Premonição: Trilhas da Morte
2 Passageira
Notas iniciais
Kai demorou um pouco para associar seu pressentimento ruim à realidade. Uma mulher vai se jogar na frente do trem… Repetiu internamente, convencendo a si mesmo de que o que viu, viera mesmo do seu consciente. Ele tentava não transparecer preocupação em seus passos calculados na direção da estação, mas a situação parecia absurda demais para fingir que nada daquilo acontecera de fato. Ou aconteceria, caso ele não tomasse alguma atitude para garantir que não estava pirando.
Bunny ficou sem entender nada quando o namorado soltou sua mão e passou correndo pela entrada do local. Ela estava de salto e não queria arriscar quebrá-lo para alcançar o rapaz, de modo que seguiu para dentro calmamente, embora um pouco curiosa com o motivo da pressa. Lá dentro, Kai chegou nas plataformas com as têmporas molhadas. Provável que a namorada matasse-o depois de vê-lo destruindo a armadura chique que tinha vestido por conta do suor.
Ele olhou para os lados, tinha pouco tempo até que o trem chegasse na estação e a mulher cometesse aquela loucura. Seus ombros largos esbarraram em algumas pessoas e o universitário se desculpou. Seguiu para o final da plataforma, de onde lembrou ter visto-a surgir e viu que daquele lado haviam pouquíssimas pessoas. Assim foi fácil perceber o instante em que a mulher de seu pensamento apareceu, detrás de uma neblina. Com seu vestido branco e seus cabelos volumosos, cheios de cachos negros como a noite, ela cambaleou pela extremidade da plataforma.
Kai conseguiu alcançá-la a poucos metros do local exato da tentativa de suicídio. A mulher era mais pálida de perto, ele não deixou de notar. Pensou em segurar em seu braço e afastá-la dali, mas lembrou-se do funcionário tentando fazer o mesmo e falhando miseravelmente.
— Oi, tudo bem? — A princípio, preferiu ser gentil para não assustá-la.
— Quem é você? — Ela perguntou de maneira acuada, decerto estava se preparando para adiantar seus planos.
Eu não posso cometer o mesmo erro do guarda.
— Kai Standall. Estava passando e achei ter te visto chorar. Pensei: por que não tentar ajudar? Pode ter sido só minha impressão, mas mesmo assim, queria saber se está tudo bem. — O rapaz precisava de respostas rápidas e que fizessem sentido. Pensou em olhar para trás, para ver se Bunny estava vindo, mas um descuido e a mulher estaria em pedaços sobre os trilhos.
Ao fitar o rosto da desconhecida e lembrar da cena de horror, seu estômago embrulhou. Saindo dali, ele iria direto vomitar em alguma lixeira. Viu a expressão de indigestão da moça, como se nem ela estivesse entendendo seu propósito naquele momento. Seus olhos vazios de um azul puríssimo encararam o chão e Kai pensou em tentar outra coisa.
Pigarreou:
— O batente é alto, não acha? — Ele olhou para fora da plataforma, vendo-a acompanhá-lo no olhar. — Deve ser uma queda feia.
— Eu não acho. — Ela retrucou, a brisa fria do início de noite tocando seu rosto. Sentiu-se completamente atraída pelos trilhos, como se uma força magnética estivesse puxando-a até eles.
O negro ouviu o som característico a uma distância razoável. Era o trem se aproximando. Aquele era o momento decisivo e sua última chance para evitar o pior. Então, comentou:
— Está frio aqui. — Atritou os braços, sem ter certeza se a desculpa funcionaria, já que seu peito estava suando. — Será que posso te pagar um café?
— Eu nem te conheço. — A mulher foi incisiva com a insistência. — Me deixa em paz!
Desta vez, foi ela quem ouviu o barulho do transporte de ferro e tirou sua atenção completamente do rapaz para inclinar a cabeça para fora da plataforma. Kai sentiu o coração saltar pela boca e o suor frio desceu pesado em sua testa, a suicida parecia irredutível com sua decisão. Saber que alguém tiraria a própria vida diante dos seus olhos em questão de segundos e não fazer nada a respeito era demais pra ele.
O funcionário da estação chegou de repente, surpreendendo-os.
— Vocês não podem ficar aqui, têm que se afastar. — Pediu o homem de barba grisalha, estendendo os braços.
— É claro, seu guarda! Já estamos saindo, não é? — O universitário imediatamente entreolhou-se com a desconhecida de lábios trêmulos. Ela se negava a concordar, mas ele não desistiria, erguendo um pouco a voz por conta da buzina do trem aumentado. — Olha, eu sei que agora parece uma decisão fácil, a única que pode arrancar a dor que sente, mas na verdade não é...
O corpo inteiro da mulher paralisou e ela não moveu um músculo, se vendo focada no que o rapaz dizia, mesmo que sua voz estivesse sumindo lentamente. No segundo seguinte, sentiu os braços dele empurrarem-na para o lado e o calor dos vagões do trem soprarem em seu rosto.
Tomado pela adrenalina do momento, Kai recuperou o fôlego e olhou para o meio de transporte parando na estação. Logo depois, Bunny apareceu com uma expressão que unia confusão, raiva e surpresa.
— O que foi aquilo, Ligeirinho? Poderia ter se machucado.
— Não foi nada, eu só me distraí e… — Ele respondeu, olhando em volta.
Nenhum sinal da mulher que tirara do caminho do trem, mas imaginou que seu paradeiro não importava tanto quanto antes. O rapaz havia conseguido.
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Minutos antes…
Joey entrou apressado na estação, carregando sua mochila repleta de maquiagens e acessórios para o evento. Serena veio logo atrás, observando o garoto se afastar e seguir na direção para onde as placas indicavam os banheiros. Andando tranquilamente, ela passou a observar cada detalhe do local. Algumas pessoas chegavam naquele momento: adultos, crianças, idosos; outras já esperavam na plataforma de embarque, que era coberta por uma espessa neblina, assim como não conseguia enxergar boa parte dos trilhos.
