nada. Breno pegou a numeração do quarto e entrou por uma porta, Emerson entrou logo em seguida.

XXX

O temporal havia virado uma garoa. O sereno já não era ameaçador como antes, estava apaziguado. Ao contrário de Victorya, que jazia sentado no banco, perplexa, olhando pro nada. Pedro, bem ao seu lado, tentava convencê-la de que o que ele estava falando era verdadeiro e que ele precisava acreditar nela.

– O que devemos fazer agora?

– Eu tenho que lembrar a ordem. Pelo menos as próximas três vítimas, já é um bom começo. Só consegui lembrar que Keth e Guiby eram os primeiros, após eles morrerem.

– Isso não pode continuar assim, Pedro. Não pode! Você tem que fazer um esforço! – A ruiva largou o objeto que segurava no banco e puxou meus braços. Fiquei de pé, olhando fixamente para ela.

– Me desculpa, eu... Eu não consigo. – O rapaz encolheu os ombros.

– Hey! Não fala assim, ok? Concentre-se apenas na minha voz. – Ela murmurou.

– O que você vai fazer? Hipnose? Olha que não acredito nessas coisas.

– Não é isso, seu bobão. – Num ato rápido e descuidado, Victorya mostrou o sorriso mais lindo que Pedro já vira. – Só mantenha o foco nela.

– Tudo bem. – Ele respirou fundo.

– A Kethellen foi a primeira a morrer. – Ela ditava as palavras com maestria, estava firme do que fazia. – Houve muita gritaria, as pessoas correndo desesperadas... – Vic parecia estar passeando pela visão de Pedro. Apesar do que falava fazer sentido para o rapaz, ela só lançava palpites. – Você viu o garoto Guibson, ele estava em uma distância favorável de ti, mas então ele não teve a mesma sorte que você e morreu. Havia sangue para todos os lados, o sentimento de que tudo daria errado começou a crescer...

Pedro fez uma careta e franziu o cenho. Ele estava revivendo a tragédia. Cada detalhe perpassava pela sua mente de novo.

– A partir daí, a terceira pessoa apareceu na sua frente. É ele quem você procura. – A voz de Vic saiu o mais melódica possível. Era uma derivação da Hipnose ou Meditação. Havia aprendido com sua avó, antes dela se separar de seu avô.

Pedro abriu os olhos e ficou olhando para o guarda-chuva jogado no banco.

– Eu sei quem é o próximo.

– Bingo! – Vic disse num tom animado. – Agora, o que temos que fazer é descobrir onde ele está.

O universitário fez mais uma força e num movimento instintivo ele olhou para a plaquinha posicionada acima de um brinquedo do playground que dizia “Perigo! Brinquedo interditado!” E num repente tudo ao seu redor sumiu. Vic sumiu, as árvores sumiram, o playground sumira, as gotas de chuvas também... Não havia nada além da total escuridão.

Como num flash, as primeiras imagens se formaram na tela negra. Um feixe de luz com um brilho incandescente; Uma garrafa de vidro sendo jogada contra um espelho, e seus cacos explodindo em todas as direções; Uma pessoa gritando de dor e uma placa em movimento com o nome “Motel California”.

Pedro acordou ofegante.

– Essa merda de novo não...

– O que foi? – A ruiva logo se aproximou, tocando seu ombro.

– Eu vi como o próximo irá morrer e sei onde ele está. – Pedro disse correndo pelo mesmo caminho que tinha feito no percurso anterior.

– Hey, me espera! – Vic replicou. – Vou com você!

De imediato, Pedro enviou uma mensagem para MV. Foi a primeira pessoa que veio à sua mente. Ele seria de grande ajuda para evitar que o próximo fosse levado pela ceifadora.

Evitar que a morte chegasse para Breno.

XXX

Dentro do carro, atrás do volante, Pedro não tirava os olhos da rua molhada e escorregadia. Não se via mais sinal de chuva, apesar do céu continuar nebuloso. Um silêncio sepulcral tomava conta do veículo, e os três jovens que o ocupavam não faziam questão de quebrá-lo. Se não fosse pela imensa vontade de cortar aquele ar sombrio que os seguia, de Márcio.

– Gostei do seu estilo, Vic.

– Obrigada. Pode sim, é como quase todas as pessoas que conheço me chamam. – Ela respondeu.

– É bem diferente e bonito, ao mesmo tempo.

