Premonição: Catedral
1 Céu e Inferno
Notas iniciais
24 de dezembro de 1999.
20:00.
Véspera de Natal.
– Achei você! – Colin gritou.
– Ah, Colin! – Lindsey falou.
– Vem, vamos procurar o Stuart, vem mana, vem. – Colin falou, puxando Lindsey.
– Calma, calma, Colin.
Colin e Lindsey corriam pelo corredor superior da casa, enquanto Colin falava:
– Eu já procurei por aqui, ele não está.
...
Colin era um garotinho de 6 anos, muito extrovertido e com uma grande tendência a bagunçar, o que levava sua mãe, Julia, a muitas vezes ficar brava com ele. Porém naquele dia Julia não estava em casa, e sim, no shopping, comprando presentes para aquela grande e feliz família.
Julia cresceu como uma garota pobre, mas que atingiu a classe média, e agora, casada há alguns anos com seu marido, Arthur, eles viviam em uma casa no subúrbio da grande cidade de Nova Jersey. Julia e Arthur tinham se casado em uma grande festa no ano de 1985, e um ano depois veio o primeiro de cinco filhos que o casal tinha, o garoto Martin.
Cinco anos depois, o casal novamente teve um filho, na verdade, uma filha, Lindsey, que viria a ser a única filha do casal. Três anos depois, foi a vez de mais um chegar a família, mas dessa vez Julia teve gêmeos, Colin, que era o mais velho e Stuart. Para terminar dois anos depois do nascimento do gêmeos, chegou o mais novo membro da família, Will.
Naquele dia, Julia fora com Martin e Will, que tinham respectivamente, 13 e 4 anos, enquanto Arthur ficou cuidando em casa de Colin e Stuart, que tinham 6 anos, e Lindsey que tinha 9 anos.
...
– Cuidado com as escadas, Colin! – Arthur gritou. O homem estava na sala, assistindo ao noticiário na televisão.
– Tudo bem, papai! – Colin falou, correndo para a cozinha. – Stuart, cadê você?
– Stuart! – Lindsey gritava.
– Ele deve ter ido pra fora. – Colin falou.
– Não, Colin, tá frio lá fora, o Stuart não iria pra fora nesse frio...
Mesmo assim, Colin abriu a porta da cozinha, e saiu para o lado externo da casa. Nevava forte, e o pequeno esfregou as mãos, com luvas uma na outra. Depois gritou: — Stuart, cadê você?
Nenhuma resposta.
– Realmente Lindsey, está muito frio aqui fora, ele não iria mesmo...
Pouco antes de entrar, Colin ouviu um barulho vindo dos fundos da casa, e uma estranha sombra. Ficou desconfiado, porém logo depois ouviu o uivo do cachorro da família, Bob.
– É você, Bob? – Colin falou, e logo depois, sorriu.
O que Colin não sabia era que aquele era o último uivo do seu cachorro.
...
Stuart respirava ofegante, dentro do armário do quarto do seu irmão, Martin. Martin costumava falar que não queria que os gêmeos entrassem no quarto, porque tinham um certo “poder de destruição”.
Mas isso não era verdade absoluta. Colin realmente tinha esse poder, porém Stuart não era Colin. Stuart era mais introvertido, mais quieto, do que Colin, mas mesmo assim, quando os dois se juntavam, era confusão na certa.
Stuart pensava que Colin não o procuraria ali, pois o quarto de Martin era quase uma zona proibida, para os menores. Ouviu os passos de Colin ecoando pelo corredor de cima, e Lindsey estava com ele.
– Você já procurou pelos quartos, maninho?
– Já fui no nosso quarto, no seu, e no da mamãe e do papai.
– E no do Martin?
– Eu não, vai saber o que tem lá dentro. O Martin fala que aquilo é uma zona proibida pra gente, vai saber o que ele esconde lá e...
– Vem, Colin. – Lindsey falou, abrindo a porta do quarto de Martin, e acendendo a lâmpada.
Colin e Lindsey olhavam em todas as direções do quarto de Martin, então a menina se abaixou para procurar embaixo da cama, mas não encontrou nada.
Colin se encostou ao armário.
– Eu acho que ele não tá aqui não. – Mas nesse mesmo momento, ouviu um barulho vindo do armário. Colin se virou, e abriu o armário de uma vez só.
– Te peguei! – Colin falou, sorrindo. – Agora é você que vai contar.
...
Arthur desligou a televisão com o fim do noticiário, e caminhou até a cozinha, para verificar se o peru estava assando. Abriu o forno do fogão, e sentiu um delicioso aroma passear pelo seu nariz, indicando que o peru já estava quase pronto.
– Vou deixar mais um pouco. – Arthur falou, enquanto ouvia passos se aproximando.
– Devem ser as crianças querendo comer o peru. – Arthur falou, e logo depois riu do que havia falado. – Que bobagem.
– Se você me considera uma criança, tudo bem. – Uma voz grave falou por trás dele, e logo depois Arthur sentia algo gelado encostar-se à sua nuca. — Chame as crianças, e não faça nada.
