Notas iniciais
Escrito por Felipe Chemim.

“A felicidade é como o vidro, tem, como ele, o brilho e a fragilidade.”

— Públio Siro

A brisa gélida do cemitério deslizava como a lâmina de uma faca pelo ar. O topete bagunçado de Renan balançava e de vez em quando ele precisava piscar rapidamente para controlar os olhos, que ficavam irritados com o vento. Apesar de ser verão, a temperatura parecia estar mais baixa do que deveria por ali. Talvez as almas dos mortos roubassem o calor dos que ainda permaneciam vivos.

Os tênis escuros de Renan esmagavam as folhas de grama do terreno esverdeado pelo qual ele estava passando. A tulipa amarela presa nas mãos do homem quase escapou algumas vezes, ameaçando ser levada pela brisa. Contornava alguns túmulos, observando rostos de pessoas que já partiram em registros fotográficos. Uma foto preta e branca de uma senhora sorria para Renan entre algumas flores, provavelmente deixadas pelos seus filhos e netos.

O céu nublado e o clima traziam a premissa de uma possível chuva que se aproximava de Cabo da Praga. Os últimos dias pareciam não ser os melhores e tudo parecia ter tendência a piorar. Muitas mantinham o medo do desconhecido, do que ainda estava por vir e da própria morte. Mas Renan não. Acostumou a temer o que não conhecia. Já estava há mais de um mês vivendo sem saber quem ele mesmo era, então o fato do mundo ao redor ser uma constante icógnita era apenas um adicional.

Não demorou muito para achar o túmulo que procurava. Em cima da estrutura de cimento revestida com mármores e azulejos azuis, vários vasos de gesso esculpidos a mão e bem detalhados mantinham flores colorindo o local. No ponto mais alto da estrutura, estava uma linda foto da mulher. Os cabelos loiros e ondulados contornavam seu rosto e caíam sobre os ombros, apesar de não serem muito compridos. O olhar era uma mistura de suavidade e severidade natural de um general do exército. A roupa branca parecia lhe dar um ar plano e pacífico.

Mas Renan sabia que Thereza não havia morrido de forma pacífica, muito pelo contrário.

O rapaz visitou o cemitério algumas vezes depois do dia em que injetou drogas em si mesmo. Sua mente parecia se exercitar por estar em algo muito próximo do que já havia vivido, então, talvez isso pudesse virar padrão. Na explosão do viaduto, logo após de ver Chico e Algodão serem carbonizados vivos, Renan se lembrou de estar no enterro de um homem. Estar em uma zona marcada pela morte causou a rachadura e a destruição de uma barreira psíquica em sua cabeça e assim ele pretendia demolir toda a fortaleza que insistia em prendê-lo.

A cada minuto, o ambiente ficava mais escuro, em uma mistura do fim da tarde com as nuvens de chuva que chegavam de mansinho. O sol nem apareceu muito naquele dia, aumentando a sensação fúnebre que abatia a cidade. Renan ainda ouviu na televisão uma reportagem que mostrava mais um ataque de infectados, dessa vez um pouco próximo do centro da cidade. Os boatos que percorriam entre os moradores é que o sistema militar estava perdendo o controle.

Renan pousou a bela tulipa amarela no túmulo de Thereza e olhou novamente para as flores que acompanhavam. Um pequeno vaso azul-turquesa acolhia algumas margaridas. Um pequeno bilhete amarelo estava colado junto ao objeto cerâmico. O homem não se aproximou muito para ver o que estava escrito: “Para uma grande mulher, suas flores preferidas. Amo você, para sempre”.

Não precisou muito esforço para Renan associar o bilhete ao irmão de Thereza. Elias, mesmo longe, ainda mantinha viva as lembranças da irmã e sempre lhe mandava flores, de algum jeito.

Renan se virou e avistou Ísis ao longe, parada próxima dos portões de entrada do cemitério. Atrás dela, um Jipe verde-escuro estava estacionado, veículo que emprestaram de Valentim – que, por sinal, parecia ter uma conta bancária cheia.

Na manhã daquele mesmo dia, a dupla de amigos conseguiram um sinal sobre o passado de Renan. Parecia que um delegado local mantinha algumas informações sobre o período em que o rapaz havia sido preso por porte de drogas em outra cidade. Depois de contar a Ísis do que tinha se lembrado, os dois ligaram para a delegacia e disseram que iriam passar por lá em alguma hora do final do dia.

E esta hora havia chegado.

Se a vida anda tão louca

Eu não vou me apegar a pequenas coisas

Sei que o destino tende a surpreender as pessoas

O mundo lá fora está em guerra sem porquê

Nos resta o agora, viva tudo que há pra viver

Renan caminhou pela estreita calçada entre os túmulos, até saída. Sua camisa marrom-claro estava com o último botão aberto, mas mesmo assim o jovem suava. Sua cabeça estava mais acelerada a cada dia, misturando seu passado misterioso, seu presente e seu futuro, envolvendo lista da morte e falecimento de pessoas próximas. A última pessoa que foi tomada pelo manto negro foi uma das médicas do hospital. As fotos de seu corpo circulavam pela internet, embora o acesso da mesma estivesse ficando cada vez mais restrito.

Renan abriu a porta direita do Jipe, que protestou com um rangido metálico. Ìsis já estava disposta no banco do motorista, com uma calça jeans escura, botas pretas, uma camiseta branca e uma jaqueta de couro, também preta. Antes do cemitério sair de vista, o homem ainda pôde avistar a tulipa amarela no túmulo de Thereza.

Só peço que eu não perca a fé no amor

Pro novo sol de paz se abrir

E no que a escuridão tentar te dominar

Sempre uma luz irá surgir

O telhado do casarão não era o local mais seguro, mas com a companhia de Sabrina, era para Thiago. O céu misturava um azulado-celestial com rosa e laranja, como em um quadro aquarela, causado pelo pôr-do-sol. A moça apontava para algumas nuvens que ainda tentavam aparecer no plano celeste quase noturno que começava a chegar, dizendo que pareciam bitucas de cigarro.

Thiago sentia como se o mundo não tivesse mais escuridão metafórica naquele momento. Parecia que todo mal havia se esvaido. Sem infectados, sem lista da morte, sem quarentena. Apenas ele mesmo, assistindo o pôr-do-sol com a companhia que sempre teve durante a vida, como praticamente uma irmã.

Todos estavam estressados e com os nervos a flor da pele com toda a situação em que se encontravam. Thiago sentia falta das aulas de sociologia que lecionava, com todos os assuntos polêmicos que trazia à tona sobre a sociedade atual, principalmente a violência crescente que acontecia em Cabo. A geração de adolescentes sempre parecia estar mais madura e consciente sobre os problemas à sua volta. Pelo menos, a maioria.

Agora, Sabrina fazia piada sobre seu corpo ser feito de poeira astrônomica, após lembrarem de um vídeo em que a teoria do Big Bang era explicada a partir de que tudo veio do mesmo local, ou seja, tudo era feito da mesma matéria. Thiago respondia a piada com sua risada de sempre. Ainda fitando o céu, lembrou-se de Andreia, a terceira parte daquela trindade, e pensou se a jovem estaria olhando para eles, onde quer que estivesse, mesmo que fosse uma simples poeira ao vento.

Que prevaleça a fé até na dor

Pro novo sol de paz se abrir

E no que a escuridão tentar, eu hei de resistir

Vou adiante

Demétrio estava sentado abaixo de uma árvore, nos fundos da residência em que estava hospedado, tentando extrair o máximo da tranquilidade que o local poderia oferecer. O gramado em volta reluzia em tonalidade verde, por causa dos últimos raios solares de fim de tarde. Sempre lhe disseram que verde era a cor da esperança, e esse era o exato sentimento que o cineasta começava a recuperar pouco a pouco, junto com o controle.

Ali, junto com os militares, em um lugar tranquilo, sentia-se mais seguro do que antes. Ester e Alfinn brincavam em algum lugar e se tudo de ruim que passaram até agora fosse esquecido, aquele local até pareceria um acampamento de férias. A noite chegava cada vez mais e ao longe, nuvens negras se moviam. Devia estar começando a chover na cidade e logo estaria no espaço rural.

Um barulho de vegetação se movendo foi captado pela audição de Demétrio, mas parecia ser algo pequeno. Virou o rosto e visou a pequena chincila de Ester avançar sobre o gramado. Parando ao lado do homem, o roedor se equilibrou nas patas traseiras e mastigou um pequeno pedaço de grama. O cineasta esticou seu braço e o animal pulou para suas mãos, que logo a acariciaram com carinho.

Pouco tempo é o bastante pra

Eternizar momentos que nem são pra sempre

A vida é curta, vou aproveitar

Somos tão jovens, mas nem sempre inconsequentes

E ninguém sabe quando um simples tchau pode ser o adeus

E nunca é tarde, já que o futuro só pertence a Deus

Kaíque estava deitado de barriga para cima. Fitava o teto, enquanto seus braços estavam dobrados, fazendo com que as mãos apoiassem a cabeça. O travesseiro embaixo mantinha tudo confortável. Pelo menos, fisicamente.

Fred havia saído para conversar com Donatella e Kaíque preferiu ficar no seu quarto, relaxando um pouco sua mente. Resolveu mover-se para a zona rural não só pela companhia do amigo, mas também para organizar um pouco seus pensamentos. Sua mãe, Gigi, o acompanhou. Além da morte de sua filha, parecia aflita e preocupada com alguma coisa, e Kaíque tinha quase certeza que era algo relacionado ao vírus.

O jovem lembrava-se constantemente de sua irmã de coração, Maria Raja. A renomada doutora teve sua vida arrancada com brutalidade e ele nem pôde se despedir. A última lembrança que mantinha da irmã era uma profissional e pessoa amável, ajudando outro ser em dificuldades. Como último ato de bondade, salvou a vida de um lindo garotinho.

Perdido nos pensamentos, uma lágrima escorreu pela sua face, até cair sobre o lençol branco da cama, causando uma leve mancha úmida no tecido.

Ouviu alguns passos advindos pelo corredor, em direção ao quarto em que estava, então, se apressou em passar o dedo indicador no rosto, enxugando a trilha deixada pelo líquido lacrimal. Apoiou-se com os ombros no colchão, ganhando impulso para sentar-se. Na porta, surgiu a imagem de Fred, que encarou o amigo por alguns segundos. Sorriu de um jeito suave, simples e sincero.

Um sentimento bom se aflorou dentro de Kaíque. Ele ainda tinha motivos para sorrir.

Só peço que eu não perca a fé no amor

Pro novo sol de paz se abrir

E no que a escuridão tentar te dominar

Sempre uma luz irá surgir

Ísis dirigia em silêncio. Renan tentava manter-se relaxado e disfarçar o nervosismo, mas a loira sabia que o homem não conseguia. Ele estava cada vez mais próximo de conseguir descobrir algo. Se o delegado tivesse mesmo alguma pista sobre o passado dele, o momento para saber era aquele.

Os vidros laterais do carro subiram rapidamente assim que os primeiros pingos de chuva começavam a cair. A força da água aumentou e sua velocidade também, impossibilitando a visão plena da pista. As ruas estavam vazias devido ao todo caos que começava a ficar cada vez maior na cidade, mas a chance de um acidente acontecer também aumentava.

Ísis acionou o para-brisas rapidamente, assim como fez com os faróis, para tentar melhorar o caminho. Reduziu a velocidade. Assim que a visão ficou acessível novamente, a loira foi obrigada a freiar o carro de forma rápida e brusca, deslizando pelo próprio eixo na rua, após ver um cachorro molhado no meio da pista.

Renan estava ofegante e as costas coladas no banco. Os músculos de seu corpo estavam tensos. Os cabelos loiros de Ísis estavam bagunçados, assim como sua respiração acelerada. O pequeno animal já havia sumido dali, então mulher retomou o controle do carro e continuaram seu trajeto. Estavam cada vez mais próximos da delegacia.

