Premonição 8: Condenados
1 Catedral
Notas iniciais
Phillip estava sentado na primeira fileira dos bancos da catedral.
Com as mãos unidas em cima do colo e a postura ereta, seu rosto parecia não demonstrar qualquer emoção. Mantinha-se imóvel e inabalável, olhando com estoicidade para o caixão à sua frente. O padre rezava um sermão qualquer que não interessava ao rapaz, mas que parecia comover sua mãe.
Nas últimas fileiras, sentados lado a lado, estavam seus amigos. Todos eles vieram, Phillip percebeu ao olhar de relance para trás. Anna percebeu o gesto do rapaz e lhe lançou um olhar de piedade, seguido por um leve aceno de cabeça, uma espécie de delicado cumprimento. O rapaz retribuiu com outro aceno e voltou a se virar para frente.
Além de Anna, estavam ali Courtney e o seu irmão gêmeo Joe (conhecido por todos como Big J), Daniel, Simon, Michelle, e os irmãos Ben e Trevor. Todos eles eram colegas de faculdade de Phillip. O campus em que estudavam ficava há vários quilômetros dali, em outra cidade, de modo que era certo que todos eles tinham viajado algumas horas para dar apoio ao amigo. Apesar de não ter dito, Phillip agradecia o gesto deles de todo o coração.
— E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. — O padre disse, numa fala ensaiada.
Phillip estava ficando sufocado com tudo aquilo. Sem cerimônias se levantou, deu meia-volta e saiu da igreja. Poucos olhares se viraram em sua direção, e ele agradeceu por isso. Passou ao lado dos amigos sem olhar para eles. Eram mais de cinco horas da tarde de uma quarta-feira, o que significava que todos estavam perdendo aula.
Do lado de fora fazia um pouco de calor. Phillip sentou-se em uma mureta que ficava ao lado da escadaria da catedral. Abaixo dele havia uma altura de cerca de um metro e meio, de modo que o rapaz ficou então displicentemente balançando as pernas. Colocou a mão no pescoço e afrouxou sua gravata roxa, sentindo-se um pouco melhor.
Percebeu quando seus amigos saíram da igreja e vieram até ele.
Foi Big J quem tocou seu ombro. Phillip então dobrou o braço e encostou na mão do amigo, agradecendo o gesto. Michelle sentou-se ao lado dele na mureta e ficou junto com o rapaz olhando para o infinito verde que havia na frente deles. O sol estava quase se pondo.
— Obrigado por terem vindo.
— Era o mínimo que a gente podia fazer. — Anna respondeu pelo grupo.
Phillip então se virou para trás e reparou em todos.
Eles eram um grupo de amigos bem disfuncional, se fossem avaliados individualmente e com atenção. Pareciam ter pouco ou nada em comum entre si, mas estranhamente eram bastante próximos. Uns mais do que outros, claro, mas Phillip gostava de todos os oito de maneira meio similar.
Era mais amigo dos garotos, em especial de Ben, Daniel e Big J. Isso podia ser explicado por todos eles terem a mesma idade e gostos parecidos. Simon era um ano mais velho, e Trevor, três. As meninas todas tinham a mesma idade deles, mas em geral seus interesses eram bem diferentes dos de Phillip.
— Você já sabe quando vai voltar pras aulas, cara? Você sabe que não precisa se preocupar com os trabalhos... — Ben começou, mas foi interrompido pelo amigo.
— Hoje mesmo. Vocês vieram como? De carro? Se tiver um espaço pra mim, eu aceito uma carona.
Todos ficaram um pouco surpresos com aquela fala, em especial Ben.
O fato era que Phillip já estava preparado para a morte do pai. Tudo o que tinha de chorar ou sofrer, já havia chorado ou sofrido nas longas semanas em que ele ficou internado em coma entre a vida e a morte. Quando a notícia do seu falecimento viera, o impacto não foi tão grande. O rapaz já havia tido tempo para processar a informação de que seu pai não estaria mais ali num futuro breve.
Fora um estúpido acidente de carro. Seu pai estava voltando do supermercado quando seu veículo colidiu com um furgão qualquer que vinha em alta velocidade e na contramão. O homem chegou ao hospital praticamente morto, e por um milagre conseguiu sobreviver por algum tempo, mesmo que nunca mais tivesse aberto os olhos ou proferido nenhuma palavra. Ele morreu naquele dia em que saiu de casa para fazer compras, Phillip dizia para si mesmo.
