Premonição Chronicles 2
1 Capítulo 01: Não Me Deixe Só
Notas iniciais
Para muitos de nós, o futuro é algo desconhecido e incerto. Passamos toda nossa vida fazendo planos, nos preparando e tentando traçar nosso próprio caminho, mas não sabemos o que está pela frente. Não sabemos quando vamos perder um emprego, não sabemos quando vamos perder uma amizade, não sabemos quando vamos perder um ente querido e não sabemos quando vamos perder tudo que temos. Não sabemos quando chega a nossa hora e não sabemos que contra isso, não há vitória.
O nosso passado também é um grande mistério. Desconhecemos muitos detalhes sobre nossa própria existência. Desconhecemos muitos fatos sobre a humanidade, fatos que a história enterrou e que hoje, buscamos para tentar saciar nossa sede pelo conhecimento.
Há uma ilha, próxima ao Brasil, a Ilha Vermelha, uma das três ilhas de um arquipélago chamado Tríade Atlântica. Ela abriga uma pequena cidade chamada de Santa Muerte, que foi construída sobre uma antiga civilização espanhola. O lugar foi palco de estranhos fenômenos e rituais e a civilização que alí vivia, desapareceu sem deixar rastros. É um grande mistério que ainda se tenta desvendar, mas talvez, a resposta para esse mistério não seja algo que queiramos saber.
Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz
Cabelos castanhos, não muito longos, uma camisa preta um pouco velha e uma bermuda jeans. Ruth se apressava para chegar ao porto, corria puxando sua mala e tentando manter o headphone em sua cabeça e os óculos na cara. Os papeis de viagem em mãos, sua bolsa balançando em seu braço e ela tinha certeza de que nada, nada, deveria ser mais embaraçoso do que o jeito como ela corria.
Ao se aproximar se deparou com uma montoeira de fotógrafos e paparazzis, uma garota loira seguia seu caminho sorrindo e acenando para eles enquanto entrava no navio. Ruth se distraiu e tropeçou, se esparramando no chão e derrubando os papeis, o óculos, o fone e tudo que estava em sua bolsa. Enquanto tentava juntar suas coisas, viu um allstar preto se aproximar.
– Quer ajuda? — ouviu a voz dizer e ergueu a cabeça. Viu uma garota com cabelos longos, loiros, um batom vermelho forte e um rosto muito bonito. Vestia uma camisa preta rasgada, que deixava um pouco de sua barriga aparecer e uma calça jeans, também preta. — Você parece estar precisando — ela continuou e largou uma pequena risada enquanto se ajoelhava.
– Muito obrigado — Ruth respondeu com a voz um pouco baixa, mostrando sua timidez.
– Não há de que. Se tropeçar outra vez durante a viagem e derrubar alguma coisa, é só chamar... — a garota respondeu sorrindo — A menos que você derrube a mesa de jantar, aí você está por conta própria.
As duas riram e a garota ajudou Ruth a se levantar.
– A propósito, meu nome é Lena, Lena Oliveira.
– Sou Ruth, Ruth Ferreira.
– Bem Ruth, melhor nos apressarmos ou vamos perder esse maravilhoso cruzeiro!
Ruth notou um tom de sarcasmo na voz de Lena que a intrigou um pouco.
– Não gosta de barcos? — Lena sorriu quando ouviu a pergunta.
– Não, nem um pouco.
As duas riram novamente e se encaminharam para a passarela.
***
A recepção do navio era bem luxuosa. Um lustre enorme se prendia no teto
– Seu quarto é o de número 1-7-9, tem uma cama a mais, espero que não se importe com o espaço extra — a atendente riu e Ruth riu de volta. — Um bom passeio para você! — a atendente sorria enquanto Ruth apenas acenou com a cabeça enquanto pegava as chaves.
Enquanto se direcionava para fora da recepção, foi atraída pela discussão ao lado.
– COMO ASSIM EU NÃO TENHO QUARTO? — Uma mulher esbelta, de cabelos ruivos brilhantes e um vestido azul, gritava com o funcionário, indignada com a situação.
