Notas iniciais
Gente, perdoem minha demora. Mas cá estou com um novo capítulo! O próximo não demorará tanto, juro :D
E ah! Leon começa a mostrar à que veio. Já Abi... Bom, vou ser sincero com vocês: eu realmente não sei o que fazer com a personagem ou como lidar com ela. Tipo, quando eu crio os personagens nas minhas fics, eles praticamente criam vida própria: eu inconscientemente imagino cenas e tramas para eles, coisas a se fazer e como usar cada um... Coisas que os fazem crescer. Com Abi isso não aconteceu e eu ainda não sei explicar porque. Foi só que a personagem não funcionou, e eu me arrependo um pouco. Mas ela não é a primeira: na minha fic 1, Roxy e Eric foram um problema, mas eu eliminei-os cedo. Isso voltou a acontecer na minha fic 3, com Nikki. Naquela ocasião eu tentei lidar da melhor maneira possível, afinal ela era uma das últimas a morrer... Essa cena da Abi nesse capítulo é curta e eu coloquei-a apenas porque eu PRECISO tentar desenvolver a personagem. Preciso que vocês se importem com ela, pelo menos um pouco...
Bom, é isso. Espero que gostem do capítulo! :D

Você é tão hipnotizante

Você poderia ser o diabo, poderia ser um anjo

Seu toque é magnetizante

Parece que estou flutuando, deixe meu corpo irradiar


Emily estava presa, embora não soubesse aonde e nem ao quê.

Ela tentou desvencilhar-se das correntes que a prendiam por três vezes, e por três vezes falhou. Seus braços estavam abertos, como se ela estivesse sendo crucificada. Mas suas pernas, ao contrário, estavam também abertas. Homem Vitruviano, Emily pensou, em relação à maneira como estavam dispostos seus membros.

E então seu algoz surgiu.

Da última vez que ela sonhara como ele, o rapaz vestia apenas uma calça de cetim branca.

Dessa vez, ao contrário, não vestia nada.

Emily voltou a puxar as correntes com força, e sentiu seus pulsos sangrarem. Ao seu redor havia apenas a escuridão, um abismo infinito. Ali só existia ele e ela. O universo resumia-se aos dois.

A garota olhou para baixo, para ver suas roupas. Ela usava uma túnica branca com as mangas rasgadas. Inicialmente a roupa deveria ter sido alva, mas agora estava salpicada de vermelho, de onde os braços de Emily haviam sangrado. A túnica era quase transparente, e o rapaz percebeu isso.

Leon sorriu com malícia.

Ele trazia um garotinho ao seu lado, preso a uma corrente de ferro como um bicho de estimação. O menino parecia meio morto, e Emily reconheceu-o com facilidade. Pete. O garotinho do navio. Era ele, isso era certo. Leon segurava-o pela nuca, com rudeza, e muito sangue escorria pelo corpinho nu do garoto. Ele murmurou:

— Me salve... Mamãe.

Eu não sou sua mãe, e eu não posso salvá-lo, Emily tentou gritar, mas nenhuma voz saiu de sua garganta. Ela debateu-se debilmente, chorando. As lágrimas escorreram pelo seu rosto e caíram na túnica.

E então, súbito, Leon quebrou o pescoço de Pete com as duas mãos. Fácil assim, como se fosse um galho podre de árvore. Emily gritou, mas ele não se importou.


Você é de um outro mundo

Uma outra dimensão

Você abre meus olhos

E estou pronta pra ir, guie-me para dentro da luz


Então Leon apertou a cabeça de Pete entre seus dedos de ferro e esmagou-a. Muito sangue e outros pedaços rosados escorreram por sua mão. Emily não queria olhar, mas era impossível. Seu olhar mantinha-se fixo no rapaz, como se algo transcendental a obrigasse a isso. Leon por fim arrancou a cabeça do garoto e jogou a massa disforme aos pés de Emily.

Ele então se aproximou, seu corpo nu cada vez mais visível. Estava completamente sujo de sangue, mas Emily sentiu-se ainda mais atraída por ele por conta disso. Ele murmurou, com seu sotaque característico:

— Para você, minha amada.

E antes que pudesse perceber, Emily era sua, e sentia-se preenchida pela aura de mistério e sedução de Leon.

Acordou.


x-x-x-x-x

Rebecca estava esperando impacientemente na porta de casa, segurando a maçaneta.

— Rápido Pete, mas que demora!

— Espera mãe, tô saindo do banheiro! — Ele disse, ao longe.