...
– O que foi isso? – Lindsey perguntou.
– Deve ser o papai. – Colin falou. – Ele tá chamando a gente, vem Stuart.
Colin, Stuart e Lindsey desceram as escadas correndo, porém o que viram não pareciam nada com o que esperavam. Os gêmeos foram pegos de surpresa pelos bandidos, que os imobilizaram.
– Me solta! Me solta! – Colin gritava. Mas a cada vez que ele se debatia, o bandido segurava mais forte. Stuart tentava não se debater, mas era impossível. Lindsey não fora imobilizada, porém um dos bandidos segurava seu pulso fortemente.
– Ai! – Lindsey falou.
Os três gêmeos foram levados a parede de cozinha, onde encontraram o pai deles, Arthur.
– Papai! – Stuart gritou, abraçando o pai.
– Pai, o que é isso. – Colin abraçou o pai.
– Fiquem quietinhos, por favor, tudo vai acabar bem. – Arthur falou. – É só ficarem quietinhos.
– Pai, eu tô com medo! – Colin falou.
– Fica ali, Stuart, por favor. – Arthur falou.
– Não, Stuart é ele.
– Vem comigo, Colin! – Lindsey falou, se aproximando dele, enquanto Stuart largava o pai, e começava a chorar. – Shhh! Tudo bem, Stuart, tudo bem.
O chefe dos bandidos veio na direção do bandido que observava a família e começou a conversar com o mesmo.
– Papai! – Colin gritou, já chorando. – O que tá acontecendo? Eles vão matar a gente?
– Tudo bem, Colin. Vai com a Lindsey, por favor.
– Pai, cadê a mamãe? Eles mataram ela? – Stuart perguntou.
– Não, tá tudo bem com ela, vai terminar tudo bem com a gente também.
– Então porque esse moços tão aqui? – Colin perguntou. – Tira ele daqui, pai! Tira!
– Colin, eu não posso...
– Tira!
– Colin...
– TIRA ELES DAQUI! – Colin gritou.
O chefe do bando se virou para Colin, que gritou.
– Sai daqui!
– Colin, por favor...
– Sai daqui, deixa meu pai em paz!
– Colin, tá tudo bem.
– Sai daqui!
– Ah, coitadinho. – O bandido passou a mão na cabeça de Colin. No mesmo instante, Arthur falou:
– Tira a mão do... – Mas foi interrompido pelo outro bandido, que apontou uma arma para o rosto de Arthur. Stuart choramingava, enquanto Lindsey a protegia.
– Você quer que o tio saia daqui? – Ele sorriu. – Que bonitinho. – Ele apertou as bochechas de Colin. – Mas eu acho que vou ficar um pouquinho mais por aqui. Olha, tá vendo isso, pequeno? Isso é uma arma, bonita não é?
Quando o bandido soltou as bochechas de Colin, ele foi rápido e mordeu o dedo médio do bandido. Mas no instinto, sem pensar no que fazia, ele levantou a arma, e puxou o gatilho e num instante atirou.
Colin gritou. A bala foi rápida, e atingiu a cabeça do gêmeo, atravessando-a.
Lindsey gritou, Stuart começou a soluçar, e Arthur ficou horrorizado quando o pequeno Colin caiu sobre seu colo. Morto.
A cabeça de Colin caiu exatamente na frente de Stuart, que começou a balançar o corpo do gêmeo.
– Colin! Acorda Colin! Acorda!
Escorria sangue do grotesco buraco feito na cabecinha de Colin, que sujava as roupas de Stuart.
– COLIN! – Stuart gritou.
Lindsey olhou para Arthur, que estava horrorizado com a cena.
– Mais algum distúrbio e vocês três vão também. – O chefe dos bandidos sorriu mostrando a arma para eles. Ao se virar, Arthur falou rapidamente com Lindsey:
– Eu te amo.
– Peraí pai, o que você... – Lindsey entendeu o que seu pai iria fazer quando Arthur apontou na direção da porta. – Não pai, eles vão...
– É o único jeito, eu não quero que... Te amo.
Arthur se levantou rapidamente e correu para o lado externo da casa.
– Paaaaaiii! – Stuart gritou.
– Cadê aquele homem? – O chefe falou. – Você deixou ele escapar, seu idiota!
– Mas eu estava conversando...
– Não interessa! – O chefe saiu correndo com o bandido no seu encalço.
– O pai...
– Tudo bem, Stuart, tudo bem...
– O Colin... – Stuart falou. – Ele...
– Shhh. – Lindsey falou, enquanto abraçou Stuart fortemente. Stuart sentiu as lágrimas de Lindsey caírem sobre seu ombro, e ele mesmo estava chorando. Ele ainda não sabia descrever o que acabara de acontecer com Colin, foi tudo tão rápido que Stuart ainda não conseguira nem ao menos “processar as informações”. Quando ele ouviu tiros do lado de fora, Lindsey o abraçou mais forte, enquanto soluçava.
Stuart continuava olhando para o corpo inerte do gêmeo ao seu lado.