– Senhorita Albuquerque, houve uma falha nos nossos sistemas, mas garanto que podemos resolver...
– Escuta aqui meu bem, você não sabe com quem está falando. Eu sou uma acionista de sucesso e gastei muito dinheiro com esse cruzeiro e eu EXIJO o devido tratamento da situação.
A funcionária que atendera Ruth resolveu se intrometer e tentar ajudar.
– Olha, aquela menina está com uma cama a mais, talvez você possa dividir o quarto com ela durante a ida a ilha.
A senhora Albuquerque mandou um olhar que atravessou Ruth como mil punhais e a garota apenas ficou ali, parada.
– Querida, não estou aqui para dividir meu quarto com uma garota qualquer da classe média. Não se mistura diamante com esmeralda, meu bem.
A mulher já estava pronta para explodir com o funcionário e então parou, respirou e colocou um sorriso no rosto.
– Tudo bem, é apenas por um dia. Onde fica o quarto?
O funcionário guiou as duas pelos corredores até chegarem ao quarto.
– Hm, oi... Meu nome é Ruth, prazer em te conhecer! — Ruth estendeu sua mão para cumprimentar a mulher, que a encarou por algum tempo, considerando e então estendeu a mão também.
– Eu sou Vanessa. Não se acostume com o contato físico.
Depois de largar as malas, Ruth foleou o folheto do cruzeiro. Haveria um jantar pela noite com música ao vivo, ela reconheceu a cantora, a garota loira que vira quanto embarcou. Lis era o nome dela. Olhou então o mapa e memorizou onde ficavam as piscinas.
– Imagino que você não queira me acompanhar até as piscinas? — Ruth esperou alguns segundos pela resposta, mas Vanessa não se importou nem em olhar para sua cara.
***
O lugar era realmente grande e majestoso, Ruth estava espantada com tudo isso. Passara por algumas lojas, um restaurante, um salão de dança e uma sala de jantar enorme. Quando finalmente chegou as piscinas teve a surpresa de avistar Lena, quis gritar por ela mas havia música sendo tocada e alta demais para seu grito conseguir superar.
E sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente
Ela começou a correr em direção a piscina, mas começou a escorregar e quase trombou em um casal que discutia ao lado da piscina. Ela então tropeçou e caiu, batendo com a cabeça na borda da piscina e caindo dentro da água. Antes de desmaiar, Ruth viu uma sombra azul escura vindo em sua direção.
– Ela está acordando!
– Ai meu deus, Ruth! Você está bem?
– Acho que o ferimento na cabeça não foi grave.
A cabeça de Ruth latejava e sua mente ficava girando sem parar. Demorou alguns minutos para poder distinguir de onde vinham as vozes e quem eram. Ela viu uma mulher, loira, de vestido azul, tanto o cabelo quanto o vestido estavam encharcados. Essa mulher deveria ser quem pulou pra salvá-la. Ao lado dela se encontrava Lena e um homem, com camisa branca e uma bermuda de banho.
– Você deu sorte garota — disse a mulher — Meu nome é Nina, e esse aqui é meu namorado, Ícaro.
– Muito... obrigado... — Ruth conseguiu dizer.
– Não precisa me agradecer, só não bata com a cabeça de novo e caia na piscina — ela riu.
Lena então segurou a mão de Ruth.
– Quando eu disse pra me chamar na próxima vez que caísse, eu não esperava que acontecesse tão cedo.
Ruth sorriu para ela.
– Olha, lamento, mas não posso ficar mais, preciso achar a Sidney Prescott — Nina disse e se retirou, olhando para o chão e fazendo movimentos como se procurasse a tal Sidney em baixo de uma mesa.
– Sidney Prescott não é a protagonista de... — Lena começou a dizer, mas foi interrompida por Ícaro.
– É a chinchila de estimação dela. — Ele disse enquanto saía também — Foi um prazer conhecer vocês.
Ruth e Lena apenas se entreolharam e riram. Riram bastante.
–Vamos, levanta! — Lena disse enquanto ajudava Ruth a se levantar — Hora de dar uma volta por esse lugar!
