Premonição: Congelados
1 Alcateia
Notas iniciais
It’s too late
But tomorrow has to wait
It’s the time of your life
So tomorrow has to wait
Tonight’s the night
And tomorrow is a million miles away
Saint Paul, Minnesota
— Hoje o lugar está cheio. – Disse Melissa Hoven quando entrou na extensão Howclover Ice Space, que ficava há um estacionamento de distância de um pequeno shopping. O próprio centro comercial não enchia como a pista de patinação, apesar de estarem no mesmo domínio. Era evidente que o shopping ainda se mantinha de pé apenas pelo seu apêndice Ice Space, o qual atraía um grande público todos os finais de semana.
— Está sempre lotado, amor. – Jacob Townsend (ou apenas Jake) comentou com a namorada. De mãos dadas, eles desviavam das pessoas que não se incomodavam em parar no meio do caminho para conversar ou cumprimentar algum conhecido. – Hoje só está mais cheio por estarmos aqui.
— A bendita lei de Murphy contra nós de novo. – Christopher Swanby se lembrou de todas as vezes que acontecia algo parecido. Se algo pode dar errado, dará. Costumava lembrar e repetir o adágio como se estivesse pregando algum preceito místico.
Os três amigos combinaram de se encontrar com o resto do seu grupo em frente à bilheteria. A pista Howclover se mostrava gigantesca por dentro, diferente do que transparecia quando vista por fora. Ficava numa área coberta, no térreo. Pelo teto, extensas lâmpadas tabulares iluminavam os espaços onde as pessoas circulavam apinhadas umas nas outras – ou se acomodando em arquibancadas –, distintivamente do espaço superior e interior do campo de gelo, onde as luzes led coloridas acendiam e apagavam ao ritmo da música alta.
Jake passou o braço ao redor dos ombros de Melissa para que as pessoas não pudessem os separar com empurrões, tropeços e encontrões. E, se mantendo perto, Chris sacou o telefone para contatar os outros amigos.
— Chris! – Gritou Brandie do outro lado da linha.
— Fala garota! Onde vocês estão? – Disse ele percorrendo olhos atentos por entre a multidão. Para por um instante quando duas garotinhas passam correndo vestindo fantasias de fadas e sacudindo varetas com estrelas de plástico nas pontas. Logo depois, passou um homem com duas casquinhas de sorvete derretendo em suas mãos tentando manter o ritmo das meninas.
— Já te achei. – Ela gritou ainda mais alto para que sua voz sobressaísse à música. – Tá me vendo? Perto do bebedouro. Nos bancos de madeira.
— Eles estão perto do bebedouro. – Chris passou a informação para Jake e Melissa, supondo que o resto dos amigos estivesse junto dela. – Não tô vendo. – Ele voltou a falar com Brandie ao telefone.
Melissa não via a amiga, nem ninguém conhecido. Passava os olhos pelas pessoas, vendo apenas borrões anônimos e sorrisos persuasivos.
— Estão ali, já os vi. – Apontou Jake. – Vamos. – Sua altura lhe era conveniente grande partes das vezes. Fazia seus amigos (ou qualquer pessoa) se sentirem mais baixos que o normal. Com um metro e noventa e dois de altura, sempre atraia olhares e, às vezes, alguns sussurros. Sabia que era a característica dele que mais chamava atenção, sendo muitas vezes reconhecido como “o grandão do grupo”.
Jake, Melissa e Chris ziguezagueiam entre as figuras itinerantes – agora denominadas “obstáculos humanos” – até chegarem à Brandie Scheer. A garota de pele morena clara, olhos azuis brilhantes e sempre com um sorriso largo no rosto, os recebe com agitação. Ela gritava com o telefone na mão direita e sacudia a esquerda com ânimo. Seu jeito moleca e inexpugnável reflete através das roupas tingidas e cabelo em tranças nagô.
— Como vão? – Brandie lança um abraço apertado em cada um. Ela sacode os braços para os lados, enfeitados com várias pulseiras turquesa. Saltita entre os três amigos para cumprimentá-los e ensoa suas frases com a delicadeza de um hipopótamo. – Demoraram demais vocês.
— Culpa do Sr. Perdi a Hora de Novo. – Jake da um soco de leve no ombro do amigo sorrindo. Chris mantinha intacto seu compromisso de nunca chegar na hora. Mesmo que isso lhe custasse um sermão (ou dois) e uma leve ameaça do tipo “dá próxima vez, não te chamamos”, ele abraçava sua fiel palavra de que “dessa vez eu vou estar pronto na hora”, então repetindo o ritual. “Não foi por mal”, ele sempre se defendia. Entretanto, no fundo, sabia que seus amigos nunca o deixariam de lado.
— Por que você deixa tudo pra cima da hora? – Brandie ri da displicência do amigo. Não foi a primeira vez que Chris teve esse desleixo com o horário, e com certeza não será a última. Tanto Jake e Brandie, quanto o resto de seu grupo, sabiam que qualquer planejamento que se faça entre eles, uma hora de antecedência era crucial.
— Eu que dei carona para esses dois. – Chris aponta para o casal Jake e Melissa. – Vocês deviam me agradecer por chegarem aqui. Seu carro tá parado na garagem há meses por não saber dirigir e bater em todo mundo.
— Eu tava parado e o cara veio para cima de mim. Não tenho culpa – Jake se defende.
