Notas iniciais
Antes de tudo eu queria pedir desculpas à vocês. Não desculpas pela demora em escrever e postar esse capítulo, mas desculpas pela demora em ler e comentar os SEUS capítulos. Eu escrevi e revisei esse penúltimo capítulo durante vários pequenos intervalos em que eu esperava a van, saía da prova etc etc... Em vários desses momentos, sem internet. Ou seja, eram pausas em que eu conseguia escrever o capítulo, mas não conseguiria ler e/ou comentar o de vocês. Minhas provas acabaram, porém. Então eu acho que ainda essa semana todos vocês terão reviews minhas em suas fanfics, bls.

Bom, acho que isso. Espero que gostem desse capítulo. Falta só mais um e a hexalogia acaba XD Enjoy!

Os quatro sobreviventes estavam cada um em uma ponta da mesa. Atrás deles Natalie repousava em sua cápsula de maneira tranquila. Nenhum deles queria ser o primeiro a falar. Estavam todos completamente apavorados.

— Antes de... — Quinn começou. Ela deixou no ar ao que se referia, mas era óbvio. A morte de Boo e Dallas. — Eu e a doutora Ghosh estávamos conversando, e eu acho que nós podemos ter uma chance.

Sierra continuou com a sua expressão de tensão. Yohann sofreu um leve abalo, e os olhos de Chris subitamente iluminaram-se.

— Pois diga! — O Samurai pediu.

— É só uma teoria. Mas ao mesmo tempo é a nossa única chance...

— Fala!

Quinn então suspirou, e começou:

— O Dallas estava na lista, certo? — Todos continuaram quietos. Quem cala, consente. — Bom, a morte veio buscá-lo. Ele morreu na exata ordem em que deveria ter morrido se estivéssemos na Bliss. O que significa que...

— A morte o considera uma vida. — Chris concluiu.

— Exatamente. — A doutora Rosetti confirmou. — Por algum motivo, a lista considera Dallas como uma vida, mesmo ele sendo um robô. E me digam: qual a maneira mais eficaz de deter a lista?

Sierra murmurou calmamente:

— Vida nova.

Yohann arrepiou-se com a fala da doutora. Os olhos escuros de Chris brilharam ainda mais fortes quando ele disse:

— Eu estou entendendo! Sim, isso pode funcionar! Vida nova! Uma vida que não estava nos desígnios da morte. Uma vida que envolva um de nós. Como uma gravidez ou...

— Uma ressurreição. — Yohann completou.

Quinn concordou com um aceno e disse:

— Dallas pode ser o nosso trunfo. Nós não podemos trazer humanos de volta a vida. Já robôs...

A fala da doutora Rosetti acabou por ser um banho de água fria em Chris. Ele havia se lembrado de algo que poderia pôr tudo a perder:

— Só tem um detalhe: Dallas jamais será o mesmo. As memórias dele foram perdidas com a sua destruição. Nós podemos reconstruí-lo, fazê-lo voltar a viver... Mas ele seria diferente. E se só isso não for o suficiente? E se isso não for uma ressurreição? E se isso for apenas uma espécie de reencarnação?

Os outros três se entreolharam. Sierra imediatamente abaixou a cabeça, triste. É como se ela tivesse perdido todas as forças, Quinn pensou. Quase como se ela tivesse desistido, entregado os pontos.

— Nós temos que tentar. — Foi o que a doutora Rosetti disse. — É a nossa única chance. Não há outra saída. Ou esse plano funciona, ou todos nós morremos. É isso. A nossa última esperança.

Quinn não disse, mas naquele momento um pensamento cruzou a cabeça de todos os cientistas.

Não. Aquela não era a última esperança. Aquela não era a única maneira.

Havia ainda o assassinato. Fosse ele de uma vida nova...

Ou de alguém que não estava na hora de morrer.

Yohann ergueu a mão timidamente. Quinn deu a palavra a ele, estranhando a polidez do homem. O doutor Cutler perguntou:

— Você falou sobre a ordem. Diga-nos: qual é a ordem exata das mortes? Quer dizer... Se for a minha hora eu quero saber.

Quinn engoliu em seco. Mentiu:

— Nós quatro morríamos juntos. A Bliss explodia com todos nós. Eu não sei qual a ordem das nossas mortes.