Her face is a map of the world, is a map of the world
You can see she's a beautiful girl, she's a beautiful girl
Música tocava por todos os cantos. Ruth ainda estava maravilhada com tudo que havia no navio. As duas andavam por todos os lados, Ruth geralmente parava para apreciar algo e Lena a puxava para continuarem o Tour. Era uma pena que a viagem durasse só um dia, Ruth ainda não sabia como se sentia em relação a Lena.
– Ei, você vai no jantar com música ao vivo essa noite?
Lena se virou, com um sorriso um pouco debochado no rosto.
– Está me convidando para jantar?
As bochechas de Ruth ficaram envermelhadas nas mesma hora. Lena sorriu para ela.
– Vai ser um prazer.
***
Ruth se encaminhava para o seu quarto para se preparar pro grande jantar enquanto ria consigo mesma.
– O dia não pode ficar mais estranho...
Quando ela aproximou a mão da maçaneta da porta ela ouviu gemidos vindos do outro lado da porta. Ela recuou imediatamente, envergonhada e acabou esbarrando em alguém que passava pelo corredor.
Seja lá quem fosse, a pessoa caiu no chão de quatro soltando um gemido leve. Era uma mulher, alta, magra, com cabelos curtos e negros. Apesar da situação, Ruth pode parar para pensar por alguns segundos e percebeu que 90% das mulheres no navio eram loiras e que ela, Vanessa e a moça na sua frente eram as poucas exceções.
A menina voltou a realidade e foi socorrer a moça que se encontrava caída no chão.
– Ai... Desculpa, desculpa, desculpa! Eu meio que tomei um pequeno susto, juro que não queria te derrubar! — Ruth estava desesperada com a fato de ser a terceira vez que algo assim acontecera hoje.
– Tudo bem — a mulher disse enquanto levantava — Não foi nada.
Ruth segurou-a pela cintura e a ajudou a levantar.
– Posso te ajudar até seu quarto? Eu realmente sinto muito...
– Não vai ser necessário, eu estou logo alí no 1-8-0, meu nome é Anna, Anna Clara.
– Sou Ruth...
O barulho de porta se abrindo logo interrompeu a conversa, e um rapaz alto e forte saiu o quarto de Ruth, ainda se vestindo. Vanessa estava na porta, com cara de quem aproveitou bem a tarde. Ela se virou para Ruth e ergueu a sobrancelha.
– Algum problema?
Ruth se virou para Anna e fez uma careta.
– Preciso ir — ela sussurrou — tenho que me aprontar para o jantar e gostaria de evitar ficar muito tempo naquele quarto.
Anna sorriu para ela, entendendo a situação e Ruth entrou no quarto rapidamente evitando contato visual com Vanessa.
Vanessa sorriu para Anna e bateu a porta do quarto.
***
A sala de jantar estava lotada, as mesas estavam todas bem arrumadas com decorações caras e os garçons vagavam pela sala anotando os pedidos. Havia um palco no canto oposto à porta e Lis, a cantora, se preparava para sua apresentação. Nina e Ícaro também estavam lá, os dois seguravam uma taça de vinho e sorriam um para o outro.
– Bem chique, não? — Ruth estava com um vestido vermelho, bem escuro e curto.
– Acho que se o ego dessas pessoas ganhasse forma física, não teríamos espaço pra respirar aqui — Lena riu enquanto falava. Ela estava com um vestido preto, longo. E estava linda.
– A primeira música que vou cantar é uma música nova– Lis estava com um vestido branco com manchas negras, curto — Essa música foi feita especialmente para a minha gravadora. Ela se chama "No More Apologizes".
– Então, me diga — Lena continuou — O que traz você aqui?
– Estou começando a aproveitar minha folga mental. Terminei o ensino médio em novembro e quero ficar um ano parada, pensando no que realmente quero fazer, para onde eu vou...
– Acho bem justo — Lena riu — Eu também estou dando uma pausa nos estudos. Comecei a cursar medicina 2 anos atrás, mas passei por uma pequena crise e resolvi deixar os estudos de lado para viajar um pouco. Quero conhecer o mundo!
