Premonição 4- Viver Não É Uma Opção

2 Capítulo 02-Encurralados Por Nós Mesmos


Notas iniciais
Foi mal pela demora, estou com alguns probleminhas, mas aqui está :)

Cair de uma altura de cinco metros com o resto de um viaduto não era bem a forma de diversão de Dan. Ele podia sentir o vento em seu rosto e quando faltavam poucos centímetros para se chocar contra o chão, acordou assustado, em sua cama.

–O que houve?-Nicole disse deitada ao seu lado.

Havia sido tudo um sonho. Um pesadelo, na verdade.

Dan sentou-se na cama. Ele suava frio. Que horas da madrugada seria?

Sobre os corpos do casal só havia um fino lençol azul, pois fazia calor naquela noite. Um vento refrescante estrava pela janela aberta e balançava a cortina, também azul.

–Só tive um pesadelo... –Dan respondeu passando a mão no rosto-Vou tomar água, já volto.

–Tudo bem...

Ele e a namorada estavam apenas de roupas íntimas. Porque estava calor, claro. Dan saiu do quarto e caminhou pelo corredor, passando pelo quarto de sua tia Lorena e de sua prima Carly. Desceu as escadas, fazendo o menor barulho possível e se dirigiu para a cozinha. Pegou um copo no armário, encheu com água e começou a beber.

–Acordado há essa hora?-uma voz o fez tomar um susto e cuspir a água na pia.

Era sua tia Lorena, uma mulher culta e fina. Tudo que aprendeu sobre ser chique foi com seu antigo trabalho de empregada, no qual ela aprendeu com os patrões os bons modos. Havia virado empresaria após ganhar na justiça uma bolada de grana de um ex-patrão. O motivo, Dan não sabia.

–Tive um pesadelo. –Dan contou-Vim me acalmar um pouco...

–Pesadelo?-tia Lorena repetiu fechando seu roupão rosa por cima da camisola-Parece mais que estava se divertindo com a Nicole...

–O quê?-Dan perguntou abismado. Então ele percebeu que estava apenas de cueca no meio da cozinha, todo suado e tomando água-Não... Eu... Quero dizer... Não é o que você está pensando.

–Relaxa... Você está grandinho... –Lorena disse pegando uma maçã vermelha e brilhante da fruteira-Só não quero que Carly veja isso e pense coisas erradas... Nem Ben...Ah, amanhã é seu passeio na empresa, não?

–É, é sim. –Dan respondeu-Na verdade é hoje, pois já deve ser umas duas da manhã...

–Quatro. –a tia corrigiu.

Dan riu. Sua tia deu uma piscadinha e subiu novamente para seu quarto, comendo sua maçã. O rapaz adorava sua tia. Ela entendia as necessidades de Dan –mesmo que fosse só da imaginação dela que coisas estavam acontecendo- e compreendia que ele tinha criado uma vida própria. Ele não era mais a criança pequena de doze anos atrás que ela resolveu criar apóso pai se matar, depois da morte da mãe de Dan em um acidente.

Quando subiu para o quarto novamente, Dan reparou no corredor. Haviam quatro portas e cada porta era de um quarto. O primeiro da direta era de Carly, uma garotinha de seis anos, filha de Lorena, que dormia no primeiro quarto da esquerda. Já o segundo quarto da direita era de Dan e o segundo quarto da esquerda, de seu irmão Ben.

E no final no corredor, no teto, estava a porta do sótão abominável. A porta era de uma cor marrom escuro, que se destacava na cor clara da parede. Primeiramente para entrar no sótão precisava baixar uma escada dobrável e depois abrir a porta.

Um arrepio percorreu sua espinha após Dan olhar para a porta por mais de três segundos.Ele se dirigiu para seu quarto e quando estava quase entrando, a porta do quarto de Ben abriu.

–Ben, o que está fazendo acordado?-Dan perguntou ao ver o irmão parado na porta do quarto dele.

