Premonição 6: Inferno

12 Deus Ex Machina


Notas iniciais
Capítulo 12 está aqui! Reta final, VEM GENTE! Espero que gostem e comentem!

— A doutora poderia começar explicando porque não nos deixou pegar a Bliss. Eu acho que seria um bom começo. — Chris provocou.

Quinn não tinha uma resposta na ponta da língua. Pelo menos não uma que não a fizesse parecer hipócrita. Como vou dizer a eles que eu acreditei na visão da garota? Oh, não.

Mas então eles ouviram o estrondo. Chelsea instintivamente segurou no braço do irmão, enquanto Boo discretamente apertou a mão de Dallas. Yohann não perdeu tempo e correu para fora, para ver o que havia acontecido. Todos os outros fizeram o mesmo, menos Quinn. Ela sabia o que haveria lá fora. Uma espaçonave em chamas, pronta para explodir. Eles estavam seguros dentro da Colmeia, nenhum estilhaço poderia lhes atingir, passar o campo de força. Mas só o pensamento era suficiente para deixar a doutora Rosetti em choque.

Chris foi o primeiro a voltar. Ele olhou diretamente nos olhos de Quinn e murmurou o óbvio:

— Explodiu. A Bliss explodiu.

Chelsea e Sierra apareceram em seguida. Depois foi a vez de Dallas e Boo. Apenas Yohann continuava fora, aparentemente ajudando os cientistas responsáveis pelas espaçonaves a tomar as medidas necessárias.

— Não me diz, Quinn. Não diz. — Boo pediu, quase choramingando.

— É tudo mentira, a senhorita mesmo disse. Premonições e visões não existem. Certo? — Dallas tentou forçar uma linha de raciocínio focada na negação do óbvio. Oh, aí está outra emoção humana que ele aprendeu a emular.

— Quinn. — Chris falou, aproximando-se perigosamente da doutora. — Por que você não nos deixou entrar na espaçonave? Por que você mesma não entrou?

Quinn estava tomada por um turbilhão de emoções. Ela olhava ao seu redor, para aqueles rostos assustados, e sabia exatamente quais eram suas perguntas. E, pior: ela sabia que eles próprios tinham as respostas.

Respostas que se recusavam a aceitar. Negação.

— Não importa. Nada importa. — Quinn murmurou.

E então se sentiu fraca, subitamente tomada por uma vertigem. As coisas ao seu redor giraram, giraram... E Quinn desmaiou. Antes de ficar completamente sem sentidos, sentiu os braços de ferro de Dallas em baixo de si, amparando-a, evitando que ela caísse no chão.

Acordou dentro de seu dormitório. Ao seu lado estava Sierra. A ruiva parecia estar com os olhos inchados, aparentemente de tanto chorar.

— Você está melhor? — A doutora Ghosh perguntou, soluçando um pouco.

— S-Sim... — Quinn respondeu. — Apenas um pouco zonza, mas estou melhor.

Sierra assentiu com a cabeça. Quinn não precisou perguntar nada, pois a cientista já foi lhe dizendo, num tsunami de frases:

— Nós descobrimos tudo sem você. Natalie teve aquela visão, não foi? Foi a minha primeira teoria, quando tive tempo para pensar a respeito. Esse sim era um defeito que eu esperava que houvesse. A formatação usada em Natalie, a formatação criada pelo doutor Holt, ela possui uma imensa falha. Ela permite um elo. Permite que as inteligências artificiais desenvolvam ligações com quaisquer coisas ao seu redor. Por isso é tão comum encontrar robôs na Colmeia que se apegam a um determinado tipo de roupa ou corte de cabelo. Robôs que tem preferências por coisas, formas, cores, pessoas. Eles conseguem experimentar, e eles guardam informações do que foi bom e do que foi ruim. Eles guardam, Quinn. Natalie guardou essa informação. A informação do corpo. De alguma forma aquela história conseguiu desenvolver um elo com ela. As memórias do rapaz tornaram-se parte das memórias de Natalie.

Quinn tentou processar aquelas informações com a maior rapidez que conseguia, a fim de poder reagir em tempo hábil. Concluiu rapidamente que Sierra tinha razão. Dallas mesmo provava aquela teoria. A maneira como ele se ligara à Boo, a maneira como ele tinha plena consciência de que se sentia atraído pelo doutor. Nada além de uma capacidade de guardar informações, de escolher. Mais ainda: de sentir.