Todos riem por um instante.
— Sabem aqueles potes que pessoas colocam um dólar sempre que falam algum palavrão no trabalho ou quando nossos pais fazem quando somos crianças? – Atrás de Brandie surge Josh de mãos dadas com a namorada, Diana. Ao lado deles, uma garota de pele escura, baixa estatura e com longos cabelos castanhos (ligeiramente ondulados que pendiam-lhe os ombros), Sierra Shawn. Os três se aproximaram enquanto Josh continuava sua manifestação. – Devíamos fazer isso com o Chris. Para cada minuto atrasado, ele coloca uma nota no nosso bolso.
Chris cruza os braços e tenta disfarçar um sorriso da piada.
— Nem é pra tanto. Doze minutos nem chega a ser atraso.
Joshua Burnell levanta a mão no ar para bater na palma de Jake e Chris. Um jogador de futebol amador nas suas horas vagas, com um topete texturizado milimetricamente preparado e sempre usando a mesma jaqueta verde escura de poliéster. Pelo interior da camiseta branca e da jaqueta, os músculos de Josh se avantajam, o que para muitos serve como uma primeira impressão equivocada. Julgava-se com uma “aparência bruta” quando suas feições e corpo estão em repouso; maxilar quadrado, sobrancelhas espessas, olhos fundos, nariz romano, lábios grossos, músculos tesos e tom de voz maciça. Sua namorada disse-lhe uma vez “por fora parece um troll, mas tem uma alma doce como gelatina”, seguido por vários beijos e elogios.
Diana Arnold soltou a mão do namorado pra falar com os amigos. Um beijinho singelo no canto da bochecha de cada pessoa, assim que ela costumava cumprimentar. Lábios finos, nariz levemente arrebitado, olhos cândidos e cabelos dourados, ela exibia uma aparência angelical. Feições meigas e traços de uma menina adolescente, Diana não aparentava ter seus vinte e dois anos de idade.
— Aqui. – Disse Josh erguendo as entradas para Jake, Melissa e Chris. – Comprei já a de vocês. Quando a gente chegou, a fila não estava tão grande então já matamos essa parte. – Ele se vira para onde pessoas compravam seus bilhetes, agora com uma fila tão extensa que os seus olhos conseguiam acompanhar.
— Valeu. – Agradeceram.
— Nada de “valeu”. Podem passar a grana pra reembolso. – Eles riem. Talvez Josh falasse sério, talvez não. De qualquer forma, ele parecia não se importar muito com isso nesse momento.
Melissa deu um rodopio e agarrou a mão de Brandie.
— E a Marcie? Ela não veio?
— Ah, a Marcie está no banheiro. – Respondeu olhando em volta. – Ela já devia ter voltado.
Não demorou muito e Marcie já estava com o resto do grupo. Um pouco tímida, ela se juntou à irmã Brandie. Ambas têm aparências muito distintas. Brandie possui a pele mais morena – apesar de não ser tão escura –, cabelos escuros e estatura mais baixa. Já Marcie retrata uma pele pálida, tem cabelos loiros e é um pouco mais alta. Isso se dava ao fato de Marcie ter sido adotada com quatro anos de idade.
Brandie nunca chegou a conhecer a irmã antes de começar a morar com ela, apesar de seus pais contarem que a família de Marcie morava a três casas de distância. A primeira vez que falaram uma com a outra foi no dia que os pais de Marcie a deixaram na residência dos Scheer. Pediram que tomassem conta da menina enquanto estariam num evento patrocinado pela empresa que trabalhavam. Eles se despediram da filha com um beijo na testa e um forte abraço. “Comporte-se” foi a última coisa que ouviu de seu pai antes de vê-lo partir em seu carro. Mais tarde, naquela noite, a Sra. Scheer recebeu uma ligação com a notícia que seus amigos sofreram um acidente na volta da festa. “Foi a ligação mais fria que já recebi”, disse a Sra. Scheer explicando que, na realidade, o real interesse da pessoa no outro lado era saber se a filha do casal estava em sua residência. Então se desatou em descrever como ocorreu o acidente de carro e como a mãe de Marcie ficou perguntando da filha durante o caminho até o hospital, até morrer numa cirurgia de emergência.
Apesar de ter conhecimento dessa história, Marcie não se lembra de nada. Era muito nova para ter consciência de tudo que ocorreu naquela noite. Lembra-se de toda a emoção, sentimento e angústia, mas nenhuma cena lhe vinha à mente – muito menos da Sra. Scheer dando-lhe a má notícia. Mas, no fundo, sente-se aliviada por não lembrar.
Diferente da irmã, Marcie não é tão acessível, extrovertida ou expansiva. Mantém seu humor fechado, suas respostas irônicas e sua casca grossa. Não gosta de se aproximar e não gosta que se aproximem. Mas isso não era um enigma para Brandie, que com seu jeito lépido de levar a vida, permanece ao lado da irmã; não importa o quanto Marcie a tente afastar ou embarreirar, ela está sempre tentando quebrar seus bloqueios. Ela sabia que a irmã não era verdadeiramente assim, depois que foi adotada, Marcie era a pessoa mais efusiva da casa. Arrumava as cadeiras da cozinha em fileiras e simulava uma professora dando bronca em todos os alunos invisíveis. Desenhava campos verdes, céu azul e pipas voando em papeis em branco. Remendava cestas de frutas com os prendedores de cabelo de Brandie, fazia todos rirem como se nenhum acidente tivesse acontecido. A pequena raio de sol, como dizia o Sr. Scheer. Entretanto, durante todo esse tempo, Marcie guardava uma angustia dentro de si, um vazio que, por mais que tentasse, ela nunca conseguiria entender ou preencher. Ela confessou para Brandie no dia que fizera dezessete anos que, simplesmente, desistiu. A irmã viu uma mudança grande na personalidade de Marcie depois disso, mas sempre que tentava voltar no assunto, recebia de volta uma patada.