– Às vezes você tem que mudar seu estilo para que os outros reparem em você. Agradá-los o torna popular... – Notava-se que seu olhar se perdia a cada palavra proferida. – Felizmente, criei vergonha na minha casa e dei um ponto final nisso. Eu só precisava me encontrar dentro de mim mesma. E criar o meu próprio estilo, quer queiram ou não.

– Não tiro sua razão. – MV sorriu.

– Chegamos. – Pedro interrompeu. O carro foi estacionando devagar numa vaga próxima do motel, do outro lado da rua. – Agora só temos que bolar um plano pra entrar lá.

Victorya limpou o vidro com a manga longa de sua blusa customizada do “Ramones” e leu a placa do local.

– Motel California? – Tanto ela como MV quiseram rir da situação. – Então o tal Breno, segundo a sua visão, está neste motel?

– Exato. – O rapaz respondeu ainda sério.

– Somos três adolescentes... Nenhum chegou à maioridade ainda. Temos que ter um plano bem pensado, porque pelo visto, entrar aí não vai ser uma tarefa fácil. – Márcio comentou.

– Eu sei exatamente o que devemos fazer. – A ruiva concluiu, por fim.

XXX

Os gemidos ofegantes de Mylla só aumentavam o tesão de Lucas. Com seu pênis introduzido na vagina da moça, ele dava estocadas delicadas e ia intensificando o movimento até ela gritar de prazer. O suor nas têmporas dos dois só explicitava o quanto prazeroso estava sendo.

– Não para. – Dizia ela num tom animado.

Lucas deixou que seu corpo deitasse no colchão, pondo a namorada sobre ele, “cavalgando” sobre seu membro. Mylla mordia os lábios intensamente, enquanto sentia a mão quente do namorado pressionar seus seios, massageando-os de maneira ritmada. Ao mesmo tempo em que penetrava, Lucas inclinou seu corpo para frente e beijou o mamilo esquerdo dela.

A cama fazia um rangido específico e insuportável, mas incomodava zero por cento do momento. Não atrapalhava e não chamava a atenção. A distância entre um quarto e outro era favorável. Com certeza aquela motel era bastante antigo, sua construção era bem peculiar, já que os quartos não eram lado à lado. Eram apenas três por corredor, e haviam uns sete deles.

Acima da cabeça dos amantes, um grande espelho de teto refletia o sexo.

XXX

Breno abriu o champanhe oferecido por um dos funcionários do motel. Emerson riu ao seu lado, vendo a rolha ricochetear no espelho de teto do quarto e bater na cabeça do seu affair.

A espumante escorreu pelo braço de Breno, enquanto ele enchia o copo de Emerson com a bebida.

– Não sabe como esperei por esse dia, Ems.

– Claro que sei, neném. – Emerson ficou na ponta dos pés, e ainda segurando a taça, puxo o outro rapaz para um beijo caloroso.

Breno sentiu um movimento dentro de sua calça e tirou a calça que usava, ficando apenas com sua cueca boxer. Emerson sentiu o membro dele roçar contra o de Breno e também não hesitou em baixar sua bermuda, tirando-a. Depois de tirarem as blusas que trajavam, os dois ficaram apenas de cueca e deixaram as taças numa pequena mesa que estava posicionada perto da cama.

Entregaram-se em um beijo molhado.

XXX

Com um olhar desconfiado a recepcionista viu Pedro e Victorya seguirem num corredor de mãos dadas. Márcio estava corado diante da iniciativa maluca da ruiva. A verdade é que não fora difícil para ela dizer que estava alugando um quarto junto de dois companheiros. A velha imaginou um threesome, mas aquilo era tão comum naquele tipo de lugar, que ela não se importou e deixou que eles ultrapassassem a porta.

A quantia em dinheiro adiantada foi paga pelos três, depois de racharem o valor. Márcio sentiu o peso no bolso, assim como os outros dois, mas era por uma boa causa. O lado positivo? A velha gorda achava que os três fariam sexo, quando só queriam livrar um amigo da morte.

Ao analisar as paredes com cores desbotadas e cheiro de mofo, MV viu uma matéria de jornal pendurada em um prego, na mesma parede. Ele tocou o objeto velho e leu a matéria em voz baixa:

– “Motel California. Os misteriosos assassinatos envolvendo um dos hotéis mais freqüentados da região. O que ronda aquele lugar? Seria ele amaldiçoado? Boatos de que fora construído sobre um antigo cemitério...”