— Então é isso? — A doutora Rosetti perguntou. — Natalie teve uma visão? Uma... Premonição? Oh! — Quinn quase disse “oh, Deus”, mas se conteve. Era uma expressão da qual ela não conseguia se desapegar, por mais ateia que fosse.

— É o que parece. — Sierra respondeu, fungando. Naquele momento a doutora Ghosh parecia dez anos mais velha do que realmente era.

Quinn então se levantou da cama. Percebeu que estava nua, mas não se acanhou, a doutora Ghosh era mulher assim como ela. Foi dizendo:

— Nós precisamos nos reunir. Nós precisamos decidir o que faremos a respeito de tudo isso. Todos nós.

Sierra então levantou o braço timidamente, como se temesse fazer qualquer objeção.

— Temo que isso não seja possível. Chelsea e Yohann não estão na Colmeia. Nesse momento os dois estão a caminho de China-7, para conversar com o professor Reuben. Como a senhora tinha ordenado.

A doutora Rosetti sentiu a raiva crescer dentro de si, e disse, sem tentar esconder sua ira:

— Mas isso foi antes! Antes da visão de Natalie! Tudo mudou!

Sierra concordou com um aceno, mas continuou:

— Tudo mudou, sim. Mas ao mesmo tempo, nada mudou. Ainda buscamos explicações, estudos, provas científicas. A diferença é que agora... Temos um prazo. Um prazo de validade.

O mais triste da situação, era que Sierra tinha total razão. Quinn percebeu isso de imediato, e disse:

— Eu entendo o posicionamento de vocês. Ele foi correto. Mas enviar Chelsea... Não, vocês não podiam ter feito isso. Ela era a primeira.

— A primeira? — A doutora Ghosh perguntou.

Quinn então se deu conta de que ela fora a única a presenciar a visão de Natalie. Nenhum dos outros sabia sobre a ordem da lista.

— Oh, não!

E então a mulher correu até seu guarda-roupa e vestiu-se com o primeiro uniforme que viu. Ela precisava ser rápida se queria salvar a vida de Chelsea. O Chris jamais me perdoará se algo acontecer a irmã dele por conta de minha negligência. Jamais. Mas por que Quinn ainda buscava com tanta veemência a aprovação do Samurai? Ela não sabia dizer racionalmente, mas as batidas aceleradas de seu coração pareciam ter a resposta.


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O lugar onde antes estiveram as ruínas de Tulum, ventava como nunca.

Jill continuava desmaiada, nos braços de Marsellus.

O tiro ecoou por vários segundos. Um alerta.

— Vire-se e coloque a garota no chão, em segurança. — Pam falou, com uma voz firme.

O homem fez apenas a primeira parte do que a mulher pedira. Virou-se, mas não colocou Jill no chão. Olhou diretamente nos olhos de Pam e disse:

— Você não tem nada a ver com isso. Vai embora e eu não te machuco.

Pam sentiu uma vontade de rir, mas se controlou. A risada seria nervosa, quase temerosa. Ele não pode me machucar. Esse homem é uma besta em forma de gente, mas eu estou armada. Eu tenho vantagem aqui.

— E o que te faz pensar que você está em condições de fazer ameaças? Eu estou armada, você, não.

— Aí é que você se engana. — Marsellus disse.

E então, num movimento rápido, ele largou o corpo de Jill no chão e investiu contra Pam. A mulher desviou no mesmo instante, e o homem caiu de joelhos no chão. Ela então apertou o gatilho.

Três tiros.

Dois deles acertaram as pedras, e o último passou de raspão pela palma da mão de Marsellus. Em suma, nenhuma das balas o feriu de maneira satisfatória.

— Não tente fazer isso de novo, ou o próximo tiro eu não vou errar!

— Você quer me fazer acreditar que errou de propósito? É sério? — E o homem riu largamente.

Pam respondeu:

— Meu marido era militar. Eu sei usar uma arma.

— Assim esperamos. — O homem completou, já correndo na direção de Pam. A mulher não previu aquele movimento, e não conseguiu apertar o gatilho a tempo.

O golpe corpo a corpo que Marsellus desferiu fez a arma voar da mão de Pam e cair diretamente no abismo onde o homem planejava jogar Jill. O loiro então segurou Pam no chão, sentando-se no peito dela e prendendo seus dois pulsos com suas mãos de ferro.