Colin nunca mais voltaria.
...
Deixa meu pai em paz...
Não...
Você quer que o tio saia daqui?
Pare...
COLIN!
Acorde!
Acorda, Colin, acorda!
Não... Não...
Eu te amo.
NÃO!
Stuart acordou sobressaltado, sentado sobre a cama, com a respiração ofegante. Sua camiseta havia grudado no corpo repleto de suor.
Ele olhou para o despertador, que marcava 3:07 da manhã, e passou a mão sobre a face, ainda muito assustado, deitando-se novamente. Mas ele não fechou os olhos, e ficou olhando o teto.
Já faziam 14 anos que aquilo havia acontecido, mas muitas vezes aquelas cenas voltavam como se Stuart tivesse retornado á aquele momento. A morte de Colin e de seu pai abalou completamente a vida daquela família considerada “perfeita”. Depois dos terríveis assassinatos, Julia foi muito amparada, assim como seus filhos, que tiveram de mudar de casa, mudando-se para outra cidade.
No caso, MT. Abraham.
Stuart sempre temia o seu momento de descanso, porque esses terríveis pesadelos eram frequentes. Os momentos que aconteceram naquela véspera de natal nunca o deixaram em paz. Era como se noite após noite, Colin retornasse para aterrorizá-lo para sempre. Tentou fazer algum tipo de tratamento, o que diminuiu os pesadelos, mas eles ainda aconteciam.
Colin sempre estava lá. Junto com Colin, uma parte de Stuart se fora. Mas uma parte de Stuart, ainda era de Colin. E ele sempre estava ali, com uma presença macabra na vida de Stuart.
Sempre o lembrando de que ele deveria estar vivo.
...
2 de novembro de 2013.
– Filho, já está na hora de você sair da nossa casa, não acha? – Julia falou com Stuart durante o café da manhã.
Stuart tirou a xícara de café da boca, e a pousou sobre o pires.
– É... Eu também acho.
– É que filho... Não é que eu não queira você aqui, mas você já está tão grande, já sabe cuidar da sua vida sozinho... Por favor, não me leva a mal mas...
– Tudo bem, mãe. Tudo bem. — Stuart falou, tentando não deixar transparecer seu chateamento com a fala da mãe.
– Bom, é que você não quer sair de casa, enquanto isso, o Will... Tudo o que ele quer é sair daqui, eu não entendo. Ele parece que não suporta a própria mãe, onde essa juventude vai parar? – Julia balançou a cabeça.
Stuart se esticou e colocou sua mão sobre a mão de sua mãe.
– Mãe, o Will é assim mesmo, sempre foi.
– Você é meu filho, você não sente isso. Isso é coisa de mãe, Stuart. É um sentimento de que você errou quando criava o filho, e ele se tornou... Stuart, eu sou uma mãe tão ruim assim?
– Mãe, já falei que não. O Will que escolheu ser assim, você não tem culpa de nada.
– Se você diz... Mas eu continuo com essa preocupação...
Stuart sabia que não adiantaria convencer Julia de nada. Quando a mãe fixava algo na cabeça, nada adiantaria tentar mudá-la. Stuart não entendia esse sofrimento interno que Julia passava com Will, sendo que Will que tinha escolhido ser rebelde.
Stuart, no fundo sabia o que tinha feito Will se tornar um garoto rebelde, o amor excessivo de sua mãe fizera bem, mas chegara a hora do caçula se libertar, e Julia não aceitava isso. Julia não aceitava que Will finalmente tomasse as rédeas de sua vida, e Will que queria ser livre, acabou se tornando rebelde a sua própria mãe.
– Como eu quero que o Will retorne. – Julia falou. – Tenho medo dessas noitadas dele.
...
A visão turva foi se clareando, lentamente, enquanto alguém chamava um nome. Não, ele não queria acordar, aquele sono estava tão bom...
Sentiu seu corpo tremendo, então algo gelado passou pelo seu corpo, obrigando-o a abrir os olhos.
– Porra, Will! Cara, você tá fudido mesmo, hein?
Will balançou a cabeça, e passou a mão pelo seu cabelo castanho bagunçado e agora, molhado. Seus olhos ardiam, e Will piscava repetidas vezes.
– Você não tá bem mesmo hein? Bom, tem gente que tá pior que você...
– O que...
– Você ficou chapadão ontem á noite, não lembra?
Will levantou o braço e viu uma lata de cerveja grudada no seu pulso por uma fita adesiva.
– É... Eu estou vendo mesmo. Me sinto um lixo.
Will levou a mão á boca, e sem conseguir controlar, sentiu algo subindo pela sua garganta queimando-a. O vômito subiu pela sua boca, e irrompeu em cima da sua mão, sujando também sua roupa, que já estava molhada de água e suor.
– É, cara. Isso também é normal. – Ele falou, rindo.
...
– Build It!, Martin falando.
– Martin... Sou eu, a Maddy.
– Madison, quantas vezes eu não te falei pra não ligar pro telefone aqui da empresa? Você poderia ter ligado no meu celular...