Ben usava só um calção de pijama tosco com desenhos de patinhos azuis, que ganhara de Carly no seu último aniversário. Perto das costelas do garoto havia uma tatuagem: um dragão. Era bom ser temporária, pois se não fosse, tia Lorena arrancaria sua pele. Primeiro, porque era uma tatuagem, coisa que ela odiava. Segundo, porque ele era menor de idade.

–Sei lá... Tive um sonho estranho... –Ben disse coçando o olho.

–Sonhos estranhos?-Dan perguntou. Eles teriam tido o mesmo sonho? Não, isso seria impossível.

–É... Beeeeeem estranho. –Ben disse-E você, por que ainda tá acordado?

–Tive um pesadelo... –Dan respondeu. Ben não pareceu notar algo de estranho, pois apenas bocejou.

–Bem, boa noite então... –o garoto respondeu, bocejando mais uma vez.

Dan respondeu um “boa noite” e voltou para seu quarto, assim como seu irmão. Nicole já havia adormecido e estava suspirando. O rapaz deitou-se ao seu lado, pensativo.

***

Os raios de sol atravessavam a cortina clara de Lilian e mergulhavam no quarto dela, iluminando-o. Ela havia terminado de se vestir após ter tomado um banho para despertar. Escolhera uma calça jeans, uma camiseta que havia ganhado da irmã e uma jaqueta roxa. As imagens que havia visto em seus sonhos se misturavam com coisas que ela pensava.

Antes de descer a escada que a levava de seu quarto para a sala e a cozinha, olhou para o teto, perto da porta, estava uma escada de madeira dobrável que levava até o sótão da casa. Lilian não prestava atenção nele. Lá em cima só havia coisas velhas como estantes, livros, materiais velhos de construção, etc. Um arrepio percorreu seu corpo e ela decidiu descer para tomar seu café da manhã.

Ao chegar à cozinha, Lilian soltou um gemido de agonia. Acumulados na pia, estavam os pratos, copos e talheres usados por ela no café da manhã, no almoço, no lanche da tarde e no jantar de três dias seguidos –fora os lanchinhos extras de madrugada. Vasculhou os armários e achou um pratinho laranja, onde colocou duas pequenas fatias de bolo de laranja. Encheu meio copo com um suco azedo de limão e sentou-se na e na mesa da cozinha, enquanto via o telejornal da manhã na televisão.

A reportagem que estava passando era sobre um baile especial que teria no hospital de internação da cidade.

–Estamos aqui com o organizador desse belo projeto, o senhor Field. Bom dia. –a repórter cumprimentou um homem elegante, com uma careca brilhante-Senhor, como está indo o projeto?

–Está indo muito bem, obrigado. –o homem mostrando seu sorrido, que era uma dentadura, só para constar-Os pacientes se empenharam muito para ter esse baile e finalmente vão poder desfrutá-lo. Eles estão preparando-o há mais de um mês e daqui dez dias tudo ficará pronto.

–Isso mesmo Kelly –a repórter disse para a âncora do jornal-O baile vai ocorrer daqui a dez dias, mas nós já temos algumas cenas dos preparativos para esse baile que os próprios pacientes fizeram.

Um efeito de imagem ocorreu e então outras imagens apareceram. Várias pacientes vestindo branco arrumavam um salão. Alguns penduravam tecidos coloridos no alto, outros levavam mesas de um lado para outro. Um rapaz com cabelos negros e repicados tomava muito cuidado ao pregar um cartaz na parede.

–É uma ação muito legal –a repórter voltou a cena mostrando seu sorriso falso-Lembrando que todos os preparativos foram comprados com dinheiro obtido por doações. Agora é com você Kelly.

Lilian desligou a televisão. Havia terminado de comer. Colocou o prato, o copo e os talheres na pia, que algum dia iria lavar. Antes de sair da cozinha, ela olhou uma última vez para a televisão e ficou imaginando se um dia iria para um lugar como aquele hospital de internação.

