Notas iniciais
Escrito por MV.

A escuridão noturna entrava pela parte superior da caverna, que apresentava uma grande abertura. Ao redor do centro, estavam várias pessoas, praticamente todas desmaiadas.

A única acordada era Anna, que observava ao redor, ainda envolta em pavor. A aeromoça estava com os braços atados contra a parede, apenas por simples cordas, mas o nó que os mascarados fizeram foi o bastante para não conseguir libertá-la. Ao seu lado, viu Greg fazendo um movimento e logo a voz dele ressoou:

– Que merda é essa? – Os pés de Greg estavam atados, assim como as mãos de todos. Ao olhar ao redor, viu que Shinji também tinha os pés atados.

– Parece que estamos acabados de vez. – Anna falou baixo.

– Pare de pensar nisso, Anna. Tem de haver algum jeito de escapar dessas coisas.

– Mesmo assim, Greg. Se escaparmos, tenho certeza que tem algo nos esperando do lado de fora.

– Você prefere ficar aqui, mulher?

– Não estou falando isso. Eu só... Estou cansada de tudo isso.

– Se você desistir, todos nós desistiremos com você, Anna. Tenho certeza que tudo dará certo, pelo menos espero...

– Ruth está morta. E sinto que Kris também já foi morto.

Greg parou repentinamente de tentar puxar a corda dos pés com os dentes. Estava chocado com o que acabara de ouvir. Embora não fosse tão íntimo dos dois, sentia a morte de cada um dos sobreviventes como mais uma derrota diante daquela entidade demoníaca. Os sacrifícios não param. Num ato de último desespero e coragem, disse:

– Então nós vingaremos as mortes deles e de cada um que foi despachado por essa civilização maluca. Tenta me ajudar a... – Uma mão apareceu sobre a corda que atava as mãos de Greg.

– Não sei o que faria se Lana Flowers não estivesse aqui.

Pouco tempo depois, Greg e Anna já estavam soltos. Anna foi atrás de Shinji para tentar acordá-lo, enquanto Lana teve a missão de acordar Bella. A garota de cabelos loiros tinha levado uma batida na cabeça, e agora apresentava um nada discreto “galo”.

...

Nina e Serena andavam em meio a floresta. A loira segurava o tronco com a ponta em chamas, tomando cuidado para não iniciar um incêndio na floresta. Porém, as duas não sabiam exatamente a direção que seguiam.

– Tem certeza que é por aqui, Serena?

– Querida, desculpa, mas nesse breu não tenho certeza nem de onde tá o meu nariz.

– Como você espera que achemos o local onde Greg está?

– Não sei... Ótima pergunta.

As duas ainda andavam lado a lado, em um local que parecia ter asfalto, e Nina rapidamente associou ao aeroporto da ilha. Logo percebeu o precipício ao seu lado. O morro descia íngreme, até atingir a floresta lá embaixo. Serena se dirigia na direção da queda, quando Nina a puxou.

– O que? – Serena olhou para o lado, e viu que quase caíra em um grande abismo. Ao olhar novamente para Nina, disse: – Devo isso a você. Er... Obrigada.

– Não há de que, só toma mais cuidado da próxima... – Repentinamente a frase de Nina foi cortada por uma flecha que passou ao seu lado, exatamente no meio do fogo da tocha. Ela caiu alguns metros á frente, ainda queimando. A loira e a ruiva olharam para trás a tempo de ver O Corvo sorrindo para elas.

Alguns instantes depois, as duas corriam para longe da figura mascarada. Quando se deu conta, Nina estava totalmente sozinha, no meio do nada. Olhou para todas as direções, e apenas viu a escuridão. O coração da mulher palpitava, enquanto ouvia alguns ruídos vindos de longe.

Ele não sabe onde estou. O problema é a Serena... Onde ela pode ter se metido?

...

Serena entrou no interior da grande estrutura, se escondendo da figura mascarada. Já vira O Porco, O Coelho e agora O Corvo. Aquilo estava ficando realmente aterrorizante.

Esperou por mais alguns minutos e então decidiu sair dali, porém tropeçou no meio do caminho em uma pedra. Olhou então para trás e conseguiu divisar entre a escuridão uma grande estrutura de pedra. Era nada menos que uma pirâmide.

– A Pirâmide de Santa Muerte. – Serena disse, ainda espantada com a descoberta que fizera. – Era aqui que eu precisava chegar.

A mulher conseguiu depois de muito tempo, acender um toco de madeira, que usou como tocha. Ela chegou próxima da parede, e conseguiu notar vários desenhos e escritas espalhadas pelo interior da mesma. Serena se arrepiava cada vez que ia mais fundo na pirâmide, até chegar em outra câmara, mais interna e seguiu por um dos caminhos, chegando até o subsolo da mesma. Lá dentro a escuridão reinava absoluta, até ser quebrada pelo fogo da tocha de Serena. No meio da sala, percebeu que existia uma mesa, e ao seu redor, artefatos realmente esquisitos. Percebeu que parte do chão estava desabada, atrás da mesa.

– O que... Um ritual. Só pode ser isso.

Ela se abaixou para passar a mão na mesa, quando sentiu algo quente na mão. Ao iluminar o local, viu um braço caído ao lado da mesa. A mão estava a poucos metros de distância. Serena gritou o mais alto que pode.

...

Greg apertou o botão para gravar, pronto para mostrar a si mesmo, quando voltasse, tudo o que passara naqueles dias. E que ele tinha fé que não se repetiria.

Os cinco sobreviventes estavam soltos, e conversavam baixo sobre como escapar daquele salão. Existia uma porta de madeira, e ela era a única coisa que separava o grupo de sua liberdade.

– Eu ainda acho que nos prenderam desse modo de propósito. – Bella falou. – Planejam um ataque muito maior quando sairmos daqui. Aliás, onde está a Vivian?

– Não acho, Bella. – Lana respondeu. – Provavelmente foi desleixo ou algo assim.

– De qualquer modo, deveríamos dar um jeito de sair daqui, não? – Shinji perguntou.

– Deixa com o papai aqui, flango. – Greg falou indo na direção da porta de madeira. – Venham vocês também.

Naquele instante, um helicóptero passou por cima da caverna. Todos correram até a área escura da mesma, e ele passou direto.

– Lembrei-me da Vivian agora... Que bobagem. – Bella disse.

– Por falar na ruiva, onde ela está? Também não foi levada? – Shinji perguntou.