– E quanto a sua família? Eles te apoiam nisso? — A expressão de Lena mudou totalmente com a pergunta e Ruth se arrependeu de perguntar. Lena percebeu e tentou acalmar Ruth.
– Não se sinta culpada. É um assunto que não tenho muito costume em falar sobre. Meus pais me abandonaram enquanto eu ainda era bebê...
I'm already sick of it
Calling you but you're never here
No more apologizes
– Mas eu não tenho vontade de conhece-los. Não quero ouvir alguma desculpa qualquer que justifique as ações deles... Ou descobrir que simplesmente não me queriam.
Ruth segurou a mão de Lena enquanto ela continuava a falar.
– Eu consegui me virar muito bem sem eles. Passei toda infância em lares adotivos, até conseguir começar a trabalhar.
I've had enough of your lies
Don't tell me I'm blind
Don't say you're sorry
Don't try to be kind
No more apologizes
– Arrumei um bico de garçonete e minha chefe me adotou. Ela começou a me pagar uma escola e alguns cursos, eu continuei trabalhando, mas ela me deu todo apoio que eu podia querer e com muito esforço eu consegui passar pra medicina. Mas me conte sobre você!
– Esta aqui é do meu primeiro CD, ela me trás lembranças boas e vai sempre ser uma de minhas favoritas.
– Bem... Meus pais são donos de uma grande empresa e sempre estavam ocupados. Acabei crescendo um pouco sozinha e aprendi a me virar. Eles não perceberam que eu cresci e não preciso mais ser vigiada. E também não quero mais depender deles. Foram muitos anos tentando me comprar, mas não consigo, não tenho intimidade com eles... Então eu quero arrumar uma casa só pra mim, conseguir um emprego e continuar meus estudos. Viver por mim mesma. — Ruth riu — Essa viagem, por sinal, saiu do meu bolso, com o dinheiro de um estágio que fiz durante o ensino médio.
Eu só quero encontrar algo que me faça feliz.
Lena sorriu.
Agora eu achei, o que tanto buscava
Por tanto tempo esperava
Esperava por você voltar pra casa e não me deixar
Nada será como antes
Nada de jogos, nem vergonha também
Sou feliz por te ter meu bem
Pois agora eu achei, enfim achei
Eu achei, o que sempre procurei
Agora eu achei, o que tanto buscava
Por tanto tempo esperava
Esperava por você...
Lena avistou uma garrafa de champagne perto da cozinha e puxou Ruth.
– Vem!
Ruth foi arrastada pela sala de jantar. Algumas pessoas encararam as duas, ela percebeu Nina se levantando e saindo com uma cara estranha.
– Essa última música foi escrita para um amigo de infância meu. E eu dedico ela a namorada dele, que passou por uma série de problemas e perdeu ele e o filho em trágicos acidentes.
Lena pegou a garrafa e enfiou em sua bolsa.
– Você pode fazer isso? — Ruth indagou, com medo de se meter em alguma encrenca.
– Isso o que? — Lena riu e arrastou Ruth para fora da sala de jantar.
She lost a love, we lost a friend
You lost a battle that never seemed to end
The world lost a hero, and so did I,
But now there's one more star in the sky
– O que você ta pensando?
– Vamos lá, Ruth! Nunca sentiu vontade de fazer alguma coisa errada? — Lena passava pelos corredores lentamente, dançando. Parecia a Stevie Nicks.
Ruth correu atrás de Lena, conseguindo não cair dessa vez.
Lena guiou ela até o deck do navio e abriu o champagne.
– Um brinde! A nossa temporária liberdade! — Ela gritou e depois virou para a Ruth — Nem a morte pode nos parar agora.
Ruth sorriu e Lena a beijou. As duas ficaram lá por horas.
O tempo já não fazia mais sentido.
