Notas iniciais
Escrito por Superieronic.

Fred desbloqueou o celular e abriu a conversa com Kaique. Sentia falta do rapaz, e sorriu fraco ao ler as últimas mensagens.

Rapidamente, os dedos de Fred digitaram a tão manjada frase "sinto sua falta". Kaique, que estava online, rapidamente respondeu que também sentia falta do amigo. Eles passaram a trocar textos, até que Fred perguntou se ele estava ocupado, e se poderia encontrá-lo na frente da escola fundamental abandonada, na cidade, dali uma ou duas horas, mais ou menos. Já que teria que acompanhar a mãe, com a caçada a seu irmão mais novo, seria bom se tivesse companhia. Kaique aceitou de pronto, mas Fred deixou explícito que só ele poderia ir até lá encontrá-lo, depois que Dona entrasse. Ele entendeu o recado, e assim foram se falando até que Fred e Dona saíssem de casa, de carro, para irem até a tal escola.

***

Dona estava inquieta. Suas mãos suavam o tempo todo e seus olhos queriam derramar lágrimas a todo instante. Fred tentava acalmá-la, com seus olhares, mas ele não era muito chegado a mãe, de qualquer forma, isso acabaria estressando-a mais que acalmando-a.

Dona digitou o número de Gabriel de cabeça em seu telefone celular. Em três toques, o irmão gêmeo de Mia atendeu.

— Gabriel? — Dona disse com a voz trêmula.

— Dona?! M-mas que surpresa! — Gabriel estava até sem jeito. Dona pode ouvir Mia, irmã dele, rindo baixinho.

— Nem tanta... Bom, o motivo da minha ligação é que... queria te fazer um pedido. Você já deve saber que o Joker pegou Alfinn novamente, e está fazendo um jogo comigo, para que eu vá atrás dele, para resgatar meu filho. Preciso que você me faça um favor. Se por algum acaso não tiver notícias minhas, por mim, vá até o endereço que Fred lhe enviará. Preciso de sua ajuda para tentar manter meus filhos em segurança. Consegue fazer isso?

— Consigo, claro... — Sua voz estava mais afetada que o normal.

Dona soltou a respiração que segurava firme, e fez uma voz de alívio.

— Não tenho como agradecer, Gabriel... Mesmo.

Ele só sorriu.

— Não se preocupe com agradecimentos. Só fique viva.

Dona riu sem graça.

— Tentarei.

— Até breve, Dona.

— Até...

Dona desligou o telefone e o encarou. Ela sabia que a chance de sair viva dessa confusão era mínima, mas ela não mentiu quando disse que tentaria. Era uma mulher forte, de fibra e de muita coragem. Tudo aquilo que fez, ela sabia que nunca seria em vão, por completo. E ela não deixaria com que isso abalasse sua situação. Ela lutaria por sua vida tão bravamente quanto uma leoa luta por comida. Ah, se ia...

***

Todos estavam reunidos em uma das salas do complexo da Falcon Megazine. Todos cansados, sem muito pique. Debora repousava tranquila sob o peito de Ed, que a observava, conforme seu peito subia e descia. Mia mexia no celular, Renan, que por insistencia do resto do grupo, voltou para o prédio por mais um dia e estava em um de seus transes estranhos, Amanda estava na cozinha comendo algum sanduíche que tinha preparado, Erick estava a mesa junto com os outros, e o resto do grupo estava espalhado pelo resto do lugar. A morte de Marcela abalou a todos, mas tinham que prosseguir; a vida continua e a morte estava soprando em seus pescoços.

Gabriel entrou afobado na sala.

— Gabriel, o que aconteceu? — Mia indagou, um tanto assustada.

— Dona me ligou; ela disse que vai buscar Alfinn, Joker o capturou de novo.

— Sabemos disso... — Murmurou Erick.

— Mas ela me disse que... se algo acontecesse com ela, era para ir até o endereço, que Fred me mandaria. Eu preciso ir pra lá, preciso ajudá-la.

Ed riu-se.

— Primeiro meu caro, você tem de ficar calmo.

Debora levantou de seu peito e se espreguiçou, como uma dama.

— Fácil falar, se fosse sua loirinha aí... — Gabriel revirou os olhos.

Ed riu mais.

— Eu sei manter a calma e a frieza em momentos como esse, Gabriel. Eu não sou novo nesses negócios.

