Premonição Chronicles 3
5 Capítulo 05: Simpatia Pelo Demônio
Notas iniciais
DIAS ANTES DO ACIDENTE
A noite quente fez com que várias pessoas saíssem de suas casas no Cabo da Praga para aproveitar as estrelas. Casais saiam acompanhados, mulheres solteiras procuravam suas próximas presas, homens queriam uma noite de sexo barato e crianças iam correr das mães para aproveitar o ar quente e brincar. Mas na casa grande de Edmundo Moura, o preparativo era outro.
– Samantha? Você já está pronta?
– Quase!
“Mulheres...”, ele pensou enquanto arrumava sua gravata borboleta no espelho. Abriu um sorriso enquanto continuava se admirando. Sua casa era enorme; tinha detalhes em mármore e algumas coisas eram de ouro puro. A sala de estar era grande, espaçosa, tinha quadros caros estampando as paredes peroladas, e um piano de calda perto da parede vermelha – somente de enfeite, pois nem ele e nem quem vivia com ele sabia tocar. A escadaria que dava para os quartos parecia digna de um filme ou série de magnatas, mas condizia bem com seu dono, pois Edmundo Moura, ou Ed, como gosta de ser chamado, é um homem rico e de bom gosto.
Enquanto esperava sua acompanhante, Samantha, Ed passou os dedos pelo tecido da cortina preta, recém lavada.
– Não tem nada melhor que nossa própria casa… – Ed suspirou e se jogou no sofá – que ficava de frente para a escadaria. Quando focou seu olhar para o topo dela, não acreditou no que via. Samantha, que tinha cabelos escuros na altura dos ombros e olhos claros – assim como os dele – vestia um belo vestido de gala da cor vermelha, com um corte na perna, um decote provocante que valorizava os seios fartos, e tinha o cabelo arrumado em uma trança de lado, que deixava metade de seu cabelo solto. Em seu pescoço, um cordão de ouro dava o toque final. Seus olhos estavam esfumaçados por uma sombra preta, e seus lábios tinham a cor mais escarlate de todas. Seu corpo se movimentava levemente, seu quadril parecia dançar entre a escada, e Ed só faltou babar por ela.
– E aí? Estou bonita? – Ela perguntou, com um sorriso um tanto quanto insinuante.
– Você está maravilhosa! – Ed sorriu, e estendeu seu braço a ela, enquanto caminhavam devagar para a saída.
– Onde é que vamos tão…
– Tão arrumados assim? – Ele completou – Vamos encontrar com uma velha amiga minha.
Samantha acenou com a cabeça enquanto entrou no carro, e em sua mente, fantasiava que poderia dançar com Ed ao fim da noite, com os sapatos na mão, meio alta de muita bebida e soltar algumas juras – que em sua mente eram completamente correspondidas. Mas Samantha não fazia ideia do lugar que estava indo, quando entrou naquele carro para acompanhar Ed.
– Você parece nervosa. – Ed comentou.
– Estou um pouco – ela mexeu os dedos e ajeitou um dos anéis.
Ed riu um pouco.
– Minha querida, nós não vamos a uma festa de gala, não precisa ficar apreensiva. Vamos encontrar uma amiga antiga, e precisamos estar apresentáveis, para não passar vergonha. Ela sempre foi muito exigente com roupas… Uma ex-Miss é difícil de agradar.
– Ex-Miss? Você conhece uma ex-Miss?! – Samantha estava deslumbrada, achando que se tratava de alguma candidata a Miss Brasil ou Universo ou…
– Sim, oras… – Ele sorriu estranho e olhou sério para ela. – Ex-Miss FEBEM.
Ed caiu na gargalhada, e Samantha olhou para ele com um desdém cômico.
– Ex-Miss FEBEM?! O que essa sua amiga faz, Ed?!
– Você vai descobrir em breve. Já estamos chegando…
Samantha de repente se sentiu um pouco mal. Achou que a noite seria a oportunidade perfeita para se declarar, mas pelo visto, nada funcionou bem como ela planejara.