O marido da oriental então apareceu, vindo da cozinha. Ainda estava de pijamas, com seus cabelos castanhos bagunçados. Ele ajeitou os óculos no rosto e sorriu ao ver a impaciência da esposa.

— Pra que o desespero? Vocês tem o dia todo pra fazer compras.

— Isso é o que você pensa, Ted. A loja de roupas fica insuportável mais tarde.

— Se você diz... — O homem disse, e mordeu uma maçã que estava em sua mão.

Pete então apareceu. Vestia uma calça cáqui com suspensórios e uma camiseta listrada de vermelho e branco. Estava adorável.

— Agora vamos. — Rebecca disse, puxando o filho pela mão. Ted teve tempo de dar um beijo rápido no topo da cabeça do menino e então ele e a mãe já estavam dentro do carro.


x-x-x-x-x

— Fotos? Tem certeza do que você está dizendo, Leon? As fotos têm sinais... Sinais das nossas mortes? — Emily estava cética.

— Têm sim, eu juro. — O rapaz disse. — E muito me espanta esse seu ceticismo.

— Deveras. — Francis concordou.

— Por quê? — A garota fez-se de ofendida.

Leon riu.

— Você me contou essa maluquice toda sobre a visão, a lista e todo o resto. E o que eu fiz?

— Você acreditou... — Emily respondeu, incerta de qual resposta o rapaz gostaria de receber.

— Pois então. Por que é tão difícil você acreditar no que eu digo?

Emily não tinha resposta para aquilo.

— Além do mais você viu as fotos que a Krista mostrou. A sombra do avião nas torres gêmeas. A linha na cabeça, no lugar onde Abraham Lincoln foi baleado.

— Teorias conspiratórias. — Emily falou. Krista bufou, irritada, com a fala da amiga.

— A lista também é uma teoria conspiratória, então? — Leon desafiou, movendo as sobrancelhas para cima e para baixo. Xeque mate.

— Então vamos ver essas fotos. — Emily assentiu.

Eles estavam todos reunidos no quarto dela. Leon, Francis, Krista, Mikey e ela mesma. Johnny havia saído, e Emily preferia assim: não teria coragem de expô-lo ao que estava acontecendo. A morte de Jade ainda doía muito nele. Além disso, se a teoria da lista ao contrário estivesse certa, ele seria um dos últimos a morrer. Haveria tempo para avisá-lo.

Somados todos, faltavam apenas Rebecca, Pete e Abi. Emily decidira que não iria incomodar a primeira enquanto não houvesse nada que ela pudesse fazer para ajudá-la e fazê-la acreditar no que dizia. Deixar a mulher paranoica sem saber como se proteger parecia... Cruel.

Já Abi era um problema diferente. Ela estava cética, e Emily não sabia de nada que pudesse fazer a respeito. Conversara com Leon, para que ele pudesse convencê-la, mas fora em vão. A loira esperava, com as fotos, conseguir evidências suficientes que trouxessem Abi para o lado deles. Ela precisava, se quisesse ficar viva. Todos precisavam.

— Tá, as fotos estão aqui. As minhas e as suas, Leon. Tirando as fotos de paisagens e de outras pessoas sobram quantas?

— Umas vinte e duas... — O rapaz disse, descendo o cursor do computador. — É, vinte e duas.

— Vamos lá então. — Emily disse.

E puseram-se a ver as fotos.

De Abi havia somente uma.

— Uau! Linda amiga, huh? — Francis disse, rindo. Krista fuzilou-o com os olhos.

— Bom, vamos avaliá-la... — Leon disse.

A foto parecia normal. Abi estava em pé no cais, com a mão na cintura e os cabelos assustadoramente esvoaçantes.

— Alguma coisa envolvendo os cabelos dela, talvez? — Emily arriscou.

— É o que mais se destaca... — Leon concordou.

A foto seguinte foi a de Jade, e Emily teve um estalo. Arregalou os olhos, apontou para a tela e disse:

— A camiseta. Olhem a camiseta dela.

Quando todos perceberam, ficaram tão surpresos quanto ela. Krista deu um gritinho.

A camiseta de Jade era branca. Mas em seu centro havia o desenho de uma cobra prateada feita de strass.

— É isso! A teoria das fotos está certa! — Leon exclamou. — Bingo! — Apesar de seu jeito de falar, ele não parecia animado com aquilo. Estava mais para esperançoso, como se sua vida dependesse daquilo. E de certa forma depende...

Emily verificou a miniatura das fotos e teve o cuidado de não abrir nenhuma em que Ajay aparecesse. Mikey poderia sentir-se mal.

