Notas iniciais
Escrito por ViniKaulitz483.

1983

O ar no corredor do hospital era gélido e úmido, pesado com o pó de cimento vindo de uma das construções próximas. Mais de uma pessoa havia reclamado que simplesmente, era inadmissível aquele ar carregado na ala da maternidade, mas nada aconteceu. Centenas de lâmpadas fosforescentes, distribuídas simetricamente ao longo do edifício, ainda não eram capazes de afastar a esquisitice do local. O único indício de vida na cena era o som das sirenes da polícia soando no horizonte. E era de fato estranho, pois se tratava de uma maternidade.

Vinte e três horas e cinquenta e oito minutos, o som do sapato de salto alto batucando no chão começou a ecoar pelas paredes, mas a mulher que causava o barulho parecia não se importar. Pelo contrário, parecia estar muito feliz com o que estava fazendo. Era visível o grande sorriso no rosto, o resto da face era praticamente obscurecido pelas abas do chapéu elegante que trajava.

Ninguém a deteve, ninguém estranhou o fato daquela mulher de vinte e poucos anos (de fato, muito elegante) resolver desfilar pelos corredores da maternidade do Ferreira Castro justamente quando o relógio estava prestes a dar meia-noite. Não era horário de visitas também, mas ninguém dos poucos funcionários que naquela noite trabalhavam ousou impedi-la.

A mulher trajava um vestido rosa, muito trabalhado, e longo. Carregava uma bolsinha minúscula, nela estava estampado chifres afiados num emblema dourado, pelo menos de acordo com a freiras. As mesmas que a viram também disseram que a mulher poderia muito bem ter saído de um filme de Hollywood. Uma mulher muito importante. Mas o que ela queria?

Silvia Leme dormia gostoso na poltrona que seu marido Jonas, havia delicadamente roubado da recepção de visitantes até o quarto de Silvia. Ele não iria permitir que sua esposa dormisse mais uma noite numa cadeira dura. Naquela noite faziam sete dias que sua filha havia nascido, e por regra do hospital as mães só podiam utilizar as camas até o quinto dia.

Não fazia sentido nenhum aquela regra, mas Silvia já estava no sétimo sono. Ainda que estivesse meio grogue por alguns remédios, ainda que estivesse sensível, aquela poltrona era deliciosa em comparação com a cadeira. A mão de Silvia estava posicionada de uma maneira desconfortável acima do berço. Protegendo. A mulher tinha os cabelos curtos: como professora de crianças carentes, Silvia logo havia descoberto que cabelo longo no meio da piazada dava piolho.

Um rangido e Silvia acordou num baque. A visão que ela teve é uma das poucas na vida inteira que quase te fazem cagar sua alma para fora.

Uma figura sinistra (belzebu? Silvia se perguntou chocada). Num golpe esquisito, causado pela sensibilidade física em excesso devido ao fim da gravidez, o foco em sua visão voltou como uma bala em um milésimo de segundo e ela quase desmaiou de tontura. Então percebeu, diante de seus olhos, uma mulher sorridente. Um chapéu gigante. O “capiroto” na bolsinha minúscula. Um vestido elegante. A luz fraca do abajur próximo refletia nos olhos da figura. Mas o pior, a mulher carregava sua bebê.

O grito já estava na metade do caminho para sair da garganta de Silvia, então a mulher sussurrou.

– Shh... vai acordá-la.

Silvia não entendeu, mas também não gritou.

– Não vou fazer nada de mal com ela, — a mulher continuou calmamente. A voz muito serena. Quase como se trouxesse milhares de memórias que Silvia sequer lembrasse que ainda tinha.

– Quem é você? – Silvia perguntou, só agora percebendo que já estava de pé e tateando por sua bolsinha.

– Não importa. Eu só precisava me certificar de que é a criança certa.

– O-oi? – Silvia gaguejou.

– E é. Estou muito feliz por isso. Ela veio uma semana mais cedo né?

Silvia empalideceu.

– Pois é...?

Silvia não sabia por que ainda estava respondendo a mulher. Ela devia, no mínimo, ter voado e agarrado sua cria dos braços daquela aberração do chapéu esquisito. Mas a sensação de medo era quase que completamente afogada pela serenidade da voz da bendita mulher.

– Eles sempre vêm uma semana mais cedo. – A mulher riu. Então ela fuçou na blusinha da bebê, descobrindo o pulso.

Os punhos de Silvia fecharam.

A mulher leu por um segundo e sorriu mais uma vez. – Anna Clara. É um nome lindo. Clarividência. Você até parece que adivinhou.

Anna Clara finalmente pôs-se a chorar. A berrar.

– Moça, devolve minha bebê. Pelo. Amor. De. Deus.

A mulher se aproximou e entregou a versão barulhenta de Anna Clara para Silvia. A mãe agarrou a criança e esfregou-a em seu próprio peito. Em seu coração.

– Você vai fazer um grande trabalho, — a mulher disse sorrindo, a voz abafada entre os berros da criança. E então deu meia-volta e saiu do quarto.

Silvia observou a mulher desaparecer no corredor pela janelinha que dava visão ao corredor. Então se sentou de volta na poltrona. As pernas bambas. Anna Clara chorando. Outras crianças acordando em quartos vizinhos. Mas tudo estava bem novamente. Silvia abraçou Anna Clara e quis morrer por um segundo, em seguida levantou-se impaciente, ninando Anna enquanto andava em direção à garrafa de água.

Silvia não iria dormir tão cedo naquela noite.

Lá fora a sirene da polícia soava mais uma vez. Silvia se perguntou se eles estavam pegando os bandidos certos. Ou pelo menos que peguem essas criaturas que assustam jovens mães em hospitais.

Ninguém chegou a ver o rosto da mulher. Mas todos se lembravam do sorriso.

Dezembro/2014

Lana Flowers encarou a jovem cigana, que a encarou de volta. Crystal, esse era o nome de guerra da cigana, pelo menos era o que Lana sabia. A cigana não parecia ter mais que 25 anos. Tinha os cabelos ruivos (pintados, Lana reconheceria uma raiz de cabelo escura em até duzentos quilômetros), um piercing na sobrancelha e um piercing de boi no nariz. Os cílios esticados à falecida Amy Winehouse, orelhas de duende e olhos verdes. Lana não soube dizer se eram lentes de contato.

A iluminação no cômodo era escassa. Algumas velas eram distribuídas aleatoriamente e sem ordem ou organização alguma pela sala de estar da jovem cigana. Havia um aroma muito forte e asqueroso de um incenso velho que Lana até tentaria identificar se não parecesse estar misturado com outros milhares de restos de incensos que Crystal não se preocupou em tirar.

“Pra que tirar esses milhares de restos de incensos se ela poderia juntar todos eles e ter aquele aroma de bosta mística pra todo o sempre?”.

Lana estava se divertindo. Ela também estava se divertindo porque Greg Kaulfuss estava visivelmente nervoso logo atrás dela, e vez ou outra tossia devido a sua alergia incontrolável e não parava de balançar as pernas. Ela estava um pouco puta com ele. Acompanhá-la naquela experiência seria a punição da noite.