Renan ainda olhou brevemente para trás, através do espelho retrovisor, tentando enxergar novamente o beagle que estava no meio da rua.

Que prevaleça a fé até na dor

Pro novo sol de paz se abrir

E no que a escuridão tentar, eu hei de resistir

Diana estava sentada em um balanço de pneu que estava amarrado em um galho de uma grande árvore. O plano de grama se expandia por uma vasta distância, quase sem nada para atrapalhar a esplêndida visão. A estrada de terra que tomava rumo para as outras casas por perto podia ser vista, embora a luminosidade já estivesse se esvaindo. Um velho celeiro pintado de vermelho cortava a visão da estrada e a moça tinha a sensação de ouvir os relinchos dos cavalos que ali habitavam, mas era algo impossível. Ao lado da árvore em que estava, podia-se também avistar um poço que não era usado há muito tempo. Longe, o casarão erguia-se majestoso e no telhado dele, Thiago e Sabrina pareciam se divertir apontando algo no céu.

Seu corpo se movia suavemente para frente e para trás sem muita velocidade nem força. Seus pés roçavam no gramado a todo momento. Em seu braço, uma bela pulseira reluzia.

A pulseira de Gustavo.

Antes de embarcar com Demétrio e os outros para a área rural, Diana passou na casa da mãe do falecido, para pegar alguns pertences que ainda permaneciam naquela residência. As olheiras marcavam profundamente o rosto da senhora, que se levantava lentamente do luto do filho. Havia emagrecido mais alguns quilos e seu cabelo parecia não ver um pente há dias.

Enquanto se despedia com um sincero abraço, a mãe de Gustavo segurou na mão de Diana e colocou a pulseira que um dia pertenceu ao loiro, logo após ele herdar de seu pai. Dona Lyra explicou que não conseguiria ficar com aquele objeto, e então ofereceu à moça, que aceitou de bom grado. Em um primeiro momento, não sabia se ficaria com a pulseira, mas logo após colocar em seu braço, não queria mais tirar.

Diana parou os pés no gramado, consequentemente parando o leve balanço. Com a noite chegando, saiu dali, se encaminhando para o quarto em que estava hospedada.

Só não deixe o tempo te abraçar

Na brisa leve eu sei que minha vibe não vão roubar

Espero encontrar aquela paz na fé que me move

Mas se arrependa só daquilo que não fez

Ame como se fosse a última vez

Espero por encontrar aquela paz na fé que me move

Amélia estava parada, em frente ao prédio do CAPS. Com o celular em mãos, estava encostada na parede, tranquila. A rua estava relativamente calma no meio do caos. Uma van havia passado em alta velocidade, cheia de comida. A médica, com uma das mãos guardadas no bolso do seu jaleco, revirava as fotos de seu celular. Durante a noite em que passou com Mariano, aproveitou enquanto o rapaz dormia para tirar algumas fotos com ele. Ela não sabia como o paciente reagiria com os registros fotográficos.

O sorriso de Amélia brilhava nas fotos, enquanto Mariano descansava, com uma face tão tranquila e pacífica, parecia que ele não tinha nenhum resquício de loucura. Era como se tivessem injetado tranquilizantes nele novamente. Mas nos momentos como aquele, seus tranquilizantes não eram injeções, mas sim Amélia.

Estavam deitados na famosa posição de “conchinha”, e mesmo dormindo, Mariano se negava de sair do abraço por trás da médica. Seus fortes braços envolviam o corpo de Amélia, que tentava ao máximo fazer o paciente aparecer na fotografia, ao mesmo tempo em que tentava ser fotogênica. Falhou em todas as vezes.

A médica estava sendo o mais forte que podia e superava o luto. Mesmo com a quarentena e o vírus, ainda existiam alguns pacientes que precisavam de sua ajuda. Mariano jamais seria esquecido por ela e sempre estaria em suas memórias, então era hora de seguir em frente, mantendo as lembranças com o paciente como um motivo para ser forte e ter fé no futuro. Ainda existiam outras pessoas dentro daquele prédio que precisavam de sua ajuda.

Guardando o celular em seu jaleco, Amélia passou pelas portas do CAPS.

Pra Deus eu peço que eu não perca a fé no amor

Pro novo sol de paz se abrir

E no que a escuridão tentar te dominar

Sempre uma luz irá surgir

Que prevaleça a fé até na dor

Pro novo sol de paz se abrir

E no que a escuridão tentar, eu hei de resistir

Vou adiante

O Jipe esverdeado estacionou na rua que estava deserta – ou pelo menos, parecia estar. Estavam parados em frente a delegacia, que nada mais era do que um prédio de dois andares com a tintura branca descascada. Luzes fracas saíam das janelas, o que até fez a dupla pensar que estava tudo fechado. A chuva ainda caía fortemente e a visão da estrada estava compremetida. Ísis olhava para os lados, observando a quedra d’água. Renan, notando sua preocupação, pegou um casaco que estava jogado no banco e ofereceu à mulher:

— Toma, usa isso pra se proteger. – Ísis olhou para ele – Sabe, não vai impedir você de se molhar, mas pelo menos não estraga a chapinha.

A loira riu.

— Obrigada.

Ambas as portas se abriram e a dupla se pôs a correr com cuidado até a porta da delegacia. Renan usava seu próprio braço em cima da cabeça para proteger o rosto, mas era quase o mesmo que nada. Quando conseguiu passar pela porta giratória, Ísis já estava lá dentro, jogando o casaco encharcado em cima de uma poltrona velha de couro. O homem entrou ensopado, com água escorrendo pelo seu corpo todo e molhando o piso ao redor.

A recepção da delegacia estava parcialmente escura, tendo apenas um resquício de luminosidade provinda de um pequeno abajur que estava no balcão principal de atendimento, mas que não resolvia muito o problema. Renan inclinou a cabeça para cima e observou que as lâmpadas estavam quebradas.

— Cuidado onde pisa. – ele alertou Ísis – Pode ter cacos no chão.

Ísis olhou para o chão e tentou ver algo, mas não conseguiu. O abajur no balcão de atendimento não iluminava muito além de onde estava. Não tinha nenhuma das recepcionistas, que costumavam ficar ali, sorridentes.

— Olá? – Renan chamou, sem obter resposta.

— Será que isso aqui foi atacado por alguns infectados? – Ísis levantou a dúvida.

— Só há um jeito de descobrir.

Renan se aproximou do balcão e retirou o abajur que estava lá, que apagou-se de imediato. Se não serviria para iluminação, poderia pelo menos ser usado como arma. O homem começou a subir as escadas para o segundo andar, pois deduziu que no primeiro era apenas recepção, escritórios de policiais e detetives, e atendimento. Ísis subia, seguindo Renan.

No segundo andar ficavam as celas e os escritórios dos delegados que comandavam o prédio. Ao contrário de onde estavam antes, ali as lâmpadas funcionavam parcialmente. A luz estava mais fraca do que o normal e oscilava, piscando quase sempre. Sendo assim, o ambiente ficava escuro a todo o momento e os flashs rápidos de luz cegavam Renan por certo tempo, que franzia o cenho e piscava rapidamente tentando acostumar o olho naquela situação.

Seguiram por uma sala com algumas mesas e computadores. Nenhum funcionava. Viraram em um corredor totalmente escuro, sem luz alguma. As janelas estavam fechadas e a chuva molhava a grade do lado de fora, colocada no caso de alguma fuga dos presidiários.

O barulho da chuva mantinha Renan relaxado, mesmo em uma situação tensa como essa. Virou o corpo em um semi-circulo, para ver se estava tudo bem com Ísis. Um relâmpago iluminou rapidamente o corredor. A loira, que ainda seguia o homem, mantinha uma expressão séria no rosto.

A dupla seguiu pelo corredor, sendo iluminado de vez em quando por um relâmpago. Os nós dos dedos de Renan estavam brancos, segurando o abajur. Ele estava pronto para atacar, se o atacassem.

Foram guiados pela escuridão até um cômodo grande, que se encontrava mergulhado na penumbra. A janela mais próxima estava tampada por uma cortina escura. Renan só conseguia ver vultos dos objetos no local. Uma mesa e uma cadeira estavam próximas da janela principal.

A dupla conseguiu ver que ali era onde ficavam os presidiários. No final do cômodo, havia uma pequena janela no topo da parede de uma das celas. Quando um relâmpago iluminou aquela área, puderam ver que não havia nenhum presidiário em nenhuma das celas.

— Será que aconteceu uma rebelião? – Renan perguntou a Ísis, que se mantinha atrás e próxima do rapaz.

— Acho melhor eu abrir a cortina. Pelo menos teremos o mínimo de iluminação. – Ísis sugeriu.

A loira começo a andar na direção da janela, contornando a mesa e cadeira presentes, quando tropeçou em algo e soltou um grito abafado.

— Ísis?! O quê houve? – Renan perguntou preocupado, se virando na direção da moça.

— Eu estou bem! – Ísis avisou – Mas acho que tem alguma coisa aqui. Ou alguém.

A mulher estava de costas para a janela, e começava a dar passos lentos na direção da mesma. Renan se aproximava, em alerta, com o abajur nas duas mãos. Com os braços dobrados, estava pronto para deferir um golpe em qualquer coisa que surgisse ali.

O homem lançou um olhar para Ísis e mesmo no escuro, se entenderam. A loira se aproximou mais um pouco da janela, até sentir suas costas encostarem na cortina e seus dedos se entrelaçarem no tecido da mesma. Em um único movimento, moveu-se para seu lado esquerdo.

A chuva batia contra o vidro da janela e as gotículas escorriam pela superfície polida. Renan deu mais dois passos, tentando ver a coisa que estava ali. Mas mesmo com a cortina aberta, tudo ainda estava escuro. Não demorou muito para seu desejo se realizar, embora ele se arrependesse alguns segundos depois pelo que viu.

Mais um relâmpago clareou o céu e também a sala em que estavam. Na cadeira, com as pernas esticadas e semblante assustado, Renan viu o corpo, já sem vida, do delegado. Sangue vindo do pescoço escorria pelo toráx e barriga saliente, respingando no chão. O homem havia sido degolado e sua garganta estava destroçada de um modo brutal e maníaco, como se um único corte não pudesse ser suficiente.

Renan só tinha uma certeza: alguém não queria que ele descobrisse seu passado.

***

Hórus tomou mais um gole do vinho tinto que estava na taça em sua mão.

Pousou o objeto na bancada da cozinha antes de seu corpo ser pressionado pelo de Yuri, que envolveu seus braços na cintura do secretário e depositou mais alguns beijos em seu pescoço. Hórus se virou, ficando de frente para o homem, e seus lábios se encostaram, em um beijo quente e intenso.

Ambos caminharam com os corpos grudados até caírem sobre o sofá estofado do apartamento de Yuri, que ficava no décimo quarto andar de um chique prédio do centro de Cabo. Hórus pegou impulso e inverteu a posição, ficando por baixo. O outro entrelaçou as pernas, envolvendo-as no corpo do secretário, pousando sobre seu colo.

Mais alguns beijos esquentaram a química entre os dois e Yuri começou a desabotoar a camisa branca, mas Hórus interrompeu o beijo.

— Você sabe que eu jamais negaria isso… — Hórus começou, deslizando suas mãos pelas nádegas de Yuri – …mas eu preciso ir. Tenho alguns assuntos pendentes.

— Ah… — Yuri assumiu uma expressão triste e começou a depositar diversos beijos no pescoço de Hórus enquanto falava – Mas você acabou de chegar.

— Eu sei. – Hórus disse no meio de uma risada baixa, perto do ouvindo de Yuri – Eu só vim fazer uma visitinha, ver como você tava – mentiu.

O secretário se desvencilhou de Yuri, levantou e começou a recolocar seu terno italiano que estava em cima de uma das cadeiras. O outro continou deitado, virando-se para encarar Hórus.