Vestígios do pôr-do-sol ainda podiam ser vistos no horizonte, pequenos borrões alaranjados se misturando à suave escuridão do céu. Nuvens carregadas também se aproximavam, dando prenúncios de uma noite chuvosa. Serena suspirou e parou diante do painel que mostrava o mapeamento das estações que existiam ao longo das três cidades ligadas pela linha férrea. Eram traçados coloridos que se separavam ou se uniam em alguns pontos, ilustrando os trilhos.
Serena tocou o painel com o dedo indicador e seguiu a linha vermelha que daria para Edenburry, onde ocorreria o evento citado pelo primo, mas seu dedo parou na metade do caminho. Um rasgo superficial no mapa dividia a linha em duas partes, como se houvesse um obstáculo no meio do trajeto. O detalhe trouxe certa sensação de estranheza, fazendo a policial levantar a sobrancelha.
— Viu como não vamos demorar para chegar no final? — Joey surpreendeu-a, também virando para o painel.
— Sim.
— Estou indo na lanchonete, quer alguma coisa? — Ele perguntou, apontando com o polegar para uma das extremidades da plataforma. Lá ficava um pequeno espaço de alimentação.
— Talvez um suco ou qualquer coisa assim. — Ela respondeu, erguendo o pescoço e olhando além das pessoas.
O primo logo notou o gesto e chamou sua atenção com o cotovelo, perguntando:
— Procurando alguém?
— Ninguém. — A mulher endureceu a postura, cruzando os braços e mudando o curso do olhar rapidamente. — Sugiro que não demore muito na lanchonete. O trem já deve estar vindo e estou certa de que não vai querer perder seu evento.
— Sim, senhora!
Joey bateu continência e deu meia-volta, sendo acompanhado pelo olhar constrangido da prima, que balançou a cabeça em desaprovação.
Após ele desaparecer entre as pessoas, Serena voltou seu olhar atento para a plataforma. Apesar de West Creek se tratar de uma cidade relativamente pequena, haviam muitos passageiros prestes a embarcar. Além dos moradores que a loira pôde reconhecer, também estavam rostos nunca vistos antes e alguns deles se destacavam justamente pelas vestimentas. Bem como um homem alto, dentro de um terno caro e carregando uma mala de viagem à tiracolo.
A policial não tinha o mínimo interesse em saber quem ele era ou de onde vinha, pois lhe parecia recíproco. Muitos executivos passavam pela escondida cidade do estado da Carolina do Sul apenas pelo fato de ser um caminho alternativo e mais rápido para chegarem até o distrito financeiro de alguma localidade vizinha. A viagem de trem diminuía em média uma hora do tempo gasto utilizando as estradas e evitava que parassem para admirar o que o lugar oferecia de verdade.
Não era segredo que Serena nutria certa resistência com relação a homens em figuras de poder, e sua convivência com indivíduos que se encaixavam nestes aspectos era toda baseada em conflitos. Um exemplo disso fora o início difícil de sua carreira no departamento de polícia de West Creek, principalmente porque depositavam nela uma série de limitações que claramente não existiam e não coincidiam com seu potencial. Infelizmente teve que se impor e provar seu valor para ter mais credibilidade, mas não se arrependia de ter lutado pelos seus objetivos.
Depois de anos cumprindo o dever de proteger as pessoas a sua volta, não imaginava que um dia pudesse pensar a máxima de que nem ela estava segura de si mesma.
Quando percebeu, já estava correndo como se sua vida dependesse disso. Entrou em uma das cabines do banheiro, depositando tudo o que restara no estômago em forma de um líquido rosado no vaso sanitário. Sinal de que seu estômago estava completamente vazio há um tempo.
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De uma das cabines do banheiro feminino da estação, Iris saiu baixando a barra do vestido de alças um pouco constrangida. Havia entrado no recinto para ter um momento de paz longe de tantos olhares tortos, mas enganou-se. Recepcionada por alguém que encontrava-se na cabine ao lado colocando todos os órgãos internos para fora, a jovem mulher pôs-se diante da pia e encarou o próprio reflexo enojado no espelho. Ligou a torneira para abafar o barulho incômodo e aproveitou para lavar as mãos embaixo do jato de água, sentindo-as esfriarem.
Refletido no espelho, um rosto quase indecifrável, em partes escondido por uma gaze. A tira branca estava metodicamente posicionada sobre a superfície que abrangia seu nariz e parte das bochechas, cobrindo-as como uma máscara. As manchas parcialmente arroxeadas abaixo dos olhos ainda eram perceptíveis, o que inicialmente não era uma visão perfeita, mas também não lhe era estranha. Depois de repetir tantas vezes o processo, poderia dizer que acostumara com seus efeitos colaterais. Tinha certeza que no fim, teria tudo o que precisava.
A auto satisfação era um desses objetivos a serem alcançados. Iris perdera as contas de quantas vezes teve que passar por procedimentos estéticos para sentir-se bem consigo mesma ou com a pressão que o mundo externo exercia sobre ela. Entretanto, percebeu que quanto mais modificava seu corpo, mais tinha algo novo para alterar. Ela sempre encontrava um detalhe que fazia a diferença. Atualmente, poucas partes permaneciam intactas desde que começou a realizar as mudanças, mas o que realmente importava para ela, era se sentir bonita novamente.
O que poderia ser bastante subjetivo, já que conquistara seu lugar como modelo fotográfica antes mesmo da primeira cirurgia. Na época, Iris tinha um rosto comprido, o maxilar não era quadrado e o queixo sequer tinha sofrido alterações. Os lábios não conheciam preenchimento e suas bochechas eram bem delineadas, longe de serem marcadas por inchaços nas maçãs do rosto. Os olhos claros eram maiores e mais expressivos, não imaginava que posteriormente seriam substituídos por olhos estreitos e puxados.
