Premonição Chronicles 2
11 Capítulo 10: Assim na Ilha, Como no Inferno
Notas iniciais
24 de Dezembro
O aroma de tragédia ainda pairava pelo ar da Ilha Vermelha na véspera de natal.
A enxurrada de magma que devastou boa parte da vegetação e da praia já tinha se dissipado. A outra havia virado rocha, depois do contato direto com o mar. As rochas resfriadas repousavam numa faixa escura que se estendia da mata até o oceano, criando um monumento belo, se não fosse trágico. O Dedo do Diabo continuava imponente, apontando para o caminho escuro na areia.
Nina observava tudo lá de baixo, enquanto o sol do fim de tarde batia contra seu rosto. O chapéu não fazia qualquer feito, na posição em que sua cabeça se encontrava. A montanha a encarou de volta e ela suspirou cansada. Cansada de tudo o que viveu. Dos gritos, dos corpos ébrios em confusão, dos estragos, do medo, do desespero...
Sentou na areia, com o vento lambendo seus cabelos embaixo do chapéu de sol e seu vestido florido chacoalhando. Sidney estava em seu colo, olhando-a. Nina acariciou o pelo macio do animal e sorriu de lado. Você está bem, Sid. Isso já é bastante pra mim. Ela poderia considerar a si mesma como uma sobrevivente. Uma sobrevivente egoísta, por não pensar em seu namorado, que estava no meio das equipes de buscas, procurando resgatar amigos desaparecidos, embaixo dos escombros e da destruição. Por mais que, aparentemente o vulcão não tenha sido tão avassalador, chegando mais próximo podia-se notar que mais da metade da ilha havia sido afetada violentamente pela enchente de fogo.
A maior perda foi o amontoado de corpos que se formou na praia depois do fato. Famílias inteiras choravam pelos seus entes queridos estirados na areia, enquanto outras vítimas eram resgatadas dali em balsas e as mais feridas, em helicópteros especiais, com atendimento móvel de urgência. Algumas pessoas que Nina conhecera durante a viagem, já tinham ido com os veículos de apoio, como: Ruth, Anna, Vanessa, Lana e Greg. Os dois últimos prometeram notícias, e Nina fez o mesmo.
A jovem não conseguia deduzir como estava a mente de nenhum deles, e nem ousou tentar, já que cada um pode reagir de modo diferente. Assim como ela, que não parava de olhar para os restos e sentir um aperto. Uma sensação agourenta de estar sendo cercada por algo que ela não sabia de onde vinha. Talvez fosse o clima sombrio no qual a ilha entrou ou os pedaços do acidente que iam e vinham na sua cabeça, como raios rápidos que cortam o céu em noite de tempestade. E de fato, aquela era uma tempestade das piores.
Nina ergueu-se da areia com o mar já engolindo o sol num crepúsculo gradativo. Ícaro começara as buscas embaixo das estruturas do palco, temia que a maioria dos seus amigos tivesse morrido. Eles faziam parte de sua vida, assim como a namorada fazia. E Ícaro queria acreditar que tudo ficaria bem, mas sem seus melhores amigos ele não poderia responder isso, enquanto não encontrasse seus corpos. Vivos. Estejam vivos.
Foi caminhando pela beira do mar, sentindo as águas frias banharem seus pés, que a loira viu um quiosque parcialmente destruído por um pedaço, do que outrora foi uma rocha incandescente, das mesmas que rasgaram o céu na noite da erupção. O lado esquerdo da pequena cabana de alvenaria com teto de palha estava deteriorado, com os tijolos espalhados, e a palha presa em algum suporte do que poderia ser uma tábua. O vento balançava a estrutura e uma jovem estava de pé na frente dela.
Parecia estar fazendo alguma prece ou remoendo emoções. Mesmo de costas, suas roupas lhe destacavam e Nina pode perceber de quem se tratava. Valentina, a guia, a pessoa que ajudou todos na condução do barco que os tirou da ilha. A loira apenas se aproximou e ficou lado a lado com a outra jovem, sem dizer nenhuma palavra. Valentina olhava o resultado da erupção sobre parte da herança do pai. O quiosque que chamava de CÉU estava ali, esmagado por uma enorme rocha e ela teria deveras muito trabalho a fazer, até que ele estivesse tinindo novamente.
– Meu pai ficaria arrasado se visse isso. – Foi Valentina mesma quem quebrou o silêncio.
– E onde ele está?
– No verdadeiro céu. – E baixou a cabeça, num tom de reverência e conformação.
– Ele entenderia. – A loira pôs a mão no ombro da guia turística e observou seu rosto.
– Mas ficaria extremamente triste se presenciasse seu lar sendo devastado pela fúria da natureza. Logo um homem que deu sua vida para salvar esse lugar de todos os males... Da pesca clandestina, do desmatamento, do tráfico de animais. Ele era um lutador, sabe?
Nina sentiu na fala da garota, a voz embargar e ela engolir em seco. E entendeu de imediato que Valentina visitava o passado naquele instante.
– Tenho certeza de que ele está orgulhoso de você, por ter se tornado essa garota forte.
– Era o que ele mais queria. – Val deu um riso nervoso. – Mas eu não consegui salvar o quiosque.
– Não tinha muito que fazer, Valentina. Era o bem material ou sua vida.
– Quem sabe eu estivesse ao lado dele agora... – A moça virou-se e sorriu para o sol se pondo desta vez. – Vai ver, eu estaria bem mais feliz e me sentindo mais protegida, do que estou agora.
Nina retirou um pouco de cabelo do rosto da jovem, pondo para trás da orelha. Acabou notando o hematoma na bochecha dela.
– Onde ganhou isso? – Perguntou.
– Bati com força no leme do barco, no dia da tragédia. – Então passou a mão devagar sobre o círculo arroxeado.
Valentina não pode deixar de observar o curativo no canto da testa de Nina, próximo da têmpora.
– Vejo que também tem uma marca do acidente.
A loira riu e respondeu:
– Sim. Estamos marcadas pelo acidente. Agora sim, somos sobreviventes oficiais. – As duas queriam rir do comentário, mas nenhuma delas esboçou um sorriso sequer. Apenas se entreolharam. A hippie cruzou os braços e seguiu andando pela areia.
– Mais um natal sem meu pai... – Disparou, enquanto chutava a areia, displicente.
– É o meu primeiro sem minha família. – A loira respondeu, sentindo o pesar das palavras. – Vai ser difícil ficar sem ouvir as gargalhadas histéricas da minha mãe ou o conservadorismo da década de sessenta do meu pai. Até das minhas tias chatas que perguntam a mesma coisa em todas as santas ceias, eu sentirei falta hoje.
– Você é uma mulher de sorte.
– Se foi por causa de ter sobrevivido ao caos de três dias atrás... Fico devendo à Anna Clara, a moça que estava gritando na multidão, quando eu cheguei com meus amigos. Mesmo que eu já soubesse o que estava por vir, de alguma forma ela já estava ciente, antes mesmo do chão começar a tremer.
– Eu estava próxima dela, quando ela começou a gritar e estava no barco, quando ela disse aquelas coisas. Não sou a pessoa mais cética do mundo, mas deixei aquela informação entrar na minha cabeça e me aliviar. Pela primeira vez, eu não fui minha guia. Essa Anna, ela foi.
As duas sorriram e parecem ler os pensamentos uma da outra.
XXXXX
A noite chegou num piscar de olhos. Ao contrário de todos os natais dos nativos da Ilha Vermelha, esse seria completamente diferente. O clima pesado, o cheiro dos resquícios da tragédia, os pensamentos de culpa e incerteza. Esses e mais motivos acarretaram em uma celebração de natal nada convencional. Alguns habitantes se limitaram apenas a um simples jantar e outros a uma vigília de orações, já que alguns parentes mereciam aquela homenagem, mesmo que simbólica.
Diferente dos nativos, Eduardo pensara em algo mais próximo da celebração comum do natal. Faria uma pequena festa ao redor de uma fogueira na praia. Não traria os mortos de volta à vida, não diminuíra a dor dos laços familiares, não voltaria no tempo. Somente conseguiria tirar da cabeça dele a pilha de corpos. Heloísa tem sido seu braço direito no que diz respeito à acomodação e comida. Já sua irmã, Mônica, era seu amparo emocional, o que lhe mantinha de pé todos os dias depois do fatídico dia. Ela estava ali para o que desse e viesse, e não o abandonaria jamais, disso ele tinha plena convicção.
Heloísa e Eva se reuniram e decidiram alojar os sobreviventes que ficaram na ilha para ajudar com a Animal Rescue, em uma cabana no vilarejo. Tinha espaço suficiente para todos e traria abrigo provisório. Valentina seria a responsável por guia-los até seus novos aposentos. Também decidiram juntas, realizarem uma cerimônia no Réveillon, para as vítimas da erupção, em uma espécie de luau em memória da incontável perda de parentes.
De frente à fogueira, sentados em um escombro, estavam Valentina e Kris. A jovem contava mais uma de suas aventuras como líder das expedições e ele ouvia tudo atentamente. Edu e Murilo traziam algumas coisas para os demais sentarem. Nina e Mônica foram as últimas a chegar, cantarolando o que parecia ser uma canção de natal. Wendel sentou-se ao lado de Kris, enquanto Nina ficou ao lado de Val, e Mônica sentou entre Murilo e Eduardo. Os dois rapazes lançaram olhares simultâneos para a linda jovem de cabelos castanhos. Mônica sentiu uma mão deslizar pela sua suavemente. O reflexo imediato foi olhar de soslaio, a tempo de ver Murilo cobrir sua mão com a dele.
Por algum instinto, Mônica recuou espantada. Ela e Murilo trocaram alguns olhares, como numa discussão sem palavras e virou-se para as garotas, que riam de alguma bobagem que Kris falava. Aquele gesto do surfista deixou-a desconsertada o bastante para Eduardo notar. O irmão analisou a feição desconfiada dela e protestou em pensamento. Em seguida, murmurou ao pé de seu ouvido:
– Eu sei que tem algo de errado com você. O que está acontecendo?