***
Para Wendel, observar o céu durante a noite era a coisa mais bela no mundo, ainda mais em uma ilha tão bela, a Ilha Vermelha. Seu voo chegara na ilha pelo fim da tarde e ele aproveitou a chance de observar o céu, pensar na vida e relaxar para o dia seguinte, que lhe reservava um passeio pela enorme ilha e um jantar comemorativo.
A celebração era pela Animal Rescue e seu brilhante projeto cujo Wendel já estava cansado de ouvir naquela semana. Todos só pensavam nisso e Wendel queria apenas aproveitar. A ilha possuía muitos segredos e muita coisa a ser explorada.
Enquanto olhava para o céu mais uma vez, uma estrela cadente passou e Wendel sorriu.
***
Quando o cruzeiro chegou a ilha, Wendel se juntou à um grupo e começou a fazer alguns amigos, dentre eles, Kris, o boy magia que ele queria chegar as estrelas com. Também conheceu algumas grandes figuras como Ruth, Lena, Anna, Vivian, Henrique e Luca.
Wendel aproveitou o tempo que ainda tinha antes da expedição da ilha para dar uma volta pelo lugar, principalmente porque tinha esperanças de encontrar Kris. Colocou seus fones de ouvido e se pos a andar.
A Ilha era realmente bonita. Um vulcão inativo se encontrava no centro da ilha, ao redor dele, pequenas matas e as ruínas.
E é sempre essa boca aberta, tragando tudo pelo caminho
Parte das ruínas podiam ser vistos dali mesmo da área de hospedagem, o jovem estava animado com tudo aquilo. Pela noite haveria um grande jantar, na tarde seguinte, uma competição de surf — era sua chance de ver mais rapazes sem camisa — e no terceiro dia um grande show. E falando em show...
– Chega! Já cansei disso! Não quero mais ser o que vocês querem que eu seja. Quero cantar as minhas próprias músicas, que as pessoas sintam o que eu sinto. — era Lis, a principal atração do show.
– Elisa, você não está entendendo... — Um cara de terno, provavelmente seu empresário, tentava acalmar ela.
Wendel resolveu sair de lá antes que as coisas esquentassem e foi então que avistou Kris. Alto, forte, com um cabelo curto e um topete que intrigava Wendel.
– Wendel! Eu tava procurando você — o rapaz gritou e correu para Wendel — Eu queria falar com você, em algum lugar mais privado... — ele disse enquanto segurava a cintura de Wendel.
Os dois estavam na mesma página...
De tudo o que se aproveita
De tudo, só quero o agora
Amanhã, acordo e resmungo:
"Eu quero minha vida de volta"
***
A guia turística era uma jovem hippie, com cabelos castanhos e brilhosos e um olhar admirável. Ruth tinha visto mais pessoas bonitas nessas dois últimos dias do que em sua vida inteira.
– Oi galera! Meu nome é Valentina, podem me chamar de Val se quiserem. Serei a guia turística de vocês nesse passeio. É um prazer conhecer todos vocês.
A saudação foi respondida com palmas e então e expedição começou. A primeira etapa foi passar pela nem tão pequena mata. Algumas pedras jaziam pelo chão, partes das ruínas, restos dos restos. Haviam algumas árvores altas, cobrindo o céu, e tornando o lugar um pouco mais assustador.
Wendel imaginava como seria o lugar de noite, Ruth temia essa imagem.
Uma grande parede de pedra se encontrava a frente, Ruth e Vivian passaram lentamente pro ela enquanto Val começa a contar sobre o lugar.
– Essas são as ruínas da original Santa Muerte. A antiga civilização espanhola que aqui vivia desapareceu sem deixar rastros. Ninguém sabe quando nem o por que. Esse continua a ser um dos grandes mistérios da ilha. Algumas pessoas gostam de tentar relacionar esse a história ao caso de Croatoan — ela brincou.
Luca segurava a mão de Henrique com firmeza enquanto passava pelo que foi, um dia, o lar de alguém.
– Algumas lendas dizem que este lugar foi palco de terríveis e macabros rituais. Foram encontradas diversas escritas e outros artefatos que poderiam comprovar tais fatos.
Wendel sentiu um calafrio percorrer seu corpo ao ouvir isso.
