Premonição Chronicles 2
17 Capítulo 16: La Plaga
Notas iniciais
Julho de 2014
Verão passado
Para a grande maioria dos jovens, o sábado era destinado para encherem a cara até cometerem besteiras, como: se engasgarem no próprio vômito, correrem nus pelas ruas ou praticarem sexo, pensando se tratar de uma competição animal de marcação de território. Porém, para a turma de formandos de biologia da Universidade Federal, o fim de semana seria animado e agitado, mas sem tantas preocupações. De modo que a presença da turma completa era inviável, por motivos de nem todos gostarem da ideia da comemoração pós-formal acontecer na reserva florestal do Parque Municipal, e não citaram nenhuma ideia melhor.
Com a permissão requisitada pelos responsáveis pelo parque, os jovens puderam finalmente confirmar o programa do final de semana, após a cerimônia protocolar de qualquer formatura universitária. Depois do jantar e da entrega de diplomas na noite anterior, o grupo de mais ou menos vinte pessoas seguiu para a reserva ambiental dividido em dois veículos, sendo um deles, uma Kombi de aparência hippie. Chegaram ao fim da tarde para montarem as barracas e a tarefa levou algum tempo, até que as oito barracas estivessem devidamente armadas. Como eles se dividiriam para dormir, não faziam ideia, mas isso não seria um problema até que todos decidissem descansar.
Quando a noite chegou, as garotas do grupo tomaram a frente para ditarem as regras, já que, até aquele momento, nenhum dos rapazes havia se pronunciado. De fato, elas eram mais decididas, e impuseram mais responsabilidade e controle. Enquanto dois deles preparavam a fogueira artificial – ou seja, sem chamas – apenas para iluminar o lugar, elas esperavam. Assim que o fizeram, a loira com uma chinchila no ombro disse:
— Vamos começar avisando aos marmanjos que desconhecem as normas desse lugar, que se por um infortúnio eu ou alguma das garotas encontrarmos qualquer garrafa de cerveja sequer rolando por ai, chutamos suas bundas! O mesmo vale para as embalagens de comidas e outros tipos de sujeira. — Sua voz estava firme. — Esperamos a colaboração de vocês, queridos. E que esse seja o melhor fim de semana de nossas vidas.
Ícaro, que permanecia sentado entre os rapazes, assentiu com a cabeça e pareceu caçoar de Nina ao fazer sinal de continência. Ela deu um sorriso torto, indo até sua barraca vermelha. Sidney brincava entre os fios loiros de sua madeixa.
— Está com fome, Sid? — Perguntou. — Vejamos o que temos aqui. — Ela retirou uma lata de batatinhas Pringles de dentro de sua mochila e deu um pequeno pedaço para a chinchila, que começou a roê-lo.
Seu namorado apareceu, abraçando-a por trás. Nina sabia que ele estava animado, talvez, até mais do que ela. Então resolveu acreditar que tudo ocorreria bem, e que a comemoração de conclusão de curso seria um dos melhores finais de semana de sua vida. Ela tinha Ícaro, tinha Sidney, o que mais poderia sonhar em querer além das pessoas que gosta a sua volta?
— Eu já sei o que podemos fazer nessa noite de estreia, sereia. — O homem sussurrou ao pé de seu ouvido.
Os pelos da nuca de Nina arrepiaram-se. A garota fez um gesto instintivo de se afastar, ainda segurando as mãos do namorado ao redor de sua cintura.
— Até que você demorou pra falar algo desse tipo, capitão. — A loira abriu um sorriso e recebeu um beijo no pescoço. — Te ver assim me deixa tão excitada. — Ela murmurou, enquanto deixava que ele puxasse mais seu corpo para próximo dele.
A barraca era baixa, de modo que os dois permaneceram ajoelhados. Até que Ícaro passou a mão pelo ombro dela, beijando-o em seguida. A alça do sutiã de Nina escorreu, mas no mesmo segundo ela a endireitou.
— Vamos esperar que todos estejam dormindo. Não quero correr o risco de ter uma plateia assistindo à nossa transa. — Seu rosto corou violentamente.
— Por mim, não faz diferença nenhuma. — Ícaro replicou, recebendo um soco no braço.
— Babaca.
A loira se endireitou e saiu da barraca rindo. Sid a seguiu, então colocou o animal em seu colo e caminhou por entre os arbustos, até voltar para onde os outros jovens estavam. Ícaro viu a lata de Pringles aberta, ao lado de um saco de dormir desfeito. Tomou as batatinhas em mãos e ficou dentro da barraca, comendo-as. Após a última mordida, ele ouviu seu celular tocando dentro do bolso da bermuda. Tirou o aparelho e leu o visor. Arfou e atendeu, olhando para os lados, desconfiado, tomando cuidado para que ninguém estivesse ouvindo-o. Nem mesmo Nina.
— O que você quer?
— Qual o motivo de tanta grosseria, baby? — A voz ao celular soou feminina e sensual.
— Já disse que hoje não dá, ok? — Elevou o tom de voz por um instante. — Além disso, Nina está aqui e isso poderia virar uma chacina, caso ela descobrisse. Então, para de ligar e aproveita essa noite com teu namoradinho de merda. — Ele disse num tom relativamente baixo, impaciente. — Depois nos falamos.
Por fim, Ícaro desligou o aparelho celular e depositou no bolso, saindo da barraca, após jogar a lata de Pringles em um canto qualquer. Lá fora, viu a maioria dos adolescentes se divertindo, enquanto três garotas rebolavam, outras riam e alguns rapazes bebiam suas cervejas. O ex-militar foi de encontro aos demais e sentou-se ao lado de Nina, que estava visivelmente distraída, conversando com um rapaz carregando uma GoPro. Ele possuía cabelos encaracolados, como os de anjo e vestia uma camiseta marrom, deixando seus poucos músculos amostra. No rosto dele poucos sinais, semelhantes às sardas. Os dentes brancos e alinhados eram mostrados de maneira espontânea, ao mesmo tempo em que ele contava alguma piada que fazia a loira rir.
Ícaro passou a mão pelo ombro da namorada de súbito, causando um pequeno espasmo de susto na recém-formada.
— Também quero ouvir a piada. — Disse ele, disparando um tom desafiador.
Recuperando-se da risada, Nina estranhou a atitude, mas pediu que Guto, seu amigo, repetisse. O garoto se endireitou na rocha na qual estava sentado e passou a contar a piada novamente. O homem de blusa xadrez aberta até a altura do peitoral estava explicitamente entediado e desinteressado no assunto, mas insistia em ouvi-lo, e sempre arrumava um momento para interrompê-lo.
Nina intercalava o olhar no namorado e no amigo, e antes que o clima ficasse tenso, pela atitude imatura de Ícaro, mudou de assunto:
— Uma pena eu não ter comparecido no concurso de Miss Pet. Espero que eles tenham entendido o motivo pelo qual não pude participar do júri... — O silêncio pairou logo em seguida.
Cansada daquilo, a loira ergueu-se do banco e passou pelas garotas que dançavam ao som de uma música pop. Também ultrapassou um espaço repleto de arbustos, e agora, caminhava por uma trilha que serpenteava até a extremidade daquele espaço, onde encontraria um lago e um pequeno píer. Um grupo de formandos também estava ali reunido, afastado da outra parte. Ela se dirigiu até o fim do píer, vendo um dos garotos tropeçar em um galho seco, cair na areia e gargalhar. Os outros caíram por cima, brincando e tirando sarro.
A loira sentou no fim do píer e afundou os pés na água, imergindo em pensamentos.
Quando uma mão tocou seu ombro.
XXXXX
Não muito longe do Parque Municipal, em um ginásio, um concurso acontecia. Os enfeites estavam todos dispostos na área demarcada em forma de elipse, para a realização da disputa de Miss Pet 2014. Todos os anos, representantes de cuidados animais são eleitas em seus respectivos bairros para participarem do concurso, onde todas saiam beneficiadas, já que o dinheiro dos patrocínios era entregue para casas de assistências veterinárias indicadas pelas próprias participantes. Porém, apenas uma candidata possuía o privilégio de vencer e levar para casa um cheque com uma bela quantia para ajudar nos seus devidos negócios que se referem à saúde veterinária.
Entre as belas candidatas, estava Verônica. O vestido vermelho que trajava era deslumbrante. A vestimenta era justa e destacava a silhueta de manequim que a assistente de veterinária tinha. Os olhos claros ressaltados pela maquiagem esdrúxula feita pelo parceiro de trabalho e o cabelo metodicamente arrumado em um penteado elegante, para dar ênfase nos brincos reluzentes que ela colocara em contraste com as pedrarias penduradas no pescoço. Tudo produção de Kris.
Verônica sentia-se muito feliz por ter tido a chance de passar nas classificatórias e poder ajudar a clínica de Kris com o cheque de vencedora que ela poderia ganhar. A recompensa já estava sendo posta à prova com os olhos de Kris brilhando na plateia, na fileira de cadeira rente ao palco montado. Cada jovem possuía uma faixa deslizando pelo corpo, colocada estrategicamente para mostrar o bairro ao qual representava. Treze garotas estavam espalhadas pela estruturada, em pontos estratégicos para todas as fotos dos fotógrafos também posicionados de forma a proporcionar os melhores ângulos para as fotografias.
Quando o apresentador voltou a aparecer, para dar continuidade ao concurso, todos se animaram.
— Estão prontos para a última etapa do nosso concurso? — Todos gritaram entusiasmados em resposta. — É a hora de vermos o que nossas futuras misses têm para nos mostrar no quesito talento. — Então deu espaço para a primeira concorrente.
Todas apresentaram exímias habilidades, como: cantar, dançar, contar piadas, pintar, modelar, fotografar e recitar poesias de Shakespeare. Porém, faltava uma, a décima terceira candidata. O homem bradou:
— E como última apresentação, teremos Verônica! — A voz do homem era irritantemente esganiçada e rápida. — Olha só o que temos aqui, uma amostra de atuação dramática? Bem, o palco é seu. — E saiu do espaço dando alguns pulinhos.
Kris prontamente aplaudiu a amiga. Os olhos brilhando, o coração palpitando, o sangue correndo no pulso, a respiração rápida. Verônica estava linda, concluíra o veterinário de pernas cruzadas na plateia. Ele estava muito feliz pela iniciativa de sua querida Roni de auxiliá-lo nas verbas da clínica. Não queria cobrar muito dela, mas ela também era uma sócia, de certo modo e faria aquilo pelo bem dos animais. O que Kris não suspeitava, era que Verônica também faria por ele, por puro reconhecimento, queria que ele visse-a, notasse-a. A loira não estava satisfeita da parceria, e faria de tudo para que Kris lhe desse a atenção tão ansiada, mesmo estando ciente das dificuldades que teria diante da sexualidade do companheiro de trabalho.
Os aplausos cessaram e a garota iniciou sua encenação com um clássico do terror, onde ela fazia o papel de Casey, a primeira garota morta da franquia Pânico. Verônica parecia se dar muito bem interpretando uma adolescente que era perseguida por um assassino. A sua encenação agradou aos olhos do júri e fora visivelmente bem. Visto que, uma das juradas, uma jovem de cabelos azuis, olhava-a com espanto, certamente convencida.
Ao final de sua performance, todos aplaudiram. Kris gritou pelo seu nome, em comemoração pela sua ótima apresentação. Estavam espantados com tamanha habilidade de atuar. Até Kris desconhecia esse lado atriz de Verônica, de modo que ficou surpreso com tanta naturalidade.
Passados alguns minutos, para a votação e contagem dos votos, eis que surgiu no palco, o apresentador. Ele segurava um envelope amarelo, com um símbolo canino estampado.
— Estão prontos para conhecer a nossa Miss Pet 2014? — Recebendo respostas positivas, ele prosseguiu: — Os jurados foram justos e imparciais, quanto aos votos, e ainda digo mais, esta vitória foi mais do que merecida!
Com a plateia empolgada, entre gritos histéricos e um animado suspense, ele voltou a falar:
— Quem leva o título, a coroa, a faixa e o cheque para casa é...
XXXXX
As nuvens escondiam a lua, e isso fazia com que o céu ficasse mais escuro e o clima mais sombrio no Parque Florestal. Os jovens que outrora estavam correndo pela areia, agora haviam voltado para próximos das barracas.
Guga sorria para Nina, sentado ao seu lado no píer.
— Espero não ter te assustado. — Disse de maneira solene.
— Claro que não. — Nina riu em resposta, balançando os pés na água. A frieza percorreu seu corpo, enquanto uma brisa passava por eles.
O rapaz tinha uma pequena bolsa ao seu lado, assim, tirou uma latinha de Coca-Cola e ofereceu para a loira. Ela agradeceu, mas negou a bebida e continuou olhando para o céu, desejando que a lua saísse detrás das nuvens, largasse sua timidez.
— Desculpa o que eu vou perguntar, mas... — Estava recuado, sem saber se poderia indagar ou não. — O que você viu naquele cara?
Nina fingiu não entender a pergunta.
— Huh?
— O que você viu naquele cara, Ícaro, certo? Ele me parece ser tão grosso contigo. — O tom de voz ainda anunciava que permanecia receoso.
— Ele tem esse jeito bruto, mas eu gosto muito dele. — A voz de Nina estava calma como o pier. — Eu o amo.
A cada palavra proferida pelo rapaz de aparência tranquila e de voz acalentadora, parecida com a de um terapeuta, Nina sentia que ele estava disposto a chegar a algum lugar com aquele assunto. Talvez devesse recuar e ficar na defensiva. Ela já conhecia parte das intenções de Guga a respeito da relação amigável dos dois. Com certeza ele estava empenhado em ultrapassar a linha tênue da amizade entre um homem e uma mulher.
Os dedos dele deslizaram pelas tábuas de madeira gélidas do píer, enquanto ligava a GoPro que carregava para onde ia. Nina mal percebeu o gesto quando ele apontou a câmera para seu rosto.
— Diga olá para meus arquivos da formatura. — E riu.
— A qual é, Guga! — Nina tapou a mão com o rosto, sentindo suas bochechas corarem violentamente. — Vira isso pra lá! — Ela ergueu-se, com a mão cobrindo a face.
Guga levantou no exato momento, ainda apontando a câmera para a loira.
— Sorria, Nina!
— Para Guga, fico extremamente envergonhada com esse tipo de exposição. — Sua voz emitia total desconforto. — Já chega, né?
— Não custa nada exibir um pouco sua beleza para os arquivos do acampamento, ora. — Gustavo continuou rodeando a garota, enquanto não largava a câmera. — Mostre sua simpatia!
— Você é surdo? Abaixa isso, babaca! — A voz soou como um trovão, despertando a atenção dos dois jovens de pé no píer. — Não percebe que ela não quer ser filmada?
— Era só uma brincadeira, cara. — Guga sentia um medo crescendo dentro de si.
— Me dá essa câmera. — Ícaro esticou o braço na direção do nerd.
— O quê? — Guga arregalou os olhos. — Claro que não, isso é meu.
— Tô vendo que além de surdo, é burro. — O homem que acabara de chegar, comentou displicente.
— Alguém te chamou aqui por acaso? — O sotaque forte de Gustavo era imposto sobre o ex-militar de certa forma, intimidador. Mas o homem não estava pouco importando com a imponência que o outro queria oferecer.
Ícaro cerrou os punhos. O rapaz de cabelos encaracolados se pôs de frente do bombeiro, apenas para receber um soco certeiro no rosto. Ele virou a face bruscamente para o lado, tendo o pescoço virado de maneira incrível. Caiu na madeira frágil do píer logo em seguida, reclamando da dor no osso do nariz. Ícaro encarou o rapaz no chão, erguendo-se.
— Não precisava disso! — Nina se colocou na frente de Gustavo.
— Ele estava se engraçando pra você, acha que eu não vi? — O homem ergueu o tom de voz, passando a gritar.
