Notas iniciais
Quinto capítulo postado, gente :D Espero que gostem! Eu tentei, aqui, dar prosseguimento à maior parte dos plots que estão sendo desenvolvidos paralelamente. Além disso, tirei um pouco o foco de alguns personagens para que outros pudessem ter destaque. Prometo que vou continuar com o desenvolvimento de tudo que me propus até aqui ^^ Como sempre, eu revisei o cap., mas se notarem algum errinho podem me avisar, por favor! :D Espero que gostem :DD

O vestiário tinha uma infinidade de armários azuis encostados nas paredes. O piso era cinza e a luz que iluminava o lugar era um pouco fraca. Os bancos de madeira por sua vez, estavam dispostos entre os corredores com armários de ambos os lados. Há alguns metros dali, no fim do vestiário, estavam os chuveiros. Dezenas deles, espalhados pelos quatro cantos do local e sem nenhum tipo de divisória entre eles.

O lugar estava vazio, com exceção de Big J. O rapaz estava sentado em um dos bancos, nu, com uma toalha debaixo de si. Olhava para o mar azul e metálico que tinha à sua frente e não sabia direito o que deveria fazer. A minha irmãzinha...

Courtney lhe contara sobre o exame na noite anterior. Estava em prantos, chorando de maneira inconsolável, e a única pessoa a quem lhe recorreu pedir ajuda foi o irmão gêmeo. Big J foi forte e conseguiu mantê-la calma, mas quando Courtney dormiu, com os olhos vermelhos e a maquiagem borrada, ele entrou em pânico. O que eu vou fazer? Como... O papai e a mamãe... Oh, Deus!

Big J estava acostumado a limpar a sujeira da irmã. Desde pequeno, sempre que ela fazia alguma bagunça ou se encrencava, ele aparecia para ajudá-la. E não foram poucas as vezes em que o gigante loiro salvou a pele da irmã. Courtney sempre fora bastante rebelde e irresponsável, enquanto o irmão era mais centrado e responsável. Ele cansara de ser punido por erros que ela cometera, mas não se importava. Achava que era seu dever como irmão mais velho (mesmo que por apenas dois minutos). Se pudesse a protegeria de tudo e de todos. Mas não podia. Não daquela vez. O inimigo era invisível e imortal. Oh, mana...

Abaixou a cabeça e deixou algumas lágrimas caírem no chão, sentindo uma forte dor em seu peito.

Quando ouviu o barulho de passos e percebeu que alguém estava se aproximando, secou as lágrimas e rapidamente vestiu uma cueca. Ben apareceu alguns segundos depois, empurrando um carrinho com várias toalhas dentro. O ruivo pareceu feliz ao ver o amigo.

— Hey, grandão! Tá fazendo o quê, aqui, há essa hora? A maioria dos caras do time ainda tá dormindo.

Big J deu com os ombros.

— Eu vim treinar um pouco. Dormir demais me deixa meio fora de forma.

Ben pareceu concordar com aquela lógica, dando um aceno de cabeça.

Naquela noite haveria o jogo mais importante de toda a temporada. Os Dolphins, time de futebol americano da universidade deles, enfrentariam os Angels, o time vencedor das últimas três temporadas. Daquela vez, porém, os Dolphins levavam vantagem, por dois motivos, sendo um deles bastante mórbido. O primeiro era o fato de que o maior atleta deles, um quarterback grandalhão que Big J conhecia só de vista, estava lesado e não participaria do jogo. Isso por si só já dava uma vantagem tremenda para o time da casa, mas havia ainda o fato de que o treinador deles havia morrido apenas dois dias antes.

E eu pensei que nós seríamos os únicos a jogarmos com faixas pretas amarradas no braço...

Os Dolphins jogariam em homenagem à Trevor, grande atleta do time. A diferença entre eles e os Angels, porém, era que o time de Big J sabia como trabalhar em equipe e não depender de um único jogador, o que acontecia com o time rival. A perda de Trevor era dolorosa, mas não os afetaria de maneira significativa. Não tanto quanto a perda do atleta dos Angels, pelo menos.