– Não é nada, Dudu. Fica tranquilo, eu estou bem. – Respondeu com a voz embargada.
– Sabia que é péssima mentindo?
– E você é péssimo com perguntas retóricas. – Ela retrucou, tentando assumir o controle da conversa e cortando o assunto do irmão. – Agora vamos tentar fazer desse natal que tem de tudo pra ser o mais triste de todos... Feliz. Pela gente e pela Heloísa.
– A propósito, onde ela está? – Perguntou ele, olhando ao redor.
– Deve estar com a Dra. Mendel resolvendo algum assunto.
– Elas deveriam estar aqui, tentando comemorar o natal da forma mais natural possível. Mas do jeito que Heloísa é... Talvez tenha arrumado alguma diversão melhor. – Murilo comentou como se estivesse ouvindo o que os doutros dois conversavam. E de fato estava. Ele estava com um marshmellow na ponta de um graveto, sobre a fogueira. Assim como Kris e Wendel estavam. Sorriam um para o outro, como se aquele instante de felicidade não teria fim.
Eduardo engoliu o comentário de Murilo com todas as forças e cerrou os punhos.
– Vou atrás dela, você vem comigo, Mô? – A irmã continuava desconfortável. – Mônica, você vem comigo ou não?
A jovem acenou negativamente com a cabeça e aproximou-se de Valentina, pedindo um marshmellow. A hippie entregou-lhe e passou a mão ao redor do ombro da assistente de Eva. Mônica sorriu. Pela primeira vez, depois do acidente, sentiu-se sem um peso nas costas. Murilo continuava lançando olhares pretensiosos para ela, enquanto mordiscava seu marshmellow. A última coisa que ela queria era ter problemas com Eduardo por causa do adversário do irmão no surf. Ela precisava cortar o mal pela raiz. Não sabia exatamente o que ele pretendia, mas conseguia levantar algumas hipóteses acerca das intenções. Mônica poderia transpassar um ar ingênuo e acanhado no olhar, mas ela não era boba, ela tinha a capacidade de captar as coisas, por mais implícitas que elas fossem.
– Mô, é sua vez! – Wendel disse.
– Huh? – Mônica pareceu despertar dos devaneios. Estava com os pensamentos longe... Para ser mais exato, em Edu.
– Sua vez de cantar uma música de natal. – Nina completou. Sidney, em seu ombro, aparentou confirmar, com um pequeno ruído, enquanto comia um pedacinho de marshmellow.
XXXXX
Eduardo não precisou andar muito pela costa, para encontrar Heloísa. A dama estava sozinha, vestida com um longo vestido violeta. Uma de suas cores prediletas. O modelo de costas nuas e com um decote chamativo frontal incitava os pensamentos mais sórdidos do rapaz, mesmo antes de se aproximar. A mulher estava parada de frente para um pequeno riacho, no começo da trilha da mata. A ponte de bambu na qual ela estava era simples e com canteiros de flores em suas extremidades e rodeando as barras laterais. A luz da lua batendo contra as pétalas e contra o rio, trazendo uma paisagem majestosa e uma bela vista para ela. Era tão linda que ela pode esquecer-se do que aconteceu por alguns instantes.
Edu se aproximou, com passos lentos. Ele prostrou-se ao lado de Heloísa, apoiando sua mão sobre a dela gentilmente. A mulher virou o rosto e ele tocou-lhe de maneira suave. Eduardo não conseguia nutrir outro sentimento pela dama que não fosse um desejo carnal profundo, além do maior respeito e afeto. Ela sorriu de bom grado, sentindo a mão de palma áspera fazendo-lhe carícias.
– Que bom que veio. – Foi o que ela disse, antes de olhar para a lua.
– Sabia que eu viria?
– Com certeza. Por isso Eva viu você vindo e resolveu ver se alguém precisava de ajuda com a comida lá na praia.
Os dois trocaram olhares repletos de desejo e, no segundo seguinte, sentiram-se extremamente atraídos. Já era de se esperar. Para Heloísa, Edu transparecia um rapaz de aparência madura, mesmo para a idade, mas uma mentalidade tão juvenil... E isso lhe atraía muito. Aquele espírito de liberdade e intensidade que ele tinha; Para Eduardo acontecia o contrário, a mulher possuía uma aparência jovem e delicada, enquanto sua mente passava uma imagem autoritária, imponente, resistente e repleta de maturidade. Os dois se completavam de certa forma. Fisicamente e mentalmente.
– Eu não sei o que seria sem você. – Edu murmurou se aproximando mais da dama e pondo um pouco do cabelo dela para trás da orelha, mostrando os grandes brincos de diamantes.
O brilho da lua refletia sobre eles e banhavam o seu rosto. O belo colar de pérolas também era iluminado, e o conjunto brilhante no corpo de Heloísa a transformava num espectro de luz, num verdadeiro espetáculo de reflexos reluzentes.
– Ao contrário de você, eu sei o que você se tornaria. O mesmo garoto rebelde que eu encontrei, ganancioso, com sede de vitórias futuras. Sem contar que era bastante teimoso.
O rapaz riu do que ela disse, mas era verdade. Edu era um homem cheio de virtudes, uma delas era a de se declarar uma pessoa de momentos. Ele era um assumido indivíduo daqueles que vivem cada momento como se fosse o último. E da forma mais intensa que encontrar. Nunca se sabe quando você pode desaparecer sem deixar rastros ou praticamente perder todos os sentidos. Se ele fosse embora daquele plano, ele não iria arrependido por nunca ter tentado nada. Ele tentava e tentava como se não fosse ver o dia amanhecer. “Muitas pessoas que arriscam muitos planos para o futuro, não aproveitam os planos que tem para hoje”, era uma das frases em que se embasava sua vivência. E Eduardo fazia questão de deixar claro, que ele largaria os projetos do futuro, só para mergulhar nas profundezas do presente. Porque o futuro não lhe pertencia, e se o destino fosse canalha o suficiente para tirar-lhe na primeira oportunidade que ele tivesse... Que assim fosse!
– Obrigado por tudo, Helô.
Heloísa imaginou qualquer música clássica na mente e tocou a mão do acompanhante, puxando-lhe para uma dança. Ele não esperava o gesto, mas relaxou e pensou em uma música também. Eles estavam pensando em músicas diferentes, mas em algum momento elas se encontrariam e participariam uma da outra. No mesmo, ritmo, na mesma harmonia.
Shine bright like a diamond
Shine bright like a diamond
Find light in the beautiful sea
I choose to be happy
You and I, you and I
We're like diamonds in the sky
As jóias de Heloísa chacoalhavam, enquanto ela dava passos precisos e bem elaborados. Eduardo fazia tudo que podia, pois não queria desapontá-la, mas ela entenderia caso ele pisasse em seu pé ou na barra do vestido longo. Ela é a mulher mais compreensiva que eu conheço. Os olhos dos dois brilhavam com os diamantes pendurados nas orelhas dela. O doce perfume de Heloísa deixara o olfato do rapaz dormente e ele não aguentou, puxando-a para bem mais próximo, até os narizes ficarem rentes um no outro. Os lábios já estavam próximos. Bastou o braço atlético de Edu descer até as nádegas da dama, massageá-las e puxá-las para si, que os corpos de ambos ficaram pertos o bastante para um beijo caloroso.
Em um aspecto os dois poderiam concordar. Heloísa também se considerava intensa.
You're a shooting star I see
A vision of ecstasy
When you hold me, I'm alive
We're like diamonds in the sky
I knew that we'd become one right away
Oh, right away
At first sight I felt the energy of sun rays
I saw the life inside your eyes
Simultâneo ao beijo e com os corpos colados, Edu levou uma das mãos à alça do vestido da negra e ela parou o beijo para sorrir. Ele fez o mesmo, com os olhos vidrados no olhar dela. Desceu a alça do vestido e fez o mesmo com a outra. Banhados pela luz da lua, os dois foram se despindo aos poucos, com ele beijado o colo e o ombro da parceira. Heloísa abriu e boca e soltou um arfar, logo, tombou a cabeça para frente e aninhou-a entre pescoço e o ombro do rapaz, sentindo uma onda de prazer perpassar seu corpo.
Eduardo sentiu o coração pulsar veloz ao vê-la inteiramente despida, parada de frente para ele. Os dois jogaram suas roupas na ponte e ela segurou o ombro do atleta com as duas mãos, tapando a rosa-dos-ventos que ele tinha tatuado próximo do peito e trazendo-o para deitar-se junto a ela. Os dois deitaram em cima das roupas e Heloísa debruçou-se sobre o jovem, afagando seus seios contra o peitoral do mesmo. Mais um beijo quente se iniciou e os corpos rapidamente foram liberando mais hormônios. Com a entropia no ápice, e com Edu já de membro ereto, começou a acariciar a genitália da mulher com o pênis. Entre os selinhos ela sorria breve e ele mordiscava os lábios. Edu começou a penetração lentamente, até a velocidade das estocadas aumentar.
So shine bright, tonight, you and I
We're beautiful like diamonds in the sky
Eye to eye, so alive
We're beautiful like diamonds in the sky
Quando os dois fecharam os olhos, tudo começou a fazer sentido. O riacho, as árvores, a lua... Todos seriam espectadores do momento.
E Mônica também. Parada no começo da trilha, quase invisível pela sombra de uma árvore. Ouvir os gemidos de Heloísa e os sussurros de prazer do irmão, foi como ter sido engolida pela lava do vulcão. De seus olhos claros, apenas uma lágrima brotou. Ela lutou para que não caísse, mas foi impossível. Junto com ela, vieram outras trezentas.
