Notas iniciais
Escrito por Felipe Chemim.

A morte de mais um havia se concretizado. Agora, os quatro que foram na esperança de ajudar Gabriel, voltavam desamparados. Bella também vinha com eles, lamentado pela ida precoce do amigo e talvez um futuro namorado. Diante das circunstâncias, não poderiam mais fazer nada, além de ligar para as autoridades competentes, que assumiriam o caso a partir de então. Bella continuava com a imagem do corpo de Gabriel escorregando pela casinha de boneca e sento transpassado pela cerca de proteção. O sangue, o cheiro de morte, o desespero no ar.

Assim que entraram no apartamento, se depararam com Mônica e Vivian apreensivas. Lana estava com Crystal ao lado. A cigana já estava acordada e permanecia atônita, alheia a tudo. Os cinco entraram de maneira cabisbaixa, com os olhares confusos das garotas já presentes no lugar. Lana notou o que havia acontecido, antes mesmo de Greg menear a cabeça negativamente e Shinji abraçar Anna calorosamente. A mulher de cabelos curtos não resistiu e chorou que não chorou todo este tempo, dizendo coisas inaudíveis ao pé do ouvido do oriental.

Era difícil entender e aceitar que eles estavam de fato, morrendo um por, sem que tivessem muito êxito na interferência. Bella, Valentina e Nina felizmente tinham sido salvas, mas e enquanto aos outros? O que aconteceria a eles? O destino era certo, a morte. Só cabia aos sobreviventes, saber como reverter este processo.

A porta do apartamento abriu e de lá surgiu Nina, acompanhada de Ruth, Lena e Kris. O rapaz roía as unhas, enquanto as duas garotas, de mãos dadas observavam os outros reunidos e espalhados pela sala. A loira que entrara na frente, esbaforida e carregando um livro, encarou a face de cada um ali e constatou que alguma coisa muito ruim tinha se consumado.

– O que acon... – Suas palavras foram interceptadas por Greg. O homem barbudo não se conteve e foi até ela, envolvendo-a em um abraço.

A bióloga não fez menção de nada, muito menos hesitou, apenas aceitou o abraço e retribuiu com um mais apertado.

– Aconteceu de novo, Nina. Aconteceu. – Ele dizia, enquanto a cabeça pousava no ombro dela. – Nós não conseguimos... O Gabriel, ele... Se foi.

A loira beijou o rosto do homem ternamente com os olhos se enchendo de lágrimas, e disse:

– Nada disso precisa se repetir, Greg. Nós podemos impedir que mais tragédias venham até nós. – Ela aumentou o tom de voz, para que todos pudessem escutar. – Esse livro contém tudo o que precisamos saber para deter de uma vez por todas essa maldita lista! Nós vamos sair disso tudo!

– Dê o livro pra ele! – A voz ressoou do corredor e logo duas figuras surgiram na porta. – Não deixe ele me matar, dê logo o livro!

Uma delas era Serena Rabelo. A repórter mantinha as mãos erguidas para o alto, em gesto de rendimento. Atrás dela, a figura mascarada surgiu, com uma arma de grande calibre apontada para suas costas. Serena mantinha um olhar assustado e arregalado, totalmente tomado pelo medo. Ela tremia e a figura ameaçadora bradava numa voz distorcida por algum aparelho semelhante ao que o assassino de “Pânico” usava.

– O LIVRO, AGORA! – Desta vez, gritou mais alto.

Shinji ficou ao lado de Nina, enquanto o homem tatuado permaneceu do outro, como dois guardas. Mônica, Valentina, Bella e Vivian ficaram em um canto da sala, com a ruiva cega sem saber o que estava havendo no cômodo. Crystal, Kris e Anna estavam sentados no sofá, estáticos, com essa última abraçando e protegendo a filha. Lena passou a mão pelo ombro de Ruth, afastando-a lentamente de perto da porta. Clarisse estava de pé, sem saber como reagir, ao lado de Lana.

Greg acenou com a cabeça para a garota de cabelos azuis. A namorada do youtuber entendera no exato momento o que ele queria dizer e deslizou a mão lentamente até a gaveta da estante. No segundo em que a professora abriu a gaveta, seu nariz inalou alguma fumaça que ela não sabia de onde tinha saído. O dispositivo redondo e metálico acoplado na parede disparou um jato de fumaça, que envolveu todos dentro da sala, menos o algoz armado.

Tanto Lana, quanto Greg e os demais começaram a tossir, e foi menos de três segundos, o intervalo de tempo entre as tossidas e os corpos caídos no chão.

– É agora que vocês vão dançar conforme a música da morte. – A voz sinistra atrás da máscara falou, empurrando Serena.

A repórter, já desacordada, foi ao chão. Assim como os quinze corpos estirados no apartamento.

***

Nina acordou com um gemido de dor. Sua cabeça latejava e o corpo parecia ter sido pisoteado por uma manada furiosa de elefantes, mas mesmo assim reuniu forças para se levantar. O terreno em que se encontrava era um pouco arenoso e abafado. Pôde ver corpos de alguns amigos em sua volta mas não os reconheceu por causa de um nevoeiro no ar. Estariam mortos?

– Eles estão vivos. – uma voz disse atras dela, respondendo seus pensamentos – Pelo menos por enquanto.

A bióloga se virou e piscou algumas vezes para aguçar sua visão e encontrar a pessoa. O nevoeiro começou a se dissipar, abrindo-se como uma cortina para a passagem de Vanessa, que estava deslumbrante, como sempre, em um vestido longo e branco como a neve. Um decote exagerado mostrava um pouco de seus seios e uma de suas pernas estavam a mostra. Um colar dourado decorava seu pescoço, combinando com diversas pulseiras nos braços.

– Vanessa! – Nina exclamou feliz, mas confusa – Onde… Onde eu estou?

– Ah, isso logo você vai descobrir. – Vanessa respondeu, desviando de uma ruiva desmaiada – Não vim aqui para bancar sua bússola e te orientar por aí. Quero falar sobre outras coisas.

Nina fez um gesto para que ela continuasse. Vanessa caminhou até ficar frente a frente com a bióloga, tocando suas mãos. O toque da socialite era real, mas frio ao mesmo tempo.

– Primeiramente, se encontrar a Lana, diz que o cabelo azul dela está desbotando, ela precisa retocar urgentemente. – Vanessa disse revirando os olhos — Depois, queria dizer que no meu testamento, te deixei algo como herança…

– O quê? – Nina estava ficando ainda mais confusa – O que você está querendo dizer, Vanessa?

– Ah, você também vai descobrir isso logo. – Vanessa soltou uma risada, que Nina não soube interpretar se era irônica ou se divertindo com a situação – Creio eu, que não aparecerei mas em seus sonhos ou desvaneios de saudade…

– Você vai… sumir? – Nina perguntou. Ainda que achasse estranho ter visões da amiga falecida, era reconfortante vê-la de alguma forma, que não fosse sem cabelo e cheia de sangue.

