Premonição 4- Viver Não É Uma Opção

1 Capítulo 01-Escombros Sobre Pensamentos


Notas iniciais
Uma nova jornada começa.

O ônibus verde escuro já estava estacionado quando Dan chegou embora ele não houvesse prestado atenção o quão rápido estava ali. Nicole, sua namorada, estava de mãos dadas com ele, enquanto uma leve brisa balançava os cabelos negros, lisos e compridos dela. Seu rosto foi acariciado por Dan.

Espero me divertir muito!-Nicole disse animada enquanto tirava um pouco de cabelo de seu rosto.

Acho bom mesmo... Dan respondeu com um sorriso no canto da boca. Ele então coçou o cabelo raspado em estilo militar, nervosamente, sem saber o porquê.

Esse seria o primeiro passeio dos dois na empresa Destiny Center. A empresa foi reaberta com esse nome após ser fechada há anos, por causa de acidentes. Ela se chamava Pressage Paper.

Dan fez sua formatura, mas não cursou nenhuma faculdade. Nem Nicole, a qual Dan conheceu ainda nos tempos de colegial. Os dois logo se empregaram na empresa Destiny Paper, há três anos, como jovens produtores. Conseguiam subir de nível a cada mês e já estavam no escritório principal da empresa, junto de muitos outros que trabalhavam há anos.

Uma Ferrari preta e brilhante parou em uma vaga ao lado deles e de lá saiu Evan. Ele era considerado o mais descolado da empresa, sempre com sua jaqueta de couro com desenhos de chamas vermelhas e seus óculos escuros. Já seus cabelos dourados sempre estavam penteados perfeitamente.

E aí. ele cumprimentou o casal com um aceno de cabeça e saiu andando. Então parou, limpou algo em sua camiseta regata branca, ajeitou as calças jeans justinhas e voltou a andar, fazendo splash com as botas de couro de vez em quando, ao pisar em uma poça dágua.

É o Evan que conhecemos. Nicole comentou, abrindo um sorriso.

Um homem vestido socialmente, com um pequeno chapéu cobrindo seus cabelos enrolados também passa por eles, falando ao telefone.

...não é minha culpa, Gertrude. Eu falei para você levar aquelas tralhas embora, agora minha casa está cheia de ratos! Ah, não é culpa sua? Eu não quero saber de seus sapatos novos... -ele reclamou ao telefone. Ao ver Dan e Nicole, arrumou seus óculos para miopia, acenou com a mão e continuou andando.

Aquele era Will. Havia entrado na empresa logo que ela reabriu. Era o maior bajulador de pessoas que eram maiores que ele no emprego. Sua mulher, Gertrude, havia se divorciado dele há duas semanas, mas eles ainda discutiam como se fossem casados.

EU NÃO TE DEVO SATISFAÇÃO, GERTRUDE!-Will gritou e desligou o celular, embarcando no ônibus.

Uma brisa fria passou pelo casal, fazendo Dan se arrepiar. Então uma sensação estranha tomou conta do corpo e da mente dele.

O que foi?-Nicole perguntou preocupada, notando o estado do namorado.

Sei lá... Um calafrio. Dan respondeu confuso. Ele arrumou sua jaqueta verde e começou a andar, de mãos dadas com Nicole.

Após passar por uma lata de lixo que dizia: SEJA BONZINHO E RECICLE, uma rápida imagem passou pela mente de Dan: o sótão de sua casa. Porque ele pensou nele? Claro que ele se arrepiava toda vez que passa por ali, não que fosse por medo, era por causa da tristeza que as lembranças nele traziam. Foi nesse sótão que a vida de seu pai havia acabado. E era nesse sótão que Dan nunca mais entrou. A última vez que ele entrou foi há cinco anos, quando tinha quinze anos. Mas foi apenas para pegar um pequeno e antigo brinco que a tia queria e que estava guardado lá.

E Dan ainda tinha pesadelos com aquele sótão.