— Podemos entrar agora? – Marcie atira colocando a mão sobre o ombro da irmã.
— Podemos. – Brandie respondeu. – Estamos todos aqui, não é? – Ela olhou em volta para conferir involuntariamente. Todos se dirigiram para um portão cinza baixo, que só servia para separar a área de preparo para entrar na pista de patinação da área livre que todas as demais pessoas podem circular (geralmente acompanhantes ou pais que observam seus filhos).
— Oi Marcie. – Melissa gesticulou com a mão e abriu um sorriso.
Jake e Chris acenaram com a cabeça. Ela não respondeu a nenhum dos três.
Marcie não fazia parte desse grupo desses amigos. Todos a conheciam por causa de Brandie, mas ela nunca se preocupou em tentar se inserir ou se encaixar. Depois de vários convites incessantes da irmã, ela decidiu dar uma chance à noite na Pista Howclover, uma vez que nunca tinha patinado na vida.
Diana pulou nas costas de Sierra com um abraço.
— Ainda bem que você veio. Isso aqui não é a mesma coisa sem você. – Diana disse a amiga.
— Não vou mentir e dizer que não pensei duas vezes. – Sierra tenta fazer uma careta de arrependimento, mas sem sucesso. – Na verdade, eu pensei umas cinquenta vezes.
— Mas você está aqui. – Diana dá um sorriso como se tivesse comemorando uma vitória.
— Nem que eu tivesse que pensar mil. Não aguentava mais olhar para nenhum livro hoje.
Sierra Shawn não teve que se forçar muito a optar pela diversão nessa noite. Sempre com uma resposta pronta e um livro na cabeceira da cama, ela visualizava um futuro brilhante. Gostava das coisas no seu jeito e se precisasse discutir para isso, assim seria. Sierra gosta de fazer e seguir seus próprios planos, trilhar o próprio caminho. Com o objetivo de ser uma advogada de prestigio, passava mais tempo dentro da faculdade e do seu quarto do que em qualquer outro lugar. Um livro na mão era mais fundamental do que um tablet, uma direção era mais crucial do que um caminho, uma opinião era mais importante do que um comentário desperdiçado.
Todos eles andaram por um curto caminho, que pareceu maior do que realmente é devido a suspensão temporária de passos feita pelas pessoas que ambulavam por ali. Passaram por uma grande estante com troféus, medalhas e fotos. No centro de uma prateleira, mais acima da estante se encontrava o maior troféu e provavelmente o mais pesado. Ao lado, a foto do ganhador de um campeonato que ocorreu naquela pista de patinação. Não havia muitos prêmios, mas também não eram poucos. Chegaram então ao portão cinza. Passaram as entradas para um rapaz de touca preta – cujo crachá dizia Doug—, que as rasgou ao meio e devolveu uma das metades.
Eles são encaminhados para uma área com carpete verde, onde trocariam seus sapatos pelos patins. De todo o lugar, essa parecia a área mais vazia. Vários bancos com tintas descascadas estavam posicionados como em uma sala de embarque de um aeroporto. Reentrâncias em tamanhos retangulares se estiravam por dentro de uma das paredes, formando nichos com várias mini placas numeradas para que os sapatos fossem guardados. A maioria dos compartimentos já estava ocupada pelos patinadores na pista.
Surgindo por trás dessas zotecas, uma imensa pintura crescia por toda a parede e se estendia pelas paredes interiores do campo de gelo. A figura começava com uma tempestade de neve sobre uma floresta coberta por seus flocos, dando, então, protagonismo a uma alcateia férvida – que, por sua vez, estavam correndo em direção à um rio congelado. Sendo esse rio, uma união da imagem exibida na parede com o gelo de dentro do campo.
Uma mulher alta, de pele parda, cabelos cor de mel e olhos castanhos precisamente maquiados, passa carregando três caixas de sapatos empilhadas nos braços.
— Oi Jasmine. – Melissa chamou.
— Mel! – Jasmine ficou surpresa com a presença da amiga. Ela tentou acenar de volta quase deixando as caixas caírem.
— Ela está trabalhando hoje? – Jake pergunta a namorada.
— Jas trabalha todo final de semana aqui, amor. – Esclareceu, tocando a pele macia e imberbe do queixo de seu namorado.
A mulher entrega as caixas para três pessoas sentadas na parte esquerda dos bancos, que tiravam seus patins e entregavam para outro funcionário. Aparentemente eles já estavam de saída.
Jasmine Martinez correu até Melissa para lhe abraçar, cumprimentando Jake em seguida. Melissa era a única amiga de Jasmine ali, por terem cursado a mesma faculdade juntas antes de Jasmine deixar a graduação. Seus olhos perfeitamente desenhados, sua pele morena e suas maçãs do rosto ressaídas mostravam sua herança latina.