— Então, me diga o que você faria? — Erick arqueou uma sobrancelha.

— Não só eu quem farei, queridos... Nós todos vamos jogar... pôquer.

Debora olhou maliciosa para Ed, e o abraçou por trás.

— Adoro pôquer. — Sussurrou no ouvido dele.

Ed corou um pouco nas bochechas pálidas.

— Sou suspeito em dizer, já ganhei tantas vezes.... Mas a questão aqui é só para passar o tempo, enquanto eu e Debora temos que resolver alguns negócios perto de minha mansão, já que meu afilhado está tomando conta e eu não sei se ele já queimou minhas cortinas de seda, preciso dar uma conferida. E pegar umas mudas de roupa e novas armas para nosso grupo.

Renan encarou Ed e Debora, sorrindo de lado.

— O que foi, Renan? — Perguntou Amanda, que estava parada na soleira da porta.

— Eles vão transar.

Debora e Ed ficaram vermelhos como pimentões.

— Renan! — Debora o repreendeu.

— Debora querida, isso não é nenhuma novidade, vindo de nós dois. E sim, vamos fazer sexo, mas isso não compete a ninguém. — Ed sorriu. — Isso me lembra uma história de um casal que adorava gritar para o mundo quando iam transar. Ironicamente, mafiosos os mataram transando. — Ele gargalhou – Cuidado para não acontecer com vocês também, que ficam cuidando da transa dos outros.

Debora riu, e todos os outros ficaram sem graça.

— Voltamos em breve.

Ed e Debora saíram para a rua, atentos, os dois. Ed estava com a arma na mão, e Debora estava armada com uma faca encrostada de diamantes presa na cinta liga. O primeiro carro que viram, uma picape, foram saqueando. Assim que entraram, dirigiram em alta velocidade para a mansão de Edmundo.

Rapidamente, Ed ligou para o afilhado.

— Pedro, estou a caminho.

***

Gabriel estava inquieto, andando para lá e para cá o tempo todo, olhando o telefone, querendo falar com Dona, mas sem coragem de mandar mensagens.

— Meu Jesus, quer parar, Gabriel, por favor? — Erick já estava de saco cheio de ver o jovem andando de um lado para o outro.

— Eu só queria saber se ela vai ficar bem...

Do nada, Renan – que jogava pôquer com os outros na mesa – fechou os olhos fortemente, e começou a murmurar.

"Um palhaço, seringas de vidro, agulhas, maca, bisturi..."

Gabriel ficou ainda mais tenso.

— Renan... — Mia chamou, mas ele não pode sair de seu transe, continuou murmurando algumas coisas sem sentido, até o nome de Fred entrou na jogada. Quando saiu do transe, ele estava completamente desnorteado.

— Onde ela está, Renan? Onde ela está?! — Gabriel beirava a psicose.

— Na escola abandonada de fundamental, do Cabo da Praga.

Gabriel não pensou duas vezes e saiu em disparada. Precisava achar algum jeito de salvar Dona, e se não corresse, nunca chegaria do outro lado da cidade a tempo.

Amaldiçoou Ed e Debora por terem saído daquela forma, mas logo deixou passar, enquanto corria contra o tempo pelas ruas, morrendo de medo de ser atacado por infectados.

— Vamos, Gabriel... você consegue. Pela Dona...

Atrás dele, o céu se fechava em um crepúsculo de tirar o fôlego de qualquer um, e na mansão Moura, Debora e Ed se deliciavam com mais uma taça de vinho envelhecido.

***

Às sete em ponto da noite, Dona e Fred chegaram até a tal escola abandonada. Dona estacionou seu carro bem na porta, e antes de descer do carro, alertou Fred novamente, para que ele desse o endereço para Gabriel, caso acontecesse algo. Mal sabia ela que o jovem já estava a sua espera, na parte de trás do colégio.

— Mãe... — Fred chamou. — Boa sorte.

Dona sorriu e o abraçou fortemente contra seu peito.

— Vai ficar tudo bem, Fred... Vai ficar tudo bem.

Donatella saiu do carro sob o olhar vigilante de seu filho. Fred acompanhou a mãe com o olhar, até que ela sumisse de seu campo de visão. Com um toque na tela de seu celular, enviou a mensagem a Kaique: "pode vir". Em menos de dez minutos, uma batida no vidro tira Fred de seus devaneios; era Kaique. O mesmo deu a volta na picape, e sentou-se onde Dona estava há minutos atrás.