– De qualquer modo, desculpa por isso.
– Mas, por favor, não ligue mais pra empresa.
– Tá bom, Martin! Caramba, até esqueci o que ia falar... Você tem de deixar de ser assim tão preocupado... Ah sim, então, é sobre os preparativos...
– Você me liga no meio do meu trabalho pra perguntar sobre preparativos de casamento? Madison!
– Para de reclamar. Então, eu queria te passar o telefone de um fotógrafo pro nosso casamento, foi a Natasha quem indicou.
– Nada vindo da Natasha é bom, Maddy.
– Bom, ela me garantiu. O nome dele é Logan Sanders, se você puder procura-lo depois do trabalho, ou ligar pra ele... Para ver também os preços e essas coisas mais.
– Hum... Madison, agora é sério. Depois você me passa o telefone, que meu chefe tá aqui agora olhando exatamente pra mim.
– Sério?
– É, sim. Depois você me liga, só que no celular, por favor. Beijo, tchau.
Martin colocou o telefone no gancho, e falou:
– Desculpa chefe, é que minha noiva...
– Eu sei Martin. Eu sei. Só pede pra ela não ficar ligando no telefone da loja, que ela já está atrapalhando. E se ela continuar, eu vou ter que tomar algumas medidas... Você sabe quais.
– Sei sim chefe.
– Tudo bem, volte ao trabalho.
...
– Que é isso, tia?
– Ah, isso aqui é um leão. Sabe como o leão faz, não sabe?
– Sei sim, tia. Olha, aqui, um efalante...
– Não, não, Zeke. É um elefante. Tá vendo essa tromba aqui?
– Tô sim.
– Então, ele usa essa tromba para jogar água, e ela é muito grande.
– Do tamanho do meu pai?
– Maior, ela é muuuuuito grande.
– Ah...
– Lindsey, posso falar com você um pouco?
Lindsey se virou e se deparou com Sra. Elizabeth.
– Zeke, a titia já volta tá? – Sra. Elizabeth falou. – Pode continuar lendo o seu livrinho aí.
– Tá bom.
Lindsey se levantou e saiu da sala, e continuou pelos corredores da instituição onde trabalhava, seguindo a diretora, Sra. Elizabeth, uma senhora de 60 e poucos anos, e já apresentava as marcas de sua idade. Mesmo assim, Lindsey admirava a força de vontade de Elizabeth, sempre tão vivaz.
Ela almejava ser um dia como aquela senhora, uma pessoa que se abnegou de sua própria vida para servir aos outros. Cada criança da qual cuidava, e ajudava. E não somente crianças, mas jovens também, naquela instituição que também fora criada pela senhora.
Uma instituição para cuidar e ajudar pessoas com câncer.
Lindsey estava na instituição há alguns anos, e até aquele momento, sempre fora uma das funcionárias mais dedicadas, servindo á causa como professora de crianças com todo tipo de câncer.
...
Natasha colocou os seus cabelos loiros para trás, e olhou para o espelho, com seus olhos azuis, e disse.
– Você é poderosa, Natasha.
Pegou um batom e passou sobre seus lábios carnudos, enquanto continuava a olhar para o espelho fixado na parede do seu quarto.
Natasha era uma jovem ambiciosa, e que faria tudo por dinheiro. Ela já tinha sido estagiária por algum tempo em uma escola de ensino médio, e tinha abandonado a escola, por ver que, segundo ela, nada adicionaria ao seu currículo.
Mas a verdadeira razão era que Natasha almejava algo mais, e conseguiu entrar para a redação de uma importante revista de moda, através de seus próprios contatos. Aos poucos ia conquistando a atenção de seus chefes, principalmente através de sua beleza, e ia conseguindo melhores colocações na revista. Sabia que com o dinheiro que ganhava, ela poderia aumentar mais sua renda, e finalmente sair do seu apartamento modesto onde morava, em Mt. Abraham, e se mudar para Nova York, a cidade cosmopolita.
Natasha odiava com todas as suas forças aquela cidade. Apesar de ser longe de pacata, Natasha era uma autêntica cidadã cosmopolita, e gostava de grandes cidades, assim como a vizinha Nova York.
Ela achava ridículo morar ao lado de uma das maiores cidades do mundo, e não nela.
Força, Natasha. Será mais um grande dia.
Ela desceu o elevador, até o hall de entrada do edifício, e passou pelo porteiro, que disse:
– Você está linda hoje, Natasha.
– Ah, sério? Acho ótimo. – Ela sorriu falsamente.
– Realmente, você sabe como seduzir um homem.
– Eu? Imagina. – Natasha falou, irônica. – Sendo assim, eu devo estar te seduzindo, né?
– Bem...
– Não responda, não quero saber, acabo de lembrar que não falo com gente do seu tipo. Com licença. – Ela falou, sorrindo irônica, e continuou andando até o subsolo onde ficava o estacionamento, balançando os cabelos.
...