O celular de Ben tocou. O rapaz o retirou do bolso da calça, enquanto Big J colocava uma calça jeans e uma camiseta azul. O ruivo lia a mensagem de maneira atenta, e ao terminar franziu o cenho.

— Caraca... — Ele murmurou para si mesmo.

— O que foi?

— A Kia. — O ruivo disse, enquanto guardava o celular no bolso. — Parece que ela caiu do terraço do prédio do primo ontem a noite. Ela tá morta.

Big J não conseguiu conter o espanto. O Trevor, a Michelle e agora a Kia. O que diabos tá acontecendo com a gente? Antes que pudesse organizar seus pensamentos, porém, Ben já dizia:

— O Daniel tá reunido com a galera lá no Clube de Cinema. Ele pediu pra gente ir até lá.

O gigante loiro concordou com um aceno. Levantou-se do banco e jogou a toalha no carrinho que Ben levava, ajudando o amigo com a tarefa.

x-x-x-x-x

O grupo de oito estava reunido no Clube de Cinema.

O lugar era como uma sala de aula normal, com diversas carteiras dispostas em um semicírculo. Sentados ali, eles se pareciam com um grupo de autoajuda. Nas paredes havia dezenas de pôsteres de filmes famosos, bem como todo tipo de memorabilia imaginável. Elas iam desde bonecos de ação em cima das estantes, até figurinos utilizados em longas.

Daniel fora o presidente do Clube de Cinema durante o seu primeiro semestre na universidade, mas desistira daquela posição quando percebera o trabalho que dava cuidar de tudo. O atual presidente era um rapaz que cursava o último período de Cinema, e desde que ele assumira o cargo, o clube praticamente se dissipara.

Laura estava sentada em cima da mesa que ficava à frente do semicírculo, enquanto todos os outros estavam sentados nas carteiras destinadas aos estudantes. A loira não usava nenhuma maquiagem, e vestia-se de maneira nada habitual para aqueles que a conheciam. Ela estava com um moletom com um capuz cinza e uma calça vermelha do mesmo material. Nos pés havia um Converse preto bastante sujo. Os cabelos estavam amarrados em um rabo de cavalo improvisado e que parecia estar se soltando.

— Deixa eu falar o que tá na cabeça de todo mundo: nós somos a porra dos envolvidos na produção de “O Exorcista”. Certo?

Todos entenderam a referência sem que Daniel precisasse explicá-la. Até mesmo Anna e Simon, que não tinham nenhuma relação com a sétima arte, sabiam da maldição que envolvera o filme. A produção do longa de 1973 fora marcada por inúmeros acidentes, tragédias e fatídicos acasos do destino. Durante e após o seu desenvolvimento, diversas coisas deram errado, em especial a morte de muitos membros do staff em acidentes bizarros e circunstâncias estranhas.

— É difícil continuar depois de tudo isso. — Courtney disse de maneira incerta.

Daniel concordava com aquilo, mas não se pronunciou. Simon arriscou, erguendo timidamente o braço ainda enfaixado.

— São coincidências. Coincidências horríveis, eu sei, mas apenas coincidências. Fazer ou não fazer o filme não vai interferir em nada. Aqueles que se foram não vão voltar.

Ben concordava com o amigo. Falou:

— Eu não posso falar pela Michelle ou pela Kia, mas o Trevor não iria querer que as coisas parassem por causa disso. Ele sempre deu tudo de si em todos os projetos nos quais se envolveu, e sempre disse que eu deveria fazer o mesmo. Meu voto é para continuarmos. Mas eu preciso saber qual o consenso de vocês...

O grupo começou a olhar uns para os outros. Daniel então pigarreou e falou:

— Bom, vamos votar então. Quem acha que a produção deve continuar, levanta a mão esquerda. Quem acha que nós devemos parar, levanta a mão direita. O que quer que seja decidido deve ser acatado por todos, certo?