Às vezes pensava que ele poderia ter morrido junto. Se tivesse acontecido no ano anterior, antes de ele ir para o college, aquela seria uma certeza. Phillip sempre fazia compras com os pais. Por sorte (ou azar?) ele agora morava em outra cidade, distante deles e de tudo o que ocorreu naquela fatídica tarde.
— Nós viemos em dois carros. — Trevor começou. — Eu vim dirigindo um e o Daniel veio dirigindo o outro. Você pode voltar com qualquer um de nós dois.
O rapaz concordou com um aceno de cabeça. Trevor então encostou em seu ombro e deu as costas, entrando de novo na igreja. Todos o seguiram, com exceção de Anna, que ficou parada de pé olhando para o por do sol. A garota alisou seu vestido azul marinho e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Phillip então olhou para ela e não soube direito o que dizer.
— Quê foi? — Ela perguntou de maneira doce.
— Eu não sei. — Ele disse. Mas então pensou em algo. — Deixa eu te perguntar uma coisa?
A garota de cabelos castanhos dourados assentiu com a cabeça.
— Você sabe qual é o menor verso da bíblia? Quero dizer, o versículo mais curto.
Aquela fala não surpreendeu tanto Anna. Ela conhecia Phillip o suficiente para entender esse traço de personalidade dele.
Phillip era bastante disperso. Anna tinha certeza absoluta de que ele tinha um transtorno denominado “Síndrome de Asperger”, embora jamais tivesse tido coragem de perguntar diretamente a ele. Mas como uma estudante de Psicologia e entusiasta de literatura a respeito dos “aspies”, ela conseguia perceber nele todas as características de alguém com a síndrome. Dificuldade de interação social, dificuldade em processar e expressar emoções, interpretação muito literal da linguagem, dificuldade com mudanças em sua rotina, desenvolvimento de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades... Está tudo aí. O Phillip é um aspie.
— Eu sei sim, Phillip. Por quê?
— Você sabe? — Ele perguntou, genuinamente surpreso. — Como você sabe?
Anna achou graça da reação dele. Aproximou-se do rapaz e sentou ao seu lado na mureta, também balançando os pés.
— É uma fala bastante famosa do primeiro “Hellraiser”. Conhece?
— Claro. — Ele confirmou. — Mas eu não me lembro dessa fala. E também não sei qual é o versículo mais curto da bíblia. Me conta.
A garota então olhou nos olhos dele e disse da maneira mais solene que conseguiu:
— “Jesus chorou”. João 11:35.
Phillip estranhamente abriu um curto sorriso em seu rosto. Anna não entendeu aquela reação, mas não deu muita bola. Era comum que ela não entendesse as reações de Phillip, e preferia que fosse assim. Fazia parte da aura de mistério que o tornava tão interessante.
x-x-x-x-x
Dentro do carro de Daniel, o rádio tocava a música de um CD que Big J havia trazido. Phillip não sabia o nome do álbum e vagamente se lembrava de que se tratava de uma banda de death metal chamada Suffocation. O mais bizarro, porém, era o nome da música que estava indicado no painel.
Jesus Wept.
Ao lado de Daniel estava Courtney. A garota tinha a janela ao seu lado levemente aberta, de modo que algum vento entrava no carro. Phillip estava sentado atrás dela, enquanto Anna estava sentada atrás de Daniel. Entre os dois estava Big J, cuja cabeça chegava à altura do teto do carro. A cena poderia ser engraçada, se eles não estivessem voltando de um velório.
Anna estava com a cabeça encostada no vidro, olhando a estrada. O cinto de segurança do seu banco estava quebrado, de modo que ela seguia sem ele, o que era um perigo se eles fossem parados pela polícia. O barulho da música dentro do carro era infernal, mas Daniel e Big J pareciam estar se divertindo, então a garota não quis incomodá-los. Via tudo passando rapidamente ao seu lado, como um borrão. Olhou para o painel e viu que o primo dirigia a 83 km/h, o que era uma velocidade razoável.
— Calma, Dani, acabou de tirar a carta? — Courtney disse, brincando.