– Olha só, chegamos! – Ed exclamou, apontando para uma mansão, onde luzes coloridas dançavam por suas colunas. Era um lugar muito bonito, mas obviamente, Samantha achou estranho um lugar tão grande assim estar pronto para receber somente os dois.
– Ela vai receber apenas nós dois? – Samantha perguntou, enquanto pegava na mão de Ed para sair do carro.
Ed riu.
– Não… Ela recebe várias pessoas, todos os dias. Não se preocupe, você vai entender. E vai se divertir, tenho certeza.
XXX
A música estava alta e as pessoas estavam entrando e saindo da casa noturna Cicciolina, enquanto Debora se preparava para um encontro importante. Um amigo de longa data, de sua amiga – e dona da casa noturna – estava se preparando para encontrá-la também. Ele era aquele tipo de contato que aparecia caso precisasse fugir, ou precisasse de armamento. Era bom mantê-lo por perto, por segurança; e além disso, Kátia tinha dito que ele era um homem charmoso.
– Qual o nome dele mesmo? – Perguntou com voz desinteressada.
– Edmundo, mas ele gosta de ser chamado de Ed. E é melhor não fazer essa voz aí; ele pode ser meio temperamental.
Debora olhou para a amiga com desdém.
– Eu não tenho medo de nada, muito menos dele.
Kátia riu.
– Você vai cair de quatro por ele. Ou pela acompanhante dele. Ou pelos dois, não sei. Depende.
– Calma, calma… Acompanhante? – Debora parecia interessada.
– É, o nome dela é Samantha, é bem bonitinha. Mas faz tempo que não a vejo, não sei como está agora, ou se algo já rolou entre ela e Ed. A menina parece uma bobinha apaixonada perto dele.
Debora soltou um suspiro.
– Ela não deve gostar de mulheres, então.
– Não sei não, quando me viu ficou com os olhos brilhando.
– Talvez por ciúmes…
Kátia revirou os olhos enquanto terminava de se maquiar.
O quarto onde as duas amigas estavam era cor de rosa escuro, com cortinas peroladas e uma cama de casal grande. A penteadeira onde Kátia terminava de arrumar seu cabelo loiro era branca, tinha puxadores cor de ouro envelhecido, e um espelho tão límpido que se assemelhava a diamantes.
– Esse velho não vai vir nunca? – Debora revirou os olhos de novo e checou a roupa mais uma vez no espelho do armário, também branco.
– Fique calma, vão nos avisar quando ele chegar, ou você acha mesmo que vamos deixá-lo solto na pista? Recebemos pessoas importantes, pessoas que são inimigas dele; devemos ter todo cuidado possível com a segurança do Ed. E também, se ele se sentir ameaçado, pode achar que armamos uma emboscada para ele, e não é para isso que ele está aqui, não é? – Kátia sorriu, tentando tranquilizar a amiga. – Sei que no fundo você está com medo que ele saque uma arma para tentar te matar, mas não se preocupe, é só não ficar encarando muito sua acompanhante. Isso se ela participar da conversa. Geralmente Ed a deixa longe das negociações.
– Por quê? – Debora franziu a testa.
– Porque ele quer que ela se mantenha o mais afastada possível de seu mundo. Ou melhor, do nosso mundo…
– Mas tem que ter um motivo para isso, Kátia.
A loira revirou os olhos e suspirou.
– Faz tempo, acho que alguns bons anos…
“Edmundo fazia parte da polícia federal, e tinha uma das patentes mais altas, mas ele decidiu, depois de muito ser tentado pela corrupção, largar sua corporação. Foi difícil, ele teve que largar a família e ser dado como morto. Depois de anos, sua filha o encontrou, e tentou trabalhar com o pai, mas ele não queria envolvê-la, mas pense, ela é filha do homem mais teimoso que conheci, e por isso… se manteve por perto, até ele aceitá-la. Não demorou muito, uma arapuca foi armada, para que Ed fosse morto, mas sua filha foi atingida em seu lugar, e não suportou os ferimentos. Dizem que ela morreu nos braços do pai, mas eu não sei o que é verdade ou o que é mentira nisso tudo”. – Kátia soltou os ombros e levantou da cadeira, encarando a amiga, que estava com uma expressão perplexa no rosto. – E essa é a história dele.