Uma parte da doutora sentia-se mal por estar mentindo. As coisas não eram bem assim. Ela sabia que Sierra era a próxima. Entre ela, Yohann e Chris era verdade que Quinn não sabia a ordem. Mas eu não posso dizer à Sierra que ela é a próxima. Ela parece já ter desistido. Se eu lhe contar que ela pode morrer a qualquer momento, eu vou perder o pouco que ainda tenho dela.

Quinn não poderia arriscar que isso acontecesse. Por mais distante que ela e a doutora Ghosh fossem, a mulher era uma vida. Além disso, se eles tinham planos de reconstruir Dallas, jamais conseguiriam fazer isso sem Sierra. E com ela desistindo de tudo, a única esperança deles iria por água a baixo.

— Bom, nós precisamos agir. — Yohann disse subitamente. Todos concordaram. — Doutora Rosetti, perdoe-me a falta de conhecimento...

— Diga. — Quinn consentiu.

— Qual o procedimento padrão para robôs destruídos?

— Eles vão para... — E quando lhe caiu a ficha, uma onda de eletricidade percorreu todo o seu corpo. Sua barriga revirou-se e Quinn sentiu que ia vomitar. Continuou: — Para o triturador.

— Oh! — Sierra exclamou. Ela correu até a porta da sala, e antes de sair disse: — Chris e Quinn. — Ela nem se importou em usar seus primeiros nomes. — Eu preciso que vocês recuperem as formatações de Dallas no sistema para iniciarmos essa reconstrução o mais rápido possível. Eu vou atrás do corpo. Eu conheço o responsável pelo lugar.

E a mulher abriu a porta. Antes que ela pudesse sair, porém, Quinn falou:

— Yohann, vá com ela, por favor.

O homem concordou com um aceno de cabeça, e saiu acompanhando a doutora Ghosh.

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— O Cody me disse que ele só vai conseguir atrasar o procedimento por quinze minutos. Se nós demorarmos mais estaremos perdidos! — Sierra disse, sem se preocupar com o palavreado. — Que horas são?

Yohann rapidamente consultou o seu relógio holográfico.

— Seis e cinquenta e seis.

— Isso quer dizer que nós temos até as sete e onze então.

O homem concordou com um aceno. Os dois estavam dentro de um pequeno carrinho flutuante que servia para agilizar o deslocamento dos funcionários dentro da Colmeia. A área que eles estavam visitando era pouco movimentada, já que se tratava quase que do exterior da colônia.

— Nós vamos conseguir, Sierra. — Yohann disse, e tocou a mão da doutora com a sua.

A mulher retribuiu o gesto, mas pesou na força. Suas unhas azuis da doutora cravaram na pele do homem com leveza, mas de maneira forte o suficiente para tirar sangue da mão de Yohann. Ele soltou:

— Ai!

A doutora Ghosh espantou-se com o que havia feito.

— Me desculpe, eu...

— Não é nada. — Yohann garantiu. — Continua dirigindo. Nós temos pouco tempo.

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Chris não tirava os olhos da tela do computador, focado como nunca. Mesmo assim, parecia estar atento a tudo ao seu redor. Quinn mexia de maneira desesperada em todos os arquivos holográficos que apareciam à sua frente, procurando o que o Samurai precisava.

— Quem diria que eu viveria para ver isto. — O homem provocou, sem parar de realizar a sua tarefa e sem mover os olhos da tela.

— Isto o quê? — A doutora Rosetti perguntou.

O doutor Holt deu com os ombros e respondeu:

— Você. Sendo minha assistente.

— Doutor Holt: agora não. Sério. Eu não sei como você tem... Estômago para me provocar nessa situação. Eu quero dizer, a sua irmã acabou de morrer!

Quinn disse aquilo e rapidamente tapou a boca, arrependendo-se. Disse:

— Me desculpe, eu não queria...

—Você está certa. — Ele confirmou, e voltou a dedicar-se exclusivamente à sua pesquisa. A doutora fez o mesmo, e eles ficaram em silêncio absoluto por vários minutos.

Quem o rompeu foi Quinn. Ela falou:

— Sabia que você poderia ter resolvido tudo com uma simples explicação?

Chris ouviu o que a mulher disse, mas por vários segundos se manteve calado.

— Eu não podia. Eu não posso. — Ele respondeu.