– Não se preocupe, nos veremos mais em breve do que você pensa. – Vanessa disse, passando o dedo indicador delicadamente no rosto da loira.

Nina abaixou a cabeça e quando a levantou, seus olhos estavam marejados. Com a voz um pouco falha, ela disse:

– Sabe, Vane… Você foi o melhor esbarrão de toda a minha vida. – e riu, diante das lágrimas que estavam quase caindo – E eu gostaria de ter te dito isso enquanto estava viva…

A socialite riu como resposta. Não era uma risada maldosa. Vanessa havia achado bonito e fofo o que a bióloga disse, então passou o polegar de baixo dos olhos de Nina, limpando as lágrimas que começavam a cair.

– Não chore, minha queridinha. – Vanessa respondeu – Você também foi a melhor pessoa abaixo da Elite Da Classe A que eu já conheci. E eu não ganho um beijo de despedida?

Nina abriu um sorriso e iria responder, no entanto, sentiu os lábios de Vanessa encostando nos seus. Era um beijo caloroso e cheio de carinho, mas a bióloga ainda sentia um frio. As bocas se distanciaram, assim como as mãos. Vanessa sorriu uma última vez, antes de lhe dar as costas, caminhando na direção de uma luz. A silhueta de uma mulher a esperava.

– Ah, uma última coisa. – Vanessa disse, virando um pouco seu rosto – Agradeça ao Rato por tudo… E eu estarei sempre olhando vocês, onde quer que eu esteja...

A ruiva continuou andando, até se fundir com a luz e a outra mulher. A luminosidade começou a se espalhar no mesmo momento que Nina ouvia a voz de Greg.

– Hey, Nina… Nina, acorda.

***

Assim como no sonho, sua cabeça doía. Greg estava em sua frente, com um olhar sério. Piscou algumas vezes para manter o foco em sua visão e olhou em volta. Estavam no alto de uma montanha, obtendo a vista de quilômetros de florestas ao redor. Mais distante, podia-se ver um pouco da praia e o mar estendido como se fosse infinito. Nina odiava a sensação que estava tomando conta dela, mas ela reconhecia o lugar.

– Nós estamos…?

– Na ilha maldita onde aconteceu a merda toda da última vez. – Greg respondeu com um tom de voz preocupado – E a Lana sumiu…

A bióloga olhou ao redor novamente, tentando pensar em alguma solução. Iria perguntar para Greg o que era a última coisa que ele se lembrava, mas viu Serena com o braço estendido, tentando pegar algum sinal no seu celular, sem bons resultados. Clarisse estava agachada na frente de uma criança, tentando acalmá-la.

– Anna Bella… — Nina sussurrou para Greg, caminhando na direção da criança. O youtuber não teve muita escolha a não ser seguí-la.

Anna Bella estava com lágrimas escorrendo pelo seu rosto, visivelmente assustada. Nina não precisava pensar muito para saber o motivo. Anna Clara não estava por perto, muito menos Shinji. Clarisse observou a chegada de Nina e Greg, então se afastou da criança, ficando perto de Serena.

– Hey, seu nome é Anna Bella, não é…? – Nina disse suavemente, agachando-se para ficar do mesmo tamanho que a garotinha.

– Eu quero meus pais… — Anna Bella respondeu com mais uma lágrima escorrendo.

– Calma… Nós somos amigos dos seus pais. E nós vamos achá-los juntos, que tal? – Nina propôs.

– É verdade, Flanguinha. – Greg tentou ajudar – A gente vai achar o seu pai samurai e sua mãe, fica tranquila.

Nina lançou um olhar de repulsa para o amigo, mas ficou em silêncio. Anna Bella, aos poucos, se acalmou.

– E agora, como vamos sair daqui? – Greg perguntou.

– Bom, se queremos nos guiar e sair da ilha, sei de uma pessoa que pode nos ajudar. – Nina disse.

– Espera aí! – Serena interrompeu a conversa, com Clarisse atrás dela – Eu não vou a lugar nenhum com vocês, depois desse sequestro relâmpago.

– Serena Gomez, você tem duas opções: ou fica aqui sozinha tentando pegar esse sinal de bosta da Tim, ou vem com a gente. – Greg respondeu cruzando os braços.

– E além do mais, — Nina completou – Você não queria investigar sobre a gente? É a sua chance.

Serena bufou em resposta e depois ficou em silêncio, cruzando os braços com uma postura irritada.

– Bem… — Clarisse colocou-se na conversa – Com quem vamos falar então?

Nina cerrou os olhos e direcionou o olhar para baixo, ao pé da montanha e começo da floresta.

– Abigail.

***

Quando Anna abriu os olhos, estava nos braços de Shinji. Até seria uma cena romântica se não fosse a expressão preocupada dele e a situação em que se encontrava. Pelos ombros do homem, viu algumas árvores ao redor. Em sua volta, algumas pessoas conversavam e quando recobrou totalmente a consciência, viu que eram Kris, Bella e Vivian.

– Que bom que você acordou, Anna! – Bella comemorou, mas não tinha muito entusiasmo na voz. A aeromoça pressumiu que perder um amigo querido e acordar no meio de uma floresta não era algo muito animador, então deu um desconto para a loira.

Kris cuidava de alguns ferimentos leves no braço direito de Vivian, que estava apoiada no tronco de uma árvore, com expressão de zangada.

– Pelo amor de Deus, me digam que isso é algum tipo de pegadinha! – ela reclava com a cabeça virada para o nada – A gente não pode estar novamente nesse inferno de ilha!

– Vivian, não tem ninguém para onde você está olhando… Quer dizer, falando. – Kris disse terminando de examinar o braço da ruiva – Pronto, eram só alguns arranhões.

Anna levantou-se e respirou fundo, acalmando o susto. Tentou pensar com otimismo. Pelo menos, ainda tinha o marido e alguns amigos por perto. Então, percebeu que alguma coisa estava errada.

– Shinji, cadê a Anna Bella? – Anna perguntou nervosamente.

– Eu não sei… — o homem admtiu – Quando acordei, só nós cinco estávamos aqui. Os outros haviam sumido.

– Eu não acredito. – Anna disse colocando as mãos na cabeça. Shinji se aproximou e a envolveu em um abraço.

– Você precisa manter a calma, Anna. – Bella pediu – Provavelmente ela está com alguém. Vai ver está com a Nina ou a Lana.

– A Bella tem razão. – Shinji concordou – Vamos tentar sair dessa floresta imensa, depois procuramos os outros.

– Está bem, está bem. – Anna cedeu – Vocês venceram. Alguém sabe como podemos sair daqui?

Todos olharam em volta, a procura de alguma trilha ou sinal de saída, exceto Vivan, que continou parada perto de uma árvore. Decidiram que não tinham muitas escolhas a não ser andar até achar alguma trilha que os levasse de volta a civilização. Com sorte, encontrariam os outros no caminho.

Com azar, morreriam.