And we'll never be royals
It don't run in our blood, that kind of lux just ain't for us
We crave a different kind of buzz
Let me be your ruler, you can call me queen bee
And, baby, I'll rule, I'll rule, I'll rule, I'll rule
Let me live that fantasy
Era mais um dia cheio para Sarah. A garota cursava o segundo ano da faculdade de artes cênicas. Mas a mente de Sarah estava muito longe da faculdade naquele dia, porque era hoje que sua amiga finalmente retornaria a Mt. Abraham, a cidade onde cresceu junto de Sarah.
Sarah mal podia esperar, pois não via a amiga há alguns anos, desde quando ela fora morar em Los Angeles, do outro lado do país. Mas isso não importava, pois ela estava voltando.
Sua grande amiga, a única que enxergava Sarah como ela realmente era.
Sarah nunca cuidou muito de seu visual, e seu corpo não ajudava. A garota era branca como leite, e seus cabelos compridos caíam bagunçados ao lado do corpo. Sarah sofrera bullying por parte das colegas de classe, mas ela não se importava, afinal, ela não fazia parte da realeza. E nunca quis, em toda a sua vida.
Sarah era uma pessoa deslumbrante, mas por dentro. Ela foi o oposto de diversas meninas, obcecadas por festas, maquiagem e garotos. E ela não se encaixava em nada disso. Nunca gostou de festas de qualquer tipo, e preferia a dança á tudo isso. Maquiagem? Somente em espetáculos, onde poderia realçar um pouco de sua beleza corporal, principalmente os seus olhos azuis, que destoavam do resto do corpo.
E garotos? Nunca. Sempre achou a maioria dos garotos extremamente superficial, um bando de idiotas sem cérebro. Mas havia uma exceção, o seu coração pulsava apenas por este garoto.
Leo Marshall.
...
Stuart abriu a porta de casa e se deparou com Will, que logo perguntou:
– Você não foi trabalhar hoje não?
– Will, hoje não, é sábado. – Stuart falou.
– Ah, tudo bem, então. – Will falou se apoiando na porta, e se inclinou novamente, levando á mão a boca.
– Opa, opa. Cuidado aí, mano. Você passou dos limites de novo essa noite, não foi?
– Stuart, para de falar com se fosse meu pai. E... Cara, eu preciso ir no banheiro agora. Dá licença. – Will falou, empurrando Stuart para o lado, enquanto corria na direção do banheiro.
Stuart começou a caminhar logo atrás do garoto, e então apareceu na soleira da porta, enquanto Will estava ajoelhado sobre o vaso sanitário, novamente vomitando descontroladamente.
– Will, eu estou falando sério. Tem certeza que essa é a liberdade que você quer? – Stuart falou. – Não tenho nada contra isso, mas...
– Cala a boca, valeu? – Will falou, colocando as mãos nas têmporas.
– Você não tem jeito mesmo, né? – Stuart falou. – Desse jeito, a mãe nunca vai te dar o carro que você quer...
– Não fala do carro agora não. Me ajuda aqui a tirar... A tirar... – Will levantou o braço com a lata de cerveja presa no pulso.
– Porra, Will! Como você conseguiu fazer isso? – Stuart falou, agachando-se pra tentar ajudar Will, que agora estava quase esparramado sobre o chão do banheiro.
– Eu...
– Vai doer, tá? – Stuart falou. – Eu vou no três. Um, dois, três...
E então Stuart tirou a fita adesiva, e a lata de cerveja rolou no chão, ao mesmo tempo em que Will soltava um grito que praticamente “perfurou” os ouvidos de Stuart.
– VAI SE FUDER SEU FILHO DA PUTA! – Will gritou. – Quer me deixar em carne viva?
– Filho, é você? – Julia apareceu na soleira da porta, após escutar o grito ensurdecedor de Will. – Você tá bem?
– Sim. – Will falou, se levantando. Mas novamente, Will caiu no chão, e Stuart não conseguiu segurá-lo. Ao ver o seu filho caindo, Julia correu na direção do garoto.
– Vem, levanta. – Julia falou, segurando a mão de Will. – Filho, quantas vezes não te falei para não beber... Você nem tem idade pra isso, por favor.
– Me deixa, mãe. – Will falou, soltando-se de Julia, e saindo do banheiro.
Julia suspirou e disse:
– O que eu faço com você, Will? O que eu faço?
...
Mais tarde, no mesmo dia.
18:00.
Leo dirigia tranquilamente um carro na cidade vizinha, esperando chegar na faculdade á tempo. Na realidade, o garoto já estava mais do que atrasado.
Droga, a Sarah vai me matar!
A garota pedira ao amigo para busca-la num ponto próximo a faculdade, e Leo havia aceitado. Ambos iriam depois até o aeroporto John F. Kennedy, receber a amiga de estava vindo do outro lado do país, Los Angeles. Leo sabia que a amiga tinha ido para lá por causa dos parentes, mas nunca conseguiu se adaptar, e agora estava voltando.
Sarah e ela tinham que colocar muita coisa em dia. Leo também.
Quando estavam no Fundamental, o garoto via Sarah com desprezo, sendo que ele era um dos mais populares da turma. É, ele era.