— E agora? Qual a sua vantagem?

E então Marsellus deu dois socos no rosto de Pam. O primeiro golpe a fez gritar, e um dente voou. No segundo golpe, a mulher desmaiou.

— Vadia! — O homem exclamou, e cuspiu no rosto de Pam.

Marsellus então se levantou, retirando a poeira da roupa. O vento ficou ainda mais forte, e ele sentiu seu topete platinado esvoaçar-se. Havia muita poeira ali, e o homem rapidamente ficou com a visão prejudicada, tendo dificuldades em enxergar a situação com clareza. Mas ele conseguia distinguir claramente o corpo inerte de Jill há poucos metros dali. Ainda com a visão turva, caminhou até a garota.


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O lugar onde René estava era uma parte abandonada do hotel. Marina havia autorizado que o rapaz passeasse pelo resort com a condição de que ele usaria um rastreador. Com a escassez de policiais, aquela era a única solução. A mulher resolvera ir pessoalmente atrás de Jill, e com isso não poderia ficar cuidando do rapaz. O ruivo sentiu-se melancólico. Era quase como se Marina tivesse desistido dele. Pam também. Ambas desapareceram assim que chegou a vez dele, abandonando-a a sua própria sorte. Ele não julgava a oficial, porém: ela estava em busca de Jill, e aquele era um propósito nobre. Já Pam...

Eu me enganei sobre ela. Me enganei. Ela não é uma boa pessoa. Ela é uma bela de uma covarde, isso sim.

Havia uma boa notícia, porém. Sugar estava ali com ele. O sagui o seguira da casa de Marina, e ficara escondido quando ele estava dentro dos quartos do hotel. Mas assim que René saiu para o ar livre, o macaquinho pulou em seu ombro e o seguia desde então. O ruivo ficou um pouco feliz com aquilo. Era uma companhia, afinal de contas. Alguém que não havia desistido dele.

Ao redor de René havia prateleiras e mais prateleiras. Todas cheias de caixas e empoeiradas. A indicação do lado de fora dizia que aquele lugar era destinado a guardar os pertences que as pessoas esqueciam no hotel. Mas parecia que ninguém visitava aquele lugar há anos, e que ele se tornara mais uma espécie de depósito.

Além disso, parecia um local seguro. Mais do que o quarto de hotel, pelo menos. René sabia que a morte encontraria uma maneira de levá-lo não importava o lugar que ele estivesse, mas ali parecia um bom lugar. Inofensivo, na medida do possível. Mas ele não era bobo de dar-se como salvo.

Ajoelhou-se, ainda com Sugar nos ombros, e começou a rezar um trecho da bíblia que havia decorado durante sua estadia na casa de Marina:

— Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro. O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra. Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará. O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita. O sol não te molestará de dia nem a lua de noite. O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.

E então ouviu o baque.

Sugar gritou.

As caixas então começaram a cair com fúria de ambos os lados de René, e o garoto cobriu a cabeça, protegendo-se como podia. Eram caixas e mais caixas de papelão. Algumas leves, algumas pesadas. O sagui pulava uma a uma, enquanto o ruivo só conseguia encolher-se mais e mais.

E então um galão contendo um líquido escuro caiu no chão.

O cheiro foi forte o suficiente para que René reconhecesse do que se tratava.

Gasolina.

Sugar também sentiu o odor, e emitiu um grito ensurdecedor, como se estivesse sendo esganado. Claro, o olfato dele é muito mais sensível que o meu. O rapaz não precisou de mais do que dois segundos para perceber que o lugar todo pegaria fogo em breve. Era óbvio. Por qual outro motivo uma sala cheia de papelão seria embebida em líquido inflamável?

Aconteceu enquanto René procurava uma maneira de sair da sala.

À sua frente havia um “paredão” de quase três metros de caixas e estantes caídas, impossibilitando qualquer tipo de fuga. Atrás do rapaz havia mais caixas também, e atrás delas, uma janela. Pequena, há mais de dois metros de altura, mas uma janela. O rapaz imaginava que conseguiria escapar por ela se fizesse bastante esforço. Tocou o sagui em seu ombro e o empurrou. Sugar entendeu o recado, e correu janela a fora.