O rapaz limitou-se a fazer uma careta pra a garota. Big J riu, e Phillip, como de praxe, não esboçou qualquer reação.
Anna estava cansada, de modo que resolveu tentar dormir. Fechou os olhos.
E então sentiu o vento em seu rosto e o sangue escorrendo por seu queixo.
Anna abriu os olhos e sentiu um ardor absurdo por todo o corpo. Não demorou a perceber que estava caída na autoestrada, com carros passando ao seu lado. Conseguiu virar o rosto e viu o carro de Daniel há vários metros de distância, seguindo com a porta de trás aberta. A porta por onde eu caí. Oh.
A garota então fez um esforço colossal para se levantar, mas por algum motivo não conseguiu. Passou a mão pelas bochechas e percebeu que uma delas tinha um ferimento bastante profundo, por onde escorria uma quantidade assustadora de sangue. Em sua boca o cheiro de ferro era forte, o que significava que ela também havia cortado a gengiva ou no mínimo perdido algum dente. Droga.
Olhou para as pernas e gritou.
O osso de sua canela estava exposto, para fora. Anna colocou as duas mãos no rosto e berrou o mais alto que pôde, esperando que algum dos carros parasse para ajudá-la ou que, no mínimo, Daniel voltasse com o carro. Eles não podiam deixá-la ali, caída no chão de piche como um cachorro.
O som da buzina foi a primeira e a última coisa que ela ouviu.
O caminhão vinha em sua direção com uma velocidade alta o suficiente para que não conseguisse frear a tempo. Anna tentou se arrastar alguns metros para sair da frente do veículo, mas não houve grande sucesso.
A roda do caminhão passou por cima de suas costas, dividindo seu corpo ao meio.
Anna acordou dentro do carro, com a cabeça encostada no vidro. Olhou para o painel e conseguiu ver o número indicado no velocímetro: 83 km/h. A garota então imediatamente se desencostou da janela e agarrou um dos enormes braços de Big J. O rapaz não entendeu a reação dela, mas não protestou. Anna observou a trava de segurança da porta e percebeu que ela estava erguida.
— Calma, Dani, acabou de tirar a carta? — Courtney disse, brincando.
A outra garota respirou forte.
— A porta... — Ela murmurou para si mesma, e imediatamente abaixou o pino da trava.
Daniel olhou para a prima pelo espelho do carro e ergueu a sobrancelha.
— Que perigo. Eu vou dar uma checada nessa trava quando chegarmos em casa. Por via das dúvidas não se encosta nela não, viu Anna?
Não precisa pedir duas vezes, a garota pensou, ainda nervosa. Courtney virou-se para trás e disse:
— Você tá bem?
Anna continuava nervosa. Apesar disso, meneou a cabeça positivamente, dizendo:
— Aham, eu tô sim. Foi só um susto.
A amiga pareceu estar satisfeita com aquela resposta e voltou a olhar para frente.
Big J aproveitou-se da proximidade de Anna e colocou o braço por cima do ombro dela, lhe abraçando com seu abraço de ferro. A garota não ofereceu resistência. O gigante loiro era quente, e o contato com o corpo dele era agradável. Lembrava os velhos tempos.
— Eu não deixo você cair. — Ele disse, olhando nos olhos dela.
Anna sorriu e encostou a cabeça no peito de Big J, fechando os olhos.
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Trevor estacionou o carro na sua vaga no campus e suspirou.
Michelle e Ben já haviam ido embora, de modo que só restavam ele e Simon ali. Na rádio do veículo tocava “You Give Love A Bad Name”, do Bon Jovi. Trevor não pode deixar de pensar, de modo autodepreciativo, que aquela música era bastante adequada a ele. Um sorriso de anjo é o que você vende.
— Você precisa comprar protetor solar pra levar na viagem. Só os treinos já te deixam completamente queimado. — Simon disse, esticando o braço e tocando a bochecha de Trevor, vermelha pela exposição ao sol. O ruivo não se opôs ao gesto, mas continuou olhando para frente, pensativo.
Simon estranhou aquela frieza.
— Você tá bem?
Trevor meneou a cabeça positivamente. Se realmente estivesse mal, falaria. Ele não conseguia mentir. Pelo menos não para Simon. Pela primeira vez olhou nos olhos verdes do outro rapaz e esboçou um meio sorriso.