E como, num piscar de olhos, perdeu tudo. Tudo mesmo, menos a vontade de viver.
E foi nesse momento que Sarah apareceu. Quando Leo mais precisou de alguém, Sarah foi a pessoa que apareceu. No início, Leo a rejeitou, mas percebeu que toda a sua vida tinha sido de papel. Amigos de papel, não eram reais amigos. Namoradas de papel. Pegações de papel. Leo era feito de papel. Quem agia não era o verdadeiro Leo, e sim, outro Leo, que tomara conta do garoto.
E Sarah fez o favor de quebrar tudo isso.
Tempos depois de conseguir superar o seu grande problema, Leo conseguiu retornar aos poucos a vida cotidiana, mas abandonou seus antigos hábitos. Sarah era uma verdadeira amiga, assim como a amiga de Sarah, e então chegou o seu momento de ajudá-la.
Foi quando Sarah perdeu sua irmã mais velha, Carly, num grotesco acidente.
Leo não se lembrava dos detalhes com clareza, mas Carly supostamente tinha escapado de um acidente em um barco, naquele fatídico ano em que três grandes acidentes abalaram aquela cidade. O metrô descarrilhado, o engavetamento na rodovia e a explosão do barco. Carly conseguira escapar, mas morrera dias depois, atingida pelos destroços de uma explosão, deixando Sarah muito abalada.
Leo serviu durante aqueles dias de ombro amigo para Sarah, sempre a consolando, e foi um dos motivos que fez a garota continuar sua vida. Quando Carly morreu, parecia que o mundo de Sarah iria desabar. Ela perdera seu porto seguro, a garota que sempre a defendia. Sarah sofrera bullying durante muitos anos, e Carly sempre havia a defendido, e falava sempre: Continue! Lute!
Leo compreendia o que era sofrer bullying, assim como sofrera depois que começou a seguir Sarah. Sua reputação foi reduzida não a 0, mas sim a -1. Mas finalmente havia encontrado a verdadeira amizade.
Ele saiu dos seus pensamentos, e percebeu que Sarah estava logo a frente, olhando para os lados. Leo encostou o carro na guia, e então Sarah o viu, e saiu correndo, entrando no carro afobada.
– Oi, Leo. – Sarah falou, sorrindo.
– Oi. E aí, como foi a faculdade? Tá indo bem? – Leo perguntou, enquanto ia na direção de um retorno.
– Ah, minhas notas estão boas. Quer dizer... – Sarah sorriu. – Não são uma maravilha, mas são boas. Mas eu não quero pensar em faculdade, escola, etc, etc, etc, agora... Pisa fundo no acelerador, que eu quero estar lá no aeroporto quando...
– Pode deixar. – Leo falou, interrompendo Sarah.
– Não me interrompa, Leo! – Sarah falou. – Você sabe que eu odeio isso!
– É por isso que eu te interrompi. – Leo falou, rindo.
Sarah balançou a cabeça, expressando sua indignação. Mas não deixou de estampar um sorriso sincero no rosto.
...
– Vá em paz, e que o Senhor te acompanhe.
Ernest estava dentro da sala de confissões, e acabara de receber o último fiel que viera confessar seus pecados ao padre.
Ernest exercia a função de padre há mais de trinta anos, e durante esses quarenta anos, conheceu muitos fiéis, e passou por diversas paróquias da diocese de Nova York, e agora estava em Mt. Abraham, na catedral metropolitana. Ele veio da Alemanha, em meio a Segunda Guerra e conseguira fugir para a Espanha. Tempos depois, ele se mudou para a Inglaterra, onde encontrou o que mudaria sua vida para sempre: sua vocação para o sacerdócio.
Mas só entrou no seminário quando foi para os Estados Unidos, e desembarcou em Nova York, no início da década de 60.
Pra Ernest, aquela com certeza era a igreja mais bonita do qual era pároco. A catedral era relativamente antiga, com quase 100 anos. A igreja era funda e espaçosa, e havia um grande vitral atrás do altar, aumentando sua beleza. Existia também um grande órgão, abaixo da porta. Não era tocado há muito tempo, porém estava ali, para realçar a beleza da catedral. Grandes lustres também foram pendurados no corredor central, assim como algumas imagens de santos colocadas naquele lugar.
Mas o que dava o maior destaque era a cruz.
Uma cruz, com uma imagem de Jesus Cristo crucificado foi colocada, pendurada acima do altar. As fracas luzes que emanava da cruz criavam um ambiente sombrio, no interior da grande igreja. Principalmente quando caía a noite.
Ernest admirava essa grandiosa cruz, quando alguém chegou correndo, atraindo sua atenção. Ele se virou e deparou-se com Stuart.
– Filho, tudo bem? – Ernest falou. – Deus esteja contigo.
– Obrigado, padre. – Ele falou, apertando a mão, marcada pela velhice, do padre.
– Por que toda essa afobação, filho? Tem algo acontecendo?
– Bem, é uma longa história...
– Vamos nos sentar então, filho. – Ernest falou. – Vamos, aqui no banco mesmo. – Ao se acomodarem, Ernest continuou. – Então, me conte tudo.