XXXXX
O grupo reunido na fogueira alternava entre comer o grande pacote de marshmellows, beber as bebidas que eles tinham trazido ou contar como eram seus natais com a família. Valentina foi a que mais emocionou, relatando todos os natais solitários que passou sem o pai ou sem a irmã que lhe foi tirada. Seu maior sonho era que ela voltasse. Sentia que ela estava chegando perto, que sua irmã finalmente estava vindo para ela. Não sabia onde e nem quando, mas esperaria o tempo que for para tê-la consigo. Eu prometo te encontrar, mana.
O que Valentina guardava era uma pista do paradeiro da irmã perdida. Por muitas vezes analisou a folha de papel rasgada que serviria como sua bússola. Val possuía um endereço, que encontrou nas coisas de seu pai, enquanto arrumava seus pertences, depois de sua morte. Sempre quis saber por que ele escondera dela que sabia sobre a outra filha, porém, não adiantava mais, ele se fora. Segundo algumas informações que recebera de turistas que frequentavam seu quiosque assiduamente, o endereço estava localizado na cidade. Aquela informação encheu-lhe esperança. Finalmente ela conseguiria dar início às buscas pela irmã. Se tudo corresse bem, encontraria viva.
Quando despertou dos pensamentos, notou que Mônica e Nina não estavam mais ali. Murilo colocou três petiscos de uma só vez no espeto e pôs no meio das chamas.
Eva também já estava presente, torrando seus marshmallows. Aquele simples programa natalino a deixara muito feliz, e ela gostava de se envolver do meio dos jovens, pois ela sentia-se jovem novamente. Sentia-se como se nunca tivesse passado pelo pior momento de sua vida, o assassinato de seu filho e marido, durante um sequestro relâmpago mal fadado.
Gil e Artur tiveram a chance de saírem ilesos, mas preferiram defender a mulher com unhas e dentes. Optaram por partirem para cima dos sequestradores, para no fim, serem baleados. O marido teve uma bala entrando pela boca e saindo pela nuca; o filho, por sua vez, agonizou na estrada, até perder sangue o bastante para não conseguir operar os sentidos e falecer, sem poder se despedir da mãe. Ele morreu se achando incapaz de lhe proteger... Mas ele foi corajoso, ele lutou pela minha vida. Graças à bravura deles eu estou aqui, para sentir saudades deles todas as vezes que olho os porta-retratos ou dos beijos de boa noite, e até das noites de amor... O vento pareceu pousar no ombro da bióloga e ela teve certeza que eles não a deixariam vulnerável e estariam em seus pensamentos sempre que precisasse de amparo.
Agora, Wendel deitava a cabeça no colo da estudante. Kris riu do parceiro, vendo que ele já estava ficando sonolento.
– Ei, dorminhoco, se quiser posso te levar de volta pra cabana e te fazer carinho até dormir. – Kris disse, dando cutucadas leves na perna dele.
– Eu não vou conseguir dormir, se você for comigo. – O comentário foi displicente, sem qualquer pretensão. Mas a mente de Kris formulou mil coisas. Ele corou e viu o estudante de astronomia fechar os olhos quando Valentina começou a afagar os cabelos castanhos dele.
O veterinário e a historiadora riram. Valentina olhou para Eva e notou os olhos marejados da imponente fundadora da filial brasileira da Animal Rescue. Ela não estava na frente de sócios, patrocinadores e funcionários. Ali, distante de todo o meio profissional, ela poderia ser ela mesma. Poderia chorar tudo que não chorou durante esses anos.
XXXXX
Nina sentia-se um pouco mal por não estar ao lado de Ícaro neste natal. Queria poder ser mais útil com as buscas por sobreviventes, mas ela sabia que àquela altura do campeonato, seria difícil encontrar vítimas vivas. Iria para o quarto dia de procura, mas eles não desistiriam e iriam até o fim. A loira tinha certo medo do namorado se machucar, caso encontrasse seus companheiros desaparecidos sem vida. Ela detestava ser pessimista, porém, em alguns casos havia exceções.
A loira caminhava pela praia, com Sidney no ombro e com sua bolsa transversal. Dela, retirou seu tablete e abriu o Skype. Desejou conversar com qualquer pessoa, só para levar a sensação de solidão embora. A primeira pessoa que viu online fez seu coração saltar de alegria. O ícone de Vanessa estava disponível. Rapidamente a loira chamou-a.
A câmera da ruiva revelou Vanessa exuberante em um vestido vermelho extremamente decotado. No seu cabelo havia um enfeite verde cintilante, parecido com uma ornamentação comum no meio grego. Vanessa não era grega, mas tinha a beleza de uma deusa da época. Nina esperou que ela virasse para ela e então ela olhou com uma feição decerto espantada.
– Você?
– Olá pra você também, Vanessa.
A ruiva riu.
– Me desculpa, Nina. Mas é que fiquei surpresa. Nesta noite de natal, era mais fácil o Papai Noel me chamar no Skype do que você.
– Então acho que não foi uma garota muito boa esse ano.
– Se ele considerar todas as noites de sexo sem compromisso... – Olhou para as unhas e mexeu no cabelo.
Nina corou no mesmo momento.
– Te chamei porque estava me sentindo muito sozinha. Aqui na ilha as coisas ainda estão muito difíceis, sabe? – A loira sentou em uma pedra.
– E por que eu, querida? Aposto que você tem vários animais famosos nos seus contatos: Simba, Mickey, Peixonauta, Cavalo Manco...
– Há uma lenda urbana que diz que na noite de natal o repertório de piadas ficam cada vez mais vergonhosos. “Pavê ou pra Comê” e “É Peru ou é Chester?” estão aí pra provar.
A socialite forçou uma risada e mostrou um drink. Bebeu um gole e disse:
– Onde está seu guarda-costas?
– Quer dizer meu namorado?
– Nunca vi namorado tão controlador como aquele. – Vanessa comentou. – Deveria começar a pagá-lo para ele te deixar um pouco mais livre.
Nina entendia o que a ruiva queria dizer. Mas elas eram diferentes. Enquanto Vanessa era livre e desimpedida para ficar com quem quisesse, na hora que quisesse, a bióloga era compromissada com o bombeiro. Eles tinham um relacionamento fiel a zelar, mesmo que algumas desavenças apareçam, como foi o caso há meses atrás, quando Nina e Ícaro passaram por uma situação delicada, logo depois da morte da irmã da loira, eles sempre tentaram manter a estabilidade. Gostariam que continuassem desta maneira.
– Também me senti só nesses últimos dias e tive medo de não ter ninguém no natal, porque meu pai sempre está resolvendo negócios e não liga tanto pra essa data comemorativa. – Suspirou. – Ficou feliz de me ver bem, depois de saber sobre a ilha. Também pudera, deve ter sido a culpa por ter me mandado pra lá, fingindo ser o filho que ele nunca teve, daqueles preparados para substituí-lo na empresa da família, mas compromissos importantes sempre aparecem para nos importunar. Na verdade, só importunam a mim, porque ele adora essas reuniões que rendem milhões, apenas para ouvir as negociações dos donos de multinacionais e discutir quem tem mais bens fora do país.
Nina ouvia tudo com um sorriso no rosto. A ruiva também tinha um lado carente.
– Estou vendo que ficou ocupada enfeitando a casa. – A loira comentou, ao reparar no fundo da imagem. – A decoração está linda!
– Obrigada, e nem me fale! Dispensei metade dos meus “trocentos” empregados, enquanto tentávamos deixar essa mansão impecável para o dia de hoje. Alguns deles não conseguiam alcançar o teto, outros não foram muito felizes ao polir o porão abominável que guarda os antiquados quadros da vovó. – Neste segundo, aparentou voltar no tempo. – Ela adora o acervo, mesmo depois de morta. Viria puxar nosso pé e reivindicar herança, se ousássemos jogá-los no lixo.
A loira riu e indagou:
– Está sozinha nesse natal?
– Não. Estou com uma rena robótica que comprei. Ela usa uma tanguinha e dança que nem um gogoboy, enquanto canta Noite Feliz em cinco línguas diferentes. Dei o nome de Astolfo. Eu estava me distraindo, jogando cédulas de euro pra ele, mas acho que estou fazendo algo bem melhor do que isso. – O tom de voz dela arrepiou a loira.
– O que seria, por exemplo?
– O que você acha? – Então, Vanessa aproximou-se da câmera, deixando os seios ainda mais avantajados e quase saltando do decote. Estava visivelmente corada. Mexeu no cabelo e sorriu maliciosamente.
De repente, uma rajada de vento passou por Nina. Seus cabelos ficaram completamente bagunçados. Sidney deu um gritinho e saltou de volta para o colo dela. Ao longe, a bióloga viu as chamas da fogueira se apagarem. Murilo tentava reacende-la. Sem sucesso.
– Opa! – Vanessa exclamou, vendo a taça na mesa vitoriana, virar e cair sobre o assoalho do quarto, derramando o resto de bebida. Atrás dela, no imenso corredor, as guirlandas de natal colocadas lado a lado no corrimão da escada, despencaram juntas. – Nossa, que coisa! – Ela levantou e foi até os enfeites, para verificá-los.
Quando voltou para o notebook, seu corpo paralisou. Nina percebeu o gesto e rapidamente perguntou:
– O que aconteceu?
– Você não vai acreditar! – Ela pôs a mão na boca, chocada. – Vou te mandar o link!
Em seguida, outra janela de chamada abriu. Nina aceitou e Lana apareceu, com Greg do lado.
– Nina! – Ela gritou. – Ai que bom que consegui finalmente falar com você! Preciso te mostrar uma coisa!
– Oi Lana, oi rato! – Vanessa acenou. – Nina, estou encaminhando.
A ruiva direcionou o link para Nina, que clicou e esperou que o site abrisse. Lana mandou o mesmo link, já era tarde demais. Vanessa já tinha o feito. Era um vídeo de um site de shows ao vivo. O contador oscilava entre aumentar o número de visitantes e despencar de vez. A loira ficou estarrecida, vendo o corpo da cantora teen, Lis, se debater, enquanto era sufocada pelos fios de um pisca-pisca de natal.
– Puta que pariu! – Greg exclamou ao presenciar a fatalidade. Lana estava incrédula, encarando a tela do notebook, como se olhasse para o nada.