***

Mônica havia feito uma promessa silenciosa de que nunca mais pensaria novamente na ilha, depois de tudo o que aconteceu com seu irmão, e voltar ao local estava totalmente fora de cogitação. Ali, ressucitava todo tipo de memória ruim e catastrófica. Primeiramente, o acidente no vulcão que quase extinguiu qualquer sinal de vida. Depois, ficou para tentar ajudar os sobreviventes e se viu no olho de um furacão de sentimentos, envolvendo Eduardo, Heloísa e ela. Como se tudo isso fosse pouco, ainda foi testemunha do surfista sendo devorado por um cardume de piranhas, que nada mais era do que uma tacada brutal e certeira da morte.

Agora, andava pelo vilarejo junto com Lena, Ruth, Valentina e Lana. Procuravam por respostas, pois o grupo de mulheres havia acordado no meio de algumas casas em construção, mas ninguém sabia dizer como tinham chegado ali. Ninguém havia visto outras pessoas as trazerem até aquele local. Alguns moradores, quando as viam, fechavam a cara e passavam reto, como se não as vissem. Outros, até eram gentis, mas quando alguém perguntava alguma coisa, mandavam ir para o inferno – como se aquela maldita ilha não fosse o suficiente – e saíam como se nada tivesse acontecido.

– Eu só queria saber que porra está acontecendo aqui e como vim parar nessa droga de ilha. – Lana concluiu.

– Calma, vamos raciocinar. – Mônica pediu – Qual a última lembrança de vocês?

– Eu só lembro que estávamos no apartamento da Lana, quando senti algo na minha testa. – Ruth comentou, tocando o local, que possuía um galo avermelhado.

– Não me surpreende… — Lena retrucou rindo, depositando um beijo na testa da Ruth.

– O que eu quero saber, é por que nos trouxeram de volta para ilha? – Valentina disse – Quer dizer, eu passei tantos anos vivendo aqui, e quando saio para achar minha irmã perdida, me trazem de volta. É totalmente injusto!

Mônica virou o rosto com o comentário da amiga. Estava feliz por Valentina, mas lhe dava um sentimento estranho. Muitas coisas que aconteceram com todos eles eram coisas injustas. Era justo que todos morressem? Gostaria de poder sair e ir atrás de seu irmão, de ter novamente uma pessoa em que pudesse confiar, em que tivesse uma sintonia, algo especial.

– Calma… — Mônica pediu novamente – Vamos com um passo de cada vez. Val, você sabe de algum casa em que…

A frase foi interrompida por uma leve garoa que começou a cair. Todas olharam para cima e observarem as nuvens negras que se aproximavam. Tudo sinalizava que uma chuva mais forte estava vindo. Mônica se lembrava do que Anna havia dito: Ruth era a próxima na lista da morte, logo depois de Gabriel, e com a sorte em que se encontravam, não custaria nada um raio cair na jovem para levá-la. Valentina pareceu entender o olhar preocupado de Mônica, então disse:

– Tem uma casa vazia que foi abandonada há alguns anos que nunca mais acolheu ninguém. Com todo mundo na ilha agindo estranhamente, acho melhor termos um lugar privado. A gente pode ir lá se esconder da chuva e depois procuramos por respostas onde conseguirmos.

Todas concordaram, então Valentina voltou a excercer seu papel de guia. Alguns moradores se escondiam de baixo de tendas, outros corriam para suas casas. Um grupo de meninos jogava futebol, felizes, em um campo de terra que começava a se transformar em lama ao se misturar com a água que caía. Quando viram as cinco mulheres passarem, se apressaram em pegar a bola e correr para suas casas. Mônica estranhou o gesto, mas ultimamente tudo que vivia estava estranho.

Andaram mais alguns metros, ficando um pouco afastadas do vilarejo. Valentina sinalizou que haviam chegado. Era uma casa simples de dois andares. Uma das paredes do primeiro andar tinha partes quebradas. A pintura bordô estava descascando. Teias se pendiam das janelas do segundo andar.

– Val, você tem certeza…? – Mônica perguntou desconfiada. A guia já havia tido uma péssima experiência com uma casa velha.

– Tenho. Essa casa pode parecer estar caindo aos pedaços. – Valentina respondeu – Mas é a nossa melhor chance.

– Além do mais, — Lana completou – Dúvido que alguém nos dê uma moradia, com a educação que estão. E acho que não temos dinheiro para um hotel.

– Bom, então vamos entrar. – Mônica finalizou a conversa.

Mônica viu Ruth e Lena ficarem de mãos dadas, então se aproximou de Lana e Valentina, que as guiou para dentro da casa.

***

Bella estendeu o braço e pegou uma fruta, enquanto afastava alguns insetos que voavam ao redor de seu braço, esperando uma chance de conseguir um pouco de sangue. Não saberia reconhecer se era uma fruta normal ou algo exótico e venenoso, mas mesmo assim a entregou para Kris, pois o mesmo reclamava que estava faminto. O veterinário agradeceu e deu uma primeira mordida no alimento.

– Hum, não é tão ruim. – Kris comentou, dando uma outra mordida – Parece ser uma mistura de maçã, cereja e limão.

– Nossa, que delícia. – Vivian ironizou. Ela estava de mãos dadas com Bella, para ser conduzida pela mata – Daqui a pouco você vai encontrar algo bem delicioso aí dentro.

– Não sei do que você está falando… — Kris respondeu, abrindo a boca para outra mordida, mas gritou, largando a fruta no chão – Que nojo, que nojo, que nojo!

Bella olhou para baixo, vendo que dentro da fruta havia um tipo de lagarta que fica dentro de maçãs, mas nesse caso, o bicho era escuro e se contorcia freneticamente.

– O que tinha? – Vivian perguntou animada.

– Era um tipo de lagarta. – Bella respondeu, rindo.

– Eu avisei. – Vivian debochou.

– Não acredito! – Kris disse, soltando algumas cuspidas no chão – Será que eu comi alguma lagarta, sem ver?

– Vamos esperar. – Vivian disse se virando na direção que a voz de Kris vinha – Se você passar mal em menos de vinte e quatro horas, sim, você comeu. Se você ficar bem, não aconteceu nada de mais.

– Seria bem irônico a morte me levar usando bichos, não é? – Kris disse, ainda com cara de enjoado.

O comentário pesou o coração de Bella. Quando era sua vez de ser pega, observou Thomas se sacrificando em seu lugar. E algumas horas atrás, observou Gabriel ser levado. O rapaz era gentil, alegre, educado e começava a mexer com a loira. Ele não merecia nada disso. E na verdade, quem merecia?

– Anna. – Bella chamou – Você teve mais alguma visão ou sinal da morte?

Anna e Shinji andavam abraçados, unindo forças, um pouco mais a frente que os três jovens. Ao ouvir a pergunta da loira, a aeromoça se virou, com um olhar preocupado.

– Não pressenti mais nada. – Anna respondeu – Estou até achando estranho. Não vi mais nenhum sinal, mais nada.

Bella pensou em sugerir que tudo poderia estar acabado, mas estava tentando não ser mais tão inocente. Não haveria explicação para tudo estar acabado. E nada teria acabado.