Se continuasse tendo sonhos como aquele, iria parar lá em breve.

***

Tanto o carro como Adrian já estavam prontos para partir a qualquer momento, mas como sempre, Emma ainda estava se arrumando. Ele procurava alguma coisa no rádio, mas nada prestava, então desistiu. Encostou sua cabeça no vidro entreaberto do carro. Uma leve brisa balançava seu cabelo. O loiro ficou pensativo. O sonho que ele tivera com ele próprio e com sua irmã havia sido tão estranho. Representaria alguma coisa?

Adrian esperava que esse “passeio feliz” da empresa animasse sua irmã. Ele não sabia de nada: por que o noivado havia terminado? Por que Emma e seu noivo discutiam tanto ultimamente? Por que o noivo não aparecera mais, nem para pegar o resto de suas coisas?

O som da porta da casa se fechando fez o loiro despertar. Emma estava andando cuidadosamente pela calçada com sua mochila. Ela entrou no carro, com um sorriso no rosto. Um sorriso amigável, porém falso, escondendo certa dor e preocupação.

–Vamos?-Emma perguntou arrumando sua mochila no colo.

–Claro... –Adrian disse ligando o carro e partindo.

O silêncio permaneceu por alguns segundos entre os dois.

–David ainda não deu sinal de vida?-Adrian perguntou se referindo ao ex-noivo da irmã.

–Adrian... Já disse que não quero falar sobre isso. –Emma disse tentando controlando as lágrimas.

–Eu preciso saber o que está chateando você. –Adrian argumentou.

–Você quer saber mesmo o que está me chateando? Você!-Emma retrucou gritando.

–O que? Eu só quero saber o que está acontecendo com a vida da minha irmã!-Adrian retrucou de volta.

–É minha vida, não sua!-Emma argumentou.

O carro acelerava entre as diversas ruas. Talvez o sonho que Adrian teve realmente represente alguma coisa.

–Emma, porque está me tratando como se fosse um vírus?-Adrian perguntou tentando manter a calma, com os olhos na pista.

–Não é você Adrian... –Emma disse. Por um momento ela pareceu frágil como um pequeno cristal.

–Então o que está acontecendo com você?-Adrian perguntou.

–Não é da sua conta!-Emma gritou segurando com força sua mochila, como assim ela ficasse protegida de algo –ou alguém.

–Assim fica difícil eu ajudar... –Adrian disse.

–Ninguém tá pedindo sua ajuda!-Emma gritou novamente.

–Não grita Emma!-Adrian elevou seu tom de voz.

–Não grita você!-Emma gritou, tentando ter sua voz mais alta que a do irmão.

–Não estou gritando!-Adrian gritou e olhou para irmã. Ela tremia, estava mais pálida que o normal e os olhos lacrimejavam.

Adrian respirou fundo.

–Emma... Só estou querendo ajudar... –Adrian disse calmamente.

–Você não pode... –Emma disse com a voz tremendo.

–Por quê?-Adrian perguntou- Emma, pare de ficar fugindo.

–Não estou fugindo!-Emma exclamou virando o rosto para a direção contrária do rosto do irmão, olhando para a paisagem que passava rapidamente pelo vidro.

–Pois parece... –Adrian disse.

Dessa vez, sua irmã não respondeu. Os dois ficaram em silêncio até que o carro estacionou no estacionamento da empresa. O ônibus já estava parado, esperando os funcionários. Emma saiu do carro.

Uma sensação fez Adrian se arrepiar. Algo lhe dizia que essa poderia ser a última vez que ele havia dirigido seu carro... A última vez que ele havia discutido com sua irmã... Pois logo sua vida terminaria.

***

O ônibus verde escuro estava estacionado assim como no sonho de Dan. Só esse fato o fez arrepiar do dedinho do pé a cabeça.

–Espero me divertir muito!-Nicole disse animada enquanto tirava um pouco de cabelo de seu rosto.