Lana tinha os cabelos azuis. Era um azul similar à cor de um céu azul em um dia bonito, mas como se acidentalmente derrubassem um elemento X que deixasse o azul mais intenso e mais brilhante. Os cabelos eram longos e volumosos, pelo menos quando soltos, e naquele instante cerca de seis centímetros da raiz escura já se destacavam no mar de azul. Era difícil chegar no azul certo e manter o tal azul. Blue is the Warmest Color, Greg ocasionalmente comentava e ria horrores do comentário quando começava a ficar bêbado. No auge dos 22 anos, Lana tinha a pele alva, uma pequena franja sutil que caia sobre os olhos escuros e intensos, olhos em formato de amêndoas perfeitas. Cílios longos e naturais, nariz arrebitado e uma boca pequena e minuciosamente desenhada. Lana tinha um rosto angelical, um corpo divino, e sabia muito bem daquilo. Lana era o sonho molhado de qualquer nerd ao redor do planeta. Ela usava uma regata simples, revelando apenas o topo da cabeça de um dragão colorido e gigante que começava em seu ombro direito e descia em suas costas. Até onde ele descia, talvez só Greg soubesse.

Greg Kaulfuss era o oposto de Lana. Descuidado e despreocupado. Ele era mais charmoso do que bonito. 28 anos de idade, parecia até um pouco mais velho. O cabelo castanho-escuro e curto, corte 1 na lateral, um dedo na parte de cima, corte 1 na outra lateral. Orelhas afiadas, sobrancelhas desarrumadas, olhos num tom cinza meio azulado, estreitos, mas sempre muito abertos. Nariz quadrado, lábios grossos e a barba sempre por fazer, nunca em exagero, nunca muito pouco. Algumas cicatrizes sabe se lá do que na bochecha — Greg tinha falado sobre algo envolvendo uma treta com galinhas de sua vó uma vez, Lana tinha esquecido. Diferente de Lana, era quase impossível identificar as dúzias de tatuagens no corpo grande de Greg. Ele era alto, e consequentemente musculoso, em forma, mas não porque passava metade da vida preso na academia, e sim porque era a bendita da genética o favorecendo. Lana simplesmente não entendia algumas coisas. Aquele monte de fitas e pulseiras no braço dele, por exemplo.

Lana era muito diferente de Greg, mas às vezes sentia como se fossem exatamente iguais. Talvez fosse aquilo que desse tão certo. Ou tão errado às vezes.

– É o seguinte, — Crystal disparou repentinamente, quase como se acordasse de um sono rápido – vou usar as cartas. Irei tirar sete cartas, e o que sair nelas, será minha previsão para você minha querida.

– Bem sutil. – Lana concordou séria. E sorriu.

Crystal tirou um baralho dos pulsos e Lana ficou realmente surpresa com o truque de mágica. Lana até fez o gesto de impressionada. Greg a cutucou e ela segurou a risada. Rapidamente Crystal gesticulou as cartas para Lana, o que a garota entendeu como um sinal para que apontasse uma delas.

Lana o fez. Assim como nas seis cartas seguintes.

Greg suspirava pesadamente. Outra tosse.

Crystal separou as cartas e as posicionou de costas sobre a mesa. Lana encarou. Ansiosa. Crystal começou a falar uma saraivada de frases em um idioma desconhecido e Lana teve que se segurar com força pra não rir com a série de cutucadas nas costelas que recebeu de Greg.

Lana estava feliz porque Greg estava quieto.

Uma por uma, Crystal virou e revelou o desenho de cada uma das sete cartas. Lana esperou ela terminar e focou-se em cada uma.

Na primeira, havia uma lua cheia sobre um céu estrelado. Havia um sorriso na lua, e um cigarro na boca. Aquilo era presunçoso. Hm.

– Olha, — Greg não se conteve. – A lua safada do Whatsapp.

Na segunda, havia uma espécie de rei medieval, de acordo com suas vestimentas, segurando uma armadura sobre um soldado de menor estatura.

Na terceira, havia uma fogueira. Uma bruxa com os olhos arregalados parecia encarar a alma de quem encarava aquela carta.

Na quarta, havia uma espécie de ritual acontecendo. Vários membros de uma tribo pareciam dançar ao redor de uma criatura amarrada em um poste. Seria a bruxa da terceira carta?

Na quinta, havia apenas um rei. Imponente.

Na sexta, havia uma inversão da segunda carta. Dessa vez era o soldado quem segurava a armadura sobre o rei. O soldado é quem protegia o rei.

Na sétima, havia uma caveira desmontada sobre uma dúzia de pedras.

– Nossa, — Lana comentou quando terminou de ver as cartas. – Isso parece bem perturbador.

Lana notou que Crystal estava com os olhos fechados até o instante. Crystal encarou a série de cartas e pôs-se a pensar.

Lana tentou imaginar uma lógica para as cartas. Mas o significado das cartas individuais já era difícil de ser pescado. Agora imagina formar uma frase com aquilo? Ou um sentido? Talvez Crystal merecesse um prêmio.

Crystal suspirou, pronta para falar. Lana encarou.

– Ora, ora. Abra os olhos Lana.

– Estão abertos.

– Primeira carta, — Crystal disse. — Você é uma garota da noite.

Lana sabia daquilo. Lana era vocalista da The Lost Files. Rock na veia. Lana amava as noites. Greg não a cutucou dessa vez, Lana entendeu que ele de fato estava interessado.

– Isssssooo. – Lana sussurrou.

Crystal apontou para a carta do rei defendendo o soldado.

– Você tem um guardião muito forte.

Greg? Ela pensou.

– Deve ser o seu namorado. – Crystal casualmente comentou. — Ou o seu pai.

– Definitivamente não é meu pai, — Lana pôs-se a rir. – Deve ser o Greg. – balançou a cabeça.

Ela conseguiu sentir o sorriso idiota na cara dele, mas não se virou para ver.

– Mas aqui, — Crystal apontou para a carta da inversão de papéis, soldado defendendo o rei, — vai acontecer o contrário. Você vai precisar defender o seu guardião.

Lana sentiu o sorriso bobo desaparecendo do rosto de Greg. E dessa vez se virou. E viu o restinho do sorriso se apagando para uma cara de confusão.

– E no caso, — Crystal apontou para a sétima carta, a da caveira – é questão de vida ou morte.

Lana encarou Crystal. Greg suspirou entediado.

– Tipo, sérião mesmo. – Crystal concluiu acenando positivamente com a cabeça. – Bem punk.

– E quanto ao resto das cartas? — Lana perguntou, também ficando entediada.

Crystal apontou para a carta da bruxa no fogo. — E isso pode envolver fogo.

– Envolver fogo? Sério? – Greg riu. – E a quarta carta? – Ele apontou para a carta do ritual. — Vai me dizer que agora que envolve fogo e essas porras numa espécie de sacrifício? Com índios dançando ao redor da gente?

– Não é esse o contexto, — Crystal comentou, ignorando o sarcasmo de Greg. – Essa carta serve como uma metáfora para a audiência.

Lana e Greg trocaram um olhar confuso.

– Como se, seja o que for que aconteça, — Crystal disse, — seja o que for essa troca de papéis, vocês terão espectadores. Serão assistidos.

Greg e Lana ficaram quietos. Serem assistidos...

– Ok. – Lana suspirou.