– Vocês já estão vendo algum sinal de trilha ou algo do tipo?- Kris perguntou para o casal.

– Não. – Shinji respondeu secamente – Tudo que vemos é mato e mais mato para todos os lados. Parece ser uma floresta sem fim.

– É muito estranho. Não me lembro da floresta ser tão extensa quando… Quando viemos aqui a última vez. – Bella disse.

– Talvez tenham nos deixado na parte mais distante e isolada da floresta. – Anna sugeriu – Se Valentina estivesse com a gente, podería nos guiar facilmente para fora daqui. Ela conhece a ilha como a palma da mão dela.

– Falando nisso, onde será que os outros estão? – Kris perguntou.

– Não faço a mínima ideia, só espero que estejam bem. – Anna respondeu. Quase disse que queria principalmente Anna Bella bem, mas soaria egoísta, então calou-se. Olhou para Shinji e soube que o homem pensava a mesma coisa.

Vivian, mesmo de mãos dadas com Bella, tropeçou em uma pedra e por pouco não bateu a cabeça em uma árvore.

– Hey, vai com calma. – Bella pediu, apertando um pouco mais a mão da ruiva.

– Ai, Bella, eu estou cansada! – Vivian desabafou – Eu nem faço parte dessa droga de lista, mas mesmo assim sou trazida para essa ilha. A morte não ficou satisfeira com o cupom de bônus por me deixar cega?

– Vai dar tudo certo. – Bella tentou animar a amiga.

A loira pensou que receberia apoio de Kris, mas ele já estava um pouco mais a frente, junto com Anna e Shinji. Pegou um galho seco de uma árvore qualquer que estava jogado no chão e o entregou para a ruiva, como uma bengala improvisada. Depois virou-se para ir atrás dos três, junto com Vivian, porém ouviu um barulho entre as árvores.

– Oi, tem alguém aí? – Bella chamou – Vivian, você também ouviu isso, não é?

– Ouvi. Veio daquela direção. – Vivian respondeu, se virando e apontando para uma região cheia de arbustos e árvores.

– Lena? Valentina? Nina? – Bella chamou – Hey, são vocês?

Com um manto preto e uma marreta pesada empunhada nas mãos, uma pessoa com máscara de porco surgiu entre os arbustos e se encaminhou na direção das duas.

– Bella, quem é? – Vivian perguntou, ouvindo os passos se aproximando.

Como resposta, Bella gritou.

***

A cabana de Abigail continuava a mesma coisa que Nina tinha na lembrança. Caminhava de mão dada com Anna Bella, que estava calma no momento. Greg estava caminhando ao seu lado, acompanhando o andar da bióloga. Serena e Clarisse os seguiam, um pouco distantes, cochichando uma coisa para a outra.

– Acha que podemos confiar nas duas ali? – Greg perguntou, apontando com a cabeça para a jornalista e sua assistente.

– Não acho que elas são de plena confiança, mas melhor mantê-las por perto do que distantes. – Nina respondeu.

O grupo agora estava na frente da cabana. Olharam pelas janelas e não havia nenhum sinal da moradora. Nina levantou a mão para bater na porta no exato momento que a mesma se abriu. Abigail saiu de dentro da moradia, com um sorriso banguela no rosto.

– Ah, fico extremamente feliz que vocês voltaram para me visitar! – Abigail disse abrindo os braços, como se esperasse um abraço – Sabem, a ilha está tão parada depois de tudo o que aconteceu. Mas venham, entrem.

A senhora entrou na cabana, deixando a porta aberta. Nina olhou para os outros, que mantinham expressões preocupadas.

– Tem certeza disso? – Greg perguntou.

Nina, mesmo sem ter muita certeza, fez sinal de afirmação com a cabeça. Então, deu o primeiro passo e entrou na cabana. O cheiro era diferente do que a bióloga se lembrava, mas seguia a mesma linha com incensos e ervas naturais. Em uma mesa velha e cheia de pó no centro, havia uma vasilha de barro que possuía um líquido pastoso e escuro dentro e ao lado, uma boneca de pano com cabelos escuros. Abigail logo se apressou em guardar todo o material em uma caixa, trancando-a. Depois, a senhora se virou, encarando o grupo com seus olhos leitosos.

– Estão gostando da nova hospedagem? – e sorriu novamente, mostrando as diversas rugas no rosto.

– Olha, Abigail… Na verdade a gente nem tem muita certeza do que aconteceu. – Nina respondeu – Acordamos na montanha. A última coisa que lembramos é de estarmos no apartamento da nossa amiga e então…

– Ah, uma viagem de última hora, então? – Abigail disse ainda sorrindo. Depois, pegou algumas folhas e começou a amassá-las em outra vasilha – Mas devem estar tão cansados, não é? Vou fazer um chá para que relaxem.

– Senhora, nós não queremos chá algum! – Serena disse, começando a se irritar – Só queremos sair dessa ilha maldita!

– Maldita? Oh, minha bela ruiva, essa ilha é chamada de paradisíaca, sabia? – Abigail respondeu, se aproximando da jornalista e passando a mão nos cabelos ruivos. Depois, olhou para Nina – Sabe, aquela outra ruiva parecia ser mais gentil… Pena que se fora.

– Espera aí, como você… — Greg começou a falar. Como Abigail sabia de Vanessa?

– Na verdade, — Abigail interrompeu – esperem aí, vocês. Vou ali fora um pouco. Buscarei algumas ervas para que a donzela e seus amigos possam relaxar. Vocês estão muito tensos, sabiam?

Abigail saiu da cabana, fechando a porta. O estômago de Nina embrulhou, indicando que alguma coisa estava errada. A velha citou Vanessa e sua morte. Logo depois, se referiu a Nina como “donzela”, o seu título na ordem de sacrifícios. Mas, como ela saberia…? Uma ideia terrível, porém sólida, começara a surgir na mente da bióloga.

– Não estou vendo como essa velha cega poderia nos ajudar. – Serena comentou, olhando em volta do local – Mas até que essa cabana é legal no sentido exótico.

Anna Bella acompanhava Clarisse pela cabana, tentando tocar em alguns objetos, mas recuava ao ver estranhas inscrições nos mesmos. Greg estava parado no meio da sala, sem se mexer. Todo aquele lugar lhe dava uma sensação agourenta. Nina examinava todos os incensos, objetos e ervas.

– Nina, você está procurando algo específico? – Serena perguntou.

– Eu… Eu não sei… — Nina respondeu, um pouco confusa.

Pelo canto do olho, um brilho chamou a atenção da bióloga, que se dirigiu até sua origem, no canto do cômodo. Se abaixou e estendeu a mão para pegar o objeto. Trazendo perto do seu rosto, confirmou a suspeita: era a ametista de Vanessa. A pedra preciosa havia sido pega pela socialite “sem querer” e depois transformada em colar. Mas como havia voltado a sua forma original e chegado até ali?

“Te deixei algo como herança…”

A joia começou a produzir um brilho arroxeado mais intenso. Nina observou dois vultos negros se formarem na superfície da pedra, mas quando estavam tomando forma, sentiu uma mão em seu ombro.