As únicas luzes do corredor piscaram e um vento forte invadiu o corredor, bagunçando os cabelos vermelhos de Vic. A garota arqueou os ombros e encostou-se na parede. Pedro olhou para a janela no fim do corredor, e não tinha como o vento ter vindo dali, pois estava fechada e parcialmente coberta por uma cortina.

– Merda, ela vai agir! – Pedro afobou-se e correu pelo corredor, tentando destrancar as três portas que ele continha.

– Aqui deve ter no mínimo uns mil corredores. – MV murmurou.

– Não exagera. – Vic replicou. – No máximo cinco.

– Vamos nos separar para procurá-lo. – Foi a vez de Pedro bolar um plano.

– Se tivesse como descobrir o número do quarto, seria menos complicado. – Márcio olhou em volta.

– E tem! – A ruiva disparou. – A velha estava com um livro de anotações sobre o balcão, ao lado do telefone. Foi lá que ela anotou nossa conta, e inclusive escreveu o número do quarto.

– Acha que pode descobrir o número do quarto onde o Breno está? – O universitário indagou.

– Se ele estiver aqui, sim. – Foi o que ela disse antes de correr de volta à escadaria que dava na recepção.

– MV, procura na outra sessão de corredores, irei continuar nessa.

– Okay! – E correu.

Mesmo sentindo uma pontada de frustração por Victorya não ter acreditado cem por cento nele, Pedro já sentiu-se mais confiante por ter ela e MV ao seu lado naquele instante. Com eles, seria mais fácil salvar o próximo.

XXX

Lucas urrou de prazer e o jato esbranquiçado decolou, caindo sobre a barriga de Mylla. Uma parte também caiu em seu queixo e um pouco no lençol. A garota gemeu e abriu um largo sorriso, enquanto tombava na cama, ao lado do namorado.

– Eu te amo. – Ela disse, encarando o reflexo no espelho de teto.

– Eu também, meu amor.

Os deram mais dois selinhos depois disso e se ergueram da cama. Iriam tomar um banho. Com Lucas segurando em sua cintura, bem junto a ela, Mylla sorria como ninguém. Para ela, era a garota mais feliz do mundo.

XXX

O corredor estava tão escuro, que MV não conseguia enxergar nada. Ele teve que procurar um interruptor. Deu três passos e se assustou, cambaleando para trás. Algo veio na direção do seu rosto, como um vulto. Ele se protegeu com os braços, batendo suas costas contra o que parecia ser uma porta, abrindo-a e caindo dentro do cômodo.

Assim que ouviu a porta bater fortemente, ficou atordoado e tateou algo que pudesse clarear o cômodo. Ele conseguia ver o final das paredes de onde estava e um medo surgiu na boca do seu estômago. MV estava dentro de um quarto, talvez dos zeladores. Havia vários produtos de limpeza, como constatou ao ver: um balde, um esfregão e uma vassoura ali próximos.

As duas estantes ao seu lado só deixavam o quartinho mais estreito. Márcio estava tendo uma crise de claustrofobia, quando seu ar começou a faltar. Respirava com dificuldade. Resolveu bater insistentemente na porta e gritar com a força que ainda possuía. As corridas que praticava não estavam surtindo efeito naquela situação. MV estava realmente ficando sem ar.

– ALGUÉM ME TIRA DAQUI!

A porta estava trancada por fora. E o corredor permanecia vazio.

XXX

Victorya olhou para o balcão da recepção, escondendo-se atrás de uma coluna. Não avistava ninguém, nem mesmo a recepcionista, que deveria estar ali. Não havia momento mais oportuno para que ela pegasse o número do provável quarto que Breno estava.

De maneira sorrateira a ruiva seguiu na direção do balcão. O livro de contas estava em seu campo de visão. Chegou próximo o suficiente para pegá-lo e dar uma olhada. Seus dedos tocaram a capa do objeto e uma sombra no balcão fez seu corpo congelar.

Ela abriu o livro rapidamente e procurou as anotações que queria. Quando na penúltima página encontrou o nome de Breno e o número de seu quarto.

– O que a senhorita pensa que está fazendo? – A voz soou como um trovão no ouvido da garota de piercing.

XXX

Do corredor em que Pedro estava, era possível ver uma grande janela. Por ela, passavam alguns raios do sol poente. Boa parte das nuvens de chuva dissipou-se e ele via a luz tingir o piso encerado, apesar de rachado, do motel. Uma sensação estranha tomou conta de si e logo ele concluiu que o tempo de vida de Breno estava se esgotando e se ele não achasse o quarto logo, veria mais alguém morrer.