— É só o clima do dia de hoje que me deixou meio pra baixo. A morte de alguém é sempre uma ocasião triste. Nos faz pensar que a nossa vez também vai chegar algum dia. Sabe?
There's nowhere to run
No one can save me
The damage is done
Simon concordava com aquela linha de raciocínio, mas não gostava de pensar naquele tipo de coisa. Na verdade detestava qualquer tipo de cerimônia fúnebre. Achava mórbido o fato de as pessoas realizarem verdadeiros rituais diante de um cadáver. Aquele era um conceito que não entrava em sua cabeça desde pequeno, e que, achava ele, jamais entraria. Preferia ter uma última memória da pessoa viva, não dentro de um caixão, com o rosto inchado e cercada de flores.
— A vez de todo mundo vai chegar um dia, Trevor. Mas a lógica diz que a nossa hora ainda está bem longe. A minha mais do que a sua, aliás. — O rapaz disse, e riu, dando dois tapinhas no peito do ruivo.
— Por eu ser dois anos mais velho do que você?
— Não. É pela quantidade de cerveja que você toma mesmo. — E Simon caiu na gargalhada.
Trevor sorriu.
— Mas e então… O protetor?
— Ah, o protetor solar. — Trevor assentiu, meneando a cabeça. — Eu compro sim, prometo. Obrigado por tomar conta de mim.
Simon abriu um largo sorriso.
— De nada. Modéstia à parte é o que eu sei fazer melhor.
O outro rapaz voltou a concordar com um sorriso.
Shot through the heart
And you're to blame
You give love a bad name
A viagem deles era para dali a uma semana. Eles iriam até a ilha de Oahu, no Havaí, para gravar um média-metragem de horror. O plano era ficarem por lá por quatro dias, o período das gravações do filme.
Simon, Trevor e até mesmo Anna, em si, não faziam parte daquele trabalho. A garota e Simon estudavam Psicologia, enquanto o ruivo estudava Engenharia Civil. Apesar disso, eles iriam junto de Ben, Courtney, Daniel, Phillip, Michelle e Big J, esses sim estudantes de Cinema. O motivo era um só: as horas de atividades extracurriculares. Para se formarem todos eles precisavam realizar algumas horas semestrais de atividades em outra disciplina que não cursassem. No primeiro semestre da faculdade, Anna e Simon tinham sofrido assistindo aulas chatíssimas de Literatura Inglesa, e não estavam dispostos a cometer o mesmo erro. Eles eram amigos de todos os outros, de modo que participar do média-metragem deles era uma divertida maneira de cumprir uma atividade acadêmica.
Isso sem mencionar o fato de que a ilha de Oahu era belíssima. Além disso, ela tinha um valor histórico. Era ali que estava localizada a famosa base naval de Pearl Harbor. O lugar era importante porque fora , em 7 de dezembro de 1941, atacada por mísseis japoneses. A ocasião foi considerada um marco, e provocou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.
Do lado de fora do carro, já estava de noite. Simon olhou para o rádio e percebeu que já eram mais de nove horas. Alguns alunos passavam ao lado do carro e entravam nos dormitórios da Pi Chi, a fraternidade de Simon e Trevor. Ben, Daniel, Big J e Phillip eram todos calouros, e há pouco tempo haviam deixado de ser pledges da Pi Chi. Apesar disso, a frat house estava bastante cheia, de modo que os quatro, apesar de fazerem parte dela, moravam nos dormitórios do campus.
— Bom, vamos descer. O carro já está começando a ficar esfumaçado, daqui a pouco alguém vai querer saber o que nós estamos fazendo aqui dentro. — Simon disse de maneira despretensiosa.
Trevor olhou para ele e abriu um sorriso debochado. Disse:
— E a gente não iria querer que isso acontecesse né?
E se inclinou alguns centímetros, ficando com o rosto bem próximo ao de Simon. Encostou sua testa na do outro rapaz e ficou provocando-o com movimentos delicados com o nariz. Então de súbito colocou a mão na nuca de Simon e puxou-o para si, esfregando sua barba ruiva no pescoço dele e em seguida lhe invadindo com um caloroso e demorado beijo.
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Na frente da televisão, Daniel comia um pedaço de pizza sem tirar os olhos da tela. Cantarolava, com a boca cheia:
— She's so wild so animal! She gonna work that sexy body so sexual! She's like a female phenomenon! She's a glamazon!