— Óbvio que não, somos só amigos e estudamos juntos! — Ela gesticulava com as mãos, para que ele se afastasse.
— Você é minha namorada e não quero você de papo com esse merdinha!
Guga ficou de pé outra vez, limpando o sangue que escorregava de seu nariz, antes de chegar aos lábios. O filete desceu e ele passou a mão, verificando a quantidade do líquido rubro. Encarou Ícaro de maneira fixa.
— Qual é a tua, cara? A Nina não é seu objeto, ok?
— Por que tu não cala essa merda de boca? — O ex-militar apontou o dedo no rosto de Gustavo, que num gesto instintivo, o segurou e retirou da linha de sua face.
Ícaro não esperou mais nenhum segundo e socou outra vez o rosto do nerd, desta vez, fazendo-o cair para trás e bater as costas contra uma estaca de madeira. Gustavo rolou para o lado, se contorcendo de dor. Ele mal podia respirar, sentindo a falta de ar se intensificar.
— Já chega! Que droga! — A loira empurrou o peitoral do bombeiro. — Ícaro, por favor, vamos sair daqui, você já fez estrago o bastante!
— Não sei como uma donzela feito ela, pode gostar de um ogro... — O murmuro do rapaz de cabelos cacheados foi audível. Então, virou seu rosto para a amiga de curso: — Nina, você merece coisa melhor.
A fúria de Ícaro já havia alcançado o ápice, seu rosto vermelho de raiva, o sangue fervendo. Logo, o moreno avançou, mas antes que pudesse agarrar Gustavo pelo colarinho da blusa gola polo, viu sua namorada entrar no caminho. Entretanto, a raiva era tamanha, que ele empurrou-a para o lado, com a força que lhe foi cabível no momento de ira. Nina caiu de bruços sobre o píer, e virou o rosto, a tempo de ver o namorado chutar a cabeça do nerd com força.
Pode sentir o estalado da vértebra do pescoço, simultâneo ao corpo rolando e tombando dentro da água esverdeada. O homem ficou estático, vendo o corpo franzino do rapaz, submergir no lago. A loira ergueu-se do chão e correu para a ponta do píer, mas já era tarde demais, Guga havia afundado completamente. Nina tapou a boca horrorizada, uma onda de eletricidade percorreu seu corpo. Ícaro não sabia o que dizer, enquanto movia os lábios de forma muda, incrédulo.
— Que porra você fez aqui? — Nina se ajoelhou na ponta do píer e olhou novamente para a superfície da água. Calma, chacoalhando tranquilamente.
O namorado fez menção em se aproximar, mas Nina o repeliu, pondo as palmas das mãos em sua direção. Disse:
— Não chegue mais perto de mim... — Lágrimas caíam em seu rosto. — Ícaro, vo-você o ma-matou. — As palavras saiam entrecortadas por um balbucio.
— Não foi porque eu quis, sereia. Você viu, ele me provocou, eu estava apenas de defend-
— CALA A BOCA!!! — Ela o interrompeu. — Não diga mais nada, por favor. — Chorava perenemente, soluçando. Foi saindo dali com as pernas trêmulas, bambas. A cabeça girava confusa.
— Nina.
A loira olhou por cima dos ombros.
— E agora? — O moreno indagou, pondo as mãos na cabeça. — Vou em cana. Irão notar a falta dele. O que vai ser de mim?
A jovem silenciou, respirou fundo e continuou andando. Sidney estava parada no começo do píer, mexendo numa latinha de Coca-Cola.
XXXXX
Dentro do carro, uma música começou a tocar na rádio:
I've been a bad, bad girl
I've been careless with a delicate man
And it's a sad, sad world
When a girl will break a boy just because she can
— Amo essa música! — O veterinário disse.
— Eu também! — A moça no banco de trás completou.
Kris chacoalhava a cabeça ao som da música, batucando o volante, animado, mas sem retirar os olhos da estrada sinuosa a sua frente. Ele trafegava por uma rodovia, de modo que a escuridão da noite e a neblina atrapalhavam um pouco sua visão. No banco traseiro, Verônica também cantava a música, completamente extasiada e analisando sua coroa constantemente no espelho de mão que carregava. Havia ficado bastante feliz com o resultado do concurso. Estava voltando para casa com um cheque gordo para ajudar na clínica de Kris, na qual também era sócia. Ela balançava o papel de forma frenética, gritando de felicidade.
Usava uma jaqueta de couro de Kris sobre o vestido de festa vermelho. A coroa brilhava ao ser refletida pela claridade da lua no espelho. Sorria de ponta a ponta, evidenciando sua satisfação pelo prêmio. Soltou um beijo no ar, na direção do seu reflexo e fez um gesto de vencedora. O buquê de flores pousava ao seu lado, no banco do passageiro. Ela chacoalhou os ombros, ouvindo a música e sentindo-a causar-lhe uma sensação prazerosa.
What I need is a good defense
'Cause I'm feeling like a criminal
And I need to be redeemed
To the one I've sinned against
Because he's all I ever knew of love
— Roni, você foi demais! Estava linda! — Kris disse, dando uma leve olhada no retrovisor, encarando os olhos de lince que Verônica possuía. — Deixou todas com a cara no chão. Arrasou! — Voltou a atenção para a estrada.
— Acha mesmo, Kris? — Os olhos da loira brilharam. A maquiagem pesada continuava destacando suas expressões.
— Sim! Aposto que elas esperaram um balde no teto despencar e te banhar com sangue de porco.
Os dois riram, corados.
— Obrigada por me acompanhar. — Disse ela num tom aveludado. — Eu não faço ideia do que faria sem ti, cara.
— Sempre juntos? — Ele perguntou de maneira displicente.
— Óbvio! — E voltou a corar. — Agora aumenta essa música que essa é uma noite pra comemorar! — Vibrou, chacoalhando as mãos e os ombros, como se criasse uma coreografia para Criminal, a música que invadia o carro.
Kris ouviu o tilintar de vidro e olhou pelo retrovisor novamente. Desta vez, Roni segurava duas latinhas de cerveja Skol.
— Ei, ficou louca? É evidente que eu não posso beber, né? Dessa vez, vai me deixar só na vontade mesmo.
— Que nada! Senhor Kris Lange, ou você bebe um gole de Skol ou vou tomar medidas drásticas de tortura. — A moça tentava uma maneira de sensualizar a voz.
— Pago pra ver. — Ele respondeu, olhando de volta para a rodovia.
Verônica não esperou. Pôs as duas latinhas ao lado do espelho, no banco e passou para o banco do carona, mesmo com dificuldade e com Kris prestes a perder o controle da direção. Ela levou as mãos até a barra do vestido de maneira selvagem, rebolando. Retirou a calcinha lentamente, girando-a no ar e jogando no painel do veículo. O veterinário desatou a rir da maneira nervosa, diante de como ela lidara com a vitória no concurso.
— Você não presta, Roni! — Kris gritou. — É bom ver que o título de Miss Pet não tenha afetado seu comportamento moral.
— Se isso foi uma ironia, eu percebi, tá? — Ela riu, sensualizando no banco, levantando a barra do vestido o bastante para suas coxas ficarem inteiramente de fora. — Não banca o Big Daddy uma hora dessas, queridinho. Não combina com você.
A loira tateou as duas latinhas de cerveja e abriu uma delas. A outra ela jogou no colo de Kris. Nesse momento, o carro deles passou pela entrada do Parque Municipal, onde dois veículos, entre eles uma Kombi, estavam estacionados.
— Vamos comemorar, Kris, para de ser medroso. — Então, ela bebeu grandes goles de sua cerveja, enquanto via o amigo tatear a latinha. — Deixa que eu dou na sua boquinha. — A miss abriu a latinha e ofereceu alguns goles para ele, que não negou dessa vez e bebeu.
— Você ainda me mata, sabia?
— Sou seu karma, meu bem. Seu anjo da morte. — Roni ainda rebolava ao som da música, balançando os cabelos para o lado e para o outro, procurando acompanhar a melodia.
Let me know the way
Before there's hell to pay
Give me room to lay the law and let me go
I've got to make a play
To make my lover stay
So, what would an angel say?
The devil wants to know
Neste momento, um corvo atingiu o vidro dianteiro do carro. Verônica se assustou, gritando e largando a latinha no chão do veículo. O barulho do pássaro se chocando contra a janela assustou o rapaz, que virou o volante bruscamente. Ao perder o controle da direção, Kris levou o carro na direção do acostamento e foi ai que aconteceu.
A neblina atrapalhou a visão do veterinário, que não conseguiu ver a silhueta se movendo no acostamento. O corpo foi atingido pela lataria do veículo, de modo que subiu o capô rolando e atingiu o para-brisa em cheio, tombando para o lado. No exato segundo, Kris freou.
O impacto foi tamanho, que a rachadura no vidro ficou inacreditável, já que o corpo não atravessara o para-brisa. Com fumaça saindo debaixo do capô e o silêncio dominando o ambiente, Kris recobrou a consciência do breve desmaio e olhou para frente, avistando somente grandes árvores e um cercado de metal à beira da rodovia.
Roni levantou a cabeça, depois da onde de adrenalina que tomou seu interior, endireitou a coroa e verificou se não tinha se machucado, durante o choque do seu corpo contra o painel. No mesmo havia sangue escorregando pelo desenho recém-originado pelas rachaduras. Arregalou os olhos e tapou a boca por um instante, entreolhando-se com o companheiro de trabalho, que tremia.
— Eu o matei? — A voz trêmula de Kris quase saiu entrecortada pelo nervosismo latente.
— Só vamos descobrir quando sairmos. — A miss criou coragem para abrir a porta e sair.
O veterinário fez o mesmo, logo em seguida. Só então reparou no estrago que tinha feito. O corpo do indivíduo fora jogado a alguns metros. Permanecia de bruços, estirado sobre a terra de pedregulhos. Ambos os jovens olharam ao redor, para verificar se a estrada estava vazia. E, de fato, aquele horário proporcionava um pensamento otimista, de que ninguém além deles presenciara o acidente.
— O que faremos? — Verônica perguntou desesperada e muito nervosa.
— Vamos até lá, né? Precisamos saber se ele realmente morreu.
Ambos caminharam vagarosamente pela via, temendo terem realmente matado o indivíduo do acostamento. A loira segurou a mão de Kris, tremendo. Seu pés davam passos deslocados. A cabeça de Kris fervia. Estava com muito medo de ter que ir para a cadeia por conta do ocorrido. Aproximou-se do corpo e verificou se ele se mexia. Nada. Roni tentou acordá-lo com o pé. Ele estava mole, totalmente sem vida. O rapaz disparou:
— Droga! — Kris passou a mão na têmpora, suava bastante.
— Vamos chamar uma ambulância. — Sugeriu a loira.
— Ficou maluca? E me entregar pra polícia? Foi assassinato, Roni, eu o atropelei!
— Mas foi por causa do corvo, não foi culpa sua.
— E mesmo se fosse, iriam me prender por homicídio culposo. Além disso, vão encontrar as cervejas no carro. — O veterinário comentou. — Em quem acha que vão acreditar? No motorista aparentemente bêbado ou no fato de que a vítima atropelada está morta e meu para-brisa está todo ensanguentado?
— Quer dizer que estamos na porra de um “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”? — Verônica recuou pensativa.
— Talvez. — Respondeu ele. — A última coisa que quero nessa vida é ser preso por assassinato.
— Então temos que dar um jeito.
— Disse “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”? Lembra o que fizeram no filme pra se livrarem do corpo? — Kris perguntou se aproximando da vítima.
— Jogaram num lago... Espera! Você não está pensando em jogá-lo no lago, né?
— É isso ou ver o sol nascer quadrado. — O rapaz suspirou e baixou a tez, abaixando-se próximo ao corpo, procurando algum tipo de documentação.
Concluiu que o homem não passava de um andarilho, sem porte de qualquer tipo de documento. Agradeceu internamente por ser mais fácil, mas se culpava a todo o momento. Pediu a ajuda de Verônica, que não negou auxílio.
— Ainda tem aquelas luvas da clínica, no seu carro? — A assistente perguntou. — As digitais são um problema. A coroa continuava imponente no topo de sua cabeça.
— Sim, tenho. Vou lá busca-las. — Prontificou-se. — E ah! Roni... — Viu a jovem lhe encarar fixamente. — Este será o nosso segredo, ok?
— Vai pro túmulo. — Ela assentiu. Nunca negaria algo ao amigo, mesmo que não tivesse o reconhecimento que desejasse ou fosse contra suas ideologias. Kris era tudo que ela tinha.
XXXXX
13 de Janeiro de 2015
Agora
A clínica veterinária fora fechada mais cedo, por causa da chuva torrencial que caía sobre a cidade. Kris caminhava no corredor que dava acesso aos aposentos dos animais abrigados e que aguardavam exames no dia seguinte. Ele ouvia o barulho da queda da chuva no teto, enquanto analisava alguns papéis em suas mãos, eles se referiam às adoções futuras. De qualquer forma, a clínica também servia como lar aos bichinhos abandonados, e depois de cuidados, eles teriam uma nova família. Aquele tipo de ação deixava-o mais satisfeito, por saber que estava ajudando aqueles pobres animais a terem uma nova esperança de vida. Curá-los e proporcionar alegria novamente a eles era um de seus maiores alicerces para continuar no ramo.
O veterinário deixou que Verônica e mais outros dois funcionários fossem embora mais cedo. Um deles, inclusive, deixara diversas mensagens no celular do doutor. Kris sabia de seus interesses dentro da clínica e já estava disposto a tomar algumas medidas de precaução. Tinha ciência da beleza escultural de Jeferson e do quanto era doado àquele trabalho, mas sentira as segundas intenções do assistente e notara sua maneira de se dirigir, seus trejeitos... O veterinário apenas não queria se envolver demais, misturar o profissional e o pessoal, e trazer novamente à tona aquele sentimento que nutriu por Wendel. Um sentimento que já estava repousando no passado. Passado este, que ele não queria recordar, pelo sangue, pelo temor, pelas perdas. Por tudo.
E também havia Roni. A sócia também alimentava um sentimento muito mais complexo por ele, mas atualmente ela continuava agindo estranha. Verônica evitava o sócio constantemente, e só tratava com ele de assuntos que diziam respeito à clínica. Talvez fosse o ocorrido na ilha, quando discutiram feio e Kris deferiu-lhe uma tapa. Ficou pensando que, por mais que ela tenha lhe provocado, ele não deveria ter sido covarde a ponto de agredi-la. Ele também gostava dela, também a amava, porém, era um sentimento mais brando, mais complacente. Já o dela era mais feroz, mais selvagem, mais forte. Kris não sabia como lidar com os sentimentos alheios, ainda por cima, um sentimento que tinha ele como pivô.
A verdade é que, quanto mais a loira se afastava dele, com mais receio ele ficava. O medo de que ela contasse sobre o que ambos fizeram no verão passado, aumentou. Kris precisava ter uma conversa com a moça, impedir a distância, que eles não se falassem mais como antes, que Roni se fechasse completamente para ele. O maior medo era o de que os dois não se reconhecessem mais.
O veterinário olhou pelo vidro da primeira porta, girou a maçaneta e entrou.
— Oi meu amores! Vocês estão assustados com esse temporal? Não se preocupem, o tio chegou.
Foi recebido por pouco mais que meia dúzia de cães, que saltaram sobre ele. Alguns fazendo carinho, outros pulando de alegria e outros apenas abanando o rabo. Entretanto, tinha certeza de que todos permaneciam felizes, por ele simplesmente existir. O sorriso seguinte foi irreversível.
Longe dali, no seu escritório, dentro do bolso de seu jaleco pendurado num cabide, seu celular tocava insistentemente, exibindo um número desconhecido no visor.