— Senti tanto sua falta. — Disse Kaique, enquanto puxava Fred para perto.

— Também senti a sua. — Disse Fred, com os lábios colados nos dele.

"Knock on my door, boy come home
You stay in my head
Lay in my arms, why won't you?
It's been way too long
What you waiting on?
Cause I've been laying here
Learning what the memories won't do
See I need you and baby I need to
Let down my guard and give you my scars
Open up my heart"

A pele de Fred ardia sob os dedos do amigo íntimo, que arranhava sua nuca com vontade. A pressão em suas calças era tanta, que ele achava que ia explodir. Logo Kaique o levou para o banco de trás do carro, e começou a tirar sua blusa, enquanto beijava seu pescoço, deixando um rastro de calor por onde passava os lábios.

"We could be stars...
We could be stars...
We could be stars.."

Fred estava onde sempre quis, nos braços de quem sempre admirou, e nunca pensou que isso seria possível. O sentimento que estava provando era muito maior que o medo de ser pego, era muito maior que o medo de dar de cara com seu irmãozinho olhando a cena toda. Ele não tinha medo de mais nada, na verdade. Tudo o que ele tinha, Kaique sugara, e era incrível o poder que ele tinha sobre Fred. Era perigoso, mas ao mesmo tempo, gostoso demais para deixar passar.

"Rap on my window, come home
It's been a while, so stick around
Why don't you?
'Til the end of time
Say that you'll be mine
An uphill climb fighting what the heart
Really wants to do
See I need you
And sometimes we need to
Shed our facade and be just who we are
All broken and torn, then we could be stars"

E Kaique sentia-se do mesmo modo, conforme os lábios quentes de Fred o descobriam, ele ficava cada vez mais invencível, apesar dos tabus que teria que enfrentar para ficarem juntos, finalmente. Os dedos de Fred deixaram marcas em Kaique, e os lábios de Kaique queimaram a pele de Fred. Era como se estivessem em uma lareira, queimando e ardendo no fogo, mas era incrível a naturalidade de ambos.

"Oh we could be stars...
We could be stars...
We could be stars..."

Eram estrelas em combustão, eram constelações inteiras, eram um universo só, trabalhando em conjunto, naquela noite, naquela picape quente e embaçada.

"Piercing lights in the dark
Make the galaxy ours
Kingdom right where we are
Shining bright as a morning
You'll never be lonely
Just promise you'll love me
I'm never too far
And we'll never part
And we could be stars"

Os dois, praticamente nus, trocavam juras em meio a uma noite estrelada, onde tudo de ruim poderia acontecer, porém... eles estavam ocupados demais tentando ser felizes...

"Just find way to get home
There's a space in my heart
Open arms for you to run to
Baby close your eyes and take the leap
To make believe in fairytales
I'll meet you there
Oh yea, I'll fall too
See I've wanted you here
All along but my fear
Just keeps haunting me won't let me go
So it's hard to say I love you"

Não acabaram chegando no finalmente, mas é possível dizer que contemplaram o corpo um do outro da maneira mais íntima que alguém pode contemplar. Sorriram satisfeitos, e se abraçaram, em meio ao suor de ambos.

— Fred... Eu acho que te amo. — Sussurrou Kaique, contra a pele do outro.

Fred corou e sorriu para ele.

— Bom... já eu tenho certeza que te amo.

"We could be stars...
Oh we could be stars...
We could be stars...
We could be stars..."

***

Dona respirava forte. Seu coração palpitava em seu peito enquanto ela andava lentamente pelo corredor do colégio abandonado, na cidade do Cabo da Praga. Seus pensamentos variavam em como ela tinha se metido nessa história, como tinha deixado uma pessoa desconhecida entrar em sua vida e deixá-la fazer uma bagunça; como tinha permitido que um desconhecido conhecesse ela e sua família de forma tão intrínseca, e como ela não tinha dado um fim no retardado quando teve chance.

"These are the eyes and the lies of the taken

These are their hearts but their hearts don’t beat like ours

They burn ‘cause they are all afraid

For every one of us, there’s an army of them

But you’ll never fight alone

‘Cause I wanted you to know..."