– Vamos passar agora por uma área de difícil acesso, para poder chegar as maiores construções, que continuam erguidas. Peço que tomem cuidado e prestem atenção à onde estão pisando.
E o pedido foi um pouco tardio. Ruth tropeçou e caiu sobre Vivian e Wendel, levando os dois ao chão consigo. Lena e Rodrigo não conseguiram segurar as risadas, Luca ajudavam eles a se levantarem.
– Você é realmente desastrada, Ruth — ela disse.
– Vamos, temos que seguir em frente — Val ordenou enquanto adentrava nas ruínas.
Eles chegaram em uma pirâmide, bem parecida com as encontradas no resto da América do Sul, porém, maior e em sua frente residia algo que aparecia um hall. Árvores se misturavam a construção e nas paredes haviam desenhos e escrituras. Ruth conseguiu apenas ler duas pequenas palavras, cujo não tinha ideia do significado:
tenebris locus
Val continuou a guiá-los pela pirâmide. A primeira câmara estava vazia, possuía apenas algumas poucas escrituras na parede. Seguindo um pouco em frente surgiram duas entradas, uma continuava reto e a outra descia para o subsolo. O grupo seguiu caminho pelo segundo e descobriram uma câmara enorme, cheia de artefatos estranhos e desenhos um pouco perturbadores.
– Meu Deus... — Vivian disse tampado a boca.
– Isso aqui é assustador — Wendel completou
– Essa é uma das mais famosas câmaras — Val começou — Onde acredita-se que eram feitos alguns rituais.
Havia uma espécie de mesa no centro, um pouco destruída. Ruth imaginou se era alí que colocavam os sacrifícios antes dos rituais.
– Alguns desenhos em uma outra câmara mostram que deveria existir um passagem secreta aqui que nos levasse a saída, porém nunca foi encontrada. Os turistas geralmente gostam de procurar, esperando que sejam aquelas a encontrarem a passagem, mas continuamos sem pistas.
Ruth e Wendel andavam lentamente pelas paredes da câmara, tentando o que todos já haviam feito antes. Luca e Henrique não se atreveram nem a tentar. Lena e Vivian procuravam por algo no chão e no teto, rondando a sala.
Alguns minutos se passaram e eles já estavam quase desistindo quando alguém teve uma ideia.
– O desenho na parede! — Lena exclamou.
– O que? — Val estava intrigada, sempre quis encontrar a câmara secreta e explora-la.
– Na entrada! Tem um desenho, algumas figuras geométricas que não parecem ter sentido nenhum, mas ela bate com a visão superior dessa câmara... Menos aquela coisa alí no meio — ela disse apontando para o que Ruth achava ser uma mesa antiga.
O grupo foi até a dita mesa e a observaram, procurando algo em sua superfície e nas escritas ao redor dela.
Val estava ajoelhada ao pé da mesa quando notou algo estranho no chão. Uma das pedras do piso estava levemente quebrada e parecia que debaixo dela havia um buraco.
– Me ajudem a levantar a mesa!
Todos obedeceram à Val e se posicionaram ao redor da mesa.
– Todos prontos? Vamos! 1...2...3...
Eles fizeram toda força que podiam mas não conseguiram levantar o artefato.
– Espera galera — Luca disse enquanto se juntava a Val — Vamos tentar empurrar, todos juntos aqui!
– Ela tem razão, vai ser mais fácil assim — Val completou.
Todos se juntaram mais uma vez e tentaram empurrar a mesa. Pouco a pouco ela foi se movimentando, dando passagem a um pequeno buraco.
– Não acredito nisso... — Henrique rodeava a nova descoberta.
– Será que é seguro? — Lena indagou.
– É bem fundo... Acho melhor vocês deixarem eu descer sozinha, se alguma coisa acontecer, chamem ajuda. — Val respondeu enquanto se posicionava para descer.
– De jeito nenhum que eu vou perder essa! — Lena disse e se juntou a Val.
Ruth e Vivian decidiram ir também, ignorando a sugestão de Val. Apenas Luca e Henrique ficaram na câmara.