XXXXX
Da última vez que tentaram entrar em contato com os sobreviventes a energia do prédio acabou. Havia cinco pessoas na sala de estar do apartamento de Greg, incluindo ele, antes de tudo se tornar escuridão. Lena retirou os fones rapidamente, encarando o breu, como se procurasse os demais. Ao seu lado, no sofá, Mônica se mexia e parecia tatear o ar. A luz da lua era encoberta pelo tempo extremamente nublado e as cortinas escuras do apartamento, agora tapando a claridade que vinha de fora. Lana, que estava mais próxima da janela, abriu as cortinas e deixou que o pouco de iluminação natural que ainda existia, entrasse por lá.
Do outro lado do cômodo, em uma poltrona, Nina agarrou as pernas, encolhida. Debruçou o corpo sobre as coxas e depositou o queixo em cima dos joelhos, aflita. Abaixada de frente para uma estante atrás do assento, Lana vasculhava as gavetas de maneira frenética, à procura de um item que pudesse iluminar o ambiente. Achou duas lanternas na última gaveta e deu uma para Greg.
As lanternas se acenderam ao mesmo tempo. O feixe de luz foi na direção de Lena, que fechou os olhos e pôs a mão no rosto.
— Pode virar isso pra lá? — Lena detestou o momento por não ter chances de ouvir sua música a vontade.
— Foi mal. — O barbudo respondeu, vendo Lana colocar a outra lanterna sobre a mesinha de centro, apontada para cima.
Greg continuou com a lanterna na mão, caminhando pelo cômodo.
— Será que elas estão bem? — Nina murmurou.
— Espero que sim, só de pensar no que pode acontecer... — Mônica disse no outro lado da sala, entrelaçando os dedos sobre o colo. — Já fico angustiada. Isso só pode ser um pesadelo e logo irei acordar.
— Eu queria pensar dessa forma. — Lena retrucou. — Infelizmente é impossível ser otimista nessas circunstâncias, mesmo torcendo pra que tudo dê certo.
— Concordo. — Foi Greg quem disse. — A loirinha tem razão.
— Pois eu discordo. — Lana respondeu prontamente. — E acho que Nina também.
— Isso. — Completou a bióloga. — Tem sempre espaço para o otimismo dentro de qualquer circunstância pessimista. Mas confesso que houve momentos em que eu quis morrer por não saber de onde tirar pensamentos positivos.
Todos fizeram silêncio, com a voz da jovem desaparecendo aos poucos. Na claridade parcial, Nina percebeu uma mão pousando em seu ombro. Elevou o olhar e viu Lana acenar positivamente para ela.
— Não aguento ficar aqui esperando, tenho que ir atrás delas. Devem estar precisando da nossa ajuda. — Greg pegou as chaves do carro e foi na direção da porta.
— Vou com você. — Lena respondeu, seguindo-o.
— Nós ficamos aqui e esperamos por notícias. — Lana caminhou até a porta, vendo Greg e Lena desaparecerem no fim do corredor.
A lâmpada começou a dar sinais de que a energia estava prestes a voltar. Quando voltou, desligaram as lanternas e se puseram a preparar alguma coisa para comerem, enquanto aguardavam as notícias. Mônica revelou ser boa com a cozinha, e Nina parecia estar indisposta. Então, a garota de cabelos azuis e a universitária ficaram responsáveis pelo lanche.
XXXXX
Algumas horas depois
Anna Clara abriu os olhos, mas o cenário continuava escuro. Ela não conseguia enxergar nada, mesmo estando de olhos bem abertos. Por causa disso, não distinguira do que se tratavam as superfícies sólidas que a cercavam. Se tivesse um pouco de sorte, apostaria que estava dentro de uma caixa de madeira. Logo, lembrou-se de um caixão e uma sensação estranha de agonia tomou conta de si. Já não se sentia mais à vontade para respirar e os pulmões começaram a pesar. Puxando o ar com força, ela tentou manter o ritmo normal da respiração, mas não havia oxigênio que ela pudesse utilizar.
Respirar tornou-se uma tarefa quase impossível. Anna resolveu tentar sair. Batia freneticamente na caixa de madeira, procurando se livrar dela. A comissária de bordo gritava, pedindo socorro, mas ninguém parecia ouvi-la e quanto mais gritava, mais ar faltava. Começou a lançar cotoveladas contra a madeira, sem obter êxito em se libertar.
De repente, areia começou a entrar por uma fresta na caixa. A areia começou a encher o caixão de maneira absurda. Anna debatia-se, sem saber o que fazer, além de entrar em desespero. O suor pingava na sua roupa, mas ela sabia que aquela roupa não era dela, que apenas a consciência lhe pertencia. A fresta aumentou e a terra começou a entrar ainda mais. Anna habitava o corpo de outra pessoa, que julgou ser uma mulher pelo porte físico. Gritou mais uma vez, mas agora, a areia entrara em sua via oral, adentrando em sua garganta e invadindo sua traqueia.
A aeromoça engasgou-se, antes de ficar completamente sem ar e sentir a face superior do caixão arrebentar e a terra cair sobre ela, cobrindo seu corpo por inteiro.
Acordou com uma carícia de Shinji em seu rosto. Notou que era o homem pelo forte perfume que ele costuma usar. A mão quente e macia acariciou novamente o rosto afilado de Anna, enquanto ela recobrava a consciência aos poucos. O oriental percebeu os estímulos e sorriu ao vê-la de olhos abertos. A aeromoça suspirou aliviada, pelo que vivenciou ter sido apenas um pesadelo. Ainda poderia sentir a areia em sua garganta, tossindo brevemente.
— Que bom que acordou. — O homem comentou.
Só então Anna Clara deu por si de onde se encontrava: um leito de hospital.
— Onde está Anna Bella? — A morena procurava pela filha em qualquer lugar do cômodo.
— Ela ficou com sua mãe, pra que eu pudesse vir.
— Co-como você...
Shinji entendera a pergunta antes mesmo de a esposa completa-la. Apontou com a cabeça para a porta. Lá estavam Greg, Lena e Valentina; parados, observando-a. A guia foi a única que entrou. Caminhou em passos lentos, até chegar à cama. Sorriu ao ver Anna acordada.
— Muito obrigada. — Foi a primeira foi que disse, enquanto abraçava a mulher.
— Ainda bem que foi apenas um susto. — Anna arfou aliviada. Parecia que um peso de toneladas havia sido retirado de suas costas. Ter salvado Valentina, fora como ser bombardeada por um canhão de pétalas de flores. — É bom ver que está bem.
— Você também. Foi muito guerreira. — A guia disse de maneira corada.
— Agora sou eu quem agradece, Valentina. — Anna sorriu. — Honra muito o nome que tem. Sua valentia te deixou viva.
— Talvez mais viva do que antes. — Replicou a hippie, sentindo a gratidão crescer. — Com uma maior vontade de viver, sabe?
A aeromoça assentiu, compreendendo a situação. Seus olhos brilharam ao ouvir a fala da moça. Logo, Valentina se despediu dela com um beijo rápido na testa, pedindo que melhorasse logo. Greg e Lena acompanharam a garota, sem dizer nenhuma palavra, se comunicando com Anna de onde estavam. Ela agradeceu Greg e a loira que o seguia, porque foram eles que encontraram as três mulheres desacordadas no porão da casa abandonada, depois do chão ceder.
No momento em que chegaram, o barbudo e aloira de maquiagem pesada presenciaram a chuva encharcar o pisto, de tal modo que as roupas das jovens também se encontravam molhadas. Os pingos pesados do temporal entravam pelos buracos de desgaste do teto frágil. Aquele lugar precisava ser demolido urgentemente. Tiveram êxito no resgate graças à força de Greg e às orientações de Lena. Trataram de chamar a ambulância logo depois, e esta ficou encarregada de trazê-las ao hospital.
Valentina teve pouquíssimos arranhões e rapidamente fora medicada. Fora difícil Anna Clara recobrar a consciência, por este motivo, fora deixada em observação e em completo estado de repouso, devido à pancada instantânea causada pela queda. Porém, quem dera o maior trabalho fora Ruth, com um pequeno corte na testa e o tornozelo machucado. O mesmo não havia sido torcido, mas a queda anterior a do desmaio causara um inchaço terrível. A mancha arroxeada ao redor do tornozelo era do tamanho de uma bola de golfe. O inchaço possuía proporções menores, todavia, causara o maior estrago, pois a dor era insuportável.
Neste momento, Ruth estava recebendo os cuidados necessários, já que não teria necessidade de engessar a perna. O medicamento evitaria que o estado do hematoma se agravasse, já as faixas protegeriam de alguma infecção que pudesse vir a acontecer. A garota já estava com o curativo na testa, de modo que tentava coçá-lo algumas vezes, recebendo bronca da enfermeira que lhe atendia.
Shinji aproveitou que os demais saíram, para conversar a sós com sua esposa. Anna sentou na cama e segurou a mão do oriental, dando total atenção para ele.
— Quer me contar o que aconteceu de verdade? Porque a história confusa e as controvérsias que eles tentaram empurrar pra mim, não me convenceram. — O contador preferia ser direto.
No primeiro momento, Anna ficou sem saber o que fazer ou dizer. Seu corpo permaneceu paralisado, processando a pergunta de Shinji. Certamente, só queria ganhar tempo para pensar numa resposta mais cabível. Ela ficou pensativa por alguns segundos e decidiu contar a verdade.
— Promete que fará perguntas somente quando eu acabar de despejar tudo?
O homem acenou positivamente e sentou-se na cadeira ao lado da cama.
— Por favor, não esconda nada de mim. — Foi o que o oriental disse, depois de se sentar e inclinar o corpo na direção da esposa.
— A Ilha Vermelha foi o ponto de partida. — A expressão no rosto de Anna Clara estava plácida, apesar de continuar bastante nervosa por dentro. — Tudo começou lá, no dia da erupção.
Shinji pressentia que viria muita coisa pela frente, e que teria que arcar com as consequências daquela conversa. Entretanto, ele estava preparado para o que viesse a acontecer. Ela tinha apenas que lhe contar tudo, e só então, ele poderia lhe ajudar.
— Eu não entendo o porquê de ter sido a responsável pela previsão do acidente. Para falar a verdade, não sei por qual motivo foi entregue a mim, a tarefa de salvar aquelas vidas, naquela maldita noite. Foi tão repentino e tão sufocante... Que acabei associando às minhas crises de ansiedade. Retirei o número máximo de pessoa que consegui, com a ajuda de outro grupo de sobreviventes, mas era como se eu tivesse sendo amparada por algo... Algo que podia sentir. Parecia ser uma vibração ou energia parecida. — Quanto mais a mulher adentrava nas lembranças, mais seus olhos iam enchendo-se de lágrimas. — E logo percebi, durante a saída da ilha, naquele barco, que havia desencadeado uma sequência de acontecimentos que desafiariam minha sanidade. Juro que conseguia sentir a energia maligna que passou a me cercar, e as confirmações vieram em seguida, com as mortes dos sobreviventes se concretizando.
O contador hesitou em falar, mas aproveitou o silêncio que sua esposa fizera, para perguntar:
— Deixa eu ver se entendi, ok? — Vendo a mulher acenar, deu continuidade: — Agora, acha que essa mesma energia ou entidade maligna, que podemos associar à morte, pode vir atrás dos outros? Dos demais sobreviventes?
— Não acho, querido. Tenho certeza.
A resposta que a aeromoça deu, fez o marido congelar.
— É por isto que está aqui? Porque tentou salvar uma das vítimas naquele casarão?
Anna Clara sempre achara fascinante o jeito perspicaz de Shinji. Era como se ele conseguisse captar no ar as entrelinhas de um livro, a essência de uma ironia ou a subjetividade de uma obra de arte. Ele tinha costume de trabalhar com números, mas também possuía maestria em circunstanciais que qualquer tipo.
— Sim, meu bem. Se toda esta reação em cadeia tem mesmo este fundamento, estamos correndo perigo. — Completou a mulher.
Por mais que ela passasse verdade no olhar e nas palavras, Shinji continuava com a pontada de dúvida. Não digerira completamente o que ela dissera. Era confuso demais e colocava em risco o que eles viveram até então. Ao mesmo tempo em que poderia depositar cem por cento de confiança na amada, esta mesma confiança poderia muito bem ser posta à prova, mas era a última opção. O oriental suspirou ao encarar Anna, esperando uma resposta dele, depois do que conversaram.
O homem fechou os olhos, arfou cansado e levantou da cadeira. A comissária esperou que ele dissesse algo, mas o viu lhe dar um beijo demorado e colocar o paletó no ombro, saindo do quarto em silêncio.
XXXXX
O dia seguinte amanheceu ensolarado, diferente do clima tempestuoso no qual a cidade ficou na noite anterior. As pessoas sentiram-se mais a vontade para saírem de suas casas, darem um passeio nas pracinhas e resolverem assuntos importantes que a chuva os impossibilitou de realizar. Nina também era uma dessas pessoas que se sentiam mais a vontade durante a luz natural do sol. Nada como um dia agradável de sol. Aproveitou o clima ameno do início da manhã, para dar uma esticada nas pernas. Andava pela calçada de uma rua movimentada, onde acontecia uma feira. Já que seu destino era fazer compras para o almoço, aproveitaria aquela oportunidade para encontrar mercadorias com preços mais acessíveis do que em um supermercado.
Ela usava um vestido branco, solto e de estampa de girassóis, na altura dos joelhos. Era o seu tipo de vestido favorito para usar costumeiramente. No cabelo dourado solto, ela preferiu deixar uma tiara amarela com um enfeite ladrilhado. E nos pés, uma simples sapatilha. Nina se encaminhou até o começo da feira, enquanto brincava com o pingente de sereia em seu colar. Sidney quis ficar no apartamento, brincando com Dick e Pussy, ela pensou que não seria boa ideia, já que Sid parecia ainda não ter se acostumado direito com eles, mas resolveu dar uma colher de chá. Lana e Greg não sairiam, porque o barbudo disse que faria um vlog naquela manhã. A mulher de cabelos azuis se disponibilizou a tomar conta da pequena chinchila, enquanto a dona estaria fora, fazendo compras.
A bióloga analisou algumas frutas e legumes nas barracas, perguntando os preços primeiro, para depois decidir qual seria o melhor negócio. A quarta barraca de frutas ofereceu o melhor preço, então Nina resolveu comprar. Faria uma salada para ela, e faria o mesmo para os dois que a aguardavam o apartamento. Sentia-se egoísta por não levar nenhum tipo de carne vermelha, frango ou peixe para Greg e Lana, mas eles entenderiam. Por outro lado, a bióloga sentia o dever comprido, por evitar contato com o que, um dia, fora um animal indefeso. Além do mais, Greg poderia comer outras coisas, já que ele era tão acostumado com outros tipos de refeições como hambúrgueres e afins, mesmo que estes também levassem algum tipo de carne. Lana era mais leve e compreensível. De qualquer maneira, também tinha outro costume, mas com certeza ela iria adorar as panquecas e as omeletes que Nina prepararia.
No meio do percurso, a bióloga acabou esbarrando numa garota que também fazia compras.
— Desculpe-me. — Ambas disseram em uníssono.
Quando a garota de cabelos loiros levantou a cabeça, desconsertada, Nina pode reconhecê-la.
Isabella era uma das pessoas que haviam saído da ilha no barco, e consequentemente, uma sobrevivente. A preocupação da bióloga logo aumentou, temendo que a garota não estivesse familiarizada com o que estava acontecendo. Ficaram se entreolhando por alguns segundos, até Bella disparar:
— Te conheço.
— Também conheço você. Isabella, não é?
— Pode me chamar de Bella. — A loirinha abriu um sorriso, fechando os olhos.
Antes que o assunto pudesse fluir, Nina disse:
— Posso ver sua nuca?
A estudante estranhou a pergunta, mas logo se virou de costas e puxou o cabelo para frente, tirando-o do pescoço. Como era esperado, Nina confirmou suas suspeitas. No meio da nuca da garota havia uma cicatriz, com um formato em particular.
— Um quatro... — Murmurou.