— Estou bem, a vida continua desinteressante com toda essa onda de vírus. – Yuri disse desinteressado, enquanto roía a unha do dedo indicador – Aliás, preciso me lembrar de reforçar a segurança daqui. Mesmo que alguém tenha que passar pelo porteiro primeiro, nunca se sabe. Ainda mais com a extensão dos infectados.

— Como assim? – Hórus perguntou interessado, enquanto arrumava seu cabelo em um espelho na parede acizentada.

— De acordo com minhas fontes, o vírus está começando a atingir o mundo das peruas e playboys…

— Ou seja, você. – Hórus brincou.

— …E meu irmão está fazendo algum projeto para resolver esse problema dos grã-finos. – Yuri finalizou.

— Ah, sim, fiquei sabendo. – Hórus mentiu novamente, enquanto pensava no por quê de não saber de projeto algum – Agora vou indo, volto aqui amanhã, para um jantar romântico com espaguete, vinho e salsinha.

O secretário depositou um beijo no rosto de Yuri e saiu. No elevador espelhado, voltou a arrumar a gola da sua camisa, que estava torta. Quando as portas se abriram, Hórus caminhou com sua elegância natural, ignorando o porteiro do prédio. Atravessou a rua com cuidado, molhando-se um pouco com a chuva que caía e adentrou na Kombi que estava usando naquele dia. O lado bom de se trabalhar para o governo era que podia arranjar qualquer carro a qualquer momento. E a culpa cairia no estagiário se algo desse errado.

Com as costas das mãos, depositou duas batidas no vidro que separava a parte do motorista do compartimento traseiro. Os que jaziam ali soltaram alguns granidos, ainda desacordados.

— Ainda vai demorar para fazer efeito. – Hórus comentou baixinho consigo mesmo.

O secretário arrumou a maleta de couro que estava no banco ao lado. Alguns segundos depois, já dirigia a Kombi branca pelas ruas.

***

Renan e Ísis correram de volta ao Jipe, sem nem mesmo ligar para a chuva. Se acomodaram nos bancos do veículo e pararam para respirar um pouco após a corrida enérgica e apressada do segundo andar até ali. Haviam analisado algumas pastas em cima da mesa do delegado e viram diversas fichas de criminosos, que estavam presos ali.

— Tá bem. – Ísis cortou o silêncio, ainda controlando a respiração de volta ao normal – Será que há alguma possibilidade dessa morte não ter nada a ver com você e sim apenas um erro num plano de sei-lá-quem para libertar aqueles caras?

— Pouco provável, eu acho. – Renan respondeu, tentando manter-se focado no meio de toda aquela bagunça – Isso acontecer justo no dia que eu ia vê-lo? Eu seria o cara mais azarado que conheço. E também seria muita coincidência.

Renan não mantinha a crença em coincidências, ainda mais quando algo em sua cabeça lhe dizia que tudo aquilo foi proposital para prejudicá-lo. Para não ficarem em maus lençóis, Ísis ligou o carro e partiram de volta para casa, enquanto Renan usava seu celular para fazer uma denúncia anônima.

***

Diana acabou de jantar e saiu da mesa, levando seu prato e talheres até uma pilha que seria levada para lavar, posteriormente. O casarão em que ela e o grupo estavam era extremamente aconchegante. As paredes eram pintadas da cor creme e o chão de madeira estava coberto com um carpete azul-petróleo com alguns desenhos em amarelo e vermelho. O hall de entrada havia se transformado em uma sala de estar e jantar ao mesmo tempo. Várias mesas cobertas com lençóis lisos e brancos estavam espalhadas por ali, acompanhadas e bancos e cadeiras.

Seguindo em linha reta, Diana começou a subir pela larga escada, coberta com um tapete bordô. Olhando para a parede em sua frente, pôde enxergar a chuva que caía do lado de fora, através do vitral em certical que se estendia por quase toda a parede. Com a mão apoiada no corrimão de madeira revestido de verniz, a dubladora chegou até o meio da escada, que se dividia em dois, dando acesso aos corredores superiores do segundo andar.

Guiou-se pela para a esquerda. Subiu o resto da escada que faltava e começou a andar pelo corredor em que ficava o quarto em que estava hospedada. Enquanto passava por entre algumas colunas que sustentavam o teto, Diana ainda podia ver as pessoas no andar inferior, se alimentando. Podia avistar seus amigos misturados com algumas pessoas que vieram junto com os militares. Outras eram camponesas que moravam naquele território, e como cederam espaço para a construção do casarão, passaram a morar ali.

Demétrio, a cada garfada, olhava para a filha, Ester, que estava ao seu lado direito. Seu irmão Ômega, a sua esquerda, bebia uma taça de vinho, enquanto conversava com Mimi, ao seu lado. Em outra mesa, a médica Donatella cedia sua sobremesa ao filho Alfinn, que sorria agradecido.

Um pouco distante das mesas, Natasha repousava em uma poltrona de couro sintético com um livro aberto em mãos, que havia pegado de uma estante encostada na parede. Em frente a mesma estante, Max segurava diversos livros, enquanto tirava outros dos lugares, tentando arrumar tudo em ordem alfabética.

Diana se distraiu tanto ao ver os amigos que quase passou reto pela porta de seu quarto, que já estava semi-aberta. A mulher repousou sua mão na porta e empurrou levemente, abrindo-a totalmente. Se viu surpreendida ao ver um adolescente ao lado de sua cama, olhando em volta.

Pigarreou.

— Com licença? – ela disse, séria.

— Ah, oi. – o garoto cumprimentou balançando suavemente a mão – Meu nome é Kaíque. Eu sou… Eu era irmão da Maria.

Diana tentou lembrar-se de quem ele falava. Quando se deu conta de que se tratava da última pessoa levada pela morte, sua expressão séria se desfez.

— Oh, eu sinto muito…

— Tudo bem… — ele conseguiu responder – Você é a Diana, certo? Me disseram que esse era seu quarto. Eu só queria te entregar isso.

Kaíque estendeu seu braço, oferecendo a Diana um enveleope e uma correia de bicicleta. A dubladora se aproximou em passos lentos e tomou os objetos para si. O adolescente contornou a moça, que analisava tudo, e começou a sair lentamente do quarto. Abriu o envelope e tirou de dentro uma pequena carta e uma foto dela com Gustavo, sorridentes em cima da bicicleta amarela dela. Tudo ficou claro em sua mente.

— Onde conseguiu isso? – virou-se para a porta, interrompendo a saída do garoto.

Kaíque parou e virou-se, encarando Diana.

— Certa noite, minha irmã e eu voltávamos para casa. Estávamos no metrô e… Bem, nós vimos quando tudo aconteceu com esse cara. Quando fomos ver o corpo, achamos essas coisas com ele. – Kaíque explicou – Minha irmã guardou para te entregar quando pudesse, mas… Ela não pôde.

Diana olhou para a foto em suas mãos e retornou o olhar para Kaíque. Com os olhos um pouco pesados e marejados, sorriu.

— Obrigada.

Kaíque sorriu fracamente em resposta e saiu.

Diana sentou-se em sua cama e leu várias vezes a carta que Gustavo escreveu para ela. Conseguiu controlar as lágrimas, então encostou a carta em seu peito, como se isso tornasse Gustavo mais real novamente, mas sabia que era impossível. A pulseira em seu braço lhe dava forças e ela prometeu silenciosamente a si mesmo que iria se reerguer de todo o caos que estava vivendo naquele momento.

***

As portas do elevador se abriram e Hórus saiu, fazendo um barulho proposital com seus sapatos sociais no piso recém-encerado. Parou em frente a porta do apartamento de número trinta, no sexto andar, e depositou três batidas leves com as costas da mão direita, já que sua esquerda estava ocupada segurando sua maleta de couro. Não demorou muito para a porta se abrir.

— Nossa, que surpresa. – o homem disse – Boa noite, Hórus.

— Olá, querido colega Higor. – Hórus cumprimentou – Posso entrar?

— Oh, claro, claro! – Higor respondeu, deslizando para o lado para que Hórus conseguisse passar.

O secretário entrou com passos leves e olhou ao redor. Roupas estavam jogadas pelos cantos. Um resto de pizza estava em cima da mesa, e Hórus até viu algumas moscas voarem ao redor. Torceu o nariz, com um pouco de nojo.

— Então, você era estagiário do Ivo, certo? – Hórus disse, andando pelo apartamento – Soube de algo mais sobre o caso?

— Ah, acharam o corpo dele jogado em uma estação de esgoto. – Higor comentou, coçando a cabeça – Mas parece que tudo tem a ver com as drogas que envolvem o governo e lavagem de dinheiro.

— É mesmo? – Hórus perguntou com certo tom de sarcasmo.

Caminhando pelo apartamento, o secretário avistou algumas pastas em cima da mesa, com o conhecido carimbo vermelho.

— “Sigiloso”? – Hórus leu e virou-se para Higor, apontando para as pastas – O que é isso?

— Estão abrindo uma investigação sobre isso das drogas. Com o prefeito fora da cidade e agora com a morte de Ivo, precisam fazer uma limpa no alto escalão. E, sem querer ofender, mas acham que o governador não está fazendo um trabalho digno. Além de suspeitas de lavagem de dinheiro.

— Interessante. – Hórus sorriu – São as únicas cópias?

— Sim, sim. As levarei amanhã para que coloquem em prática o plano.

— Hum. – Hórus limitou-se em dizer — Ahn, será que podia me oferecer um pouco de água?

— Ah, claro! – Higor disse e contornou Hórus, indo em direção a cozinha.

Com o estagiário de costas para Hórus, o secretário segurou firme uma cadeira e reuniu suas forças para dar um golpe em Higor, que caiu no chão, atordoado. O copo que estava em suas mãos se espatifou pelo piso, criando uma poça d’água e vários cacos espalhados.

Higor levou a mão à cabeça, tonto.

— Sabe, você está certo em algumas coisas. – Hórus disse colocando sua maleta de couro na mesa da cozinha – Está havendo mesmo uma lavagem de dinheiro e certamente um suporte a drogas. E sim, certamente o governador não está fazendo um bom trabalho. Mas eu estou.

Higor tentou se levantar, mas serviu apenas para levar um chute em seu rosto, caindo novamente no chão. Pelo barulho que ouviu, devia ter quebrado seu nariz e mais algum dente. Cuspiu um pouco de sangue.

— Você se meteu em um grave problema. – Hórus disse calmamente, carregado de cinismo – Agora você sabe demais.

— O quê você vai fazer? – o outro perguntou, com a boca escorrendo sangue – Vai me matar?

— Oh, não. Vai ser algo bem mais divertido! – Hórus respondeu se encaminhando até a mesa e abrindo sua maleta – Sabe, o governo está fazendo mais alguns testes de vacinas. Alguns até deram certo, como em mim mesmo. Mas para fazer a vacina, você precisa do vírus, certo? E digamos que eu dei uma passada em um certo laboratório… E olha o que consegui!

Hórus retirou da maleta uma seringa. O líquido viscoso e amarelado dentro do tubo mostrava que não devia ser algo muito amigável. O secretário se aproximou e envolveu a nuca de Higor com uma de suas mãos, pressionando o rosto dele contra o piso géliso.

Deu duas batidinhas no tubo da seringa com seu dedo indicador e sem um pingo de misericórdia, introduziu a agulha metálica no pescoço de Higor, injetando o líquido com vírus em seu sistema circulatório.

Não demorou muito para o líquido ser totalmente absorvido pelo corpo do rapaz. Hórus retirou a seringa e guardou-a novamente na maleta. Higor começou a ter alguns espasmos, caído no chão.

— Espero que tenha um bom resto de vida, novo zumbi. – Hórus riu sarcasticamente, fechando sua maleta, carregando-a consigo e andando para fora do apartamento. Antes de sair, voltou e levou consigo as pastas sigilosas que estavam ali – Rapaz, quase que eu ia esquecendo.

Saiu do apartamento, fechando a porta. Alguns minutos depois, a Kombi branca já deslizava pelas ruas, em direção à região pobre de Cabo da Praga.

***

— Eu preciso ir atrás do meu irmão. – Mia falou perto da janela, olhando a chuva que caía do lado de fora.