— Deixei isso tudo ir longe demais. — Donatella disse para si mesma, enquanto continuava andando pelo corredor escuro. — Vou arrebentar a cara deste filho da puta, antes que seja tarde demais.

Quando Dona menos esperava, uma voz falou, soando sinistra, pelo rádio da escola.

— Ora, ora, ora... Se não temos uma doutora hoje na escola! Parece que vamos jogar um jogo, huh? Se conseguir adivinhar onde é que seu precioso está, não vai achá-lo muito... machucado. Posso até entregá-lo inteiro para o irmão mais velho que está aguardando na guarita do estacionamento, mas só se você se entregar, doutora. Espero que me encontre. Estou em um lugar que você adoraria conhecer. Utensílios bem úteis para seu trabalho... Boa sorte, Dona.

Sua risada cruel ecoou pelos corredores, e Dona começou a correr. Seus sapatos iam batendo no chão, ecoando também pelos corredores vazios. Seu coração palpitava cada vez mais forte, e a única coisa que ela pensava era em como iria salvar seu filho das garras de uma pessoa que ela não fazia a menor ideia do que era capaz.

— Estou chegando, Alfinn... Estou chegando.

"That the world is ugly

But you’re beautiful to me

Well are you thinking of me now (now)"

*FLASHBACK ON*

— Mamãe, eu não quero ir para aula hoje... — Alfinn fez uma careta.

Dona suspirou e sorriu suavemente.

— Quer me dizer porque?

O menino esfregou os olhos com manha.

— Estou com febre, acho... E também, queria ficar mais um tempinho com você.

Dona deu uma risada gostosa.

— Isso é um bom motivo, mas não pode fazer isso o tempo todo, filho. Hoje você pode fazer isso, mas só desta vez, hein? — A mãe colocou a mão na testa dele e sorriu — E não precisa fingir que está com febre. — Ela apertou o nariz pequenino dele. — Só me diga a verdade, sempre.

Alfinn sorriu para ela e a abraçou.

— Eu te amo, mamãe.

Dona sorriu, de olhos fechados enquanto abraçava o pequeno.

— Eu também te amo, meu filho. Eu também te amo.


*FLASHBACK OFF*

"Ora, ora, ora... temos uma médica na escola".

A frase de Joker se repetia em looping infinito, na cabeça de Dona. Ela se deixou guiar pelo instinto, e foi procurar pela enfermaria do local. Quando menos esperou, o sequestrador falou novamente.

— Parece que você está esquentando, Dona... É mais esperta do que eu pensava. Que tal se acendermos as luzes?

Dona ficou em choque. Estaria ele a vendo de onde estava? Estaria ele trancado na sala onde seria o rádio, e na verdade enganado Dona para uma armadilha? Ela não soube dizer. Quando menos esperava, o miliante acendeu as luzes, e ela se deparou com paredes tingidas de vermelho vivo, com várias frases do Coringa espalhadas.

"WHY SO SERIOUS?"

Dona riu amargamente e pensou que ele só poderia estar doente. O cara realmente se achava o verdadeiro Coringa. Onde ela tinha se metido...

— Continue, Harley Quinn... está ficando bem mais quente...

— Seu filho da puta... — Ela falou baixinho. Dona segurou as lágrimas, mas disse a si mesma que seria forte, que não se deixaria abalar. E realmente, não se deixou, mas justamente porque não poderia.

"These are the nights and the lights that we fade in

These are the words but the words aren’t coming out

They burn ‘cause they are hard to say

For every failing sun, there’s a morning after

Though I’m empty when you go

I just wanted you to know".

Dona prosseguiu andando pelo corredor, até achar a enfermaria. Novamente, a voz falou com ela.

— Está a um passo de saber quem sou, Doutora. Está pronta?

— Estou pronta para rasgar sua cara, seu filho da puta.

Joker riu-se no microfone, uma risada de cortar a alma de tão sádica. Ele se divertia com o sofrimento dela.

— Não acho que vai acontecer nada comigo, Dona querida... Já com você, não posso prometer, pois você só está perdendo pontos comigo.

— Não sabia que estávamos jogando um jogo, Joker.

Ele riu mais uma vez.

— Você nunca soube, Dona...

O sangue da doutora subiu até o último e ao irromper a porta, não encontrou seu filho, somente um homem, virado de costas, com uma máscara de Coringa no rosto que aparentava ser magro.