— Me ajudem! — O rapaz gritou, enquanto tentava escalar as caixas que davam até a janela. Aquele seria seu plano B. Seu celular, o primeiro recurso que tentara utilizar, estava totalmente sem sinal. Bastante conveniente, dona Morte...

O fogo surgiu de uma maneira que René não percebeu. Imaginava que fossem faíscas da lâmpada do teto, mas não tinha certeza. Era difícil visualizar qualquer coisa naquele lugar. Esse cheiro de gasolina está me sufocando...

Quando o ruivo já estava quase alcançando a janela, ele olhou para o lado e viu o seu pior pesadelo.

Garrafas e mais garrafas de gasolina.

O lugar não iria pegar fogo. Ele iria explodir.


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Marsellus segurava o corpo de Jill de maneira trêmula. O vento era cada vez mais forte, e havia poeira por todos os lados. O homem temia até mesmo a possibilidade de ser empurrado de maneira forçosa para o abismo, tamanha era a força dos ventos.

Isso não vai acontecer. Eu não sou o próximo.

Pam abriu os olhos lentamente. À sua frente a mulher só conseguiu distinguir uma silhueta masculina. O vento ao redor dela deixava impossível de se ver qualquer coisa com clareza. Pam teria sorte se conseguisse sair viva dali, mesmo que Marsellus não a matasse.

Não. Esse furacão pode ser a minha salvação. Sim, oh, sim, ele pode.

A mulher levantou com delicadeza e, como previsto, seu movimento não foi notado por seu algoz. Claro. O barulho dos ventos e da poeira que voava era ensurdecedor, tornando qualquer outro ruído imperceptível. Àquela distância Pam tinha certeza de que conseguiria empurrar Marsellus sem que ele percebesse, mas havia um grande empecilho: Jill. Se ela derrubasse o homem, a garota iria com ele. E a mulher não estava disposta a fazer esse sacrifício.

Pensa Pam, pensa.

O tempo era escasso.

— Ei, Marsellus! — Ela gritou, num ímpeto. Arrependeu-se no exato mesmo segundo. O fator surpresa se foi de maneira tão abrupta quanto surgiu.

O homem virou-se bruscamente, assustado.

— Você não morre mesmo hein?

Pam ignorou o comentário. Disse:

— Você não precisa matá-la. A morte dela não é a única solução. — A mulher teve que praticamente gritar essa frase, já que o barulho ao redor dela era extremamente alto. Era difícil até manter-se de olhos abertos.

Marsellus riu largamente.

— E o que você sugere?

Essa era a pergunta pela qual Pam esperava.

— Mate a mim. Não é a minha vez de morrer. Se você me matar a lista irá ser quebrada. Tudo isso terá um fim. Você estará salvo. Sim, é isso mesmo. Me mate. Me mate e deixe a garota em paz.

Aquela era uma oferta tentadora, mas Marsellus era um lobo velho, ele conseguiria cheirar o blefe de Pam de longe.

— Não, esse não é um bom negócio para mim. Prefiro assim: eu mato você, e em seguida mato a garota. Que me diz?


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As chamas já tomavam conta do depósito. René tapava o rosto como podia com seu moletom, procurando não inalar a fumaça do local. Se ele o fizesse, seria seu fim. Uma morte calma e pacífica, sim, mas uma morte. E René não estava disposto a morrer. Não enquanto não fosse sua hora. Não enquanto não for do propósito do Pai.

O rapaz então alcançou a janela. Ficou dependurado nela, tentando escalá-la e se espremer para fora. As chamas cada vez mais ficavam perigosamente perto dos galões de gasolina. Bastava que apenas uma delas entrasse em contato com o líquido e tudo estaria acabado. Todo o lugar iria pelos ares, René imaginava.

Num pulo rápido, o rapaz conseguiu firmar-se em cima da janela, de cócoras. Ele então esticou as pernas pra fora e, antes que pudesse perceber e tatear com os pés o lugar onde iria cair, escorregou.

A explosão aconteceu em seguida.

O corpo de René caiu do lado de fora do depósito no exato momento em que as chamas atravessaram a janela, fazendo uma imensa labareda lamber os braços, as mãos e parte da nuca do rapaz.

O ruivo caiu no chão com força, e desmaiou.

René sentiu como se já estivesse morto. Ao seu redor havia apenas a escuridão, imensa e infinita. A escuridão vasta, solitária, opressora. Ele estava sozinho ali, na morte, do outro lado. Tinha quase certeza disto.