Cada um deles concordou com um aceno de cabeça.

Todos os rapazes ergueram o braço esquerdo. Big J, Phillip, Simon, Ben, e, por último e de maneira relutante, Daniel. Laura e Courtney ergueram o braço direito, enquanto Anna permaneceu com os dois braços abaixados.

— Anna? — O primo perguntou.

A garota deu com os ombros, incerta.

— Eu não sei. O clima tá muito pesado. Eu não sei se nós deveríamos continuar, mas... Bom, vocês estão em cinco. Mesmo que eu vote com as meninas, nós perdemos.

Daniel parecia frustrado. Disse:

— Mas assim não vai funcionar. Eu não vou conseguir ver a cara de vocês durante os dias de gravação.

Courtney imediatamente o interrompeu, dizendo:

— Eu não vou ficar de cara feia, não. Eu sei respeitar um voto. E é como o Simon disse: nada vai trazer eles de volta.

Laura concordou, meneando positivamente a cabeça. Ao contrário do que imaginou que aconteceria, ela não se sentia deslocada ali. Aquele grupo de pessoas compartilhava do mesmo sentimento de melancolia que ela. Eles a entendiam. Laura nunca fora muito próxima de Kia, mas já trabalhara com ela em outros projetos, de modo que sentia a perda da garota. Além disso, havia Michelle e Trevor. Tão jovens... Eles tinham toda a vida pela frente...

— Então está decidido. Eu dou um jeito de arranjar uma substituta pra Kia, e nós começamos as gravações amanhã. Certo?

Todos menearam positivamente a cabeça, embora não houvesse nenhum sentimento de resolução ali.

x-x-x-x-x

O quarto de Trevor era uma adorável bagunça.

Simon sorriu ao observar que as coisas do ruivo ainda estavam no lugar em que ele as deixara. Nenhum dos irmãos da Pi Chi havia entrado ali, menos ainda mexido nos objetos, o que demonstrava um admirável respeito à memória de Trevor. Ou um respeito a mim. Pff.

O relacionamento de Trevor e Simon não era um segredo, mas também não era de conhecimento geral. Dentro do grupo de amigos deles, todos sabiam, com exceção de Ben. Simon desconfiava que o ruivo soubesse que ele e o irmão tinham uma relação, mas Ben aparentemente preferia fingir desconhecimento. Simon não se importava com isso, e respeitava o irmão mais novo de Trevor. Sabia que devia ser difícil processar aquele tipo de coisa, então tentava ao máximo não esfregar a relação deles na cara de Ben, mas ao mesmo tempo não permitindo que isso ferisse sua integridade e seu orgulho por ser quem era. Não provocaria Ben, mas jamais negaria o seu amor por Trevor.

Os irmãos da Pi Chi também pareciam saber, já que sempre faziam piadinhas e brincadeiras a respeito dos dois. Mas eram todas piadas inofensivas, na esportiva, de modo que tanto Simon como Trevor não se importavam. Simon, em especial, via aquilo como uma maneira dos rapazes dizerem que os respeitavam independente de qualquer coisa. Eles faziam piadas de todos os tipos, a respeito de todos os irmãos da fraternidade. Fazerem piadas com Trevor e Simon era, de certa forma, mostrar que eles faziam parte do grupo e eram tratados exatamente da mesma forma.

Bom, isso não faz mais diferença. O Trevor se foi.

Simon sentou-se em cima da cama do ruivo e esfregou as ataduras que tinha no braço. Elas coçavam de maneira irritante, e o rapaz sabia que tinha que aguentar. Coçar só pioraria tudo. As queimaduras eram de primeiro e segundo graus, e Simon sentia-se enojado quando tinha de trocar os esparadrapos. Elas eram feias, e provavelmente deixariam pequenas cicatrizes. O rapaz não se importava. Sua pior cicatriz era a do coração.