–É... Isso é bom... –Dan disse enquanto descartava um pensamento horrível de sua mente.

Uma Ferrari preta e brilhante parou em uma vaga ao lado deles e de lá saiu Evan. Ele era considerado o mais descolado da empresa, sempre com sua jaqueta de couro com desenhos de chamas vermelhas e seus óculos escuros. Já seus cabelos dourados sempre estavam penteados perfeitamente. Assim como no sonho de Dan.

–E aí. –ele cumprimentou o casal com um aceno de cabeça e saiu andando. Então fez os mesmos movimentos que fez no sonho.

–É o Evan que conhecemos. –Nicole comentou, abrindo um sorriso.

–Vamos para o ônibus?-Dan perguntou já indo em direção do veículo, puxando a namorada.

–O quê? Ainda tem tempo para sairmos. –Nicole argumentou. Ela nunca havia visto o namorado assim. Geralmente Dan era um cara tranquilo, mas naquele momento estava tendo um ataque de nervos.

–Acredita em mim, é melhor... –Dan disse e puxou Nicole. Ela cedeu e os dois entraram no ônibus.

O casal acabou sentando no mesmo lugar em que sentaram no sonho de Dan. Will entrou discutindo com sua ex-mulher Gertrude. Após um grito, desligou o celular e sentou em duas cadeiras atrás de Dan e Nicole.

–Will está discutindo novamente com Gertrude?-Nicole debochou.

Fechando os olhos, Dan não respondeu. Em algum lugar mais atrás no ônibus, Larry tentava dar em cima de Lilian. Tentando fugir do ruivo idiota, a mulher havia sentado atrás do casal, olhando para o céu.

Precisamos sair daqui! Precisamos sair daqui!” um instinto vinha à mente de Dan. Por que tudo estava certo, mas parecendo tão errado?

Emma entrou no ônibus. Depois a senhora Terry Lewis, Carrie e então Adrian, que se sentou junto a Lilian. O ônibus começou a andar.

–Ben vai chegar... –Dan disse abrindo os olhos e olhando para Nicole.

–O quê?-Nicole disse franzindo a testa, confusa.

O ônibus parou com alguém batendo em sua porta. Então um garoto de dezesseis anos, bronzeado, com cabelos negros e olhos verdes entrou no ônibus, com um sorriso triunfante no rosto, como se fosse o dono da empresa. O ônibus recomeçou a andar.

–Ben, o que está fazendo aqui?-Nicole perguntou.

–Ah, eu...

–Você foi contratado como modelo da empresa. –Dan disse.

Por um segundo o sorriso de Ben sumiu e ele pareceu confuso. Mas então voltou a sorrir, ignorando o fato de que Dan sabia, sendo que não havia contado a ninguém.

–É, isso aí!-Ben disse. Os irmãos bateram as mãos em comemoração e Nicole parabenizou o garoto, que foi sentar-se no fundo do ônibus.

Dan olhou pela janela do ônibus. Tivera a ideia de furar os pneus com alguma coisa, mas o ônibus já havia partido. Se tudo ocorresse como seu sonho, eles morreriam logo.

***

Nicole nunca tinha visto seu namorado agir daquele jeito, nervoso, como se uma bomba estivesse prestes a explodir a qualquer momento. A última vez que ela o vira muito nervoso foi quando ele apareceu com o zíper da calça aberto no meio da festa de formatura – na qual tinha mais de duzentas pessoas. Mas nem naquela vez ele ficara tão nervoso.

Muitas pessoas poderiam duvidar, mas Nicole conhecia Dan, mas naquele momento estava ficando realmente complicado. Ela percebera isso também na noite passada. De manhã, Nicole havia perguntado para ele se tinha algo de errado. A resposta foi um simples “Nada”. Nicole sabia que não era nada.