— Mas não agora. – Pedro completou, jogando-se no sofá da sala.

Ed e Débora estavam no quarto. Pedro jamais havia visto seu padrinho tão envolvido com uma mulher antes. Não que o homem fosse um cafajeste, mas a química entre ele e a magnata podia ser sentida por todos que estavam ao redor.

— Não seria legal você sair agora, no meio dessa chuva.

Mia encarou o homem, com uma expressão séria no rosto. Ela sabia que ele estava certo. Seria loucura sair à procura de Gabriel no meio dessa chuva, mas a preocupação se tornava cada vez maior. Passou a noite anterior e aquele dia todo na casa de Ed, que lhe acolheu de braços abertos. Ficou em repouso, enquanto tomava alguns remédios para dor e cuidava dos ferimentos. Mas já estava melhor e sentia-se assim.

— Ele tem razão, meu amor. – Débora surgiu no topo da escada e começou a descer degrau por degrau, majestosa como um lindo cisne, e brincou – Não se preocupe, não vamos te sequestrar. Aliás, até podemos ajudá-la na procura de seu irmão, amanhã de manhã, se quiser.

— Agradeço, mas acho que já fizeram o bastante por mim. – Mia sorriu simpática.

— Oh, que isso?! Eu sou a Magnata das Ruas, consigo achar informações sobre seu irmão em cinco minutos. Fácil, fácil. – Débora disse estalando os dedos.

— Tenho uma ideia de onde ele esteja… — Mia respondeu olhando novamente para o mundo além da janela e da chuva.

— Onde está o dindo? – Pedro cortou o assunto.

— Na cama, deitado. Estava um pouco cansado e resolveu tirar um cochilo. – Débora falou, chegando ao pé da escada e passando pelo sofá em que Pedro estava aninhado.

— Ah, entendo. O velho já não tem mais idade pra conseguir aguentar certas coisas. – Pedro insinuou, rindo.

— Te garanto que ele consegue. – Débora olhou para Pedro com o canto do olho, enquanto se encaminhava para a cozinha – Vou preparar uma pizza, alguém quer?

Mia recusou a oferta, enquanto Pedro saltou do sofá e seguiu o mesmo caminho da magnata.

— Eu aceito! E espero que o senhor Ed tenha alguma cerveja na geladeira.

Com a sala vazia, Mia sentou-se em uma das poltronas disponíveis. Cruzou os braços e afundou sua mente em pensamentos. Agradecia por tudo que aquelas pessoas fizeram por ela, mas já tinha um plano.

E iria partir logo após o amanhecer.

***

A chuva começava a diminuir e Hórus estacionava a Kombi branca. Falava ao telefone com Patrícia, outra secretária, que havia lhe dado as coordenadas de onde queria chegar.

— Obrigado por ser meu GPS, Paty. – Hórus agradeceu.

— Não agradeça ainda, caro Hórus.— Patrícia falou pretenciosa.

— Tudo bem. – Hórus riu – Marcamos depois um jantar acompanhado de uma noite inteira de sexo selvagem.

Você se garante tanto assim, é?

— Ah, apenas me lembro de como você revirava os olhos e gemia pelo meu nome. E isso só porque eu estava com minha língua dentro da sua…

Tudo bem, depois marcamos algo. — a mulher finalizou.

A ligação foi encerrada.

Hórus saiu do veículo, carregando uma maleta diferente, e adentrou no complexo. Alguns mendigos dormiam no chão seco, cobrindo-se com papelão. Outros tentavam se esquentar com o mínimo de fogo que conseguiam fazer em latões de lixo – e alguns usavam a mesma chama para acender cigarros de maconha. Seguiu por alguns corredores em alguns minutos, obrigando-se a pedir informações. Ao ouvir o nome que o secretário pedia, alguns arregalavam os olhos e se afastavam.

Atraía olhares de todas as pessoas pobres que se instalavam no complexo, até porque não é todo dia que viam um homem bem vestido por ali. Mas Hórus não sentia-se intimidado, muito pelo contrário, mantinha uma postura de poder. Não sentia pena de ninguém que tremia no chão de terra por estar quase morrendo de frio. Observava todos com um olhar julgador, tentando decidir qual era o pior dali.

Uma adolescente negra, de mais ou menos dezessete anos, andava distraída com uma pulseira em seu braço – que Hórus julgou ser roubada -, e não avistou o secretário, trombando com o mesmo.

— Não olha para onde anda, mendiga? – Hórus perguntou, irritado.

— Não te interessa, otário! – a garota retrucou.

— Era uma pergunta retórica, acéfala. – Hórus disse, retomando sua caminhada – Isso aqui é a escória da sociedade…

O secretário virou mais alguns corredores, até chegar onde indicaram ser onde estava seu objetivo. Hórus parou perante a porta e abriu-a sem pestanejar. Encontrou um homem sentado em uma cadeira, com as pernas esticadas e os pés apoiados em uma mesa. Ele ria e tragava um cigarro, enquanto um segundo homem ria de alguma piada.

— Olha só, temos visita. – o capacho comentou.

— Você é Casper, certo? – Hórus perguntou adentrando o cômodo.

— Eu mesmo. O melhor e único. – Casper respondeu, ajeitando sua posição na cadeira – E você, playboy, quem é?

— Eu? Bem, eu sou seu pior pesadelo. – o secretário respondeu, com um sorriso irônico e torto em sua face, enquanto seus olhos claros e intensos encaravam Casper – Mas pode me chamar só de Hórus.

***

Renan bebia um copo de água com açúcar na cozinha da casa de Ísis. A loira estava tomando banho. A chuva cessou completamente e eles haviam chegado há menos de meia hora. A adrenalina ainda percorria suas veias. A imagem do delegado morto estava marcada em sua mente e por alguma razão, ele tentava se culpar por aquilo.

Deixando a cozinha, se encaminhou para o andar superior. Parando no corredor, notou que não se ouvia mais o barulho do chuveiro, com as gotículas de água batendo contra o piso. Se Ísis haviia terminado seu banho, agora era a vez de Renan. E ele precisava fazer a barba.

Subiu para seu quarto improvisado, pegou uma toalha e pensou em esperar na frente da porta do banheiro, mas a mesma estava aberta. Bateu rapidamente na mesma, pedindo licença.

A porta acabou se abrindo, revelando uma Ísis ainda um pouco molhada e enrolada numa toalha azul-claro. A loira mexia em seu olho e parecia focada na frente do espelho, a ponto de perceber a presença de Renan apenas alguns segundos depois.

— Ah, mil desculpas, tomei todo o tempo do banheiro.

— Você está usando lentes? – Renan perguntou, encarando Ísis, que estava com as íris dos olhos esverdeadas.

— Loira de olhos verdes iria arrasar corações, não é, mesmo? – Ísis perguntou rindo e dobrando o tronco para aproximar o rosto do espelho. Começou a retirar uma das lentes – Achei essas lentes na casa do Valentim. Descobri que ele fez dois semestres de teatro e tem tanta coisa para caracterização.

— Fico feliz por tudo estar dando certo entre vocês. – Renan encostou-se na porta.

Um silêncio predominou-se no ambiente, porque Ísis quase furou seu olho com a unha postiça enquanto tentava tirar uma das lentes. Depois que conseguiu, disse que deixaria Renan em paz para tomar seu banho.

— E ah… — ela disse, parando na porta e encarando Renan com um olho de cada cor, pois um deles ainda estava com a lente – …Joga fora aquelas seringas. E se tiver mais alguma, joga também. Não quero ter que encontrar meu amigo naquele estado de novo.

Renan apenas assentiu, em silêncio, enquanto Ísis saía, parecendo uma vítima de heterocromia ocular.

O barbeador foi ligado na tomada e começou a deslizar pelo rosto do homem. Os pelos caíam na pia e Renan imaginou como Ísis ficaria irritada se visse aquilo. Jurou a si mesmo que limparia tudo como se nada tivesse acontecido.

Olhou para sua própria imagem, refletida no espelho. Toda vez que essa cena ocorria, se perguntava quem era o homem retratado naquele plano de vidro. Quem Renan era?

Depois de alguns minutos, a pele já estava lisa novamente. Desligou o barbeador da tomada e abriu a torneira para limpar a pia. A pequena queda d’água começou a levar os pelos por ralo abaixo. Olhando sua mão levar a água para a limpeza, sua visão começou a escurecer. Renan desligou rapidamente a torneira e apoiou-se na pia, tentando restaurar seu equilíbrio. Mas falhou.

Seu corpo foi ao chão, com um baque surdo, e em poucos segundos, Renan estava desmaiado no chão do banheiro.

***

A maioria das pessoas no casarão já estava dormindo, o que Fred achou irreal. Kaíque já estava sonhando há muito tempo, enquanto o outro adolescente permanecia de olhos abertos, encarando o teto. Já havia até apelado para a tática de contar carneirinhos, mas desistiu depois do décimo primeiro.

O companheiro de Fred se mexeu na cama ao lado, parecendo que estava acordando, mas foi apenas impressão. Donatella havia ficado em um quarto ao lado, junto com Alfinn, enquanto Gigi permaneceu do outro lado, e os adolescentes dividiam o mesmo espaço.

Fred virou o travesseiro, para que sua cabeça entrasse em contato com a superfície gelada do tecido do mesmo. Seria melhor dormir assim. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Boceja. Inspira. Expira. Ins… Um grito. E parecia ser de… Donatella.

— Kaíque, você ouviu isso? – Fred perguntou exaltado, sentando-se na cama.

Em resposta, o amigo remexeu-se na cama.

— Que ótimo. – Fred ironizou e jogou o lençol que cobria seu corpo para o lado.

Levantou e caminhando em passos lentos, chegou perto da porta. Sua mão, já suando, tocou na maçaneta da porta. Abriu apenas alguns centímetros, no exato momento que dois vultos passaram correndo pela fresta. Fred fechou, assustado. Olhou novamente para Kaíque, deitado na cama e dormindo como se nada estivesse acontecendo.

Envolvido por um sentimento de proteção em relação a Kaíque, Fred abriu a porta e saiu do quarto, fechando-a logo em seguida. Não havia quase nenhuma iluminação, fora as pequenas lâmpadas instaladas nas colunas do corredor e o lustre dourado acima da escada. Seus olhos se arregalaram ao ver Donatella sendo perseguida por dois infectados. No topo da escada, a médica acabou sendo encurralada por um terceiro.

Isso não podia estar acontecendo. Ali era para ser um local seguro. O próprio Fred havia visto os militares trancando portas e janelas enquanto o pessoal se deitava para dormir.

— Alguém ajuda?! – Fred gritou perto de uma das colunas.

— Fred? Não, se esconde, Fred! – Donatella gritou, mas era tarde demais.

Um dos infectados atraiu-se por Fred e começou a correr em sua direção. A boca espumava e o olhar arroxeado parecia distante. Sangue escorria pelo seu rosto. Será que mais alguém já havia sido sua vítima?

Donatella tentou correr para socorrer o enteado, mas um dos infectados que ainda a encurralava agarrou seus cabelos com os dedos fétidos. O segundo se aproximou e começou a depositar chutes e arranhões na médica. Por fim, o primeiro impulsionou o corpo dela para o lado, jogando Donatella pela escada.

Fred gritou ao ver sua madrasta rolar escada abaixo. Quando o corpo de Donatella parou, no chão, seu rosto possuía cortes, seus braços estavam machucados e sua perna esquerda estava torcida em um ângulo que o adolescente achou que era impossível para o corpo humano. O adolescente tentou correr para ajudar, esquecendo-se até do infectado que também corria, mas na direção dele.

O infectado saltou com os braços esticados, pronto para capturá-lo. Quando suas mãos agarraram os ombros do garoto, Fred sentou-se na cama, assustado e com a camiseta encharcada de suor.

— Um sonho… — ele disse para si mesmo, colocando a palma da mão na testa.