Apesar disso, Iris sempre foi magra, mesmo sabendo que poderia retirar, pelo menos, duas costelas até que sua cintura tivesse o comprimento ideal. O que não tinha decidido ainda. Seu último procedimento estético fora uma rinoplastia e já faziam algumas semanas desde que começara o tratamento para conter os inchaços e sensibilidades. Estava sendo acompanhada por uma esteticista para cuidar dos pós-operatórios, a qual estava indo encontrar naquela noite para ter a última sessão.
Ao longo do processo, Iris foi perdendo coisas muito importantes, mas acreditava que poderia recuperar a maioria delas. Nem que para isso, precisasse fazer mais alguns sacrifícios. A mulher tocou a gaze suavemente, os olhos entristecidos acima da faixa, e fitou os cabelos loiros quase que completamente platinados. Lembrava que aquela tinha sido sua primeira mudança do antigo visual.
Ficou perdida em pensamentos e acabou esquecendo a torneira ligada, desesperando-se para desligá-la antes que alguém percebesse. Olhou ao redor e viu quando a pessoa da cabine saiu, limpando rastros de saliva que sobrara nos lábios. Ela andou até a pia e fez uma concha com as mãos embaixo da água, levando até a boca.
— Está tudo bem? Desculpa, não pude deixar de ouvir. — Iris comentou, secando as mãos.
A policial foi boa em esconder o susto que tomara ao visualizar o rosto enfaixado da mulher. Imaginou que fosse fruto de uma cirurgia plástica.
— Está sim. Foi só um mal estar súbito.
A outra apenas acenou positivamente, saindo do banheiro, o salto da bota preta de cano alto batendo contra o piso. Serena virou-se para o espelho, encarando seus olhos cansados por breves segundos, antes de retornar à plataforma.
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Sentado de frente para a bancada da lanchonete, Joey observou o funcionário embalar seu pedido em uma sacola de papelão. Dois mistos quentes e duas caixas de suco, assim como sua prima pedira. Sentiu o sopro quente que provinha da chapa e das frituras, lembrando de casa e dos fast foods que costumava ir com os outros universitários. Enfiou a mão no bolso da calça e deixou uma nota de dólar sobre o balcão, recolhendo a sacola e agradecendo com um aceno. Ao virar-se para sair, esbarrou acidentalmente em outro cliente, sentado no banco mais próximo. O movimento brusco fez com que um objeto metálico tilintasse no chão.
— Não olha por onde anda, garoto? — Uma voz dura reprimiu-o.
Joey olhou para baixo e viu que o barulho fora feito por uma curiosa bengala de ferro, que após cair, rolou até seus pés. Imediatamente se propôs a apanhá-la e devolvê-la para o dono, um homem que encarava-o com olhar de reprovação e uma boca ainda repleta de comida. O rapaz completamente desconcertado desculpou-se várias vezes, saindo em seguida. Enquanto isso, o homem irritado terminava de digerir a mordida que dera em seu hambúrguer segundos antes.
Ele engoliu e olhou para frente.
— O que foi? — Perguntou de maneira seca para a mulher que pairava os olhos sobre ele.
— Não precisa ser grosso o tempo todo com as pessoas, sabia? Já experimentou ser um pouco mais gentil?
— Você também não tem que me reeducar o tempo todo e o faz mesmo assim. Sou só seu irmão caçula, não uma criança de seis anos. — Ele levou uma mordida generosa à boca novamente, sem desfazer sua face congelada.
Apesar das claras divergências entre suas personalidades, Graham e Veronica Phoenix eram mais parecidos do que imaginavam. Graham era um homem alto e extremamente belo. Os cabelos eram castanhos durante a noite e chegavam quase ao dourado sob a luz do sol. Seus músculos saltavam da camisa branca e da jaqueta de couro vinho que usava. Tinha a pele branca, levemente bronzeada e olhos acinzentados que pareciam ter visto muito da vida, apesar da pouca idade: vinte e seis anos. Já Vee, como era conhecida, era dez anos mais velha, mas esse tempo não fora contabilizado em sua aparência tão jovem quanto a dele. Olhos acinzentados, pele bronzeada e lábios finos, banhados em batom escuro. A mulher possuía cabelos curtos e tingidos de branco, com uma franja moderna caindo sobre o rosto e uma maquiagem ligeiramente agressiva. Tudo dando um toque especial no seu look: uma gargantilha, um cropped roxo e uma longa saia preta.
— Suas atitudes dizem o contrário. — Ela rebateu, revirando os olhos e procurando ser mais rígida do que o homem. — Estou começando a me arrepender da ideia de viajar com você até a casa dos nossos pais.
— Talvez devesse ir sozinha. — Graham sugeriu, bebendo um gole displicente de seu refrigerante, a fim de fazer a comida descer mais facilmente.
— Talvez eu devesse mesmo.
O homem deu de ombros. Vee não suportou aquela reação de indiferença e continuou:
— Quero que saiba que estou fazendo isso principalmente por eles. Porque se dependesse da sua boa vontade de sair daquela casinha no meio do nada pra vê-los, esse reencontro não aconteceria. — Lembrou-se das fotos do lugar onde o irmão passou a viver, mostradas por ele.
— Assim como você, nossos pais sabem o que aconteceu comigo e sob quais circunstâncias fui parar naquela “casinha no meio do nada”, como você diz. — Cuspiu. — Então, pare de achar que é a única pessoa capaz de ter uma vida normal, só porque escolheu ser a filha certinha e evitar se arriscar com medo do que eles vão achar das suas decisões!
Aquelas palavras foram como um soco no estômago de Veronica. Ele estava certo, mas talvez tivesse escolhido a forma errada de dizer aquilo. A irmã sempre fora muito apegada aos pais e o inverso também acontecia, mas não seria diferente. Ela tomava conta de tudo por eles: da casa, dos negócios e do caçula. Advogada da família, cuidava de toda e qualquer papelada que envolvesse o nome dos Phoenix, exercendo um papel fundamental nas questões financeiras e judiciais da empresa que administravam. Por estar constantemente presente no dia a dia, mesmo morando em cidades diferentes, passava mais tempo com os pais do que na própria casa. Vee tinha pouco tempo para dedicar-se a sua vida pessoal, e consequentemente, esqueceu que projetando seus objetivos quase que inteiramente à família, deixava suas realizações pessoais para trás.