– Deixa eu adivinhar, a menina com quem ele anda para lá e para cá é bem idêntica a filha, não?
– Igualzinha.
Antes que Debora pudesse falar alguma coisa, a porta abriu suavemente, e uma moça com roupas curtas falou, sem entrar no cômodo.
– A visita já chegou.
– Espero que esteja pronta, Debora.
A outra soltou um muxoxo e revirou os olhos.
– Estou sempre pronta, Kátia.
XXX
Do lado de fora da casa noturna, Ed Moura e Samantha Reis esperavam para entrar, como convidados VIPs, mas tinham que esperar pela dona e pela sócia da boate, pois só assim seria seguro, e ninguém os atacaria.
– Ora, ora, ora! – Ed exclamou, quando viu uma loira descendo a escadaria de mármore na direção dele e de sua acompanhante, em um vestido preto brilhante, que se assemelhava ao de Samantha. – Quanto tempo não te vejo, Kátia! Você continua com a pose de Miss.
– Uma vez Miss, sempre Miss, não é?! Samantha! Ouvi falar de você por aí. Você é realmente muito mais bonita do que as más línguas falam! – Kátia chegou perto deles e abriu a barreira para que os dois entrassem. Cumprimentou Ed com um beijo no rosto e um abraço, e fez o mesmo com Samantha, que só acenou com a cabeça sem graça, diante ao elogio.
– Essa outra moça eu não conheço… – Sorriu para Debora. – Sou Edmundo Moura, mas pode me chamar de Ed.
– Eu sei quem você é. – Ela sorriu de lado e estendeu a mão longa e fina. – Sou Debora de Carvalho Branco.
– Ah, eu já ouvi falar de você… Pelo visto sua beleza é maior do que costumam cantar por aí, não é? – Ele sorriu de volta e beijou as costas da mão de Debora.
– Podemos entrar, então? – Kátia estendeu o braço para Samantha, e Debora para Ed, o que fez Samantha faiscar os olhos em raiva.
– Sua acompanhante tem muito ciúmes de você… – Debora comentou em voz baixa.
– Eu sei. – Ele respondeu meio secamente. – Mas isso me faz gostar ainda mais dela. Aliás, ela é uma bela atiradora.
– Eu imagino… – Debora riu.
– Queridos, é aqui que vocês vão, e eu e Sammy ficamos, para tomar uns drinks e conversar. Deixarei com que Debora resolva tudo com você, Ed; espero que não se importe.
– De forma alguma! – Ele respondeu. – Samantha querida, encontro você no carro.
A moça fez que sim com a cabeça, meio chateada com o pedido. Ed foi até ela e beijou-lhe a face.
– Até mais tarde. – Sussurrou em seu ouvido e logo se virou, acompanhando Debora.
– Venha, Sammy. Vou arrumar um cara bem gato para cuidar de você. – Kátia disse, enquanto puxava a moça para a direção oposta, enquanto Ed e Debora subiam para o escritório, onde iam tratar de negócios e conversar, enquanto dividiam charutos e uísque.
XXX
Ed e Debora chegaram ao escritório depois de subir dois lances da escadaria de mármore. As portas tinham maçanetas de ouro puro, e a construção se parecia muito com os castelos da era vitoriana, e Ed sabia do gosto de sua colega, Kátia, e não estava surpreso com nada do que via ali.
Ao entrarem no quarto vasto, os olhos de Ed correram para as grandes janelas, que mostravam a cidade do Cabo da Praga toda iluminada pelas luzes. O céu escuro cheio de estrelas podia ser admirado dali também, e as cortinas faziam parte da obra prima. Todas as paredes eram feitas de mármore branco, e no canto esquerdo do grande cômodo, a parede acomodava uma grande estante, que se abria ao meio, e estava abarrotada de livros e cadernos de notas.