– Espero que esteja bem longe daqui. A salvo. – Anna Clara disse, expressando o desejo que tinha para com ela e todos.

– Então, vamos derrubar essa portinha ou não? — Greg perguntou, chamando o grupo para a missão que deveriam desempenhar.

...

A fogueira permanecia acesa, sendo alimentada pelos últimos tocos de madeira. Valentina continuava olhando para a brasa queimando, apesar da madrugada já estar chegando. Mônica e Lena dormiam ao lado da hippie, que enfrentava o cansaço, vigiando ambas as garotas.

Valentina havia assumido a liderança do grupo após o desaparecimento repentino de Lana, que aparentemente parecia liderá-los. As três tentaram procurar a mulher, mas não obtiveram sucesso. Agora estavam ainda na margem do rio, próximo a cova de Ruth, tentando repor as suas energias. Com exceção de Valentina.

Ela sempre ouvira muito a respeito de lendas da llha Vermelha, mas nunca pensou em ter que presenciar essas lendas. Agora os sacrifícios se tornavam cada vez mais reais a medida que eles evoluíam nas pesquisas. Ou que as pessoas morriam. Essa era a pior maneira de descobrir que tudo o que foi registrado no passado encontrava a sua forma real.

Suspirou, enquanto ouviu uma das garotas se mexendo. Era Lena.

– Val? – Lena falou, sonolenta. – É você?

– Sim... Tá tudo bem?

– Tirando esse chão duro... – Lena se levantou, e se espreguiçou. – É... Tá do jeito que é pra ser.

– Eu... Sinto muito, Lena. Sinto mesmo.

– Ela morreu sabendo que eu a amava. Pra mim isso importa... Ou não, não tenho certeza. É tudo tão complicado, sabe? Queria saber como a Mônica conseguiu superar isso.

– Ela não conseguiu, ainda está conseguindo... Ela me falou que muitas vezes ainda tem umas recaídas, mesmo depois de mais de um mês.

– Não é tão fácil assim superar a morte. – Lena falou. – Eu ainda não tinha tomado a total dimensão do que estava acontecendo. Mesmo com a morte do Gabriel na loja de brinquedos, eu ainda não tinha percebido o verdadeiro terror que é ser perseguido por uma entidade assim... É um verdadeiro filme de terror.

Valentina ficou em silêncio, enquanto pensava nas palavras de Lena.

Então, um grande trovão ecoou no céu noturno totalmente nublado, assustando as duas garotas e também Mônica, que ainda dormia.

– O que foi isso? – Ela acordou, alarmada.

– Foi só um trovão, Mô. – Lena falou. – Mas precisamos estar preparadas de alguma maneira, porque provavelmente está vindo uma tempestade.

– E é das grandes... Mas não temos local para ficar. – Valentina falou. – Receio que teremos de voltar à cidade.

– É o único jeito. – Lena falou. – Se ficarmos aqui não estaremos totalmente seguras.

– E nem na cidade, já esqueceu daqueles mascarados? — Mônica falou. – E pior, se estiverem lá, receio que não teremos nenhuma chance. A Lana sumiu, lembra?

– É verdade... Bem, teremos de arriscar. – Valentina concluiu. – Mô, prefiro voltar para a cidade, é melhor do que ficarmos aqui na floresta.

– E talvez também achemos alguma ajuda. – Lena falou esperançosa.

– É muito provável que não, Lena. Mas mesmo assim, considero a vila muito mais segura do que aqui. Estamos no meio do nada, não é verdade?

...

Passar pela porta de madeira foi relativamente fácil para o grupo. Greg, Shinji, Lana e Anna se juntaram para tentar abrir a porta, e conseguiram. Depois da facilidade ao abrir a estranha porta, Anna estranhou, e começou a concordar com a ideia de Bella de que tudo poderia ter sido premeditado pelos mascarados.

Saíram em um pequeno corredor, muito apertado, e foram andando vagarosamente até chegar na saída do mesmo. Agora estavam em uma grande sala, no interior daquela caverna, repleta de estátuas.

– Que lugar é esse? – Bella perguntou.

– São estátuas... – Lana falou. – Cada uma tem um amuleto, provavelmente algo relacionado aos sacrifícios. Vejam estas velas nos pés delas.

– Tem 9 apagadas. 5 ainda acesas. – Shinji concluiu.

– Não precisa ser nenhum intelectual pra saber que essas velas aí representam os sobreviventes. Lis, Wendel, Eduardo, Maurício...

– Andreia, Vanessa, Gabriel, Ruth e... Kris. – Anna concluiu. – Ele também se foi.

Anna não tinha se aproximado tanto do veterinário a ponto de sofrer terrivelmente pela morte dele, mas mesmo assim, sentia a morte dele. Era mais um que perdera a luta, e que enfraquecia cada vez mais o medo dela.

– Existem mais 5. Representam os que sobraram. Eu, Anna, Greg, Val e Nina, não é Anna? – Bella perguntou.

– Não tenho a exata certeza disso, Bella. – Ela suspirou, e olhou ao redor, vendo uma mesa de pedra no centro daquele grande salão. A penumbra encobria o que estava colocado sobre a mesa, embora ela tivesse certeza de que não era uma coisa boa. Greg também olhou na direção da mesa, e se dirigiu até ali.

A penumbra foi baixando aos poucos, mas nem Greg nem Anna desejavam ter visto o que estava ali. Anna tapou a boca, e começou a chorar lentamente, enquanto Greg ainda estava chocado com a cena.

O tronco de uma pessoa estava ali, jogado como se fosse nada. Greg logo associou aquele membro do corpo a Kris.

– Era ele. Era o Kris.

– Podemos sair daqui, por favor? Esse lugar já está me dando arrepios. – Bella disse, tremendo.

Outro corredor levava à parte externa da caverna. Agora todos estavam desconfiados, não estava acontecendo simplesmente nada. Não era possível que eles tivessem abandonado os sacrifícios deles. Ou será que era?

Logo chegaram ao fim da caverna. A floresta se estendia, totalmente escura, na frente deles. Bella já ia dar o primeiro passo para fora da entrada, quando Greg a barrou.

– Cuidado, loirinha. Escuta! – Ele falou baixo. Ambos ficaram em silêncio, assim como os outros três, e conseguiram ouvir uma conversa baixíssima vinda da parte de fora, embora não conseguissem entender totalmente o que eles diziam somente algumas palavras. “Cavaleiro”, “amuleto”, “morte”... Todas essas palavras apareciam desencontradas.