Ao lado dele, Michelle e Ben jogavam cartas. Anna e Courtney, por sua vez, pareciam distraídas com uma conversa qualquer. Em suma, ele era o único ali prestando atenção no programa que estava sendo exibido. O rapaz notou as conversas paralelas e deu pause no vídeo. Olhou para os lados e notou a completa distração dos amigos.
— Eu tô assistindo essa porcaria sozinho, é?
Ben e Michelle viraram para ele e caíram na gargalhada. O ruivo falou:
— Cê sabe que eu não gosto desse programa. Eu vim só pela pizza.
Michelle concordou com um aceno de cabeça, completando:
— E eu to no meu quarto, então eu meio que sou obrigada a ficar aqui.
O rapaz revirou os olhos e deu com os ombros.
— Anna? Courtney?
As duas estavam em outro sofá e pareceram não ouvi-lo.
— Assiste de boa aí, Dani. Eu prometo que vou tentar prestar mais atenção nas suas travestis. — Ben disse, de maneira um pouco debochada.
— Elas são drag queens. — Daniel corrigiu. — E eu nem gosto desse programa. Eu tava assistindo só porque é algo que eu e a Anna fazemos juntos sempre que íamos na casa da vovó. Mas parece que ela arranjou coisa melhor pra fazer.
Aquela era apenas meia verdade. Daniel e Anna eram primos, e até certo ponto bastante próximos. Era comum que os dois se isolassem do restante da família nas reuniões e passassem horas e horas conversando ou assistindo alguma coisa no notebook que algum deles levava. Mas era Daniel quem gostava de RuPaul’s Drag Race, e era Anna quem assistia por tradição. Mas aquele era um segredo que iria com o rapaz para o túmulo, mesmo que ele soubesse que seus amigos não dariam muita bola.
A birra talvez fosse por outro motivo. Daniel gostava de Courtney desde que conseguia se lembrar. Os dois, a prima e Big J se conheciam desde os doze anos de idade, e eram bastante amigos desde então. O rapaz nunca escondeu a sua crush pela garota, mas ela também nunca pareceu retribuir. Durante os anos que se seguiram, ambos ficaram com outras pessoas, mas sempre continuaram próximos. Courtney até chegara a namorar, mas Daniel não se afastara. Reprimia seus sentimentos e fingia que tudo estava bem, mas a verdade era outra.
Eu sou pior que uma garotinha, ele dizia para si mesmo. E talvez fosse verdade. Apesar de não gostar de admitir, Daniel era sensível. Sensível e romântico, mais do que boa parte dos garotos. Isso tornava a sua vida bastante difícil em vários aspectos. Garotos não falam sobre sentimentos, ele descobrira cedo. Restavam as garotas então, mas elas eram, em geral, o motivo de suas frustrações, o que deixava a situação complicada.
E era esse o seu laço definitivo com Anna. Ela lhe ouvia. Ela lhe aconselhava. Mas, apesar disso, ela não podia fazer nada. Era a melhor amiga de Courtney e sabia todos os seus segredos, mas não podia trair nem a confiança dela, nem a confiança do primo. Daniel às vezes pensava que devia ser difícil estar na posição de Anna.
O rapaz tentou abandonar aqueles pensamentos e pegou o seu iPhone que estava no sofá. Viu duas notificações, sendo ambas mensagens enviadas por Laura King, a atriz. Na primeira estava escrito:
Tudo certo com as passagens. Nos vemos na semana que vem, Dani!
Já a segunda dizia:
A Kia vai chegar no dia seguinte à nossa chegada, tudo bem? Problemas familiares, você sabe como é. Eu me comprometo a cumprir o nosso calendário no lugar dela se for preciso. Ps: você gosta de RuPaul’s Drag Race? Eu percebi uma referência quando você citou que os contratempos que tivemos eram “water off a duck’s back”. Jinkx Monsoon, certo? :D
Daniel ficou vermelho, mas sorriu. Gostava de Laura. Ela parecia bastante simpática e profissional, e isso era tudo o que ele poderia pedir de uma atriz. Além disso, era bastante bonita, com olhos claros e longos cabelos platinados. Estar na presença dela o deixava um pouco ansioso, mas ele sobreviveria. Tinha de ser um diretor profissional. Até porque boa parte da responsabilidade daquele trabalho estava em suas costas. Sendo o diretor do média-metragem, a nota que eles iriam tirar dependia grandemente do papel que ele teria no desenrolar das coisas. Michelle havia escrito um roteiro bastante polido e aguçado, de modo que ele não poderia estragar tudo.