E então ele viu uma luz no fim do túnel. Começou com um pontinho brilhante, mas a medida que o ruivo corria até ela, passo a passo, a luz tornava-se maior. As pernas de René cansavam, todo seu corpo doía, mas ele corria. Corria tentando alcançar a claridade que cada vez mais se tornava palpável, tocável. Eu quero a luz. É tudo o que eu mais quero...

— Não! — Gritou uma voz masculina na escuridão.

René não a conhecia. Mesmo assim, parou. A voz disse:

— Não vá para lá, por favor. É uma armadilha. Você vai morrer!

Eu já estou morto, René pensou. Mas a voz masculina continuou:

— Abra os olhos! Não corra para a luz! Abra os olhos, René! Você precisa voltar ao início. Tudo o que está acontecendo com você faz parte de um ciclo. O começo é o fim, e o fim é o começo. Tudo está interligado.

O ruivo então se forçou para fazer o que o homem dizia, mas parecia ser um esforço inútil. Ele abria e fechava os olhos, forçando-se a acordar, mas nada acontecia. A escuridão continuava ao seu redor, e a luz parecia tão bela e reconfortante...

Não! A luz é a morte.

E então René gritou:

— Não!

Acordou. Ele estava deitado no chão, de costas, com os membros completamente doloridos. Atrás de si havia muita fumaça saindo da janela do andar superior, e havia alguns gritos ao redor dele. O rapaz supôs que os bombeiros estavam chegando. Voltar ao início. Tudo faz parte de um ciclo. O começo é o fim, e o fim é o começo.

— Jill!

E René correu de maneira desajeitada atrás de sua amada. Ao seu redor, tudo ainda parecia perigoso. As luzes dos postes soltavam faíscas, tudo ao seu redor parecia querer desmoronar ou explodir. O ruivo tinha certeza de que ainda era a sua vez, e tinha certeza de que encontrar Jill seria a sua salvação.


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— Você não precisa carregar uma morte desnecessária em sua consciência. Apenas a minha basta. Deixe a garota em paz!

Marsellus ouvia o discurso de Pam com impaciência. Ele sabia que ela estava querendo distraí-lo, e não estava disposto a lhe dar a oportunidade de derrotá-lo.

— Você quer mesmo morrer? Quer mesmo que eu te mate e deixe a garota viva?

Pam meneou a cabeça positivamente.

— Pois bem, que assim seja. — Marsellus então largou o corpo de Jill no chão de maneira displicente.

E a mulher soube o que deveria fazer.

Mentalmente, toda a sua vida passou num flash. Seus primeiros passos, o sorriso da avó, o abraço firme do avô, a fazenda onde crescera, o vulto que eram seus pais. Eles morreram em uma enchente quando eu era pouco mais que um bebê, a garota lembrou. Mesmo assim, ela os amava muito. Visualizou seu baile de formatura, Adrian, o acidente na choupana que tirara a vida dele, de Wade e de sua amiga Charlene. Seu casamento, o nascimento de Brody, o nascimento e a segunda morte de seu filho Adrian. Ó, meus filhos. Eu os amo tanto...

Talvez fosse por isso que estivesse fazendo aquilo. Porque não podia suportar a ideia de ver Brody morto. Não podia suportar a ideia de perdê-lo. Ele sobreviverá sem mim. Mas eu jamais serei capaz de sobreviver sem ele. Adeus, meu filho. Eu espero que você me perdoe.

E investiu contra Marsellus com força. Não houve nada que o homem pudesse fazer.

Os dois caíram em queda livre, abraçados. Pam não o largaria por nada no mundo. Ela precisava ter certeza de que seu sacrifício seria válido. Ter certeza que Marsellus morreria, e que Brody e René estariam salvos.

A última coisa que a mulher sentiu foi o baque.

A água passou despercebida por ela, já que Pam morreu ao ir de encontro com as rochas.


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Quando René alcançou as ruínas de Tulum, em meio ao mais forte vendaval de sua vida, conseguiu ver apenas um corpo estirado no meio das pedras. Ele não precisou de mais do que dois segundos para reconhecê-lo, e correu em sua direção.