Resolveu não insistir na pergunta, não queria ser aquela namorada grudenta. Mas claro que não podia deixar Dan solto, deveria ter um equilíbrio. Nicole se lembrou de quando sua família toda, incluindo vários tios e primos, se encontravam no sítio da família. Enquanto seus oito primos jogavam bola, ela e suas dez primas pintavam as unhas e conversavam sobre relacionamentos. A última reunião foi feita há dois anos. Elas haviam acabado por causa da morte de uma das primas de Nicole. Depois dessa morte, ninguém mais quis se reunir para comemorar, porque além do mais não havia nada para comemorar.

Não sabia por que pensou naquilo, ali e agora, mas quando olhou para o lado e viu Dan de olhos fechados, não pensou em mais nada. Ela sabia o que estava acontecendo. Quando estava tentando ficar calmo, Dan fechava os olhos e parecia até estar dormindo, o que não mostrava para as outras pessoas que ele estava nervoso. Mas isso não colava com Nicole, ela sabia que algo estava errado.

O que estivesse acontecendo, Dan estivesse pensando que conseguiria resolver sozinho. Ele era assim às vezes. Queria ser O Machão, capaz de resolver qualquer tipo de problema. O rapaz era bom ator, disfarçando o nervosismo.

Nicole esticou o pescoço sobre as cadeiras da frente e viu que estavam chegando perto de um viaduto.

Ah, que ótimo! Altura...” ela pensou.

***

Quando abriu os olhos, Dan sentiu um arrepio em sua nuca, que percorreu o resto de seu corpo. Bem em frente do ônibus estava o viaduto. Tudo do jeito como Dan mais ou menos lembrava. O ônibus avançou vários metros e parou no meio do viaduto. A fila, assim como no sonho dele, era enorme, formando um engarrafamento.

–Porque esse demora toda?!-Carrie reclamou enquanto retocava a maquiagem.

Adrian abriu a boca para dar alguma resposta, mas Dan se levantou.

–Temos que sair daqui!-Dan gritou para que todos no ônibus ouvissem. Ele queria causar impacto, e parece que havia conseguido, pois até Carrie parou de se maquiar, o que é um milagre acontecer.

–O que?-Terry perguntou.

–Esse viaduto vai cair... –Dan respondeu e agarrou a mão de Nicole, que se levantou, mesmo estando muito assustada-Vamos sair daqui...

–Ah, qual é Dan? TPM?-Larry perguntou com um sorriso no rosto. Ninguém riu. Todos permaneciam tensos e em silêncio, como se Dan estivesse tendo um ataque. Pensando bem, ele estava tendo um ataque.

O rapaz olhou para o relógio: 08h09min. O acidente começaria em menos de um minuto. Todos se levantaram e deram alguns passos, analisando Dan, menos Carrie.

–Vamos Nicole?... Ben?... –ele olhou para o irmão que correu até eles.

Dan arrastou Nicole e Ben até a porta do ônibus. Adrian e Lilian estavam de pé, esperando... Um sinal? Os dois estavam nervosos.

Quando o Dan, Nicole e Ben estavam quase saindo, Carrie se levantou. Dan pensou que ela fosse começar a reclamar, mas então ela foi até eles e disse:

–Vamos cair fora daqui...

Mulheres são realmente surpreendentes, Dan pensou. Ele, Nicole, Ben e Carrie saíram do ônibus. Adrian, Lilian e Emma estavam perto da porta, hesitando se saíam ou não. Larry se aproximou, tentando cantar Lilian novamente.

–Ele tá drogado né pessoal?-Larry disse com seu sorriso torto.

–Cala a boca!-Lilian gritou em voz alta.

À frente do ônibus, rachaduras começaram a se formar.

–Oh... Droga!-Lilian disse saindo correndo do ônibus junto com Adrian, Emma e Larry. Os outros passageiros que estavam perto das portas também começaram a correr.

Dan corria com os outros desesperadamente tentando salvar suas vidas.

–Droga, aquela merda era séria mesmo?!-Carrie gritou enquanto corria.