– Mas eu não mandei minha fita pro Big Brother esse ano, — Greg comentou, tão casual.

– Ok, — Crystal recolheu as cartas num impulso repentino que Lana até recuou um pouco. Ela apontou para Greg. – Você é o próximo rapaz.

Lana encarou Greg. Ela riu.

– Eu tô fora, — Greg riu também e se levantou, braços esticados – Não acredito nessa porra não. Só vim aqui pela experiência.

– Com os resultados que sua namorada tirou, — Crystal argumentou, — se eu fosse você eu certamente gostaria de ver o meu futuro.

– Pois é melhor não, — Greg comentou. – Você mais ou menos previu que vou morrer cercado por uns índios dançando. Mas olha, agradeço de coração, viu moça?

Greg jogou a jaqueta de couro sobre os ombros e saiu marchando.

– Vou te esperar ali fora, Ana Carolina. – o rapaz comentou enquanto abriu a porta, deixando a luz acesa do corredor fatiar o apartamento obscuro de Crystal. As duas garotas recuaram com o golpe de luz repentino.

– Desculpa meu namorado, — Lana comentou enquanto tirava o dinheiro da bolsa. – Ele é assim mesmo.

– Tudo bem, — Crystal sorriu. – Fica de olho nele. As cartas não mentem.

– Ok... – Lana concordou e forçou um sorriso. – Eu sempre tô de olho nele.

As portas do elevador do andar de Crystal mal haviam se fechado e Lana e Greg já tinham caído na risada.

– Lana, obrigado por me proporcionar esse momento. – Greg comentou sorrindo. – Adorei o rolê no apê da cigana. Você é a melhor.

– É apenas o meu charme te levar pra esses lugares. Sabe quantas vezes você tirou as palavras da minha boca lá dentro?

– Mais tarde vou enfiar outra coisa na tua boca.

Lana riu e socou o ombro dele. Com mais força do que o necessário.

– Ok, — Lana suspirou. – Chega de piadas horríveis. Eu realmente gosto desses negócios. Tarô e cartas e tal. Crystal parece ser louca, mas acredite, já fui a piores ciganas.

– Eu tenho até medo de onde você já foi, Lana...

– Pois é, — ela riu e socou o ombro dele mais uma vez. – Melhor deixar em off.

Os dois deixaram o prédio em silêncio e embarcaram no jipe esportivo de Greg. Ele ligou o rádio.

Every carpet, every floor

Everywhere I look up for

Climbing up the walls,

I’m climbing up the walls...

Algumas ruas do subúrbio adiante, flashes das luzes da cidade ocasionalmente refletidos nos rostos cansados do casal, Lana abaixou o volume. O rapaz respirou fundo, quase que pressentindo que Lana ia começar.

– Ainda estou puta com você.

– Por causa do negócio no jipe? Já disse que algum dos meus amigos enfiou aquele batom lá dentro. – Greg comentou calmíssimo. — Deve ser o bosta do Rafael pra me zoar, – ele a encarou, sorrindo meio desconcertado. – Ele tá é com inveja da nossa viagem e quer me foder.

Lana virou os olhos.

– Juro que vou te matar nessa viagem.

XXX

Apesar dos pesares, Anna Clara estava feliz.

A jovem mulher apertou os cintos e sorriu. 31 anos de idade. Cabelo escuro e extremamente curto, prático e muito bem cuidado. Uma franja curtinha dava a ela uma camada a mais de delicadeza. Olhos escuros e firmes, nariz levemente arredondando e um sorriso fácil. Lábios delineados. A pele naturalmente bronzeada, corpo alto e magro. Totalmente em forma, as pernas torneadas e perfeitas. Nada daquilo era porque seu trabalho, de alguma maneira, exigia aquele tipo de coisa. Era apenas como a bela comissária se sentia bem. Anna era deslumbrante e de uma beleza fácil. Mal podia imaginar quantos corações já tinha roubado ao redor do mundo nos últimos anos.

Respirou fundo, sentindo pela milésima vez a batida do próprio coração acompanhando os socos que podiam ser sentidos no chão da aeronave, durante a decolagem. Assim que as turbinas são ligadas, é imediato. Os socos sempre vêm. Anna comumente era a única tripulante que ainda sentia as pancadinhas enquanto as aeronaves decolavam.

Aí o avião desliza pela pista. Diminuem o número de socos, porém eles são mais fortes. Ai as pancadas diminuem, sendo substituídas por solavancos curtos e muito rápidos – essa é a parte que Anna respira fundo. Aí então, tão repentinamente quanto surgiram, os solavancos param. E tudo o que você houve são as turbinas.

Não era medo, disso Anna tinha certeza. Ela se lembrava de quando confessou essa sensação para seu chefe, Jorge Lange. O homem então riu e dissera: “Se as batidas do seu coração casam com os solavancos do avião, então pode ter certeza que não é medo. É amor.”

Anna gostava de pensar daquele jeito.

A comissária de bordo havia passado os últimos dias organizando aquela viagem. Sua vida como aeromoça era uma correria por si só. Anna de fato, viajava o tempo todo, cobrindo escalas de voos tanto nacionais quanto internacionais, mas nunca havia pegado um avião pra viajar com sua família. Seu marido, Shinji Watanabe del Sol, contador, também sofria da mesma síndrome de não parar de trabalhar. E sua filha, Anna Bella, uma mocinha deslumbrante de apenas dez anos, era a que mais sofria com aquilo tudo.

Aquilo cortava o coração da aeromoça. Por isso, Anna teria que compensar pelo menos 50% daquele sofrimento todo naquele fim de semana que passariam na Ilha Vermelha.

Não era bem uma viagem. Ao chegar no local, Anna ainda teria que cumprir com alguns compromissos de sua companhia aérea, a Voleé Airlines. Mas ao mesmo tempo, a comissária sentia que apesar daquilo tudo, teria tempo de sobra.

Já estava tudo certo. Anna teria dois dias livres, e então iria pegar o voo para Recife, acompanhada de sua filha e o marido. Contudo, no último dia possível, a Voleé ligara dizendo que Anna precisava pegar o voo mais cedo, e como comissária. Anna não conseguiu transferir as passagens da filha e do marido para o voo mais cedo, então estava ali trabalhando, e longe da família mais uma vez.

E consequentemente, chegaria em Recife cinco horas mais cedo que Anna Bella e Shinji.

Anna já tinha digerido aquilo. Ela ainda teria três dias com os dois. O coração já estava recuperado, e Anna não via a hora de chegar em Recife e esperar pelos dois del Sol restantes. Ela estava contando os minutos.

O led dos cintos de segurança apagou, e Anna agilmente se libertou do assento. De maneira elegante, trajando o uniforme azulado da companhia: um blazer azulado com listras brancas nas mangas, saia formato lápis no mesmo tom exato, ambos impecavelmente sob medida; lenço ao redor do pescoço e as insígnias de hierarquia, simetricamente posicionadas acima do peito, usando salto alto preto que, indiretamente destacava as pernas torneadas da morena. Ela marchou até o painel do alto falante, pegou o telefone e sorriu enquanto repassava a mensagem.

– O comandante desligou o aviso do cinto de segurança. Portanto, sintam-se livres para circular pela cabine. No entanto, recomendamos que quando se sentarem, coloquem os cintos de segurança para a eventualidade de ocorrer turbulência inesperada. Obrigada.