Se até Graham, o irmão emocionalmente distante e que mantinha pouco contato, percebera sua relação engessada com os pais, talvez fosse hora de rever suas prioridades. Mesmo repleto de marcas, ele parece mais livre do que eu, a advogada não deixou de pensar.
— Desculpa. — Graham disse de repente, notando a tristeza se formando no rosto da irmã. — Eu não quis...
— Não, você está certo. — Ela recuperou-se do baque. — Até mudei drasticamente o visual pra esquecer por algum tempo que não sou apenas um robô.
— Eu gostei. Parece uma daquelas cantoras alternativas de banda de garagem.
Ela deu um riso breve e em seguida, suspirou.
— Já tem em mente o que vai dizer quando nossos pais começarem o interrogatório? Serão muitas perguntas...
Graham desviou seu olhar para o apoio metálico ao pé da bancada e respirou fundo, respondendo:
— Contarei a verdade.
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Quando Serena retornou à plataforma, apoiou-se atrás da primeira pilastra que viu. Sentia a testa umedecida de suor e o ambiente ao seu redor se distanciar por alguns segundos, causando uma vertigem que a fez massagear as têmporas. Incomodada, ela inclinou o corpo para frente, encarando o chão. Então, fechou os olhos, mas não adiantou já que tontura persistiu.
Vendo tudo a alguns metros dali, Seth apressou-se até ela.
— Serena!
A mulher não soube dizer de onde o policial surgiu para ampará-la, mas percebeu sua presença no momento em que o homem aproximou-se. Ele usava uma jaqueta amarela, blusa preta e calça jeans de mesma cor. De forma cuidadosa, tocou seu braço e guiou-a calmamente até o banco mais próximo, esperando que ela sentasse e respirasse um pouco.
— Tudo bem? — Perguntou à queima-roupa, mesmo que estivesse escancarada a situação da antiga parceira de ronda. — Você tá pálida. Faz quanto tempo que está assim?
— Eu não sei.
— Você tem que se alimentar. — O homem rebateu, tocando sua testa com as costas da mão e recebendo uma leve reprimenda para que ele a afastasse.
— Sei me cuidar sozinha. — Ela prontamente levantou do banco, tentando manter a compostura.
Seth conhecia o temperamento de Serena. Ela poderia ser durona, teimosa e independente, e aqueles eram traços fortes de suas características que ele gostava de ver em prática. Mas aquela não era a melhor situação para demonstrá-las. Não era a mesma parceira de trabalho com quem convivera por anos, e era fácil buscar as divergências nos detalhes. O tempo que se manteve afastada da corporação gerou barreiras que impediam qualquer relação saudável que viessem a ter. Seth lembrou-se das caixas de remédio e imaginou que a mudança de comportamento de Serena pudesse estar relacionada àquelas medicações.
— Você pode estar longe, mas não esqueça de que ainda sou seu amigo e pode contar comigo pro que for necessário. — Disse o policial.
Serena sabia que era verdade, mas apenas acenou positivamente com a cabeça, vendo o homem se distanciar à medida em que ela perdia o rumo do próprio olhar. Por alguns segundos, arrependeu-se de tê-lo tratado de maneira rude. Segundos depois, Joey anunciou sua chegada sem esforço algum, balançando a sacola de papelão com os lanches na frente do rosto. Ele acompanhou o homem de jaqueta amarela caminhar para longe e automaticamente levou uma expressão curiosa para a figura impassível da prima.
— Quem era aquele? — Perguntou, sem ter certeza se teria uma resposta imediata, dada sua imprevisibilidade.
— Um velho conhecido. — A policial limitou-se a dizer.
Após responder, os sentidos de Serena passaram a se concentrar nos acordes agressivos de uma canção que começava a escapar dos alto falantes espalhados em cantos estratégicos da estação. Um deles fora posicionado bem perto de onde ela estava. A canção se tratava de Love Train, a qual ela reconheceu. Ao mesmo tempo em que a música soava um alarme interno em seu corpo, fazendo os pelos de sua nuca arrepiarem, também ouvia um som agudo, metálico e distante.
Girou o curso do olhar ao redor, até encontrar um relógio de parede. 18:00h. O horário previsto para a chegada do trem. Aquilo significava ele era a origem do barulho e que finalmente o transporte estava chegando.
A loira passou a caminhar entre as pessoas, tendo Joey em seu encalço. O rapaz desviava dos ombros alheios um pouco desengonçado por conta da mochila, pedindo desculpas a cada segundo, e viu a prima parar na ponta da plataforma. Assim como ela, ficou atrás da linha amarela que fazia o limite entre a calçada e os trilhos. Serena olhou por cima dos ombros, encarando as pessoas que se aproximavam.
O homem de terno era uma dessas pessoas, agora lançando um breve olhar até ela, que desviou até a chegada de um homem de cabelo e barba ruiva. Se não estava enganada, era o mesmo que lhe oferecera carona em sua caminhonete mais cedo. Ele parecia estar empenhado em acompanhar uma doce idosa, a qual não o notava, que olhava para todos os lados, como se procurasse alguém entre os passageiros.
Por algum motivo, Serena achou a cena um tanto quanto pertinente, mas seu foco foi tirado de lá por alguém falando ao celular, logo atrás dela.
— Não adianta, mãe, ele morreu pra mim!
A voz viera de uma mulher de porte pequeno e delicado. Ela andava lá e cá com o aparelho celular grudado à orelha, os pés nervosos e calçados por converses quase tropeçando um no outro. Usava uma camiseta preta com a gola alta ao redor do pescoço e um macacão jeans sobre ela, carregando uma grande bolsa transversal branca. Porém, parecia estar levando poucas coisas ali dentro. Possuía uma pele negra bem cuidada e cabelos lisos e castanhos. Os olhos grandes pairavam agitados, e apesar de se tratar de uma adulta, os traços finos do rosto se tornavam ligeiramente infantis, com exceção da boca: grande, carnuda e de dentes alinhados.