Até que corpo da cantora foi sendo engolido por uma grande chama, que começou pequena e logo se tornou um pequeno incêndio, tomando seu corpo. Ela gritou uma última vez, até sua pele, carne e órgãos serem cem por cento tostados.
Nina não pode dizer nada, apenas sentir o horror crescendo dentro dela mesma.
XXXXX
31 de Dezembro
Os preparativos para o memorial das vítimas da erupção estava recebendo os últimos retoques. Um pequeno altar foi erguido na praia, e nele, diversas fotografias e flores de condolências. Ao redor do altar, monumentos de pedra que imitavam as relíquias deixadas pela sucumbida Santa Muerte e tochas acesas, lembrando vagamente os luaus havaianos. Ao contrário destes, o memorial serviria, segundo as crenças locais, para os espíritos terem uma viagem rápida e segura, sem ficarem presos no plano astral intermediário. Foi por isso que Eva e Heloísa se juntaram para planejar esta cerimônia de ano novo diferenciada.
As bandeirolas brancas estavam por toda a praia, desde o vilarejo, até a Animal Rescue e o paredão de pedras. Elas representavam em simbologia, cada pessoa morta no acidente, e não foram poucas. Viúvas choravam próximas do altar, algumas agarradas à pertences do marido, outras lamentavam a morte dos filhos. Pessoas de todas as idades faziam homenagens e se despediam pela última vez dos seus entes.
Eva observava tudo de longe, de braços cruzados, em posição de frio. Ela usava um vestido branco de alças grossas, que ia até um pouco abaixo do joelho. Em seus braços, um xale bordado. A lua iluminava cada ponto do litoral. Murilo acendia a última tocha, vestido com um conjunto simples de blusa e bermuda brancas. Eduardo ao seu lado, com sua irmã de mãos dadas também se vestiam de branco. E a cor se estendia pelas vestes de todos ali presentes, menos uma senhora, que se destacava pela roupa negra. A única coisa branca presente nela eram seus cabelos grisalhos e seus olhos completamente esbranquiçados.
A velha Abigail transitava entre as pessoas calmamente, sem se importar com alguns burburinhos. Ela segurava quatro bonecos. As duas bonecas na mão direita e os dois bonecos na mão esquerda. Todos eles eram artesanais.
Nina que chegava com Sidney e Ícaro logo viu a mesma boneca loira que ela havia encontrado na cabana da senhora das ervas medicinais; a mesma boneca que ela julgou ser parecida com ela. A outra boneca tinha vestes hippie. Um dos dois bonecos masculinos segurava uma prancha e o outro tinha um jaleco branco. Nina tremeu da cabeça aos pés, formulando inúmeras ideias acerca de quem eles poderiam representar. Abigail era mesmo uma senhora bem estranha e misteriosa.
A loira trajava um vestido solto, que ficava acima dos joelhos e usava um rabo de cavalo metódico. Ícaro estava apenas com uma calça branca, típica de marinheiro e chinelos. Sid carregava um lacinho branco em uma das orelhas. Nina gostava de mimá-la e ficara feliz, quando soube que ela já estava se alimentando melhor, depois de um chá de ervas, que comprou da velha Abigail. A senhora parecia gentil, mas ao mesmo tempo, guardava muitos segredos.
– Nina, querida! – Eva acenou para ela. Nina se aproximou, abraçando-a.
– É uma bela cerimônia, Eva. Está ajudando os parentes a respirarem aliviados. – A loira disparou.
– Ou fazendo-os lembrar de novo da tragédia. – Ícaro cortou.
Nina virou-se para ele e fuzilou-o com o olhar. O homem se acanhou, pôs as mãos nos bolsos e resolveu dar uma caminhada. De súbito, Mônica apareceu para as duas mulheres.
– Vocês viram o Dudu?
– Seu irmão? Não o vejo desde que aceitou me ajudar a carregar os monumentos sagrados da Santa Muerte. – Eva respondeu.
– É que preciso conversar urgentemente com ele. É muito importante. – Ela carregava preocupação na fala.
– Eu o vi indo na direção da instituição. – Quem murmurou foi Murilo, que vinha chegando e com certeza ouvira a conversa. – Se quiser posso ir com você.
Mônica pensou alguns segundos se valia a pena a companhia do rapaz.
– Não precisa. De verdade, eu vou sozinha.
– Deixe o rapaz te ajudar, ele está sendo tão gentil. – Eva replicou.
Nina mandou um recado para Mônica pelo olhar, pedindo para ela ter cuidado. A morena assentiu e concordou que Murilo lhe acompanhasse. O rapaz ainda tentou passar o braço pelo ombro dela, mas recebeu um leve empurrão.
– Por favor, Murilo. Não quero ter que ser grossa com você. – Mônica preferia ser direta, ela não gostava de reprimir palavras. Os dois já caminhavam juntos rumo à Animal Rescue.
– Qual é Mô, somos adultos, não precisamos da permissão de ninguém.
– Desde quando me chama assim?
– Desde que descobri que eu sinto algo forte por você.
E ela já percebera como Murilo a encarava. Só de pensar nas coisas que passavam pela cabeça dele, enquanto ele saboreava um pedaço seu apenas em olhar, lhe dava ânsia.
– Vamos parar com esse papo por aqui, ok? Se você veio para tentar me convencer a ficar com você, pode seguir suas pegadas de volta. – A assistente não aguentou e correu para dentro da enorme instituição, sem olhar para trás. Não gostaria de saber que Murilo estava seguindo-a.
– Mô, espera! Podemos conversar mais civilizadamente? – Ele correu atrás dela. A porta atrás deles fechou.
XXXXX
O barulho da grande porta de aço chamou a atenção de Valentina e Kris. Os dois estavam sentados de frente para a sala de vigilância da Anima Rescue. Ela tentava ampará-lo com algumas canções e com histórias de suas expedições, qualquer coisa que o fizesse esquecer-se da terrível morte do companheiro, Wendel, no dia anterior. Kris estava com os olhos vermelhos e foi o primeiro a se erguer do chão, limpando a calça.
– Você ouviu isso? – Olhou na direção do corredor escuro.
– Deve ser somente um engraçadinho.
Valentina levantou-se em seguida e seguiu caminhando na direção da sala de segurança. Olhou pela vidraça da cabine, de vidro fumê e aproximou o rosto dela, o que faria a visualização ser mais fácil. Avistou uma pequena movimentação nos corredores, pelas telas dos computadores. Foi até a porta e girou a maçaneta. Aberta.
– Quem deixaria isso desprotegido? – Kris perguntou.
Val deu de ombros e entrou sorrateiramente, seguida do veterinário.
– Os funcionários devem estar na cerimônia do memorial. – Respondeu a estudante.
Parados na frente dos vários computadores da cabine, ambos puderam ver perfeitamente um casal caminhando em um dos corredores, longe das jaulas.
– Não é o Edu ali? – Kris apontou.
– Ele e a Heloísa.
XXXXX
A negra usava um macacão branco, com um cinto de prata. O rapaz seguia com uma blusa corte “V” e uma bermuda azul clara. Os dois caminhavam e conversavam totalmente displicentes. Nos lados, altas paredes de concretos, mas isso não deixava o corredor ser menos estreito. Acima de suas cabeças, três fileiras de tubulações diferentes. Cada uma de uma cor, cada uma pra um setor. Ela o convidara para ver alguns animais em tratamento, já que era uma das responsáveis pelos fornecimentos dos equipamentos necessários para a instituição. De certo modo, Heloísa também era parte da família “Animal Rescue”.
– Agradeço por me proporcionar aquela noite tão aconchegante.
– Não precisa agradecer. Foi realmente um momento muito bom, onde podemos nos conhecer ainda melhor. Sempre gostei destes nossos encontros casuais.
– Então, pra você não significa nada além do casual, Edu?
O jovem ficou sem entender a atitude dela. De fato, eram encontros casuais, pois não aconteciam com regularidade. Mônica não poderia nem sonhar que vez ou outra, a negra e o surfista se encontravam para uma noite de amor. Isso não significava que ele comprava o patrocínio dela para sua equipe de surf, mas era bom saber que tinha Heloísa. A dama era como o farol do veleiro de Edu, à beira do naufrágio. Ela era uma das únicas pessoas que impediam ele de se afogar em si. Ela e Mônica.
Lembrar-se da irmã o fez sentir culpa por ter se deitado novamente com a negra. Ele já tinha prometido para ele mesmo, que aquilo não aconteceria mais, pelo bem da relação deles. Os dois nutriam amor um pelo outro. Um amor maior do que eles. Eduardo e Mônica tinham sido lapidados para ficarem juntos, moldados um nos defeitos do outro. Só ela poderia amá-lo, como ele a amava. Odiava-se por usar a patrocinadora de sua equipe para satisfazer seus desejos carnais, quando na verdade, queria deitar e sentir prazer com a própria irmã. O inferno o esperava pelo incesto, porque mesmo não tendo o mesmo sangue, os dois tinham laços fraternais fortíssimos. Porém, ele não desfrutaria do sofrimento eterno, antes de provar do proibido pela lei natural dos homens.
Segundo ele, essa obsessão pela irmã não o transformará em um monstro, o livraria de se tornar um.
– Eu não estou nos meus melhores dias pra explicar algo deste tipo, Helô. – Edu suava.
– Ok, garotão. Não precisa explicar nada.
A negra começou a caminhar mais rápido pelo corredor, deixando o atleta para trás.
– Ei, aonde você vai desse jeito?
– Não tente vir atrás de mim.
– Mulheres... Por que tão complicadas? – Ele murmurou, antes de apressar o passo para alcança-la e tentar dizer algo que não lhe fizesse ir embora.
Homens... Por que tão canalhas? Foi o último pensamento de Heloísa, antes de desaparecer na escuridão do final do corredor. Quando Edu chegou, encontrou três portas. Abriu uma delas e entrou.