– Quem em sã consciência vai transar quando está na mira da morte? – Pedro externou seu pensamento. – Claro. Hunt, Premonição 4.

Começou a caminhar por aquele corredor, vendo uma lâmpada balançar em seu suporte.

– É óbvio que uma das primeiras regras é nunca fazer sexo quando se está sendo perseguido por um assassino, que nesse caso seria a morte. Oh, Breno, quão burro está sendo?

A lâmpada em cima dele explodiu, jogando faíscas contra o jovem. Pedro foi para trás, caindo de costas no piso, exasperado. Os raios de sol da janela bateram em seu rosto. Franziu a testa. E ele viu a sombra se projetar no piso, a partir da fresta.

A grande placa do motel piscava freneticamente, chacoalhando e pendendo para um lado. “Como isto está acontecendo? Não acenderiam essa placa nesse horário...” Pensou ele, tentando encaixar tudo. Concluiu por fim que era um sinal da morte e levantou-se ligeiramente do chão, partindo em disparada naquele mesmo corredor, o terceiro que já conferia.

– Anda Tereza, aguenta firme, já estou chegando! – Se referiu à Breno pelo apelido que ele tinha. – E cadê você, Vic, com o número do quarto?

XXX

Mylla tomava uma chuveirada, enquanto Lucas estava com o corpo submerso num belo ofurô que estava no banheiro. O motel só surpreendia o casal, já que eles nunca imaginariam que haveria um ofurô como aquele, automático, num motel como o California.

A garota estava se ensaboando, por isso continuava de olhos fechados, deixando que a água banhasse todo seu corpo. Lucas estava com a cabeça fora da água e respirando placidamente. Ouvia-se uma música ao fundo, mas o jovem não distinguiu qual era.

Mylla desligou o chuveiro e enrolou-se numa toalha. Passou por Lucas e riu da maneira com que ele estava dentro do ofurô. Saiu do banheiro logo em seguida.

O rapaz ficou ali, de olhos fechados, até sentir seu corpo mais leve e se deixar afundar. Agora estava submerso por completo, e mil pensamentos invadiam sua mente. Ele só se descuidou e não notou que a trava de segurança da tampa do ofurô havia sido acionada. O objeto fechou por completo, e Lucas só queria saber de curtir aqueles breves segundos embaixo d’água. Quando não tinha mais fôlego, volto para a superfície, mas só encontrou algo concreto. A tampa automática travou.

Lucas gritou, mas isso só fez com que toda a água que estava submergindo-o entrasse em seu canal oratório.

XXX

Emerson esfregou seu corpo no de Breno, procurando saciar aquele desejo. Seus corpos estavam colados, juntos como um só. Enquanto o mais baixo fazia uma dança sensual apenas de cueca, rente ao corpo do outro, uma música ao fundo começou a tocar. Talvez fosse de um rádio de pilha ali perto ou de uma caixa de som acoplada num dos cantos das paredes.

But love don't live here anymore

Love is dead, love is gone, love don't live here anymore

Love don't live here anymore

Love is dead, love is gone, love don't live here anymore

Os dois se envolveram em movimentos salientes e Emerson foi se ajoelhando aos poucos, fisgando seus dentes na lateral do tecido da cueca de Breno. O outro segurou as pontas do cabelo do jovem ajoelhado e puxou para perto de seu membro, sob o tecido. Emerson aproveitou e direcionou a boca naquela região, roçando-a e em seguida, puxando a cueca para baixo, revelando o membro de Breno.

O rapaz alto apertou os fios de cabelo entre os dedos e empurrou a cabeça do outro contra seu pênis. O membro já estava molhado e repleto de saliva, enquanto o jovem ajoelhado “brincava” com ele, como se fosse um pirulito.

A sensação de prazer ia se agravando, e ele só queria que tudo pegasse fogo. Que realmente entrasse em chamas. A música ia entrando em seu ouvido e na sua cabeça, como palavras acalentadoras, mas que o deixava querendo mais. Muito mais.

