Notas iniciais
Terceiro capítulo, gente! o/ A única coisa que eu posso adiantar é que ele está BEM sangrento! hahaha Eu também escolhi os atores que interpretariam os personagens se a fic virasse filme, como é tradição! hahaha eles estão aqui: http://premonicaofanficsource.blogspot.com.br/2014/06/wish-list-cast-condenados.html E caso alguém não tenha visto as fotos dos personagens... http://premonicaofanficsource.blogspot.com.br/2014/05/premonicao-ilha-dos-condenados.html Espero que gostem, boa leitura :D E AH! Como de praxe, por favor me avisem se encontrarem algum errinho ok? :B

— Seu celular, Courtney. — Big J apontou, cutucando a irmã.

Anna estava paralisada de medo. Ela olhava para um ponto fixo no ônibus, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. A garota abriu a boca e murmurou alguma coisa ininteligível, enquanto Courtney tirava o celular do bolso.

— É o número do cara que alugou a cabana pra gente. Puta que pariu! — A loira reclamou.

O ônibus...

— Não esquenta, a gente inventa alguma coisa pra eles quando chegarmos lá. — Trevor rebateu.

Anna abriu a boca e falou, quase sussurrando:

— O ônibus vai explodir. Nós vamos sofrer um acidente.

Todos olharam imediatamente para ela. Daniel então caiu na gargalhada, achando se tratar de uma brincadeira.

— Não esquenta, o Trevor bebeu pouco, Anna. Fica de boa.

Mas a garota parecia em estado de choque. Ela meneou a cabeça várias vezes, e então respirou rápido e forte, olhando para todos os amigos. À medida que eles viam o seu estado, completamente apavorada, entendiam que se tratava de um medo real.

— Anna? Você está bem? — Courtney disse, se aproximando dela e tocando seus ombros.

Trevor parecia preocupado. Abriu a porta do ônibus e disse, enquanto entrava:

— Todos nós precisamos dar uma descansada.

Anna desvencilhou-se da loira e voou na direção do ruivo, gritando:

— Não entra! A gente não pode ir! O ônibus vai explodir, eu vi...

— Você viu? Como assim, Anna? — Laura perguntou, se aproximando da outra garota.

Naquele momento, o grupo não percebeu, mas uma fumaça começou a subir exatamente ao lado de onde Anna estaria sentada dentro do veículo.

— Eu sonhei. E não foi a primeira vez. — Anna respirava fundo, tentando ser firme e coerente nas palavras. — Naquele dia em que nós viajamos pra dar uma força pro Phillip, eu também sonhei com algo que aconteceu. Eu sonhei que a porta do carro do Dani estava destravada, e quando acordei ela estava mesmo.

O primo revirou os olhos, e então disse, tentando não soar rude:

— Meu carro tá todo fodido, Anna, não precisa ser um vidente pra prever isso.

— Mas não foi só isso! — A garota exclamou, perdendo um pouco a calma. — Eu sonhei com todas as falas de vocês, daquela vez e dessa. Eu sabia que o celular da Courtney ia tocar, sabia quem estava ligando. Eu sabia até mesmo o que o Trevor diria!

Aquilo chamou a atenção do ruivo. Ele sentou-se nas escadas do ônibus e disse:

— É sério isso, Anna? Você nunca me pareceu ser o tipo de bêbada desesperada por atenção, mas acho que é porque eu nunca tinha te visto bebendo tanto.

Estranhamente, aquela fala irritou Phillip. O rapaz surpreendeu a todos quando disse:

— Ei, pega leve aí, cara.

Até mesmo Big J, que até então mantinha uma expressão plácida, ergueu o cenho.

— Eu to pegando leve. Mas não é justo a Anna ficar assustando todo mundo falando que teve uma premonição que o ônibus iria explodir e essa merda toda. Eu já estou me sentindo mal o suficiente por ter roubado essa porra.

Phillip engoliu em seco, e Anna abaixou a cabeça.

— Só... Não entrem. Por favor. Por mim. Vamos chamar alguém pra vir nos buscar. Esse ônibus tá com defeito.

Todos ficaram em silêncio e olharam uns para os outros. Trevor bufou, revirando os olhos. Em seguida abriu a porta do ônibus e entrou, fechando-a logo após. Ele então se sentou no banco do motorista e fechou os olhos, cansado.