— O que disse?
— A cicatriz na sua nuca. — Respondeu. — Lembra quando ganhou ela?
— No dia do acidente naquela ilha. Você também estava no barco que tirou as pessoas de lá, não é?
A bióloga apenas acenou positivamente.
— Bella, queria pedir o seu número de telefone. — A loira de vestido florido olhava-a seriamente. — Não precisa se preocupar. Não é algum tipo de tentativa de paquera, tá?
— Eu suponho do que se trata. — A fala da loirinha surpreendeu a outra loira, que a olhou com face confusa. — É provável que tenha descoberto a tragédia por trás da tragédia.
— O que quer dizer? — Nina fez uma pergunta retórica, pois conseguira decodificar o que a garota dissera.
— Que você sabe que essa cicatriz estranhamente tem algo a ver com a morte perseguindo todos os sobreviventes do barco. Inclusive Lis, Maurício e a mim. — Seu semblante mudou de complacência para medo em um piscar de olhos.
— Ainda bem que não terá necessidade de explicar, já que parece que conhece a situação em que nos encontramos nesse momento. — Nina pareceu aliviada por poucos segundos.
— Sua nuca deve ter uma marca parecida com a minha. — Bella deu a volta e afastou o cabelo da mulher, confirmando sua especulação. — Se parece muito com o número treze. Mas o que isso quer dizer?
As duas passaram a se encarar novamente.
— Temos que descobrir isso o mais rápido possível. — A bióloga concluiu. — Se todos possuirmos esta cicatriz, então significa que estamos interligados por ela. De qualquer maneira, deixa teu contato comigo, que ligo assim que tiver mais notícias sobre isso.
Bella assentiu.
— E tome cuidado. — Completou.
— Ela não conseguiu da primeira e nem da segunda. Um raio não cai três vezes no mesmo lugar. — Ironizou a estudante.
— Talvez a morte caia. — Nina seguiu caminho. — Fique de olhos bem abertos, ok?
Novamente Bella assentiu. Desta vez, com um sentimento ruim dentro de si.
XXXXX
O calor na cidade começou a aumentar gradativamente. Nina sentia a mudança brusca de temperatura e, apesar de adorar a luz do sol, queria um pouco de chuva para amenizar aquela sensação térmica. Abriu a porta do apartamento vagarosamente e por breves segundos teve a impressão de não ter ninguém em casa. O apartamento estava aparentemente vazio, e bastou ela caminhar pela sala, para ver os bichinhos dormindo. Dick, Pussy e Sidney estavam no sofá, descansando. Ela abriu um sorriso ao vê-los daquela maneira tão despreocupados, repousando. Logo, levou as sacolas de compras até a cozinha. Pôs os produtos sobre a mesa e tirou uma embalagem específica de uma das sacolas.
O celular no bolso dela começou a vibrar. Fazia muito tempo que Ícaro ligasse, mas ela queria um tempo. E até que os dois voltassem a ter uma conversa franca, ela preferia não ouvir a voz do namorado. Sentia muitas saudades, mas estava dando um tempo para ela mesma. Demoraria até que ela esquecesse o que viveu diante dos pais do bombeiro. Eles descontavam nela, o que tinham contra seus pais, já que eram rivais de negócios. Nunca entendera o motivo de tanta repulsa por parte do casal, porém, não queria mais tentar compreendê-los.
Conformou-se a ficar distante da presença dos dois, até para preservar-se de qualquer relação turbulenta. E nestes últimos dias, Ícaro queria que a namorada fosse viver com eles. Ela já resolvera que não faria isso, e se Ícaro quisesse, os dois viveriam em outra residência, mas não debaixo do teto do casal ranzinza.
Nina dirigiu-se ao banheiro e, no âmbito silencioso do apartamento, colocou a embalagem em cima do lavabo. Tirou a tinta de cabelo da caixa e analisou-a. A coloração vermelha daria um belo e significativo tom em sua madeixa, e ela sentia-se feliz por tomar a iniciativa, mesmo que se lembrasse de momentos terríveis e agonizantes. Vanessa nunca saiu de seu pensamento, era como se sua energia ainda estivesse grudada na bióloga. Desde que começou a vê-la e conversar com ela, captou a mensagem de que realmente a ruiva não queria distância, então já estava mais do que na hora de guardar Vanessa consigo.
A loira observou a embalagem e abriu-a, na intenção de iniciar o processo de coloração de uma mecha do cabelo.
A porta fechou-se modo lento, enquanto ela tingia a mecha.
Passaram-se alguns segundos desde o começo do processo, e Nina estava satisfeita com o resultado. Com o secador, ela pode ter melhor ideia de como ficara a tintura. A grande mecha ruiva tombava entre os fios dourados, nada discreta. A parecia imponente sobressaindo-se na outra cor. Nina baixou a cabeça para secar outra parte do cabelo.
— Sinceramente, haviam cores muito melhores do que essa, e que se aproximavam mais do tom do meu cabelo. —A voz suave penetrou em seus ouvidos e ela olhou rapidamente para o espelho, assustando-se. — Mas eu gostei. Te deu um up a mais, sabe?
O reflexo da ruiva no espelho fez Nina dar um pequeno salto e deixar o secador cair dentro do lavabo. Desligou o objeto da tomada e encarou o reflexo de Vanessa no espelho. Seus olhos brilharam a ver a ruiva de pé, atrás dela. Como da outra vez, a socialite estava de cabelos soltos, deslizando pelos ombros, como uma cascata de vinho. O vestido branco cobrindo boa parte do corpo e o olhar livre da maquiagem exagerada que costumava usar.
— Como continua me visitando? — A loira não se virou, continuou encarando o reflexo da outra no espelho. — Vane, você está morte e...
— Pelo contrário, Nina. Estou bem viva. — A mulher pousou os dedos, com as unhas sem esmalte sobre o ombro da bióloga. — Está sentindo? Sou algo físico, sou real.
Nina sentiu a espinha gelar. Ela estava realmente vendo, ouvindo e sentindo Vanessa. Talvez não estivesse mais distinguindo o real do irreal, depois de tantos traumas. A ruiva recuou e a bióloga simplesmente deixou as lágrimas desabarem, encarando a mecha avermelhada entre os fios dourados, como uma única rosa no meio do mar de margarida.
— Se está viva, por que não me dá alguma resposta, alguma luz pra sairmos disso?
— Porque estou viva em você, querida. Estou viva no seu pensamento. Sou fruto da sua culpa e da sua saudade. — A voz de Vanessa aparentava estar mais aveludada. — É uma pena que eu exista só dentro da sua mente.
— Então estou delirando?
— Digamos que você tem um pedaço de mim, ainda. A chama da minha existência se mantém acesa dentro de ti. Quando não conseguir mais me enxergar, saberá o porquê. — Em seguida, a figura ruiva deu um beijo na nuca da loira.
— A nuca... — Nina murmurou. — Vane, posso ver sua nuca?
Nina viu o sorriso travesso e malicioso de Vanessa no espelho, então se virou, se deparando com o banheiro vazio. Tudo continuava em derradeiro silêncio. A bióloga começou a questionar a própria sanidade mental, ela não estava conseguindo distinguir mais nada. A voz de Vanessa era real, ela pode sentir o toque suave, vê-la diante de si, o beijo...
— Chega Nina, você estava falando consigo mesma.
Caminhou pelo corredor e entrou na primeira porta – a do quarto dos amigos – para guardar o secador que encontrara no banheiro. Num único movimento, a porta abriu, revelando uma cena, deveras constrangedora.
O vaivém do corpo cheio de curvas sinuosas pertencentes à Lana era visto de maneira explícita sobre o corpo ogro, parrudo e tatuado de Greg. O barbudo dava estocadas firmes na namorada, com os braços fortes fechados ao redor das costas da mulher, de modo que ela soltava leves gemidos, enquanto deslizava os seios pelo peitoral peludo dele, pendurados e balançando com o movimento contínuo da penetração. Os rosnados breves que o homem mandava excitavam a garota de cabelos azuis ainda mais, e ela rebolava de maneira sensual em cima do membro do namorado.
Nina arregalou os olhos, inteiramente envergonhada, com as bochechas corando violentamente. Tapou a boca e soltou um gritinho, sem qualquer reação ou menção de mexer-se. Greg rastejou a barba contra o pescoço de Lana e a professora de inglês sussurrou algo que Nina não pode decifrar. A loira decidiu sair do quarto no mesmo segundo, com as costas rentes à parede, mas deixou que um quadro barato caísse no chão. O objeto fez barulho e chamou a atenção do casal. Greg e Lana encararam a bióloga ao mesmo tempo, cada um com seu semblante.
O cheiro de sexo continuou no quarto, aquele clima bastante peculiar. A temperatura no quarto estava muito quente, e isso forçou Nina a suar feito uma suína, o nervosismo também ajudou.
— Nossa! Perdão! Eu não devia. — Colocou um pouco de cabelo para trás. — Não sabia que estavam em casa.
Lana, extremamente corada, cabelos assanhados, soltou um riso nervoso e afundou o rosto no peitoral de Greg, sem sair de cima do membro do mesmo. O ogro simplesmente mostrou o polegar para a loira e sorriu de modo arteiro.
— Tá tranquilo, linda. — O homem disse, sem nenhum pingo de vergonha. — Se quiser pode deixar a porta aberta quando sair. — Comentou, e em seguida levou um tapinha de Lana.
— Greg! — A cantora ponderou, ainda com a face escondida.
— Fico feliz que estejam reatando. — Foi o que Nina disse, antes de sair do quarto às pressas.
Sidney lhe aguardava do lado de for.
XXXXX
Mais tarde naquele mesmo dia, Greg afirmou ter trabalho, uma sessão de fotos com um casal de noivos exóticos. Já Lana pronunciou que as aulas de inglês voltariam a todo vapor e ela não poderia deixar seus alunos à mingua. A professora de cabelos azuis também chegou a dizer que levaria Dick e Pussy para check up mensal no veterinário. Greg detestava ter que levá-los até lá, por isso Lana fazia aquele trabalho, era melhor do que ter a cara de Greg emburrado o resto da noite. Os cãezinhos seriam entregues três dias depois. Lana pagava um pacote de terapia e spa para os animais, eles mereciam ser tratados com carinho e dedicação, e o descanso dos donos era merecido. Até Greg concordava nisso.
Mesmo que eles tivessem sendo alvos da morte, eles tinham uma vida e tinham que continuar com ela até que o fim chegasse. Então, convencida de também continuar vivendo em prol do futuro incerto, Nina continuaria com o fórum, já que Eva não falara mais nada com ela a respeito da Animal Rescue e eles demorariam para restaurar aquele lugar e a Ilha Vermelha voltar a ser o que sempre fora, um atrativo turístico-social. Ela tinha muito trabalho pela frente.
A começar pela visita à casa de Ícaro, já que sabia que os pais do namorado não estariam com ele, pois provavelmente estariam na empresa da família. Depois da saída do casal de amigos, ela se arrumou, pôs Sidney em seu ombro e partiu rumo à residência dos Lemos. Eles precisavam esclarecer o que estava acontecendo entre eles, na relação e resolver de uma vez por todas essa distância que tanto lhes afetava. Ele queria explicações para que a namorada estivesse hospedada no apartamento do youtuber, e para ela, isso era bastante compreensível. Zelo ou cuidado, Nina sentia-se mais a vontade para tratar daquela forma. Afinal, tudo que ela menos queria era acreditar que Ícaro estava novamente abraçado pelo transtorno obsessivo que ele já mostrara uma vez, no acampamento de formatura.
Aquele final de semana foi o seu primeiro inferno astral. O primeiro trauma e o que causou o término do namoro entre os dois. Ficou decidido que Nina não contaria a ninguém sobre o ocorrido, mas aquele sentimento de rancor e culpa que nutriu não foi suficiente para afastar a esfera negra que rodeava o segredo. Ao mesmo tempo em que amava demais o namorado, ela tinha que desabafar com alguém ou explodiria. Encontrou o apoio de Lana, durante uma conversa virtual.
No momento em que Lana soube do fato, pediu que Nina fosse forte para aceitar as consequências, caso essas viessem sem previsão. Se encontrassem o corpo no fundo do lago, o que não poderia ser descartado, ela estaria ferrada e seria acusada de ser cúmplice do crime, por não ter relatado o feito logo após a execução. Ambas decidiram nunca mais tocar no assunto, de modo que pra Ícaro ele já tinha encerrado.
Enquanto o táxi se aproximava da mansão, a loira percebeu que um veículo a seguia já fazia algum tempo. Isso fez com que ela pedisse para o motorista parar bem na porta do casarão. O condutor assim o fez e deixou a jovem bem de frente à fachada. Ela pagou a corrida, deixou o pequeno troco com o motorista e abriu o grande portão branco, entrando. O carro que vinha logo atrás do táxi passou direto. Paranoia sua, Nina.
Com o sol se pondo, Nina abriu a porta da frente da mansão, que estranhamente permanecia destrancada. Assim que entrou no saguão de entrada, viu uma das empregadas limpando um belo lustre, imponente no teto. O objeto era deslumbrante e transmitia um transe ludibriante. Aproximou-se da mulher de pouco menos que meia-idade e perguntou:
— O Ícaro está em casa? — A loira colocou as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans.
— Ele está lá em cima, senhorita Nina, no quarto dele. — A mulher tinha um ar muito gentil. Nina conseguia sentir, e conhecia-a de outra vez que apareceu na mansão. — Mas pediu que não fosse incomodado.
— Obrigada, Mercedes. — Respondeu. — Fique tranquila, eu me resolvo com ele.
— São ordens expressas, senhorita. — A voz rouca assustou a loira, que olhou por cima dos ombros, avistando outro funcionário de Ícaro.
O mordomo se chamava Xavier e Nina também o conhecia. Porém, com ele era diferente de Mercedes. O homem careca tinha ar impetuoso e atrevido, apesar de elegante. Da primeira vez que chegou ao casarão Lemos, a loira imaginou que ele fosse o braço direito do Sr. Lemos dentro da propriedade. Isso, além do motorista da família. Ele demonstrava ter o mesmo instinto de um cão-pastor.
— Não há problema, Xavier. Já disse que posso resolver isso. — Disparou. — Com licença.
Então a moça subiu a escadaria principal, que dava acesso ao andar superior, de dois em dois degraus. O mordomo se entreolhou com a faxineira e fez cara feia. A mulher voltou a limpar o lustre e ele saiu do saguão.
Nina caminhou devagar pelo corredor. O carpete vermelho com estampado dourado era muito bonito, e certamente os pais de Ícaro sempre tiveram muito bom gosto. Silenciosa e atenta, a jovem se posicionou diante da porta do quarto do namorado. Tirou a pequena caixinha do bolso, presente que preparara para ele. Faria uma surpresa. Era o momento para os dois se entenderem, finalmente, depois de ficarem tão distantes fisicamente e mentalmente, um do outro.
Atrás da loira havia um maravilhoso quadro de um navio entre icebergs. A garota não deixou de compará-lo ao filme Titanic. Já se imaginara como Rose, mas Ícaro decerto não era seu Jack, e nunca fora. Ele era certinho demais, sempre pensou assim. Jack era um viajante, um homem do mundo, um homem “vagabundo”, que vivia às margens da sociedade na qual ela pertencia em seu papel de Rose. Suspirou e segurou o presente. Girou a maçaneta e empurrou a porta lentamente, temendo estar interrompendo seu repouso.
De repente seu mundo desmoronou. Sua cabeça foi prensada por paredes de horror e repulsa. Sua face feliz foi substituída por um semblante agnóstico. Seu coração congelou e partiu-se em múltiplos pedaços.