XXXXX
Na cidade, Anna Clara preparava o jantar para Shinji e Anna Bella, e então os três comemorariam a virada de ano juntos. O homem chegaria do trabalho daqui a alguns minutos, pois teve de fazer hora extra, mas isso não iria atrapalhar em muita coisa. A pequena garotinha oriental brincava no quarto, com sua coleção de bonecas novas. Anna havia ficado bastante chocada com o que vira na internet com aquela cantora. Ela não merecia morrer, muito menos da forma que foi. Ainda bem que tirara Anna Bella de frente da exibição, antes do baque maior vir. Agradeceu pela garotinha não ter vindo fazer várias perguntas depois, como era costumeiro.
– Mãe, corre aqui!
Anna deixou o cozido em fogo baixo e foi saber o que Anna Bella queria. Quando Anna chegou ao quarto, a filha estava parada de frente para o aquário comprado uma semana antes de irem para a ilha. Anna Bella adorava peixes e gostava de tê-los em casa, lhe fazendo companhia nas horas que mais se sentia sozinha. Deu nomes de personagens de desenhos animados que ela gostava de assistir. Tinham o casal Cosmo e Wanda e os irmãos Phineas, Ferb e Candace. Mas desta vez, até Anna estranhou.
Um dos peixes não estava se mexendo, nem respondendo aos estímulos dos demais.
– O que o Phineas tem, mãe?
A mulher sentiu o nó na garganta.
– Querida, dê um descanso para eles, só por agora.
Anna voltou para a cozinha, e ao chegar lá, dois ímãs da geladeira caíram. Um deles era uma prancha de surf e outro, uma letra “E” da palavra Anna Bella que estava formada. Ela apanhou os dois ímãs e sentiu uma onda de eletricidade perpassar nela. Olhou para o lado e viu o fogo da panela, apagar.
XXXXX
Kris estava sentado em uma das cadeiras giratórias da sala de vigilância, com os pés na bancada dos computadores. Valentina parecia vidrada nas câmeras, procurando mais movimentações, até que viu mais um casal passando por outro corredor, este, próximo do espaço onde ficavam resguardadas as aves em repouso.
– Kris olha só, tem mais gente aqui além do Edu e da Heloísa.
O veterinário se inclinou até ela.
– Parece a irmã dele e aquele outro surfista gostoso. – O pensamento malicioso fez Kris ter nojo de si mesmo, por desrespeitar a memória de Wendel. Logo se recompôs. – O que eles fazem aqui?
– Provavelmente estão procurando os outros.
– O pior é que tudo aqui parece ser um labirinto. Olha o número de câmeras e tevês. Não sei como segurança daqui aguenta. – O homem pousou o cotovelo na mesa, entediado e cansado.
– Aqui não tem muito fluxo de pessoas diariamente, a não ser no laboratório e os funcionários que alimentam os animais.
Os dois fizeram silêncio, para prestarem bem atenção nas filmagens, até que ouvindo vozes vindas do lado de fora. Kris se levantou e foi até a vidrada. Val apenas olhou por cima do ombro. Eram Nina e Ícaro e eles pareciam preocupados. O vidro não era a prova de som.
– Tenho certeza de que vi ela correr pra cá, eu juro! – O homem disse.
– É a segunda vez que isso acontece, Ícaro! Toda vez que peço para dar uma olhada na Sid, ela escapole! O que tem na mão? Sabonete? – Nina bufava, seu rosto estava vermelho.
– Não foi minha culpa, você sabe como aquela chinchila gosta de fugir de mim! – Ele aumentava o tom de voz. – Sempre soube que ela não ia com a minha cara.
– Não faz drama, tá? Ela costuma gostar de todo mundo, e não vai ser com você que ela vai ficar implicando. – Nina seguiu pelo primeiro corredor que viu. Ícaro ia logo trás, protestando palavras que a loira nem fazia questão de ouvir, só estava preocupada em achar sua amada roedora. – Vem, ela deve estar por perto.
Valentina e Kris se entreolharam e se viraram para as câmeras. Três dos computadores piscaram um atrás do outro, mas eles não perceberam.
XXXXX
– Droga! Estou perdida! – A voz de Mônica era abafada pelo tamanho da sala.
– Mô? – A voz de Eduardo pareceu aliviá-la. E de fato, aliviou.
Ele encontrou o interruptor da sala e ligou a lâmpada. Abraçaram-se forte.
– Que bom que te encontrei. – Ela disse, antes de se afastar. – O que tá fazendo aqui sozinho? Achei que iria ficar no luau.
Eduardo se negaria a contar para ela que estava com Heloísa.
– Eu... Eu... Quis ver os animais. Eu nunca tinha vindo aqui. – Suava.
– Nossa, mas justo agora?
– Só fiquei com vontade, já estava voltando. Vamos. – Ao se aproximar da porta, Mônica o chamou. Ele parou e virou-se.
– Preciso falar com você. É urgente. – A voz da garota permanecia trêmula. – É sobre nós dois.
Ele voltou e ficou para ouvir tudo atentamente.
– Não sei nem por onde começar. – Ela continuava com a vez embargada pelo nervosismo. – A gente nunca vai dar certo juntos, Dudu. Somos irmãos, não éramos para ter se apaixonado, foi um erro e sabemos disso. Você não sabe como foi difícil me resignar diante disso. Eu não queria, de verdade. Não queria ter que olhar para meu próprio irmão todos os dias e pensar em nossos corpos juntos, como um só. – Os olhos já marejados. Ela deu uma risada nervosa. – Alimentar esse amor está me machucando, porque quanto mais eu tento me afastar desse sentimento, ele me deixa mais perto de você... Isso me faz me sentir muito mal. Você é meu irmão, isso nunca deveria ter acontecido, Dudu... Por que fomos se apaixonar logo pelas pessoas que mais queremos bem? – As lágrimas começaram a descer. – O amor é sinônimo de dor, e sinceramente, não quero chorar pelos cantos por saber que ficarmos juntos é um pecado. Ou ficar noites em claro pensando no outro como amante para a vida inteira... – Ela não conseguia parar as lágrimas. – Ainda por cima você e a Eva...
Eduardo não deixou Mônica completar o discurso de arrependimento e a puxou só para beijá-la com furor. Levou a mão aos seus cabelos e os acariciou. Sentia a língua da garota brincar com a dele, enquanto o beijo molhado se estendia, quando ela se entregou. Ele podia sentir os bicos dos seios da garota roçarem eriçados contra seu peitoral embaixo da blusa. As lágrimas cessaram. Mônica já estava completamente entregue aos braços do irmão. A armadura caiu. Ambos tiraram a parte de cima da vestimenta e largaram-na no canto da sala.
Ainda com as partes de baixo no corpo, Edu levou sua mão até entre as pernas da irmã. E com dois dedos, passeou pelo exterior de sua genitália, o que mais queria era visitar o interior. A mão subiu e escorregou para dentro do short dela. Agora já tocando os lábios da vagina, ameaçava colocar os dedos. Ela tombou a cabeça para trás e sentiu o apoio de algumas caixas e equipamentos de pesca, como varas e redes atrás de si. Todos usados na pesca clandestina. Quem quer que tenha colocado aquele equipamento ali, foi burro o bastante.
Mônica abriu as pernas gentilmente e sentiu os dedos do irmão passearem pela sua genitália. Foi quando ele penetrou os dois dedos macios em sua vagina, trazendo-a um prazer imensurável. Era como as vezes que ela pressionava o travesseiro contra suas partes, só para pensar nele ou quando se atreveu a massagear o clitóris, somente para imaginá-lo colocando a língua.
Enquanto ele fazia o movimento de vai-vem com os dedos, ela gemia e pedia que ele fosse mais fundo, que ele fosse onde nenhum outro foi. Edu beijou os seios de Mônica, que riu de prazer entre uma e outra mordiscada no mamilo. Todos os pensamentos mais sórdidos de Mônica vieram à tona, e aquela garota meiga que todos conheciam, experimentava da mais selvagem das loucuras.
A porta entreaberta rangeu.
– Mas que porra é essa? – Murilo bradou. Heloísa estava estoica bem ao seu lado.
Mônica arregalou os olhos e engoliu em seco, no desespero de cobrir seus seios, derrubou uma das caixas. Várias latas caíram e espalharam seus líquidos pela sala. Murilo e Heloísa saíram em protestos. Eduardo os seguiu, gritando explicações que a negra não queria ouvir. Mônica foi a única que ficou para trás, remoendo o momento. De repente a luz da sala piscou algumas vezes, até se apagar. A porta fechou-se e Mônica gritou.
Murilo socou o rosto de Eduardo, que caiu próximo da porta. Mônica gritava para que abrissem a porta. O cheiro dentro da sala ficou insuportável. Murilo partiu para cima do adversário novamente, desta vez, Heloísa segurou seus braços. A mulher foi empurrada para trás com força e bateu as costas contra um aquário que estava acoplado na parede. A água começou a jorrar da rachadura.
Nina e Ícaro seguiram a baderna e encontraram os dois surfistas trocando socos e chutes, enquanto a negra tentava levantar do chão. A loira correu para ajuda-la, enquanto Ícaro separava os dois rapazes, já cheios de hematomas e sangue pelo rosto. Sidney, que acabara de saltar dos braços de sua dona, se encolheu num canto do saguão.
Baby I'm preying on you tonight
Hunt you down eat you alive
Just like animals, animals
Like animals-mals
– Socorro! – Mônica batia freneticamente na porta de alumínio. A luz acima dela oscilava mais ainda, ameaçando despencar.
– Droga! – Seu irmão correu até a porta e tentou abrir a porta, mas estava emperrada. A maçaneta lhe deu um ínfimo choque término e ele recuou. Ícaro correu para lhe ajudar. – Por que ela teve que emperrar logo agora?
Heloísa sentia fortes dores nas costas. Nina tentava retirar os cacos de vidros que tinham ficado no macacão da outra. Logo, voltou ao aquário e tentou de alguma forma, parar o vazamento da água dos peixes. Vocês ficarão bem, eu prometo...