— Um pesadelo… — Kaíque corrigiu o colega, agachado ao lado da cama – Você começou a gritar, eu fiquei preocupado. Está tudo bem?

Fred o olhou por um momento, então sorriu.

— Está sim. Agora, está.

***

— Jogar um corpo no esgoto? Pela encruzilhada de Satã, seja educado pelo menos com um defunto. – Hórus ironizou e observou a cadeira com partes enferrujada que se encontrava em frente à mesa de Casper – Não tem nada que não me cause tétano ou alguma doença miserável?

— Que tal a saída? – Casper cuspiu, visivelmente irritado.

— Ah, não. Eu não trombei no corredor lá atrás com uma mendiga cheia de carrapatos à toa.

— Deve ser a Amanda. – o terceiro homem disse, rindo. Casper até acompanharia a gargalhada, mas a presença de Hórus estava fazendo sua raiva natural transbordar. Recebendo apenas um olhar do chefe, o capanga se afastou para perto da porta do cômodo.

— O quê você quer? – Casper perguntou, sério.

— Bom, considere que eu estou fazendo um favor para nós dois. Mais para você, do que para mim. – Hórus disse, colocando sua maleta em cima da mesa, abrindo-a e jogando algumas pastas na mesa de Casper.

O traficante pegou uma delas, abriu em uma página aleatória e começou a correr os olhos pelas linhas com letras minúsculas. Era um pouco difícil para ele conseguir entender toda a linguagem utilizada por advogados e promotores em ofícios e requerimentos juntos em um processo. Sendo assim, resolveu ser mais direto.

— Que merda é essa?

— Essa “merda” é o resultado da “cagada” que você fez. – Hórus respondeu, usandos os dedos para fazer aspas sempre que podia – Quando as pessoas que compravam sua mercadoria ficaram sabendo da morte de Ivo, interpretaram como um sinal de quebra de contrato. A primeira opção, óbvio, era explodir esse complexo. – ele disse, olhando ao redor – E confesso que até não é uma má ideia, porque isso aqui está pior que o lixão daquela novela. Mas resolveram ferrar com você. Todas essas pastas podem não só te condenar, como denunciar e acabar com todo seu esquema. E acredite, essas são só cópias. – mentiu.

— Eu devo dizer obrigado? – Casper sugeriu e então gargalhou.

— Deve apagar esse cigarro de maconha e esse fogo no rabo. – Hórus cortou, agora com uma expressão séria em seu rosto. Casper até se surpreendeu em como o secretário ficava um pouco tenebroso sem o sorriso sacana em sua face – Eu também tenho informantes aqui dentro e sei sobre os seus planos. O que você planeja não pode acontecer.

Casper ficou sério por um momento, então deu mais uma tragada em seu cigarro e gargalhou o mais alto que pôde.

— Você se deu o trabalho de pegar sua Ferrari importada para vir até aqui e dizer isso?

— Eu vim de Kombi. – Hórus disse, dobrando o tronco e apoiando as mãos na mesa – O governo está muito chateado com você, Casperzinho, então tente não estragar as coisas, ok?

Casper permaneceu em silêncio. O capanga se aproximava lentamente com um pé-de-cabra na mão, pronto para atacar Hórus pelas costas. Com o braço levantado, ficou na distância perfeita para o golpe, que foi desferido rapidamente.

Para a surpresa dos dois, Hórus era mais esperto e rápido. Virou-se em grande velocidade, agarrando o pé-de-cabra.

— Francamente, usando velhos truques? – Hórus perguntou.

O capanga tentou tomar a arma de volta para si, mas recebeu uma cotovelada de Hórus, caindo no chão e deixando o pé-de-cabra nas mãos de Hórus, que virou-se para Casper, que pela primeira vez naquela conversa, mostrou-se sem reação.

— Acho que entendeu que não estou para brincadeira. – Hórus ameaçou com um sorriso psicótico no rosto – Cancele tudo que planeja e volte para o suburbio das drogas.

Hórus guardou suas pastas e fechou a maleta. Começou a sair da sala no momento que o capanga ameaçou se recuperar e levantar, mas o secretário o golpeou com o pé-de-cabra em suas costas e largou a arma no chão, saindo daquele cômodo.

Alguns minutos depois, se encontrava novamente na Kombi branca, pronto para partir. Seu plano parecia ter dado completamente certo. O toque de seu celular o avisou que uma ligação estava sendo recebida. Ao olhar o visor, não contece um sorriso cínico.

— Ora, ora. – Hórus disse, enquanto deslizava o botão avermelhado para negar a ligação de Anúbis.

Não tinha tempo para lidar com aquele tipo de homem no momento. Estava pensando em Casper. Havia estudado sobre o traficante por alguns dias. Sabia que ele odiava ser desafiado e que quando queria fazer algo, fazia. E quando era imposto a não fazer, ficava ainda mais determinado. Hórus sentia-se um pouco realizado.

O expurgo iria acontecer.

***

O sol estava brilhando no céu há menos de uma hora, mas Mia já estava completamente disposta. Vestia uma bota de couro, uma calça jeans e uma camiseta branca, enquanto mantia os cabelos presos em um rabo-de-cavalo. Já havia tomado seu café-da-manhã e analisava a rua pela janela da sala. Parecia tudo estar calmo e sem muita movimentação. Era o momento perfeito.

Pegou um pequeno guardanapo na cozinha e uma caneta qualquer que achou pela casa. Escreveu algumas palavras de agradecimento pelos cuidados e hospitalidades. Desejou que ainda se encontrassem em qualquer dia da vida e desculpou-se por sair sem muita cerimônia.

Andou até o quarto onde Pedro estava dormindo. O rapaz havia jogado toda a roupa de cama no chão e roncava profundamente, babando pelo canto da boca. Vestia apenas uma cueca samba-canção azul escura, o que deixou Mia completamente constrangida. Depositou o “bilhete” em um lugar que o homem pudesse ver quando acordasse. Antes de sair, revistou as gavetas da cômoda daquele quarto, até achar o que procurava.

Verificou se a arma estava carregada e ficou satisfeita quando viu que sim. Pediu desculpas silenciosamente a Pedro por isso também e saiu do quarto. Ed e Débora pareciam já estarem acordados no quarto dele e estavam distraídos, o que não dificultou em nada a saída de Mia.

Com a arma guardada estrategicamente, a garçonete caminhava pelas ruas, observando tudo em volta. Meteria uma bala na cabeça do primeiro infectado que aparecesse. O foco em achar seu irmão impulsionava todo o seu instinto. Ela sabia que Gabriel não estava morto, caso contrário, sentiria isso.

Com o sol iluminando o céu, a moça solitária se encaminhou até os destroços do bar.

***

O prédio da Falcon Magazine nem parecia se encontrar em uma ilha que estava em quarentena com um surto de epidemia. Obviamente, o movimento havia diminuído, mas muitas secretárias corriam marcando reuniões de última hora, fotógrafos faziam contato com modelos internacionais, estilistas meditavam em grupo para criar uma nova linha de roupas em que a revista cobriria o desfile de estreia.

Marcela caminhava calmamente pelo corredor, voltando do seu horário de almoço. Havia chego novamente no prédio há apenas cinco minutos e recebeu a notícia de que as quatro reuniões que tinha para aquele dia foram canceladas. Inicialmente, quase sentiu raiva, mas então deduziu que teria o resto do dia de folga. Por isso andava calmamente.

Usava um belo vestido longo com estampa de flores – de acordo com ela, última tendência em Dubai. Óculos escuros da cor branca tampava seus olhos azuis, enquanto os cabelos bem hidratados serpenteavam pelo ar enquanto ela desfilava pelo corredor. Com o braço dobrado, carregava uma bolsa Chanel bege.

No rosto, a maquiagem leve servia apenas como um complemento para seu sorriso iluminador. Sentia-se feliz, completa e segura. A cada dia que passava, sentia estar mais longe possível da lista da morte.

Chegando em seu escritório, notou que Amy não estava em seu local de costume. Emily, a estagiária, tentava achar alguma coisa em uma pilha de papelada. Marcela contorceu o nariz ao olhar a legging verde-limão e os óculos rosa que ela usava.

Após abrir a porta e adentrar em seu escritório, Marcela percebeu que Amy estava sentada em sua cadeira, analisando os quadros nas paredes. Com o braço ainda segurando a porta, usou a outra mão para retirar seus óculos escuros. Pigarreou e entrou na sala, fechando a porta. A secretária virou-se, olhando para ela.

— Bom dia, Marcela. – Amy disse apoiando o cotovelo na mesa para que sua mão servisse de apoio para o queixo. Sorriu.

— Bom dia, Amy. – Marcela respondeu achando tudo estranho. Franziu o cenho – Sabe, Emily parece estar com algum problema ali fora e eu não tenho nenhum trabalho específico para você, será que podia…

— Não. – Amy interrompeu e Marcela a encarou imediatamente. A secretária ainda sorria.

Marcela respirou fundo.

— Olha, Amy, eu não sei que tipo de brincadeira você está fazendo, mas…

— Não é brincadeira. – Amy cortou novamente, finalmente parando de sorrir. Apoiou as mãos na mesa e começou a batucar na superfície com as unhas – Eu cansei de ser humilhada diariamente para tornar sua vida feliz e perfeitinha. Quando na verdade, você é podre.

— Está bem, Amy. Você está irritada. – Marcy observou, colocando sua bolsa em cima da mesa – O quê você quer? Um aumento? Férias?

— Ah, não. Não creio que seu segredinho sujo venha a valer só isso. – Amy respondeu, levantando-se da cadeira e caminhando pelo escritório.

— Do que você está falando? Acho que está havendo um pequeno engano aqui e…

— Aquela casa. Aquela morte. Aquele assassinato. – Amy interrompeu, observando a cara surpresa e assustada da chefe – Isso mesmo. O assassinato que você cometeu. Quer dizer, pelo menos o único que eu saiba. – riu sarcasticamente.

— Já entendi. Chantagem. – Marcela deduziu – O quê você quer?

— Você vai descobrir em breve. – Amy respondeu andando em direção à saída – E não será nada barato.

Marcela observou a secretária saindo da sala e um sentimento de perdição começou a ruir dentro dela. Não era para ninguém saber o que ela havia feito, muito menos manter a informação viva. Ela apenas fez o que fez para se salvar e não poderia permitir que alguém usasse isso contra ela.

***

Renan acordou em sua cama. Sua cabeça parecia que iria explodir. Tentou puxar me sua mente a última lembrança da noite anterior. Muita chuva, Ísis, um delegado morto… Ele havia desmaiado. Apoiando-se na parede até conseguir reestabelecer completamente seu equilíbrio, caminhou para fora do quarto. Começou a descer a escada, ainda tateando a parede, até começar a ouvir a voz de Ísis. A loira parecia estar conversando com alguém no telefone.

— …sim. É… Sim, isso. Creio que semana que vem. Renan vai ficar bem? – Ísis perguntou, então virou-se e observou o homem descendo pela escada. Encarou o rapaz por um certo momento – Doutora Soave, irei retornar a ligação depois. Renan acabou de descer.

Ísis lançou levemente o telefone no sofá, acertando uma almofada. Colocou as mãos na cintura e observou Renan terminar de descer as escadas.

— Por quê estava ligando para a doutora? – Renan perguntou.

— Talvez porquê eu te achei caído no chão do banheiro e te carreguei até o quarto, enquanto você sussurrava palavras sem sentido? – Ísis ironizou.

— Palavras sem sentido? – Renan perguntou curioso.

— É. Algo a ver com lugar fechado, pedras e vidro. – Ísis respondeu, gesticulando com a mão – Mas o que importa é você está caindo em ruínas de novo, Renan. Olha, eu quero te ajudar, de coração, mas você precisa me dizer se tem algo a mais que não me contou?

Renan ficou pensativo por alguns segundos. Será que tinha visto mais sinais ou foram cenas do seu passado? Algo em sua mente lhe dizia que ele havia recuperado mais um pedaço de sua memória, mas ele não conseguia pensar com clareza o que era. Toda a bomba atômica que segurava começava a contar regressivamente e a qualquer momento explodiria. Só desejava que Ísis não fosse atingida.