— Não liga pra ele. — Simon disse, se aproximando de Anna. — Ele só tá arrependido de ter feito essa coisa idiota que a gente fez ao roubar o ônibus, daí acabou descontando em você.

A garota deu com os ombros, entendendo a situação. Trevor era uma ótima pessoa, Anna entendia sua reação. Não podia culpá-lo por ter se irritado, mas também não podia dar o braço a torcer diante do perigo que era real.

Kia então falou num tom de voz doce:

— Mas você sonhou mesmo com esse acidente, Anna? Como foi?

Courtney tremeu diante da fala da atriz. Ela então se afastou um pouco, sentando-se na entrada da caverna e olhando para a tela de seu celular. Daniel, Ben e Michelle acabaram por segui-la, um pouco exaustos. Big J ficou exatamente ao lado de Anna, embora sem tocá-la. Phillip, Simon e Laura também estavam próximos, todos eles bastante interessados no que a garota diria.

— Foi horrível. Eu vi todos nós morrendo. Uma das rodas estourava e o ônibus perdia o controle. Então os freios quebravam e ele seguia desgovernado até cair dentro de um rio. Eu... — Anna tentou continuar, mas ainda tremia.

Big J abraçou os ombros da garota e ela não se opôs ao gesto. Os dois então seguiram de maneira cambaleante em direção ao grupo que estava sentado na entrada da caverna. Laura e Kia fizeram a mesma coisa, sem saber direito como deveriam agir.

Phillip e Simon foram os únicos que ficaram para trás, perto do ônibus.

— O que a gente faz agora? — O primeiro rapaz perguntou, um pouco ansioso. — Seria rude demais nós ignorarmos a Anna e irmos embora?

Simon deu com os ombros, também sem saber o que deveriam fazer.

— Eu acho que o Big J vai falar com ela. Pede pro Dani conversar com a Laura e a Kia, por favor. Elas caíram de paraquedas nessa confusão toda, devem estar meio confusas. Eu vou entrar pra conversar com o Trevor.

Phillip concordou com um aceno e se distanciou do grupo. Simon parou diante da porta do ônibus.

Mas então Anna percebeu.

A fumaça. Ele vai explodir de qualquer maneira.

— Simon! — Ela berrou de imediato.

O rapaz virou para trás, confuso, e então deu alguns passos na direção dela.

— Quê foi?

E houve a explosão.

Simon foi arremessado com força na direção das rochas da entrada da caverna, batendo na parede e caindo no chão. O ônibus imediatamente tornou-se uma bola de fogo, e um grito feminino foi ouvido.

Antes que qualquer pessoa pudesse dizer qualquer coisa, a roda de borracha voou na direção do grupo. Ben assistia em câmera lenta a explosão do ônibus em que seu irmão estava, e conseguiu perceber o exato momento em que o objeto iria acertar a cabeça de Phillip. Ele então puxou o amigo com um único movimento, derrubando-o no chão. A roda cravou nas pedras, abrindo um buraco nelas com um impacto que teria sido suficiente para arrancar a cabeça de Phillip.

O crepitar das chamas do ônibus era a única coisa audível.

Simon tossia muito e se levantou com dificuldade, sentindo as mãos arderem absurdamente. Ninguém o ajudou. Todos observavam, perplexos, a enorme fogueira que tinham diante de si.

Como se um controle remoto invisível estivesse conectado a todos eles, o grupo todo se virou para Anna. A garota olhava para frente, com os olhos lacrimejantes e a expressão de incredulidade no rosto. Ela teve tempo somente de soltar um arfar e então desfaleceu no chão.

x-x-x-x-x

Na recepção do hospital de Oahu, Daniel mantinha os olhos fechados e segurava fortemente o boneco do Djinn entre os dedos. Já eram quatro horas da madrugada, e apenas ele e Courtney estavam ali, ambos esperando Simon. O rapaz não tinha ideia de onde os amigos estavam, e não queria nem imaginar o inferno que devia estar acontecendo. Nós roubamos um ônibus. O Trevor acabou de morrer. O Ben perdeu o irmão. A Anna aparentemente sabia que essa merda toda iria acontecer. E ainda tem a Laura e a Kia que nem deveriam estar passando por tudo isso. Oh, Deus... Nessas horas eu até entendo porque o seu filho chorou.