— Jas, esses são os meus amigos. Ela é a Brandie, aquele é o Chris, eles dois são Diana e Josh e elas são Sierra e Marcie. – Ela dita o nome de cada um com uma apontada singela.
— Oi gente. – Jasmine acenou com um sorriso simpático para eles. – Vão patinar hoje? Tá entupido lá dentro.
— A gente viu do lado de fora. – Josh disse. – Patinar com uma porrada de gente vai ser tipo uma corrida com obstáculos.
— É sério, agora pouco passamos o limpa-gelo na pista porque estava foda. Muita gente estava caindo e tropeçando. São as laminas dos patins. Como são muitos patins ao mesmo tempo, então o gelo vai ficando lameloso.
— As pessoas deviam ficar em casa assistindo Netflix e relaxando. – Chris quis zoar a situação.
— Então por que você não vai pra casa assistir Netflix e relaxar? – Josh rebatou.
Chris riu.
— É por que eu não tenho ninguém para fazer isso, Josh.
— Precisa de alguém para Netflix e relaxar, gente? – Diana indagou não entendendo a piada.
— Amiga, você não sabe o que isso significa? – Sierra abre um sorriso malicioso.
A loira olha em volta e nota todos a observando, percebendo que perdeu a mensagem.
— Acho que não significa assistir Netflix e nem relaxar, né?
Todos caem na risada e Diana fica vermelha escondendo o rosto entre as mãos.
Doug – o rapaz do portão – aparece ao lado de Jasmine.
— Jasmine já pegou o número de vocês? – Se referindo ao número dos calçados.
— Eu já ia perguntar. – Ela se defendeu, ela levanta uma das mãos como se estivesse prestes a fazer uma pergunta.
Cada um diz o seu número de calçado como uma chamada no final de cada aula. Doug e Jasmine entram por uma porta ao lado dos nichos e desaparecem.
Chris, Josh e Diana seguem até a beirada da pista de patinação. A visão deles se estende somente pelo gelo e pelos patins deslizando, já que para chegar até lá, é preciso subir uma escada com sete degraus. Diana não conseguia ver muito bem, apenas com pulinhos.
Arquibancadas com oito extensos bancos se dispunham em algumas partes ao redor do lado de fora da pista. Alguns pais observavam seus filhos, avós aplaudiam os netos e crianças menores – sem idade para entrar – gritavam o nome de seus irmãos mais velhos. Outras pessoas que simplesmente passavam ali para assistir enquanto bebericavam refrigerantes ou petiscavam um saco de batata frita.
— Da última vez que eu estive aqui, tocou Take It Off. – Disse Diana se lembrando que durante essa música, todas as luzes se apagaram e apenas as em neon vermelho e azul piscavam, se assemelhando a uma boate. Sob a música e as luzes, Diana foi empurrada com força, escorregando pelo gelo. A loira se levantou vociferando vários xingamentos a pessoa, mandando ela para tudo quanto é lugar, mas de nada adiantou, pois seja lá quem for que a empurrou, não a ouviria.
— Lembra da última vez que esteve aqui? – Chris quis saber.
— Aham. Tem anos, mas eu me lembro bem. Um idiota me empurrou com força. Quase que empurrei outra pessoa que tava na minha frente. – Respondeu ela arrumando a franja loira que enfeitava os seus profundos olhos marrons. – Tipo, eu sei que foi sem querer, mas o que custa ter cuidado?
Chris assentiu com a cabeça e Josh a beijou no rosto.
— Se eu estivesse com você, ele nem ia saber o que o atingiria de volta.
Diana fez um biquinho de desgosto. Detestava quando Josh dizia que responderia agressivamente a alguém por sua causa. Sentia-se insegura e, ao mesmo tempo, como se tivesse um guarda-costas a tiracolo.
— Acham que eu tenho chance com aquela garota latina? – Chris perguntou ao casal.
— Não. Com certeza não. – Josh riu.
— A Melissa tem mais chance com ela do que você. – Acrescenta a namorada.
Chris faz um muxoxo.
— Não se ofenda. É que ela nem olhou pra você. – Josh esclarece.
— Acham que ela ficaria comigo? – Chris insiste num apoio, que chega a ser cômico aos olhos dos amigos.
Nem Josh, nem Diana respondem de imediato.
— Hum, eer... – Josh começa, mas Diana o interrompe.
— Acho que ficaria. Mas comece primeiro a não chama-la de “aquela garota latina”. – Ela diz, ri, da um tapinha no ombro dele e se junta a Sierra que havia se sentado num banco.
— Mano, qual era o nome dela? – Chris morde o lábio quando pergunta ao Josh.
— Jasmine, cara! Nome de garota bonita a gente aprende rápido. – Josh aponta pra Diana. – Desde a primeira vez que ela me disse o nome, nunca mais esqueci.
— E olha pra você hoje. Comprometido. – Chris debocha. – Quem diria que meu mano iria se apaixonar?
— Minha irmã dizia. – Josh falou pra ser engraçado. – Ela ainda diz, mas ela mesma não acredita no que fala, então... – Josh dá de ombros, fazendo Chris rir.
☠
— Me fala. – Diana se senta ao lado de Sierra e olha em volta para checar se tinha mais alguém muito perto. – Você tava estudando pra essa prova há semanas. Como foi hoje?
Sierra faz uma careta.