A mulher de cabelos negros, batom vermelho, nua e ajoelhada na cama do homem permanecia de olhos fechados, enquanto sua boca continuava afundando e engolindo o pênis do bombeiro num movimento rápido e completo. Ela passou a língua no membro ereto, gemendo de prazer e segurando-o de maneira que pudesse masturba-lo. Nina recuou, devastada. O homem continuava de olhos fechados, agarrando a raiz do cabelo da morena e empurrando sua cabeça para que o membro fosse totalmente engolido, até fazê-la engasgar e deixa-lo coberto de saliva.
A loira votou ao corredor, horrorizada. Saiu correndo pelo mesmo lugar de onde veio.
Skies are crying
I am watching
Catching teardrops in my hands
Only silence, has its ending
Like we never had a chance
Do you have to make me feel like
There's nothing left of me?
O presente escorregou de sua mão e tombou no chão, abrindo, e de dentro da embalagem saltou um relógio de ouro muito bonito. No seu centro estava escrito o nome do casal, ao redor de uma sereia entrelaçada em uma âncora. Ícaro representava a âncora, mas agora a imagem distorcida da sereia sendo esmagada pelo imponente objeto de ferro vagou pelo quarto e empurrou um misto de sensações terríveis no pensamento da bióloga.
Estava difícil para seus olhos se acostumarem com a cena que vira. Ela corria sem olhar para trás, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto sem dó. A empregada ficou sem entender nada, quando Nina passou corredor pelo saguão principal, aos prantos.
— Não conte a ele que estive aqui, Mercedes! — Disse, antes de passar pela porta e ir até o portão do jardim.
Ela parou diante das rosas brancas que a família Lemos cultivava no jardim. Banhadas pelos últimos raios de sol da tarde, elas pareciam não sentir nada, ali paradas. Nina sentiu a maior vontade de chorar do mundo. Sentia-se um ser insignificante, diante de tantas desgraças, onde ela só conseguia assistir e lamentar. A verdade era que a bióloga se via como uma pessoa feita de vidro, papel. Frágil, fácil de ser quebrada, amassada e jogada no lixo.
You can take everything I have
You can break everything I am
Like I'm made of glass
Like I'm made of paper
Go on and try to tear me down
I will be rising from the ground
Like a skyscraper
Like a skyscraper
Saiu da propriedade antes que o bombeiro pudesse saber de sua presença.
No instante em que pisou na rua, um carro veio em sua direção. Nina não teve tempo de pensar e fechou os olhos, protegendo o corpo com os braços, com as mangas longas da blusa cinza tapando sua visão. A última coisa que queria enxergar era sua morte. Esperou o impacto e então tudo clareou, tudo se iluminou ao seu redor. Seu corpo brilhou e então veio o barulho. Ela sentiu um alívio momentâneo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Tirou os braços da frente do rosto e viu o carro parado a pouquíssimos centímetros dela. Quando o farol foi apagado, pode notar quem dirigia. Ela conhecia a pessoa ao volante, mas não sabia de onde. A mulher retirou os óculos escuros e abriu a porta para que ela entrasse. Notaram-se as lágrimas no rosto da loira.
— Vem. Eu te dou uma carona. — A voz também poderia ser reconhecida à distância. Mesmo assim, Nina não teve êxito em recordá-la.
Limpou algumas lágrimas que deslizavam pelo rosto alvo.
— Quem é você?
— Você está mal, não pode ir embora sozinha nesse estado. Vem, não tenha medo. Posso te levar até sua casa. — Não era perceptível na voz qualquer pretensão, ou a mulher realmente é boa pessoa ou simplesmente ela era uma ótima atriz. — A gente pode ir conversando no caminho, estou aberta a desabafos. Só precisa confiar em mim.
Confiar em uma pessoa que não conhece? Nina não era maluca. Então, começou a caminhar na rua deserta onde ficava a propriedade, sem dar ouvidos aos pedidos insistentes da motorista.
— Não está com medo de uma mera jornalista... Está?
Foi ai que a mente da bióloga deu um estalo, e ela teve um insight.
— Sabia que estava te reconhecendo de algum lugar. Serena Rabelo, a repórter do Mais Brasil. — Nina parou.
— Ótimo! Agora sabe quem eu sou. Isso é um sim para a carona?
— Por que está fazendo isso? Não me parece uma pessoa muito solidária. — A ativista preferia ser direta. E no estado em que se encontrava, era fácil compreender sua posição.
— Aceita a carona ou não?
Nina ficou em silêncio e arfou cansada de tudo o que houve. Engoliu o choro e entrou no carro. A repórter ruiva atrás do volante somente pôs os óculos novamente e acelerou. A loira queria ficar em silêncio, apenas refletindo, porém, Serena queria conversar. Pretenciosa, a jornalista iniciou o assunto, até que ele se desembaraçasse na morte dos outros sobreviventes.
XXXXX
15 de Janeiro de 2015
O dia amanheceu ensolarado, como legado da manhã anterior, onde as nuvens não tomaram o céu. Em uma cafeteria qualquer, duas pessoas conversavam. Uma delas trajava uma camiseta esportiva, bermuda e chinelos; a outra nada discreta possuía uma blusa curtinha acima do umbigo, shorts jeans também bastante pequeno e uma sandália gladiadora que subia até próxima dos joelhos. Ele estava mais interessado em olhar para o majestoso decote da jovem mulher, que fazia seus seios saltarem para fora da mini blusa, enquanto ela repetia pela terceira vez o motivo do encontro dos dois:
— É a última vez que vou falar, Ícaro. — A impaciência transparecia na voz.
— Já entendi da primeira vez que disse. — Ele replicou. — Porém, ainda não entendi o intuito dessa conversa.
— Como assim não entendeu o intuito da conversa? Quero ficar contigo, e tu quer ficar comigo, mas pra isso acontecer, aquela lá precisa estar fora do jogo. Não vou ficar fazendo papel de brinquedo sexual! — O tom da voz aumentou drasticamente, mas ela o baixou no exato instante.
— Se estamos bem do jeito que tá, por que mudar? — O moreno bebeu um gole do café. — Faz um tempo que a gente tá se curtindo, se rolou até agora, pra quê vamos desperdiçar com esse assunto? — Ele ergueu a mão e acariciou o rosto da morena.
— Esse é o problema Ícaro, já faz sete meses que estamos juntos, e tem a idiota da Nina pra atrapalhar tudo. Quanto mais perto dela você fica, mais vontade de jogar a merda no ventilador eu tenho. — Soraia queria desafiá-lo. — Tá vendo como você quer só foder comigo e fingir que está tudo bem? Mas não está! Quero te mostrar pras minhas amigas, sair pra onde eu quiser, sem ter que estar me escondendo a todo momento, enfiada na porra da caverna das amentes! Quero ser a atual!
— Soraia, minha deusa, você está entendendo tudo errado. Só estou esperando o momento certo pra gente dar um fim nisso e eu ser todo seu. — Dessa vez, ele forçou mais uma carícia e ela recuou, indignada.
— Quem não aguenta mais esperar sou eu, já cansei dessa brincadeirinha de mamãezinha. — Levantou-se da mesa e acendeu um cigarro com um isqueiro que retirara da bolsa de zebra. — Ou você termina o namoro com a “songa-monga”, ou eu mesma jogo tudo pro alto e conto pra ela sobre a gente, desde aquela maldita festa de formatura, até aqui!
Antes de tragar o cigarro, Soraia viu Ícaro se erguer da cadeira e segurar seu braço, puxando-o com força. Os olhos dele emanavam receio e raiva.
— Eu só preciso de um tempo, falou?
— Claro, agora me larga... — Disse ela ironicamente, sentindo o homem soltá-la. — Te dou vinte e quatro horas pra me dar a resposta. Amanhã passo na sua casa pra saber o que vossa senhoria decidiu. É pegar ou pegar. Até lá, garotão. — Então tragou o cigarro e despejou a fumaça no rosto dele, pondo os óculos escuros exagerados e caminhando de modo faceiro.
Ícaro não tinha outra saída.
XXXXX
A noite chegou num piscar de olhos. Nina contara tudo que acontecera na casa de Ícaro. Estava arrasada, sem saber como reagir desde então, a não ser, escorregar nas próprias lágrimas e trazer lembranças ruins. Então o casal formado pelo youtuber e pela professora de inglês, que nas horas mais propícias dava voz para uma banda, convidou a loira para um passeio, procurando levar embora tudo de ruim que ela colhera.
O lugar escolhido? “Tex Rednick Bar”, lugar preferido de Greg e Lana. Assim que entraram, Lana deu a mão para a amiga, arrastando-a para dentro do estabelecimento. Greg preferiu entrar com estilo e ligou a GoPro no peito, aproveitando pra gravar e documentar tudo. O pedido especial do fotógrafo trouxe Lena, Ruth, Valentina, Mônica e Kris até eles. Foram os únicos que eles conseguiram reunir até o momento. Anna Clara não comparecera devido a um problema com a filha, que não quis especificar. Anna Bella parecia não estar bem. Então Greg pediu que Clara os mantivesse informados sobre o estado de saúde da garotinha.
A luz vermelha deixava o ambiente semelhante aos Saloons de velho oeste – ainda que moderno – mais hostil. As outras cores intercalavam em tonalidades vivas como sangue, vinho e até a púrpura. A mesa na qual o grupo de pessoas estava sentado era de madeira envernizada, com detalhes rústicos. As cadeiras tinham entornos que pareciam ser esculpidos a mão. Os assentos também estavam dispostos próximos da pista de dança e do karaokê, além de estarem proporcionalmente localizados diante das máquinas de apostar e fliperamas coloridos. Era uma ambiência deveras bastante aconchegante e receptiva. Nenhuma pessoa naquela mesa aparentava estar desconfortável, com exceção de Nina.
O garçom trouxe as bebidas, após Greg fazer o pedido. Uma caneca de chope pra cada um na mesa. Greg começou:
— Bom... O que temos até agora?
No exato instante em que Ruth mostraria a fotografia atualizada do rosto de todos os sobreviventes no barco, com os demais marcados com um “x” vermelho, Kris se pronunciou:
— Que tal nos divertirmos um pouco, antes de quebrarmos o clima dessa noite com esse assunto desagradável? — Kris não demorou muito para acreditar, quando foi informado sobre o que estava acontecendo.
Ele viu a maioria das mortes serem citadas e mostradas em rede nacional. Presenciara alguns fatos. Não era difícil para alguém cético, passar a crer.
— Gostei de você, cara! — Greg empurrou o ombro do veterinário, que revirou os olhos. — Mas deveríamos se preocupar mais com essa porra de lista.
— Acho que estou mesmo precisando de diversão, sabe? — Nina argumentou.
— Ok. Depois voltamos todos aqui pra resolvermos as pendências. — Lana replicou.
— Por mim, tudo bem. — Lena e Ruth se entreolharam e disseram em uníssono.
Valentina e Mônica foram as últimas a concordarem, mas apenas Mônica quis ficar na mesa. Para não deixa-la só, e ainda com o pé machucado, Ruth deu de ombros e resolveu fazer companhia para a jovem.
Os outros se espalharam pelo Tex Rednick Bar. Greg desafiou Kris no boliche e Valentina foi acompanhar os dois jogarem. Já Lana convidou Nina para irem até o Karaokê. A loira aceitou e se posicionou no palco, atrás do microfone, retraída.
— Ei, se anima! —Lana piscou. — Deixa eu escolher uma música, tá?
E naquele espaço reservado ao country, Lana não hesitou em escolher uma música que fizesse jus ao estabelecimento. A melodia de “Compass”, Lady Antebellum, começou e as duas passaram a cantar naquele dueto.
Alright
Yeah it's been a bumpy road
Rollercoasters high and low
Fill the tank, drive a car, pedal fast, pedal hard
You won't have to go that far
You want to give up 'cause it's dark
We're really not that far apart
As garotas balançavam os cabelos, enquanto dançavam ao som do ritmo animado da música. Cada uma pegou um chapéu de cowboy disponível em um cabide e echarpes de plumas coloridas. Greg ria da situação, de onde estava. Kris estava perdendo a partida e o barbudo comemorava a vitória, filmando tudo. Valentina aplaudia a performance de Kris, mesmo assim, e o veterinário agradecia se inclinando em reverência.
Quando a partida de boliche se findara, os três foram de volta para a mesa. A música das garotas no karaokê também terminou e elas caminharam até a mesa, antes passando na frente de uma grande estante repleta de bebidas que a loira nunca conheceria, mas a maioria delas ela teve a impressão de já ter visto em comerciais internacionais. No centro da base superior da estante, um imponente crânio de touro empalhado chamava atenção. Uma lâmpada fazia com que a refração de sua luz passasse pelas órbitas do crânio, de modo que as lacunas agora pareciam grandes faróis.
Ao lado da estante, pôsters de filmes famosos, e o maior deles era o clássico Evil Dead, com a inesquecível moça saindo da terra. Nina adorava a expressão daquela mulher. Ela podia se imaginar como ela. Evil Dead era um dos muitos clássicos pelo qual a bióloga era aficionada.
— Esse crânio me lembra o minotauro. — Lana comentou, vendo Greg se aproximar.
— Vamos, garotas. É sobre isso mesmo que quero falar com vocês. Disse o barbudo, olhando para a mesa de sinuca e tentado a ir até lá só pra vencer os caras que discutiam quem havia ido melhor na partida.
Os três parados diante do balcão do bar, voltaram à mesa. Atrás deles, o pôster do de Evil Dead se desprendeu da parede e caiu no chão.
Greg, Lana e Nina sentaram e se entreolharam com os demais. Quem começou foi o próprio fotógrafo:
— O que temos até agora? — Indagou, repetindo a mesma pergunta da primeira vez. E como aconteceria em outrora, Ruth lhe entregou a impressão com a fotografia no barco, retirada da internet.
— Os “X” vermelhos estão marcando os que infelizmente a morte já levou. Os que estão com os círculos brancos são os que conseguiram se salvar. Os demais são os que faltam ser rabiscados. — Foi a própria garota quem explicou, mesmo ciente de que Greg já sabia. — Lis, Wendel, Eduardo — Ela viu Kris mudar o curso do olhar, ficando cabisbaixo. Mônica fez o mesmo —, Maurício, Andreia e Vanessa... — O silêncio desta vez pareceu ser mais constrangedor. As expressões foram sendo modificadas. Ruth prosseguiu mesmo assim: — Morreram. Bella e Valentina estão salvas.
— Como sabemos que esse esquema mortal segue à risca o enredo daquele filme de terror, Premonição, onde os jovens são perseguidos depois de uma visão e etc... Quer dizer que essa tal de Bella e a Valentina não estão realmente salvas, né? — Desta vez, Kris encarou Valentina.
— Tudo indica que não estão, e que foram para o fim da fila, logo após a Anna, que consequentemente é a última. — Lena completou.
— Essa porra de ciclo é uma merda viciosa. — Greg murmurou. — Tenho a impressão de que vai acontecer pelo resto das nossas vidas.
— Se Anna estivesse aqui, poderia nos esclarecer quem é a próxima pessoa do esquema. Porque se há alguém que sabe o padrão para as mortes acontecerem, este alguém é a própria Anna. — Disse a garota de cabelos azuis. — Ela quem viu todos nós morrermos.
— Assim fica difícil. Pode ser qualquer um de nós. — Mônica se mostrou interessada na conversa, desde o início.
— Pessoal, eu tenho uma teoria para a ordem. — Todos silenciaram para que Nina prosseguisse: — Acho que a maioria de vocês já reparou que todos saímos daquela ilha com uma marca na nuca, uma cicatriz. E essa cicatriz tem um formato específico em cada um. A cicatriz parece um número.
Todos se entreolharam desconfiados.
— A cicatriz na nuca do Wendel... — Kris proferiu.
— A Vane tinha uma, eu vi. — Comentou o barbudo, conferindo para saber se a GoPro documentava tudo. — Lana também. — A mulher olhou para ele, surpresa.
— E por que não me disse? — Ela protestou.
— Ora, no momento não dei tanta importância. Além do mais, não queria te deixar preocupada.