Quinn chacoalhou a cabeça.

— Não sobre a lista...

— Eu sei. — O Samurai apressou-se em responder. — Você fala sobre o meu sumiço há tempos atrás. Você fala sobre nós, sobre tudo o que poderíamos ter tido, tudo o que poderíamos ter vivido. Eu sei.

A mulher engoliu em seco. Ajeitou uma mexa de cabelo que caía em seu rosto e voltou a vasculhar os hologramas. De repente bufou, e falou:

— É tudo culpa da sua maldita honra. O que é tão complicado e secreto que você não pode me contar? Algo que foi importante o suficiente para fazer você me largar, largar o nosso projeto... E sumir? Eu tentei, Chris. Durante todo esse tempo, enquanto eu te odiava por fora, eu tentei entender seus motivos. O que poderia ter acontecido. No fundo do meu coração eu descartei a hipótese de irresponsabilidade no exato mesmo dia em que você desapareceu. Eu sabia que era mais do que isso. Mas você se recusou a explicar, e eu fui forçada a engolir a sua negligência como a causa de tudo isso... — E Quinn suspirou. Continuou: — Me conta. Por favor.

O doutor Holt semicerrou os olhos e piscou algumas vezes. Então ficou em silêncio por quase um minuto. Quinn esperou pacientemente. Ela havia se acostumado com a calma oriental do homem, e aprendera a ter paciência com ele. A mulher percebeu o exato momento em que Chris abriu os lábios e disse:

— Eu não posso. Eu jamais poderei, Quinn. Eu sei o que estou abdicando ao não lhe contar isso. Eu sei que eu estou abdicando a qualquer sentimento que você possa ter por mim. Eu sei que estou abdicando a minha chance à felicidade. Eu sei. Mas eu não tenho outra escolha. — E então, pela primeira vez, Chris desviou os olhos da tela do computador. Olhou diretamente dentro dos olhos da doutora Rosetti e continuou: — Você não entende, eu sei. Pra você a honra é algo importante, sim, mas ela está abaixo de muitos outros valores. Está abaixo do amor, por exemplo. Para mim, não. — E Chris tocou o peito ao dizer isso. — A honra é o que norteia a minha vida. É o que me faz acordar todas as manhãs e me deixa dormir tranquilamente à noite. Por isso... Não. Eu não posso lhe contar, e eu jamais poderei. E eu estou disposto a perder tudo o que for necessário para manter a minha honra. Para manter a minha palavra e a minha dignidade.

Quinn só conseguia manter o olhar extático em direção a Chris. Ela abaixou a cabeça e pela primeira vez em meses, deixou as lágrimas escorrerem por seu rosto. Era complicado decifrar o que se passava pela cabeça da mulher, mas havia um misto de emoções. Havia a raiva, a frustração, a angústia, o medo, a ansiedade, o coração partido...

Honra.

Era o que movia o Samurai. E o que movia Quinn Rosetti?

A razão, a doutora pensou na mesma hora. Talvez fosse por isso que ela estava destruída por dentro. Porque pela primeira vez em sua vida ela não tinha uma resposta. Pela primeira em sua vida ela não tinha razão. Não havia explicações razoáveis e racionais para o que estava acontecendo. Não havia fatos, não havia provas. Era completamente ilógico.

E então Quinn entendeu Chris. Ela tivera a razão tirada de si à força, e agora estava em cacos. O Samurai, por sua vez, ainda tinha a sua honra. Ele ainda tinha o valor que o movia. Quinn estava pedindo que ele abdicasse de tudo isso. Abdicasse do seu valor supremo, e perdesse seu rumo. Que ficasse, por fim, em cacos.

Assim como ela.

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— É aqui? — Yohann perguntou, assim que eles chegaram.

Sierra afirmou com um aceno de cabeça. Eles estavam em um enorme galpão com diversos “buracos”. Dentro de cada buraco havia todo tipo de lixo produzido na Colmeia. Eles eram divididos pelo seu material, e os que pudessem ser reciclados, seriam. Não havia qualquer tipo de sala de comando ali, menos ainda pessoas. Aquele local era quase que exclusivamente visitado pelas máquinas que faziam a colheita de lixo. Todos os humanos por trás da coordenação dos trituradores ficavam no centro da Colmeia, não ali.