A foto de Krista mostrava a garota sentada no cais, ao lado de um bote. A ventoinha do motor do bote estava se movendo, e isso era o que mais chamava a atenção deles.

— A ventoinha do motor... Um ventilador, um triturador? Qualquer coisa assim... — Leon arriscou. Krista estava mais do que assustada. Francis pegou na mão dela e a garota tremia.

A foto de Mikey tinha Emily junto. Os dois estavam em frente ao mar, e viam-se apenas os seus rostos e as nuvens atrás deles.

Mas Mikey foi rápido em perceber:

— Essa é igual a da Jade. Olha a camiseta.

Todos olharam, e perceberam que ele deveria estar certo. Na camiseta que o rapaz usava estava escrito: “train”. Ninguém comentou nada a respeito, e puseram-se a ver as fotos seguintes. A de Leon estava estragada, um raio de sol havia aparecido bem em cima de seu rosto. Eles julgaram que não conseguiriam decifrá-la, e o rapaz até ficou grato por isso. Não estava gostando de poder saber de antemão como morreria.

A de Johnny também tinha Emily abraçada com ele. A garota estava apertando a cabeça do irmão com as mãos, rindo.

— Esmagado? É o que parece... — Francis arriscou.

— Parece até que eu vou causar a morte dele... — Emily disse morbidamente, e ninguém respondeu nada.

Na foto de Francis ele estava fazendo uma pose de super-herói, sem as muletas. Atrás dele havia várias crianças brincando, com armas de plástico que atiravam água.

— Essa minha foto pode ser qualquer coisa. Afogado? Tiro de arma de fogo? Kryptonita? — Ninguém riu da piada. Estavam apreensivos demais.

— Falta só eu, o Pete e a Rebecca. O meu acidente já aconteceu, e nós não temos fotos dos dois...

Leon então objetou:

— Na verdade temos sim... — E sorriu.

Emily ficou encabulada, mas então o rapaz voltou às fotos originais, em que havia paisagens e outras pessoas. Explicou:

— Eu tenho essa mania, que pode ser meio sociopata, mas... Eu gosto de tirar fotos de estranhos. E foi impossível não querer fotografar isso...

E então abriu a foto. Era o cais, com várias pessoas ali. Mas no centro, em destaque, estavam os dois. Pete estava rindo com as calças molhadas, e Rebecca ria também. Não havia nenhum sinal claro da morte deles. Exceto o fato de que a foto estava meio tremida e clara, e a cabeça de Pete estava meio torta. Rebecca tinha um clarão de sol em seu peito, semelhante ao que estava no rosto do Leon em outra foto.

— Ficou ruim, mas eu não podia me aproximar mais.

Emily ficou analisando-a. E então, subitamente, seu sonho lhe veio à mente. Leon esmagando a cabeça de Pete com as mãos. A foto tremida, com a cabeça de Pete disforme. Fitou o infinito, vozes surdas ao seu redor. E então disse, numa epifania:

— A cabeça. Vão esmagar a cabeça dele, de alguma forma...

— Você teve uma visão sobre isso? — Krista perguntou.

— Não... — Emily disse. — Foi mais um sonho. Não uma visão, um sonho confuso mesmo. Ele tinha a cabeça esmagada... — Preferiu não mencionar Leon. — Agora com a foto tudo faz sentido.

— Nós temos que encontrá-los! — Leon disse. — Avisar a Rebecca que o filho dela está correndo perigo e...

Mikey então o indagou:

— Como? Nós nem sabemos como encontrá-la.

Leon deu um sorriso bobo, e então respondeu, com o sotaque mais atraente que Emily jamais ouvira:

— Vocês não têm listas telefônicas aqui nos Estados Unidos? Não acho que existam muitas Rebecca Kikuchi na cidade... — Como ele sabe o sobrenome dela?, Emily pensou. Mas não perguntou. Ela desmaiara no dia que conheceu Rebecca, então conversas aconteceram enquanto ela estava apagada. Leon deveria ter descoberto o sobrenome aí.

— Então vamos ligar pra ela. — Emily confirmou.


x-x-x-x-x

Abi terminou de pentear os longos cabelos roxos da boneca e sentiu-se satisfeita.

Sua Real Doll era perfeita. Em cada detalhe. O nariz milimetricamente esculpido, a boca delicada, os grandes olhos castanhos. A boneca era perfeita em cada mínimo aspecto, e Abi gostava de tomar conta dela, de sua aparência. Fazia-a sentir-se menos solitária.