– Você tá legal…? – Greg perguntou – Parecia estar vendo um fantasma.

– É… É, estou bem, sim. – Nina disse, se levantando e guardando a ametista em seu bolso – Só acho que me enganei e que não foi uma boa ideia ter vindo até aqui.

– Bom, eu senti isso desde a montanha. – Greg sorriu – Mas não quis atrapalhar sua linha de raciocinio.

– Graças a Deus, vamos embora. – Serena se intrometeu na conversa e se encaminhou para a porta.

– Olha, um coelhinho! – Anna Bella gritou animada, apontando para a janela.

Todos olharam para a janela, a tempo de ver uma pessoa mascarada contornando a cabana.

– É, realmente não foi uma boa ideia ter vindo aqui. – Nina aumentou a preocupação em sua voz, agarrando a mão de Anna Bella e se encaminhando para a saída, assim como os outros.

Serena se virou, estendendo a mão para abrir a porta e nesse exato momento, a mesma se abriu pelo lado de fora.

***

Lana estava sentindo que algo estava errado, além da chuva que caía e dos ratos que perambulavam pela casa. Ruth e Lena estavam abraçadas, sentadas no chão e encostadas na parede, conversando sobre algo que envolvia um celular. Valentina estava perto da janela, observando as nuvens que chegavam agora ao vilarejo e seguiam para a floresta e à montanha. Estavam abrigadas em um cômodo da casa, no segundo andar. Duas portas lhe davam saída: uma para o corredor e outra para o quarto ao lado. Mônica se aproximou e tocou no ombro da moça de cabelos azuis.

– Está pensando em Greg e Nina?

– É… Você acertou, de certo modo. – Lana admitiu – Sabe quando você sente que algo está na sua cara, que a resposta está de baixo do seu nariz, mas não consegue entender?

– Você está querendo dizer sobre esse sequestro?

– Sobre tudo. A lista da morte, essa história louca de sacrifício, essa ilha… As peças do quebra-cabeça estão espalhados, só não consigo juntá-las. – Lana disse cruzando os braços e se encostando na parede.

– Nós vamos achar as respostas, não se preocupe. – Mônica disse – Para tudo isso tem uma resposta, e nós vamos sair daqui. Para tudo que tem um início, tem um fim, não é mesmo?

A frase de motivação de Mônica causou um estalo no cérebro de Lana. Nem tudo ainda estava se encaixando, mas uma pequena chama se acendia em suas ideias. Se seus pensamentos estivessem certos, havia muito mais sujeira envolvendo a lista da morte do que ela pensava.

– E se for isso, Mônica? – Lana disse, encarando a jovem.

– Isso o que?

– Você disse que todo o início tem um fim, certo? – Lana perguntou e Mônica concordou – E se nós fomos trazidos de volta para terminar o que começou? O início de toda a história foi aqui na ilha, então seria um equilíbrio perfeito que terminasse em sua origem.

Ruth e Lena se levantaram e chegaram mais perto das duas. Estavam ouvindo a conversa e sentiam o raciocínio de Lana. Valentina continuou perto da janela, mas se virou para o grupo de mulheres, para também acompanhar o diálogo.

– Faz sentindo, Lana. – Ruth disse – Mas quem iria nos trazer até aqui?

– Isso é uma peça que está faltando. – Lana respondeu, passando as mãos nos cabelos azuis – Precisamos encontrar Anna e os outros. Algo me diz que eles têm as respostas que procuramos.

Um raio cortou a visão cinzenta, acompanhado de um trovão que retumbou pelo céu. A chuva ficava mais forte a cada segundo. Lana sentia que Ruth estava com medo por ser a próxima na mira da morte, mas nada poderia fazer. Se ainda estivesse com seu violão, poderia soltar algumas notas para acalmá-la. Daria seu máximo para salvar a amiga, assim como todos os outros.

Valentina se virou novamente para a janela e olhou para baixo, abrindo a boca, talvez para gritar, mas ficou em silêncio.

– Valentina, o que foi? – Lana sussurou.

– Eu vi alguém entrando na casa. – Val respondeu, se virando para as garotas e com o tom de voz mais baixo possível – E parecia estar armado.

Passos começavam a ecoar. Isso significava que, quem quer que fosse, estava se aproximando. Subia a escada lentamente, como se não tivesse pressa de chegar ao grupo de mulheres. Lana ainda pensou que seria algum mendigo que se abrigava na casa e devido a chuva, voltou à moradia improvisada. Seus pensamentos se extinguiram quando a lâmina pontuda e brilhante de uma adaga surgiu na abertura da porta, acompanhada de um manto preto. A pessoa, a qual ninguém conseguiu identificar como homem ou mulher, usava uma máscara de urso. Marcas rubras sujavam o rosto animalesco, e Lana teve certeza que era sangue.

– A Virgem… — a voz saiu abafada dentro da máscara.

Lana instintivamente olhou para Ruth, que agora assumiu uma expressão assustada, com os olhos arregalados. Aquele ser misterioso sabia sobre as quatorze categorias dos sacrifícios. E o pior de tudo: sabia que Ruth era a próxima. Será que era algum servo da morte que veio fazer o serviço?

– Ruth, corre! – Lana gritou.

Os acontecimentos seguintes foram rápidos demais para Lana conseguir processar direito. Ruth correu em direção da porta que levava ao outro quarto, abriu e saiu correndo. Lena, Mônica e Valentina corriam logo atrás. A pessoa mascarada partiu para perseguí-las, mas Lana se jogou mirando em suas pernas, passando uma rasteira. Ela até teria rido de como foi o grito dentro da máscara quando o ser estranho caiu, mas a situação era perigosa.

– Aguenta essa, otário. – Lana provocou.

Se levantando, correu para fora do quarto, em direção do corredor. Avistou as meninas no topo da escada, dando meia volta e se dispersando para os quartos. Não entendeu o porque daquilo, até ver uma segunda pessoa mascarada subindo as escadas. A máscara dessa vez era de uma ovelha, que parecia sorrir sarcásticamente, enquanto segurava um machado. Lana acordou do transe no momento exato de desviar de um golpe do Urso, correndo pelo corredor. Entrou em um quarto aleatório, onde Valentina estava armada com um pedaço de madeira. Sua expressão era de puro pavor.

– Eles fazem parte dos Cavaleiros Dos Sacrifícios… — ela sussurrou.

– O quê?

Nesse momento, o Ovelha apareceu na porta. Valentina, com toda a força que tinha, desferiu um golpe na cabeça dele, que cambaleou para trás, batendo na parede. Lana e a guia agarraram a mão uma da outra e corriam em direção à escada, quando escutaram um grito de Ruth de um dos quartos. Temeram pelo pior e se encaminharam ao cômodo. Ruth, Lena e Mônica estavam encolhidas no canto da parede. O Urso se aproximava, com a adaga empunhada nas mãos.