Decidiu que arrumaria todas as coisas de Trevor. Era o certo a se fazer. Os quarto precisava ficar vago para abrigar um novo irmão da Pi Chi, de modo que Simon imaginava que era seu dever fazer aquilo. Colocaria todas as coisas do ruivo em caixas e então as entregaria para Ben, que decidiria o que fazer com elas.

O rapaz começou recolhendo as coisas do chão. Havia de tudo: desde livros e papeis aleatórios, até peças de roupa sujas. Quando Simon recolheu uma camiseta preta, sentiu o doce aroma do perfume de Trevor. Lembrava-se de que odiara aquela fragrância no começo, por ser doce demais, mas... Ali, naquele momento, não conseguia imaginar cheiro melhor. Era o cheiro dele. Era um cheiro que Simon jamais voltaria a sentir da mesma forma.

A agenda estava guardada debaixo da cama. Simon recolheu-a e estava quase a jogando em cima da cama, junto dos outros pertences, quando algo lhe chamou a atenção. Era um post it rosa, colado logo na contracapa. O rapaz abriu a agenda e leu o papel. Estava escrito:

Pierre, 202-555-0180

Simon estranhou aquilo. Ele conhecia apenas um Pierre, o ex-namorado de Courtney, e imaginou que se tratasse dele, já que Trevor jamais mencionara nenhum outro Pierre. Isso tornava as coisas ainda mais estranhas, já que ele não conseguia ver qualquer relação entre o rapaz e o ruivo. Que bizarro.

Mas aquilo não tinha importância. Simon dobrou o post it rosa e colocou-o dentro do bolso da própria calça. Apenas por curiosidade, perguntaria à Courtney se aquele era o número do ex-namorado dela. Não faria nenhuma diferença, mas naquele momento Simon estava disposto a se agarrar a qualquer coisa que o mantivesse ligado à Trevor. Não estava pronto para abandonar aquelas lembranças, e imaginava que jamais estaria.

A bíblia estava aberta em cima da mesinha de cabeceira.

Simon aproximou-se dela e segurou o livro sagrado em mãos. Sabia que Trevor tinha um lado religioso bastante forte, então não se espantou. A bíblia estava aberta no livro de João, mais especificamente no capítulo 11. Havia, porém, um versículo marcado com uma caneta marca textos amarela. O rapaz sentiu os pelos do braço se arrepiarem ao ler o que estava escrito.

Jesus chorou.

x-x-x-x-x

O sol de fim de tarde entrava pela janela da sala de aula de Anna, iluminando e aquecendo o lado esquerdo de seu corpo. A garota olhou para fora e viu alguns estudantes andando e conversando. Encostado em uma árvore há poucos metros deles, estava Phillip. O rapaz estava sentado e com um livro em mãos. Anna conhecia aquela publicação, e ver o amigo com ela em mãos apenas confirmava a sua suspeita. “The Curious Incident of the Dog in the Night-Time”, escrito por Mark Haddon. Um livro que, embora não seja claro sobre isso, trata de um garoto com a Síndrome de Asperger. Você é mesmo um aspie, Phillip.

A professora saíra da sala por alguns minutos, deixando a classe com uma tarefa qualquer da qual Anna já não se lembrava mais. A garota decidiu ignorar solenemente a atividade, e dedicar-se a algo mais importante.

Retirou o iPad da bolsa e notou que ele tinha conexão com a internet. Digitou:

Ethan Hasselbeck 2014

Os resultados foram melhores do que ela esperava.

Quando Big J lhe sugeriu que tentasse encontrar Ethan e saber o que tinha acontecido com ele, a garota não estava otimista. Imaginava que não haveria qualquer informação a respeito do homem nos dias atuais, mas, por sorte, havia. Havia mais coisas do que ela jamais imaginou se possível.

Ele está vivo. E está bem mais perto do que eu imaginava.

Ethan Hasselbeck estava listado como um morador da Casa de Repouso Carpenter, localizada em uma cidade vizinha da universidade, a poucas horas de viagem. Anna procurou a data daquela publicação e quis gritar de êxtase. O post no blog da instituição datava de três meses antes, de modo que era altamente provável que Ethan ainda estivesse lá. A garota então imediatamente procurou o número de telefone da Casa e anotou-o em seu celular. Olhou para frente e percebeu que a professora ainda não havia chego.