Cada um dos buracos tinha uma espécie de “hélice” que descia e ia triturando o lixo abaixo de si. O material de que era feito a hélice mudava. Quanto mais simples o lixo, menos complexo era o material que a hélice usava para triturá-lo.

— Você sabe onde o Dallas está? — O doutor Cutler perguntou, andando por entre os buracos.

— Na hélice 13-O. Vai ser fácil achá-lo, ela é a única que possui coloração diferente. Ah! Ali! — A mulher disse, apontando para um buraco azul, diferente da tonalidade acinzentada de todos os outros.

Yohann a seguiu. Sierra olhou para o enorme relógio na parede, e disse em voz alta:

— Nós temos oito minutos.

Ela então olhou para baixo e viu os três pedaços que compunham Dallas. Eles estavam sozinhos no buraco: o robô havia sido o único a ser destruído naquele dia. Na verdade, Sierra acreditava que Dallas havia sido o único robô destruído nos últimos meses. Era raro que eles sofressem acidentes, então a hélice azul pouco trabalhava.

— Eu desço. — Yohann se ofereceu.

Sierra tocou o peito dele de leve. Ela disse:

— Você é muito grande, vai demorar demais. Fica aqui em cima e eu te entrego os pedaços do Dallas para você puxar. Eles são pesados demais. O seu lugar é aqui. Espera.

A doutora desceu. O buraco devia ter cerca de dois metros de profundidade. Sierra então pegou a primeira parte de Dallas e a ergueu com a maior força que conseguiu. Yohann esticou o braço para baixo e a pegou com apenas uma mão, com uma facilidade absurda.

O doutor a colocou delicadamente ao lado de si, e então subitamente olhou para seu relógio.

O horário dele era diferente do horário que marcava o relógio do galpão.

Eles estavam atrasados.

— Sobe, Sierra, rápido! — O homem gritou.

Em vão.

A hélice começou a funcionar no mesmo exato segundo. Sierra gritava de desespero, e Yohann instintivamente estendeu a mão para que a mulher a agarrasse. Foi inútil. O metal passou com força sobre sua mão esquerda e arrancou quatro dedos dela. O homem caiu para trás com o sangue respingando por todos os lados.

Ele apenas ouviu os gritos da doutora Ghosh.

A mulher espremia-se. Sentou no chão e abraçou as pernas, enquanto a hélice continuava a descer.

Praticamente não sentiu seu corpo sendo triturado.

A hélice rapidamente arrancou o topo de sua cabeça, e Sierra morreu aí. Lentamente o metal desceu, sempre girando, e triturou todo o resto do corpo da doutora. Muito sangue e tripas se misturaram com as partes restantes de Dallas. O ferro confundia-se com o rubro, formando uma massa nojenta.

Acima do buraco, o doutor Cutler chorava segurando a mão decepada. Era a sua mão útil, a mão que utilizava para todas as coisas. Chelsea gostara daquela mão, e assim como a garota, ela agora se fora.

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I've been searching for a man

All across Japan

Just to find, to find my samurai

Someone who is strong

But still a little shy

Yes I need, I need my samurai

Ay yi yi I'm your little butterfly

Green, black and blue make the colors in the sky

[…]

(Butterfly – Smile.dk)

Quinn organizava todos os hologramas enquanto tremia. Chris saíra dali para buscar os arquivos restantes em seu dormitório, mas voltaria em poucos minutos. Enquanto isso era tarefa dela organizar tudo o que já fora encontrado.

A mulher sentia-se destruída. Sempre fora a responsável por liderar, por dizer às pessoas o que elas deveriam fazer. Era o seu trabalho, era a sua função, era a sua natureza. Quinn era uma alpha female. Era alguém que dava ordens, não alguém que recebia. Mesmo assim ela estava ali: organizando coisas por uma decisão de Sierra e Chris. Isso está errado. Eu deveria ter ido atrás do Dallas. Eu deveria ter tido à Sierra que ficasse ajudando Chris enquanto eu ia com Yohann. O que está acontecendo comigo?

Foi como se pensar no homem tivesse feito ele se materializar. Assim que Quinn pensou no nome do doutor Cutler, ele abriu a porta e entrou. A mulher estava pronta para perguntar para ele onde estava Sierra, quando viu o rastro de sangue que Yohann deixara por onde passara.