Valentina caminhou silenciosamento e atacou com o pedaço de madeira, batendo na cabeça do Urso, que se virou, sem muitos danos físicos. Ele levantava o braço, mas Lana conseguiu segurá-lo a tempo, dando uma cabeçada no oponente, que tropeçou tonto.

A guia chamou as meninas encolhidas no canto e as quatro correram para fora do quarto. Com sorte, não encontrariam o Ovelha no meio do caminho. Lana se virou para a saída, mas teve os cabelos puxados pelo Urso, que já se recuperava dos golpes.

– Bom, que eu saiba, você não faz parte dos sacrifícios. – sussurrou no ouvido de Lana, posicionando a adaga perto do seu pescoço – O que significava, que posso me divertir com você.

Lana teve sua vida passando pelos seus olhos. Crystal disse que ela se sacrificaria algum dia e isso envolveria fogo e Greg. Mas talvez o destino tivesse trapaçeado novamente, não custava nada, e ela morreria agora. Talvez seu sacrifício agora fosse por Ruth e as outras, e envolvesse apenas uma lâmina banhada de sangue. O seu sangue.

Desejou poder dar um último beijo em Greg e um “até logo”. Mas pensar no youtuber lhe deu forças. As coisas não funcionavam assim com Lana. Ela não se entregava ao primeiro que puxasse seu cabelo.

– Mas não mesmo. – Lana disse – Sinto muito, mas você mexeu com Lana Flowers.

Ela moveu-se rapidamente, dando uma cotovelada na barriga do Urso. Com o golpe, ele a soltou. Lana aproveitou a chance e correu para fora do quarto, trombando com o Ovelha, que não perdeu tempo e agarrou seu pescoço. Depois, a jogou para dentro do quarto novamente. Ela estava encurralada, com dois assassinos mascarados.

O Urso e o Ovelha estavam com as armas em punho, em sua frente, se preparando para ver quem acertava o corpo da mulher primeiro. Lana levantou aos tropeços, tentando reunir forças para lutar. Uma solução piscou em sua mente e ela não viu outra opção melhor. Invés de lutar, virou-se de costas para os assassinos e correu gritando em direção à janela, pulando para fora, de encontro com a chuva.

***

Ruth estava junto com Lena, Valentina e Mônica, do lado de fora da casa. A chuva ainda caía furiosamente e todas estavam preocupadas com Lana, que havia ficado dentro da casa.

– Gente, — Valentina chamou – eu vou voltar lá para dentro. Vou ajudar a Lana.

– Não, eles podem machucar você. – Mônica agarrou no braço da amiga – E tenho certeza que a Lana vai sair logo. Fica aqui, por favor.

Nesse momento, ouviram um grito vindo de dentro da casa e viram Lana pulando pela janela do segundo andar, em direção ao chão. O pouso acabou sendo desajeitado e a moça sentiu um choque em seu pé esquerdo. Valentina andou até ela e verificou que não havia quebrado nem torcido, devia ser apenas uma dor passageira.

Lana se apoiou em Valentina e disse que precisavam se apressar, pois logo iriam atrás delas. Como se esperassem essa frase, os assassinos saíram da casa, mirando o olhar me Ruth, que agarrou a mão de Lena e se pôs a correr. O Ovelha a seguiu rapidamente, enquanto o Urso encarou Lana por uma última vez.

Mônica olhou em volta e percebeu qua haviam algumas pessoas obsevando pela janela. As encarou, enquanto a chuva atacava seu rosto.

– Por que só estão olhando? – ela gritou para as pessoas – Estamos sendo atacadas! Querem assassinar nossa amiga!

Recebendo como resposta, todas as pessoas que observavam fecharam as janelas e se recolheram em suas moradias. Enquanto isso, Ruth corria aterrorizada com Lena, completamente molhadas pela chuva. O Urso e o Ovelha estavam quase alcançando-as. Há quinze minutos, as duas conversavam sobre as fotos das ruínas, que estavam no celular de Ruth. Ela estava preocupada por ser a próxima na lista da morte e sentia que as fotografias poderiam ajudar em algo. Então, se alguma coisa acontecesse com ela, Lena ainda teria as fotos para ajudar.

O Ovelha as alcançou primeiro, agarrando o braço de Lena e puxando-a para trás. A mão da loira deslizou para longe da mão da companheira,que conseguiu correr mais alguma insignificante distância. Ruth se virou, encarando os assassinos. A loira estava caída no chão, com o braço ainda nas mãos do assassino, que mirava seu machado na cintura dela.

– Por favor, larguem ela! – Ruth implorou, com os olhos marejados – Sou eu que vocês querem, então me peguem! – e esticou os braços para os lados, em sinal de rendição.

Todos se encararam por algum momento, então o Ovelha largou Lena e, junto com o Urso, correu em direção a Ruth. A morena encarou Lena por um breve momento e sussurrou: “eu amo você”.

– Ruth, não! – Lena gritou percebendo o que a companheira faria, mas era tarde demais.

Ruth se virou e correu, com os assassinos a pouca diferença de distância. Iria servir como isca. Era ela que os assassinos queriam? Então teriam, mas deixariam as outras em paz. Correria o máximo que poderia para afastar os assassinos de perto das amigas. Estava com um abismo de medo crescendo em seu peito.

O Ovelha se aproximou o máximo que pôde e com a parte de madeira do seu machado acertou as pernas de Ruth, que caíu em uma poça de lama. Quando levantou o rosto totalmente sujo, o assassino segurou em uma de suas pernas, começando a arrastá-la pelo barro. Em um movimento preciso, a moça desferiu um chute certeiro no rosto dele, que a soltou. Quase caindo novamente no terreno escorregadio, Ruth se levantou e continuou a correr, començando a se afastar do vilarejo.

Em sua frente, apareceu seu esconderijo dos assassinos, da chuva e quem sabe, seu esconderijo da morte: uma caverna. Seguindo em disparada, entrou no local dominado pela escuridão.

***

– Onde vocês pensam que vão? – Abigail perguntou gentilmente entrando pela porta.

A senhora, como havia prometido, voltou com algumas ervas nas mãos. Afastou Serena de perto da saída com alguns tapinhas leves e depois fechou a porta. Se aproximou da mesa e espalhou as folhas. A jornalista reconheceu o cheiro de hortelã que se espalhava pela cabana. Suspeitava que Abigail fosse muito mais do que uma simples senhora cega que morava em uma cabana velha.

Trocou um olhar com Clarisse, tendo uma conversa silenciosa. Enquanto desciam a montanha há alguns minutos, Serena colocou uma câmera pequena e discreta na camiseta da assistente, para que ela filmasse tudo que vivessem na ilha. Agora, estavam mais perto do que nunca da história da morte e sua lista. A câmera mandava seus dados diretamente para o computador da jornalista, na cidade. Isso significava que mesmo que quebrasse ou algo pior acontecesse com a menor, ainda existiriam as gravações na cidade. Ela iria sobreviver, voltar para a cidade e ter o esplendor que tanto merecia.