–Sim... Peraí, se você duvidava, por que saiu?-Dan disse.

–Não foi por causa do teu ataque, eu já estava vendo rachaduras no viaduto há um bom tempo... Pensei que você fosse um terrorista que ia se aproveitar disso e explodir tudo!-Carrie explicou.

–Sua idiota!-Nicole xingou enquanto tudo tremia.

Os quatro chegaram a um lugar que não tremia. Eles estavam ofegantes, recuperando o fôlego. Lilian, Adrian, Emma e Larry chegaram logo atrás. Adrian suava nervoso. Evan chegou correndo logo atrás e segundos antes de tudo desabar, Will e Terry Lewis chegaram.

Após tudo ir ao chão, todos olharam para Dan com estranhos olhares, como se ele fosse uma aberração da natureza ou um mutante que fugiu de alguma experiência em um laboratório maluco.

Larry, que estava rosa como um porco, se aproximou e fez uma pergunta que não tinha resposta:

–Como você sabia?

***

É claro que Ben gostaria de dizer que o resto da sua manhã foi normal, com pássaros cantando, flores nos parques e um lindo sol iluminando tudo, mas seria mentira. Todos os outros colegas de trabalho –pelo menos os que sobreviveram- tratavam Ben diferente desde o acidente. Nem Evan, seu companheiro que adorava trocar piadas, falou muito com ele.

A única opção que sobrou após tudo o que aconteceu foi ir a uma lanchonete almoçar com Dan e Nicole — após horas acalmando seu irmão, que estava em choque.

Os três chegaram, se sentaram à mesa mais discreta possível e pediram três X-Burger e três refrigerantes. Ben estava evitando tocar no assunto do acidente. Mais uma vez, seu irmão havia sido destaque de alguma coisa. Como sempre: Dan.

Muitas vezes Ben já foi chamado de “o irmão de Dan” ou “o irmãozinho de Dan” ou algo parecido, mas sempre envolvendo O Dan. Por isso, ele aceitou a oferta de emprego como modelo na Destiny Center. Em seu ponto de vista, modelo era um emprego com mais destaque do que de um cara que passa dias fazendo relatórios. E mais divertido também. Mas no fundo, Ben queria ser arquiteto. Achava fascinante as construções que grandes arquitetos fizeram.

Enquanto bebia um gole de seu refrigerante, Ben olhou para o irmão, que visualizava seu X-Burger, hesitando em comer e depois olhou para Nicole, que estranhava o jeito como o pão se encontrava com o hambúrguer. Coisas normais.

–Então, será que a tia Lo –era assim que Ben chamava sua tia Lorena- comprou mais maçãs?

O.K, era uma pergunta besta e Ben não queria saber de maçãs. Mas ele odiava aquele silêncio todo e o único assunto importante era o acidente.

Dan o olhou com seus olhos azuis cinzentos misteriosos.

–É, acho que Carly queria uma torta de maçãs para levar para a escola... –Dan disse, depois deu sua primeira mordida em seu X-Burger.

Duas pessoas entraram na lanchonete e foram até a mesa onde os três estavam.

–Adrian, Lilian, o que fazem aqui?-Nicole perguntou largando seu lanche.

–Precisamos conversar... –Adrian disse.

Os dois sentaram-se nos lugares vagos.

–Olha, se forem me perguntar como eu sabia, perderam tempo, eu não sei. –Dan disse-A única coisa que eu me lembro é de ter tido um sonho essa noite com um acidente... O resto eu não sei...

–Mas nós sabemos... –Lilian disse.

–O que?-Nicole perguntou.

–Nós também tivemos sonhos... Na verdade foram algumas pequenas partes de um acidente. –Adrian disse-Hoje de manhã, antes de sair de casa para o passeio, eu pesquisei sobre sonhos com acidentes...

–E...?-Ben disse. Esse papo o deixava arrepiado.