— Doutor... Onde... Oh, sua mão!

O homem segurava um pano completamente vermelho em cima da sua mão esquerda, mas retirou-o com cuidado para mostrá-la à Quinn. A mulher manteve a frieza e correu até um armário, dizendo:

— Nós precisamos estancar esse ferimento, você está perdendo muito sangue...

Mas antes que Quinn pudesse agir, Yohann acertou-a com uma rasteira. A doutora caiu no chão e bateu a cabeça com força. Estava zonza, e a sua visão ficara turva. Quinn tentou se levantar, mas não conseguiu. Cansada, pousou a cabeça no chão delicadamente, torcendo para recuperar suas forças rapidamente.

Foi quando ela distinguiu a silhueta do homem seguindo em direção à cápsula de Natalie.

— Não! — A doutora Rosetti gritou.

Com um pulo Quinn se levantou. Fez isso apenas para cair novamente. Estava fraca. A doutora então tocou a nuca e entendeu o motivo: ela estava sangrando. Quando Yohann lhe deu a rasteira, ela provavelmente caíra em cima de algo pontudo.

Yohann mexia no painel em frente a cápsula com rapidez. Ele era expert em invadir sistemas, e foi fácil acionar os programas responsáveis por Natalie. E então, com um click, ele sentenciou a inteligência artificial à morte.

— Por favor, Yohann... Ela vai morrer... — Quinn gemeu, sentindo a cabeça explodir.

A mulher não conseguiu ver a expressão do homem. Ele parecia completamente focado e frio, alheio a tudo ao seu redor. Nem ele sabia direito o que estava fazendo. Estava delirando de dor, imaginava, mas não se importava. Sabia que estava condenado, e mais do que os outros. Mesmo que eles detivessem a lista, sua mão jamais cresceria de novo. A mão que ele utilizava para tudo. Mesmo que vivesse, Yohann estava quebrado para sempre. Eles poderiam reimplantar seus dedos, se os encontrassem, ou ainda colocarem uma mão robótica. Mas isso seria remediar o irremediável: não havia espaço para um amputado na Colmeia. Yohann era a força bruta dali, era o homem das mãos fortes. Ele era a sua mão. A mão que lhe fora dada ao nascer, e que lhe fora tirada cedo demais.

A cápsula esvaziou-se em segundos, com a água trasbordando e escorrendo pelo chão. Quinn ouviu apenas o baque surdo do corpo de Natalie caindo com delicadeza nos braços de Yohann.

A garota estava com os cabelos pretos ensopados e colados ao rosto. Estava nua. Seu corpo era o de uma garota de quinze anos, esguio e branco. Ali, de olhos fechados e nos braços do doutor Cutler, ninguém jamais identificaria que ela era uma robô. Ela é uma pequena fada...

— Yohann, coloque-a na cápsula. Ainda há esperança... — Quinn falou, sentindo pontadas fortes a cada palavra dita.

O homem não reagiu.

Natalie arfou fortemente, e então morreu.

Quinn só conseguia chorar, caída no chão. Ela tentara levantar por diversas vezes, mas sempre voltava a cair. Foi quando a silhueta de Yohann começou a se aproximar perigosamente dela, que a doutora Rosetti compreendeu o perigo que aquele homem representava. Ele não queria matar apenas Natalie.

Ele também queria matar Quinn.

— Yohann, me escuta, por favor. Você está assustado, eu sei. Todos nós estamos. Eu estou apavorada. Mas você precisa manter a calma...

O doutor Cutler nada respondeu. Ele então pegou uma caneta e começou a brincar com ela, apertando-a e vendo a ponta sair. Foi então que falou, pela primeira vez:

— Eu sempre quis ver de perto como os olhos vazam quando são perfurados.

Quinn não conseguiu conter um grito apavorado. Aos poucos a sua visão deixava de ficar desfocada, mas a dor de cabeça e a falta de equilíbrio persistiam. Era como se alguma coisa dentro de sua cabeça estivesse muito errada.

— Eu não tenho nada a perder, doutora Rosetti. Nada...

E então o homem abaixou-se, e com um movimento rápido, fincou a caneta no olho esquerdo de Quinn Rosetti.