— Vou ter que desligar agora, está bem? Já vou embarcar. Quando eu chegar, conversamos melhor. Seria incrível se me esperasse com aquela caneca quentinha de chocolate. — Terminou com um sorriso, encerrando a ligação e suspirando pesadamente.
Serena não pôde deixar de pensar que aquela jovem não conseguira esconder a aflição atrás do sorriso por muito tempo. Foi apenas um gesto sutil, mas perceptível para quem aprendeu a mascarar sentimentos na intenção de evitar julgamentos, como ela mesma fizera nos últimos meses.
De repente, um som alto e uma rajada de vento quente assustaram a policial. Ela virou o rosto num ímpeto, a tempo de encarar os vagões do trem passarem como vultos cinzentos na frente de seu rosto, a poucos centímetros. Recuou, sentindo o vento feroz empurrar sua madeixa loira para trás. Recuperada do susto, Serena enxergou uma movimentação mais adiante. Um rapaz estava caído no chão da plataforma, sendo amparado por um segurança da estação e por uma garota, que o ajudava a limpar a sujeira da vestimenta elegante que o sujeito trajava.
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No momento em que entraram no trem, a chuva do lado de fora começou a cair. Serena soube pelas gotas pesadas que batiam nas janelas embaçadas. Ela caminhou alguns metros, até encontrar um bom assento. Os bancos eram azul-escuro e ficavam dispostos um de frente para o outro, em grupos de quatro assentos. A loira escolheu um deles, na janela, e logo sentou, dando espaço para que Joey fizesse o mesmo. O rapaz despencou no banco ao lado e suspirou, pondo a mochila entre as pernas e segurando um folheto do evento que participaria.
— Eles terão demonstração ao vivo de efeitos visuais com sangue e vísceras! Isso não é demais? — Falava com a empolgação de uma criança.
Serena fez uma breve careta e quebrou o nojo em um sorriso de lado. Não sabia como alguém poderia ser tão aficionado por coisas mórbidas como ele, mas gostou de saber que o adolescente tinha algo para se apegar.
— Obrigado por me acompanhar, prima. Na verdade… — Joey pigarreou. — Obrigado por toda a ajuda. Sei que ainda está se acostumando com essa ideia maluca de aceitar um estranho morando na sua casa e tudo mais. — Abriu a sacola de lanches e retirou seu sanduíche e sua caixinha de suco, depositando o papelão no colo da policial.
Enquanto ela vasculhava o pacote, rebateu:
— Você não é mais um completo estranho, Joey.
Então, Serena olhou para a janela. A imensidão da noite cinza causada pelo temporal ia até onde seus olhos não poderiam alcançar. Via algumas luzes ao longo dos trilhos, a grama verde, as nuvens carregadas e a chuva escorregar de maneira incessante. Encostou sua mão no vidro frio, sentindo seus dedos enrijecerem, como uma onda de eletricidade percorrendo-os, e imediatamente afastou a mão.
De repente, duas pessoas se juntaram a eles, sentando nos bancos frontais. Um homem acompanhado de uma mulher. O primeiro teve mais dificuldade para acomodar-se e Serena logo percebera a bengala que ele usou para se apoiar. Ambos pareciam ter algum tipo de parentesco, visto que possuíam muitas semelhanças físicas. A loira notou também, que o recém-chegado possuía tags militares penduradas no pescoço, um pouco escondidas pela jaqueta vermelha, mas ela conseguia reconhecer detalhes como aquele.
Discretamente, ele lançou um olhar hostil para Joey, reconhecendo-o do esbarrão na lanchonete. A situação não poderia ficar mais intimidadora. Isso fez com que o rapaz encolhesse os ombros, incomodado. A partir daí, dedicou sua atenção total ao suco que segurava. Havia algo que deixava aqueles olhos repletos de frieza, de modo que não queria encará-los durante a viagem. Já Serena viu a mulher da frente cruzar as pernas e sacar um livro de dentro da bolsa. Só depois de aberto, foi que a policial pôde ler o que estava escrito na arte da capa: Assassinato no Expresso Oriente.
A ironia arrancou-lhe um arrepio imediato e Serena tentou não demonstrá-lo, a fim de espantar a sensação agourenta que sentira. Olhou para o lado, visualizando outras pessoas procurarem assentos, inclusive o executivo de terno. Ele sentou do outro lado do pequeno corredor e colocou a bolsa de viagem entre as pernas, puxando um tablet com fones de ouvido para si e correndo os olhos estreitos pelo visor. Era clara sua descendência oriental. Além da altura avantajada, o homem tinha uma postura engessada, como se quisesse impor respeito naturalmente. Os lábios finos ditavam uma leitura em voz baixa, chamando atenção para o rosto comprido. Além disso, seus cabelos pretos metodicamente penteados e brilhantes davam a ele um toque de vaidade.
Serena odiou-se por reparar em tantos detalhes e se convenceu de que aquelas características não a importavam. A última coisa em que prestou atenção, foi na presença da jovem mulher que falava ao telefone na estação. Ela sentou-se ao lado do executivo e fez uma careta aborrecida para a tela do próprio celular.
Em seguida, a policial ouviu o trem partir.
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Haviam se passado pouco mais de dois minutos desde que o transporte deixara a estação. Para Serena, o movimento sobre os trilhos e os vultos do lado de fora, causados pela velocidade do trem, lhe traziam certa sonolência, que também poderia ser decorrência dos medicamentos, ela sabia. Estava sem vontade de comer seu lanche e achava que Joey não se importaria de vê-la tirando um cochilo, afinal, já estava fazendo muito em acompanhá-lo. Por isso recostou levemente a cabeça contra o encosto do banco e fechou os olhos.