— Você aceita um copo d’água? — A loira perguntou, seguindo em direção ao filtro.

Daniel negou com a cabeça, completamente cansado.

Foi então que o celular de Courtney tocou, e o rapaz teve vontade de arrancar os tímpanos diante da música agourenta que precedera toda a tragédia.

— Mano? Onde vocês estão? — E então houve um silêncio, sinal de que Big J estava respondendo algo. — É sério? Caramba, que ágil. Obrigada por me avisar. Eu vou falar com o Dani aqui. — Outra pausa. — Ah, isso eu já não sei. A gente vê tudo certinho mais tarde. Tchau. — Desligou.

Daniel parecia ansioso, esfregando as mãos.

— Eles conseguiram carona pro Ben ir pra casa nessa madrugada mesmo. A Michelle vai com ele pra ajudá-lo. Na verdade foi a Laura quem conseguiu, parece que ela cobrou um favor de um amigo ou algo assim. Eles já avisaram os pais do Trevor e do Ben também. Só tem um probleminha. Na verdade... Dois.

— E quais são eles? — O rapaz perguntou, já sentindo a cabeça doer tremendamente.

Courtney respondeu:

— O primeiro é o ônibus. O Phillip e o Big J conversaram com os bombeiros que foram até lá e explicaram a situação, mas eu acho que nós estamos um pouco encrencados. Vai depender do que o dono dele vai querer fazer, se vai prestar uma queixa ou não e tudo mais. Acho provável que ele deixe as coisas por isso mesmo, porque pra todos os efeitos quem roubou o ônibus foi o Trevor e tudo mais...

Por aquilo Daniel já esperava, de modo que não se abalou muito. Tomara que ele deixe pra lá mesmo. A última coisa que nós precisamos é de uma ficha suja.

— E o outro problema?

A loira sentou-se ao lado do rapaz, com o copo de água ainda em mãos.

— O outro problema nem é um problema em si, mas... O que nós vamos fazer? Eu acho que a gente consegue passagens pra voltar pra casa amanhã, mas... Caramba, isso tudo aconteceu tão rápido. Eu não sei como agir, e pelo que o Big J me falou ao telefone, ninguém sabe. Eles meio que estão contando que você tome a dianteira da situação.

Eu sou a porcaria do diretor só no filme, Daniel pensou em dizer, mas então desistiu. Ele sabia que eles tinham problemas reais em mãos, e sabia que, como maior responsável pelo projeto, ele teria de pensar em alguma coisa.

— Eu prometo que eu bolo um plano de manhã. Eu só preciso dormir um pouco. Se é que eu vou conseguir depois disso tudo.

Courtney concordou com a cabeça e tocou o ombro de Daniel. O rapaz olhou para ela de maneira doce, encarando seus enormes olhos azuis. Ali, tão perto dela, sentia como se pudesse finalmente mostrar-se vulnerável, expor seus segredos e angústias... Mas sabia que não podia. Courtney não entenderia, e o motivo disso era bastante simples: ela estava no centro da maior parte deles.

Antes que o rapaz pudesse pensar em algo para dizer, Simon já saía de dentro da enfermaria com um médico o acompanhando. O rapaz estava sem camisa, e tinha a mão e boa parte do antebraço direito completamente enfaixados. Seu pescoço também tinha algumas ataduras, que se estendiam até o ombro e boa parte do tórax. Ele caminhava meio cambaleante, mas parecia bem.

O doutor então chamou Daniel com o dedo, enquanto Courtney ajudava Simon a colocar uma camiseta e lhe entregava um pouco de água. No jaleco do médio se lia a inscrição “Doutor Geoff”.

— Você é parente do Simon? — Ele perguntou.

— Amigo. — Daniel respondeu. — Nós não somos aqui da ilha.

Geoff pareceu entender, meneando a cabeça.

— Bom, ele não tem nada de grave. Arranhou boa parte do corpo e teve alguns cortes mínimos, mas nenhum que precise de pontos. O mais preocupante são as queimaduras. Ele vai precisar ficar “de molho” por vários dias, e precisa tomar os medicamentos que estão prescritos aqui. — E então o doutor entregou um papel com alguns nomes escritos. — Mas nosso amigo vai ficar bom em alguns dias, eu tenho certeza. Ele é jovem e saudável, vai melhorar rápido.