Decidiu ligar. Saiu da sala com o celular em mãos, notando que Simon observara sua saída. Do lado de fora, percebeu que o corredor estava vazio. Discou.

O telefone foi atendido no terceiro toque.

Casa de Repouso Carpenter, boa tarde. Aqui quem fala é a Janet, em que eu posso ajudá-lo?

— Alô? Ah, oi Janet. O meu nome é Anna Hill. Eu sou uma estudante de Psicologia e estou fazendo uma pesquisa.

Sim?

— Eu pesquisei na internet e descobri que vocês têm um homem chamado Ethan Hasselbeck como um dos seus pacientes... Ele é um veterano de guerra, correto?

Do outro lado do telefone, a resposta demorou a vir. Anna ouvia a tal Janet cochichando algumas coisas com outra pessoa, e imaginou que estivesse consultando um superior a respeito daquela questão.

O seu Ethan lutou na Segunda Guerra Mundial, sim. Por que a pergunta?

Isso, Janet! Coopera comigo.

— Ele está em condições de receber visitas? Eu adoraria falar com ele.

Não é aconselhável que ele receba visitas. O seu Ethan já tem noventa e oito anos e está bem debilitado. — A tal Janet respondeu de maneira educada.

— Eu prometo que não vou perturbá-lo. É muito importante que eu converse com ele, Janet.

A mulher demorou mais alguns para responder, novamente consultando algo ou alguém.

Eu temo que o seu Ethan não seja de grande ajuda pra sua pesquisa, Anna. Ele sofre de Alzheimer, de modo que a maior parte das coisas que ele fala não fazem sentido. Você vai conseguir mais coisas indo numa biblioteca.

Alzheimer? Era de se esperar.

— Nenhuma biblioteca no mundo pode substituir alguém que viveu a situação. Mesmo que ele não consiga se lembrar de muita coisa ou contribuir com a minha pesquisa, eu adoraria falar com ele. Eu prometo não levar mais do que dez minutos, é sério. É muito importante.

Novamente o silêncio.

Que dia você gostaria de vir aqui? — Janet respondeu, de repente. — Eu não posso te garantir nada, porém. Com a idade que o seu Ethan está, nós não podemos abusar da sorte. Ele tem muitos dias bons, mas também tem muitos dias ruins. Se você vier até aqui e ele estiver em um dia ruim, não vai haver nada que nós possamos fazer. Você corre o risco de perder a viagem, Anna.

Vale a pena arriscar, a garota pensou. Ela precisava falar com Ethan. Precisava chegar ao fundo daquela história. Ela vira o homem. Ela vira o ataque à Pearl Harbor. E então ela vira o acidente com o ônibus, e então houve a morte de Trevor, Michelle e Kia. Anna sabia que, de alguma forma, tudo aquilo estava ligado ao tal Ethan.

— Domingo é um bom dia. Eu tenho o dia todo se for necessário. Posso chegar de manhã e esperar até que o Ethan possa me receber.

Do outro lado da linha, Janet soltou um “oh”, como estivesse surpresa com o empenho de Anna.

Então está tudo bem. Nós podemos te receber a partir das nove da manhã. Temos uma lanchonete bem bacana aqui, caso você precise esperar. — E a mulher então riu.

Anna gostou de Janet. Ela parecia bastante prestativa e gentil.

— Nos vemos no domingo, Janet. Tenha um bom dia.

Tenha um bom dia você também, Anna. Boa tarde! — E desligou.

A professora já aparecia no corredor. Entrou na sala no mesmo instante, sem notar Anna no corredor. A garota suspirou. Esquecera-se de perguntar se podia levar alguém consigo, mas imaginou que não tivesse importância. Queria ir com Big J, mas o rapaz poderia esperar do lado de fora, de modo que sua presença não faria diferença para Janet.