A namorada apenas arfou, apoiando o cotovelo na mesa, analisando a fotografia deixada sobre a mesma.
— Também não cheguei a dar importância pra marca que a Ruth tem na nuca. Parece ser o número dez. — A loira de maquiagem pesada falou, e recebeu um olhar surpreso de Ruth.
— Dez? — A morena perguntou confusa. Passou a mão na nuca logo em seguida, assim como Kris, notando a protuberância.
— Já pedi pra olharem a minha. Tenho um treze. — Comentou a bióloga. — Ou seja, de alguma maneira esses números devem estar em ordem. Só temos que conectá-los às mortes. Verifiquei com a Bella, ela tem um quatro. E segundo o que sabemos, ela foi quase morta no mercadinho, logo depois das mortes na ilha.
— Sim. Wendel e Eduardo. — Valentina frisou.
— Vamos imaginar que Lis, Wendel e Eduardo tinham os três primeiros números. — Lana começou. — Bella vem em seguida, com o número quatro, e então Maurício, Andreia e Vanessa, nessa mesma ordem, com os três números consecutivos.
— Val... — Mônica murmurou. — Sua nuca...
Valentina tirou o cabelo de cima do pescoço e pôs para frente, virando de costas, ainda sentada na cadeira. Todos observaram a cicatriz.
— Se parece com um oito? — Ela perguntou, e quando retornou o olhar para os demais, confirmaram de cabeça.
— Isso! — Greg retumbou. — Os números dão a ordem para as mortes acontecerem. Quem pode ser o número nove?
— Não estão todos presentes. — Lembrou Nina. — Veem na fotografia? — A loira apontou com o indicador para a folha de papel sobre a mesa. — A família da Anna, Eva, a irmã do ruivo, o tal do rapaz com cara de criança.
— O nome dele é Gabriel. — Ruth interrompeu e Nina agradeceu. E logo a loira deu continuidade:
— Todos eles estão na foto, e escaparam da ilha no barco. Eles também são sobreviventes.
— Envolve mais gente do que imaginávamos. — Ruth concluiu.
— Não precisam se preocupar. — Foi a vez de Kris ponderar. — O número nove está entre nós.
O rapaz mostrou o celular, com a foto da própria nuca. A cicatriz acusava. Continuou:
— Eu sou o número nove. Isso quer dizer que agora a morte vem atrás de mim, não é? — O veterinário tremeu. Valentina pousou a mão sobre a dele gentilmente.
XXXXX
Eles já estavam de pé, prontos para irem embora. Logo, Ruth se pronunciou, entre as despedidas:
— Está decidido. Kris fica comigo, Lena e Valentina no meu apartamento. — Se Mônica quiser vir conosco, será bem-vinda.
A moça sorriu de bom grado.
— Ficaremos todos juntos. Caso a morte venha atrás dele, teremos como impedi-la. — Lena completou a linha de raciocínio. Ela gostou da postura firme que Ruth impusera, e do zelo com Kris.
— Mas antes tenho passar na clínica e falar com a Verônica. A gente precisa ter uma conversa urgente. — Ele disse. — Vocês vêm comigo?
As garotas assentiram e foram embora, acompanhando-o.
XXXXX
Greg, Lana e Nina sentaram-se à mesa novamente, curtindo a música. O clima country iria acalmá-los, pelo menos enquanto Kris estava a salvo com as garotas. Era melhor ele estar em grupo do que sozinho e sujeito a morrer a qualquer momento. Seja bebendo chope ou cantando, eles arrumavam a própria diversão. Entre gargalhadas e conversas jogadas fora, a loira pediu licença e caminhou na direção do banheiro, com os feixes de luzes batendo em seu rosto.
Entretanto, no meio do percurso, foi interceptada por uma mão grande e um braço forte. Agarrou seu braço, forçando-a a parar.
— Ícaro? O que faz aqui? — O olhar de Nina mudou.
— Queria fazer uma surpresa, sereia.
— Como me encontrou? — Ela falou, tentando se desvencilhar da armadilha corporal do homem alto.
— Softwares de rastreamento não são tão difíceis. — Ele falava com o tom de voz mais calmo possível. Como conseguia manter tamanha frieza. O homem balançou o celular com a outra mão.
— O quê? Seu doente! — Nina aumentou o tom de voz, desta vez, chamando a atenção de algumas pessoas próximas, que estavam dançando. — Me solta ou vou gritar.
Imediatamente Ícaro recuou, largando seu braço. Nina ficou frente a frente com ele, encarando-o fixamente nos olhos. A raiva foi subindo, até ficar entalada na garganta da moça.
— Como pude me deixar levar pela aparência de bom moço? — Sentiu as palavras entaladas. — Nunca pensei que fosse esse monstro horrível.
— Do que está falando, meu amor? Só vim aqui pra conversar.
— CARA DE PAU! — Desta vez Nina socou o peitoral do homem, que revidou com um aperto no pulso dela.
— Não estou entendendo essa sua atitude, sereia...
— Para de me chamar assim, seu filho da puta! — Os gritos começaram a ecoar pelo bar. Lana ouviu a voz da amiga e ergueu-se da cadeira. Greg levantou logo em seguida. Os dois ficaram atentos. — Você acha que sou burra? Que não sei que me traía com a vadia da Soraia? Aquela biscate não vale um tustão! Até garotas de programa são mais dignas que ela, sabia? Eu te dei toda a confiança do mundo, e você jogou tudo no lixo, quando preferiu comer essa piranha, a me dar valor! — As lágrimas rolaram desimpedidas.
Ícaro levantou a mão, fazendo menção e despejá-la no rosto da loira, quando outra mão baixou seu braço num rompante.
— Opa, parceiro! O que tu acha que tá fazendo? — Ícaro desviou o olhar para o lado, dando de cara com Greg parado, segurando seu pulso.
— Fica na tua, “mermão”. Aqui é assunto entre casal. — O bombeiro retrucou.
— Baixa a bola aí, ela é minha amiga! — Lana entrou na frente de Greg, ficando cara a cara com o bombeiro. — Fica longe dela. Além de machuca-la psicologicamente, quer agredir fisicamente? É ruim, hein. — A garota cruzou os braços.
Greg pigarreou:
— Vaza logo, antes que eu quebre tua cara!
— Estou esperando você vir, otário.
Lana e Nina olharam para os dois. Para a situação não tomar proporções drásticas, Nina decidiu agir. Saiu empurrando Ícaro, que não hesitou e foi saindo.
— Sai logo daqui! Não quero mais nada com um doente possessivo feito você! ACABOU!
— Claro que não acabou, sereia. — Ele retrucou, com o sangue fervendo por dentro, mas frio por fora. — Nada acabou. Nunca vai acabar.
— Vá se foder! — A loira gritou o mais alto que conseguiu.
E saiu furioso pela rua, chutando um grande tambor de lixo.
Nina sentou no chão, sem saber o que fazer. Bagunçou o cabelo e deixou que as lágrimas lhe afogassem. Lana agachou-se ao seu lado, repetindo que tudo ficaria bem, e que Ícaro não importunaria mais. Infelizmente ela só estava falando aquilo da boca pra fora, pois sabia que ele não deixaria barato.
XXXXX
O carro do bombeiro estacionou na porta da mansão. Seus pais jantavam fora, enquanto os empregados estavam prontos para se retirarem. O tempo ficara nublado de repente, de modo que anunciava uma forte chuva. Ícaro quase deixou que o veículo batesse no muro da garagem, mas se recompôs depois do susto.
O sangue ainda fervia, as veias na testa saltavam, as têmporas doíam e o coração pulsava celeremente. O que ele não esperava, era que Soraia estava lhe aguardando na varanda. Assim que viu o carro, a mulher correu até lá, com seu salto alto fazendo um barulho estúpido. Ela posicionou-se ao lado do carro, vendo o amante sair e bater a porta com força. Não esperou que ele viesse até ela, e disparou:
— Espero que tenha terminado tudo com a loira paraguaia.
— Não estou com cabeça pra isso agora. — Respondeu secamente, caminhando até o porta-malas e abrindo-o de maneira displicente, checando algo.
— Porra, Ícaro! Eu te dei vinte e quatro horas pra mandar a vaca pastar e você vem com “não tenho tempo pra isso agora”? — Ironizou com uma voz de falsete.
— Soraia não enche! Já disse que não tô com cabeça pra ouvir sua ladainha. — Rebateu, sentindo o pulso fervilhar e a cabeça latejar de ira.
— Se é isso que tu quer, garanhão, então veremos se a pombinha branca vai gostar de uma visitinha da amante. — Mais uma vez disparou um canhão de sarcasmo. — Ela vai ter uma surpresinha quando souber que o namoradinho bom samaritano, é na verdade um cachorrão que satisfaz meus desejos mais insanos.
A fúria de Ícaro explodiu por dentro. O homem segurou firme um pé de cabra que estava dentro do porta-malas e atingiu o rosto da morena brutalmente. O corpo tombou para trás, num gemido de dor penetrante, batendo as costas em uma pilastra e espalhando o jato de sangue na parede. O bombeiro aproveitou para expelir toda sua raiva no rosto da mulher.
— Isso-é-insano-pra-você? — A cada palavra ele deferia mais um golpe contra a face de Soraia. A morena já estava completamente desfigurada, não se ouvia mais gemidos de dor. A ferramenta esbugalhou seus olhos, enquanto quebrou os ossos da face, um por um, e transformava seus dentes em pequenos detritos pelo rosto, até que ficasse irreconhecível. O sangue salpicou na pilastra e na face do bombeiro, que apenas teve tempo de colocar o corpo desfalecido dentro do porta-malas e seguir viagem.
A adrenalina estava a mil, e ele não queria se sentir um perdedor... Fracassado. O carro acelerou na rua.
XXXXX
Minutos depois
Greg havia saído para comprar cerveja. Segundo o barbudo, se naquela noite ele não ficasse bêbado, ele não acordaria bem. As garotas não quiseram tentar entender e deixaram que ele fosse comprar a bebida.
Nina jogou-se para trás, prestes a tombar no sofá, como um míssil pronto para atingir uma cidade e causar um verdadeiro estrago. Como pudera confiar nele, dar tudo de si, para uma pessoa na qual ela tinha um pé atrás. Ela sempre desconfiou da conduta do namorado, sempre se questionou se aquele homem era realmente o indivíduo com quem ela se relacionaria para a eternidade. Tola e ingenuamente, acreditando em amor verdadeiro, como a maioria das adolescentes cegas, dopadas em seus devaneios.
Lembrou-se então de certa frase que lera num livro. Nunca esquecera aquelas palavras: “A gente aceita o amor que acha que merece”. Por ser tão vislumbrada e embebedada na bebida do sentimento trapaceiro e derradeiro, absorvia aquela sentença de que Ícaro seria o dono de seu coração, pois achava que merecia dividir sua vida com ele. Grave engano.
As costas da loira bateram no acolchoado do sofá, e ela pode descansar a cabeça sobre o colo de Lana, em cima de um travesseiro felpudo. O momento era deveras embaraçoso, já que Nina nunca passara por uma situação como aquela. Não que soubesse, mas em sua vida curta de vinte e poucos anos, só teve três namorados e um deles foi passageiro, na quarta série. Coisa de crianças curiosas. Otimismo acima de tudo. Esquecer-se do atrás para buscar o adiante. Ela repetiu múltiplas vezes o mesmo pensamento para si, se entregando às lágrimas inevitáveis que inundavam seu rosto alvo. Perdera as contas de quantas vezes havia chorado naquela semana, os olhos inchados e vermelhos, Lana acariciando seu cabelo a todo instante.
— Obrigada por tudo que está fazendo por mim. — A loira olhou fundo nos olhos da garota de cabelos coloridos.
— Estarei sempre aqui, bem querer. — Ela beijou a testa da bióloga.
Nina avistou Lana pegar o violão do lado e sentou-se rapidamente no sofá, tirando a franja loira do rosto e colocando atrás do cabelo. Ela conseguia presumir o que Lana aprontaria, mas esperou que a sua amiga dissesse o que faria:
— Já ouviu John Legend? — Lana estava visivelmente corada, queria mudar o mais rápido de assunto, queria tirar o ex-militar da cabeça da bióloga a todo custo. Fazê-la lembrar só lhe traria ainda mais mártir.
— Claro. Ele canta super bem. Por quê? —limpou as lágrimas e cruzou as pernas sobre o sofá.
What would I do without your smart mouth
Drawing me in and you kicking me out
Got my head spinning, no kidding
I can't pin you down
What's going on in that beautiful mind
I'm on your magical mystery ride
And I'm so dizzy, don't know what hit me
But I'll be alright
A voz da jovem transmitia uma maciez e tranquilidade extasiantes. A música dava uma sensação prazerosa para a bióloga, de modo que ela fechou os olhos e passou apenas a ouvir a canção de maneira concentrada.
My head's under water
But I'm breathing fine
You're crazy and I'm out of my mind
O toque do violão continuava suave, pacificador. A gentileza e o cuidado que Lana passava ao cantar e tocar, tão sublimes e especiais, eram sentidas pela loira. A delicadeza passeou pelos acordes e pelo timbre da voz.
'Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I'll give my all to you
You're my end and my beginning
Even when I lose I'm winning
'Cause I give you all of me
And you give me all of you oh
Porque tudo em mim ama tudo em você. Suas curvas e limites, suas perfeitas imperfeições. O pensamento de Nina ia muito mais além. Então era assim que ela se sentia quando estava próxima de Lana. Nina finalmente conseguia sentir a perfeita imperfeição que as unia. A perfeita imperfeição, que mesmo distante, sempre as uniu.
How many times do I have to tell you
Even when you're crying you're beautiful too
The world is beating you down
I'm around through every mood
You're my downfall, you're my muse
My worst distraction, my rhythm and blues
I can't stop singing
It's ringing, in my head for you
Com o passar dos versos, Nina buscou exatamente o que Lana queria falar, através da música. Prestou atenção em todas as palavras, gestos. Os olhos de Lana brilhando. Na sua cabeça, ela decodificava por meio da tradução, as citações da outra mulher. Mesmo quando você está chorando, você continua linda. O mundo está te massacrando, mas eu estou por perto a todo o momento. Você é minha ruína, minha musa. Minha pior distração, meu ritmo e tristeza. Não consigo parar de cantar, pois está tocando uma música em minha cabeça pra você. Nina traduzia tudo silenciosamente.
Lana não precisou cantar mais nada, e logo depois do violão parar, Nina entendeu o recital. As duas se encararam por alguns segundos, os olhos permaneciam num brilho intenso. As lágrimas da loira ameaçaram cair novamente, e naquele turbilhão de pensamentos e sentimentos, o ritmo do clima lhe empurrou para um beijo. Lana não hesitou, nem se poupou, deixando seus lábios falarem por ela.
O eco dos acordes ainda era audível nas mentes de ambas. Até que foi quebrado pelo barulho da porta sendo arrombada. O chute arrancou a tranca, que bateu na parede, quando a figura masculina se formou diante da soleira. Lana assustou-se e pegou a primeira coisa a sua frente, o vilão, empunhando-o. Nina, por sua vez, agarrou o abajur da sala e o direcionou para o homem parado diante dela.
Ícaro estava com os olhos vermelhos, fundos e possuía um olhar furioso, agressivo, mortal. Ele não empunhava nada, mas estava em posição de ataque, pronto para avançar.
— Que ideia de merda é essa de invadir a casa dos outros? — Lana indagou, sem se importar se ele iria responder ou não.
— Então era por isso que você estava tão distante de mim. — Ele começou. — Me trocou por essa sapatão... Vem cá, Nina. Desde quando é lésbica? Porque, até onde sei, você nunca aparentou curtir bater um bife.
— Vai embora, filho da puta! — Lana se levantou do sofá.
— Ícaro, me deixa em paz! Já disse que acabou, custa acreditar? Vai embora, me esquece! Aproveita e lida que você perdeu a única pessoa que realmente gostava de você.