Daniel ficou feliz em ouvir aquilo e agradeceu as informações. Apesar disso, uma curiosidade tomou conta dele, de modo que o rapaz não pôde deixar de perguntar:

— Mas por que o senhor tá contando tudo isso pra mim e não pra ele? O Simon é bem grandinho.

O doutor Geoff concordou com um aceno, e então falou num tom mais baixo.

— Ele parece estar bastante abalado. A sua amiga, a que trouxe vocês até aqui, me contou sobre o acidente, então eu suponho que a reação do Simon seja compreensível. O ponto é: no estado em que ele está, ele não prestaria atenção em nada do que eu dissesse.

O choro baixinho foi ouvido mesmo ao longe. Daniel apenas cumprimentou o médico com um aperto de mão e virou-se. Courtney abraçava Simon sem saber o que fazer, enquanto ele chorava em seu ombro. A loira então olhou para Daniel, vários metros longe.

Seu olhar denotava a mais pura tristeza e impotência.

x-x-x-x-x

Três dias depois...

Já passava das oito da noite. Phillip estava com todas as luzes do quarto apagadas, sentado em sua cama e com o notebook no colo. Ao seu lado estava um caderno e uma caneta, e ele ia fazendo diversas anotações a respeito de “Suspiria”, o filme que passava no computador. Parou o filme em 42 minutos e então esticou os braços, ouvindo o barulho deles estralando. Suspirou.

A cama de Ben estava vazia e arrumada. Phillip sabia que seria assim por mais alguns dias, talvez semanas, devido à tragédia que ocorrera em Oahu. Ele não tivera coragem de conversar com o ruivo em nenhum momento, e esperava que o amigo o perdoasse por isso. É só que... Eu não sou bom com essas coisas. Eles precisam entender. Eles precisam saber que eu me importo de uma maneira diferente.

O grupo decidira unanimemente que a gravação do média-metragem continuaria. A diferença era que agora ele seria gravado no próprio campus, após várias modificações de roteiro realizadas por Michelle. Ben provavelmente ficaria de fora de tudo, mas seria incluído no trabalho mesmo assim. Além disso, Daniel também fazia questão de que o filme fosse feito “em memória de Trevor McCoy Jr.”. Phillip não entendia bem o objetivo de homenagens póstumas, mas não seria rude de contestar abertamente a decisão do amigo.

De repente alguém bateu na porta. Inicialmente o rapaz cogitou a possibilidade de ignorar a visita, mas então ouviu a doce voz de Michelle:

— Phillip? Você tá aí?

Seus passos no carpete eram praticamente inaudíveis. Phillip estava só de cuecas e camiseta, de modo que rapidamente vestiu uma calça jeans que estava jogada no chão. Ele em seguida acendeu a luz, sentindo a claridade ferir seus olhos, e então abriu a porta para a amiga.

— Que bom que você está aqui! — Ela disse, lhe cumprimentando com um abraço.

O rapaz não soube o que responder, então só fechou a porta atrás de si. Michelle sentou-se na cama de Ben, e em seguida passou a mão pela colcha do seriado Game of Thrones que o ruivo utilizava. Suspirou.

— O que te traz aqui? Quero dizer, não que a sua visita não seja agradável e tudo mais, mas é que em geral só os caras aparecem por aqui.

Michelle abriu um pequeno sorriso.

— O Daniel me pediu pra vir aqui ver se você pode fazer um favor pra ele. Uma coisa de última hora antes de nós começarmos as gravações de sábado e tal...

— E o que seria?

— Ele quer saber se você consegue colorir digitalmente o cabelo da Laura. É pra uma sequência pequena, de uns sete segundos só.

Phillip pensou durante alguns segundos, e então respondeu:

— Bom, eu nunca colori nada que fosse live action, mas eu posso tentar. Não acho que seja tão diferente das animações. — E Michelle abriu um sorriso resignado. O rapaz decidiu então perguntar: — Tem certeza que você veio aqui só pra isso, Michelle? Você me parece meio angustiada.

A garota ergueu a sobrancelha. Não esperava por aquela fala de Phillip, de modo que ficou um pouco desconcertada. Apesar disso, resolveu abrir o jogo:

— Eu vim aqui dar uma olhada no quarto do Ben, não sei direito o porquê. Faz só alguns dias que ele foi viajar, mas eu sinto muito a fala dele.