Estava em um país que não era o seu, longe de quaisquer pessoas conhecidas ou amigas. Havia Leon, e ela tinha começado a se enturmar com Emily e Krista, mas mesmo assim... O rapaz parecia distante, e estava sempre trabalhando. Os dois se viam no jantar e nos fins de semana só, mesmo morando juntos. Já as garotas podiam ser gentis, mas Abi não se iludia. Elas não eram suas amigas, e tratavam-na apenas com gentileza e cordialidade.

— Só você é minha amiga. — Abi disse para a Real Doll.

E agora ainda havia a maluquice de Emily. A tal lista da morte, em que todos estavam. Abi achava tudo aquilo sem sentido. Talvez fosse a barreira linguística, talvez não. O problema era que para ela acreditar em tudo era muito mais difícil. Não conhecia Emily. Não sabia sobre o que ela estava falando. Ela só quer chamar a atenção, pensou Abi. Chamar a atenção do Leon.

A garota admitia que a visão no Rainha Fohtaed fora estranho, mas apenas isso. Um pressentimento, qualquer pessoa já tivera. Até mesmo ela, Abi. O mais irônico é que o nome do navio, ao contrário é Rainha Death Of... Haha, essa Emily não poderia ser mais oportuna.

E deitou na cama, esperando poder descansar um pouco e esquecer seus problemas.


x-x-x-x-x

O vento entrava furiosamente pela janela aberta do carro.

— Você está bem, Emily? — Leon perguntou, cauteloso.

— Estou sim. — Ela bateu impacientemente os dedos na perna, na calça jeans que usava. — Não dá pra você ir mais rápido?

O rapaz riu:

— Até dá, mas... Eu não quero ser preso. Não tenho habilitação e não estou no meu país. Se algum policial me parar eu posso acabar sendo deportado, e o seu namorado perde essa belezinha de carro.

Emily fez muxoxo, mas sabia que o rapaz tinha razão. Eles precisavam chegar rapidamente até Rebecca, mas arriscar-se não era a saída. Além disso, a garota tinha quase certeza que Krista ou Mikey a encontrariam primeiro. As chances são as mesmas.

Encontrar o número de Rebecca na lista telefônica fora fácil. Mikey ligara para a casa dela, e quem atendera fora o marido da oriental. O rapaz não explicou a situação, preferiu mentir: disse que era diretor da escola onde Pete estudava e precisava encontrar-se com Rebecca. Por azar, ela não estava em casa. Mikey conseguiu apenas arrancar do homem a informação de que a mulher estava em um shopping, mas nada além disso.

— Qual shopping? — Emily perguntou. — Você poderia ter pedido o celular dela.

— Ele não me falou, e já estava suficientemente desconfiado com as minhas perguntas. — O rapaz desabafou. — Fiz o melhor que pude, me desculpem.

Emily não soube o que dizer. Krista veio em seu socorro:

— Existem três shoppings no centro.

— Ela pode estar em qualquer um deles... — Francis observou.

Mikey então teve um estalo:

— Pois vamos a todos, então!

— Até fazermos isso ela provavelmente já estaria em casa... E podemos chegar tarde demais... — Krista comentou.

Emily então entendeu o que Mikey quis dizer:

— Espera, eu entendi. Nós estamos em cinco. Temos três shoppings apenas!

— Bingo. — Leon comentou.

Krista então perguntou:

— Quantos carros nós temos? — Ela própria levantou a mão, e Mikey fez o mesmo. Leon levantou o braço acanhadamente e falou:

— Eu tenho uma bicicleta.

Emily riu timidamente. Krista comentou:

— Serve. Bom, eu vou para o shopping Red, é o mais longe, mas meu carro é o mais rápido, eu acho. — E olhou de soslaio para Mikey. — Você pode ir para o shopping Central, e o Leon fica com o 13, que é o mais próximo. Feito?

Todos concordaram, mas o egípcio levantou a mão timidamente e disse:

— Só tem um problema... — E tomou fôlego. — Eu não sei ir nesse tal shopping.

O restante da conversa fluiu naturalmente. Emily iria com Leon, para lhe explicar o caminho. Francis também não era dali, então também não seria de grande ajuda para o egípcio. Acabou ficando decidido que Krista e Francis iriam para Red, Leon e Emily para o Central, e Mikey ficou com o 13. E a bicicleta de Leon, Emily pensou, amargamente. Leon pegou emprestado o carro e a namorada dele. Mas não foi culpa nossa. Não dava para irmos juntos de bicicleta.