— Eu perdi você? — O homem riu nervoso, exalando um ar psicótico no olhar arregalado. — Pelo contrário, sereia... Agora, você é mais minha que em qualquer outro momento do nosso relacionamento, que de qualquer pessoa. — E direcionou o olhar furioso para Lana.
Tomado pela raiva, agarrou Nina pelos cabelos e a puxou na direção da porta. O abajur escorregou das mãos da loira e caiu no chão. Lana largou o violão e pegou o objeto luminoso.
— Larga ela! — Gritou.
Sidney permanecia encolhida em um canto da sala, atrás de um caso.
— Meu cabelo, Ícaro! — Nina sentiu o couro cabeludo ardendo. Lembrou-se de Vanessa no mesmo momento. Então foi essa dor que ela sentiu? E de repente viu Lana se aproximar.
Nina ainda pediu que ela parasse, mas foi tarde demais. Ícaro jogou a loira no chão e aproveitou para socar a professora no meio do rosto. Ela caiu sobre o sofá, reclamando da dor. A bióloga tentou levantar, mas o homem agarrou novamente seus cabelos e arrastou o corpo dela pelo piso, até a porta.
Greg chegou correndo, largando o gradado de Skol no chão e incrédulo.
— QUE PORRA TÁ ACONTECENDO AQUI? — Gritou, vendo todos os elementos da cena e tentando digerí-los.
Lana queixando-se de dor, Nina sendo arrastada pelos cabelos e Ícaro parado diante dele. O barbudo correu até Lana, indagando o que houve. Quando voltou-se para o casal próximo da porta, já era tarde. Ícaro pegou uma das garrafas de cerveja e quebrou, ficando com o gargalo. A loira pode sentir pequenos cacos decolarem em sua roupa.
— Opa, camarada. Abaixa isso... — Greg acalmou a voz, para que o outro não fizesse nenhum besteira.
Porém, antes mesmo de repetir a fala, o bombeiro avançou, soltando Nina no chão novamente. Ela aproveitou para correr para a porta e procurar ajuda. Ícaro atingiu Greg no braço com o caco de vidro, cortando-o de imediato. Então correu para fora do apartamento à procura da ex-namorada.
Lana buscou fazer o curativo mais rápido de toda sua vida.
Nina não foi muito longe. Ícaro alcançou a garota, quando ela corria próximo de seu carro. Bastou um chute no joelho para que ela caísse e batesse o rosto no chão. No mesmo segundo o homem segurou-a nos braços, enquanto ela sacudia o corpo e abriu o porta-malas, com certa dificuldade, jogando-a dentro dele. Antes de a porta fechar com rapidez, ela percebeu que não estava sozinha. Havia outro corpo dentro do compartimento. Gritou o mais alto que pode, no momento em que Ícaro fechou a porta. A partir dali, ela sabia que estava a caminho do inferno.
Lana e Greg chegaram lá embaixo pouco tempo depois, somente para ver o carro saindo em disparada. Os dois entraram em seu veículo e partiram em perseguição. Eles precisavam ajuda-la. Custe o que custe, sejam quais fossem as consequências e os meios para tal.
XXXXX
Assim que Kris e as garotas chegaram na clínica, uma garoa começou a cair, mas o clima anunciava um temporal. O veterinário procurou por Verônica, mas a jovem não estava mais ali. No momento em que entraram no corredor que levava até as alas dos cães, viram muita areia espalhada pelo piso. O rapaz estranhou, já que nunca entrara aquela quantidade de terra antes. O teto transparente acima de suas cabeças também estava fechado, e ele não soube deduzir como aquele monte de areia poderia ter sido colocado ali.
Foi então que notou que a areia estava sendo expelida por uma grande rachadura na parede.
— O que está acontecendo? — Ouviu Ruth perguntar. A morena ainda estava mancando.
— Que estranho. — Valentina comentou.
— Será que é algum sinal? — Lena ponderou. — Nos filmes a morte dá sinais de que vai agir.
— Droga, não posso deixar meus animais aqui, eles precisam de mim mais do que nunca. — Disse Kris, pisando na areia e olhando pelas portinholas de vidro.
Os animais estavam bem.
— Vamos ficar aqui com você. — Ruth afirmou. — Vai dar tudo certo. — Desta vez, estava convicta de que a morte não conseguiria adicionar mais um ao obituário.
— Ficaremos aqui. Todos juntos! — Lena olhou para Mônica e para os demais.
Ela deu a mão para Ruth, que suava frio. Kris recebeu o amparo de Valentina, que por sua vez, sentia o rapaz tremer.
XXXXX
O jipe rasgava a estrada de mão dupla, o limpa-vidro ainda ligado naquela sintonia monótona e tensa, embora a chuva já tivesse dado uma trégua fazia um bom tempo.
Respiração pesada e braços firmes no volante do veículo, Greg dirigia. Uma expressão impassível no rosto, quase como se uma vingança planejada durante uma vida inteira estivesse prestes a se desenrolar. Lana tinha medo do que ele seria capaz de fazer.
As pernas da jovem tremiam, e ela casualmente respirava fundo, injetando doses mentais de forças em suas próprias veias. Ela não podia cair no choro mais uma vez. Ela teria que continuar forte, para que Greg continuasse forte. Principalmente por Nina.
Apesar do carro de Ícaro ser mais potente que o de Greg, o barbudo pisava fundo no acelerador, nunca se aproximando demais, nunca o perdendo de vista.
Perder Ícaro era um erro que estava totalmente fora dos planos.
– Lana, você tá bem? Tá doendo onde ele te bateu?
Sem tirar os olhos do volante, Greg murmurou numa voz rouca que, por um segundo, Lana teve dificuldade para entender. A garota de cabelo azul quis gritar que nada estava bem, e que os dois estavam fazendo tudo da maneira errada, mas preferiu seguir o próprio plano que tinha estabelecido ao sair de casa: não enlouquecer totalmente com aquela situação.
– Eu tô bem, Greg. Seu braço tá bem?
Greg coçou o queixo, rapidamente encarou o próprio braço enfaixado por Lana, com adesivos fofos improvisados para selar as gazes.
– Tá joia.
Primeiro veio o som do ar sendo deslocado do lado de fora do veículo, em seguida uma buzina.
BAAAAAAAAM!
Lana pulou no banco do veículo, subitamente alerta. Greg lentamente virou o pescoço para entender o que diabos acontecia. Um caminhão preto carregado de toras tentava ultrapassar o jipe.
– Porra. – Greg disse, mãos se fechando ao redor do volante.
Greg buzinou de volta, abrindo a janela do jipe.
– Greg, não arrume encrenca...
O rapaz respirou fundo e pisou no acelerador outra vez. O motorista do caminhão pareceu fazer o mesmo, lado a lado, um era incapaz de ultrapassar o outro.
– VAI SE FUDER SEU MALUCO!
O motorista do caminhão aproveitou a deixa e pareceu enterrar o pé no acelerador. O caminhão ganhou velocidade e ultrapassou o jipe sem olhar para trás, rapidamente entrando na mão correta da estrada.
Lana pode jurar que a traseira do caminhão iria atingir a lateral do jipe e gritou.
Greg rapidamente jogou o jipe para o acostamento de terra e freou. Instantaneamente o casal foi jogado pra frente e recuou com o cinto de segurança.
– Puta que pariu! Lana, tudo bem?
Com um aperto no coração, Lana viu. Nada estava bem.
– Greg. – Ela disse, respirando fundo, o olhar cruzando o dele. — Perdemos o Ícaro.
XXXXX
Nina não conseguia pensar direito.
Jogada de um lado para o outro no porta-malas, por vezes encarando o rosto sem vida da amante de Ícaro, por vezes respirando desesperada entre as aberturas do veículo, a garota sentia que estava prestes a explodir.
Ela estava viva demais para conseguir sentir alguma coisa além de medo.
A claustrofobia tinha finalmente deixado de ser um pesadelo. O monstro tinha saído do armário e estava agarrado nela.
Era um monstro forte, imponente, e nunca vinha uma única sensação de alívio, o terror era constante. O ar em seus pulmões era sempre escasso, quase como se ela precisasse entender como seria capaz de respirar com um oxigênio dado em gotas por uma enfermeira insana. E Nina lutava, longas arfadas de pânico em meio aos ricochetes do movimento do veículo.
A loira se perguntou o que teria acontecido com Greg e Lana.
Onde estaria o resto do mundo enquanto Nina morria?
O monstro agarrou-a com força, Nina gritou outra vez. Ela gritou também, pois se lembrou de todas as vezes que contou para Ícaro sobre sua claustrofobia, e agora o rapaz estava jogando exatamente com a porra das armas que ela mesma tinha oferecido.
Foi aí que Nina percebeu que o carro estava parando.
XXXXX
Ícaro desceu do carro sorrindo.
Ele sempre teve um bom instinto para localização. Algum minuto mais cedo na rodovia tinha enxergado uma entrada e uma estrada de terra. Seu coração apenas o dissera que aquele era o caminho certo.
Pois era.
Pela iluminação da lua cheia, Ícaro pode ver a construção. Uma espécie de encanamento estava sendo instalado na região. Diversos cilindros de concreto se estendiam por uma montanha de terra que descia uma colina. Uma retroescavadeira decorada por diversos enfeites estava estacionada próxima a um mini escritório cheio de ferramentas do lado de fora e um banheiro químico. Apesar de toda a aparelhagem, o local estava embebedado num silêncio único.
E a alguns metros de distância de onde Ícaro havia parado, quase como se o universo finalmente estivesse jogando do lado dele, pelo menos uma vez na porra de uma vida inteira, havia uma grande cova.
Ele se aproximou, o sorriso desaparecendo do rosto, se perguntando se a porra do casal estranho teria sido capaz de segui-lo ou já teriam chamado a polícia.
– Foda-se.
Assobiando, virou-se para o carro.
XXXXX
Primeiramente, Nina viu estrelas assim que o porta-malas foi aberto. Era um céu estrelado... A última vez que tinha visto um céu tão estrelado daquele jeito era na Ilha Vermelha.
Ela sugou o ar puro desesperada, incerta do que aconteceria no próximo segundo. Por instinto, ergueu-se para sentar no chão do porta-malas, mas a mão forte de Ícaro a empurrou com força para que voltasse a deitar na mesma posição.
– Ícaro... — Ela deitou de volta se sentindo estúpida. — Por favor?!
O rapaz a ignorou e abaixou-se diante dela, mas agarrando na cintura da amante morta. Ele levantou-a com uma força assustadora, e Nina sentiu as lágrimas descendo o próprio rosto outra vez.
Ícaro jogou o corpo da jovem morena em seus ombros com uma destreza invejável e lançou um olhar para Nina.
– E você, fique aí.
Nina concordou impassível, um gemido de pavor escapando de seus lábios.
Ícaro concordou positivamente, uma expressão serena no rosto, e ergueu o braço para alcançar a tampa do porta-malas.
Nina não iria deixar o monstro pegá-la novamente. Rapidamente enfiou a ponta do próprio pé descalço na abertura do porta-malas, e então viu a tampa do porta-malas descendo em alta velocidade.
A dor que sentiu na ponta de seus dedos foi imensurável. Quase como se a porra de um caminhão tivesse despencado em seus dedinhos.
Ela gritou alto, secando as lágrimas, tentando encontrar uma maneira de fazer aquela dor ir embora.
Então o ar frio tocou seu rosto, e ela se lembrou do motivo de ter enfiado o próprio pé na abertura do porta-malas.
A tampa do compartimento não tinha fechado.
Nina ergueu a tampa num segundo e lançou-se para o lado de fora.
Ela nunca tinha se sentido tão viva.
Um olhar rápido, ela estava num local deserto. Uma construção? Ela não se importou, precisava dar o fora. Com o canto do olho, enxergou Ícaro jogando o corpo da morena no que parecia ser uma espécie de buraco.
Tapou a boca e balançou a cabeça. Onde estava o homem que outrora ela tinha amado tanto?
Uma olhadela no interior do veículo, a chave não estava lá. Nina xingou.
Ainda poderia correr.
Ela desatou a correr, sentindo a terra gelada na sola dos pés, então sentiu a dor em seus dedinhos machucados. Ela não se atreveu a olhar para os próprios pés e continuou correndo, agora mancando.
– Onde é que você pensa que vai, meu amor?
Nina ignorou, cansada daquela merda. Chorando outra vez, soluçando, continuou sua corrida.
Ela sentiu que poderia correr de Ícaro para sempre. Então ouviu o rapaz arfando, agora atrás dela, e percebeu que estava fazendo tudo errado.
Sentiu a própria cabeça tombar para trás repentinamente e parou. Ícaro tinha agarrado a jovem através de seus longos cabelos soltos.
Ela gritou, Ícaro puxou com força. A jovem sentiu as pernas cambaleando e desabou no chão, ainda presa na mão de Ícaro pelos cabelos. Ela lançou um olhar para ele.
Nina tentou encontrar algo para dizer.
Ele encarou o cabelo dela em suas mãos. Então lançou um olhar para o centro da construção, próximo à cova.
– Vamos conversar num local mais iluminado. – Ícaro deu um sorriso de canto e começou a arrastar Nina, aos gritos para a cova.
Ele arrastava a jovem pelos cabelos.
Então, Nina pensou, então essa dor é praticamente um por cento do que Vanessa sentiu antes de morrer. Aquela dor foi a última coisa que Vanessa sentiu enquanto estava viva, e Nina quis morrer naquele instante com aquele pensamento, simplesmente pois poderia viver mil anos e nunca iria aceitar o destino horrível que a ruiva tinha sofrido.
Nina voltou em si, gritou outra vez, tentando esmurrar Ícaro ou atingi-lo, mas ele sempre seguia na dianteira: longe demais para ser atingido; perto demais para conseguir exercer aquele controle contínuo sobre ela. Ela se odiou, pois percebeu que tinha deixado o próprio relacionamento com Ícaro chegar até aquele ponto.
O homem soltou-a, próximo à cova. Nina encarou o buraco, e viu o corpo da mulher lá embaixo, as pernas num ângulo esquisito, irreal.
Mesmo que aquela fosse a amante de Ícaro, não era justo. Pobre garota...
– Ícaro, — Nina afogou as lágrimas. — Que merda é essa?
– Nina, eu te amo.
– Ícaro... Eu não entendo.
– Nina, aquele acidente no vulcão. Sabe, aquele acidente, a morte dos seus pais, você morando com aqueles dois... isso colocou muita coisa na sua cabeça.
Nina quis rir. Ela secou o rosto e virou os olhos, se erguendo de pé. Ela precisava ganhar tempo antes que alguma coisa acontecesse.
– Ícaro, por favor, do que você tá falando?
– Você mudou. Você não é a Nina que eu conheço.
– É claro que eu sou a Nina que você conhece.
– Você...
– O que mudou Ícaro, — ela forçou um sorriso. — É que eu finalmente vejo o quanto eu estava errada...
Um sorriso brotou no rosto de Ícaro.
– O quanto eu estava errada em me envolver com você!
O sorriso desapareceu e o rosto de Ícaro foi envolvido em fúria. Nina continuou.
– Olha ao seu redor, Ícaro! – Nina gritou. – Você matou essa mulher que... Era sua amante... – Nina não acreditava no que estava dizendo. – Você Ícaro... Você é um monstro!
– Nina, tudo o que eu fiz foi pelo nosso amor.
– Pois enfia esse amor todo no teu rabo, Ícaro! – Ela gritou. – Você é doente!
– Amor, — Ícaro disse, se controlando. – Eu sei que... Uma parte de você ainda...
– Escuta o que você tá dizendo, porra! – Nina cuspiu as palavras, desespero crescendo. – Nenhuma parte de mim te ama! Se tem alguém que eu amo é...
– Nina. — Ícaro riu nervoso. — Você nem é lésbica...