– Eles estão ali. – Lana falou, cochichando. – E agora, o que faremos?

– Há alguma solução? – Anna perguntou.

– Acho que a única solução para isso é enfrentar o medo. – Shinji falou. – Gostaria de achar um outro caminho, mas esse é o único.

Greg suspirou.

– Realmente, flango. É o único. Ou saímos por aqui, ou então fudeu. Preferem voltar para salinha e ficarem amarrados até morrerem de fome? Eu não.

– Mas nós estamos caminhando para a morte. – Bella falou, chorosa.

– Se ficarmos aqui, caminharemos para a morte de qualquer jeito, loirinha. – Greg falou. – Precisamos escapar. Espera aí, vou ver quem são os animaizinhos que estão na entrada.

Greg se afastou lentamente, até chegar ao portal da caverna. Colocou a cabeça para fora a ponto de ver, na sua esquerda, os mascarados. Conseguiu identificar O Porco e O Urso. Existia mais um ali, mas Greg não conseguiu observar qual máscara era a sua, já que estava de costas para ele.

– E então? – Shinji perguntou.

– O Porco e o Urso estão lá. Tem mais um, mas não consegui identificar qual deles seria. Acho que dá pra gente escapar... Mas temos que ir rápido. Muito rápido. Alguma pergunta? – Greg falou. – Acho que o silêncio já responde. Venham.

Greg colocou novamente a cabeça para fora. Os três mascarados pareciam estar totalmente distraídos. Muito melhor para ele. Fez um sinal para que esperassem. Estava esperando o momento certo.

– Já chegou a hora? – Bella perguntou, ansiosa.

– Quase. Não se esqueçam de correr muito, pensem que se pararem vão virar comida de animal. Agora, é correr ou morrer.

Everything is gonna change
Nothings going to be the same
What we know is good and gone
The life we live has come undone

A adrenalina subia em todos ali presentes. Apenas esperavam o sinal do barbudo e iniciariam a corrida pelas suas vidas.

Cinco...

Shinji segurou a mão de Anna, desejando sorte.

Quatro...

Bella sentia seu coração pulsar como nunca.

Três...

Lana esperava o comando, e estava confiante.

Dois...

Anna gritava dentro de seu ser para que escapassem dali.

Um...

Greg sabia que era agora ou nunca. Os cinco saíram numa corrida incrível, após o sinal do homem a sua frente. Os mascarados ouviram os passos e quando perceberam, eles já estavam longe. O Porco pegou sua marreta, e O Coelho o seu facão, e saíram atrás deles.

Get out of my head
Get out of my mind
Wherever you put me through
I'll come out alive
When the sun disappears and the knights have fallen
And the clouds all departs
I won't hear you calling in my head

O grupo de cinco corria pela floresta escura, não sabendo onde iam parar, ou aonde chegariam. Só tinham que sumir o mais rápido possível daquele lugar. Greg seguia na frente, Shinji e Anna vinham em seus calcanhares. Lana os seguia, um pouco distante. O grande problema era Bella.

A garota do mercadinho não estava acostumada com corridas de longa distância, e logo começou a parar. Mas ela tinha de continuar. Subitamente, pisou em uma raiz que estava para fora, e tropeçou, batendo a cara no chão. Ela começou a chorar baixo enquanto ouvia os passos chegando...

Até que eles a passassem. Ela levantou a cabeça lentamente, e viu O Urso e O Coelho correndo longe dela. Suspirou aliviada, sorrindo. Mas esse instante de alegria durou até o momento que O Porco puxou seus longos cabelos loiros para trás, e ela soltou um grito de horror.

I'm living in a terrible nightmare
I'm living in a terrible nightmare
Just wake me from this terrible nightmare

Nina esfregava os braços tentando espantar os pernilongos que insistiam em atacá-la. A noite estava extremamente úmida, ela podia sentir. Tinha de achar algum local seguro para passar aquela madrugada. Porém, não estava cansada, por conta do chá de Abigail.

Ela continuava pensando no que a cega dera para ela apagar tão estranhamente, já suspeitando de alguma coisa estranha.

Você está ficando paranoica, Nina. Não pense nisso.

Ela viu o céu se clarear, e logo depois, um trovão ritombou no céu. A chuva estava realmente por vir. Não deu outra. Alguns minutos depois, sentiu as primeiras gotas a atingirem.

Ela tentou correr, mas não tinha para onde ir. Estava totalmente imersa na mata fechada, e não podia se orientar pelas estrelas, logo entrou em desespero. Continuou a andar, porém com o passo mais rápido, enquanto a tempestade ainda não se agravara. Então, a floresta parou diante dela e percebeu um riozinho a sua frente.

Nina se agachou e bebeu um pouco daquela água pura que saía da montanha. Ou no caso, do vulcão. Seu pensamento foi levado até o alto quando olhou a imponente montanha, agora supostamente dormindo. Nina desejou que nunca mais visse a montanha acordar.

– O rio sempre desemboca na praia... Talvez lá seja melhor que aqui. – Ela disse, pensando alto. Então, a loira começou a seguir o curso do rio, de costas para a grande montanha. O seu passo rápido virou uma corrida quando a chuva começou a engrossar.

...

Valentina, Lena e Mônica empurraram a porta do mesmo bangalô onde haviam ficado, e continuava como se nada tivesse acontecido naqueles dias anteriores.

– Tem certeza que é seguro, Val? – Mônica perguntou.

Valentina se virou e olhou estranhamente para Mônica, mas logo depois respondeu:

– Certeza não tenho, mas espero que não encontremos nenhuma surpresa indesejada. E também é melhor que ficarmos naquela chuva...

Como se soubesse o que iria acontecer, gotas começaram a pingar nas janelas incessantemente. As três se dirigiram até o quarto, finalmente conseguindo respirar e ficarem calmas depois de muito tempo de correria e desespero.

Lena foi a primeira a adormecer, e Mônica também acabou por dormir um pouco depois. Apenas Valentina continuava acordada, olhando pelas janelas do local, vigiando as duas para que dormissem em segurança. Repentinamente, um objeto do lado de fora chamou a atenção de Val.

...

Serena agora estava sentada na câmara de entrada, enquanto a fria chuva caía do lado de fora. Ela prometeu a si mesma não descer mais lá embaixo enquanto o sol não raiasse, apenas se concentrando na parte de cima. Mas mesmo assim, tudo aquilo lhe dava calafrios, a transportando para o tempo em que a antiga Santa Muerte realmente existia.