Anna ouvia os cliques dos cintos sendo soltos, e já conseguia ouvir alguém chamando “moça” no fundo da classe econômica. Ela sorriu e andou em direção à cortina.

Ao trabalho, Anna.

XXX

O rapaz no assento da frente deu uma cotovelada nervosa no coturno de Greg pela segunda vez.

Ah, como Greg sentia falta do espaço da primeira classe. Virou os olhos cinzentos e finalmente desistiu de apoiar as pernas no braço do assento do outro lado do corredor. O que foi bem pensado, pois no instante seguinte ele percebeu Lana tirando o tapa-olho de dormir. Lana simplesmente não iria permitir que Greg ocupasse o espaço dos outros.

Lana era muito correta.

Mas Greg “tava que tava” e queria jogar.

Ele sorriu, Lana acordando era sempre uma bela visão. O rosto impecável, o cabelo bagunçado um pouco colado na cara. Mesmo no avião, por vezes ele sentia outras pessoas os encarando, principalmente Lana. Ele não tinha ideia se as pessoas estavam reconhecendo ambos, se estavam curiosos ou deslumbrados com a beleza exótica de Lana ou se queriam saber quem era o filho da mãe que estava ouvindo Charlie Brown Jr. no fone de ouvido, só que no volume mais alto possível. Greg não podia evitar. Ele nunca conseguiria deixar de ser Greg.

– Sonhei com Pussy e Dick. – Lana comentou enquanto se arrumava no assento. Olhou seu próprio reflexo na tela escura do iPhone.

– Eles estão bem, — Greg disse. – Relaxe. Jennifer vai cuidar bem dos dois. – Ele se aproximou do ouvido de Lana. — Ela tem cara que adora um Dick.

Lana riu.

– E de que adora uma Pussy também.

Os dois trocaram um olhar safado. Riram.

Pussy e Dick eram os dois cães de Greg e Lana. Pussy era uma pug preta, sensível, desequilibrada emocionalmente e extremamente apaixonada por Lana. Pussy só tinha olhos para Lana. Dick era o contrário, um vira-lata marrom gigante, uma mistura charmosa de pastor alemão com Dobermann inglês. Dick era um macho alfa incorrigível e autoritário. Era apaixonado por Lana e Greg de maneira igual.

Lana havia adotado os dois bichinhos num fórum online, Greg achava que já fazia mais de dois anos. No tal fórum, Lana havia conhecido uma bióloga chamada Nina, outra garota apaixonada por animais, e que ambos Lana e Greg iriam conhecer na Ilha Vermelha. Lana e Nina tinham se tornado grandes amigas virtuais. Greg achava engraçado, Lana tinha uma facilidade pra atrair aquele tipinho de gente apaixonada por animais. Incluindo ele mesmo. Ele também amava os animais.

Assim que desembarcassem em Recife, iriam almoçar na casa de Guto Souza, um Youtuber famoso, também um grande amigo de Greg. Após, iriam pegar uma balsa até a tal da Ilha Vermelha. Greg estava ansioso.

Lana fuçou no iPhone, descaradamente usando o 3g no avião e ignorando os milhares de avisos. Greg a viu acessar o Instagram, e ao descer o feed, Lana parou numa foto e começou a sorrir. Greg olhou também.

Na foto, Nina estava na beira de um cais, uma pose séria, um chapéu elegante e um pôr-do-sol no fundo. A foto parecia ter sido tirada por um profissional, Greg não poderia negar. Além do mais, Nina parecia mais uma modelo do que uma bióloga. Loira e gostosona.

– Essa sua amiga hein, — Greg comentou. Lana o encarou. – Muito linda a moça né. – ele concluiu.

– Ela é. – Lana riu e guardou o celular. – Linda de morrer.

Greg riu.

– Lana, sobre o que eu tinha lhe falado sobre o banheiro do avião...

Lana lembrou e pareceu indignada.

– Nem pensar, Gregory.

Quinze minutos depois, Greg ria.

– Greg, esse lugar é nojento.

– Qual é Lana, é rapidinho. Pelo menos tem espaço. Ar condicionado...

Recostada contra a parede do banheiro do avião, Lana suspirou. Ela beijou-o. Ele retribuiu, quase que desesperado.

A camiseta de Lana estava totalmente desabotoada. Ela não usava sutiã, e casualmente parecia querer esconder os seios com os cabelos azuis. Lana adorava mostrar os seios, inclusive andava de topless pela casa, mas Greg entendeu que ela parecia envergonhada, pois a luz no banheiro do avião era excessivamente forte.

– Relaxe, — ele disse. – Seus peitos estão lindos.

Lana estava usando um vestido longo e florido, presente de uma das tias hippies. Lana finalmente parecia estar entendendo porque Greg queria que ela usasse o bendito vestido no avião. Simplesmente, pois é fácil de erguer...

No caso, Greg já havia descido as calças fazia tempo.

Formado em Design Industrial, trabalhando como fotógrafo numa grande agência de publicidade e recebendo uma atenção gigante com vlogs pela Internet, a vida social de Greg andava perfeita.

Greg havia começado a fazer vídeos para Internet alguns meses depois de ter começado a faculdade, faziam quase seis anos já. Ele era um geek da fotografia, do cinema, da TV, e conseguiu enxergar uma oportunidade de fazer o que amava e se divertir. Ele começou a falar de fotografia, partiu para cinema e TV, misturou as duas coisas; depois começou a falar de temas diversos. Seis anos depois, 360 mil inscritos no Youtube, dezenas de parcerias com outros Youtubers famosos, 300 mil seguidores no Twitter e 80 mil seguidores no Instagram, Greg não tinha certeza, mas acreditava que era seu charme meio europeu, a fotografia e sua espontaneidade. Pelo menos era o que diziam na Internet.

Apesar de conseguir um lucro razoável com os vídeos, ainda preferia continuar como fotógrafo na Roadpress, também porque amava tirar fotos e gostava da sensação de ter um emprego fixo. Uma vida estável. Gostava de pensar que tinha um horário para acordar e ir fazer algo ainda além de gravar vídeos.

E também, Greg amava a popularidade, amava as festas. Greg adorava beber umas. E amava Lana.

Greg já transpirava enquanto delicadamente deslizava a calcinha de Lana até os joelhos. Desabotoou a própria camiseta xadrez, tirou e finalmente lançou um sorriso sacana pra Lana. Ele se abaixou e caiu de boca na região mais sensível da garota.

Lana grudou no cabelo de Greg, fechou os olhos e viajou.

Greg amava a anatomia feminina. Tudo tão bem distribuído. Tão humano, sensível, tão cru e vivo. Na boa, ele lamberia tudo.

E também, ele tinha amado cada quilômetro da estrada que tinha dirigido com Lana.

Era 2009, ele tinha ido conferir as bandas de um festival de rock numa cidade do interior de São Paulo. Greg curtia um bom som. Quase que de imediato, ficou vidrado na guria de cabelo vermelho que balançava a cabeça que nem louca, enquanto usava o próprio vozeirão de contralto, quase como se não precisasse fazer esforço em uma balada rock que ele não se lembrava do título.

Ela tinha 17 e ele tinha 23.