— Ai meu Deus! Você bombou? – Diana levou a mão à boca.
— Não sei, garota! Não fala assim. – Sierra deu um tapinha de leve na mão de Diana. – Vou saber semana que vem.
— Fica calma, uma nota não define o que você sabe.
— Define na faculdade! – A preocupação exalava nas palavras de Sierra. – Tô ferrada, Diana.
— Faz o seguinte. Não se preocupe essa noite. A gente veio se divertir, por favor. Não pensa nisso.
— Eu tô bem, meu mundo não vai desabar. – Disse ela passando as mãos pelas coxas, nitidamente não acreditava no que dizia.
— Tem certeza? Porque parece exatamente o tipo de situação que faria seu mundo desabar. – Diana sorri para tentar animar a amiga.
— Do que você tá rindo? – Sierra ri de volta e dá um empurrãozinho em Diana. – Depois de semanas estudando para uma prova que eu não faço ideia de como fui, a melhor maneira é...
— Se divertir com os amigos. Exatamente. – Diana termina a frase.
— Eu ia dizer “encher a cara”, mas andar sobre lâminas pelo gelo com música alta na cabeça e muita gente em volta tentando te atrapalhar parece ser a mesma coisa. – Ela faz uma pausa. – Mas, mudado de assunto, quando vocês para o hotel?
— Josh fez as reservas pra semana que vem. Vamos ficar três dias, só nós dois. – Diana sorri como uma garotinha. Suas maçãs do rosto se avolumam quando pensa nos planos que fez com Josh.
— Fico feliz por você, menina!
— Obrigada. – Diana faz beicinho.
— E qual é a desse hotel? Podem ficar sozinhos em casa.
— Ah, é diferente. Em casa tem muitas complicações. Meus pais são muitos chatos com ele. E a família do Josh é muito grande, tem os irmãos pequenos dele... Enfim, no hotel Cahrman vamos ficar sossegados. Acho que a gente merece um pouco disso. – Ela faz uma pausa e solta – Acho que eu mereço um pouco disso.
— Como assim? – Sierra estranha o tom da amiga.
Diana olha para os lados e depois para Josh conversando com Chris perto da pista de patinação. Os observa por três segundos e volta a encarar Sierra.
— Acho que o Josh tá me traindo. – Diana fala baixo.
— O que? – Sierra grita e Diana faz um movimento para ela abaixar a voz. – Como assim, menina? Ele é super apaixonado por você.
— Pode até ser, mas sexo não tem nada a ver com sentimento. Eu não tô dizendo que ele está gostando de outra pessoa, tô dizendo que ele está transando com outra garota! – Diana vai esbugalhando os olhos enquanto termina a frase.
— E você está bem? – Sierra pergunta assustada. – Quero dizer... Quanto a isso.
— O que me mata é que eu sei que ele ainda gosta de mim. E eu gosto dele. Mas por que transar com outras pessoas?
— Espera. Outras? Mais de uma? Como ele pod...
— Não. Não. Não. Eu não sei. Não tenho certeza. Não tenho certeza de nada. Não sei nem o que eu vou fazer.
Sierra solta um suspiro longo e fita Josh movimentando os pulsos enquanto fala, depois volta seu olhar para Diana, que parece esperar algum conselho.
— Bom... – Faz uma pausa. Para ela só há uma coisa a fazer e não é se hospedar em um hotel com o cara que a está traindo. No entanto, sabia que Diana tem uma alma frágil como porcelana e seus sentimentos são delicados como papel, enfrenta-lo com verdades e cobrar explicações está longe de ser algo que a amiga faria. Principalmente com alguém que ela goste muito. – Você não acha que esses dias no hotel possam ser uma boa hora para conversar com ele? Tentar acabar com essa dúvida. Você não pode deixar que isso te mate por dentro. E se você não fizer, eu faço. Eu tenho um canivete aqui no meu bolso, eu posso ir até lá agora se você quiser.
— Não, não. – A loira ri despojadamente. – Um canivete não é necessário.
— Eu também tenho um revolver. Um spray de pimenta. Um plug anal. – Sierra faz a amiga rir, apesar de estar falando num tom sério. – Menina, eu tenho um arsenal. Sabe que pode contar comigo.
As duas trocam olhares amigáveis.
☠
— Não pode sorrir de vez em quando? – Brandie cutuca a irmã.
— Primeiro, não foi minha ideia vir até aqui. Segundo, são seus amigos, não meus. Terceiro, quando eu vou estar liberada para ir embora? – A grosseria de Marcie com a irmã se mantinha irredutível, apesar de estar nitidamente forçando as palavras.
A garota com tranças nagô inspira fundo e responde:
— Saiba que você pode ir embora a hora que quiser. E se está aqui até agora, é por que você quer estar. Pare de tentar se esconder debaixo dessa armadura, Marcie. Eu te amo e quero você perto de mim. – Brandie tentou dar um abraço em Marcie, que de esquivou rapidamente.
— Quando a amiga da Melissa vai voltar com os patins? – Marcie enrolou os cabelos dourados num coque e se sentou num dos bancos espalhados por aquela área.
Brandie percebeu que ela queria sim estar lá. Queria patinar no gelo. Será que foi uma bola dentro quando insistiu no convite? Sim, por agora ela estar num lugar que, possivelmente, queria muito. E não, por ela estar se sentindo deslocada quanto aos amigos da irmã. Sabia que Marcie não tinha muitos amigos e nem sabia exatamente como era se apegar com medo de perder, então criando uma resistência em querer interagir com pessoas que ela não conhecia muito bem.