Agora ela estava encostada em uma das paredes, sentada, mas não sabia o que pensar. Precisava sair dali, mas também não perder aquela pirâmide preciosa. Já imaginava seu rosto estampado numa matéria sobre o mistério daquela ilha. Isso se conseguisse sair daquela própria ilha.

– Calma Serena. Tudo vai dar certo... Você vai sair daqui, vai documentar tudo e sua matéria vai se destacar. – Ela dizia para tentar se acalmar. Mas o barulho da chuva contra a mata e as pedras só deixavam ela mais apreensiva. Sentia como se a qualquer momento, algo terrível acontecesse com ela.

...

Valentina abriu a porta do bangalô e saiu correndo em meio a tempestade até o local onde vira o estranho objeto. Procurou um pouco e o achou no meio de um arbusto.

Quando entrou no interior do bangalô, percebeu que a iluminação estava precária, então foi embaixo de uma das janelas. Agachou-se para verificar o que era.

Ela se espantou quanto percebeu que era uma pedra verde, parecida com uma esmeralda. O que aquilo estaria fazendo numa ilha como aquela?

As perguntas somente aumentavam na mente de Val, e as respostas... Onde estariam elas? Não conseguia achar fatos lógicos para explicar o que vinha acontecendo. A pedra verde era o de menos, mas só contribuía para fazer a coisa ficar mais ilógica possível.

...

A chuva ainda não tinha atingido a face da ilha onde o grupo estava. Shinji, Anna e Greg pararam ofegantes, quando viram que não existia mais nenhum barulho. Estavam a salvo dos mascarados, mas precisavam achar o resto dos sobreviventes.

Lana chegou logo depois, totalmente preocupada. A mulher se aproximou de Greg e falou:

– Eles a pegaram. Pegaram a Isabella.

– Oh, meu Deus. – Anna falou, abaixando a cabeça. – Até quando isso vai durar?

– Eles não devem mata-la. – Greg falou. – Ela escapou da primeira vez, não foi? Não é a vez dela agora.

– E de quem é então Greg? – Lana perguntou apreensiva.

Greg olhou para Anna, buscando resposta para a dúvida de Lana. Somente Anna poderia ter as respostas necessárias, afinal, fora ela quem tivera a fatídica visão.

– Eu não tenho certeza... Não consigo me lembrar de quem veio depois do Kris.

– Não pode ser a Bella, nem a Val e nem a Nina. – Lana falou. – A Anna provavelmente é a última, então só sobra um...

Lana olhou para Greg, que retribuiu o olhar apreensivo. Estava tudo claro diante dos olhos deles, apenas precisavam perceber que somente Greg sobrara no meio da lista.

– Não pode ser você... Digo, tem tantas outras pessoas que saíram e...

Greg suspirou profundamente, respondendo logo depois.

– Eu tenho certeza já de quem é. Sou eu mesmo, Lana.

– Você não pode morrer Greg. Não agora. – A mulher de cabelos azuis disse. – Eu não sei o que dizer...

– Vou tentar fazer tudo dar certo. Essa maldição aí não vai conseguir me derrubar tão fácil assim. Porra, até a loirinha conseguiu, vou tentar...

– Mas você viu o que aconteceu com o Kris. Eles estão mais implacáveis do que nunca. – Lana falou. – Eu não quero e não pretendo deixar você morrer, Greg. Entende? Porra Greg, você pode ser do jeito que for, mas eu te amo. Amo você do jeito canalha que você é. E não quero deixar que tudo isso que aconteceu durante todos esses anos suma assim... Num piscar de olhos. Não agora que nós superamos aquela... – Lana então ficou em silêncio.

Guess I got what I deserved
Kept you waiting there
Too long my love
All that time without a word
Didn't know you'd think,
That I'd forget
Or I'd regret
The special love I had for you
My baby blue

– Lana...

– O que?

Anna e Shinji estavam ainda alheios a tudo, quando viram Greg e Lana se beijando a certa distância deles, próximos a uma árvore. Naquele mesmo instante, Anna aproximou sua mão da mão de Shinji, e o oriental segurou a mão dela fortemente.

What can I do?
What can I say?
"Cept I want you by my side
How can I show you,
Show me the way

Times you know,
The times I've tried

Então finalmente, aquele beijo caloroso e fervente chegou ao fim. Greg percebeu que Lana estava com uma lágrima pronta para escorrer, quando disse:

– Você é forte, Lana Flowers. Muito mais forte do que qualquer mulher que já conheci. Não vai chorar agora.

– Para com isso. – Ela disse, soltando um sorriso, enquanto enxugava os olhos.

– Acho que vou sentir saudade de você, garota. – Greg falou.

– Não fala assim. Você não vai sentir saudade porque simplesmente você não vai desistir. Tenho certeza disso. Vou estar sempre do seu lado, não quero me separar novamente...

Anna e Shinji se aproximaram dos dois com expressões amedrontadas nos seus rostos.

– O que foi? – Greg perguntou.

– Ouvimos passos. – Anna Clara respondeu. – Pareciam estar muito perto daqui.

– Precisamos dar o fora o mais rápido possível. Eles devem saber que você é o próximo, Greg. – Lana falou.

– Merda.

– Vamos tentar nos afastar desse local, o mais rápido possível. Mas sem ficar correndo, vamos despertar muitas suspeitas. – Shinji falou.

Alguns instantes depois, o grupo, agora de quatro pessoas, voltou à floresta. Greg ia na frente, seguido por Lana e Anna, Shinji ia na retaguarda. Certo momento, Greg percebeu que toda a ação deles ainda estava sendo documentada pela câmera. Parecia uma eternidade desde que tinham saído do covil, mas só haviam se passado quinze minutos.

A floresta ficava cada vez mais escura a medida que entravam ali, até o momento em que algo apareceu por entre as árvores. Uma cabana encravada no meio da floresta. Greg logo reconheceu como sendo a cabana de Abigail. Mas as luzes estavam todas apagadas por completo.

– É a cabana daquela senhora... – Lana falou.

– É um abrigo. Precisamos ver se conseguimos um pouco de ajuda. – Shinji respondeu.

Greg lembrou-se do grupo que deixara na cabana. Será que ainda estavam ali? Valia a pena tentar. Por outro lado, estava extremamente desconfiado que Abigail tivesse algo a ver com os sacrifícios. Mesmo assim, cedeu.