Algumas coisas apenas acontecem.

Greg ficou brincando no clitóris de Lana por um bom tempo, enlouquecendo-a. Ela jogava os cabelos de um lado para o outro, perdida no suor, já totalmente esquecida de que estava num avião. Se existisse um único golpe para desarmar Lana, era aquele.

E só ele conhecia tal golpe, então estava tudo bem.

Ele sentiu as pernas de Lana arqueando ao redor da cabeça dele, o ápice final... e recuou.

– Me fode. – Ela sussurrou.

– Oi? – ele riu, ainda abaixado.

– Você ouviu.

– Hm? – ele repetiu, agora encarando ela.

– Greg, vai se foder.

Ele riu alto dessa vez. Alguém bateu na porta do banheiro, Lana voltou a parecer acuada, mas ele ignorou e lançou um olhar a tranquilizando.

Greg deu uns beliscões na pele ao redor dos seios dela. Ver o sangue desaparecer e a região ficar branca por um segundo. E então o sangue voltar, meio que desesperado, a região ficando vermelha.

Greg segurou o membro e posicionou na entrada de Lana. Uma troca rápida de olhares, quase como uma autorização para seguir em frente.

Que jogo você quer jogar, Lana?

Ela fechou os olhos mais uma vez, dessa vez praticamente se recostando contra o ombro de Greg enquanto arqueava. Com a ponta da unha, Lana começou a refazer o desenho das tatuagens nas costas dele. Ele continuou penetrando, e ela gemeu alto repentinamente com um espasmo totalmente involuntário.

Ela se assustou com o próprio grito e segurou uma risada.

Greg franziu o cenho, afundando o queixo no cabelo azul da namorada, que por sua vez afundava o rosto no ombro dele.

Ele era basicamente o rei do sexo agora.

XXX

Encostada contra a vidraça do Aeroporto de Recife, papelada na mão e uma postura impecável, Anna Clara esperava. Eram dez horas da manhã e o sol já estava no alto do céu.

Ela bocejou. Estava com sono, exausta do voo e também surpresa com a audácia de alguns passageiros. De fato, ela já estava acostumada.

Após todos os anos de voo, Anna Clara com certeza tinha história para contar. Ela se lembrava de quando precisou usar o desfibrilador num senhor de idade que tinha infartado. Ao descobrir que tinha sido salvo pela aeromoça de cabelo curtinho e olhar intenso, o homem tinha caído em choro e parecia não saber como agradecer. Ou aquela vez em que um político prestes a sofrer um impeachment resolveu sair da primeira classe e fazer um discurso para a classe econômica, e consequentemente foi ovacionado com uma chuva de comida de avião.

Anna riu, limpando a mente. Ela abaixou-se e tateou os bolsos externos de sua bagagem atrás dos remédios, então se lembrou que todos os medicamentos estavam numa maleta, que por acaso estava na bagagem de sua filha. Que por um acaso, Anna checou o horário em seu iPhone, estava a meia hora de distância de Recife.

A bateria estava acabando. Anna havia passado pelo menos quinze minutos no avião falando com Anna Bella no Facetime.

Anna Bella parecia preocupada com a mãe, mas estava em êxtase com a viagem. A garotinha trocava de assunto com facilidade, desde sobre que locais gostariam de visitar quando chegasse à ilha, que maquiagem da mãe iria usar, ou se era naquele mesmo avião em que estava que Anna Clara passava a vida trabalhando.

Anna Clara respondera cada uma das perguntas com um sorriso no rosto, precariamente enfiada entre um ou dois armários da tripulação. Era terminantemente proibido que a tripulação usasse telefones celulares durante os voos. Mas Anna Clara sabia que não era a única que estava quebrando aquela regra.

Anna Bella por vezes mostrava Shinji, caído sobre o banco, roncando e a boca aberta; deveria estar, no mínimo, no oitavo sono. Anna Clara disse pra sua filha que queria estar abraçadinha com eles.

Anna Bella disse que sabia.

Anna Clara estava uma flor de emoções nos últimos dias. Ela estava mais sensível que o normal. Só não entendia o porquê.

Desde pequena, Anna Clara desconfiava que tinha um certo dom. Ela sempre tinha a sensação de que já tinha visto as coisas da vida real acontecerem, só que em seus sonhos.

Anna Clara nunca gostou muito de falar sobre o assunto com sua mãe. Silvia sempre reagiu de maneira fria, incrédula, ao ser confrontada com o assunto de sonhos. Silvia dizia que aquela fase iria passar.

Ao entrar na adolescência, Anna Clara percebeu que aquilo continuava. Ela só se lembrava dos sonhos que tivera quando a cena realmente estava acontecendo na vida real. Era engraçado e confuso.

Um dia Anna Clara começou a anotar num caderninho todos os fragmentos de sonhos que lembrara que tivera. E só aí ela pode comprovar suas suspeitas, realmente, muitas coisas que ela sonhava, de fato aconteciam.

Anna se perguntava se era realmente a única pessoa que podia fazer aquilo. No fundo, achava que talvez todo mundo pudesse fazer isso, mas as pessoas simplesmente não se davam conta.

O fim da adolescência chegou, Anna se deu conta que era uma mulher e precisava ser sua própria mulher, precisava ficar de pé por conta própria. Ela estudou, trabalhou e amou tanto, que com o tempo os sonhos ficaram escassos, e ela achou que tinha afogado o próprio dom.

Ela não achou que aquilo era ruim. Afinal, ela nunca tinha sido um X-Men mesmo. E com o tempo esqueceu daquilo, assim como se esquece um rosto de um conhecido no passado.

Mas nos últimos dias, a sensação parecia voltar. E ao mesmo tempo, aquilo desencadeava uma parte de si que ela sequer conhecia. Ela estava se lembrando de seus sonhos.

De todos.

Ela se lembrava de sonhar com os próprios pés sujos de areia, rapidamente sendo lavados pela água da praia. Ela se lembrava de sonhar com helicópteros lançando seus holofotes sobre ela. Ela se lembrava de sonhar com uma moça loira numa plataforma derrubando inúmeras vezes sua maletinha de viagem. Tantos detalhes...

E se perguntava se alguma daquelas coisas iria realmente acontecer. Fora de seus sonhos.

– Mãe?

Anna Clara sentiu uma onda derretendo seu coração. Ela virou-se e viu Anna Bella correndo e sorrindo em direção a ela, os braços esticados na frente do corpo. Anna Clara fechou os olhos e abriu os braços.

Sua filha estava enorme. Anna Bella era esbelta como a mãe, cabelos longos e lisos, mas havia puxado todos os traços orientais do pai. Shinji era um homem também atlético, o rosto angular e oriental, a pele um pouco mais morena do que o comum. Ele era a típica mistura de japonês com o brasileiro.

Anna Clara teve que se segurar para não cair com o abraço de urso de Anna Bella. Shinji aproximou-se e enfiou-se no abraço, beijando a esposa na boca. Ela retribuiu.

Anna Bella ficou desconfortável com o beijo. Os três riram e juntos, marcharam de mãos dadas até a esteira de bagagens.

XXX

O sol estava cruel, assim como o vento. Anna Clara estava impressionada. Sentia a mão da filha grudada na dela, já suada.