A mulher viu apenas sangue. Era como chorar, só que muito mais dolorido. Havia o vermelho, e havia gritos, e doía mais forte do que jamais doera em toda a sua vida. Quinn desejou morrer ali. Queria gritar para Yohann acabar logo com aquilo, para matá-la de vez. Doía, doía de maneira mais forte do que ela poderia suportar...

E então uma cabeça rolou em direção ao seu colo.

Quinn desmaiou.

O Samurai segurava a katana de maneira displicente, enquanto a cabeça de Yohann rolava pela sala. O corpo do gigante caiu de joelhos, e então bateu no chão com força. Muito sangue jorrava do pescoço do doutor Cutler, e muito sangue jorrava do olho de Quinn.

Chris pegou-a no colo e correu em direção à enfermaria.

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Quinn abriu o olho vagarosamente.

Quem estava à sua frente era uma mulher desconhecida. A doutora não a via bem, então levou a mão diretamente ao olho tapado, procurando esfregá-lo para ver melhor. A enfermeira a impediu no exato momento em que Quinn iria esfregar o tapa-olho.

— Você não vai querer fazer isso, doutora.

Quinn olhou ao seu redor. Ela estava em uma enfermaria. Claro. Era a enfermaria da Colmeia. A doutora Rosetti visitara o lugar poucas vezes, mas lembrava-se de como era. Tentou então se lembrar de como havia ido parar ali.

Quando descobriu, emitiu o grito de horror mais alto que conseguiu.

Agarrou os lençóis ao seu redor e começou a chorar. Doía. As lágrimas escorriam com facilidade. De um lado elas eram transparentes, como deveriam ser. Do outro, porém, escorriam lágrimas de sangue. Quinn chorou até acabarem suas lágrimas, e a enfermeira não a impediu. O lençol aos poucos ficou completamente molhado e rubro.

— Está tudo bem, meu amor. Está tudo bem. — A mulher disse, abraçando Quinn.

A doutora estava inconsolável. Entre soluços, conseguiu perguntar:

— Quanto tempo eu fiquei aqui?

Ao que a enfermeira respondeu prontamente:

— Um mês. Você chegou aqui perdendo muito sangue, e entrou em coma. Havia uma ferida profunda em sua nuca, e havia o ferimento em seu olho. Você não resistiu à dor e desmaiou. E... Acordou agora.

Um mês.

Já faz um mês que Chelsea morreu. Já faz um mês que Boo e Dallas morreram. Já faz um mês que cabeça de Yohann caiu em meu colo.

— Onde estão os doutores Ghosh e Holt? Eu preciso falar com eles imediatamente.

A mulher em frente à Quinn engoliu em seco. Respondeu:

— A doutora Ghosh faleceu há um mês, no mesmo dia em que o doutor Cutler fez isso com a senhora.

— E o doutor Holt? Diga-me que ele está bem! — Quinn falou, quase implorando.

— Está sim. — A enfermeira confirmou. — Ele saiu daqui faz duas horas. O doutor Holt é o responsável por cuidar de você durante doze horas do dia desde o acidente. — E então a mulher suspirou. — Se me dá licença, eu preciso ir. Vou avisar ao seu outro doutor que você acordou. Tente não se mexer muito, tudo bem?

E então a mulher saiu porta a fora.

Quinn esperou apenas que ela fechasse a porta atrás de si para pular da maca. Ela precisava encontrar Chris o mais rápido possível. Se bem o conhecia, ele estaria em seu dormitório, provavelmente meditando ou limpando suas katanas. Eu preciso saber se nós detivemos essa maldita lista...

Dois passos.

Um espelho.

A doutora Rosetti parou, olhando fixamente para o seu reflexo. Estava diferente. A sobrancelha parecia mais grossa, e havia uma olheira imensa em baixo de seu olho. O outro era coberto por um tapa-olho negro que parecia ser feito de couro. Seus cabelos estavam bem penteados, porém; era como se alguém tivesse cuidado deles enquanto ela estava em coma. Ao redor de sua testa estava uma espécie de cordão de cabelo bastante bonito que parecia ter sido feito à mão. Parecia também algo hippie, algo que Sierra usaria, mas a doutora Rosetti gostou.

Quinn ficou tentada a retirar o tapa-olho e observar como estava, mas logo desistiu. Ela ainda não estava emocionalmente estável para isso. Ainda não estava preparada. Apesar de tudo, era racional o suficiente para saber que não gostaria de ter aquele choque. Não sabia se ainda possuía o globo ocular ou se ele fora retirado. E tinha certeza de que não gostaria de descobrir num futuro próximo.