Quem é você, Ethan? Por que as nossas histórias estão ligadas?

Desistiu de pensar. Precisava recolher todo o restante de paciência que tinha em si e esperar até o dia do encontro.

x-x-x-x-x

Os Dolphins riam e se divertiam dentro do vestiário.

O time parecia confiante. O treinador deles, o coach Tucker, dava instruções nas quais o grupo fazia questão de prestar atenção. Apesar disso, nada de novo foi dito. Big J estava participando de um jogo grande pela terceira vez, então já aprendera que era de praxe que o treinador apenas repetisse táticas já fixadas anteriormente.

Alguém bateu na porta e um dos rapazes correu para ver de quem se tratava. Quando girou a maçaneta e a abriu, deu de cara com Anna. A garota sorriu de maneira tímida e perguntou:

— O Joe está aí?

— Hey Big J, é pra você! — O rapaz gritou, saindo da presença de Anna e seguindo para perto dos outros colegas.

O loiro sentiu-se revitalizado. Correu até a porta e recepcionou a garota com um forte abraço. Os rapazes do time viram a cena e caíram na gargalhada.

— Hmmm, é permitida visita íntima antes do jogo, coach? — Um deles brincou, e os outros riram. Big J riu e mostrou o dedo do meio pra eles, saindo dali de mãos dadas com Anna, que também ria.

Os dois se sentaram nos bancos que ficavam no corredor que dava para o vestiário. Eles estavam exatamente debaixo do estádio onde aconteceria o jogo, e conseguiam ouvir, ao longe, vários sons das pessoas que chegavam para assistir a partida.

— Você veio me desejar boa sorte? — Big J perguntou, sorrindo.

Anna olhou diretamente nos olhos azuis dele, de maneira séria.

— Também. Mas eu não vim só por isso.

O rapaz estranhou aquela fala e arqueou as sobrancelhas.

— Então...?

A garota suspirou. Abriu um sorriso tenro e então disse:

— Eu vim aqui falar sobre a gente. Mas não se preocupe, não é nada ruim. Eu não te deixaria nervoso antes de um jogo importante como esse.

Big J ficou calado, imerso nos lagos castanhos que eram os olhos de Anna.

— Eu gosto de você, Joe. — Ela começou, mas então pensou melhor. — Não, mais. Eu gosto muito de você. Eu não sei se essa é a palavra correta, mas... Eu te amo. E não é uma paixonite qualquer, uma atração puramente física. Eu amo tudo em você. Eu amo a sua personalidade relaxada, o seu espírito livre, o seu sorriso bobo... — E ele não conseguiu conter o sorriso. — Eu quero ficar com você. Eu quero namorar com você.

Aquele monólogo pegou o gigante loiro desprevenido. Sua cabeça girava, e ele via-se dentro de um sonho. Anna estava falando sério? Ela quer ficar comigo. Ela me ama.

O rapaz não conseguiu falar nada. Então apenas inclinou-se e deu um beijo em Anna. Ela retribuiu o gesto de maneira calorosa, e eles ficaram assim por alguns segundos. Quando se separaram, Big J apressou-se em dizer:

— Eu também te amo, Anna. Eu também amo tudo em você. Eu não sei como dizer isso de uma maneira elaborada como você fez, mas... Bom...

— Eu amo isso em você também. — Ela falou, e riu. — Essa sua confusão e falta de jeito.

O rapaz abriu um sorriso de orelha a orelha e lhe deu outro beijo.

— Eu também quero namorar com você. Pra valer. De aliança no dedo, presentinho bobo, SMS de bom dia e tudo o que tivermos direito.

Anna soltou um gritinho de empolgação. Abraçou Big J com força, sendo esmagada pelos enormes braços dele. Os dois ficaram ali, juntos, até ouvirem o apito do coach Tucker indicando que o time iria entrar em campo. A garota despediu-se do gigante loiro com um beijo rápido, e então saiu em direção à arquibancada.