– Eu falei pra vocês ficarem lá em cima! Pode ser perigoso! — Val gritou.
– Fica calma, e afinal, não temos mais como voltar, então vamos ver o que tem por aqui — Lena falou, tentando acalmar a guia.
O lugar que encontraram não era muito grande. Consistia numa pequena sala com apenas uma saída, que dava em um longo corredor. Provavelmente a tal saída secreta.
– Que demais... — Vivian soltou.
– Vocês estão bem? O que tem aí em baixo?– eles ouviram Luca perguntando lá de cima.
– É de fato uma descoberta interessante — Val começou — Mas não tem nada de especial aqui.
– Bem, pelo menos agora você têm mais uma câmara pra exibir.
Val não estava contente com turistas alí em baixo e então simplesmente esfaqueou Vivian com seu olhar e prosseguiu para o corredor.
– Acho melhor irmos andando, não sabemos como é a estrutura desse lugar. E não temos como voltar pelo buraco.
E parece que as palavras de Val acordaram as paredes. Rachaduras começaram a se formar, mas apenas nas paredes do corredor.
– Vamos, temos que sair daqui rápido! — Lena gritou e agarrou Ruth.
Val e Vivian já se encaminhavam para fora da sala.
– Espera! A escrita da parede! Deixa eu tirar uma foto...
quicumque sunt sub morti victimam colligenda. In quo erant oculi candentis, offeret pro anima.
Lena puxou a garota e as duas saíram correndo, logo atrás de Val e Vivian, enquanto o corredor começava a desabar. Não dava para enxergar nada, a escuridão dominava o local, mas isso não parou elas. Os pé de Ruth já estavam doendo e implorando para ela parar mas ela parar mas ela continuou a correr até chegarem na saída.
Elas saíram em meio a muitos arbustos, caindo e rolando no chão.
– Acho que isso conclui o passeio de hoje — Val disse enquanto levantava.
Lena riu.
– Eu não consigo acreditar que quase fomos mortas por uma câmara secreta desabando — Vivian conseguiu dizer entre longas pausas para respirar — Isso foi incrível!
Logo eles avistaram Luca e Henrique na entrada da pirâmide e se reuniram. Val disse que iria pedir pra analisarem o que restou da câmara secreta e tomar nota da descoberta. O grupo agradeceu e se despediram, colocando fim a um dia que não se esquecerão com facilidade.
***
Ruth custou a dormir por conta da adrenalina. O segundo dia também foi bem intenso, com o campeonato de surf, toda a torcida e agitação... Mas o terceiro dia começou com muito mais calma. Ela passou a manhã na praia com Lena, Vivian, Henrique e Luca. Os cinco fizeram todas idiotices que podiam fazer e agora se preparavam pra ir para o grande show.
– E então, acha que encontrou agora algo que te faça feliz? — Lena apareceu no quarto de Ruth para levá-la.
Sim. Ela tinha encontrado. Em 3 dias tinha conseguido fazer muitos amigos novos e se aproximar de uma pessoa e desenvolver um laço forte, como nunca havia feito antes.
– Espero que não esteja planejando desenterrar mais uma tumba hoje — ela comentou enquanto saiam.
As duas se apressaram para chegar antes que o show começasse. Ao chegar lá se juntaram ao seu grupo e também encontraram Anna, Wendel, Kris e alguns amigos deles. Lis se preparava para cantar sua primeira música, segurando seu violão para acompanhar a banda nesse primeiro ato.
Storms are coming, I feel it underneath my skin
SOS on my bedroom floor
See, I see a lighthouse even when it's still so dark out
I know I'll make it to the shore
Ruth se virou para o lado e percebeu que Anna estava parada, encarando o vazio. ouviu um barulho de carro acelerando e se aproximando e de repente Anna agarrou seu braço, acordando do transe.
– Temos que sair daqui — a voz de Anna Clara estava fraca e ela parecia estar segurando o choro.
– O que? — Ruth estava começando a se assustar
– O vulcão...
Então o chão começou a tremer.
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