Shinji abriu a porta do local lentamente, as velas iluminavam todos os cômodos da pequena cabana. Anna, Lana e Greg entraram logo depois. A aeromoça reconheceu de imediato a pequena filha, dormindo no canto da pequena sala, junto de outra moça.

– Anna Bella! – Anna Clara correu para a filha, acordando a mesma. – Você está bem. Graças a Deus! Você está muito bem!

– Mamãe? – A garota piscou os olhos algumas vezes. – Papai? São vocês?

– Mamãe está aqui agora, pode ficar tranquila. – Ela disse, abraçando a garota.

– Quando vamos sair daqui desse lugar? – Ela perguntou, sendo respondida por Shinji.

– Logo querida. Vamos todos deixar esse lugar, e todos estaremos bem.

Lana observava a cena de reencontro dos filhos, mas não deixou de prestar atenção em Greg, que se aproximou de Clarisse.

– Clarisse, onde está a Nina?

– A Nina... – A moça ainda falou sonolenta. – Ela saiu. Foi a procura de... você, Greg.

– Merda. Ela está com alguém?

– A Serena também foi com ela. Não sei onde elas estão.

– Pera, a Nina tá praticamente sozinha no meio dessa floresta imensa? Não pode ser. – Lana falou. – Alguém precisa achar ela e essa Serena. São somente elas e as... Agora que me lembrei.

– O que foi? – Clarisse perguntou.

– A Valentina, a Lena e a Mônica também estão aqui, e sozinhas. Perto do vilarejo. Se pudéssemos juntar a todos...

– Esses animais também irão atrás delas, tenho certeza.

– Já foram, Greg. Já foram.

– O que está acontecendo? – Uma voz ressoou na cabana. Era Abigail. – Mais visitas? A essa hora da madrugada? Vou trazer um chazinho para todos vocês.

Abigail entrou novamente no cômodo de onde saíra, andando apressadamente. Greg olhou para Lana e falou:

– Essa velha me dá arrepios. Mulher mais louca.

– Não sei o que dizer Greg. Ela só parece meio estranha.

– Já estavam prontos. – A senhora disse, trazendo uma bandeja com algumas xícaras. – Afinal, estava esperando por visitas.

Lana e Greg pegaram o chá meio desconfiados. Anna e Shinji fizeram o mesmo, assim como Anna Bella. Clarisse disse que não gostaria de beber, mas Abigail insistiu para que ela fizesse. Logo depois, a senhora retornou para o interior da cabana.

Um grande trovão estourou no céu, e logo depois, Anna Bella caiu no chão, já em sono profundo.

– O que... – Greg olhou, espantado.

Anna e Shinji apagaram logo depois, já tinham tomado o chá da senhora. Clarisse estava espantada, não podia crer no que havia acontecido. Com certeza existia alguma substância desconhecida naquela bebida.

– Greg...

– Lana! – Greg segurou a mulher antes que ela desabasse no chão. Quando Greg tentou deitá-la no chão, ela já havia caído em sono profundo. Ele olhou para Clarisse, buscando ajuda.

– Tinha algo de errado com esses chás. – Clarisse concluiu o óbvio.

– Nós precisamos dar o fora desse lugar, mas não podemos abandoná-los. O que faremos?

Clarisse deu de ombros, ainda assombrada com o que ocorrera.

Então os dois ouviram passos. Era O Coelho andando ao lado das janelas da cabana. Greg já sabia que o mascarado sabia que estava ali. Num último ato de desespero, disse a Clarisse:

– Cuide deles, o máximo que puder. Inclusive da Lana. – Ele se abaixou e passou a mão pelo seu rosto. – Não quero fazer vocês sofrerem por minha causa.

– Fique aqui, não saia!

– Já tomei minha decisão, Clarisse. Espero que tudo termine bem, tanto para mim quanto pra vocês. Mas não tem mais volta, já decidi o que fazer.

Clarisse continuou acompanhando o homem com o olhar até ele finalmente sair pela cabana. Logo depois, sentiu um vento gelado a atingir em cheio. O fogo das velas dançou diante da jovem.

...

Lena dormia em um canto do quarto, e Mônica deveria estar dormindo no outro. Sim, ela estava no outro canto do cômodo, mas não estava exatamente dormindo. Tinha os seus olhos azuis fixos no teto, enquanto tentava esquecer o que acontecera algumas noites atrás... Quando os assassinos invadiram aquele mesmo local e quase mataram as garotas. Com exceção de Ruth.

A estudante afastou esse pensamento da cabeça. Tudo o que queria era sair daquele pesadelo o mais rápido possível. Após o episódio da erupção, sua vida virou de cabeça pra baixo. Incesto, traição, mortes... Nada disso estava realmente previsto para acontecer segundo o que Mônica pensava.

– Pare de se lamentar. – Uma voz familiar disse.

Mônica começou a procurar a direção da fala, e também com esperança de que veria a pessoa por quem tanto buscava.

– Me procurando? – Eduardo perguntou, sentado no canto a sua frente.

– Edu... O que você está fazendo aqui?

– Você não sabe que os mortos... Nós, que morremos aqui na ilha podemos nos comunicar com quem está vivo?

– Não.

– Pois bem, se encontrar com o Maurício algum desses dias ele vai te explicar direto essa parada de viagem astral, dimensões diferentes... Não tenho saco pra isso.

Mônica riu, e depois olhou para o irmão, que estava sentado ali na frente, como se nada tivesse acontecido.

– Sinto saudades de você. Mais do que imagina.

– Eu também. – Eduardo abriu um sorriso. – Mas fazer o quê? Pessoas morrem todos os dias... Eu ainda morri como sacrifício, então, não foi exatamente uma morte em vão...

– Uma pena que foi para o lado errado.

– Isso é o que vocês pensam. Ás vezes, eles estão certos, por seguir a cultura e a tradição deles. Temos o costume de julgar o tempo todo os outros, sabe? Mas eu também não aprovo o que fazem.

– Nunca tinha pensando dessa maneira.

– Quando você morre parece que fica mais sábio. – Eduardo falou.

– A... Heloísa também vê você?

– Não, isso é exclusivamente de quem se envolveu de fato com os sacrifícios, eu diria... E a Heloísa... Não é exatamente uma pessoa de ajuda.

– Como assim? Eu estava pensando em ligar para ela, tentar obter contato...

– Se fosse você não faria isso. A Heloísa nunca vai conseguir superar aquilo, mas receio que o problema possa ser outro...