— Eu também. — Phillip garantiu, de maneira genuína. Dava para ver em seus olhos distantes e em seu tom de voz despretensioso, que ele não estava falando aquilo apenas para Michelle se sentir melhor. — Esse quarto fica bem vazio sem ele.

Michelle concordou com um aceno de cabeça.

— Mas logo ele volta né? — E então surpreendeu o rapaz: — O Trevor, não.

E abaixou a cabeça. Phillip não soube o que fazer. Quando as lágrimas de Michelle começaram a cair e o seu choro baixo foi ouvido, o rapaz entrou em pânico. Seu coração batia forte, e ele sabia que deveria reconfortá-la, mas não conseguia. Ele sabia que precisava sentir empatia e precisava apoiá-la, mas não parecia natural. Algo dentro dele insistia que não era certo que ele fizesse aquilo se não estava verdadeiramente triste com a reação da amiga. E não estava. Phillip só estava desconfortável, e queria que tudo aquilo parasse.

— Eu vou pra ilha de edição da biblioteca treinar a colorização de live actions. — Ele disse, de súbito. — Ela deve estar vazia a essa hora da noite.

Michelle levantou a cabeça, ainda secando os olhos, e concordou com um aceno. Levantou-se e seguiu até a porta, mas não sem antes tocar a colcha de Ben mais uma vez.

— Até mais, Phillip. — Ela disse, abrindo um sorriso forçado.

O rapaz concordou com a cabeça e então fechou a porta.

x-x-x-x-x

Passava das nove da noite e Anna estava sozinha em seu dormitório. Courtney estava em aula, fazendo uma disciplina eletiva a respeito de musicais dos anos 30 e 40, enquanto Michelle tinha ido até o cinema da biblioteca reassistir algumas tomadas de referência para as cenas que tinha reescrito para o média-metragem. Pela primeira vez desde que tinha iniciado o college, Anna não estava satisfeita por não ter companhia.

Ficar sozinha e ociosa lhe fazia pensar. E pensar lhe fazia remoer todo o acidente, a morte de Trevor e a sua visão. Nenhum dos amigos mencionara absolutamente nada a respeito da premonição da garota, preferindo deixar o assunto morrer. Ela imaginava que eles se perguntassem a respeito de tudo aquilo, mas não diziam diretamente a ela. Talvez por solidariedade, talvez por medo.

Um nome, porém, não saía da cabeça de Anna.

Ethan. Ethan Hasselbeck.

Será que ele realmente existiu? Ou eu o inventei e ele é fruto da minha imaginação?

Aquela pergunta rodeava a cabeça de Anna desde o dia em que sonhara com o rapaz. Lembrava-se de se ver refletido no vidro do painel do USS Arizona, com os cabelos curtos e negros, os olhos da cor de carvão e uma expressão infantil e carrancuda. Reconheceria Ethan se o procurasse no Google. Mas, por um estranho e irracional motivo, tinha medo. Se ele não existir, eu estou fantasiando coisas, e isso é ruim. Se ele existir, eu sou meio paranormal, e isso também é ruim. Não existe resultado positivo.

Cansou de ficar com aquela dúvida em sua cabeça. Tomou coragem, respirou fundo, pegou seu iPad e digitou.

Ethan Hasselbeck

Os resultados na tela eram, como esperados, ruins.

Ethan Hasselbeck existia.

A maior parte dos resultados estava relacionada com scans de jornais de 1941 noticiando o ataque à Pearl Harbor. Ethan aparecia listado como um dos sobreviventes do naufrágio do USS Arizona, o que significava que ele tinha sido bem sucedido no que se propusera a fazer durante a visão de Anna.

Havia, porém, um único resultado um pouco diferente. Ele provinha de um site dedicado à Judy Garland, a estrela do musical “O Mágico de Oz”. Nele havia uma foto de Ethan ao lado da atriz, ambos abraçados. Na legenda estava escrito “Judy e o veterano do ataque à Pearl Harbor, Ethan Hasselbeck, em setembro de 1946”. O que surpreendeu Anna, porém, foi o fato de que o soldado estava sentado em uma cadeira de rodas, e percebia-se claramente que suas duas pernas haviam sido amputadas.

Anna sentiu um estranho formigamento em suas próprias pernas, e as esfregou, tremendo.