O cais era impressionante. Era um tipo de terraço gigantesco e coberto, repleto de lojas minúsculas, vendendo desde camisetas da Ilha, figuras religiosas locais, lembrancinhas, até boutiques contendo itens de mais valor, como joias ou roupas. A jovem mulher não se preocupou em descobrir.

Ao longo do cais, Anna já podia ver o mar. O horizonte. E naquele calor desgraçado, naquele vento que bagunçava o vestido de sua filha, Anna Clara tirou o óculos de sol sorriu. Nem mil ventos iriam destruir suas férias.

Anna trajava uma regata escura e um vestido marrom claro, longo e básico. Seu marido Shinji, usava uma camisa pólo, grudada no corpo, e um short xadrez que Anna nunca tinha visto antes. Anna Bella trajava um vestido também, e parecia mais segura do que nunca. Anna Clara sentia-se orgulhosa.

Havia dezenas de pessoas já embarcando no Empire XIII, o grande cruzeiro que levaria sua família até a Ilha Vermelha. Anna também estava impressionada com o navio, finalmente entendendo o motivo do preço alto das passagens. Era um navio de luxo. Assim como a maioria de seus passageiros.

Um grupo de fotógrafos perseguia uma garota, que Anna não se preocupou em identificar. Anna Bella parecia curiosa, e também um pouco furiosa, já que tinha crescido muito e seu pai já não era capaz de erguê-la sobre seu ombro.

– Mãe, tinha algum famoso no avião?

Anna Clara sorriu. A aeromoça sempre contava a sua filha toda vez que via algum famoso em um dos voos. A garota ficava fascinada. Até os sete anos, Anna Bella costumava dizer que seria aeromoça. Nos últimos tempos, a garota parecia ter mudado de ideia sobre o que ser quando crescer (dessa vez ela queria ser professora), mas Anna Bella nunca deixava de ficar impressionada com as histórias que sua mãe contava.

– Famoso? – Anna Clara se perguntou. – Não. Mas tinha uma garota de cabelo azul. Acho que ela deve ser alguma coisa.

– Azul? – Anna Bella questionou. – Tipo aquela garota da televisão?

– Exatamente.

– Mulher que pinta o cabelo de colorido é tão feio. — Anna Bella comentou, desdenhando.

– No Japão, — Shinji comentou, — cabelo colorido é bem comum. É até difícil você sair na rua e não ver dúzias de garotas com o cabelo colorido.

– No Japão né pai.

Shinji riu.

O navio emitiu um estrondoso som, Anna Bella tapou os ouvidos e fez uma cara feia.

– Hora de embarcar, — Shinji tateou até encontrar a mão de Anna Clara, a outra mão puxando uma minicarreta de bagagens. – A propósito, essa cena tá parecendo o começo do Titanic.

Anna Clara riu. Shinji era um cinéfilo assíduo.

– Espero que só essa cena, — Anna Clara comentou.

Anna Bella socou de leve a barriga do pai.

– Olha a boca, pai.

Havia uma plataforma longa da ponta do cais até a entrada do cruzeiro. Onde é que Anna tinha visto aquela plataforma antes?

Um barulho oco. Uma moça que estava seguindo logo atrás da família Del Sol tropeçou, capotou e rolou em cima de sua bagagem, ainda no cais. Shinji riu, Anna Clara cutucou o marido e se adiantou para ajudá-la, mas uma outra jovem loira ajudou a garota desastrada.

Anna Clara virou-se e voltou a fazer seu caminho até a entrada do cruzeiro. Foi aí que viu.

Um rapaz levava uma grande bagagem em uma das mãos, a moça ao lado, uma loira alta, Anna presumiu que fosse uma modelo. Na mão dela, uma maleta pequena...

Anna adiantou-se sem pensar, ela sabia o que ia acontecer. A maleta da mão da moça soltou-se de seus braços e Anna agarrou-a, salvando-a de cair na água lá embaixo.

A moça virou-se, impressionada. Anna Clara estava assustada. A moça tinha um rosto meigo. Um sorriso trêmulo formou-se em seu rosto. Anna Clara tirou o óculos, disfarçou o ocorrido e esboçou um sorriso.

– Obrigada. — a garota que parecia uma modelo comentou.

– Não precisa agradecer, — Anna rapidamente respondeu. – De alguma forma, eu vi a mala caindo lá embaixo antes e... – Anna descarrilou incapaz de completar sua explicação sem parecer esquisita para a filha e o marido.

– Como você... Ah, muito obrigada mesmo. — A jovem puxou uma madeixa loira e prendeu-a atrás da orelha enquanto estendia a mão – Nina Brandão, prazer.

– Anna Clara del Sol, — ela cumprimentou. A moça era gentil.

– Nome bonito, Anna.

A moça era um amor.

– Obrigada, — Anna respondeu. – Nina é um nome muito bonito também.

Nina virou-se de volta para seu caminho, e Anna gesticulou positivamente para o marido.

Já tinham começado bem.

XXX

Lana estava recostada contra o braço do sofá do escritório de Guto Souza, o Youtuber que Greg era amigo há bastante tempo. Era a primeira vez que os dois se viam pessoalmente e já agiam como velhos amigos de infância. Assim como Lana, ao longo dos anos, Greg também tinha estabelecido grandes vínculos de amizades com dezenas de pessoas.

Era comum. Assim como Nina, que Lana conheceria mais tarde.

Guto era uma versão menor de Greg, menos músculos, só que o dobro de tatuagens. Lana e Greg tinham almoçado com a família de Guto, se sentiam muito bem recebidos, e agora a garota de cabelos azuis observava os dois rapazes discutindo algum assunto enquanto apreciavam uma cerveja preta chamada sugestivamente de Capiroto Negão, sob as lentes de uma Canon 4D posicionada num tripé. Lana ocasionalmente ria, por vezes provava a cerveja numa taça de algum time Pernambucano, a bebida era doce ao tocar a língua, então amargava rapidamente se ficasse por mais de alguns segundos na boca. O aroma era de canela. Lana não era tão fã de cervejas quanto Greg, mas não podia negar, Capiroto Negão era divino.

E ela podia dizer que o teor alcoólico da bebida era alto, Greg estava mais vermelho que um pimentão e ria cada vez mais alto.

Greg por vezes era um homem feito: justo, honesto e amoroso, o cara que Lana poderia muito bem dividir a margarina pelo resto da vida. E por vezes era um adolescente desequilibrado, bêbado e galinha, parecia não saber a hora de calar a boca e precisava ser levado pela mão. E aquilo era um pouco desconcertante às vezes, até frustrante. Sem contar o fato de que ambos estavam se tornando cada vez mais públicos.

Às vezes o assédio era até perturbador.

Guto usou a última garrafa de Capiroto Negão de um total de quatro, para encher o copo de todos os presentes na sala, ela, Greg e a esposa de Guto, Joana, uma mulher na casa dos trinta anos, também refestelada por tatuagens.

– Piores que crianças, — Joana comentou com Lana.

– E eu sei. – Lana respondeu.

Greg olhou para ela.

– Laninha, — ele bebericou a cerveja. — Tá chegando a hora. A balsa... Decola lá pelas duas e meia.

– Decola? – Guto perguntou rindo.

Greg bateu a própria taça na de Guto.

– Éééééé...