De repente os dois ouviram um estalo, vindo do lado de fora. Emerson, ainda ajoelhado, olhou na direção da vidraça e Breno aproximou-se da janela, afastando a cortina. Não dera tempo nem de pensar do que se tratava o objeto que vinha na sua direção. A única coisa que ouvia era o rangido e o som angustiante de ferros retorcidos. O objeto metálico entrou velozmente pela janela, fazendo o vidro explodir e jogar os cacos contra Breno. Emerson afastou-se com o impacto e protegeu o rosto. Fechou os olhos e o barulho seguinte foi o pior.

A placa do motel atingiu a parte superior de Breno, fazendo seu dorso deslocar e sua cabeça ser lançada na parede do outro lado do cômodo. Um som terrível de cartilagem solta foi audível, outro de ossos sendo esmagados. Como um simples boneco de testes, seu corpo nu tombou para o lado, na diagonal e sua cabeça rolou pelo piso, agora encharcado pelo sangue e por pele. Emerson só abriu os olhos depois do fato e a cena grotesca o fez arregalar os olhos e gritar o mais alto que pode. O horror estava bem a sua frente.

A cabeça de Breno parou bem aos seus pés.

Emerson pegou o calção mais próximo que viu, escorregou numa poça de sangue e correu com a vestimenta na mão, porta afora.

XXX

MV deu o último chute na porta com a força que ainda lhe restava. A luz que se seguiu pareceu ser sua redenção. Ele estava finalmente salvo da sensação de morrer sufocado. Mas a salvação estava longe, muito longe. A mulher gorda segurava o braço de Victorya com força. A ruiva tentava se soltar e se esperneava.

– Dá pra soltar meu braço? Ta apertando, ta doendo!

A velha puxou a orelha de Márcio, que não pode nem reagir. Afinal, era uma pobre idosa gorda, que provavelmente tinha um facão escondido embaixo daquele vestido brega anos sessenta que estava usava.

– Nós podemos explicar, eu juro. – MV tentava investir na lábia. – Não é o que a senhora está pensando.

– Vocês são dois pentelhos safados que querem foder meu motel, e isso eu não admito! Irão descobrir o que fazemos com fedelhos como vocês, que mentem a idade e aproveitam da ingenuidade de uma mulher na terceira idade como eu.

MV e Vic se entreolharam, erguendo as sobrancelhas, sem entender meia palavra do que ela dizia.

Quando no final do corredor, Pedro surgiu. E ao seu lado, outro jovem apareceu. Este, por sua vez, estava com gotas de sangue em várias partes do seu corpo. Suas pernas estavam lavadas com o líquido rubro.

– Peeh, corre, ele está no quarto 13! – Vic gritou, sem perceber nada do que estava acontecendo ali.

A velha ficou tão estática que nem notou que Márcio e a ruiva estavam correndo na direção do universitário.

– Não me diga que... – Márcio encheu os olhos de lágrimas. – Mas que... Porra!

– Deu tudo errado! – Vic esmurrava a si mesma por dentro.

Emerson chorava.

– E agora Peeh? Precisamos urgentemente saber quem é o próximo! – MV sacudia Pedro. – Quem é, diz!

A mente de Pedro girava, mas ele sabia quem morria logo após Breno. Então respondeu:

– Lucas.

– Qual o sobrenome dele? – Victorya disparou poucos segundos depois de entrar em silêncio.

– Magalhães, por quê? – Foi Márcio quem respondera.

– O nome dele também estava no livro de contas, com aluguel datado de hoje. – A ruiva estava com as pernas trêmulas. Quarto 18.

– Era isso que essa vadia queria o tempo todo! Dois coelhos com uma cajadada só! – Pedro correu. MV e Vic seguiram logo atrás. Emerson não aguentou a pressão de tudo e deixou seu corpo escorregar pela parede. Abraçou as pernas e fitou o nada. A velha gorda tentava dar alguma assistência, mas aparentava apresentar algum sermão.

Ela não sabia o que estava acontecendo ali, e se depender da forma como Emerson estava atordoado, ela não obteria conhecimento tão cedo.

XXX

O rapaz submerso no ofurô não agüentaria mais nem dez segundos dentro daquela estrutura cheia d’água. Ele reunia seus últimos resquícios de força para forçar a tampa, batendo nela como podia, mas sua vida estava chegando ao fim. Ele já não via mais a superfície parcialmente escura, nem as frestas de luz que entravam pelas bordas em cima do manto aquático. Sua vista ficou turva e começou a escurecer. Lucas perdia os sentidos aos poucos.