Por quê? Era a pergunta de um milhão de dólares. Anna não sabia explicar porque tinha sonhado que era Ethan, mas tinha certeza de que esse fato estava relacionado com a visão que tivera do acidente no ônibus.

Desistiu de pensar. Colocou o tablet em cima da escrivaninha do quarto e apagou a luz do cômodo. Deitou-se e esperou que o sono lhe trouxesse uma noite sem sonhos.

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A biblioteca estava em silêncio, com exceção da música que provinha de uma das salas de cinema presentes ali.

Somewhere over the rainbow, way up high

There's a land that I've heard of

Once in a lullaby

Na tal sala (que na verdade era uma cabine não muito grande), um grupo de sete alunos assistia The Wizard of Oz. Courtney estava entre eles. Ela via, fascinada, a performance de Judy Garland cantando o clássico Somewhere Over The Rainbow.

Há alguns metros dali, dentro da ilha de edição, Phillip mexia em um programa de colorização digital. Conseguia, com certo esforço, pintar os cabelos loiros de Courtney em um vídeo qualquer que eles gravaram em uma das aulas. Ele concluiu rapidamente que conseguiria realizar a tarefa que Daniel lhe pedira e sentiu-se satisfeito por isso. Gostava de ser útil.

Por último, há mais alguns metros, Michelle passeava por entre as estantes de livros da biblioteca. Ela segurava em suas mãos um livro intitulado “O Poder da Precognição e Suas Consequências”. Não tinha certeza dos motivos exatos de estar fazendo aquilo, mas fazia mesmo assim. Em seu íntimo ela acreditava que Anna havia previsto o acidente, mas preferira não tocar no assunto. Se a amiga viesse conversar com ela sobre todo o ocorrido, porém, Michelle estaria munida com alguma literatura a respeito do assunto para poder ajudá-la.

Michelle caminhou pelos corredores de carpete vermelho e chegou até o hall do terceiro andar. Prostrou-se diante da porta do elevador e apertou o botão, chamando por ele. Não viu quando, atrás de si, Phillip passou, descendo os degraus da escada de dois em dois.

O apito indicou que o elevador havia chegado ao andar.

A garota entrou nele no mesmo instante, enquanto ouvia a música que tocava ao fundo:

Somewhere over the rainbow, skies are blue

And the dreams that you dare to dream

Really do come true

— Essa música é linda. — Ela murmurou para si mesma em voz alta.

Quando a porta se fechou à sua frente, Michelle viu Courtney e um grupo de estudantes saindo da sala de cinema. Queria ter a possibilidade de fazer àquela matéria eletiva, mas havia alguns empecilhos. Além de a turma ter pouquíssimas vagas, Michelle também estava completamente ocupada com outras tarefas. Com a mudança dos planos na gravação do média-metragem as coisas só pioraram. Ela tivera que trabalhar quase vinte e quatro horas por dia desde o dia do acidente com Trevor, para conseguir adaptar todo o roteiro. Mas, no fundo, gostava daquela agitação. Gostava da adrenalina, gostava de ser desafiada.

Subitamente as luzes de dentro do elevador começaram a piscar. Michelle sentiu uma onda de eletricidade passar por todo seu corpo, e instintivamente encostou a mão direita na parede. Ela sentiu apenas o metal gelado de encontro com seus dedos. Tremeu.

Então um baque. A garota assustou-se e deixou que os livros caíssem no chão. Quando se abaixou para recolhê-los, percebeu que a parte de baixo do elevador possuía um pequeno vão que, ao ser puxado, abria uma espécie de saída de emergência.

E então o baque voltou a ocorrer de maneira mais forte, derrubando-a no chão. As luzes do elevador se apagaram inteiramente, deixando-a quase que na mais completa escuridão.

— Alguém? Me ajudem! — Ela tentou gritar, embora sem muitas esperanças de ser ouvida. Imaginava que o elevador estivesse preso entre andares, de modo que as paredes abafariam seus pedidos de socorro.

O painel do elevador brilhava, deixando os números das teclas visíveis através de uma luz azul. Michelle então se aproximou dele e observou com atenção cada um dos botões. Havia os números de todos os andares, e então havia um botão vermelho que parecia ser para emergências. Sem titubear, a garota o apertou.

Era uma espécie de interfone. Michelle percebeu isso rapidamente, e ficou segurando-o até ouvir uma voz do outro lado, dizendo:

Alô? Sistema de segurança do campus, quem fala?