Por algum motivo que não soube explicar, sentiu uma forte pontada no peito. Anna imediatamente encostou-se na parede de concreto que tinha ao seu lado e respirou fundo. A dor começou física, mas então se tornou emocional. Anna sentiu uma sensação de perda e vazio enormes. Sentiu como se fosse privada de falar, de amar, de sentir. Como se quisesse contato com algo ou alguém, mas esse contato fosse subidamente cortado dela. Era uma sensação claustrofóbica, como se Anna estivesse dentro de uma bolha e fosse perder tudo pelo qual tinha apreço.

Respirou fundo mais uma vez.

Ainda sentia-se um pouco mal quando caminhou por entre os bancos da arquibancada onde estava o grupo de amigos. Mesmo assim, Anna sorriu de maneira resignada ao ver todos ali. Os amigos tinham combinado de se vestirem nas cores do time, e aparentemente tinham cumprido a promessa.

Ben, Phillip, Daniel e Simon tinham os rostos pintados de branco e azul, as cores dos Dolphins, além de estarem usando algumas peças de roupa do time. Simon usava um boné de aba azul com um golfinho desenhado, enquanto Ben tinha uma regata com o mesmo logotipo. Daniel por sua vez usava uma jaqueta do time de futebol, emprestada de Big J e ficava enorme para ele. Por último, Phillip tinha uma camiseta inteiramente azul, com o desenho de um golfinho estilizado e a frase: “We are the deadliest animals on this fucking planet!”.

Courtney parecia abatida. Ela não usava qualquer maquiagem, e tinha os cabelos presos em um coque desajeitado. Em sua cabeça havia uma tiara azul, da mesma cor de seus shorts. Sua camiseta era branca e com uma gola em formato de “V”. Laura também não parecia muito arrumada. Usava um vestido branco e de pano leve que chegava até seus pés. Ela tinha um boné dos Dolphins virado para trás em sua cabeça, e um par de brincos de alguma joia que imitava uma safira em suas orelhas.

Anna vestia-se de maneira discreta. Usava um moletom branco e uma saia azul que ia até um pouco acima do joelho, e tinha uma sandália sem salto nos pés.

— Senta aqui, Anna! — Phillip a chamou, apontando para um lugar vago ao seu lado. Ele tinha um cachorro quente em mãos, e um vidro de catchup ao seu lado.

A garota sorriu e sentou-se onde o amigo havia indicado. Do outro lado dela havia um rapaz qualquer, também da torcida dos Dolphins.

Quando os times entraram no campo, as torcidas gritaram de maneira animada. Anna e os amigos pulavam e assoviavam, gritando o nome de Big J. Ele, assim como os colegas de time, usava uma faixa negra amarrada no braço esquerdo, em homenagem à Trevor. Os Angels, time rival, tinham a mesma faixa, porém em homenagem ao seu antigo treinador.

O gigante loiro encontrou o grupo de amigos na arquibancada e acenou para eles. Todos retribuíram, e na confusão Phillip acabou derrubando o vidro de catchup em sua camiseta.

— Argh, que droga! — Ele exclamou um pouco chateado.

Anna virou-se na direção do amigo e percebeu que o líquido vermelho havia deixado uma enorme mancha na camiseta dele. A frase que estava escrita fora parcialmente coberta. A garota tremeu com o que se tornou legível.

Oh.

We are ... dead... ...

Anna sentiu um arrepio na nuca e então a tocou, inquieta.

Não teve tempo de pensar direito naquilo, porque o hino nacional dos Estados Unidos já começava a tocar, e todos se punham de pé para cantá-lo. A garota fez o mesmo que o restante da torcida, mas manteve-se calada, incapaz de proferir qualquer palavra.

E então o juiz apitou e o jogo teve início.

Anna assistia a tudo com a mesma sensação de inquietude que a tomara minutos antes. Acompanhava Big J e seu enorme capacete pelo campo, vibrando a cada jogada. Por algum motivo temia por ele e pelo que pudesse acontecer com ele. Via como os jogadores se trombavam e derrubavam uns aos outros, e tinha medo deles machucarem o gigante loiro. Mas que ideia absurda, Anna. Olha o tamanho dele. Se alguém naquele campo pode machucar alguém, essa pessoa é o Big J. As namoradas dos outros é que precisam ficar preocupadas.