– Padre, o senhor acredita que existam demônios a nossa volta?
– Sem sombra de dúvida. Eles estão aqui, para atiçar nossos piores desejos. Eles nos levam a fazer coisas que sabemos que são erradas... Mas que gostamos, porque o pecado é gostoso, num dado momento. Depois vemos a ruína que ele traz.
– Padre, e o senhor acha que existam fantasmas?
– Fantasmas... Acho que isso não deve existir, pois, quando uma pessoa morre, ela logo é julgada por Deus. Não como ela ficar vagando por este plano. Bem, não sei.
– E se um fantasma... For um demônio?
– Não entendo aonde você quer chegar, meu filho.
– Padre... Eu sinto meu irmão. Ele fica vagando, ele está sempre aqui do meu lado... Assombrando-me.
– Como assim?
– Eu o vejo enquanto ando nas ruas, eu o vejo enquanto estou almoçando, tenho sonhos com ele... Sinto uma presença sempre perto de mim... Ele não se foi, sempre esteve aqui.
Ernest observou Stuart mais uma vez, e permaneceu calado, pensativo. Conhecia a história daquela família, e como Stuart perdera o irmão tragicamente numa véspera de Natal, um dia em que deveria só ter alegrias, na véspera do nascimento do Senhor.
Ernest se questionava toda vez que via aquela família desfragmentada pelo horror da morte. Por que o Senhor, sempre tão piedoso, permitira matar aquele pai de família? Aquela jovem criança, que tinha tanta coisa para fazer pela frente?
Existem coisas que não podemos explicar.
Mas Ernest não conseguia encaixar em sua cabeça a ideia que um garotinho de apenas seis anos poderia se tornar um demônio que atormentaria seu irmão para sempre. Era plausivelmente impossível. Mas a teoria de que Stuart via o seu fantasma... Poderia ser real.
– Filho, mas você o vê?
– Bem... Sim. Eu sinto mais a sua presença, mas algumas vezes... – Stuart falava, gesticulando. – É como se eu me visse num espelho, mas do outro lado, tem uma versão diferente de mim mesmo. Tipo... Estou andando na rua e me vejo, no meio da multidão. Mas não sou eu. É Colin.
– Stuart... Não comente isso com ninguém, tudo bem? Mas acredito que tem algo sobrenatural acontecendo com você. – Ernest falou, com seriedade.
Stuart se aproximou de Ernest e logo disse:
– Mas... Sobrenatural? Como assim? Por que eu?
– Existem mais coisas entre o céu e o inferno do que podemos explicar Stuart. Acho que você deve ter algum dom especial, algo que te permite continuar vendo o que pode ser Colin.
– Mas... Por quê?
– Ás vezes, algumas pessoas enxergam pessoas mortas no seu cotidiano. Não sei se isso é uma peça de sua mente, ou não, mas você passou por uma experiência traumática quando era criança... E isso pode explicar esse fenômeno que você diz acontecer. Eu conheço outro suposto caso.
– Quer dizer que Colin me assombra... Por causa daquilo que aconteceu?
– Não sei. É apenas uma suposição, Stuart. Tem muitas coisas que não sabemos explicar. E essa é uma delas. Não sei se você pode ter um dom para o sobrenatural, ou vê supostos fantasmas por causa de experiências traumáticas... Na verdade, nós somos apenas reles mortais, não sabemos de nada... Nada mesmo.
Stuart ficou refletindo as palavras de Ernest. Buscara o padre tentando achar uma explicação racional para o que acontecia com ele, mas o que o padre disse foi totalmente do que havia pensado. Ele não confirmou as suas visões macabras, nem de que Colin fosse um demônio errante, mas aumentou ainda mais as suas dúvidas, lançando uma nova questão em sua mente: o dom do sobrenatural. O que era isso? Ernest não tinha resposta, apenas tinha dito que ele poderia ter. Isso poderia explicar todas as visões com Colin, seus sonhos macabros, seus arrepios constantes indicando que alguém estava por perto, mesmo sem vê-lo.
– Padre, o senhor conhece alguém que passou por uma experiência assim?
– Bem... Stuart, eu conheço. Mas essa pessoa é perigosa demais para você se envolver. Ela já passou por muita coisa que causou um trauma nela... Está praticamente enlouquecida. É uma pena, porque era um garoto... Assim como você.
– Falando de mim, padre? – Uma voz vinda de trás de Stuart falou, e Stuart se virou para saber de onde a voz vinha.
Era uma figura coberto por uma capa preta da cabeça aos pés. Com um grande capuz sobre a cabeça. Stuart teve a leve impressão de que a figura se assemelhava com gravuras da morte.
– Oh... – Ernest parecia surpreso. – Sim, sim... Este rapaz... Ele parece enfrentar o mesmo problema que você enfrenta. O seu dom sobrenatural...
– Já disse que não tenho nenhum dom sobrenatural. Apenas acontece... Por causa dela.
– Dela quem? – Stuart perguntou curioso.