– Que tipo?

– Eu não posso te responder, Mô. Meu tempo aqui está acabando. Eu só queria que... – Ele se levantou e se aproximou de Mônica, se agachando diante dela. Passou a mão gélida pelo rosto da garota, e os dois se beijaram profundamente. Mônica fechou os olhos, apenas sentindo o momento de prazer.

– Sempre vou estar cuidando de você.

Abriu os olhos, e não havia mais nada ali. Ela conseguiu abrir um sorriso fraco, diante do que Eduardo dissera antes de finalmente desaparecer. Lena ainda dormia, como se nada tivesse acontecido, e a chuva continuava a cair.

Mas a noite estava mais clara para Mônica.

...

Abigail se acomodou diante de um grande santuário a Santa Muerte, e pegou os bonecos restantes. A Inocente, a Erudita, a Donzela, o Oráculo e por fim O Mensageiro. Ela pegou o boneco e começou a passar a mão nele.

– Santa Muerte não quer perder tempo. – Ela disse, olhando para o nada.

Ela deixou o boneco no chão e buscou um pequeno baú que continha alguns estranhos utensílios. Ela sorriu e então pegou um fino alfinete, que brilhava com a luz da fogueira.

Então começou a furar o boneco, jubilante.

...

Alguns minutos depois, ele corria com toda a velocidade possível, até finalmente parar, ofegante. Ele se sentou, e tentou ouvir algum barulho, mas não havia nada. Os mascarados supostamente haviam ficado para trás. Ele só não esperava que outra força viesse atrás dele.

Greg sentiu a primeira pontada, mas não parou de correr. Até a segunda vir como força total. Ele caiu no chão, se contorcendo de dor, enquanto sentia uma dor descomunal tomar conta do seu ser. Ele estava sendo objeto de um ritual, que se desenvolvia a quilômetros de distância dele. No meio da dor, ele pensou nos bonecos de Abigail.

Ele era um boneco de voodoo.

Velha filha da puta. – Ele pensou, antes que a terceira pontada viesse de dentro para fora, assim como as outras dores. Não era somente uma, nem duas, nem três, mas agora o corpo inteiro dele ardia, como se estivesse sendo transpassado em diversas partes.

Então, sentiu uma terrível dor vinda do seu globo ocular. Os dois olhos ardiam como fogo, e ele estava sentindo como se estivesse cego. Não era exatamente uma coisa muito agradável, e Greg urrou de dor. Não podia mais aguentar todo aquele ardor.

Ele pegou a câmera, ainda presa nele e num ato de desespero ergueu-a no ar. Viu que o botão [REC] estava ligado.

...

Clarisse se levantou ainda apreensiva, e deixou o grupo, que jaziam caídos no chão e seguiu, entrando cada vez mais fundo no interior da cabana. O medo a consumia inteiramente. Procurava por Abigail, que deveria pelo menos fornecer alguma resposta as perguntas dela.

Mal sabia ela que estava caminhando diretamente para a cova dos leões.

A casa estava totalmente deserta, e apenas a respiração ofegante de Clarisse podia ser ouvido. Então, ouviu alguns lamentos, que logo se transformaram em gritos. As vozes ecoavam a cada passo que dava, parecia vir de outro mundo. Os pelos do seu braço se eriçavam, e ele começou a sentir estranhos arrepios.

Chegou até a parte externa da cabana, e olhou pela janela. Lá estava Abigail levantando um boneco de voodoo, totalmente espetado. Ela espetou um último alfinete e então disse algumas palavras em uma estranha língua. A jovem se assustava a cada palavra ouvida, e a cada gesto feito. Quando Abigail levantou o boneco novamente, Clarisse pode perceber que ele se assemelhava ao homem que acabara de sair.

Greg.

Depois de um grande grito, a senhora jogou o boneco nas chamas, e ele foi consumido rapidamente pelas chamas. Depois de fazer mais alguns gestos estranhos ela se levantou, e virou. Clarisse não conseguiu sair do seu esconderijo, mas lembrou-se de que Abigail não poderia vê-la. Afinal, ela era cega.

– Ótimo esconderijo, querida. – A senhora disse, com os olhos leitosos fixos no rosto dela.

Clarisse se espantou e levantou pronta para correr, quando foi pega por trás por uma estranha pessoa. Ela conseguiu ver o rosto do Urso antes dele injetar outra seringa que possuía, dessa vez na jovem.

Ela não conseguiu nem ao menos gritar antes de finalmente apagar.

– Assim está melhor.

...

Greg tentou-se levantar, e percebeu que estava num grande espaço sem árvores. O aeroporto. Seu corpo inteiro doía terrivelmente, e ele ainda tropeçava em suas próprias pernas. Seus olhos ardiam, e ele não conseguia abri-los totalmente.

– Eu não sei nem porque estou fazendo isso... Mas preciso documentar... – Ele disse para a câmera, que focava no rosto desolado do barbudo.

Eu tenho esperança de que tudo termine bem, mas para mim... A coisa parece cada vez mais distante. Estou caminhando para a morte... Mas eu quero que tudo isso tenha sido em vão... Me perdoem, a quem estiver vendo, eu sei que se você ver esse vídeo, quer dizer que estarei morto. Mas independente do que aconteça, quero que me perdoem... Principalmente você, Lana.

Ele soltou um grito de horror, e a câmera caiu de sua mão. Ele continuava a se contorcer e rolar pelo chão do aeroporto. Ele, num esforço final, pegou a câmera mais uma vez e continuou a dizer:

Lana... Porra Lana, eu sei que cometi um monte de cagadas, nunca tive sua confiança, eu... Sei que você perdoou por aquele deslize com a garota daqui, mas eu nunca fui homem o bastante pra simplesmente pedir perdão. E é isso que estou fazendo agora. Me perdoa, Lana, me perdoa... Quero que você saiba que não quero morrer com essa culpa verdadeira. Eu...

Cara, não sei mais o que dizer. – Ele falou, ainda com lágrimas nos olhos. – Me perdoa também por ter te deixado sozinha naquela cabana, eu não queria que você se envolvesse mais com meu destino, eu preciso enfrentar tudo isso sozinho. E enfrentei, você deve saber. É tão estranho falar dessas coisas que ainda não aconteceram, mas que sei que irão acontecer... – As lágrimas começaram a cair, e Greg não fez nada para impedi-las. Que se foda se estivesse chorando. Era o que ele sentia, e nada poderia interromper que aquilo continuasse.