– Essa mansão é realmente uma obra de arte, não acha, Debora? – Ed ajeitou dias cadeiras, de forma que ficassem uma de frente para outra, e sentou-se. Logo em seguida, apontou para a cadeira a sua frente, para que Debora sentasse, e a moça o fez sem pestanejar. – Lembro-me da primeira vez que entrei aqui – Ele disse. – Acho que não chegamos a nos conhecer porque vim poucas vezes me encontrar com Kátia aqui… Até porque, eu sou um homem pouco visto por esses lados. – Ele riu um pouco. – Mas essa mansão é mesmo muito bonita, você não acha?
– Acho. – Debora disse, meio desconfiada. – Mas no começo eu não gostava, talvez porque eu vim de algo mais pobre que Kátia… Enfim.
– Ah, mas isso é o de menos. Já fui parar em uma tribo uma vez, em uma viagem que fiz para o continente africano. Eles tinham pouca coisa, mas não se deslumbravam com nada, achavam tudo o que tínhamos soberbo… Era interessante ver que as coisas que mais almejávamos e mais idolatrávamos, não significava nada para eles. Afinal, o que são paredes de mármore, e maçanetas de ouro? – Ed riu um pouco. – O povo que se contenta com pouco, é o mais feliz de todos.
Debora olhou para aquele homem, encarando seus olhos claros. O peso que aqueles pares de olhos carregavam, não eram pesos quaisquer; ela podia dizer que eles queimavam no mais frio dos mármores, era como os olhos de um demônio, alguém que não tinha alma, mas só vivia para duas coisas: a alma de sua acompanhante, e sua vingança; sabe-se lá contra quem.
– Alguém já lhe disse que você tem os olhos de um demônio? – Debora perguntou, sem medo de se ferir. Ed a encarou e sorriu.
– Não, e esse foi um elogio bem excêntrico. Gostei. Mas por que acha isso, Debora? – Ed franziu os lábios e cruzou as pernas.
– Porque apesar de claros, seus olhos transparecem todo o peso de suas memórias e de suas perdas, e você odiou quem fez tudo de ruim para você. Odiou com todas as forças. Não sei muito bem o que houve em sua vida, mas foi algo muito ruim, para você ter se tornado essa pessoa fria que parece que você é.
– As pessoas conhecem a minha história, Debora. – Ed disse, agora sorrindo um pouco. – Conhecem o que aconteceu comigo, sabem que ainda estou sendo procurado e que só estou aqui para proteger Samantha. As pessoas não fazem ideia das coisas que eu já vi, e muitas ainda me julgam, mas você só disse verdades, desde o momento que sentou aí. Agradeço por isso.
Debora acenou com a cabeça. Ed levantou e serviu dois copos de uísque.
– No entanto… – Ele começou – Queria saber, Debora… Qual a sua história? O que ou quem te trouxe aqui? Nunca ouvi muito seu nome, a menos que você seja a tal da Magnata das Ruas, mas ainda assim… – Ele se virou e andou na direção dela, estendendo-lhe um copo e se sentando logo após. – A história dela é muito rasa, ainda tem algo a mais aí, e eu não via a hora de te conhecer, para sanar logo essa minha curiosidade.
Debora se ajeitou na cadeira, olhando para Ed com seus olhos cor de esmeralda – que eram falsos.
– O que você sabe sobre a Magnata das Ruas?
– Sei que é uma mulher trans, e que veio de uma parte menos favorecida do país. É formada em Direito, e tirou a família da miséria depois da morte do pai. Nada certo, linhas desconexas, que não tem ligações plausíveis, e outros detalhes sobre sua cirurgia que eu pretendo esquecer; comentários preconceituosos, que uma mulher não merece ouvir.
Debora ficou perplexa com o que tinha acabado de ouvir.