— Cadê meu filho?

Ele riu.

— Talvez no armário... Por que você não procura?

Em seu ímpeto, Dona partiu para cima do tal Joker, em uma luta corporal que acabou se arrastando pela sala toda. Ele, o Joker, era mais forte e mais alto que Dona, mas a raiva da mulher era tanta, que ela conseguiu dominá-lo e dar uns belos tapas em seu rosto, arrancando sua máscara. Ao revelar seu rosto, Dona riu com amargura.

— Eu já desconfiava de você. Mas por quê?

A criatura riu de forma afetada, mas a voz de Alfinn tirou a atenção de Dona.

"That the world is ugly

But you’re beautiful to me

Are you thinking of me,

Like I’m thinking of you?

I would say I’m sorry, though

Though I really need to go

I just wanted you to know"

— Alfinn!!

Dona levantou rapidamente, deixando Joker estirado ao chão, rindo como louco. Dona abriu a porta do armário e viu seu filho amordaçado. Rapidamente, com as mãos trêmulas, ela o libertou e o abraçou.

— Filho, vai até a guarita, e encontra seu irmão lá. Eu vou ao encontro de vocês. Mas fica com o seu irmão, entendeu?

— Mas e você, mamãe? — Ele falou baixinho. Ela sorriu. Seu filho era muito esperto mesmo.

— A mamãe vai encontrar vocês depois que tudo acabar aqui, ok? Agora vá, Alfinn.

O menino correu corredor a dentro, no escuro.

"I wanted you to know

I wanted you to know

I’m thinking of you every night, every day"

— Agora eu tenho que terminar com você.

Joker riu novamente, ainda estirado ao chão.

— Eu vou adorar ter esse acerto de contas, Dona.

Joker e ela se levantaram ao mesmo tempo, e voltaram a luta corporal que tinham iniciado antes de serem interrompidos por Alfinn.

Dona bateu as costas no armário, e fez com que uma caixa de seringas caísse sobre a mesa. Algumas das agulhas acabaram virando para cima. Sem que ela visse, Joker pega uma seringa da manga do casaco e perfura seu pescoço, injetando o líquido em sua veia. Antes que o líquido fosse injetado completamente, Dona o empurra. Seu cabelo cai em seu rosto e seu sorriso largo aparece novamente.

Joker pula para cima de Dona novamente, e ela sente seu corpo ficar mole, mas ainda assim, tenta se defender. Inesperadamente, ela tropeça na caixa de seringas que estava ao chão cai de bruços em cima da mesa, e sente algumas agulhas entrarem em seu corpo. Com a dor insuportável das agulhas em sua pele, Dona cai ao chão, e com isso as agulhas quebram em seu corpo, causando uma hemorragia interna.

— N-não...

Joker ri da desgraça de Dona, olhando para ela com um sorriso de triunfo nos lábios, e um olhar psicótico de dar medo até nos mais céticos.

— Quais seriam suas últimas palavras, huh? — Dona olhou para o rosto de Joker com raiva. — Talvez você implore para não morrer, ou me peça desculpas por tudo o que me fez passar. Mas eu não quero ouvir isso tudo agora, no seu leito de morte porque não faria sentido algum... Porém... — Sorriu – vamos colocar um sorriso em você.

Antes que ele chegasse perto, um estampido de algo caindo assustou-o. Era a maleta de primeiro socorros, que caiu na maca que estava bem do lado direito de Dona.

A visão de Donatella estava turva e completamente embaçada, e somada a dor de ter inúmeras seringas de vidro quebradas em seu corpo, e estar sangrando por dentro, era de se esperar que a médica não estivesse bem o bastante para dizer ou enfrentar seu inimigo "virtual", que estava só esperando para dar o bote.

"These are the lies and the lives of the taken

These are their hearts but their hearts don’t beat like ours

They burn ‘cause they are all afraid

When mine beats twice as hard"

— Eu fiz tudo aquilo que pude, Joker. Tudo aquilo que estava sob meu alcance, foi feito.

Joker olhou feio para Dona, mas continuou olhando-a. Tirou um bisturi do outro bolso do casaco, e começou a afiá-lo.