A mulher então sentiu uma vertigem. Segurou com força na maca, e conseguiu recuperar o equilíbrio. Imaginou que não fosse conseguir sair do quarto sem ser percebida, e que se a vissem com certeza a fariam voltar a se deitar. Ela precisava encontrar uma maneira de chegar até Chris sem ser percebida.

Como eu não pensei nisso antes?

Quinn Rosetti era uma das altas funcionárias da Colmeia, chefe de mais de noventa e cinco por cento da colônia. As enfermeiras com certeza não dariam a mínima para o seu cargo, mas isso era diferente com os seguranças que estavam em sua porta. Eles com certeza a temiam, e com certeza a deixariam sair dali.

Dito e feito. Havia apenas um segurança vigiando a porta, e Quinn o conhecia de longa data. Não foi preciso nem mesmo ameaçá-lo: uma conversa rápida e ela era uma mulher livre. Quinn achou melhor assim. Sabia que eles só a vigiavam e a mantinham ali pela sua saúde, mas ela tinha assuntos urgentes a tratar. Assuntos que não poderiam esperar.

Foi fácil descer até o subterrâneo e seguir até o pequeno estacionamento secreto que continha as naves individuais. Havia senhas e códigos a serem digitados, e verificação de voz e de digitais. Mas Quinn Rosetti era uma força imbatível, e possuía todos os requisitos necessários.

Em minutos a nave da doutora seguia até os dormitórios.

O dormitório dos homens ficava em um andar superior. Quinn sempre achara machista que fosse assim, mas nunca questionou. Devia ter sido só uma decisão impensada. Ela era uma mulher, e comandava centena de homens. Não dava para dizer que o machismo imperava.

Parou em frente à porta do dormitório de Chris. Ele possuía uma dualidade interessante: era o maior e o mais velho de todos. Todos os outros dormitórios possuíam metade do tamanho do dormitório do Samurai, mas em compensação possuíam todo tipo de regalia e equipamentos tecnológicos. O do doutor Holt, não. Era grande e velho, quase sem nenhum equipamento. Quinn admirava isso em Chris. O dormitório dela possuía aquele mesmo tamanho, mas era atarracado de dispositivos. Como ele consegue? Desistiu de pensar.

A porta se abriu cinco segundos após ela bater.

Chris estava sem camisa e bastante suado. Em sua mão esquerda havia uma katana, e ele usava apenas uma hakama negra em suas pernas. O Samurai ficou extático por alguns segundos ao ver a doutora. Quando lhe caiu a ficha de que ela havia acordado do coma, o homem a abraçou sem se preocupar com mais nada.

O abraço durou vários segundos. E quando eles se distanciaram, Quinn deu o braço a torcer: envolveu Chris em um beijo apaixonado.

— Então você me perdoa? — Ele perguntou de olhos fechados.

— Sim. — A doutora confirmou, e o beijou com ainda mais intensidade.

Levaram-se alguns minutos até que eles pudessem conversar.

O dormitório de Chris era tipicamente oriental. No chão havia tapetes de palha, e duas das quatro paredes eram cobertas de diferentes tipos de katanas. Todas elas pareciam afiadas e bastante polidas. Era realmente uma coleção e tanto.

Chris trouxe saquê para a doutora e os dois se sentaram no chão. O homem fez uma espécie de ritual para se sentar, o que Quinn não compreendeu. Mesmo assim, ela imitou a maneira como ele estava se portando, e achou que aquilo fosse o suficiente para demonstrar que ela respeitava a cultura dos ancestrais dele.

— Pode me contar tudo o que aconteceu. — A doutora disse, e a sua fala saiu mais como uma ordem do que como um pedido.

O Samurai colocou seu saquê em cima de uma pequena mesinha de madeira e começou:

— A doutora Ghosh morreu no dia do seu acidente. — O homem soltou direto a parte mais impactante. — Ela ficou presa dentro do triturador enquanto tentava resgatar as partes do Dallas. Aparentemente ela era a próxima.

Eu sabia... Eu sabia...