A contratação de Laura, uma conhecida atriz no meio das produções independentes e filmes de terror trash, fora uma conquista e tanto. O cachê dela não era alto, e o rapaz conseguiu que a faculdade custeasse as despesas de Laura e de Kia. As passagens e a estadia no Havaí eram por conta dos próprios alunos, mas era necessário que a instituição cobrisse os custos de produção. As câmeras, luzes e todo o restante do aparato também eram do college. E foram todos emprestados no meu nome. Se algum idiota quebrar uma dessas câmeras eu tô morto...
De repente alguém bateu na porta. Daniel se dispôs a atendê-la e levantou-se do sofá. Levou um susto quando deu de cara com Big J segurando um engradado de cervejas. O gigante loiro entrou no quarto sem pedir licença e comentou baixinho:
— Foi difícil passar pelos seguranças do campus, especialmente com essas cervejas.
O outro rapaz riu e pegou uma das garrafas. Aquele dormitório era das três garotas, de modo que eles estavam ali como intrusos, de certa forma. Se fossem pegos, com certeza sofreriam sansões, e Daniel temia que elas incluíssem um cancelamento em sua viagem.
Mas não aconteceria. Eles tinham tudo sob controle. Tinham o destino em suas mãos.
x-x-x-x-x
No silêncio, uma catedral
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal
Mas vai existir, eu sei, vai ter que existir
[...]
Solidão
Quem pode evitar?
Te encontro, enfim
Meu coração é secular
Sonha e deságua dentro de mim...
A catedral de brinquedo que estava diante de Phillip era velha e enferrujada.
O rapaz suspirou. Voltou a colocá-la em cima da prateleira de seu quarto e abriu a bíblia em cima da cama, ajoelhando-se no chão. Ao lado dela, a cama de Ben estava vazia. Ele deve estar junto com os outros no quarto das meninas.
A luz do abajur era a única coisa que iluminava a página do Livro Sagrado. À sua frente estava o segundo menor versículo da bíblia, em sua versão inglesa, Êxodo 20:13. Em sua versão original, porém, ele era menor do que o versículo que Anna citara. Ele dizia:
Não matarás.
Mas eu suponho que “Jesus chorou” seja mais bonito, então eu compreendo a resposta da Anna. Apesar disso, remoia a ideia de que deveria tê-la corrigido e não o fez. Talvez não quisesse alienar Anna e fazer com que ela o considerasse ainda mais estranho. Gostava da companhia dela, assim como gostava da companhia de todos os seus outros amigos. Com os garotos tinha mais liberdade e deixava suas manias fluírem mais naturalmente. Mas com as garotas ele tinha de ter cuidado. Elas eram mais sensíveis, elas não toleravam com a mesma facilidade.
Phillip largou a bíblia e sentou-se no chão do quarto escuro. Ele usava uma camiseta qualquer de super-herói e uma calça de moletom azul bebê. Conseguia ver, de maneira pouco nítida, o seu reflexo no vidro de um quadro do Darth Vader que estava na parede. Era um quadro de Ben, mas Phillip gostava dele.
Cruzou as pernas e colocou as mãos em cima dos joelhos, numa posição de yoga que era conhecia como “posição de lótus”. A yoga fora a responsável por lhe ajudar em diversos momentos de sua vida, e aquele seria mais um deles, Phillip tinha certeza. Fechou os olhos e ouviu apenas o som do silêncio. Era ensurdecedor, mas lhe dava paz. Mentalizou a imagem serena do pai e deixou-o seguir seu caminho.
O quadro caiu no chão com um baque mudo. O rapaz abriu os olhos imediatamente, um pouco assustado. Olhou para o lado e viu o objeto no chão, com os cacos de vidro espalhados por todos os lados. Phillip revirou os olhos e seguiu até o local engatinhando. Quando chegou diante dos vidros, olhou para eles com atenção.
Sua imagem refletida agora estava em pedaços.
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