Yeah you can start over, you can run free
You can find other fish in the sea
You can pretend it's meant to be
But you can't stay away from me
Uma das varas de pesca escorregou da parede e virou sobre a lâmpada frágil, quebrando-a imediatamente. As faíscas caíram sobre o líquido suspeito e Mônica gritou mais alto. Era gasolina. As chamas surgiram ligeiramente e aumentaram à medida que encontravam mais gasolina espalhada pela sala. As outras caixas estavam prestes a serem alcançadas.
– Vai explodir! – A morena gritou.
– O que ela disse? – Perguntou Eduardo, tentando abrir a porta com a ajuda de Ícaro e Murilo.
– Ela disse que vai explodir, precisamos sair daqui! – O bombeiro gritou, sabendo que seria tarde demais.
– Não! Eu vou tirá-la dai, custe o que custar! – Edu fez mais força e aporta arrebentou.
Assim que entrou, abraçou a irmã, que correu para fora rapidamente. Quando Edu fez o mesmo, a saleta explodiu. A explosão jogou a bola de fogo e todo o material de pesca que estava dentro do cômodo, na direção das pessoas que estavam no saguão. Ícaro agarrou Mônica, que estava junto dele e saltou com ela para detrás de uma parede. Heloísa conseguiu tirar Murilo do caminho de um grande arpão, que decolou na direção dele. O desvio fez o arpão passar de raspão no braço do surfista; os dois conseguiram ir para detrás de uma coluna e Nina pôs Sidney no braço a tempo de encontrar uma bancada de mármore.
O único vulnerável foi Edu. Ele era um alvo fácil e foi jogado com toda força da explosão, contra a parede. Suas costas bateram com tanta força, que ele pode sentir suas costelas estalando e quebrando no mesmo momento. Caiu no chão em seguida, com o corpo extremamente dolorido e com pontadas que lhe arrancaram lágrimas. O rapaz olhou na direção de onde vinham as pontadas e viu a vara de pesca atravessada em sua virilha. Ele urrou de dor e tentou tirá-la, e isso só lhe causou ainda mais desespero. A dor era infindável. Não conseguia ver os outros com tanta fumaça espessa. As lágrimas desciam e seu rosto levemente chamuscado ardia muito.
I can still hear you making that sound
Taking me down rolling on the ground
You can pretend that it was me but no
O surfista se arrastou para a primeira escadaria que viu. Havia uma porta aberta e ele entrou, procurando sair o mais depressa do saguão. A sala estava tão escura, que ele não pode ver o que estava bem na sua frente. Seu corpo rolou pela borda do buraco e mergulhou no tanque de água. Ao entrar em contato com a perfuração, a água causou uma sensação terrível. A vara de pesca ainda estava atravessada na virilha do rapaz e ele mal conseguia se mover para tentar voltar à superfície.
A água do tanque entrava em seus pulmões à medida que ele afundava. Era difícil distinguir o que era água e o que era sangue. E todo o sangue tornou Edu um alvo fácil novamente. Com a vermelhidão se espalhando pelo tanque, as piranhas que estavam alojadas ali no canto do aquário, seriam atraídas mais facilmente. E foi isso que aconteceu. O cardume de piranhas foi veloz e alcançou Eduardo, ao mesmo tempo em que seu pulmão queimava pela falta de oxigênio. Ao gritar submerso no desespero, ele deu espaço para a corrente d’água adentar pelo seu canal respiratório, invadindo suas narinas e traqueia.
Mônica batia no vidro sem pode fazer nada. Seu irmão estava morrendo. Todos os outros que viam tudo do lado de fora do vidro, apenas ficaram paralisados. A fumaça da explosão ainda os rodeava, dificultando a visualização do exterior do saguão.
Baby I'm preying on you tonight
Hunt you down eat you alive
Just like animals, animals
Like animals-mals
Maybe you think that you can hide
I can smell your scent from miles
Just like animals, animals
Like animals-mals
As duas primeiras piranhas a alcançarem o corpo abocanharam suas bochechas com os dentes extremamente alinhados e pontiagudos. Os grandes nacos de carne que elas arrancaram de uma só vez do rosto do surfista eram do tamanho de bolas de golfe. As demais se dividiram entre estraçalhar a perna onde o ferimento estava localizado, os braços e seu belo rosto. O rosto que ele usara para conseguir tantas coisas. Mal teve tempo de rever sua vida passando diante dele. Uma piranha mordeu um de seus olhos e não cansou, enquanto não o arrancou, levando a córnea e abrindo espaço para alguma massa encefálica deslizar. Outro predador despedaçou seu lábio inferior. Seu outro olho não demorou muito para ser consumido e logo, todo o seu rosto foi sendo triturado pelos dentes dos peixes famintos.
O que restou dele foi apenas a carcaça. Um dos braços ainda resistia com alguma cartilagem e o crânio também. Tudo o que era pele e carne, havia sido tragado pelo cardume de piranhas. Os restos do que outrora fora o corpo de Eduardo, afundou, até alcançar o fundo do aquário.
Na cabine de segurança, Valentina e Kris não acreditavam no que tinha acontecido na ala dos animais marinhos. A hippie vomitou.
Por fim, Mônica caiu ajoelhada, desejando morrer junto com sua outra parte, junto com seu yang.
XXXXX
36 horas depois
Após o terrível acontecimento na noite da virada do ano, na primeira oportunidade que teve de sair da ilha, Nina deixou o local. A loira estava bastante angustiada com as últimas ocorrências e não poderia ficar mais nem um segundo sequer tendo que conviver com o ar exalando carne fresca e morte. Ver três jovens morrendo diante de seus olhos tinha sido a gota d’água para ela abandonar tudo. Primeiro Lis e seu show online, depois Wendel e a pilastra, e por último Edu devorado por piranhas. Aquilo a deixou muito mal. Chegou a pensar em como Vanessa, Lana ou Greg haviam ficado, depois que a chamada encerrou.
Eva providenciou uma balsa para levar os turistas que restavam e o que sobrou do corpo do surfista para serem realizados os procedimentos legais, já que foi difícil liberarem o corpo para a cidade. Mônica permanecia distante de todos, sem querer ouvir nada de ninguém. Estava num canto da proa, inapta para receber palavras de consolo. Heloísa tentou, Murilo e Nina fizeram o mesmo. Nada adiantou, ela os repeliu.
Nina agora estava num dos lados da balsa, calada, com sua chinchila dormindo em seu colo. Ícaro fazia o mesmo, sentado ao lado, com a cabeça tombada para frente. Finalmente ela teria algum descanso. Assim que chegasse em casa, correria para os braços do pai e não o largaria mais. Desabafaria tudo para sua mãe e com certeza ela lhe deixaria deitar em seu peito e chorar o quanto puder. Queria ter se despedido de Valentina como queria. Jovem guia havia sido tão boa com ela. Sentiria sua falta. O mesmo com Abigail, mas já essa, ela sentia que veria de novo. Não fazia ideia de como ou quando, mas ela pressentia que não fora a última vez que a veria.
A garota forte que Nina se tornara, merecia ser a donzela de antes, mesmo que por um dia. A moça ficou olhando para as nuvens e para o mar, até sentir os olhos pesados e adormecer.
XXXXX
A porta do casarão da família Brandão abriu num rompante. Nina entrou esbaforida, jogando as malas para o lado e correndo na direção dos pais, que desciam a grande escadaria da sala de estar. A gaiola de Sidney abriu e a chinchila correu na direção dos pais da dona. Mauro foi o primeiro a recepcionar a filha, com seus braços fortes de alguns treinos matinais. Nina afundou a cabeça no ombro do pai, sentindo o perfume que tanto adorava e sentia falta. A mãe, Cássia, lhe esperou para os inúmeros beijos que a filha lhe distribuiu pelo rosto. Logo depois, Mauro pegou o roedor no colo e a ergueu no ar.
– Não sabem quantas vezes desejei estar aqui, poder vê-los de novo! – Duas lágrimas caíram no rosto da jovem.
– Também sentimos sua falta, meu amor. – Cássia sorriu. – E Ícaro, onde está?
– Ele preferiu passar logo em casa para ver como os pais estavam. Sabem como são aqueles dois, né? – Nina riu.
– Querida, não éramos os únicos ansiosos para te ver. – Mauro murmurou. O homem de cabelos tingidos de preto para disfarçar os fios grisalhos acenou com a cabeça para o fim das escadas.
Nina olhou para a linda mulher que descia nos degraus, segurando no corrimão. A madeixa ruiva estava metodicamente arrumada. Vanessa sorriu.
– Feliz em me ver também?
A bióloga não resistiu e correu, pulando os degraus de dois em dois, só para abraçar Vanessa. Era impossível lutar contra ela mesma e dizer que não tinha gostado dela. Teve a impressão de que os defeitos da socialite foi o que a atraiu. Já afastadas do abraço, Vanessa disse:
– Posso passar o resto da noite aqui? Lá na mansão está um tédio, se eu ficasse lá, era capaz de encher minha banheira de Chandon, só pra ter o que fazer. Quero aproveitar que chegou pra me contar as novidades. – Ela mostrou uma bolsa preta. De longe se percebia que era caríssima. – Trouxe alguns filmes e umas fantasias sexuais.
Mais uma vez, Nina sentiu a malícia a voz dela. Desta vez, uma malícia despretensiosa. Deduziu que estava brincando e corou.
– Se for filme de terror eu aceito!
– Óbvio! Eu lá sou mulher de comédia romântica, querida. – Deram as mãos e correram para o andar de cima, onde ficava o quarto da bióloga.
Mauro e Cássia se entreolharam e sorriram. A mulher ainda estava com a chinchila no colo. Ela olhava-a animada.
– Venha Sid, deixe-me preparar algo para você.
XXXXX
Nina e Vanessa passaram a noite assistindo “Doce Vingança” e “Laranja Mecânica”, e nos intervalos onde a ruiva implorava para ir ao banheiro, Nina pensava em como a noite estava ficando boa. Aproveitavam também para comentar sobre os filmes.