– Bom, não tem mais detalhes, a minha vida foi assim mesmo, como as pessoas detalham por aí; e depois disso tudo, cheguei aqui, já como Debora, deixando meu antigo eu para trás. Mas você… as coisas que contam sobre você são bem mais incríveis, as coisas que você fez, e as coisas que as pessoas contam que te viram fazer. As pessoas que matou, e de quem se vingou. Me conte, fale sobre sua história.
Ed riu e deu um gole em seu uísque.
– Eu sei que Kátia te contou sobre minha filha, mas ela não disse o que fiz com os assassinos dela, ou disse?
Debora tomou um gole de seu copo e acenou com a cabeça que não.
– Bom, eu conto a história, mas depois, temos que falar de negócios, fechado?
– Fechado.
Ed soltou um pigarro, se levantou da cadeira, e começou sua história.
“And I heard, as it were, the noise of thunder:
One of the four beasts saying: “come and see.” and I saw.
And behold, a white horse.
Quando eu cheguei ao local, minha filha tinha encontrado com a morte antes. Ela não estava totalmente sem vida, mas tinha poucos dias, se não horas, antes de partir. A minha raiva foi tanta, porque eu sabia o motivo disso, eles não estavam armando para mim, estavam armando para ela, para que eu pudesse ir atrás deles todos, para que eu fosse e eles tentassem me matar, mas eu era mais espero que eles, e comi pelas beiradas, indo atrás de cada pessoa que ajudaram. Comecei caçando peixes menores, e fui indo mais fundo aos poucos, até pegar o tubarão… Ou melhor, os tubarões.
“There's a man goin''round takin' names.
An' he decides who to free and who to blame.
Everybody won't be treated all the same.
There'll be a golden ladder reaching down.
When the man comes around.
Pagaram pessoas para matar a minha única filha, a única coisa que prendia minha alma na terra, porque de qualquer forma, ela já pertencia ao diabo, como você mesma observou – e diga-se de passagem muito bem –. Depois de caçar e achar cada pequeno peixe envolvido, e tirar informações, matei todos. Eles podiam me atrapalhar, e minha raiva era muita, eu praticamente estava com sede de sangue… Logo depois, eu passei a procurar os peixes médios, e achei todos eles envolvidos em meus negócios, como eu já suspeitava.
“The hairs on your arm will stand up.
At the terror in each sip and in each sup.
For you partake of that last offered cup,
Or disappear into the potter's ground.
When the man comes around.
Tirei informações, um por um, e matei de maneiras ainda mais cruéis, até chegar nos mais poderosos; pessoas com quem eu já tinha trabalhado, pessoas que eu denunciei a mídia. E não havia outra maneira de matá-los, se não como animais selvagens em meio a savana. Matei todos eles com armas de caça, fazendo de seus corpos queijos suíços.
“Hear the trumpets, hear the pipers.
One hundred million angels singin'.
Multitudes are marching to the big kettle drum.
Voices callin', voices cryin'.
Some are born an' some are dyin'.
It's Alpha's and Omega's Kingdom come.
Mas eu me sentia mal por isso, e quando achei Samantha… Achei que podia cuidar dela melhor do que cuidei da minha filha, e por isso não a deixo participar inteiramente dos negócios. Ela cuida de boa parte das finanças, sabe se defender, mas não usa nada disso para vingança, ou para me proteger. Tenho medo de perdê-la, como aconteceu com a minha filha”.
– Mas me diga, Debora, como conheceu Kátia? Ela é uma mulher cheia de atributos, não? – Ed disse com uma voz mais suave, enquanto segurava seu copo vazio.
– Ela estava fugindo da polícia, e eu a abriguei em minha casa. Desde então não nos separamos mais. Ela sempre pede ajuda para cuidar da casa… Eu não posso fazer muito, mas colocamos os garotos e as garotas na linha. Somos magnatas, viemos da rua, entendemos as coisas e sabemos como funciona a vida lá fora. Protegemos tudo aquilo que podemos proteger, e é por isso que ela preza tanto seus serviços.