Brandie sentou-se ao lado de Marcie.
— Ok, eu sei que você não quer me ouvir, então precisa responder nem falar nada, só olha em volta. Eu sei que você não quer estar sozinha, eu sei que você não quer olhar para um papel de parede o dia todo. Não tenha medo de sorrir e mostrar que pode se divertir também. Você é a minha irmã, apesar de tudo. Se quiser ir embora, eu não vou te impedir. Mas gostaria que ficasse.
Marcie olha para a irmã e desfaz timidamente o coque que tinha feito. Não diz nada, apenas cruza as pernas e morde a parte interior da bochecha.
☠
Jake estava sentado num banco com Melissa ao seu lado. O cabelo flavo dela estava solto e espalhado pelos seus ombros. Jake gostava daquela visão. Era a mulher mais linda que ele já tinha visto. Declarava-se um homem de sorte por tê-la como namorada. Doce, engraçada e inteligente, se encantava por cada centímetro dela.
Jasmine e Doug voltaram com várias caixas numeradas.
Os amigos se juntaram para caçar seus números e vestir os patins. Jasmine fez um movimento de cabeça para Melissa, que entendeu a mensagem de imediato.
— A Jas quer falar comigo, amor. Já volto. – Melissa beijou o rosto de Jake e foi até outro banco em que Jasmine tinha se aprumado, fingindo que estava arrumando alguns sapatos jogados ali por outros patinadores.
Jake encarou Melissa e Jasmine por um momento. Lembrou-se da época – não tão distante – quando as duas eram inseparáveis. As meninas se conheceram quando entraram na Universidade de Webster juntas. Duas garotas completamente perdidas diante do que lhes parecia ser um mosaico com um milhão de oportunidades brilhando em tons ainda desconhecidos.
Rapidamente se reconheceram uma na outra e desenvolveram um companheirismo universitário, que, logo depois, veio a se instituir como uma amizade duradoura. Jake lembrava-se da primeira vez que conheceu Jasmine, quando foi buscar a Melissa nos portões do campus para um jantar de aniversário de namoro. Com um breve sorriso e uma apresentação rápida na primeira vez, os dois não imaginavam que começariam a se esbarrar com mais frequência posteriormente.
Por um segundo, Jake se perguntou em que momento dessa estrada ele perdera Jasmine de vista. Não que isso o importasse muito, essa não era a questão, mas a situação trazia a tona sentimentos e memórias que ele não gostaria de ter esquecido. Há tantas coisas na vida que sutilmente nos escapam pelos dedos e nem ao menos percebemos, pensou consigo, logo, sentindo-se diligentemente nostálgico.
Perdeu seus sentidos entre as memórias, mas foi trazido de volta pelos altos risos de Josh e Chris do outro lado. Pensou em se juntar a eles até sentir um arrepio passando pelo seu couro cabeludo e correndo pela sua espinha, fazendo seus pelos da nuca eriçarem. Balançou os seus ombros para espantar o calafrio, uma sensação como se alguém o tivesse abraçado por trás e soprado no pé do ouvido. Foi então que escutou a música.
Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh
Don't they know
The speaker is about to explode?
Don't they know
This building is about to blow?
Suas sobrancelhas arqueadas e a forma como espreme os lábios indicando dúvida, ilustram um rosto com expressão indefinida, quase de desorientação. Ele dá uma olhada em volta e espreita cada um de seus amigos, como ninguém mais parece sentir o arrepio que ele sente. Mexe os ombros mais uma vez e encara duas caixas de som que estava perto daquela área.
Bang, bang, here we go
Everything's about to blow
Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh
☠
Enquanto Melissa vestia seus patins, Jasmine tagarelava ao lado.
— Hoje eu não vou trabalhar até tarde. Falei com meu chefe e ele me deixou sair mais cedo. Sabe o cara que eu tô saindo? – Melissa assentiu com um olhar claro. Viu fotos dos dois no facebook e fazia questão de deixar seus comentários. – Vamos sair hoje num encontro mais... Hum. – Jasmine tentava achar a palavra. – Mais compromissado.
— Como assim? – Melissa se interessou.
— Ele quer me levar pra conhecer a mãe e a irmã dele.
Jasmine e Harper flertavam há uns meses. Nada além de um silencio ensurdecedor entre os dois. Ela trabalhava na pista Howclover todas as noites dos finais de semana, e todo sábado a noite esse rapaz de cabelos loiros, sempre muito bem vestido, que aparentava ter uns trinta e poucos anos de idade aparecia para dar umas piscadas e trocar olhares. No início, Jasmine achou que ele estava simplesmente dando em cima dela, mas as visitas dele ao Howclover Ice Space começaram a se tornar mais frequentes.
Numa visita, o rapaz resolveu quebrar o silencio. Ele se apresentou como um tiro na cabeça de Jasmine, que a fez tremer de cima a baixo. Num primeiro momento ela ficou sabendo que seu nome completo era Harper Laurent Mitchell, soube que ele era adepto ao romantismo clássico e também soube que ele queria saber muito mais de Jasmine do que apenas a informação que seu crachá fornecia.