A poucos metros de onde o trem corria, inúmeras torres de energia e uma passarela de metal eram banhadas pela tempestade, enfeitando o percurso com suas luzes vermelhas inquietas sinalizando no meio do céu enevoado. Tamanha era a força do vento, que os fios sacudiam e atritavam uns nos outros freneticamente, ora emitindo estalos. Houve uma faísca perigosa entre os movimentos bruscos e depois de uma rajada de vento, o lado mais frágil do fio soltou-se da caixa de força que o conectava, soltando mais faíscas e indo de encontro da estrutura de ferro de sua própria torre.
Uma das bases da torre menor rangeu com o impacto do fio e a haste inferior que a sustentava retorceu com um som rasgado e estridente, sendo expelida na direção da plataforma de metal. No meio do caminho, acertou um dos postes de iluminação na lateral da passarela, assim como as barras que suportavam seu corredor, fazendo-o balançar vertiginosamente.
O poste sacou fora, o qual fora arremessado através da chuva, quicando para os trilhos. E com parte da estrutura que mantinha a torre menor de pé seriamente comprometida, a mesma não conseguiu se sustentar ao ser empurrada pela corrente de ar da tempestade, despencando. Sua estrutura de ferro deslocou-se, cortando o ar e atingindo furiosamente o meio da passarela.
O trem já estava perto o suficiente da plataforma que se curvava à sua frente e o condutor logo percebeu o que aconteceria adiante, tentando contatar a central, sem obter êxito. Porém, antes que pudesse apertar desesperado o botão de emergência para parar o veículo, as rodas do lado esquerdo do primeiro vagão passaram por cima do poste. O objeto que jazia entre os trilhos fora arrastado e explodiu em faíscas, levando consigo parte do mecanismo da roda. A grande calota saltou, sobrevoando a lataria do trem e quase atingindo uma janela, antes de desaparecer na noite escura.
Serena abriu os olhos no momento em que sentiu o solavanco e encarou sobressaltada a face confusa de Joey ao seu lado. Milésimos de segundos depois, o vagão sacudiu, um aviso prévio de que o transporte estava perdendo o controle.
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Todos os passageiros ficaram agitados, falando ao mesmo tempo e questionando o que poderia estar acontecendo, enquanto o assobio arranhado do freio era ouvido do lado de fora. Mas indo contra o que pensavam, o trem não estava parando e Serena podia sentir o piso estremecer abaixo dos seus pés. Alguns dos ocupantes do vagão ficaram impacientes e levantaram atordoados, as vozes sobrepostas para ver quem obtinha alguma resposta primeiro. Diante dos gestos, a policial também levantou, mas tomando precauções e segurando firme no banco onde o primo continuava sentado.
Em meio à tanta barulheira, um dos passageiros não aguentou e andou apressado pelo corredor, trombando contra o ombro de Serena. Ele seguia para a outra extremidade do vagão, onde encontraria a porta que levaria ao vagão seguinte. A policial então, acompanhou-o atenta com o olhar, até sua visão repousar no semblante preocupado de Seth. Seu colega de trabalho acabara de ficar de pé no corredor e provavelmente queria passar uma mensagem através do olhar.
As luzes da cabine oscilaram.
Serena respirou fundo e elevou um pouco o tom da voz para que todos pudessem ouvi-la dizer:
— Pessoal, devemos manter a calma, tudo bem? — Ela estendeu um dos braços, um movimento característico de quem estava negociando. — A situação pede que sejamos cautelosos e evitemos agir por desespero. Voltem aos seus assentos e segurem-se. Logo, tudo vai normali-
A autoridade da lei não conseguiu terminar suas instruções, pois o vagão sacudiu novamente, desta vez acompanhado de um estrondo mil vezes maior e do grito de desespero das pessoas. Serena foi obrigada a olhar pela janela, vendo um clarão dianteiro e os dois vagões antecessores fazerem uma manobra brusca para fora dos trilhos. As caixas de ferro descarrilaram e viraram sobre o que parecia ser uma estrutura metálica. Várias pessoas dentro daqueles vagões despejaram gritos de dor e algumas foram arremessadas violentamente para fora, sumindo na névoa.
A parte frontal do trem havia acabado de colidir com a passarela que obstruiu a via e dois de seus vagões agora jaziam retorcidos sobre os corpos sem vida jogados às margens da linha férrea. De repente, a explosão do terceiro vagão estourou os vidros e arrancou parte da lataria, abrindo um buraco na cabine que ainda arrastava à todo vapor os metais da passarela. O buraco tragou Seth, que não teve tempo de agarrar-se a algo, e os passageiros mais próximos.
— Não! — Serena berrou, arregalando os olhos ao encarar o corpo do parceiro de ronda se chocar contra os escombros, tendo todos os ossos quebrados no impacto.
Mesmo paralisada, ela precisava pensar em uma saída que fosse rápida e eficaz para não ser a próxima. O vento continuava soprando com força para dentro da cabine, de modo que Serena puxou Joey pela camisa e sinalizou para os fundos do vagão.
— Vem, por aqui! — Ordenou para o jovem desorientado assentindo no seu encalço.
As duas pessoas que estavam sentadas na sua frente levantaram, mas o homem teve dificuldade e caiu de volta no assento, sentindo as costas doerem com a pancada. Sua bengala escorregou pelo piso, perdendo-se entre os assentos.
— Eu não consigo! — Ele murmurou, rangendo os dentes, mas a mulher que o acompanhava e que já estava de pé, tratou de ajudá-lo.
Joey parou e olhou por cima dos ombros.
— Nós temos que ajudá-los.
No pouco tempo que tinha para escapar, Serena teve que pesar suas mínimas decisões. Assim como Joey, aquele casal parecia ter muito a perder, de modo que assentiu, voltando até o lugar. A policial estendeu a mão para que assim, eles pudessem ter um apoio. O homem prontamente agradeceu e recobrou o equilíbrio, mancando para os fundos do vagão com a ajuda do adolescente. Mas a mulher bronzeada não conseguiu, já que bastou um solavanco para que tombasse fora da cabine.