– Olha, Abigail. Para falar a verdade, nós já estamos de saída. – Nina avisou – Nos desculpe por não fica para o chá, é que temos um lugar para…

– …Ir? Com essa chuva chegando? – Abigail perguntou apontando para as nuvens que podiam ser vistas pela janela – Mas eu jamais deixarei vocês saírem e quem sabe até pegarem um resfriado. Sentem-se e tomem um chá de hortelã.

Serena encarou os outros. Uma pobre e indefesa senhora não lhes faria algum mal, embora ainda estivessem preocupados com o sujeito que circulava a cabana alguns segundos antes de Abigail voltar. Algumas batidas nos vidros das janelas chamaram a atenção da jornalista, vendo que a chuva finalmente havia chegado ali.

Sem uma escolha melhor, todos se acomodaram na cabana, enquanto Abigail amassava algumas folhas de hortelã e acendia sua fogueira para esquentar a água. Serena olhou em volta, esperando que algo surpreendente acontecesse, pois uma velha fazendo chá não era digno de glória.

***

A primeira flecha passou raspando pelo braço de Shinji, criando um filete de sangue. Anna se agachou, desviando da segunda, que ficou trava no tronco de uma árvore. A aeromoça podia jurar que havia visto um gancho sendo disparado, mas ao olhar novamente, a flecha estava lá.

– Por que não mostra sua cara? – Kris provocou – Por que fica atacando escondido? Covarde!

Saindo do meio de arbustos, uma pessoa vestida com manto preto apareceu. Um arco de madeira estava em sua mão esquerda e flechas na direita. O rosto se escondia de baixo de uma máscara negra de corvo. O corpo ficou ereto e os braços se posicionaram para outro disparo. A flecha foi lançada, parando a quarenta centímetros da cabeça de Kris. Anna havia chegado a conclusão que a mira do Corvo deveria ser péssima. Ou estaria apenas brincando com eles?

– Você é um pouco míope para uma ave, não é? – Anna disse abrindo os braços – Mira em mim, me acerta! Vai, quero ver!

O Corvo novamente esticou os braços, apontando para Anna e depois para Kris, decidindo qual dos dois acertaria primeiro. Estava tão distraído com sua pontaria, que não havia percebido que o terceiro alvo havia sumido do seu campo de visão.

A pancada ecoou pela floresta, espantando alguns pássaros nas árvores. O Corvo caiu no chão, desmaiado. Atrás dele, Shinji ainda segurava a pedra que usou como arma. Depois de largar o objeto, verificou a pulsação do assassino, concluindo que ele estava vivo.

– Ainda bem que vocês o distraíram. – Shinji disse.

– Não precisou de muita coisa. – Anna disse – Ele não queria nos matar de verdade. Estava apenas nos assustando, querendo nos guiar indiretamente para algum lugar.

– Como assim? – Kris perguntou – Ele estava sendo tipo um pastor? E nós éramos as ovelhinhas perdidas?

– Mais ou menos. – Anna respondeu – Eu percebi que ele tinha capacidade de acertar uma flecha na nossa cabeça, mas não queria nos matar. Apenas nos fazer fugir para algum lugar.

– Bom, vamos ver quem é o corvo aqui. – Shinji disse tocando o bico da máscara e se preparando para puxá-la.

Fazendo barulho enquanto pisava em folhas e galhos secos, Bella apareceu, enquanto puxava Vivian pelo pulso. O rosto da loira estava em pânico e tinha alguma lágrimas rolando pelas bochechas.

– Graças a Deus, achamos vocês. – Bella disse – Tem uma pessoa com máscara de porco nos perseguindo! Logo vai nos alcançar…

– Pois venha, — Shinji disse largando a máscara e apontando para a pedra ao lado – já derrubei um, derrubo outro.

– Shinji, isso é perigoso. – Anna advertiu – Demos sorte uma vez, não quer dizer que poderemos nos salvar novamente.

– Por favor, vamos fugir daqui. – Bella implorou.

Shinji e Anna se olharam. Não poderiam ficar lutando pela sobrevivência para sempre. Descobrir quem estava de baixo da máscara de corvo não importava mais. Eles precisavam encontrar Anna Bella e os outros.

– Vamos embora daqui. – Anna disse, esticando a mão para Shinji.

O grupo então começou a correr pela mata, sem um destino certo a não ser a tentativa de viver, enquanto uma chuva começava a cair entre as árvores.

***

O clima abafado da cadeia estava quase fazendo Matheus entrar em combustão espontânea. Ele havia despido a parte de cima da sua roupa, por conta do calor, assim como vários de seus colegas presidiários que ali estavam. Um policial gordo arrastava mais um prisoneiro. Ele abriu a cela e jogou o novato com força, que bateu a cara na parede.

– Mais uma bonequinha para vocês brincarem. – O policial disse com nojo.

Esse era um tipo de código. Queria dizer que o novo prisioneiro havia sido preso por estupro. E agora sofreria o mesmo tipo de abuso pelos outros presidiários.

– O maconheiro e o motorista aí vão perder a diversão. – o policial completou, olhando para Matheus e outro rapaz.

– Por quê? – Matheus perguntou, intrigado.

– Vão ser soltos.

O outro rapaz, que havia sido chamado de maconheiro, se levantou depressa. Matheus o seguiu, tendo os presidiários formando um círculo em volta do estuprador como uma última visão da cela.

– Por que eu fui solto, se fui condenado a anos de prisão? – Matheus perguntou para o policial que os conduzia.

– Às vezes uma boa grana vale mais do que você preso anos aqui… — o homem respondeu – E se eu fosse você, não reclamava.

Depois de pegar seus pertences, Matheus saiu de sua prisão. Ele mal se lembrava como era a vida fora de uma jaula. O sol aquecia seu rosto e uma brisa leve balançava seu cabelo, que agora estava um pouco comprido, junto com a barba mal feita. O ex-motorista começou a andar pela calçada, sem saber que rumo direito seguir, mas um carro começou a parar no meio-fio, dando-lhe a resposta. O vidro escuro do carro abaixou, e um braço jogou uma pequena mala no peito de Matheus, que a segurou.

– Quem diria que um dia eu iria ver você com a barba mal feita e sem o uniforme tosco de motorista?

– Ah, então está explicado, foi você quem me soltou. – Matheus disse, encarando a pessoa dentro do carro — Por que demorou tanto?

– Eu tinha que te deixar mofar alguns dias, para tentar te ensinar a ser um pouco menos burro. – a voz ironizou de dentro do carro — Você ser pego pelo assassinato não fazia parte do plano. Mas que bom que você conseguiu consertar os desígnos.

– E agora? – Matheus perguntou.

– Dentro dessa mala tem seus novos documentos, passaporte, dinheiro e roupas limpas. Pegue um voo diretamente para a ilha. Os sacrifícios já começaram e você precisa terminar o que começou. – o vidro subiu, junto com as últimas palavras, e o carro deu partida, deixando Matheus parado no meio da calçada.

O ex-motorista analisou a mala e abriu um pouco seu zíper, vendo lá dentro, além de tudo que havia sido descrito, uma faca dentada e uma máscara de lobo.