– Como uma pessoa é tão burra ao ponto de ir parar no meio do nada só pra escrever um livro? – Vanessa reprovou. – Essa pediu, hein?
– No dia em que você precisar de inspiração pra criar qualquer coisa, você irá entendê-la. – Nina replicou. – Mas entendo seu ponto de vista. Em filmes de terror, a protagonista precisa ser tola, ingênua e parecer burra.
– Na maioria é comum elas ficarem extremamente inteligentes e astutas apenas no final, pra enfrentar cara a cara o assassino.
– Tenho que concordar. É assustadora a mudança de comportamento do início para o fim. É ai que aparecem os furos no roteiro e as pontas soltas.
Não era exatamente uma amizade verdadeira, era mais como uma atração à primeira vista. Nina sempre teve vontade de experimentar novos caminhos, mesmo estando com Ícaro. Ela sentia-se capaz de saber amá-lo fielmente e matar suas curiosidades. A ruiva já tinha dado indicações explícitas de seus gostos, e a loira simplesmente os aceitou como condições para elas continuarem se relacionando de maneira tão natural. Como se já se conhecessem há anos. Possuíam muitas coisas em comum, todavia, muitas diferenças. Se alguma delas viesse a interferir no momento, Nina nem preferia descobri-la.
Desta vez, foi Nina quem foi ao banheiro. Vanessa aproveitou para ir até o home theater da bióloga e por alguma música da playlist da loira. Quando Nina voltou, Vanessa estava de pé, apenas de sutiã, dançando ao som de Boom Clap, da Charlie XCX.
You're picture perfect blue
Sunbathing on the moon
Stars shining as your bones illuminate
First kiss just like a drug
Under your influence
You take me over you're the magic in my veins
This must be love
A ruiva rebolava sensualmente, enquanto ia de um lado para o outro no quarto, cantarolando a canção. A loira ficou parada de frente para a porta por um segundo. Vanessa fez um sinal, chamando-a com o indicador. Nina não resistiu e foi caminhando em sua direção. A ruiva foi até ela e com a boca fez menção de lhe tirar a blusa. Nina sentiu-se livre para começar a rebolar também, ajudando-a a tirá-la, ficando apenas de sutiã.
Agora, ambas rebolavam, passando a mão pelos corpos colados, rindo sem parar. Vanessa foi gostando do que vira e já agitada, tirou a saia. Nina fez o mesmo com o short. De lingerie, continuavam dançando ao som da música, com os corpos mais próximos. A ruiva deslizou a mão pela barriga da loira e tocou sua calcinha com os dedos. Nina olhou para baixo, decerto, envergonhada. Vanessa abaixou-se para passar a língua em seu abdômen.
Boom clap, the sound in my heart
The beat goes on and on and on and on and
Boom clap, you make me feel good
Come on to me, come on to me now
– E seus pais? – A socialite perguntou, nos intervalos das lambidas.
– Estão dormindo. O quarto deles fica do outro lado das escadas. Estão longe. – Nina mordia os lábios, tocando a cabeça da ruiva e pedindo que ela descesse mais, suavemente.
Vanessa não contestou e escorregou a língua até a calcinha da outra, retirando-a com a boca, sujando-a com seu batom “vermelho violente-me”. Subitamente o home theater parou. As garotas estavam tão distraídas que nem perceberam, muito menos ouviram os barulhos que provinham da sala de estar.
– Você ouviu isso? – Nina chamou a atenção de Vanessa, para um pequeno ruído. – Veio do corredor.
– Huh?
– Esse barulho, parecem batidas. – A bióloga aguçou os ouvidos.
Houve um grito.
– Foi minha mãe! – Nina disse, apanhando o short do chão e o vestindo velozmente.
– O quê? Mas ela não estava dormindo?
– Tenho que checar. Ela toma alguns calmantes antidepressivos e isso causa insônia e algumas alucinações. Papai nunca sabe o que fazer, precisam de mim! – Nina saiu do quarto, apressada.
– Me espera, né? – Vanessa tentou vestir a saia rapidamente, mas desistiu e a seguiu apenas de lingerie. Assim que ela saiu do quarto, o home theater voltou a tocar, desta vez, com outra música: “Animals”.
Baby I'm preying on you tonight
Hunt you down eat you alive
Just like animals, animals
Like animals-mals
As duas seguiam pelo corredor escuro da mansão. As luzes das luminárias da era renascentista da coleção de sua mãe estavam apagadas. Nina podia enxergar apenas o brilho da lua no vitral que ficava de frente para a escadaria. Antes de chegarem ao final do corredor, ouviram a discussão:
– Onde fica o cofre?
– Eu não sei, eu juro! Meu marido era quem cuidava dele! – A voz era apagada pelo choro. – Por favor, não faça isso...
– Se não disser, vai terminar igual a ele! Vamos, dona, mostra o cofre!
A ruiva chegou por trás de Nina e tapou sua boca, sussurrando em seu ouvido:
– São assaltantes, vamos ligar pra polícia!
– Minha mãe está lá com eles, eu não posso dei-
A loira não teve tempo de terminar a frase. Um tiro ecoou e o corpo da sua mãe caiu aos seus pés. Seus olhos ainda estavam abertos, sua boca também. Cássia morrera com o semblante de medo estampado no rosto. O buraco na testa jorrava muito sangue, formando uma poça.
Vanessa gritou. Mais dois assaltantes apareceram na escadaria. Um deles carregava o corpo de Mauro, com um corte vertical na barriga; de lá saía suas vísceras.
– Meu Deus! – Nina pôs a mão na boca, com inúmeras lágrimas rolando pelo rosto.
A ruiva puxou-a. As duas começaram a correr pelo corredor.
– Olha, temos mais diversão, meus camaradas! – Um dos encapuzados disse. Os outros dois que o acompanhavam, provavelmente sorriam embaixo das máscaras.
Eles iniciaram uma corrida atrás das garotas. Nina engolia o choro, pedindo que Vanessa lhe tirasse dali o mais rápido possível e impossível. A ruiva não ouvia tudo com atenção, pois a adrenalina consumia seu corpo. Ambas escorregaram no carpete do corredor. Era o tempo que os algozes precisaram para alcança-las. Dois deles agarraram os braços de Vanessa, enquanto a socialite se esperneava e resistia, tentando acertá-los com suas unhas ou cotoveladas. O terceiro apontou a arma que matara a mãe de Nina, para desta vez, ameaçar a jovem.
– Queremos o cofre! Você sabe onde ele fica, e vai nos dizer por bem ou por mal... – A última palavra ele proferiu, quando passou o cano da arma na boca dela. – Agora levanta! – Puxou os cabelos loiros e empurrou-a de volta para a escadaria.
À medida que a ruiva se distanciava, mais gritos histéricos eram lançados. Os dois homens a arrastavam para o lado contrário ao que a loira estava sendo levada. Vanessa se debatia da maneira que podia, com as mãos em movimentos frenéticos de ataque. Suas unhas estavam afiadas o bastante para fazer um ferimento profundo no algoz. Não demorou muito para que o primeiro arranhão fosse feito próximo do queixo dele. Isso o deixou maluco e ele largou seu braço, lançando-a contra a parede, após uma tapa certeira no rosto.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Vanessa cobriu o rosto quando os cabelos foram para frente, temendo ser agredida pela segunda vez.
– Se tentar correr vai ser pior pra você. – Um deles murmurou. – Olha que gostosinha...
– Mostre-me os peitos, quero os peitos!
A expressão no rosto da jovem milionária mudou abruptamente. O medo lhe trouxe um movimento inesperado, o de tapar a parte de cima da lingerie. Isso atiçou um dos agressores, que preferiu arrancá-la por conta própria. Vanessa gritou.
Nina apareceu do nada, no corredor. Ela corria esbaforida, sendo seguida pelo assaltante que a levara. Os seios à mostra, mamilos rosados, balançando e o só de calcinha. Ela chorava muito, era tudo muito apavorante. A perseguição não durou muito e ele deferiu um chute contra a parte traseira do joelho dela, levando-a ao chão. A loira gritou de dor e caiu com o rosto no chão com força. Ao levantar o nariz sangrava. Vanessa, horrorizada em sua frente, sussurrava algumas coisas, e a loira só teve tempo de dizer:
– Eu não consegui falar com a polícia, mas tentei às cegas mandar um sms para o primeiro contato que vi. – A voz rouca de gritar, suave... – Desculpe.
Então o bandido que outrora segurava a socialite, virou a filha do casal de frente, colocando o cano da arma contra sua boca. Algum “por favor, não” era ouvido, mas seria em vão, estava sendo abafado pela posição da boca. Se eles não conseguiram achar o cofre, eles gostariam de receber outra coisa em troca do roubo mal fadado.
XXXXX
Dentro do carro de Greg Kaulfuss o som tocava em volume ambiente. Ele dirigia com Lana ao lado, cantarolando a letra da música, como de costume. No colo, duas grandes sacolas do Starbucks e McDonalds, e eles se divertiam, enquanto alternavam entre dissertar sobre a atendente com piercing e tatuagem do Starbucks e fazer apostas de quantos views os vídeos renderiam em diante, depois do acidente. Não era tirar vantagem da tragédia, era apenas um meio que encontraram de não pensar muito na parte ruim que o desastre proporcionou.
De repente, Lana recebeu uma mensagem. Ela demorou um pouco para alcançar o celular que estava no bolso da calça, embaixo das sacolas, mas conseguiu realizar o feito e ao abrir a mensagem, ela sentiu seus olhos brilharem por um segundo. Logo, ficou aflita.
– Ei, o que aconteceu? – Greg perguntou, sem tirar os olhos da estrada. Nem precisou olhar a cara que Lana fez, somente deduziu pelo silêncio constrangedor que havia sido algo sério. – Lana?