Chris continuou:

— O Yohann perdeu a mão tentando salvá-la. Até hoje eu não sei direito o que aconteceu para ele agir daquela forma... Era como se ele tivesse sido possuído por alguma coisa... Eu acho que ele não é o tipo de pessoa que reage bem a traumas. Ver a morte da minha irmã, e então a de Sierra, e perder a mão... Foi demais pra ele. — Havia pesar na voz do Samurai. Quase como se ele desejasse que as coisas tivessem sido diferentes.

— E porque ele tinha que me fazer isso? Por quê?! — Quinn perguntou, indignada.

O doutor Holt deu como os ombros.

— Eu acho que ele queria te matar. O porquê de ele ter tentado isso de maneira tão cruel eu não sei.

E então houve vento. Quinn tremeu. Não havia por onde estar passando qualquer corrente de ar. O quarto de Chris não possuía ar condicionado. As katanas se mexeram levemente na parede, e a doutora sentiu uma sensação esquisita. Será que isso é um sinal? Um sinal como os desenhos do garoto?

— Eu o matei, então. — Chris confirmou, tirando Quinn de seus devaneios. — Eu arranquei a cabeça dele.

O coração da doutora Rosetti estava disparado. Era como se ela sentisse que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer. Chris continuava a falar:

— Não sei se nós detivemos a lista. Você não sabia a ordem em que Yohann, você e eu morreríamos. A morte dele pode ter destruído a lista, ou pode ter sido mais uma morte programada para acontecer. Eu posso ter sido o nosso salvador, ou apenas mais um ceifador...

E então uma onda de eletricidade percorreu todo o corpo de Quinn, e ela soube que eles não haviam detido a lista.

Chris percebeu a movimentação das katanas e levantou-se em tempo de segurar uma delas antes de cair. Mas a sua reação apenas fez com que as outras caíssem mais rapidamente.

Quinn fechou os olhos.

As katanas caíram ao lado dos seus dois ombros, decepando seus dois braços. O sangue jorrou por todos os lados, e a doutora soltou um berro absurdamente alto. O vermelho dominou o dormitório, e Quinn rapidamente viu-se se afogando em seu próprio sangue. A morte chegara mais rápido do que ela pudera prever.

Chris a segurou por baixo, mas não lhe restava tempo algum. O Samurai ainda tentou erguê-la para buscar ajuda, mas não havia escapatória. Quinn estava morrendo diante de seus olhos. A vida dela esvaía-se em um mar de vermelhidão sem que ele pudesse salvá-la.

O sangue escorria pelo rosto da doutora, pelo seu corpo, pela camisola do hospital. O Samurai só conseguia chorar, e suas lágrimas se misturavam ao sangue que saía em fluxos volumosos de onde antes estiveram os braços da doutora Rosetti.

Quinn morreu em seus braços. De olhos fechados, surpreendentemente em paz.

Chris a colocou delicadamente no chão quando a mulher deu seu último suspiro.

Ele levantou-se de maneira imponente, com o peito nu completamente encharcado de sangue. Os gritos com certeza haviam chamado à atenção das outras pessoas, e eles em breve apareceriam ali. O que ele diria? Não sabia, mas não queria saber. A honra lhe pedia algo maior, algo mais importante que a sua própria vida. Ele falhara em tudo o que se propusera a fazer, e não conseguia imaginar viver com aquela vergonha.

Viver sem o seu amor e sem a sua honra.

O Samurai escolheu a menor katana, a mais leve. Ajoelhou-se no chão e tomou o último gole de seu saquê. Pensou que estava fazendo tudo errado: as roupas não eram adequadas, faltava o banho purificador, faltava o poema. Mas não havia tempo. Seus ancestrais o entenderiam, ele tinha certeza.

Watashi o yurushite.

E então ele fincou a katana do lado esquerdo de sua barriga. Foi uma pontada dolorosa, e algum sangue saiu. Chris não emitiu qualquer ruído de dor. Suspirou.

Puxou a katana até o lado direito de sua barriga, abrindo-a por inteiro. Houve uma dor insuportável, mas antes que o Samurai tivesse tempo de emitir qualquer grito, suas vísceras caíram para fora e o silenciaram para sempre.

Notas finais
O último capítulo deverá sair mais rapidamente. Ele será uma espécie de "coletânea" de epílogos, com o final de todos os personagens. See ya, guys! o/