– Eu posso ser a merda que eu quiser! — Nina urrou. – Eu controlo a minha vida agora! E se tem uma coisa que eu não quero, é ficar perto de você!
Ícaro avançou contra Nina. A jovem recuou, mas o rapaz foi mais rápido e então desferiu um soco contra o rosto dela.
A jovem gritou assustada com o golpe e tombou em direção a cova. Ícaro deu um grito assustado também.
Nina caiu no buraco com um estalo de ossos quebrando, ao mesmo tempo em que o grito cessava. Ela não se mexeu mais. Ícaro encarou a cena, horrorizado.
E foi aí que ele caiu de joelhos, chorando.
XXXXX
My tea's gone cold, I'm wondering why
I got out of bed at all
The morning rain clouds up my window
And I can't see at all
And even if I could it'd all be gray,
But your picture on my wall
It reminds me that it's not so bad
It's not so bad
A decisão de Ícaro já tinha sido tomada.
Sentindo-se sufocado por estar no fundo da cova, o rapaz terminou o nó ao redor do pulso da garota.
O corpo de Nina ainda estava quente. O bombeiro tentava não pensar em como lidaria com toda aquela situação, assim que desse o fora daquele local. Ele daria seu jeito. E se precisasse, daria um jeito no casal esquisito também.
Ele ergueu-se da cova e alcançou um saco preto, tinha encontrado próximo a retroescavadeira.
Lágrimas se esgotando, ainda se lembrava de tudo. O perfume da garota, madrugadas quentes, então um cigarro na varanda. Ele tinha vivido tudo aquilo, mas agora pareciam lembranças que simplesmente não encaixavam mais no universo dele.
As coisas não deveriam acabar daquele jeito.
Ele passou o grande plástico ao redor da garota e fez um nó cego. Nina era claustrofóbica, mas já estava morta mesmo. Aquilo não faria diferença.
Marchou em direção a retroescavadeira. Aquela máquina não deveria ser tão difícil... Porra, ele poderia fechar aquela cova em dois minutos. Mesmo diferente, ainda era o mesmo esquema da porra da escada do caminhão dos bombeiros.
Relâmpagos voltando, o som da chuva chegando, Ícaro trabalhava.
Ícaro havia encontrado a chave enroscada num dos enfeites pendurados sobre o painel da máquina, um demônio mexicano e uma ferradura. Rapidamente estudou o painel, entendeu qual alavanca permitia girar a pá, e qual poderia movimentar. Por que diabos alguém precisava fazer um tipo de curso para aprender a mexer naquela porcaria? Aquilo era fácil.
Ele encheu a grande pá com terra. Aquilo seria o suficiente para cobrir as duas mulheres de uma vez só. Lentamente posicionou a pá com terra acima da cova e respirou fundo, a própria mão suada, tremendo sobre a alavanca de liberar o mecanismo. Assim que aquilo caísse, ninguém mais salvaria Nina.
E o mais importante, ninguém mais teria Nina.
Então Ícaro percebeu alguém grudando em sua camiseta. O rapaz foi arrancado da cabine e arremessado contra o chão, então sentiu a dor explodindo em seu maxilar.
Virou-se para encarar. Era Greg.
XXXXX
Não havia luz forte.
A jovem não se lembrava do que tinha acontecido, mas o restinho de consciência em sua mente a indicava que, deveria ter uma luz forte em algum lugar, para ela poder seguir em frente.
Ao seguir em frente, ela poderia encontrar seus pais, e de quebra, esperava que talvez uma garota de cabelos ruivos pudesse estar a esperando no the otherside.
Ou talvez não existisse um otherside para atravessar, e a morte era apenas o início de uma escuridão enfadonha e solitária. Talvez o fim fosse apenas o princípio de uma sentença solitária e escura, que Nina teria que pegar pela mão e conviver por toda a eternidade.
Aqueles pensamentos explodiram no cérebro da loira, então ela gritou.
O grito fez cada célula em seu corpo reviver. Um reinício? Então ela sentiu dores na ponta do pé, estranhamente em seu pulso, e agora em seu rosto. O porta-malas... O soco...
Então Nina se sentiu colada em alguma coisa. Presa. Com dificuldades para respirar? Mas então...
Ela estava viva. Ouvia o som da chuva chegando lá fora. Em seguida... Gemidos? Gritos?
Alguma coisa caía do lado de fora, ao redor de seu corpo. Terra... A cova...
Nina gritou outra vez, então sentiu o saco plástico ao redor de seu rosto entrar em sua boca. Ela fez o movimento de erguer os braços, mas seus pulsos estavam amarrados.
Os. Pulsos. Amarrados.
Nina esticou os dedos e tentou rasgar o saco plástico, com um gemido percebeu que o ar dentro do plástico estava acabando. Ela precisava dar o fora.
Lágrimas escorrendo, sua visão finalmente estava voltando.
E viu, diante de si, o monstro encarando de volta. A porra da claustrofobia.
Nina tentou lutar, enquanto sua visão voltava a escurecer. Sua mente começou a doer, uma dor física, cruel, constante. O ar estava acabando e então... Golpes.
Alguém estava golpeando Nina.
A jovem quis golpear de volta, mas o plástico era muito grosso. Apenas quem estava do lado de fora poderia golpear Nina. Acertá-la com força pela centésima vez, naqueles últimos meses.
Onde Nina teria errado?
Sentia os próprios pulmões se contraindo, se machucando, o corpo retraindo e tremendo, lutando para não desligar. Os lados físico e humano de Nina estavam desistindo, mas o instinto animal tinha acabado de acordar.
Pois simplesmente, o animal que urrava dentro de Nina jamais iria morrer.
Então ela flexionou o peito e puxou o ar com força, pronta para lutar outra vez.
XXXXX
Greg recuou assim que arremessou Ícaro no chão, então lançou um olhar rápido para a pá cheia de terra acima da cova.
Ícaro ainda se recuperava de ter sido arrancado da cabine da retroescavadeira.
– Ela tá viva! – Lana gritou de dentro da cova.
Ainda alerta, Greg suspirou aliviado e olhou para o alto, a chuva começou a cair. Então repentinamente caiu de costas, batendo a cabeça na terra. Ele entendeu que Ícaro havia puxado seu tornozelo.
Tão rápido, Ícaro subiu em cima de Greg e agarrou o no queixo; o barbudo sentiu a mão do bombeiro, suja de terra, agora fechando ao redor de seu pescoço.
Então Greg sentiu um calafrio descendo sua espinha. Era um calafrio diferente, trazendo o escuro, trazendo o vento...
Totalmente alheio a Ícaro, Greg seguiu o vento gelado com o canto do olho. Os penduricalhos em formato de ferradura e demônio acima do painel dianteiro da retroescavadeira balançaram, então despencaram nas alavancas da pá.
Greg observou a pá com a terra virando sobre a cova e gritou.
XXXXX
Nina estava no meio do grito quando o saco preto ao redor de sua cabeça foi rasgado repentinamente e o ar fresco encheu seus pulmões. Ela se afogou.
Mas diante de si, um rosto conhecido.
Vento soprando, Lana Flowers a encarava do lado de fora do saco preto. A chuva caindo ao seu redor, e logo no fundo o céu da noite, agora sem estrelas. Um olhar de pânico no rosto da garota de cabelo azul rapidamente foi substituído por alegria.
Nina respirou fundo. Ambas agora rasgavam o saco preto ao redor do tronco da jovem. A loira sentou-se na cova com dificuldade e sentiu o pulso quebrado. Tinha quebrado ao cair?
Então Lana olhou para cima repentinamente, Nina fez o mesmo.
Uma quantidade imensa de terra despencou acima das duas.
XXXXX
WHOOOSH.
Greg engasgou-se no grito, olhos arregalados e o coração na garganta.
Apesar de tudo o que estava acontecendo, Greg jamais havia considerado a possibilidade de perder Lana.
A audição pareceu sumir, e com uma dose de adrenalina, Greg empurrou Ícaro acima de seu corpo e cambaleou até a cova, ignorando os pingos grossos de chuva.
A terra, agora virando barro, cobria totalmente as pernas e subia até a cintura de Lana, mas sua garota estava bem. Já Nina, apenas os braços erguidos, constantemente sendo atingidos por pingos de chuva, estavam visíveis sobre o monte de terra. Era uma cena desesperadora.
Greg adiantou-se para ajudar a puxar Nina, mas sentiu Ícaro grudando em seu tornozelo mais uma vez.
O fotógrafo caiu de cara no barro com um grito, o peso do corpo acima de seu próprio braço enfaixado. Em seguida foi arrastado para longe da cova outra vez.
– Depois que eu quebrar você, — Ícaro bufou, — Vou quebrar tua namoradinha.
Greg girou o corpo num único impulso e sentiu os tornozelos escapando das mãos de Ícaro, então se arrastou de costas por alguns metros. Sentia o sangue escorrendo novamente do corte no braço. O barbudo encarou o bombeiro, que agora tinha uma pá numa das mãos.
Greg estava desarmado.
XXXXX
Ainda parcialmente enterrada na lama, encharcada com a chuva pesada, Lana agarrava os pulsos de Nina, tentando trazer a garota de volta para a superfície, o horror crescendo outra vez no peito. A preocupação com Greg também a sufocava, mas o namorado parecia estar batendo de frente com Ícaro.
Olhou para cima. Relâmpagos davam vislumbres das gotas caindo, e também da grande pá, ainda com metade do monte de terra em seu compartimento. Se aquilo virasse de uma vez, Nina não teria chances.
Aquilo pareceu destruir Lana por um segundo. A jovem não deixaria aquilo acontecer.
– NINA?
Lana mergulhou sobre o monte de terra acima de Nina e começou a cavar com as próprias mãos. Nina ainda mexia os braços, mas parecia estar ficando cada vez mais fraca.
– AGUENTA FIRME!
XXXXX
O fotógrafo chutou a pá bem a tempo de evitar que a parte metálica do objeto atingisse sua cabeça, e Ícaro bufou desapontado. A ferramenta foi parar do outro lado da retroescavadeira, então nem Greg muito menos ele poderiam alcançá-la.
Ícaro não tinha nada a perder, então correu em direção ao fotógrafo e jogou-se acima dele.
Os dois se chocaram e rolaram na lama, então Ícaro conseguiu se apoiar na terra, mais uma vez acima de Greg.
O bombeiro socou o rosto do fotógrafo uma, duas, três, quatro vezes. Sangue jorrou de seu nariz e sua boca, e aquilo pareceu o suficiente para desligá-lo. Ícaro cuspiu na cara de Greg e levantou-se, cambaleando até a pá. Ele poderia muito bem enfiar a parte afiada e metálica da ferramenta no pescoço daquele filho da puta, assim ele morreria de uma vez só.
– Ô bombeiro!
Ícaro estava na metade do giro para encarar o fotógrafo outra vez e então o rapaz desceu o braço enfaixado em seu pescoço e travou com força, ambos caindo no chão, mas Greg ainda não o soltou.
Mata-leão, um armlock tradicional. Muito bem pensado.
Mas, Ícaro sabia como desarmá-lo. Ele tinha visto como escapar daquele golpe em um vídeo da Internet uma vez. Ele só precisava esperar o momento em que Greg afrouxasse o aperto um pouquinho, então iria recuar a cabeça com força para atingir o queixo do oponente.
Aquilo seria fácil.
Sentiu o braço de Greg finalmente cedendo, então arremessou a cabeça para trás e com força.
Nada aconteceu.
– É, — Greg sussurrou em seu ouvido, agora cuspindo sangue e apertando com mais força. – Você deve ter visto meu vídeo.
XXXXX
Lana já havia desenterrado boa parte do tronco de Nina. A loira estava molhada, coberta em lama, e seus braços já não se mexiam mais. Nina, por sua vez, apenas encarava do buraco da terra, a chuva caindo no rosto, o único movimento que indicava vida em seu corpo era apenas seus olhos claros seguindo os movimentos de Lana.
Lana já estava aos prantos, mas não parava de desenterrar. Então assim que considerou suficiente, inclinou-se sobre Nina, fechou os braços ao redor de suas costas e puxou-a.
Nina gritou de dor repentinamente, e Lana também gritou em resposta, desesperadamente tentando tomar cuidado para não machucar mais a amiga.
O puxão foi o suficiente para desenterrar boa parte das pernas de Nina. Lana puxou outra vez, com mais força. E então Nina veio de uma vez, finalmente desenterrada, caindo sobre Lana, as pernas ainda enroscadas no saco plástico.
A jovem loira soltou-se do plástico enlameado e ergueu-se de pé com dificuldade devido aos ferimentos, em seguida levantando Lana. As duas saíram da cova e, ainda que escorregando na lama, finalmente escalaram para fora do buraco, bem a tempo da pá finalmente ceder e soltar o resto de seu conteúdo.
A cova estava selada.
Nina abraçou Lana com força, e a jovem retribuiu o abraço rapidamente. Ela ergueu-se de pé, procurando os dois rapazes.
Greg e Ícaro estavam sentados próximos a retroescavadeira, então Lana desatou a correr em direção aos dois, seguida por Nina.
A visão que Lana teve iria persegui-la pelo resto de sua vida em seus pesadelos, mas ela não conseguiu reagir.
Algumas coisas precisavam ser feitas.
Nina também pareceu ter a mesma reação.
Greg estava sentado no chão, ensanguentado, sujo e molhado. O braço ensanguentado e firme ao redor do pescoço de Ícaro, os olhos cinzentos do fotógrafo encarando o jovem cada vez mais fraco.
Lana se perguntou se Nina reagiria, mas a loira não fez nada.
Não havia explicação, não havia lógica, aquilo apenas acontecia diante de seus olhos, e ela não teria nada a dizer.
O rosto de Ícaro estava num tom roxo, suas pernas se debatiam cada vez menos. As veias vermelhas se alastravam pelos olhos arregalados do bombeiro, que parecia não saber como escapar da situação, sendo sufocado. Ele olhava desesperado de um lado para o outro, e então pareceu enxergar Nina. Ele travou os olhos na garota, quase como se esperasse um tipo de misericórdia súbita.
O que não aconteceu.
Lana e Nina seriam testemunhas de um crime horrível naquela noite. E foi naquele exato pensamento de Lana, que os pés de Ícaro finalmente pararam de debater. Estava morto.
Subitamente a bióloga se viu com o pensamento no antigo amigo de curso, Gustavo. O mesmo que fora assassinado pelo bombeiro há meses atrás. Uma vida, em troca de outra. Não é assim que funciona? Pensou a loira.
Greg não percebeu, continuou com os braços ao redor do pescoço de Ícaro, os olhos cinzentos congelados, quase como um animal. Ele estava irreconhecível.
– Greg, — Lana aproximou-se, choramingando. – Já deu, chega. Solta ele...
Os olhos avermelhados de Ícaro não se fecharam após a morte, então Nina cambaleou chorando até o corpo do ex-namorado, limpou as mãos na própria blusa e fechou os olhos do mesmo.
Greg finalmente pareceu voltar a si. Ele arregalou os olhos e afrouxou a chave de braço, então deitou o corpo de Ícaro no chão.
O fotógrafo encarou Lana e Nina por um instante, uma expressão séria no rosto. Travou o olhar com Nina por alguns segundos a mais, e Lana acreditou que Greg tentava estabelecer algum tipo de contato, dizer alguma coisa para a garota, mas pareceu desistir e lentamente tombou para trás, de costas na terra. Lana sabia que ele estava processando o que havia acabado de fazer.
Ainda deitado, chuva caindo no rosto, lavando sua expressão de descrença instantânea, o fotógrafo levou as mãos à cabeça e começou a chorar. Era um choro desesperado, desconfortável, dolorido e incomum. Uma montanha-russa de soluços e lamentos esquisitos.
E foi ao som daquele choro desconfortável que Nina e Lana se encararam outra vez.
E ambas sabiam, aquilo era apenas o começo.
Já estava na hora da morte passar para o próximo nível.
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