Ao fundo, Anna ouvia uma música. Mesmo longe e em meio aos gritos dos torcedores, ela conseguia distinguir perfeitamente a letra, porque a conhecia.

So when I'm lying in my bed

Thoughts running through my head

And I feel the love is dead

I'm loving angels instead

Head. Dead. Angels. Cabeça. Morto. Anjos. Não pode ser coincidência.

Anna olhou para Big J no meio do campo e gritou antes mesmo de acontecer.

O rapaz segurava a bola e colidiu de maneira direta com um jogador do time rival, sendo que seus dois capacetes se chocaram com força. Os dois caíram imediatamente no chão, um para cada lado. O juiz apitou, e então pediu que o gigante loiro e o outro rapaz se levantassem. O jogador dos Angels tentou ficar de pé, mas então se sentiu zonzo e caiu sentado, claramente atordoado com a pancada.

Big J, por sua vez, não se levantou.

Anna não conseguiu ficar ali parada. Empurrou os amigos e correu na direção do campo, descendo os degraus de maneira apressada. Quando chegou ao fim da escadaria e na entrada do local onde ocorria o jogo, sentiu braços a segurando. A garota gritava e esperneava, tentando se soltar de quem a segurava.

— Ei, larga ela! — A garota ouviu a voz de Simon dizer, ao fundo.

Nos segundos em que o coach Tucker se distraiu com a voz do rapaz, Anna soltou-se dele. Ela correu até perto de onde Big J estava caído, enquanto os jogadores em campo tiravam seus capacetes, preocupados com o que havia acontecido.

O juiz berrava para que trouxessem um médico, e o homem vestido de branco não demorou a aparecer. Àquela altura o treinador discutia com Simon e Ben, e ninguém mais se importava com a presença de Anna ali. Os rapazes que integravam Dolphins e os Angels olhavam para o gigante loiro no chão de maneira aflita. Temiam o que imaginavam ter acontecido.

Quando o médico tirou o capacete de Big J, Anna soltou um berro ensurdecedor, e então caiu no chão, ajoelhada.

O rapaz estava com os olhos abertos e estáticos. Suas íris azuis não tinham vida alguma e, embora houvesse uma quantidade mínima de sangue, Anna e todos ali presentes sabiam o que havia acontecido. Oh não. Joe... Meu Joe...

As lágrimas caíram quase que instintivamente.

O grito de horror de Courtney, alguns metros atrás, fez Anna chorar ainda mais.

Notas finais
E aí? O que acharam? o/ NÃO LEIAM ESSAS NOTAS FINAIS SE NÃO TIVEREM LIDO O CAPÍTULO! Pela primeira vez nas minhas fics de Premonição, eu quis fazer uma morte calma, não sangrenta, não dolorosa. Eu QUASE fiz isso láááááá na minha primeira fic, quando o Bobby quase morre asfixiado com o gás garbônico do escapamento, mas na ocasião ele sobrevive. Aqui quis fazer isso. Essa morte mais "branda" foi necessária pra várias coisas, em especial para "acalmar" as coisas. Explico: É normal que após três mortes seguidas (Trevor-Michelle-Kia), eu fizesse um capítulo mais calmo, certo? Afinal os personagens precisam de tempo pra assimilar as coisas. Mas Big J precisava morrer aqui, pras coisas prosseguirem. Então uma morte "não tão traumática" (como foram as de Trevor e Michelle) foi a melhor saída para conciliar as duas coisas! Por fim, como de praxe, a música que dá o "sinal" da morte do Big J: Angels - David Archuleta: https://www.youtube.com/watch?v=O3dur6g-wog Bom, o próximo capítulo eu nem comecei a escrever, então pode demorar pra sair hahaha mas sai :DD