— Não. – Renan respondeu – Eu só tive uma tontura e acabei indo ao chão.

Ísis processou a resposta por alguns segundos. Queria acreditar plenamente nele, mas sabia que ele deveria estar guardando algo para si. Por fim, disse que havia surgido uma aula de francês particular de última hora. Pediu para que Renan se cuidasse, pegou sua bolsa e caminhou até a saída.

— E ah, nós vamos cortar os carboidratos da sua alimentação. – Ísis disse apontando o dedo para ele enquanto começava a fechar a porta – Só Deus e eu sabemos o quanto você é pesado.

Renan não conseguiu evitar rir da piada da amiga.

Deitou no sofá e fechou os olhos por um instante, tentando encontrar a peça do quebra-cabeças que havia achado durante o desmaio. Respirou fundo, mas teve que voltar ao mundo real rapidamente, pois uma sensação de afogamento trancou sua garganta. Estava ofegante.

Enquanto controlava a respiração, jurou ter ouvido uma voz masculina que possuía um tom maléfico.

***

Donatella caminhava ao lado do filho pelo gramado próximo do casarão. Desde o último acontecimento envolvendo seu “amigo secreto”, a médica estava com receio. Não por si mesma, mas pelas pessoas que amava. Se Joker machucasse alguma pessoa próxima, ela jamais se perdoaria.

— Filho, você não lembra de nada sobre aquele Coringa que brincou com você? – ela começou a perguntar. Alfinn negou – Nada mesmo? Cor dos olhos? Voz? Se tinha algo que lembrasse algum conhecido?

— Não, mãe. – Alfinn respondeu erguendo um pouco o tom de voz, então voltou ao normal – A máscara cobria todo o rosto. Ele usava uma roupa escura e luvas, não vi nada. E a voz era engraçada, era toda extravagante e exagerada. Parecia ser a voz do próprio Coringa lá!

A médica analisou o filho por alguns segundos, apenas com os sons dos passos dos dois predominando sobre o silêncio que se instalou.

— Meu filho, presta atenção em mim. – Donatella pediu, parando e ficando de frente para o garoto – Não se aproxime mais dessa pessoa, se ela aparecer novamente, ok?

Alfinn pensou em protestar, mas Donatella não lhe deu chance.

— Por favor, Alfinn. Lembre-se que o Coringa era o vilão na história do Batman, certo? – Donatella argumentou, usando todo o seu conhecimento adquirido no último filme que assistiu sobre o homem-morcego – Me promete isso?

Alfinn permaneceu em silêncio, com a cabeça baixa por alguns instantes.

— Alfinn, me promete?

— Está bem, mãe, eu prometo! – Alfinn finalmente disse, e então começou a caminhar novamente para o casarão.

Na porta do mesmo, alguns camponeses entravam e saíam. Demétrio, Ulysses, Alisson e Mimi estavam próximos, enquanto Diana havia acabado de chegar. Olhando ao longe, Donatella pensou em como aquele grupo realmente parecia uma alcateia de verdade, pronta para proteger uns aos outros.

***

Mia virou a esquina da rua em que ficava o bar. Se fosse um dia normal, os destroços estavam sendo limpos e faixas marcariam que ela não poderia passar. Mas não tinha nada disso. A garçonete revirou tudo, em busca de alguma pista ou pegadas.

A rua continuava deserta e ela não obteve sucesso na procura. Seu irmão havia sumido e Mia caminhava para a segunda chance. Se Gabriel não estivesse para onde ela estava indo, talvez estivesse em algum hospital, recebendo ajuda médica.

A arma pressionava sua cintura, dentro da calça, lembrando a mulher que ela poderia se defender sozinha, mesmo que ainda tivesse alguns ferimentos no braço.

Ficou espantada ao ver um corpo caído na calçada. Se aproximou, com cuidado, para analisar e não negou satisfação ao ver que se tratada do homem que quase causou sua morte. A marca da bala permanecia no defunto.

Mia recomeçou a andar.

Passos arrastados chamaram sua atenção. Parou e olhou em volta, mas não viu ninguém. Ainda atenta e olhando para os lados, deu mais alguns passos. Soltou um grito abafado ao ser empurrada e cair ao chão. Virou o rosto e observou três homens infectados atrás dela. De onde eles haviam aparecido?

O mais próximo, que a empurrou, se aproximou para atacar Mia, mas a moça foi mais rápida e esticou sua perna, atingindo em cheio o rosto do infectado. Os outros dois tentaram atacar, mas a garçonete rolou pelo chão e levantou-se. O primeiro, visivelmente irritado, avançou com brutalidade sobre ela.

Mia foi mais rápida novamente. Sacou a arma de sua cintura e antes que o infectado percebesse, já estava no chão com uma bala alojada no meio da testa. Os outros dois também atacaram, sem receio. A mulher desviava dos golpes e tentava achar uma chance para atirar.

Na primeira oportunidade, disparou. Porém, o tiro apenas atingiu um dos infectados, provocando apenas mais ira nele, além de diminuir sua velocidade. Mia estava pronta para atacar o terceiro, quando sua visão periférica lhe avisou que havia alguém ao lado dela. Virou o rosto e viu mais três infectados. Do outro lado, mais quatro. Olhou para trás, e um último caminhava, sem pressa.

Mia esticou o braço para disparar, mas uma mulher infectada que estava próxima lhe golpeou, fazendo-a soltar a pistola. A arma deslizou pelo asfalto até parar nos pés de um dos infectados.

Olhou ao redor, estava perdida. Dez infectados a cercavam e ela estava desarmada.

***

Thiago e Sabrina estavam perto da entrada do casarão, seguindo pela estrada de terra que levava até a porta de entrada. Dois militares estavam a postos no portão, prontos para a defesa, por isso, sentiam-se seguros ali. Uma moça em uma carroça havia passado com seu marido e filhos. As crianças tossiam muito, mas ao ser interrogada por um dos soldados, a mãe jurou que era apenas uma gripe de verão.

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A estrada de terra se entendia entre os campos verdes. Thiago respirava fundo, sentindo o ar puro sempre que podia, enquanto Sabrina reclamava que sentia falta do cheiro de seus incensos.

— Eu estou te dizendo, Thiago. Se eu tivesse comigo pelo menos aquele incenso da caixinha preta, meu quarto seria o paraíso. – Sabrina falou.

— É, e pro resto da casa seria um inferno com aquele cheio horrível. – Thiago comentou, acendendo um cigarro.

— O quê?! É um cheiro tão bom. – Sabrina disse – Não é porque está escrito “Sangue do Diabo” na descrição da caixinha que é algo ruim.

— Ele tem cheiro de meia velha. – Thiago retrucou, tragando seu cigarro.

— Meia velha eu vou socar na sua goela abaixo. – Sabrina respondeu e ambos compartilharam uma risada.

A conversa dos dois foi interrompida após ouvirem um estrondo. Se viraram e observaram a carroça tombada contra o portão. Um dos soldados se encontrava inconsciente, talvez morto, debaixo de uma das rodas. O outro tentou se armar, mas a mulher infectada saltou de dentro do veículo, atingindo o homem e o derrubando. Começou a arranhar e morder seu rosto.

Três crianças saíram da carroça, cambaleando. Babavam e possuíam um olhar arroxeado. Um homem barbudo e gordo, o pai deles, apareceu logo atrás, na mesma situação.

Thiago e Sabrina se entreolharam.

— Corre, Sabrina, corre! – Thiago disse, começando uma corrida em direção ao casarão.

— E por um acaso você acha que eu ficarei parada?!

Os infectados logo pularam o portão e começaram a perseguir os dois. Como o vírus havia chegado a zona rural?

***

Mimi divertia Demétrio, Alisson e Ulysses com suas histórias envolvendo a atuação e teatros, perto da porta do casarão. Lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos de Ômega, devido às gargalhadas.

— Eu estou falando sério, o último teatro que eu fui estava caindo aos pedaços! – Mimi contou, gesticulando – Eu juro que vi um rato passar. Se duvidar, tinha até um corpo em decomposição em algum lugar.

Natasha e Max se aproximaram, de mãos dadas. Ester, Alfinn e a chinchila da garota brincavam no gramado, próximo ao grupo. Donatella havia entrado no casarão, enquanto Alfa prometeu que ficaria de olho no filho dela.

— Também quero rir. – Natasha disse simpaticamente.

— Ah, não é nada demais. – Mimi disse – Estamos apenas jogando papo fora compartilhando histórias.

— Histórias de escoteiro? – Natasha perguntou, olhando para Demétrio e Ulysses.

— Ah, nossas histórias não têm nada demais. – Démetrio falou, modesto.

— É, com certeza. O mais emocionante que Alfa tem para contar é quando ele fez fogo pela primeira vez com uma pedra e um pedaço de graveto. – Ulysses brincou.

— Não era eu que me borrava ouvindo a história de O Gritador ou O Cotoco. – Demétrio devolveu, olhando para o irmão.

— Isso é golpe baixo! Eu juro que ouvi o Gritador no nosso terceiro acampamento! – Ulysses protestou.

— Está bem, as princesas vão ficar discutindo ou vão contar para a gente? – Alisson interrompeu os irmãos, com um sorriso no rosto.

Demétrio encarou os olhos da morena por alguns segundos. Sentiu o rosto começar a corar, então olhou para o irmão.

— Quer contar alguma? – Demétrio perguntou.

— Claro que não. Vou começar a gaguejar e chorar de medo no meio de qualquer uma delas. – Ulysses brincou, fingindo tremer de medo.

Max e Natasha sentaram-se em bancos que encontraram por perto, embora o homem ficasse um pouco incomodado com um prego torto que estava na lateral do assento. Todos olhavam atentamente para Demétrio, esperando o cineasta começar sua história.

— Está bem. Essa história é verdade, palavra de escoteiro. – Alfa começou – Certo final de semana, um grupo de escoteiros saiu para uma atividade campista. Enquanto caminhavam, acabaram encontrando outro rapaz, usando botas de borracha, que pediu permissão para acompanhá-los na caminhada. Eles aceitaram.

Respirou fundo e olhou para as crianças brincando e rindo. Elas haviam se afastado um pouco mais, mas ainda permaneciam sobre a visão dele.

— Após a caminhada, pescaram e fizeram uma fogueira. Todos se divertiam e pareciam felizes. Um dos escoteiros, chamado Vini, achou estranho que o desconhecido não tirava as botas nunca, mas resolveu ficar quieto. – Alfa continuou, entretendo todos os olhares em volta — Depois de todas as atividades, se colocaram para dormir, menos Vini, que ficou intrigado com o rapaz conhecido. Fingia estar dormindo, até notar uma movimentação estranha. Virou silenciosamente, até ver o garoto desconhecido retirar suas botas.

Mimi não piscava, roendo uma de suas unhas. Alisson encara Demétrio, enquanto Max mexia a perna, nervoso. Ulysses ria, já sabendo o final da história.

— No lugar dos pés, o garoto tinha duas pontas de ferro. Ele estava aquecendo-os na fogueira, deixando o metal quente. Então, o garoto caminhou até o primeiro garoto e pisou em cima dele, bem no coração, perfurando-o.

Demétrio ficou em silêncio e olhou para todos.

— Tá, mas e aí? – Mimi quebrou o silêncio.

— Eu não sei. Ninguém sobreviveu para relatar mais que isso.

Natasha começou a protestar. Se ninguém sobreviveu, como a história iria se percorrer? Ulysses gritava dizendo que Alfa havia esquecido de algum detalhe. Alisson ria em seu canto. Demétrio sentia-se bem, depois de muito tempo.

— Conta a outra agora, mano. – Ulysses pediu.

— Qual? – Alfa perguntou.

— O Grit…

Nesse momento, um grito ecoou pelo local. Demétrio virou-se imediato, com uma expressão preocupada no rosto. Pela estrada de terra, Thiago e Sabrina corriam apavorados, e alguns infectados os perseguiam.