No primeiro jantar, ela descobriu que estava interessada por um fotógrafo profissional, um fã de Henri Cartier-Bresson e apreciador do estudo da Psicologia da Gestalt sobre figura e fundo. Foi o jantar mais agradável que ambos tiveram em tempos. Os primeiros encontros foram desesperadamente embaraçosos. Apesar de Harper se relacionar muito bem com as pessoas, algo em Jasmine o fazia perder completamente o paleio. Como fotografo, Harper usava de uma política simpática que tornava a comunicação entre ele e seus modelos mais familiar, fiado, agradável e sem receios. Era como um truque, que com Jasmine parecia não funcionar muito bem – se perde em pensamentos e sentimentos quando ela está por perto.
Há algumas semanas, se tornaram oficialmente um casal. Jasmine Martinez, a garota latina que trabalha na pista de patinação Howclover Ice Space e Harper Laurent Mitchell, o fotógrafo freelancer apaixonado.
— O que você está esperando? – Melissa estava entusiasmada pela amiga.
— Tô esperando meu horário acabar. – Fala Jasmine checando o relógio com um biquinho. – Ainda tem uma hora.
Melissa terminou de calçar seus patins e viu que seus amigos também.
— E quando ele chega?
Jasmine abre um sorriso.
— Ele já está aqui, acredita? O Harper chegou tem uma hora já, ele tá aí dentro. – Ela apontou para a pista. – Disse que não queria que nada desse errado hoje. Acho que ele está mais nervoso do que eu.
— É só um jantar com a mãe dele, você sabe.
— Não é só um jantar. E a irmã dele também vai estar lá. – A garota coloca a mão na barriga. – Ele disse que eu sou a primeira namorada que ele vai apresentar à família. Tô nervosa, mas tô bem.
O rosto de Jasmine poderia ser emoldurado pela própria felicidade. Seu sorriso bobo não negava que ela estava prestes a embarcar numa experiência que só esperava coisas boas. Apesar das borboletas na barriga, se sentia confiante em causar boas impressões à família do namorado.
— Não vou mais te alugar, Mel. Vá se divertir.
— Vou sim. E você também vai. Torço por você, Jas. – Melissa cruza dois dedos das duas mãos.
Jasmine faz um sinal de torcida com os braços levantados e os punhos fechados. As duas amigas riem juntas antes de seguirem para lados opostos.
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— Para que serve aquilo? – Marcie aponta para uns bonecos de neve feitos de metal e plástico, com uma barra de ferro acoplada, que estão espalhados pela pista de patinação. Algumas pessoas se apoiam na barra e empurram o boneco enquanto se equilibram sobre os patins.
— Aquilo é para as pessoas que não sabem patinar. – Josh respondeu.
Marcie abaixou os olhos.
— Não precisa usar aquilo se não quiser. Tem instrutores lá dentro também. Eles usam uma camisa azul horrível. – Brandie comentou com a irmã. – Eles podem te ajudar. Ou se preferir, eu te ajudo.
— Tudo bem, não precisa. Eu me viro. – Cortou rapidamente.
Chris observou a reação de Brandie, que comprimiu-se numa expressão tristonha.
Todos estavam de pé, em frente à estreita escadinha que dá acesso à pista de patinação. Alguns conseguiam se manter de pé sobre as lâminas presas às solas, já Marcie se apoiava num dos corrimões, lutando para não dar uma cambalhota no primeiro degrau.
Doug apareceu novamente com vários acessórios; capacetes, luvas, joelheiras e cotoveleiras.
— Ah, odeio esse troço. Sempre aperta minha cabeça e quando eu tiro, parece que ainda estou usando capacete. – Diana reclamou ao segurar o apetrecho. – Fica a marca no meu cabelo.
Josh deu uma risada e sacudiu suas mãos na cabeça da namorada, desarrumando os fios loiros.
— Tudo bem, amor, você fica linda de qualquer jeito. – Ela e Chris riem juntos.
— Minha vez então. – Ela entra na brincadeira, tentando fazer o mesmo com o topete de Josh, que se esquiva rapidamente das investidas da namorada. Chris e Sierra seguram uma gargalhada com as falhas de Diana.
— Ainda bem que pra mim isso não é problema. – Brandie disse para Jake e Melissa, apontando para as suas tranças nagô.
Marcie sentiu-se um pouco perdida na hora de vestir os implementos.
— Deixa que eu te ajudo. – Brandie se aproximou.
— Não precisa. – Marcie se sentou no chão e pôs as joelheiras.
Chris tocou no braço de Brandie.
— Uma hora ela vai se mancar. Deixa pra lá.
— Ela é só teimosa. – Brandie tenta defender a irmã.
Marcie queria estar ali, mas não tinha coragem de se curvar à irmã dando razão a tudo que ela sempre diz. No fundo Marcie sabia que não tinha coragem para viver. Coragem para dizer sim. Coragem para sorrir e deixar as pessoas se aproximarem. Marcie tem medo de dizer, mas sabe no fundo de seu coração que ama Brandie. Sabe também que a irmã jamais a machucaria, nunca a abandonaria, mas tem medo. Coragem é o que lhe falta.
— Vem cá. – Jake coloca as joelheiras em Melissa e beija suas mãos antes dela pôr as luvas. Ele se levanta e beija seus lábios delicadamente. – Te amo.
Ela sorri.
— Também te amo, Jake. – E eles voltam a se beijar.