Um som crocante e molhado fora ouvido ao longe.
— Veronica! — O homem de tag militar gritou de onde estava, mantendo a boca aberta banhada em torpor, enquanto seus lábios tremiam.
— Vamos! — Serena tomou a frente do grupo e percebeu que outros passageiros também haviam pensando no mesmo que ela e estavam se deslocando para a porta.
Entre eles, avistou o ruivo e a idosa. Ele segurava no braço da senhora, como se tentasse guiá-la para fora do pesadelo. Na frente dos dois, o executivo engravatado se destacava pela altura, empurrando algumas pessoas sobre os bancos e abrindo caminho entre elas, mas o número de desesperados amontoados no mesmo lugar atrapalhava sua tarefa. Alguém abriu a porta num rompante e os que estavam mais próximos do vão caíram uns em cima dos outros, os demais espremendo-se na abertura da porta.
O executivo saltou os que tentavam levantar e a mulher de ataduras no rosto, com quem Serena falara no banheiro da estação, fez o mesmo. Logo depois, outra explosão aconteceu e todo o vagão inclinou para um lado, ensurdecendo a todos com um rangido estridente. O movimento repentino jogou a maioria dos passageiros para as laterais, incluindo o ruivo, que bateu o rosto na poltrona, mas conseguiu se segurar no último segundo.
Porém, as bagagens começaram a despencar dos suportes na parte superior, atingindo diretamente a senhora de idade, que gemeu e rolou sobre os bancos. Serena ainda tentou alcançá-la, agarrando na barra de sua saia, mas era tarde demais. No fim da fileira de bancos, a parede. A idosa foi de encontro com o obstáculo, onde bateu de mau jeito, quebrando o pescoço e sendo silenciada.
— Serena, o vagão vai virar! — Joey berrou, segurando a porta para que a prima passasse.
A policial despertou dos pensamentos, ultrapassando a saída e ficando no vão entre as duas cabines, mas ainda não tinha como respirar aliviada. O trem continuava arrastando todos os escombros que ficavam no caminho, seus mecanismos inferiores gritando pelos trilhos. Ela viu quando o ruivo saltou para o vão a tempo de evitar que seu corpo tombasse junto do vagão. A caixa de ferro virou completamente para o lado, fazendo um barulho infernal em sua estrutura e com que mais pessoas fossem esmagadas no processo.
Serena conseguiu ver parte do céu chuvoso e das luzes vermelhas sucumbidas pelas chamas, que crepitavam ao redor, devorando as latarias torcidas. Ao seu lado, a mulher que falava ao celular na estação sentou no canto, chorando copiosamente. Só então, notara sua presença ali. O militar e o executivo tentavam abrir a porta de acesso ao outro vagão, mas parecia emperrada, enquanto a mulher de ataduras permanecia escorada na parede com sua expressão paralisada de medo.
— Vamos morrer aqui… — A mulher negra sentada disparou, as bochechas ensopadas de lágrimas.
— Abram a porta! — Ordenou o ruivo em seu olhar paranoico. — Abram a porta!
— Estamos tentando, não está vendo? — Respondeu o executivo, suando debaixo do terno, dando cotoveladas no mecanismo automático.
Do outro lado, a porta abriu e revelou o rosto apavorado de dois passageiros: o casal mais jovem e elegante. A garota deu um gritinho de pavor com o balanço que o vagão deu, enquanto o rapaz que parecia ser seu namorado, começou a puxar todos para dentro da sua cabine. Primeiro o engravatado, depois a jovem que chorava, Joey e o militar. A mulher de ataduras deu passos imprecisos para trás, atônita, e seus cabelos mexeram-se confusos com o vento.
— Cuidado! — O ruivo avisou, mas então a ponta do piso do vão ruiu quando bateu em um escombro, puxando-a para baixo.
Seu corpo bateu rápido contra os trilhos e a roda pesada do vagão passou brutalmente por cima de seu dorso, esmagando sua coluna e deixando-a como uma confusão vermelha de órgãos e membros disformes. Um jato de sangue tingiu o rosto do ruivo, que recuou horrorizado. Seu estômago embrulhou e ele vomitou em seguida.
De repente, a borda quebrada reclinou-se e o homem deslizou pelo piso. Ele bateu os braços, procurando algo em que pudesse se apoiar no curto espaço de tempo, sentindo o sapato surrado tocar o chão repleto de pedregulhos que passava com velocidade abaixo de si. Olhou para cima e notou que Serena o segurou no último instante, evitando que tivesse um fim parecido com o da moça.
— Por favor, me ajuda! — Ele pediu, os olhos fundos e marejados suplicando.
— Eu não vou soltar, mas você vai precisar subir agora.
O barbudo ergueu uma perna, mas não teve forças e o piso embaixo dele cedeu completamente com seu esforço. Mesmo que tenha percebido o que acontecia, Serena não teve coragem de soltá-lo. Ela iria até o fim, de modo que apenas observou os membros inferiores do ruivo descerem no meio dos trilhos. Primeiro ele guinchou, sentindo seus pés torcerem ao encontrarem as pedras, enquanto o tecido da calça era praticamente triturado; suas pernas esfoladas exibiam as cartilagens, até as ligações serem rompidas e a parte inferior do corpo desaparecer embaixo do transporte.
Só então, após cair em si, Serena soltou os braços e finalmente, a parte de cima também caiu. Estarrecida com a cena, engatinhou com cuidado de volta para a cabine e recebeu o amparo de Joey. A policial fitou cada rosto apreensivo do local, havia menos gente ali. Parecia que vomitaria seu coração.
No exato momento, um vulto do lado de fora, visto através da janela embaçada, chamou sua atenção.
— Afastem-se das janelas! — O rapaz que segurava na mão da namorada bradou.