There’s nothing left to say now
There’s nothing left to say now
I’m giving up, giving up, giving up now
I’m giving up, giving up, giving up now

Agora ele não sentia mais as terríveis pontadas que atravessavam o seu ser, mas um ardor descomunal. Era como se o corpo dele estivesse queimando, em brasa. Ele se lamentava, e chorava como nunca. A câmera registrava tudo, enquanto tentava se levantar. A chuva já atingira aquele ponto e toda a cena se desenrolava diante de uma grande tempestade.

Me perdoa...

There’s nothing left to say now
There’s nothing left to say now
I’m giving up, giving up, giving up now
I’m giving up, giving up, giving up now

Conseguiu se levantar, mas escorregou novamente, dessa vez no chão molhado. A dor atingiu seu nível máximo e Greg não percebeu onde estava pisando. Repentinamente, o chão sumiu e ele caiu pela beira da montanha. O único ato dele foi segurar a câmera com força total, enquanto a queimação se misturava com a verdadeira dor que sentia ao chocar-se contra as pedras do morro. Seu braço estava ficando totalmente em carne viva, e certo ponto, bateu a perna esquerda contra um conjunto de pedras. Greg sentiu o osso se partir, e gritou mais forte ainda. Toda aquela dor, todo aquele sofrimento se juntava em uma terrível cena. Haviam cortes e arranhões em todas as partes do seu corpo.

I keep falling, I keep falling down
I keep falling, I keep falling down
I keep falling, I keep falling down
I keep falling, I keep falling down

Num último ponto, Greg bateu contra as pedras e o corpo dele foi jogado como um boneco para a mata abaixo. Então ele apagou antes mesmo de atingir o duro chão da floresta, enquanto caía por entre os galhos das árvores.

...

Nina estava abrigada embaixo de uma árvore qualquer, na beira da praia. A árvore não dava conta de segurar aquele dilúvio que caía do céu, e Nina estava totalmente ensopada da cabeça aos pés, e tremendo quase que involuntariamente.

Olhou para o mar revolto a sua frente, as ondas quebravam com extrema força naquela área, por conta de algumas pedras que acabaram sendo depositadas na grande erupção. Ela se ergueu e olhou para a direita, onde a desolação reinava.

Ela ainda conseguia lembrar-se do dia em que viu fogo saindo da grande montanha, devastando tudo ao seu redor. Não conseguia mais tirar aquele pensamento da mente, aquele pensamento que dera o estopim para os piores meses da sua vida.

Nina praticamente perdera tudo. Seus pais foram assassinados a sangue frio, seu namorado provou ser um verdadeiro canalha, e acabou morto e até mesmo Vanessa, que mal conhecera e já considerava muito em sua vida acabou caída pelas mãos de Santa Muerte. Sem contar os outros sobreviventes. A cada queda, era como se Nina caísse com eles. Viu Lis sendo incendiada, Wendel sendo esmagado, Eduardo sendo comido vivo. Sentiu na pele o fogo que matou Maurício, a agonia de Andreia no ventilador, a dor que Gabriel sentira ao quebrar a coluna. Não sabia sobre o destino de Ruth e Kris, mas torcia para que os dois ainda estivessem vivos.
Mas nada superou o dia em que Vanessa perdeu a vida naquela escada-rolante. As imagens daquele dia permaneciam vivas em sua mente, sempre fazendo a bióloga voltar ao passado. Ela passou a mão na sua mecha ruiva, totalmente molhada.

Mas agora precisava se concentrar em encontrar alguém. A garota se separara de Serena já havia algum tempo, e estava praticamente no meio do nada. Onde estariam agora Greg e Lana? Anna Clara? Valentina? Perguntas sem resposta.

Ela finalmente percebeu que estava agora por si mesma, e deveria escapar sozinha de todos os perigos que a ilha e a maldição reservavam para ela. Mas agora precisava ficar ali, no meio da tempestade, tremendo de frio.

Mas antes que ela esperasse, a chuva foi diminuindo gradativamente, até parar por completo. Porém a temperatura havia baixado completamente, e Nina sabia que pegaria um belo de um resfriado. Ao se levantar, escorregou no chão molhado, e caiu de cara na areia ensopada. Limpou o rosto, e olhou para trás, na direção de grande ilha.

Um raio atingia uma árvore num ponto distante da ilha, e subitamente, ela sentiu um estranho arrepio que percorreu todo o seu corpo. Um arrepio que não provinha do seu frio, mas sim de um medo verdadeiro.

...

Mônica e Valentina ainda conversavam, em plena madrugada, quando Val começou a ficar sonolenta.

– Precisa ir dormir. Você está morrendo de sono. Num dos quartos tem um sofá Val. É o máximo de conforto que podemos achar.

– Sim, sim. – Ela se levantou e colocou a pedra verde no bolso. – Bem... Vou aproveitar a deixa, pois não quero mais guardar isso até amanhã.

– Do que está falando, Val? – Mônica se levantou, curiosa.

– Você nem suspeita?

– Dá pra dizer logo, por favor? Eu não sei.

– Olhe essa foto. – Valentina falou, entregando a mesma para Mônica. – Essa aqui é você pequena.

– Tá, isso eu já sei. Mas o que tem a ver?

– Olhe essa outra foto que consegui. – Ela disse. – É você. No orfanato.

– Que... que você quer dizer?

– Mônica, você é a minha irmã perdida.

A garota ficou estática, ainda chocada com o que acabara de ouvir. Como assim ela era a tal da irmã perdida que tanto Valentina falara? Não poderia ser verdade, parecia tudo muito ilógico e impossível. E foi isso que respondeu:

– Não pode ser, Valentina. Tipo... Eu...

– É você sim, Mônica. Fui atrás dos três endereços designados pela dona do orfanato. Inclusive num deles eu quase morri... Mas então. No último local eu encontrei seus pais. Todas as informações batiam, inclusive vi essa fotografia sua, e eu esperava ver qualquer pessoa menos a garota que estava no porta-retrato junto com outro rapaz. Você e o Edu.

– Mas... Não pode ser. – Mônica ainda relutava em acreditar.

– Eu também fiquei assim, entendo o seu choque. Mas essa é a verdade, Mônica. Você não percebeu como o meu carinho por você foi diferenciado nesses últimos dias? Tá meio desligada...

– Eu juro... Não tinha percebido... Meu Deus...

Mônica ainda estava realmente desesperada por respostas. Mas só obtinha cada vez mais perguntas. Como isso poderia ter acontecido?