Quando a luz se intensificou e a tampa foi removida. Alguém puxava o corpo do garoto para a superfície, ele podia sentir. Abriu os olhos rapidamente e viu o rosto de Mylla na sua frente. Abraçou-a forte e beijou-a, agradecendo por ela ter conseguido tirá-lo da banheira a tempo.

Uma música começou a tocar na caixa de som localizada dentro do quarto:

When you feel my heat

Look into my eyes

It’s where my demons hide

It’s where my demons hide

Don’t get too close

It’s dark inside

It’s where my demons hide

It’s where my demons hide

Já deitado na cama, usando apenas sua cueca, Lucas disse:

– Tudo era verdade.

– Do que você está falando? – Mylla disse do banheiro, onde passava batom.

– Dos filmes de Premonição, da lista da morte, conhece?

– Claro. Aquela onde as vítimas de um acidente morrem depois? Você vive falando disso, amor. Mas relaxa, este foi um caso isolado.

– Como sabe?

– Todos os dias, pessoas morrem afogadas. Sejam no mar, água-doce, nas banheiras de suas próprias casas ou em piscinas. É tudo relativamente comum, afogamentos não são raros de se ver.

– Ainda preciso descobrir de onde você arruma tantas respostas na ponta da língua para todas as perguntas que faço. – Ele sorri.

– Mas não é óbvio? E se estivéssemos nessa tal lista, com certeza saberíamos. – Ela se aproxima dele e deita ao lado dele na cama.

Acima deles, o espelho de teto tremia incansavelmente.

– Tem razão, Pedro manteria contato ou avisaria se soubesse de alguma coisa. – Ele disse. – Porém, não posso descartar esta hipótese. Sou um Reaper, isso afeta meu comportamento de fã da saga, entende?

– Não. – Mylla também riu.

De repente os dois ouviram batidas seguidas e repetitivas na porta. Entreolharam-se e Mylla disse que verificaria o que queriam. Poderia ser algum funcionário, ou se tivessem sorte, serviço de quarto. Mylla abriu e três pessoas entraram no quarto, falando ao mesmo tempo. A balbúrdia estava feita.

– O que está acontecendo aqui? – Lucas sentou na cama. – Vocês?

– A gente precisa conversar, Lucky. – Pedro disse.

– Porra, não me diz que é sobre aquilo? – As pálpebras inferiores de Lucas tremiam. – Sobre a sua visão, sobre termos sobrevivido ao acidente?

Pedro assentiu em silêncio.

Don’t want to let you down

But I am hell bound

Though this is all for you

Don’t want to hide the truth

No matter what we breed

We still are made of greed

This is my kingdom come

This is my kingdom come

– Não... Não pode estar acontecendo... – Lucas pegou na cabeça e tombou seu corpo para trás, deitando de novo.

Repentinamente Vic tocou o ombro de Pedro e disse em seu ouvido:

– Lembra do que você viu na sua visão há algumas horas atrás? Os sinais da morte? Disse que sabia como a próxima pessoa morria. O que exatamente você viu nessa pequena visão?

O universitário congelou ao olhar para cima. Ao ser tocado pelo brilho do sol, o grande espelho do teto refletiu um feixe de luz que quase cegou Pedro. E ele lembrou.

– O ESPELHO, LUCKY! É O ESPELHO! É ELE QUEM VAI TE MATAR!

E tudo aconteceu de uma só vez. Pedro correu na direção de Lucas, quando ele abriu os olhos. O espelho se desprendeu do teto. MV puxou Pedro para trás. O espelho se chocou contra o corpo de Lucas, que só tivera tempo de pensar em levantar. O objeto explodiu numa sinfonia medonha de cacos cortando pele e sangue jorrando em todos ali presentes.

Lucas jazia deitado de braços abertos quando foi atingido. Vários cacos do vidro perfuraram as regiões torácicas e abdominais. Um pedaço grande do vidro entrou em sua boca, rasgando sua garganta internamente. Outro pedaço grande perfurou seu membro genital e toda a extensão de suas coxas. O restante rasgou seus olhos, testa e braços.

Mylla e os demais olhavam horrorizados para o corpo mutilado de seu namorado.

O lençol não era mais branco. Agora era rubro, como sangue.

A última imagem que Lucas vira antes de morrer fora si mesmo.

Seu reflexo.

Notas finais
Não esqueçam de comentar, é importantíssima sua colaboração como leitor para a continuidade do projeto. Encontro vocês nas reviews!