— Oh, pombinhos. Batam asas pra gente ir. – Josh gritou.
Jake mostrou o dedo do meio e fez uma careta.
— Qual é, mano. Eu tenho uma namorada também.
Ele pegou na mão de Melissa e seguiu na frente pela escadinha que subia à plataforma de gelo. No fim dos degraus, um portão de tamanho médio se erguia, um portão que cercava toda a pista de gelo. A parte de cima desse portão era facilmente alcançável, até para pessoas de estatura média. Essa parte era aberta enquanto a pista estava em funcionamento, assim que o lugar fechava grandes pranchas de vidro deslizavam para baixo, se encaixando na parte superior do portão médio, trancando todo o campo de gelo.
Enormes pilastras de concreto se erguiam do gelo para sustentar o teto e servir de apoio para as caixas de som e imensos ventiladores que refrescavam o ambiente carregado de luzes fortes, música alta e movimentos corporais.
— Vamos nessa! – Chris gritou atrás de Sierra com as mãos ao redor da boca, imitando um alto falante.
— Ah, seu maluco. Grita no ouvido da sua mãe. – Ela devolveu num tom tempestuoso.
Todos riram, até Marcie que estava por último na fila desordenada.
Doug aparece passando por todos eles e se posiciona à frente de Jake.
— Pessoal, encostem-se ao corrimão, por favor. Só um minuto antes de eu liberar vocês. – Os amigos obedecem e abrem espaço na escadinha. Ele retira um tablet de um suporte na cintura e checa alguma coisa na tela. Assente para si mesmo e ergue um microfone que segurava para ditar dois números. – 250 e 402. – A voz de Doug sobressaia no mesmo tom alto da música, mas perfeitamente distinguível. Ele dita novamente e guarda o tablet.
Um casal sai da pista. Cada um com seu respectivo número alinhavado em suas luvas, recitados pelo funcionário. A garota sai cambaleando nos patins, tentando se equilibrar fora do gelo. Os dois descem os degraus ainda contaminados pelo ritmo da música. Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh.
— Gravem o número que está na luva de vocês, galera. – Alertou o funcionário.
Automaticamente, todos verificaram o acessório. Luva preta com os números gravados em cores quentes. Jake encarou fixamente o seu número ecoando vermelho rubro. 180.
— Podem ir. – Doug deu o acesso para eles entrarem.
Jake foi primeiro, com Melissa ao seu lado. O casal, Josh e Diana, entra em seguida, imediatamente se esgueirando por entre os patinadores. Sierra, então, pisa no gelo, escorregando de primeira.
— Calma aí, garota ansiosa. – Chris, que estava atrás dela, a alça pelo braço. – Me deixe ajuda-la. – Diz ele num tom sedutor, esperando de volta uma risada ou uma contra-piada-irônica.
— Acho que hoje não é o meu dia. – Declaração honesta, embora esteja evitando encarar o olhar fixo de Chris. O sorriso que, um minuto atrás, se mantinha eloquente, deu lugar à uma expressão de receio tão honesta quanto sua afirmação.
— Do que você tá falando? –Chris mostrava um rosto sereno, como sempre foi, apesar de toda a energia estática estar pulsando pelo local.
— Hum... Nada, não quero falar sobre isso. – Ele a encara incerto. – O que foi? – Sierra se vira e patina para longe, entrando no meio das pessoas.
Chris pensa em segui-la, mas Brandie o impede.
— Deixa ela. Sierra não está num bom dia.
— Sua irmã também não. – Ele faz um sinal com a cabeça.
Brandie já estava sobre o gelo ao lado da irmã. Marcie tinha dificuldade em manter o equilíbrio e um tombo era certo de acontecer a qualquer momento.
Chris a encara segurando o riso.
— Acho que a sua irmã vai...
— Ah! – Previsivelmente a garota loira está com as penas içadas ao ar e com as mãos sacudindo no gelo, como se estivesse fazendo um anjo de neve.
— Espera um minuto. – Brandie a ajudou se virar, deixando a irmã de quatro.
— Tudo bem, Brandie. Eu consigo. – Marcie afasta a irmã com um aceno de mão.
Ela tenta, mas não consegue.
— Para de bancar a rebelde, Marcie. – Chris a ajuda a se levantar com cuidado, com medo de levar um tapa na cara ou algo do tipo. Da maneira que ele vê Marcie tratar Brandie, Chris não esperava nada diferente para com ele, entretanto esse não foi o ocorrido. Marcie aceitou a ajuda, mas nenhum agradecimento foi ouvido.
— Posso te ajudar... Pra não cair de novo, sei lá. – Brandie tentou mais uma vez, não sabendo mais o que dizer.
Marcie nada disse.
— Deixa comigo. – Chris pegou na mão de Marcie e puxou. – Com o mestre Christopher Swanby ela vai aprender rapidinho. – Ele tenta deixar Brandie tranquila, afastando qualquer sensação de mal estar presente ali.
Inexplicavelmente Marcie não lutou contra. Seguiu a onda de Chris e se rendeu ao comando do garoto. Ele a puxou pelas mãos e ela foi sendo conduzida como um trenó sobre um lago congelado. Brandie os observava irem para longe até desaparecerem sob as luzes fortes e multidão elétrica.
It’s too late
But tomorrow has to wait
It’s the time of your life
So tomorrow has to wait
If you control yourself
Then give up before you break
Well, it’s too late
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