Lana virou os olhos. Das quatro garrafas, Greg tinha bebido pelo menos duas inteiras, sozinho.

– Greg não é burro, – Lana comentou. – Ele só tá com preguiça de lembrar as palavras certas.

XXX

Anna Clara estava abraçada com Shinji, recostada contra as grades do Empire XIII. Aquele local era minúsculo, um tipo de varanda, só que única, apenas de sua cabine. O navio rasgava o mar, o vento tinha dado uma trégua e o sol começava a se por.

Anna Clara podia ver sua filha tirando um cochilo na cama grande dos pais, na cabine chique que tinha reservado.

O almoço, e a tarde tinham sido deliciosos. Anna Clara tinha visto Nina mais algumas vezes, viu a mesma moça cair pelo menos outra vez, viu gente rica dando barraco, viu um pessoal bêbado. Tudo o que ela já estava acostumada no avião, só que agora no navio. Ela se perguntou o que a tripulação do barco estaria fazendo. Só que dessa vez, ela era a passageira.

Shinji notou que Anna observava a filha.

– Quando iremos fazer outro bebê? – Shinji perguntou.

Já fazia tempo que Shinji queria outro filho. Ele queria um menino. Anna Clara sabia que ele estava certo. Pelo menos em querer mais um filho, ela também queria.

Ela também sabia que não estava preparada para ficar grávida. Mas ao mesmo tempo, se via confrontada com o pensamento de que iria continuar adiando aquilo pelos próximos dez anos, e talvez um dia fosse tarde demais.

– Podemos tentar assim que chegarmos na ilha. – ela respondeu.

Shinji pareceu chocado.

– Sério? Você...?

– Sim. – Anna respondeu, concordando sugestivamente. – Aham.

Um sorriso gigante formou-se no rosto do homem. Ele envolveu-a em outro beijo. Anna retribuiu, desabotoando a camiseta dele e jogando no interior do quarto. Ele voltou com intensidade, Anna recuou.

– Calma. Aqui não, tá doido?

Shinji riu e olhou adiante. Outro sorriso formou-se em seu rosto, inclusive com as pequenas rugas que começavam a nascer ao redor de seus olhos apertados. Eyesmile. Anna Clara achava aquilo muito fofo. Ele apontou para o horizonte, Anna Clara se virou.

Ela já podia ver o topo do vulcão da Ilha Vermelha surgindo em meio às nuvens.

Anna Clara ignorou o arrepio que subiu em sua espinha. Shinji percebeu a mulher recuar, e beijou o pescoço dela.

Ela sorriu, aliviada.

XXX

Sentado num banquinho de madeira, bagagens em seus pés descalços, coturno e meias, enfiados precariamente numa das malas. Greg arrotou em silêncio, baixinho para que Lana não ouvisse.

– Porco. — Ela disparou, do lado oposto da balsa, uma Polaroid nas mãos. As pessoas ao redor olharam para os dois.

O sol estava se pondo, e nada da tal Ilha aparecer.

Ele estava cansado, e também enjoado desde o momento em que havia embarcado na porra da balsa. Aquela cerveja preta era osso. Ela parecia ser fraquinha, mas porra, a ressaca que veio com aquelas duas garrafas estava o incomodando mais que o normal.

Ele levantou-se, andou calmamente em direção a Lana. Tirou o iPhone do bolso e tirou uma, duas, três fotos de Lana. O fundo da cena era incrível. No horizonte, o sol parecia tocar o mar. A partir da quinta foto, a garota de cabelos azulados já fazia poses exageradas, então ele parou.

Ela o encarou.

– Será que pegamos a balsa errada?

– Por que você acha isso?

Lana olhou ao redor.

– Olha ao redor, — ela sussurrou. – Ninguém aqui parece ser turista. Você devia ter pego as passagens daquele maldito cruzeiro.

– Tá doido, — ele riu. – É muito caro pro nosso orçamento, só pra passar umas horas num cruzeiro de gente enjoada. E eu duvido que pegamos a balsa errada. Não tinha outra balsa. E tem uma equipe de reportagem ali, não sei se você viu...

– Greg...

Lana fechou os olhos. Ela agarrou Greg, tascou um beijo na bochecha dele, ergueu a Polaroid na frente dos dois e tirou uma selfie.

– Que hipster eu sou, — Lana comentou mais para si mesma. — Selfie com a Polaroid.

– Além do mais, — Greg retomou sua linha de raciocínio, — Suvido que conseguiríamos tirar umas fotos fodonas presos naquele cruzeiro. Olha esse pôr-do-sol, Lana.

Lana olhou.

– Pode me pegar mais um papel de foto pra Polaroid, por favor?

– Claro, — ele respondeu.

– E, por favor, — Lana completou, agora secando a foto que tinha saído da Polaroid — fica de olho nas nossas bagagens.

– Ok. Você é quem manda.

As últimas horas tinham passado rápido. A balsa atracou num porto da Ilha Vermelha as seis e meia. Greg tinha se surpreendido, num instante a balsa havia parado e Ilha gigante tinha surgido na sua frente, do nada. Lana tinha cochilado por alguns minutos, sentada e encostada sobre as bagagens.

Na caminhada do porto até o resort, Greg pode concluir que a Ilha era enorme. Ele via apenas a sombra do vulcão gigante na sua frente, e por um instante curto achou que uma erupção seria uma boa ideia para umas fotinhas, uns videozinhos... Logo se lembrou de que pessoas moravam ali, então se sentiu mal por um segundo. Tão rápido, logo se recuperou. Viu alguns carros passando pelas ruas, e logo descobriu que havia uma locadora de carros para os turistas no lado oeste da Ilha. Certamente daria uma passada por lá no dia seguinte. Vários helicópteros subiam e desciam na Ilha o tempo todo, ele imaginou que muitas autoridades estariam no local. Talvez alguns famosos.

Ao seu lado, carregando apenas sua própria mochila, Lana tweetava e mandava mensagens que nem louca. O celular desligou repentinamente, sem bateria, e ela arremessou o aparelho no interior da bolsa.

Ao caminharem próximos a orla da praia, Greg viu uma série de fotógrafos e um amontoado de cerca de cinquenta pessoas cercando alguma coisa. Era uma garota na beira da praia. Greg usou o zoom de sua filmadora e descobriu que era a tal cantora Lis. A garota era linda, mas estava com a cara feia, e também parecia estar mais acabada do que Greg e Lana juntos.

De alguma maneira, Greg sentiu alguma afeição por ela. Ele que nem era tão famoso já sofria com o assédio e os haters, imagina então aquela guria que já estava começando a despontar no lado de fora do país...

Momentos depois na fila do resort, decoração já em clima natalino, Greg e Lana ficaram rindo de um casal de irmãos, muito ruivos, que não tinham um centavo no bolso. Eles pareciam tão elegantes, tão arrogantes, mas ao mesmo tempo tão infantis. Filhos de papai, Greg concluiu.

– Rir não nos faz melhor que eles, — Lana comentou, enquanto as portas do elevador com o casal de irmãos e mais uma ruiva se fechavam.

– Até a recepcionista riu. – Greg argumentou. – E ela é gata.

A moça na recepção ouviu, lançou um olhar pra Greg e corou.

Lana virou os olhos.