– Calma que todas as suas perguntas serão respondidas. – Ela abriu um sorriso. E deu um abraço em Mônica, o abraço que tanto esperou durante todo esse tempo. Finalmente Valentina concluíra a missão de sua vida, e com êxito. Mônica retribuiu e a abraçou mais forte, sentindo que a conexão das duas aumentava cada vez mais, se tornava mais forte.

De repente, um galho caiu do lado de fora, e entrou pela janela, estilhaçando a mesma completamente. A tempestade começou a entrar na sala, enquanto as duas se libertaram uma da outra, totalmente estarrecidas. Um vento frio fazia a chuva invadir cada vez mais a sala inicial daquele bangalô, enquanto uma sombra passou diante das garotas, do lado externo.

– O que foi isso? – Mônica se virou, estarrecida. – Que porcaria...

– Estou me sentindo estranha, Mônica. – Valentina respondeu. – Isso não pode ter acontecido por acaso...

– O que você quer dizer? Isso é uma pista para... um novo sacrifício?

– Pode ser que não, mas cada vez mais tenho certeza de que é exatamente isso que irá acontecer... Com quem eu não sei, mas... – Ela olhou para Mônica. – Vai acontecer. Isso é uma certeza.

– Greg...

– O que? – Valentina perguntou.

– Greg Kaulfuss. Ele veio na minha mente agora... Será que isso é um sinal de que ele é o próximo sacrifício?

– Um pensamento não quer dizer nada, irmã. Pelo menos, eu acho.

Mas não era uma simples coincidência a lembrança de Mônica exatamente no momento em que uma pista para um dos sacrifícios aparecia diante dos olhos das duas. Valentina estava apreensiva, e Mônica estarrecida. O encontro das duas irmãs foi emocionante, mas foi arruinado por Santa Muerte querendo revelar seus mistérios.

Logo depois, um grito veio do quarto.

– Lenaaaaaa! – Valentina gritou, correndo na direção do quarto. Mônica a seguiu, desesperada.

Mas já era tarde demais. Quando as duas chegaram, a janela estava totalmente destruída, e o vento trazia a água para dentro do esconderijo das garotas. Olharam ao redor, mas Lena já não estava mais ali.

– Não, não... – Valentina caiu no chão, quase chorando. – Por que essa porcaria nunca tem fim?

Mônica continuou olhando para a janela, em silêncio. Primeiro Lana e agora Lena. Onde estariam as duas?

No meio de todo aquele choque, Valentina sentiu a pedra verde estranhamente pulsar no seu bolso.

...

A chuva agora caía incessantemente, e as gotas de água entravam nos ferimentos expostos do corpo de Greg. Ele ainda estava vivo, e sentia uma terrível dor que se espalhava. Com a queda, quebrara uma das pernas. Assim como ralara boa parte dos braços, e tivera ferimentos pelo corpo todo. A mão ainda tinha movimentos, e conseguiu perceber que a câmera estava em sua mão.

A sua visão já ficava turva, mas ele conseguiu ver duas figuras se aproximando lentamente. Um tinha uma máscara de Urso enquanto outro tinha uma de Coelho. O Coelho então se aproximou do homem, e tirou a máscara, segurando o grande facão na mão.

– Olá Carlinhos. – A mulher sorriu de ponta a ponta. – Pena que essa não é uma hora muito agradável de nos encontrarmos.

Ele então foi levado até o período em que o vulcão explodiu em lava. Em uma daquelas tardes, encontrara-se com uma moça. A mesma moça que quase destruiu o relacionamento entre ele e Lana.

Lana. Não podia lembrar de Lana agora, mas não poderia evitar que seu pensamento fosse levado à mulher de cabelos azuis.

– Eu sei que está me vendo e entendendo o que digo. A propósito, acho que nunca perguntou, meu nome é Maria. – Ela falou, passando a mão nos cabelos, com a mão livre.

Greg tentou virar a cabeça para o lado, e viu que a câmera ainda gravava, o botão vermelho ainda aceso.

– É agora. – O Lobo falou. Maria colocou sua máscara de Coelho, e segurou o facão com força.

Repentinamente, um grande clarão explodiu ao lado deles. Um raio. O raio atingiu em cheio uma árvore, atravessando a mesma por dentro. O impacto foi tamanho que o tronco dela não aguentou. Antes mesmo de tudo acontecer, Greg percebeu o que aconteceria. E naquele momento, fechou os olhos, concentrando todos os seus pensamentos em Lana, ignorando a dor terrível que sentia.

A câmera ainda filmava.

O tronco desabou com força total sobre o chão, onde estava o seu alvo. O próprio Greg. A árvore, com seus galhos frondosos atingiu Greg, prensando o corpo do homem contra o chão. O golpe foi avassalador, e naquele momento Greg sentiu uma estranha dor tomar conta de seu ser, e tão rápida quanto apareceu, sumiu. Ele não sentia mais nada.

Sangue saiu para todos os lados. Enquanto os galhos e a folhagem encobriam o corpo inteiro de Greg, com exceção das pernas feridas, e manchadas de sangue, caídas para o lado de fora. O líquido rubro que escorria da boca de Greg tingiu as folhas verdes de uma coloração vermelha, enquanto outra parte se misturava a água que caía e formava poças.

O Coelho então se aproximou lentamente do cenário de destruição causado pela morte, e fincou o facão na perna de Greg. Não havia mais nenhum espasmo, e o sacrifício estava concluído. O Mensageiro tinha se ido.

Então, o Lobo apontou em uma direção e Maria foi até ela, percebendo um objeto caído ao lado dos galhos, e o pegou. Era a câmera de Greg.

Ao olhar o visor, ela viu que o botão [REC] continuava ativo. Num ato de loucura, virou a câmera na sua direção e sorriu, apertando o botão logo depois.

Não havia mais nada a ser dito naquele momento. A última gravação estava concluída.

...

Naquele instante, Greg abriu os olhos, e sua visão era praticamente fuzilada por uma estranha luz, que emanava de todos os lados. Ele não conseguia reconhecer onde estava até finalmente se dar conta de uma terrível e estranha realidade.

Sem esperar, uma mão o tocou por trás. O homem virou-se imediatamente na direção do toque e se deparou com uma figura muito conhecida dele.

– Seja bem-vindo, Rato.

Notas finais
Não esqueça de comentar. As reviews são muito importantes para a continuidade do projeto.