E foi assim que ela acabou dentro do carro do Mikey sendo conduzida por Leon.

Antes que pudesse ter tempo de pensar mais a respeito, ouviu o rapaz anunciando:

— Chegamos.

Os dois desceram com pressa, ao mesmo tempo em que a garota murmurava pra si mesma: que eles estejam bem, que eles estejam bem...

x-x-x-x-x

Rebecca estava cheia de sacolas na mão, e Pete vinha tagarelando ao seu lado.

— Filho, fica quieto um pouquinho. — Ela disse, rude, enquanto conferia a nota da compra.

O garoto fez birra e saiu correndo. A oriental gritou para que ele voltasse, mas o menino não a obedeceu. Em segundos atravessou a primeira porta automática da saída do shopping, e estava prestes a atravessar a segunda, há pouco mais de um metro, quando aconteceu.

A porta abriu-se quando ele se aproximou, mas fechou rápido demais. Na cabeça de Pete.

Leon e Emily estavam se preparando para entrar nesse mesmo momento. Há alguns metros, dentro do shopping e através da porta de vidro transparente, eles viram Rebecca. A mulher largou as sacolas no chão e correu em direção à primeira porta automática.

Não adiantou. A porta fechou-se e o sensor recusou-se a abrir por mais perto que ela chegasse. Rebecca via o filho há pouco mais de um metro, agonizando, mas não conseguia fazer nada.

— Pete! — Ela gritou, esmurrando o vidro. E então sentiu um choque, e afastou-se rapidamente. A porta estava eletrificada. Gritou mais alto, e Emily e Leon não a ouviram.

A cabeça do garoto estava presa pela porta automática. Ele estava encurvado, e os dois lados da porta prendiam-no na altura das orelhas. A cabeça esmagada, Emily pensou. Oh, não, ele é apenas uma criança. Por Deus, ele é um bebê!

— Mamãe! — Pete gritava, debatendo-se. — Me ajuda! Está doendo!

Emily via que a porta parecia comprimir-se mais e mais, e Pete gritava, chorava, esperneava. Seguranças de dentro do shopping haviam aparecido, e tentavam abrir a primeira das portas automáticas, para chegar a Pete. Mas parecia em vão. Eles levavam choques, e então um deles teve a ideia de quebrar o vidro com um machado.

— Não! — Leon gritou, ao ver o que estava prestes a acontecer.

A porta automática continuou a comprimir-se, entre gritos, choros e soluços de Pete. Ele se debatia, pequenos bracinhos e perninhas. Seus grunhidos estridentes de agonia atingiam Emily de maneira assombrosa, e ela só conseguia chorar e gritar histericamente. Por favor, não o garoto. E então a cabeça de Pete foi ficando vermelha, e escura, e de repente um som grotesco foi ouvido.

Os seguranças estraçalharam o primeiro vidro e Pete agora podia ser tocado por eles. Rebecca gritou e correu em direção ao filho, mas já era tarde demais.

Emily fechou os olhos, esperando não ver, mas quando os abriu, a cena ainda ocorria.

O osso do crânio de Pete quebrou-se, e a porta fechou-se alguns centímetros. A cabeça do garoto tornou-se disforme, e ele parou de se mexer. Muito sangue escorreu, deslizando pelos bracinhos do garoto e caindo no chão, pingando. Quase como no meu sonho.

E então a porta se abriu, e o corpinho desfalecido de Pete caiu, com a cabeça esmagada. Os seguranças tocaram-no, procurando sinais vitais. Rebecca era segurada por dois deles, gritando e se debatendo violentamente.

— Meu filho! — Ela berrava. — É o meu filho... Oh, oh...

Emily estava na escadaria da entrada, abraçada com Leon e chorando nos braços dele. O que acabara de ver fora a cena mais violenta da sua vida. Um garotinho... Por Deus, um garotinho inocente... Ele não merecia essa morte cruel. Ninguém merecia, mas, sobretudo ele... Não, o que eu fiz?! Eu condenei-o a isso... A essa morte horrível e dolorosa...

Antes que ela visse, a porta fechou-se mais uma vez, e, ao encontrar-se com o bracinho de Pete, voltou a se abrir.

O sistema automático voltara a funcionar.

Notas finais
Intenso, não? Hahaha, aos que pediam que eu fosse cruel e matasse uma criança, está aí. Uma das mortes mais sofridas e dolorosas das minhas fics. Se era pra fazer, preferi fazer direito! XD Próximo capítulo em breve! Comentem!