– É a Nina... Ela me mandou uma mensagem estranha, parece estar em código. “Eu e Vanessa. Casa. Assalto. Perigo. Sos.”
– Ela e Vanessa correm perigo? – O barbudo queria que a parceira confirmasse. Ela assentiu. – Sabe onde a Nina mora? – Lana o olhou de novo e acenou positivamente com cabeça. E por que diabos nunca se encontraram pessoalmente? Mulheres... Tão complicadas, mas tão perfeitinhas.
– Precisamos chegar lá o mais rápido possível! Cortaremos pela rodovia e diminuírem o trajeto em cinco minutos. – Lana apontou. – O que levaríamos pra fazer em 23 minutos, agora levará apenas 18, então sejamos rápidos.
Greg pisou fundo no acelerador. O carro seguiu a toda velocidade pela rua. A noite de filmes que ele e Lana haviam preparado poderia esperar. Vanessa e Nina, não.
XXXXX
– Chupe. – Ele ordenou. Nina arregalou os olhos. – Chupa logo, cadela!
O nojo crescendo dentro de si. A loira colocou os lábios e empurrou o cano da arma na boca, indo até o fim e sentindo-o tocar o teto de sua garganta. Teve ânsia e tirou rapidamente. A ruiva, de cabeça baixa, choramingava.
– Prefere com um de verdade, não é? – A voz esganiçada arranhava os tímpanos das garotas. Este resolveu ir se adiantando e abrindo o zíper da calça. – Então vou te dar um. Segurem essa safada!
– O quê? – Nina arregalou os olhos, sentindo o bandido atrás de si segurar suas duas mãos, amarrando-as justapostas com fios.
– Deixem-na em paz! Soltem ela, seu bando de animais! – A ruiva gritou e o outro mascarado simplesmente pegou o canivete de um dos bolsos e o deixou rente ao pescoço da jovem. Os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
– Por favor, não... – Nina implorava. As lágrimas incansáveis no rosto. – Leve tudo o que quiser daqui, qualquer coisa, só não faça isso.
– Tarde demais, já está feito, cadela. Você será o meu aperitivo desta noite e logo depois, te deixarei aqui pra morrer, igual aos seus pais egocêntricos imprestáveis! – Ele deu um uivo de um verdadeiro animal, congelando o corpo da bióloga.
O homem tocou o pênis semiereto e direcionou em sua vagina. Afastou um pouco a calcinha, ao mesmo tempo em que a moça se esperneava. Penetrou o membro já inteiramente ereto, antes que ela pudesse hesitar mais. O terceiro bandido apenas tapou sua boca. As estocadas eram violentas e bruscas e a cada penetração profunda, ela dava um gemido alto, abafado pela mordaça improvisada. O agressor aproveitou para massagear seu seio e apertar seu mamilo. Aquilo lhe causava prazer, ver vítima sofrer lhe dava uma sensação boa, como um animal.
Baby I'm preying on you tonight
Hunt you down eat you alive
Just like animals, animals
Like animals-mals
Maybe you think that you can hide
I can smell your scent from miles
Just like animals, animals
Like animals-mals
A ruiva aproveitou a distração para erguer-se devagar e agarrar um abajur numa mesinha ao lado. Rapidamente acertou o objeto com força na cabeça de um deles, causando-o um desmaio instantâneo. O segundo assustou-se e virou no exato mesmo segundo, a tempo de ver o abajur vindo na direção de seu rosto.
– Vanessa, vai pedir ajuda, agora! – Nina gritou. O bandido então deu uma última estocada bruta e arrancou-lhe um grito de extrema dor. A última lágrima da loira caiu com pesar. Ela apagou logo em seguida.
O bandido ainda teve chance de sacar a arma e disparar contra a ruiva, mas ela já descia os degraus de dois em dois, gritando histericamente. Abriu a porta do casarão e passou pela varanda, descalça e de lingerie. Abriu o portão que dava acesso à mansão e saiu. A rua permanecia deserta, com exceção de um rapaz que vinha caminhando embaixo da luz de um poste. Vanessa acenou com os braços, sem se importar se estava com vestes inapropriadas. Só queria salvar a vida de Nina.
O rapaz se aproximou e revelou ser Murilo, que Vanessa já tinha visto na ilha. Concorrera no campeonato de surf ao lado de Eduardo, o bonitão do patrocínio. Ele segurou os dois braços da moça, dizendo:
– Ei, o que houve? Por que está vestida assim?
– É minha amiga, ela corre perigo! Tem três assassinos lá dentro, eles tentaram estuprá-la, eles vão matar ela, assim como fizeram com os pais dela! Você precisa me ajudar! Chame a polícia, faça algo!
– Calma, vou ligar pra polícia, mas antes me deixa tentar ajudar. Eu tenho habilidades com lutas corpo a corpo, já servi no exército por um ano e sempre carrego isso, caso precise. – Mostrou o canivete.
– O que você tem na cabeça? Porque cérebro e neurônios não devem ser. Não pode entrar lá, eles vão te matar!
Pouco antes de ela protestar, Murilo já estava entrando. Vanessa o seguiu logo atrás, dando passos lentos. A ruiva tinha uma barra de ferro em mãos, que pegara do jardim, quando o viu jogado. Ao passarem pela porta principal do casarão, o agressor segurava Nina pelos cabelos, no fim da escadaria. Ele disparou:
– Não estou satisfeito. A vadia desmaiou antes mesmo de me fazer gozar. – E largou o corpo da bióloga, que rolou escada abaixo. – A ruiva me parece ser a medida certa.
Murilo agarrou os braços da socialite e começou a puxá-la para perto do agressor nas escadas. Ela permanecia sem entender nada.
– Você... Você disse que me ajudaria... Mas que porra é essa? – Ela olhava no fundo dos olhos do garoto, tentando descobrir por que ele estava fazendo parte disso. – Então, é um deles?
– Eu não tive opção. Esta noite vocês são deles e eu não irei poder nada para ajudá-las. Foi o que me repassaram. – Jogou-a nos braços do estuprador. Eles só tinham esquecido um detalhe, ela não estava indefesa e já tinha pensado em tudo.
Vanessa agarrou firme na barra de ferro e subiu o objeto rapidamente. A ponta do ferro rasgou o queixo do assassino, respingando sangue no rosto e cabelo da mulher. Murilo correu para dar um jeito nela, mas a ruiva foi mais veloz e girou a barra em sua direção. Ele não esperou que objeto negro e pontudo fosse atingir seu tórax com tanta força. Vanessa aproveitou, enquanto ele se contorcia de dor sobre a poça de sangue do bandido anterior e deferiu diversos golpes contra o rosto do rapaz, desfigurando-o por completo. Não dava para se distinguir mais a posição dos olhos, nariz e boca. Ela teve a impressão de ver a arcada dentária saltar por um milésimo de segundos.
Em seguida, ela ouviu um gemido e olhou para trás. Nina se erguia, com diversas escoriações pelo corpo. Vanessa correu para ajuda-la a se erguer, depois de soltar a barra e ouvir seu tilintar no chão. A porta principal se abriu novamente e Lana entrou correndo. Greg entrou logo em seguida, vendo o que tinha restado de um inferno pessoal. Dois corpos estirados no chão da sala, muito sangue e chamas no andar de cima.
– Fogo! – Greg avisou e avistou Lana e Vanessa erguendo Nina do chão, completamente debilitada. As pernas bambas, o andado torto, as marcas pelo corpo.
Foi neste momento que Greg retirou seu casaco e deu para que a garota cobrisse as vergonhas. E também foi nesse momento que percebeu a estranha cicatriz na nuca da bióloga. Era parecida com a que estava vendo naquele exato momento na nuca de Vanessa e também era simetricamente similar a que Lana ganhara depois do acidente. Todas pareciam com número ou algum tipo de algarismos.
O fogo consumiu todo o andar de cima. Não sabiam de onde as chamas haviam surgido, mas sabiam que não ficariam ali para verem o final. Os quatro saíram pela porta e passaram pela varanda. Quando saíram completamente do terreno da mansão da família Brandão, o fogo já tinha engolido mais de oitenta por cento da construção. Três janelas explodiram.
– SIIIIIIIIIIIIIIIID! – Nina juntou os últimos resquícios de forças para gritar pelo bichinho de estimação.
Mal piscou os olhos e Greg já estava dentro da mansão em chamas, procurando pelo roedor. Passaram-se alguns segundos desde que ele havia entrado. Todas as três observavam tudo de fora, enquanto inúmeras pessoas se aglomeravam ao redor, horrorizadas.
– Greg, cadê você? – Lana murmurou
– Vamos lá, rato, eu sei que consegue. – Sussurrou Vanessa para si mesma.
De súbito, estruturas da entrada desmoronaram. As garotas gritaram e arregalaram os olhos, sem esperança. Porém, Greg saltou duas tábuas de madeira em chamas e em seu colo, Sidney Prescott, a chinchila, jazia. Nina chorou muito naquele instante. Ela não conseguia formular tudo o que tinha acontecido naquela noite.
– Obrigada por terem vindo, não sei o que seria de mim sem vocês. – Ela agradeceu Lana, agora abraçada com ela.
– Vanessa foi quem salvou você. Ela é sua super-heroína.
A ruiva sorriu de lado para a bióloga, que agradeceu em pensamento, com um olhar que substituiu todas as palavras que ela conseguiria dizer. Greg chegou com Sdiney no colo.
– Bom trabalho, rato. – Vanessa disse.
Greg abraçou Nina, indagando:
– Você está bem? Eles machucaram você?
A loira pensou em contar tudo o que eles tinham lhe forçado a fazer, mas só repousou a cabeça no ombro do barbudo e fechou os olhos, ouvindo ao longe o barulho de sirenes.
– Meus pais... Eles tiraram meus pais de mim...
– Ei, não fique assim. O pesadelo já acabou. Você está bem agora. Vamos cuidar bem de você, Nina. Eu prometo. – O homem de braços fortes envolveu as três garotas. – O pesadelo já acabou.
Já acabou?
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