— Todos para dentro. Agora! – Demétrio ordenou.

Mimi foi a primeira a correr para dentro do casarão, seguida por Ulysses. Demétrio olhou para o lado, vendo que Alfinn tentava subir em uma árvore, enquanto Ester o incentivava, com a chinchila em seus braços. As crianças, distraídas, não repararam no perigo que se aproximava.

— Ester! Alfinn! – Demétrio gritou e correu em direção das crianças.

— Alfa, espera! – Alisson disse, seguindo o homem.

Thiago e Sabrina suavam e os infectados estavam cada vez mais próximos.

***

Mia sentiu a morte se aproximando novamente. Talvez seu irmão não tivesse lhe salvado no bar. Talvez fosse apenas um teste. Talvez agora era sua hora e seu destino fosse morrer pelas mãos de infectados. Talvez.

Tentou recuar, mas não tinha para onde. Para todos os lados tinha alguém espumando e querendo o sangue dela. O círculo de infectados estava a prendendo cada vez mais e ela olhava ao redor, assustada.

— Ei, grupinho do The Walking Dead! — uma voz feminina gritou ao longe, chamando a atenção dos infectados.

Mia também olhou, a tempo de observar Elly pendurada na janela de uma van, balançando os braços. Stein olhava fixo com as mãos no volante e acelerava. A garçonete aproveitou a distraçao e passou a rasteira em dois infectados, abrindo passagem. Se jogou em direção ao meio fio, rolando pela calçada, no exato momento que a van atropelou alguns dos "zumbis". Quatro rolaram pelo vidro e foram lançados ao ar até caírem com um baque de ossos quebrando ao entrar em contato com o chão. Três conseguiram sair da frente e olhavam espantados para a cena. E um último acabou tendo a cara quebrada pelos pneus do veículo, após ser atropelado.

Elly rapidamente abriu a porta da van.

— Rápido, Mia! Vem!

Mia levantou-se da calçada e correu, injetando seu corpo em um dos bancos estofados. Elly fechou a porta e Stein voltou a dar a partida, acelerando o veículo pelas ruas.

— Você está bem! — Elly comemorou abraçando a amiga.

— Estou, estou. — Mia respondeu — Meu irmão, vocês viram ele?

— Oh, sim. — Elly falou – Está em casa. Apareceu ontem por lá, disse que havia acontecido um grande acidente e que você tinha sumido. Estava um pouco ferido, mas nada grave. O nosso poodle estudante de química metido a farmacêutico ajudou nos ferimentos dele.

— Que poodle? – Mia perguntou, um pouco confusa.

— O Erick, óbvio. – Elly respondeu, mexendo em algumas sacolas do banco traseiro. Mia riu.

— Elly! – Stein repreendeu a irmã.

— Que foi? É apenas a verdade. – Elly deu de ombros – Dirige aí, Lobo Mau! Está com fome, Mia? Acabamos de assaltar um mercado!

Elly sorriu com a última coisa que disse, como se fosse o melhor exemplo do mundo. Mia viu Stein torcer no nariz. A garçonete acabou aceitando comer alguma coisa.

— Agora, pode me contar tudo! Onde esteve, garota?! – Elly pediu, mordiscando uma maçã, enquanto Mia começava a narrar sua história.

***

Max segurava na mão de Natasha, enquanto corriam para o interior da casa. Ulysses esperava os amigos na porta, incentivando-os a correr. Diana entrou o mais rápido que pode.

— Espera, Max! – Natasha disse – Precisamos ajudar o Alfa e a Alisson!

— Eles conseguem, Natasha, vamos. – Max protestou, puxando a mão da negra. Ele estava apavorado, não queria que nada de ruim acontecesse. Principalmente com Natasha.

— Vamos distrair os infectados. Damos a volta na casa e entramos pela porta dos fundos. – Natasha propôs.

— Isso pode dar tão errado! – Max rebateu – Quem garante que a porta dos fundos vai estar aberta?

— Temos que tentar. – Natasha pediu, solene.

Thiago e Sabrina se aproximavam. Os braços esticados dos infectados estavam a poucos centímetros dos corpos dos dois. Se houvesse um tropeço ou perdessem velocidade, tudo estaria acabado. Max olhou para Natasha e então virou seu rosto, em direção a porta.

— Ulysses? – ele chamou – Cuide da porta e ajude seu irmão. Vamos distraí-los.

Ômega fez um sinal de positivo com a mão. Max encarou Natasha por alguns segundos e então concordaram com a cabeça em um mesmo movimento. Se puseram a correr na direção de Thiago e Sabrina. Quando chegaram próximos o bastante, viraram, iniciando o contorno da casa, junto com eles, que haviam entendido o plano de imediato.

Sabrina era a mais rápida, correndo na frente. Seus cabelos balançavam com o vento. Natasha corria, logo atrás, praticamente na mesma velocidade que Thiago. Max ia atrás dos dois, tomando cuidado para não tropeçar em nenhum pedregulho. Bastou apenas uma rápida olhada para trás, para que Max confirmasse sua suspeita: o plano havia dado errado.

Dos cinco infectados que invadiram o terreno, apenas dois seguiram o grupo. Um deles devia ser a filha do meio, adolescente de mais ou menos quinze anos. Ela era mais rápida que o irmão, que parecia ter uns dezenove. A dupla espumava e encarava suas presas com um olhar predador.

Max lançou um olhar repreensivo para Natasha, mas a negra estava ocupada demais guiando o grupo.

— Rápido, a porta dos fundos! – ela gritou ao ver a passagem aberta.

A porta dos fundos dava acesso a cozinha da casa. Sabrina foi a primeira a entrar, rápida como uma flecha. Thiago passou reto da porta.

— Thiago, não! – Sabrina gritou, olhando o amigo correr para longe.

Natasha correu para dentro do casarão, apavorada. Max a seguiu, e assim que o homem adentrou na residência, a negra fechou a porta, no exato momento que um infectado quase entrou. Começou a arranhar a porta, tentando entrar. Pela janela perto da porta, observaram a jovem infectada também continuar seu caminho em linha reta.

— Ela está indo atrás do Thiago! – Sabrina comentou desesperada – Precisamos fazer algo!

— Precisamos lidar com esse aqui primeiro! – Natasha apontou.

O casal estava apoiado na madeira da porta, tentando impedir que o infectado entrasse. Ouviam as batidas, arranhões e investidas do mesmo, na tentativa de capturar suas presas. Diana entrou na cozinha, curiosa para saber o que estava acontecendo aqui. A correia, que seria um último presente de Gustavo, permanecia em sua mão, como um amuleto da sorte.

— Ai, meu Deus, são vocês! – Diana falou aliviada.

— Rápido, ajuda a gente! – Max gritou.

Sabrina se via encolhida pela primeira vez desde muito tempo. Seu pensamento viajava, pensando em Thiago. Diana chamou-lhe a atenção, pedindo seu auxílio.

— Vamos precisar deixar esse infectado entrar. – Diana começou – Mas primeiro precisamos nos armar.

A dubladora se aproximou do balcão da cozinha e começou a revirar as gavetas, em busca de algo útil. Encontrou a gaveta das facas. Pegou uma delas, que parecia ser uma machadinha de açougue, e esticou o braço, oferecendo a Sabrina. Depois, pegou uma segunda faca, pontuda e afiada, para si. As duas se aproximaram da porta e sinalizaram para Natasha e Max. Um… Dois… Três!

Natasha e Max se afastaram da porta, que abriu-se em um estrondo. O homem tropeçou nos próprios pés, deslizando pelo piso da cozinha. O infectado adentrou no cômodo, pronto para atacar o rapaz. Mas Diana foi mais rápida.

A dubladora investiu contra o infectado, esfaqueando suas costas em um golpe certeiro. A segunda não demorou muito e acertou em cheio a cabeça do jovem com a machadinha. Diana retirou a faca, enquanto o corpo caía no chão, enchendo o piso com sangue.

Sabrina esperou a confirmação de que ele estava morto e saiu correndo dali, indo na mesma direção que Thiago e a infectada seguiram. Ela estava cega pelo medo.

— Sabrina, espera! – Diana gritou, seguindo a amiga.

Max levantou-se do chão e abraçou Natasha, dando-lhe um beijo na testa, tomando cuidado para não entrarem em contato com o corpo ou o sangue.

***

Renan estava tendo uma convulsão. Em sua mente, diversas imagens apareciam como flashs. Ele parecia estar fechado em um lugar e a saída estava tão distante e inalcançável. Água parecia prendê-lo e ele afundava cada vez mais, até tudo ficar escuro.

Quando voltou ao estado normal, um filete de sangue escorria pelo seu nariz. Avistou Ísis entrando na casa e largando a bolsa no chão ao vê-lo daquele jeito. Correu para ajudá-lo.

— Renan? Renan, está me ouvindo? – a loira perguntou, tocando no rosto dele.

— Estou, eu só preciso de… — Renan tentou dizer, mas começou a tossir.

— Eu vou buscar um copo de água, fica aí! – Ísis disse e correu para a cozinha.

— Preciso ligar para o Demétrio… Alguém corre perigo… — Renan disse para si mesmo, arrastando-se pelo chão.

Conseguiu alcançar o telefone e discou o número de Demétrio. Esperou chamar uma, duas, três vezes.

— Droga! – ele disse, desligando a chamada e tentando novamente.

Renan virou-se para a porta, que Ísis se esqueceu de fechar. Do outro lado da rua, avistou uma Kombi branca parada. Não conseguia ver o rosto do motorista, mas sabia que estavam olhando para ele.

— Ísis? Por um acaso você conhece alguém que tem uma Kombi branca? – Renan perguntou, ainda com o telefone na orelha.

— Não, por quê? – Ísis devolveu. Ela parecia estar procurando um pote de açúcar na cozinha, para colocar na água.

Nesse momento, a Kombi deu a volta e quando passou na frente da casa de Ísis, as portas se abriram e três corpos foram despejados na calçada. Renan pensou que fossem defuntos, mas eles começaram a se mexer. Aquele tipo de olhar, a espuma.

— Ah, não, mais infectados!

O rapaz se apressou em fechar a porta, mas não foi o suficiente. Um dos infectados se jogou pela janela, invadindo a residência.

***

Thiago corria pelo gramado. Tentou distrair os dois infectados para pelo menos salvá-los. “Heroísmo idiota”, pensou sobre si mesmo. Por final, apenas a garota o seguiu. Será que todos os infectados tinham o mesmo plano de ficar se dividindo entre as presas?

Bisbilhotou se ainda estava sendo seguido e suspirou aliviado quando percebeu que a infectada ficara para trás. Porém, trombou em alguém e o corpo de ambos rolaram pela grama. Thiago se levantou, um pouco confuso e observou quem ele havia atropelado.

— Ah, que merda! – Thiago exclamou ao ver que o pequeno infectado se levantava do tombo.

Deveria ser o irmão caçula da família, no máximo sete anos.Seus cabelos estavam cheio de gramas e mesmo rosnando e com o olhar perdido, era bonitinho. Thiago levantou as mãos, como se lidasse com um animal selvagem, em sinal de amizade.

— Calma, eu não vou machucar você, está bem? – Thiago falou com a voz doce.

Não havia ninguém por perto, ele conseguiria dar conta de uma criança, certo? Errado.

Thiago começou a andar de costas, sem olhar para trás, evitando contato com o pequeno infectado, que dava passos enquanto rosnava. Apesar de ser pequeno e infantil, o professor sabia que o baixinho poderia ser perigoso. Bastava uma mordida ou um contato com a baba para que se infectasse. E pior do que estar em uma lista da morte, era estar em uma lista da morte e infectado.

O garoto saltou – mais alto do que o normal – sobre Thiago, que se assustou e tombou para trás. Levantou os braços pro alto, segurando a criança no ar, que começou a mexer os braços para todos os lados, tentando atingir o homem. Enquanto esperneava, chutava o peito de Thiago, que gritou um pouco de dor.