– É, ela é sim. – Lana riu. — Ah, as orientais.

Greg cutucou Lana, um olhar sugestivo.

– Eu queria tirar uma soneca até amanhã. – ele comentou, suspirando. Ele já estava quebrado.

– Vamos subir, lavar a cara, — Lana comentou, Greg notou que ela também estava cansada. – Lembre-se que ainda temos um jantar pra ir.

– Ah. – Greg virou os olhos. – A Nina.

– Isso mesmo, — Lana riu. – Nina.

XXX

De banho tomado e roupas limpas, Greg e Lana exploravam o que podiam durante o caminho para o salão de festas, o jantar da Animal Rescue. Greg mostrava o local enquanto gravava vlogs, Lana ocasionalmente comentava alguma coisa. Ambos já estavam atrasados.

Greg usava uma camiseta branca, sem estampa, de corte V, e uma calça jeans surrada. Outro coturno escuro, quase similar a uma botina. Já Lana, trajava um vestido escuro, revelando o belo decote. Por cima, uma jaqueta de couro e uma bota escura e de salto nos pés. Ela ainda estava escovando o cabelo, no meio de todos aqueles turistas, claramente não se importando com várias pessoas encarando.

– Minha esposa está toda pirigótica porque vai conhecer a amiga dela hoje. — Greg piscou para a câmera e filmou Lana da cabeça aos pés. Lana socou-o, com mais força do que o necessário.

Greg ouviu música ao vivo. Ele parou.

– Espera aqui Lana. — Greg disse, entrando no salão de jantar do hotel, ainda vazio. Para sua surpresa, o casal de irmãos ruivos da fila do resort tocava e cantava lá no palco.

Não era o estilo de música favorito de Greg. Mas enquanto se aproximava de ambos, a câmera na mão, Greg se deixou levar. Não era seu estilo, os dois ruivos, apesar de serem talentosos, aparentavam ser pessoas horríveis. Mas Greg sabia muito bem quando uma música vinha do coração. Ele filmou por alguns segundos, o sorriso bobo escapando da boca, então Lana o chamou e ele finalmente saiu correndo atrás dela.

XXX

Lana parou por um segundo na entrada do salão do jantar. Ela olhou o próprio reflexo no iPhone sem bateria e arrumou a franja. Encarou a escova na mão por alguns segundos, entrou em desespero, jogou a escova no mato.

– Você tá bem nervosinha hein.

– Cala a boca, — Lana riu. – E você Gregory, pelo amor de Deus, seja discreto.

– Eu não disse nada.

Ela deu o primeiro passo no interior do salão, sentiu o clima fino do local. Cortinas chiques, tudo chique. Todos trajavam vestidos e roupas sociais. Já Lana, ela parecia uma adolescente. Até Greg estava mais adequado para o local do que ela. Sentiu o impulso de recuar e voltar pro resort, virou-se...

E viu Greg levando as mãos até a boca para formar um alto falante. Ela não teve tempo de impedir. Fechou os olhos.

– É AQUI A FESTA? – Greg praticamente urrou.

Todos se viraram para eles.

Lana quis morrer.

Greg sorriu, só um pouco desconcertado, deu de ombros e entrou gingando. Burburinhos ferveram ao longo do salão.

Lana seguiu andando, quietinha, tentando entender como iria encontrar Nina.

– Eu não me lembro de fazerem parte da nossa corporação. — uma senhora elegante disse por cima dos ombros. Dois seguranças dispararam em direção à Lana e Greg.

Lana congelou ao ver os dois seguranças. Ela de fato estava acostumada com os seguranças nos shows da Lost Files, mas ao se ver sendo tratada com a ameaça dessa vez, ela bugou toda e travou.

“Ai meu deus olha o cabelo delaaaa...”

“Porra é o Greg Kafussss num é não?”

“Quem deixou esses dois entrarem?”

“Mil vezes o PC Siqueira, e olha que ele é vesgo”

“Escória. da. internet.”

“Nossa mano o Tom Hardy”

“A festa é lá em casa gatos”

“Tumblr tá patrocinando o evento e eu não sabia...”

Greg, que por sua vez acenava pra Deus e o mundo, não viu que Lana tinha parado e trombou com ela. Algumas pessoas riram.

Foi aí que Lana viu uma moça loira, esbelta, levantar-se de sua mesa balançando os longos cabelos e dizer com um sotaque sulista que a acalmou:

– E não fazem parte da corporação, — Nina Brandão sorriu. – Eles estão comigo.

– Estamos com a loirinha. — Greg se divertiu.

Lana estava dez vezes mais calma. Greg ainda lançava sorrisos de “turn down for what” para os seguranças.

– Ela ficou uma fera, você viu? – Lana ainda estava corada.

– Não se preocupa, ela entendeu. – Nina disse e ergueu a mão de Lana no alto para que pudesse ver o look. Ali na frente de todo mundo mesmo. Aff Nina sua linda...

– Lana, você está incrível!

Lana corou novamente. Ela já estava voltando a se sentir confortável na roupa de pirigótica mesmo.

– Agradecido, — Greg tomou o elogio pra ele. – Gostou dos coturnos? – O rapaz ergueu as barras da calça para que Nina pudesse ver seus sapatos. – Pois são meus favoritos.

– Greg... – Lana levou a mão no rosto. Nina riu.

O jantar estava passando rápido, e Lana já tinha até esquecido sobre suas roupas.

Drink na mão, GoPro presa escondida no peito, Greg observava, admirado, a química entre Lana e Nina.

Na verdade, fazia tempo que ele não via Lana rir tanto com uma amiga. Discutiram sobre animais, sobre Pussy e Dick, sobre ideologias, crenças e medos. Nina já havia arrastado a cadeira pra perto de Lana para poderem cochichar um pouco (sobre os outros convidados que as encaravam, Greg imaginou) e o namorado de Nina estava de escanteio fazia tempos.

– Rapaz, elas estão entrosadas. — Greg apontou para as garotas e comentou com o rapaz que se chamava Ícaro. O namorado de Nina havia dito poucas palavras desde que os intrusos haviam chegado.

Ícaro encarou e concordou, sério.

– Pois é.

Greg levou a mão à boca, disfarçou um arroto e esticou os braços.

– Você trabalha com o que mesmo?

– Sou bombeiro. — Ícaro respondeu, ainda sério.

– Poxa, — Greg respondeu. – Que legal, velho...

– Não é apenas “que legal, velho”. – Ícaro cortou. — É questão de honra. A sensação de estar salvando vidas é ótima. Sentir que está fazendo diferença no mundo.

Greg concordou. Ele entendia.

– A sensação no final do dia é maravilhosa, — Ícaro continuou. – E você, faz o que mesmo?

– Ah, — Greg não estava acostumado com a pergunta. Geralmente as pessoas sabiam quem ele era. – Eu... eu faço vídeos pra Internet. E sou fotógrafo.

Ícaro franziu o cenho.

– Muito legal, fera. – Ícaro bebericou sua bebida e pôs-se a mexer em seu celular.

Greg deu de ombros. Pelo menos tinha tentado. Encheu sua taça até o topo com aquele drink docinho e enfiou goela abaixo.

Notas finais
Não esqueçam de comentar. As reviews são muito importantes para continuidade do projeto.