— Meu nome é Michelle Parker, eu estou presa dentro do elevador da biblioteca. Eu acho que ele quebrou.

Você pode nos descrever a situação, Michelle? Uma equipe de técnicos está sendo enviada para aí, então eu peço que você mantenha a calma.

A garota suspirou, um pouco mais aliviada.

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Do lado de fora e muito mais abaixo, no primeiro andar, Phillip parecia intrigado observando o painel que indicava o andar em que o elevador estava. O display estava todo aceso, como se o elevador estivesse em todos os andares de maneira onipresente. Ele então percebeu quando a tela se apagou completamente. Curioso, Phillip apertou o botão que chamava o elevador até o seu andar. Ele acendeu e apagou instantaneamente, de maneira estranha.

No terceiro andar, Courtney e dois colegas de classe esperavam o elevador. A garota apertou o botão e, assim como Phillip, o viu acender e apagar no mesmo instante. Estranhou aquilo, e disse para os outros:

— Vamos pela escada? Eu acho que o elevador está com problema.

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Michelle estava presa ali fazia mais de oito minutos, e começava a se sentir nervosa. Ela estava sentada no chão, observando o vão que dava para a saída de emergência. Seria prudente tentar aquela escapatória? Temia que o elevador voltasse a funcionar exatamente no momento em que ela descesse, de modo que aquela foi uma ideia descartada imediatamente. Apesar disso, ficou curiosa com aquilo. Retirou o celular de seu bolso e iluminou o chão.

Colocou o aparelho com a tela virada em sua direção, e então se pôs a puxar o vão para os dois lados, procurando liberar a abertura. A roteirista teve de aplicar uma força tremenda até que conseguisse o feito, e, quando a tarefa estava concluída, ela congelou.

Abaixo de si, apenas a escuridão. Michelle imaginou que estivesse entre o terceiro e o segundo andar, mas não conseguia ver o chão através do fosso que havia embaixo de si.

Então as luzes se acenderam.

Michelle suspirou aliviada.

O interfone do elevador piscou algumas vezes, e a garota imaginou que isso significava que ela estava sendo contatada.

— Alô?

Alô, Michelle? Nós estamos na biblioteca, acabamos de reativar a energia do elevador. Em alguns minutos nós vamos...

A ligação foi cortada de maneira abrupta. Subitamente Michelle colocou a mão no coração, assustada, e então aconteceu.

O elevador começou a subir gradativamente. O painel indicava os andares: terceiro, quarto, quinto. Quando ele chegou ao quinto, o último, parou com um baque. A garota só teve tempo de ouvir um barulho metálico estranho, como se algo estivesse sendo rompido, e então o frio invadiu sua barriga.

Ela estava caindo em queda livre. Michelle encostou-se na parede, tocando o metal gelado e evitando o fosso no centro do elevador, mas havia pouco ou nada que pudesse fazer. Seu cabelo subia, e ela sentia a velocidade gradativamente aumentar. Lembrava-se de suas aulas de física, e sabia bem a respeito da primeira lei de Newton, o princípio da inércia.

É física simples. A primeira lei de Newton diz que objetos mudam de velocidade se alguma força age sobre ele. Um objeto caindo aumenta sua velocidade, por conta da força gravitacional que está agindo sobre ele.

Michelle fechou os olhos e esperou pela dor.

A caixa de ferro bateu no chão com uma força tremenda, esmagando qualquer coisa que estivesse dentro dela. O corpo da garota foi jogado para cima e para baixo com uma velocidade absurda, chocando-se contra o metal do elevador e sendo feito em pedaços como se fosse o corpo de uma boneca de panos.

Do lado de fora, Phillip ouviu o estrondo. Arregalou os olhos e virou seu olhar na direção da equipe de segurança que mexia no painel do primeiro andar. Os homens pareciam estar em choque.

Estranhamente o rapaz sentiu seu coração feito em pedaços.

Notas finais
E aí? HAHAHA mil perdões por ter sido sanguinário, mas... Era preciso! XD And then there were 9... Como feito em outros capítulos, a música utilizada aqui: Somewhere Over The Rainbow - Judy Garland: http://www.youtube.com/watch?v=1HRa4X07jdE O capítulo 4 já foi quase todo escrito, então também não deve demorar :B Abração! o