Jill estava ali, inerte e desamparada. Os ventos ficavam cada vez mais fortes, e era difícil para o rapaz até respirar. Mas, estranhamente, tudo ao seu redor parecia menos... Opressor. Quase como se as coisas não lhe oferecessem mais perigo. Não se iluda garoto, ele disse a si mesmo.

René ergueu o corpo de Jill com facilidade, como se tivesse descoberto uma força interior que não sabia que possuía. Carregou-a, lutando contra o vento, até longe das ruínas. Ao seu redor árvores balançavam, e o rapaz percebeu quando um banco de madeira passou voando ao lado de si. Oh, não.

O furacão ainda não havia passado pelas ruínas. O momento seria aquele. O banco voador fora o sinal.

O ruivo correu o mais rápido que pôde com a sua amada em seus braços, sentindo todas as coisas atrás dele voando. Não parou para olhar, mas tinha certeza de que o furacão o estava seguindo, e ele precisava ser mais rápido do que isso. René corria, e corria, e corria. Correu até suas pernas doerem, seus dedos dos pés fazerem bolhas, seu braço enrijecer de dor por estar carregando Jill. Correu por sua vida, pela vida de sua namorada. E então a música ficou clara em sua cabeça.


A felicidade a acertou como um trem nos trilhos



Indo na direção dela, não há pra onde fugir


Ela se escondeu nos cantos, debaixo de camas

Ela matou-o com beijos e com isso ela fugiu

Com cada bolha, ela afundou com seu drink

E jogou para longe em baixo da pia da cozinha


Os dias de cão acabaram



Os dias de cão chegaram ao fim


Os cavalos estão chegando

Então é melhor você correr


Corra rápido por sua mãe, corra rápido por seu pai



Corra por seus filhos, por suas irmãs e irmãos


Deixe todo seu amor e sua saudade para trás

Você não pode levá-los com você, se quiser sobreviver


Então era isso.



Você não pode levá-los com você, se quiser sobreviver.


Então era isso?

A morte estava lhe dando uma... Oportunidade? Parecia fácil. Jill ali, inerte, indefesa. Não haveria consequências se ele causasse a sua morte. O furacão a matou, todos diriam. E ele teria a sua vida para sempre. Parecia tão fácil...

— Faça isso! — Ele ouviu alguém lhe dizer, uma voz feminina. — Ela nunca fez nada de bom por você. Ela é um estorvo. Você vai morrer se levá-la consigo. Você vai morrer René! É isso que você quer?

O rapaz piscou e olhou para os lados. Quem estava do seu lado direito, apoiando-se em seu ombro, era Babe. Vestida de preto, com dois rabos de cavalo cor de cobre e a maquiagem pesada de pin-up. A ruiva suspirou e disse:

— Isso é autodefesa. Você deve acabar com todos que são uma ameaça pra você. E essa garota ameaça a sua vida. Ela é pesada demais. Ela vai te fazer sucumbir ao furacão. Faça isso, René! Você consegue!

— Não ouça ela! — Uma voz masculina disse. — Você é bom, René. É melhor do que isso.

Era o baixinho Aaron. Ele estava do lado esquerdo de René, com a expressão serena e todo coberto de luz. Continuou:

— Jill é o amor da sua vida. Ela esteve com você nos bons e nos maus momentos. Ela te apoiou, ela te deu suporte. Essa garota te ama! E você a ama, eu vejo em seus olhos. Deixe que ela viva. Corra com ela, René. Corra por sua vida, corra pela vida de Jill!

Babe gritou furiosa:

— Seja mau!

Ao que Aaron replicou:

— Seja bom!

— Mau!

— Bom!

— Mau!

— Bom!

— Calem a boca! — René berrou, e em um segundo os dois desapareceram. Ele continuava no meio de um furacão, com Jill em seus braços e objetos voando ao seu redor. O passaporte para a salvação estava ali em suas mãos.

— Dane-se! — Ele exclamou, e correu.

Jill abriu os olhos, ainda em seus braços.

— René?

O rapaz não respondeu. Falar poderia lhe tirar a pouca energia que possuía. E continuou a correr o mais rápido que pôde. Quando não sentiu mais o perigo atrás de si, largou Jill. A garota caiu no chão com um baque surdo, e o rapaz sentiu a dor invadir todo o seu corpo. Olhou para seus braços e entendeu o motivo: eles estavam completamente queimados. Sua nuca também, como ele percebeu rapidamente. Quando René pulou da janela do prédio em chamas, não conseguiu fazer isso antes de se ferir. Havia queimaduras de terceiro grau por toda a extensão de seus braços, nuca e pescoço. Bolhas e mais bolhas, vermelhas, purulentas, a ponto de estourar. Como eu não senti isso doer antes?