Serena puxou o primo e os dois abaixaram no piso junto da mulher que chorava. O executivo oriental, inclinado próximo do vidro, congelou a face de medo quando percebeu o objeto vindo na sua direção. Ouviram um zunido e um grande cano de metal da passarela adentrou a cabine pela janela, girando. O vidro foi estilhaçado e o cano afundou o crânio do engravatado, manchando seu terno do líquido rubro que jorrou. Um dos olhos foi arrancado e caiu no colo da garota de vestido elegante, que soltou um berro histérico.
— Não há mais nada a fazer. — Disse a passageira jogada ao chão.
— O próximo vagão é o último, podemos pular. — O jovem com tags militares, que até então mantinha mantinha-se abaixado em seu assento, manifestou sua ideia.
— Você enlouqueceu? É morte na certa! — A garota bem vestida replicou, chocada.
Ele não se daria por vencido, muito menos morreria sem tentar. Então, levantou do banco e seguiu para a porta que lhe levaria até o último vagão.
— Vocês vem ou não?
Serena e Joey enviaram olhares incertos, mas fizeram o que seus resquícios de sanidade pediam, correndo para perto da porta. A moça levantou do chão e sentindo as pernas bambas, alcançou o trio. O casal demorou a se decidir e uma explosão clareou a cabine, assustando-os.
— Rápido, porra! — O militar ordenou, abrindo a porta do vão.
Eles entreolharam-se uma última vez, antes de algo pesado atingir a lateral do vagão, arremessando-o dos trilhos. O transporte descarrilou completamente e todos voaram dentro da cabine. O corpo magro de Joey bateu contra a garota de vestido e os dois se chocaram no final da cabine, ossos estalando. Serena presenciou tudo acontecer em questão de segundos. Pela sombra além das janelas, avistou uma torre cair sobre a condução, amassando o teto daquele lado. O teto rebaixou até chegar no piso, esmagando por inteiro os adolescentes.
A última coisa que a policial enxergou, foi o braço de Joey dar seu espasmo final embaixo da lataria.
— Meu Deus! — Abafou o grito com a mão. Ao seu lado, a mulher negra continuava chorando, assim como o namorado da garota morta encarava a cena com seus olhos arregalados, sem dizer nada.
Ambos foram despertados do horror pelo militar, que os puxou de volta à realidade caótica. Serena limpou a lágrima caindo solene e observou o homem abrir a porta, dando de cara com um vão molhado. O teto havia sido arrancado e a chuva incessante banhava seu piso. Pela fresta, poderiam ver os pingos se confundirem na neblina avermelhada pelas luzes confusas girando do lado de fora, enquanto o vagão chacoalhava sem rumo. O homem de jaqueta precisou redobrar o cuidado para passar e estendeu a mão para à mulher negra de macacão.
Porém, outro vagão desgovernado surgiu, atropelando sem piedade aquela área do vão. O corpo do militar explodiu em pedaços como um balão vermelho, jogando sangue para todos os lados, enquanto era levado pela lataria. A outra passageira recuou de súbito, sentindo o manto de sangue e vísceras cobrí-la e o ar quente bagunçar seus cabelos.
Ela virou o rosto ensanguentado por um minuto e encarou Serena, que segurava o quanto podia nos bancos. A noite atrás da mulher parecia quase engoli-la, de modo que os vultos causados pelos escombros da torre ainda enfeitavam a cena. Serena entendeu o semblante de desistência e apenas acenou positivamente, de modo a fazê-la acreditar que estava tudo bem. Você também pode desistir de lutar se quiser...
O vagão encontrou um novo obstáculo e rodopiou no próprio eixo, a gravidade puxando o corpo de Serena e do rapaz negro ao seu lado para a extremidade oposta da cabine. Os dois seguraram fortemente nos assentos, enquanto os fundos do vagão atingiam os escombros da torre. A mulher de macacão continuou de pé onde estava e sequer viu o exato momento em que hastes retorcidas atravessaram seu corpo em três partes diferentes: a primeira em seu abdômen, a segunda em seu ombro e a terceira no seu pescoço.
Ela cuspiu algum sangue e seu corpo tombou pra frente com um baque.
— O que faremos agora? — Perguntou o jovem.
Serena não disse nada. Agarrou seu braço e o puxou ao longo do corredor. O jovem olhou para trás, a tempo de ver uma bola de fogo surgir, um som ensurdecedor que ficaria grudado na sua memória para sempre, consumindo tudo que via pela frente. Podia sentir o calor chegando, tudo derretendo ao redor. Então, a policial saltou o corpo desfalecido da mulher no piso e pulou para fora da cabine pela abertura.
A bola de fogo passou a centímetros dela, mas não teve o mesmo efeito sobre o rapaz. Foi embalado pelas labaredas, que primeiro fizeram cócegas em seu couro cabeludo, lambendo suas costas em seguida e culminado no resto do seu corpo. Ele tombou na linha férrea, mas Serena havia caído do outro lado de uma pilha de corpos e detritos, impossibilitada de ajudá-lo. Ouviu apenas seu guincho, enquanto sua carcaça enegrecida fedia a carne queimada.
— SOCORRO!
A última passageira encarou a noite com um aperto no peito, os olhos vermelhos e o rosto sujo. Naquele ponto, não parava de chorar, engasgando na própria saliva. A sensação era de que o mundo havia acabado e ver toda aquela trilha de destruição lhe tirou todas as esperanças que ainda lhe restavam.
Isso não pode estar acontecendo! Deve ser apenas um pesadelo… Acorde Serena! Acorde!
De repente, uma rajada fria a fez virar o rosto confuso. E vindo direto na sua direção, o último vagão descarrilado.
Ela tentou arrastar-se, mas seu tornozelo havia quebrado e uma dor lancinante a fez gritar quando se mexeu. Não havia escapatória. Serena respirou fundo, então preferiu olhar para cima, manter sua visão na imensidão cinzenta e chuvosa do céu, os pingos caindo sobre sua expressão trêmula.
Até sentir seu corpo se desfazer com um único impacto.
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