***

Ruth esfregou as mãos em volta do corpo na tentativa de se esquentar. Estava dentro da caverna, que não era tão escura quanto pensava. A chuva continuava a cair do lado de fora e os assassinos haviam sumido de vista. Teriam desistido de sua caça?

No fundo da caverna, uma pequena vela estava acesa, chamando a atenção de Ruth, que se aproximou. Ela pegou o objeto, tomando cuidado para não se queimar na cera derretida que escorregava pelas bordas. Com a fraca iluminação produzida, tentava se guiar pelo local, observando as paredes. Estranhas inscrições avermelhadas jaziam lá, junto com algumas imagens, também vermelhas, que começavam a deixá-la nervosa.

Palavras estavam escritas em um idioma que a jovem não entendia, mas sentia que eram antigas e poderosas. Em certo ponto da parede, duas palavras em latim começavam a se repetir em torno de um círculo. No centro do mesmo, havia uma letra “M” cheia de curvas, puxando na lembrança de Ruth um dos símbolos dos signos do zodíaco, mas ela não se lembrava qual era. Aproximou o rosto com o objetivo de enxergar melhor as palavras que estavam escritas, sem reparar que estava chegando perto de rachaduras no chão.

– “Virginis sanguis”… — Ruth leu entre a penumbra – “Sangue virgem”. – conseguiu traduzir.

Junto com a tradução simultânea, se lembrou que o “M” dentro do círculo lembrava o símbolo do signo de virgem, no zodíaco. Assustada, tentou dar dois passos para trás. Aquela caverna era seu matadouro. Haviam caído em uma emboscada e agora a morte viria pegá-la. O chão se rachou mais um pouco, até não conseguir sustentar o peso da jovem, cedendo. Ruth despencou em queda livre alguns metros, com a vela ainda na mão. Caiu com força no chão, coberta de pó.

– Que ótimo! – ironizou em voz alta – Primeiro lama e agora poeira. Falta mais o que?

Então viu a resposta. Um túnel cheio de teias de aranha era seu único caminho a frente. O buraco, pelo qual caiu, estava a vários metros de distância acima, impossível para alguém desajeitado como ela conseguir escalar. Não existia outra opção, teria que seguir em frente. Com uma mão, abria caminho para sua passagem e com a outra, segurava a vela, desviando das teias para não acabar causando um incêndio subterrâneo.

Em certo ponto do túnel, pôde abandonar a vela, que já estava quase no final, pois nas paredes estavam várias tochas acesas. Conforme passava por elas, as chamas dançavam, como se Ruth estivesse acompanhada de uma brisa. Ou talvez estivesse acompanhada pela morte. Pensar nisso lhe deu um arrepio na espinha, mas ela continuou sua caminhada, com esperança de encontrar uma saída.

Viu mais a frente o túnel se abrir em um local mais amplo e também mais escuro. Adentrou na câmara redonda e se viu mais perdida do que nunca. Apesar da escuridão, conseguiu ver o teto abobadado. Em cada ponto cardial havia uma abertura para um túnel diferente. Todos possuíam tochas acesas e teias de aranhas. Aos lados, estátuas com rosto femininos e angeliciais enfeitavam o local. Poderiam ter pertencido a alguma igreja ou algo parecido. Ruth estava ficando louca ou as estátuas pareciam ter o rosto de Lena? Ela se aproximou de uma delas e a tocou. A cerâmica fria e áspera causou um arrepio na jovem. No momento em que largou a estátua, ouviu um grito chamando por seu nome.

– Lena? – ela gritou, se virando. Sua voz ecoou pelos quatro túneis em volta.

Deu três passos e parou olhando para os túneis. De qual deles Ruth havia vindo? Lena possivelmente estava na caverna, chamando por seu nome. Precisava voltar e tentar se salvar. Se concentrou e percebeu que um dos túneis tinha uma quantidade menor de teias, e isso poderia significar que era por onde ela viera, afastando as teias para sua passagem. Com passos apressados, correu pelo túnel, afastando o resto de teias com as mãos.

Ruth queria voltar para Lena. Ela precisava de Lena.

Sentindo que estava perto do final do túnel, Ruth tropeçou em uma pedra, se preparando para bater com a cara no chão. Mas não existia “um chão”. Mesmo com a escuridão atacando seus olhos, Ruth viu o abismo em sua frente. A queda era totalmente irregular, cheia de pedras e outros materiais no caminho. Se ela caísse, seria o fim. Com um movimento rápido, consegui agarrar em um pedaço de teia e equilibrou-se. Suspirou aliviada. Tinha sido por pouco.

Estava preparada para se virar e ir embora, quando a rocha em seus pés caiu novamente, fazendo-a ficar pendurada na beira do abismo. Soltou um grito, ecoando pelo abismo que parecia não ter fim. Agarrou na fina teia, que dava sinais de fraqueza, na tentativa de escalar.

Com o movimento feito em sua corda improvisada, a teia acabou encostando em uma tocha, no meio do túnel. O fogo começou a se espalhar rapidamente para todos os lados possíveis. Ruth viu o que tinha feito e o arrependimento chegou tão rápido como o fogo. Quando as chamas estavam prestes a alcançar sua mão, a jovem se soltou, jogando-se em queda livre.

O túnel cheio de teias ficou em combustão, enquanto Ruth caía. Seu corpo atingiu a primeira pedra que se prendia a parede do abismo, acertando sua barriga. A morena cuspiu sangue enquanto tombava para o lado, continuando a cair. Seu corpo foi atingido por mais diversas pedras irregulares nas paredes. Um gancho parecido com um anzol estava jogado preso. Quando Ruth passou por ele, o metal enferrujado arranhou sua testa, arrancando um pedaço de sua pele.

Ruth continuou a cair, com uma linha rubra marcante na testa. Sentiu as costelas serem deslocadas ao bater na parede do abismo. Gritou jogando sua cabeça para trás, o que foi outro erro, pois acertou a outra parede de pedra. Sentiu uma dor imensa ao ter seu crânio atachado. Caiu em linha reta por mais alguns segundos.

Às vezes batia novamente nas paredes do abismo, sendo jogada de um lado para o outro. Uma vez, atingiu seu olho, afundando-o na cabeça, outra vez, ralou todo seu braço, deixando em carne viva.

Ruth atingiu o final do abismo, afundando em um rio escuro e depois submergindo, para ficar boiando. Seu corpo estava em um estado deplorável, completamente machucada. Um olho se encontrava afundado no crânio, que também estava quebrado. Sangue saía de sua testa, se misturando a lama e sujeira que se encontravam na água. Seu braço que foi machucado se encontrava vermelho. Dois filetes de cor rubra escorrigam de sua boca.

Mas nada disso importava mais. O corpo já estava sem vida. O que Ruth esperava que fosse seu esconderijo, acabou se transformando em seu túmulo.

Notas finais
Não esqueçam de comentar. Os reviews são muito importantes para a continuidade do projeto.