Não pôde responder àquela pergunta. A dor era forte demais. Era lancinante. Desmaiou.


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Do outro lado, ele foi a primeira coisa que Pam viu.

Todo coberto de luz. Com os cabelos dourados radiantes e olhos azuis celeste, pronto para acolhê-la.

— Bem-vinda. — Adrian disse.

Pam caminhava relutante.

— Aqui é o céu?

O rapaz sorriu delicadamente.

— Digamos que sim.

E tomou-a pela mão. Pam não ofereceu objeções.

Caminhou de mãos dadas com seu príncipe em direção à paz eterna.


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Natalie não conseguia entender o que estava acontecendo consigo. Era uma máquina, uma inteligência artificial. Não poderia estar tendo aquele tipo de pensamento. Aqueles eram pensamentos humanos. Sentimentos humanos. O medo... Será que ela estava se tornando humana?

Era impossível de saber. Focou-se em tentar se desligar daquele corpo que lhe transmitia as informações. O medo. Aquele corpo morto. Qual era mesmo o seu nome?

Natalie não tinha certeza. Mas imaginava que fosse algo parecido com... Henry? Não, não era isso.

Hank.

Notas finais
Bom, vamos as considerações finais:
Antes que me perguntem: "como Marina não rastreou René?" eu respondo: SIM, ela rastreou! Eu não mostrei no capítulo porque o interessante era o plot de 2013 terminar (por enquanto) com René desmaiando, mas Marina o encontrou em seguida.
Nesse capítulo eu decidi dividir a ação em dois pontos: René tentando escapar da morte, e Pam enfrentando Marsellus. Acho que era os dois pontos-chave, afinal os dois eram os protagonistas dessa história. Melissa teve o "clímax" da ação dela ao salvar Brody no capítulo 10, enquanto o filho de Pam nunca teve um plot de ação planejado. Marina também não foi necessária aqui, e Jill, sim... Serviu apenas para ser a "mocinha indefesa"! Vou inclusive confessar que, nos estágios iniciais de desenvolvimento da fic, quando Jill ainda não tinha nem nome, eu a chamava nos rascunhos de "mocinha indefesa" XD Com o desenvolvimento da fic ela se mostrou ser MUITO mais do que isso, mas o estigma persistiu, porque o propósito dela na fanfic convergia para esse ponto chave: quando o "monstro" (Marsellus) capturava a "princesa" (Jill) e o "cavaleiro" (René) a resgatava. Bastante piegas, mas bastante clássico. E eu decidi que era assim que gostaria de desenvolver o plot final dessa fanfic. E foi assim que sempre planejei a participação de Jill.
Pam... Eu decidi ser ousado dessa vez. Eu NUNCA matava personagens retornantes. Melissa saiu ilesa na 3. Heather saiu ilesa na 5... Dessa vez as coisas PRECISAVAM ser diferentes. Pam precisou fazer um sacrifício máximo... E lá se foi a segunda maior protagonista da minha hexalogia. Espero que entendam a minha decisão em matá-la, de verdade. Responderei melhor isso nas respostas dos reviews :B
O subplot de René podendo matar ou não Jill foi bem brega, eu sei. Mas é também tão clássico! Eu planejei isso desde o começo para ele, só que antes aconteceria mais cedo na fanfiction. E ele já estava salvo naquela hora (a morte de Pam e Marsellus, quando a lista esperava René, deteve tudo), mas não sabia, por isso o dilema. E ah! Como ficou claro desde o capítulo "Espectro", René é fã de Florence + the Machine, por isso inclui Dog Days Are Over nesse capítulo XD
Sim, o corpo não era de René! Não se preocupem, as coisas serão explicadas com mais calma nos próximos capítulos, inclusive o motivo de as memórias de Hank terem feito Natalie ter a visão. Não ficará sem sentido já que planejei desde o começo, prometo!
Próximo capítulo será 100% trama do futuro, assim como o capítulo 14! A trama de 2013 voltará apenas no capítulo final da fanfiction!
Bom, é isso. o