Segurando o infectado, o professor andava e se mexia, tentando desviar dos golpes. Sem perceber, os dois se encaminhavam em direção ao poço.

Mais um dos chutes atingiu o loiro, mas dessa vez em seu rosto e ele acabou cedendo. Soltou o infectado, que caiu de pé na grama. Thiago levou a mão ao rosto, enquanto continuava a recuar. A irmã infectada apareceu no campo de visão dele.

— Eu estou encurralado. – ele deduziu.

Ainda andando de costas, não percebeu o tropeço em uma rocha que estava ali. Tombou para trás, em direção ao poço aberto. Seu braço esticou por reflexo e ele agarrou a corda amarrada em uma haste de madeira. Esta mesma corda servia para descer e subir o balde, que atualmente estava enferrujado e servia apenas para guardar garrafas quebradas e ferramentas.

A garota infectada avançou e arranhou a mão de Thiago, que acabou se soltando e caindo no buraco. Enquanto caía, raspou o corpo nas pedras em volta, esfolando seu braço, que ficou vermelho imediatamente. Após poucos segundos de queda, atingiu a água suja de lama.

Afundou por alguns segundos, até submergir. Seu rosto, assim como todo o resto de seu corpo, estava sujo. Uma linha de barro estava marcada em sua testa. Analisou seu braço, enquanto gemia de agonia. Olhou para cima e avistou os dois infectados olhando para ele.

O poço deveria ter quase dez metros de altura e um pouco menos de um metro de diâmetro. Foi construído com diversas pedras, colocando uma em cima da outra, até formar um cilindro. Por um lado, isso era bom para escalada. Mas por outro, parecia estar instável.

— Ei! – Thiago gritou, ouvindo seu eco repetir – Alguém me ajuda! Por favor! Ei!

A adolescente infectada encostou a mão na beirada do poço e uma das pedras se mexeu alguns centímetros, soltando uma poeira no ar. Vendo o resultado, empurrou com mais força, até que a pedra se solto completamente e caiu dentro do buraco.

A rocha foi rebatida entre as paredes, até atingir a água como uma bala de canhão, espirrando o líquido para os lados. Thiago estava encostado em uma das paredes, se protegendo com os braços em volta do próprio corpo. Olhou para cima e observou a infectada tentando empurrar outras pedras, mas nenhuma se mexia.

Thiago sabia que ele não poderia ficar ali. Logo alguma pedra o atingiria. Mesmo com o corpo todo molhado tentou escalar, mas falhou na primeira vez. Na segunda tentativa, conseguiu ficar em um nível um pouco acima da água.

Tentou subir, mas seu pé molhado deslizou na pedra e Thiago quase caiu novamente, mas se segurou em uma outra rocha. Nesse movimento, acabou arranhando a superfície sólida. A unha do seu dedo indicador saiu, fazendo filetes de sangue escorrerem pela sua mão. Grunhiu de dor, mas não podia parar.

Subiu mais alguns metros, entre escorregões e gemidos de dor. O sangue de seu dedo escorria pelo antebraço, até chegar ao cotovelo e pingar na água suja do poço.

A infectada soltou mais uma pedra, que rebateu entre as paredes do poço. Por sorte, não atingiu o Thiago. Logo, ela já estava tentando outra pedra. Pouco a pouco, o professor subia, em uma mistura de pressa e cuidado. Estava perto da metade.

Outra pedra se soltou. Thiago tentou aproximar o corpo da parede do poço, para ficar o máximo distante da área em que poderia ser atingido. Mas não teve a mesma sorte. A pedra que caía foi em cheio em sua outra mão. Ouviu um barulho estridente, como se ossos quebrando, e logo viu dois dedos totalmente tortos.

A pedra caiu na água, enquanto Thiago gritou de dor. Tentou escalar mais um pouco, mas não tinha força na mão esquerda para subir. Tentou novamente e sentiu como se toneladas estivessem sobre sua mão. Suportando a dor, subiu mais um pouco.

Com dificuldade, ultrapassou a metade do poço. Seu corpo estava grudento, devido a mistura da lama com seu próprio suor. Um dos braços estava com manchas de sangue, enquanto a mão do outro estava começando a inchar.

A adolescente infectada tentava derrubar mais pedras, sem efeito. O seu irmão, porém, começou a mexer no balde. Retirou algumas ferramentas e jogou no chão. Outras, jogou no buraco do poço, caindo em linha reta. Thiago abaixou a cabeça e fechou os olhos, para evitar que algo caísse em seu olho.

Um martelo passou raspando pelo seu ombro direito. Enquanto Thiago subia mais um pouco, um grande caco de uma garrafa atingiu o ombro direito. Sangue espirrou para as laterais, enquanto ele mordia o lábio inferior para segurar mais um grito. Estava prestes a se render, pois não estava aguentando mais.

Se equilibrando na mão inchada, levou a outra até o ombro. Segurou o caco com firmeza e tirou de uma vez só. Sangue escorreu pelas suas costas, manchando a camiseta. Segurando o caco, começou a usá-lo como apoio para a escalada. Encaixava o vidro no espaço entre duas pedras e usava-o para ganhar impulso. Estava chegando quase na beirada do poço.

A adolescente tentava soltar mais alguma pedra, sem esforço.

Thiago estava a quatro metros da saída.

A adolescente se agachou e achou um cinzel no chão – uma ferramenta longa e pontiagudo, tomando-lhe para si.

Três metros da saída.

Os pés de Thiago já estavam cansados e ele quase escorregou novamente. Se caísse, não havia garantia de sobrevivência. Talvez caísse e batesse a cabeça em uma das pedras que boiava na água. Ou então, nem saberia como morreu. Já ouviu dizer que quando cai de uma altura muito grande, o cérebro desliga automaticamente. Poderia descobrir se era verdade.

Dois metros da saída.

Sabrina corria desesperada, tentando visualizar um homem loiro e de cabelos compridos fugindo de uma adolescente infectada. Diana vinha logo atrás, olhando em volta.

Um metro da saída.

O dedo sem unha de Thiago sangrou mais um pouco, e duas gotas do sangue caíram em seu próprio rosto, manchando sua bochecha. O ombro ardia e a outra mão latejava, enquanto inchava. Estava muito próximo da saída. Precisava ser rápido para conseguir se salvar. Apoiou o caco de vidro em um espaço entre duas pedras e subiu mais duas rochas acima.

Tomando impulso, Thiago injetou seu corpo para cima. Com o braço livre, segurou na borda do poço. Com o outro braço, que segurava o caco, golpeou a garganta do garotinho infectado. O pedaço de vidro perfurou a jugular do menino, espirrando sangue para o lado. O corpo tombou na grama, sem vida, manchando o verde com o líquido rubro.

A adolescente, segurando o cinzel na mão, atacou Thiago. A ponta metálica se aproximou do rosto do professor, ficando a poucos centímetros do olho claro dele e então… parou.

Thiago encarou a cena, pendurado na borda do poço. O cinzel se afastou de seu olho e ele observou Diana aparecer em seu campo de visão, atrás da adolescente. A correia de bicicleta contornou perfeitamente seu pescoço e começou a estrangular a jovem, enquanto ela tentava se soltar.

A dubladora tentava ao máximo não entrar em contato com a adolescente, para não se infectar, enquanto a estrangulava. A infectada soltou o cinzel e tentou atingir Diana, sem sucesso.

Depois de alguns segundos grunhindo sem ar, o corpo da garota ficou mole, então a dubladora a soltou no chão, com expressão de nojo em seu rosto. Thiago também estava fraco. Seu corpo estava quase escorregando para dentro do poço novamente, mas Sabrina apareceu, lhe dando apoio.

Sabrina e a dubladora puxaram Thiago para fora, salvando-o. Os três ficaram sentados na grama por um tempo, recuperando o fôlego.

— Precisamos ir cuidar de seus ferimentos. – Sabrina disse para Thiago.

— E ele não é o único. – Diana disse apontando para frente.

Os três avistaram Demétrio se aproximar mancando, junto com seu irmão Ulysses. O cineasta informou que o último infectado também estava morto e que as crianças estavam salvas, junto com Alisson. Mancava porque havia torcido levemente o pé, nada que algumas horas com gelo não resolva.

Ômega e Sabrina ajudaram Thiago, levando-o para o casarão. Demétrio e Diana andavam lado a lado.

— Vi o que você fez. Foi muito corajosa. – Demétrio elogiou a dubladora, que começou a corar – Já está pronta para ser nomeada como a Delta da Alcateia.

***

Renan correu escada acima, sendo seguido por um dos infectados. Mesmo com os rostos um pouco desfigurados, o homem conseguiu identificá-los como os presidiários que residiam nas fichas do delegado morto e que estavam nas celas. No andar de baixo, ouviu um grito de dor, mas não parecia ser de Ísis. Em disparada, observou que a loira já estava do lado de fora da casa.

Um outro infectado apareceu em sua frente. Estava encurralado entre dois seres que o matariam na primeira oportunidade. Um deles estava de costas para a janela, então, pensou rápido em um plano. Precisava ser ágil.

Com passos acelerados, investiu contra esse mesmo infectado, que ficou parado, esperando sua presa vir até ele. Renan se jogou contra o corpo dele, usando-o como escudo para quebrar a janela. Com o impulso que ambos colidiram, o vidro explodiu, transformando tudo em uma chuva de cacos.

Renan caiu em cima do infectado, que na queda, acabou quebrando o pescoço. Ísis hesitou em correr até ele para ajudar, mas o homem gritou de volta, dizendo para embarcar no carro.

Os dois entraram no Jipe de Ísis e em poucos segundos saíram dali, desesperados. A loira sugeriu para que fossem até a casa de Valentim e lá poderiam passar a noite. Renan apenas assentiu em silêncio, pensativo.

I plant my feet and I clench my teeth

I can't outrun what's coming after me

So tell me how I'm gonna get past this wave to empty swimming pools

Renan sentia-se novamente naquele lago, mar, piscina ou seja lá no que se afogava em suas lembranças. Impotente, mergulhado em uma situação em que não poderia resolver e com pequenos fios de esperança dentro dele.

Mais alguém poderia ter sido vítima da morte e ele não conseguiu ajudar. Em sua cabeça, um par de olhos claros ainda o encaram, como se debochassem de sua inutilidade.

But I see a lighthouse in the distance calling my name

But I can't get there 'til I go through all of this pain

There's a glimmer of hope like an exhale of smoke in the sky

And sometimes you drain out on the shit that used to feel right

Empty swimming pools

Donatella andava de um lado para o outro de seu quarto, enquanto Thiago estava deitado em sua cama. Alfinn ajudava a mãe, levando servindo como um “mini enfermeiro”. A médica cuidava dos ferimentos do corpo do professor, enquanto Sabrina estava apoiada na passagem da porta, de braços cruzados.

Thiago estava a salvo.

I've been running, running, run

I've been running, running, run

I've been running, running, run

I've been running, running, run

Olhando a estrada passar como flashs, Renan sentia a esperança se esvaindo. Ele mantinha um pensamento de que estava preso em uma fortaleza de vidro e que a cada lembrança dele, essa fortaleza se rachava um pouco mais. Mas não, era ao contrário.

Todos, não somente ele, eram pequenos pedaços de vidros que eram jogados de um lado para o outro. No caso de Renan, as lembranças eram apenas mais algumas das diversas partes trincadas dentro dele.

Não importava se alguém estava salvo agora ou depois, tudo voltaria e todos se encontravam em extremo perigo e perdição, em uma linha tênue entre infectados e a lista da morte. Renan, Demétrio, Donatella, Mia, Thereza, Mariano e todas as outras vítimas eram apenas brinquedos nas mãos do destino.

E mesmo que alguma esperança surgisse dentro deles, a cada dia, esse destino formava uma nova rachadura em suas almas de vidro.

Notas finais
Não esqueçam de comentar. Os comentários são muito importantes para a continuidade do projeto. Vemos vocês nas reviews, pessoal!