– Oh, eu fico lisonjeado! – Ele exclamou. – Kátia é uma pessoa difícil, já arrumou alguns problemas com meus fornecedores… Mas ela confia muito em você, talvez por parecer mais… sensata que ela.
– Ah… – Debora riu e começou a se soltar mais. Ed estava ganhando a sua confiança depois de toda sua história. – Eu sou só um pouco. Até que nos damos bem por conta das loucuras que cometemos. Nos negócios sabemos nos centrar, mas no começo era difícil; temos gênio muito forte e, por eu ser trans, sofremos um pouco de preconceito. Eu peitava todo mundo; ainda peito. Se pareci um pouco grossa me desculpe, estava na defensiva.
– Oh, tudo bem, não se preocupe. – Ed sorriu. – Estava esperando que estivesse mesmo. Mas, acho que está na hora de falar de negócios. – O homem levantou-se novamente, ajeitou as cadeiras e apontou a maior do outro lado da mesa para Debora. – Por favor.
– Valeu.
Quando se tratavam de negócios, Debora exibia sua personalidade mais verdadeira, e aquela que ela mais se orgulhava de ter. Suas gírias e seus trejeitos eram sua marca registrada.
– É só me dizer o que precisam. – Ed sacou uma caderneta e uma caneta em seu paletó, e desatou a escrever.
– Munições de todos os tipos, mas tipo… eu queria uma bazuca, ou uma metralhadora, caso precisemos. E antes que pergunte, eu sei atirar muito bem, velho.
Ed riu.
– Certo. O que mais?
– Um segurança de sua confiança, para nos ajudar dentro da boate; temos alguns problemas com alguns clientes, às vezes. Eles acham que mandam nas meninas, mas damos liberdade a elas de querer fazer ou não o que eles pedem. Já bateram nelas contra a vontade e não foi muito bom… – Ed anotou com bastante rapidez o que era pedido e a causa. – E também, Kátia queria que você ajudasse os gigolôs… eles se vestem tão mal…
Ed gargalhou.
– Deixa com que vistam-se mal! Eles são pagos para tirar a roupa. É só isso, minha querida?
– Yep.
– Então creio que já posso voltar a minha masmorra…
Debora riu, enquanto se levantava junto dele e ia em direção a porta.
– Quer que eu chame sua garota? – Debora perguntou.
– Ah, não tem necessidade… Só gostaria que me acompanhasse até meu carro, não quero ser surpreendido.
– Sem crise.
Ed riu mais um pouco.
– Você fica bem melhor assim, com a sua personalidade original; nunca mude e nunca deixe de falar suas gírias, Debora. Elas refletem quem você é. E é um alguém muito mais digno que eu, ou que qualquer outra pessoa no nosso ramo de vida. – Ele beijou a mão dela novamente, estendeu-lhe o braço e sorriu, caminhando escada abaixo em direção do carro.
Enquanto desciam, Debora falou uma coisa sem pensar, algo que saiu de seus lábios da maneira mais natural de todas:
– Você seria uma ótima pessoa para se ter por perto em tempos apocalípticos…
– Ah… – Ele riu. – Eu só sou um velho que se veste bem e sabe atirar. Meu afilhado talvez seja melhor que eu nisso. E falando do diabo, ele deve estar me esperando em casa. Debora, obrigada pela recepção. Espero vê-la mais vezes. – Eles já tinham passado por dentro de outros cômodos, para fugir da multidão, e já tinham chego no carro de Edmundo.
– Também espero, velhinho.
Ed gargalhou e entrou no carro; Samantha estava a sua espera.
Ambos acenaram para Debora, que esperou o carro sumir ao virar a esquina, para voltar para dentro da boate, onde sua sócia a esperava, para que ela contasse como a reunião com um dos homens mais importantes do ramo das armas tinha sido…
“And I heard a voice in the midst of the four beasts,
And I looked and behold: a pale horse.
And his name, that sat on him, was Death.
And Hell followed with him” – The Man Comes Around; Johnny Cash.
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