–Eu achei vários casos de pessoas que tiveram premonições, ou visões, chame como quiser, de que um acidente aconteceria... –Adrian disse-O último foi há três anos, quando uma mulher disse que um navio onde estava acontecendo um jantar de negócios sofreria um acidente...

–E isso aconteceu?-Dan perguntou.

–Sim. Ela tirou de lá um grupo de pessoas, incluindo ela. –Lilian respondeu.

–Você também pesquisou?-Ben perguntou a Lilian.

–Depois que Adrian me contou, eu pesquisei no meu celular rapidamente... –Lilian explicou.

–E você consegue entrar rapidamente na internet do seu celular?-Ben perguntou intrigado. O celular dele demorava séculos só para entrar no Google.

Wii-fi, baby... –Lilian disse.

–Então –Dan cortou o papo interessante-O que aconteceu?

–Bem, o mais estranho é que as pessoas que saíram de lá morreram em acidentes bizarros... –Adrian disse.

–Tipo?-Nicole perguntou.

–Do tipo: portas automáticas de shopping se fecham e matam uma mulher. –Adrian respondeu.

–Que horror!-Nicole disse.

–Vocês estão achando que isso vai acontecer com a gente?-Dan disse tentando pensar na possibilidade.

–Há muitos outros casos, não só um. –Lilian disse-Voo 180, Devil’s Flight, mercado Dead Money... É só pesquisar.

–Você está dizendo que a gente vai morrer?!-Ben disse.

–É... Tecnicamente sim... –Lilian disse.

–Mais que droga... –Ben disse desanimado.

–Tenho que ir pessoal... –Adrian disse olhando no relógio em seu pulso-Preciso ver como Emma está.

–Eu também vou indo, preciso cuidar de algumas coisas... –Lilian disse. Os dois saíram da lanchonete e caminharam em direções opostas.

Nicole estava com cara de quem ia vomitar e Dan olhava paralisado para uma parede, com sua mente encaixando vários pedaços de um quebra-cabeça.

–Pessoal, vocês não acreditam nisso, acreditam?-Ben disse.

Talvez Dan fosse responder, mas Nicole disse que ia vomitar e correu para o banheiro da lanchonete, com a mão na boca.

***

Adrian havia pelo menos tentado avisar Dan. O loiro sentia que algo estava acontecendo. Quando chegou em casa, tudo estava em pleno silêncio. Nenhuma panela cozinhando algo, nenhum som vindo de algum programa de televisão, nada.

Havia apenas um som: alguém chorando.

O som do choro ecoava pela casa, que era tanto de Emma quando de Adrian, mas quando Emma começou seu noivado, o loiro havia deixado o casal à vontade na casa e ido morar num apartamento no centro da cidade.

–Emma? Emma, tá tudo bem?-Adrian perguntou enquanto subia as escadas. Quando chegou ao topo da escada, percebeu que estava embaixo do sótão da casa.

Adrian andou pelo corredor. O choro ia aumentando cada vez mais. Encarando Adrian, no fim do corredor, estava uma porta entre aberta. Essa porta era de um pequeno armário que guardava várias coisas, desde tacos de beisebol a rodas de trator.

O loiro se aproximou e abriu a porta.

Encolhida no canto do armário, cercada de tranqueiras, estava Emma, com os cabelos bagunçados e os olhos irritados de tanto chorar. Lágrimas escorriam pelo seu rosto pálido.

–Emma, o que houve?-Adrian se agachou perto da irmã, que soluçava-Emma! Emma! Está me ouvindo?

Emma abaixou a cabeça e depois voltou a olhar para o irmão.

–Fui eu... –ela disse soluçando.

–Você? O que aconteceu? O que você fez?-Adrian perguntou.

–Foi minha culpa... –Emma disse.

–O que?-Adrian disse. Ele estava muito confuso.

–O acidente no viaduto... Foi minha culpa. –Emma disse enquanto mais lágrimas desciam pelo seu rosto.

Notas finais
Obrigado por ler.