Dona sabia que morreria, e teve essa certeza quando um flash de coisas boas começou a passar por sua mente. O nascimento de Alfinn, a adoção de Fred, os momentos felizes com seu marido, e também... o sentimento que nutria por Gabriel. Gabriel... ela pensou nele, sorriu enquanto se lembrava das cantadas e das gracinhas. Era um bom rapaz, seria um bom profissional quando estivesse pronto, e ela queria estar lá para apoiá-lo, e não só nisso, obviamente. Era impossível negar que o jovem tinha charme e beleza de sobra.

"‘Cause the world is ugly

But you’re beautiful to me

Are you thinking of me

Like I’m thinking of you

I would say I’m sorry, though

Though I really need to go

I just wanted you to know

That the world is ugly (I just wanted you to know)

But you’re beautiful to me (I just wanted you to know)

Are you thinking of me"

Dona suspirou e fechou os olhos. O barulho de um parafuso se soltando começou a ser mais perceptível para ela, mas mesmo assim, sua mente não parava de trabalhar a nenhum instante. Ela estava sofrendo de dor, de ódio, de angústia. Queria que acabasse logo aquilo tudo. Queria que a morte amarrasse seu destino, apesar de ter receio do que poderia acontecer com seus filhos.

"Stop your crying, helpless feeling

Dry your eyes and start believing

There’s one thing they’ll never take from you"

Todos os sentimentos, todos os medos começaram a passar cada vez mais rápido por sua cabeça, enquanto ela queria que acabasse logo.

— D-diga a Alfinn, Fred e Gabriel que eu sinto muito por não ter tentado mais.

Joker riu, e antes que pudesse fazer alguma coisa, a maca enferrujada se desprendeu da parte de cima, e caiu sob o peito de dona, esmagando e enfiando ainda mais profundamente os estilhaços de vidros e agulhas que estavam perfurando a doutora.

Seus olhos se abriram e o brilho foi sumindo. Ela soltou alguns grunhidos e ainda disse baixinho, com o último suspiro de vida: "eu te odeio", olhando diretamente para Joker.

"(One day like this,

We’ll never be the same

Never forever

Like ghosts in the snow

Like ghosts in the sun)"

Quando Dona perdeu completamente a vida, Joker se abaixou, cantarolando Singing in The Rain, e fez um corte enorme nas bochechas de Dona.

— Ah, assim está bem melhor! — Riu mais amargamente ainda e se virou para a saída. Porém, ao chegar a porta, deu de cara com Fred e Kaique.

— Mas que surpresa agradável!

Fred fez cara de nojo. Ao mesmo tempo que estava bravo, estava aflito.

— Cadê a minha mãe? — Perguntou sério.

Joker riu, mas antes que pudesse responder qualquer coisa, passos foram ouvidos, e Kaique e Fred olharam para o corredor dos fundos. Gabriel vinha correndo.

— Cadê a Dona? — Seu tom de voz autoritário era ameaçador, mas Joker não tinha medo.

— Porque não entra para procurar? — Joker disse, e soltou uma gargalhada afetada.

Fred, Gabriel e Kaique entraram na sala, e quase tiveram um colapso.

— O QUE DIABOS VOCÊ FEZ?! — Gabriel gritou, enquanto tomava o corpo inerte e sujo de sangue nos braços.

Fred e Kaique sentiram as lágrimas tomarem conta dos olhos, e desabaram em raiva e tristeza. A risada de Joker continuava a ecoar.

— Vocês... perderam.

Os três levantaram em um salto, cercaram Joker e começaram a intimidá-lo, e quando ele menos esperava, tudo ficou escuro, e ele já não respirava mais.

***

Mabel estava estirada ao chão. Sua máscara de Joker repousava sob seu colo, e em seu rosto, o sorriso rasgado com bisturi ainda estava fresco. Tudo o que tinha feito desde então, para pirraçar Donatella por raiva e culpa, tinha sido em vão; ambas estavam mortas, ambas tinham deixado este plano terreno para viver em outro lugar, talvez melhor ou pior que a Terra. A diferença é que Mabel não deixou ninguém; Dona deixou filhos, colegas e amigos desamparados e com saudades eternas.

O assassino de Mabel a olhava com raiva; seus olhos transbordavam o sentimento pesado que seu coração carregava.

Ao terminar seu serviço, deixando a cena perfeitamente perfeita para uma psicótica, seus passos ecoaram porta afora da escola abandonada, que agora tinha mais de um motivo para ser palco de histórias de terror – que não são tão fictícias assim.