– Da criatura que me deixou dessa maneira... Quase enlouquecido, apenas prolongando meu tempo nessa maldita terra. Era melhor morrer logo de uma vez, pois... Nada mais faz sentido.
– Mas o que... O que te deixou assim?
– Você não irá acreditar. Ah, sim, nunca vai acreditar... Nunca. Mas foi ela que causou isso.
– Black, por favor.
– Não, você nunca vai acreditar. Nunca.
Ernest se levantou, no mesmo tempo que a figura segurava o capuz com toda a força, e gritava. E seus gritos ecoavam por toda a igreja, arrepiando Stuart.
– FOI ELA! ELA!
– Black, pare! – Ernest falou.
– ELA!
– Por favor! – Ernest gritou novamente.
– ELA! – O grito de Black ecoou por toda a igreja, e neste momento, Stuart já se afastava da figura encapuzada através de uma dos corredores secundários, a sua esquerda. Correu, correu e correu, até chegar a porta da catedral. No último momento, olhou para trás, e viu Black gritando na sua direção.
– A MORTE! FOI ELA!
Stuart desceu correndo as escadas, entrando na noite fria de Mt. Abraham, enquanto o sino de uma das torres da igreja ressoava acima dele.
Run, boy, run, this world is not made for you
Run, boy, run, they're trying to catch you
Run, boy, run, running is a victory
Run, boy, run, beauty lies behind the hills
Run, boy, run, this ride is a journey to
Run, boy, run, the secret inside of you
Run, boy, run, this race is a prophecy
Run, boy, run, and disappear in the trees
...
Leo e Sarah esperavam impacientes no saguão do aeroporto, esperando apenas o desembarque do avião. Segundo o que os monitores diziam, o avião já havia chegado, e o desembarque já havia sido permitido.
– Ai, cadê ela? – Sarah falou, esfregando as mãos. — Nossa, que frio... Por que eles deixam a porcaria do ar condicionado ligado?
– Não sei, tem muita gente sem massa cinzenta por aí... Não estou mentindo. Agora, eu acho que ela deve ter parado na bendita da Duty Free.
– O que é isso?
– Uma loja em que os produtos são mais baratos... É que tem isenção de impostos e tal... Geralmente muita gente para nelas, e eu aposto que ela parou também.
– E deixou a gente congelando aqui, grande amiga.
– Ela já deve estar chegando, para de resmungar. – Leo falou, se levantando de um banco.
Ao ver Leo se levantando devagar, Sarah perguntou;
– Precisa de ajuda, Leo?
– Não, não. Tá tudo bem. Viu, já estou de pé? – Leo sorriu, debochadamente.
Sarah revirou os olhos.
– Você tá muito engraçadinho hoje, sabia?
– Olha ali!
– Leo, não tente desviar o assunto e...
– Porra Sarah, é sério...
– Já disse pra você...
– Ela chegou!
Sarah se virou na direção onde Leo apontava, e saindo da área de desembarque ali estava ela.
Ela tinha seus cabelos cortados na altura dos ombros, quase como um penteado Chanel, e tinha um chapéu-coco na cabeça, algo que ela sempre gostara de usar, desde o tempo em que conhecera Sarah.
Seu sorriso formava covinhas no seu rosto moreno, que logo identificava a garota como descendente de latinos, e foi exatamente por isso que ela havia mudado para Los Angeles. Ali, a família dela, de Nova York, finalmente se juntara ao resto dela, que morava no outro hemisfério do país. Mas ela sempre pertenceu à costa leste, não importa o que dissessem.
Ao ver Sarah e Leo, largou as suas malas ali mesmo, e até as sacolas, como as da Duty Free Shop, e correu na direção da amiga, e ela fez o mesmo.
Sarah abraçou a amiga com força, sendo correspondida pela amiga. No fim, as duas se separaram, e enquanto Leo se aproximava, e pegava as malas dela, Sarah disse, sorrindo:
– Eu sabia que você voltaria algum dia. Só não esperava que fosse tão cedo.
– Cedo? CEDO? Eu estou é louca pra voltar pra cá! Meu Deus, quanta saudade eu sinto desse lugar! Los Angeles é legal, e tal... Mas eu fui criada aqui, impossível esquecer...
– E de mim?
– Sarah, minha amada, é claro que eu sinto sua saudade, sua boba! E também de você, criatura das trevas! – Ela falou, virando-se para Leo.
– Eu também tenho saudade de você... Tinha pelo menos. – Leo falou, revirando os olhos, porém estampava um sorriso no rosto.
– Então, o que vamos fazer primeiro? – Ela perguntou.
– Você tem alguma casa, ou algo do tipo?
– A casa antiga dos meus pais, e minha também. Tá na minha mão. Ah... Carros são inúteis, e tenho uma boa quantia de dinheiro, até eu arranjar alguma coisa pra fazer. – Ela falou. – Está tudo bem.
– Então... – Leo começou a falar.
– Então, vamos aproveitar! Afinal, Courtney Rodriguez está de volta! — Ela disse, abrindo os braços.
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