***

O carro vermelho de Adrian nem havia estacionado direito e sua irmã Emma saiu apressada com sua mochila, gritando com ele. Os dois não haviam parado de discutir um minuto desde que saíram de casa. Ele ainda arrumou seu pequeno topete loiro claro antes de sair do carro, indo atrás da irmã. Adrian era bonito, não que se importasse com isso. Quem se importava com isso eram as assanhadas do escritório, que eram muitas. Elas adoravam os olhos claros dele, assim como os homens adoravam os olhos claros de Emma.

O cabelo quase branco como o do irmão- de Emma voava como serpentes raivosas se contorcendo, enquanto ela caminhava pesadamente. Ainda olhou para sua mão direita, aonde costumava estar a aliança de noivado, que agora já não existia mais nem a aliança, nem o noivado. Uma lágrima ainda tentou escorrer pelo seu rosto, mas ela piscou rapidamente antes que alguém percebesse.

Adrian não sabia muito sobre o motivo da separação de Emma com seu noivo na verdade, ninguém sabia. Ele só chegou à casa da irmã, ouviu gritos, então uma faca voou do quarto do casal e então nove anos de amor foram jogados fora. Isso tudo há quatro dias. Toda vez que Adrian tocava no assunto, começavam a discutir imediatamente. Ele não queria discutir, só queria saber o que estava acontecendo com sua irmã mais nova e ajudar. Será que ele era um péssimo irmão?

Emma caminhou irritada até o ônibus, enquanto verificava algo em sua mochila rosa.

***

Larry, o magrelo ruivo com sardas na cara, entrou no ônibus e sentou-se ao lado de Lilian, no fundo do lado esquerdo do ônibus, com um sorriso malicioso no rosto, que ele fingia que tentava esconder.

Oi. o ruivo cumprimentou, segurando a cadeira da frente, flexionando os braços, para mostrar seus músculos, que não existiam.

Oi. Lilian cumprimentou por educação, mas enojada. Ela odiava esse tipo de homem, que achava que conseguia pegar qualquer mulher se mostrando daquele jeito. Talvez ela tivesse essa opinião pelo que aconteceu com ela no passado, talvez pelo que a vida da irmã ensinou.

Acha que o passeio vai ser legal? Larry perguntou se aproximando três centímetros da mulher.

Só se você morrer! Lilian queria responder.

É... Talvez. ela disse fechando sua jaqueta, para esconder o decote que Larry insistia em olhar.

Larry se achava. Tinha dias que dizia que havia pegado todas na noite anterior. Por isso, não é atoa que o chamam de canalha, cachorro e outros nomes educados.

Já Lilian era chamada por nomes considerados elogios. Quando ela passava, muitos homens pensavam: (os mais desinibidos até falavam) linda, gostosa, maravilhosa. Tudo isso entre assovios e bater de palmas. Mas ela não se achava tudo isso. Fazia o máximo possível para não aparecer. Maquiagem? Nada exuberante ou exagerado, apenas o básico. Academia? Nem pensar, há não ser correr para pegar o ônibus. Tentou até engordar, mas seu metabolismo lutava contra ela.

Ela tinha pele macia, cabelos cor de chocolate que caíam em uma cascata sobre seus ombros, sempre. Olhos azuis intensos, como se estivessem cheios de eletricidade combinavam com sua boca carnuda e brilhante. No seu pulso, sempre está uma pulseira de prata com uma pequena pomba também de prata a única lembrança que ela tinha da mãe.

Sim, ela era bonita. Muito bonita.

A camiseta decotada que Lilian usava por debaixo da jaqueta, por exemplo, era presente da última visita de sua irmã, há um mês. Só estava vestida com ela porque as outras camisetas apresentáveis estavam sujas.

Enquanto Lilian se perdia nos próprios pensamentos, Larry continuava tentando se exibir, levantando a camiseta para fingir que ia coçar a barriga para mostrar o abdômen definido, que ele não tinha, ou fingindo bocejar, dobrando os braços atrás da cabeça para mostrar os bíceps fortes, que ele também não tinha. A única coisa que Lilian podia fazer era revirar os olhos, levantar e sair dali. E foi o que ela fez. Logo encontrou um lugar vazio na terceira cadeira do lado direito do ônibus. Atrás dela Will não parava de digitar mensagens em seu celular. Em sua frente, duas cadeiras vazias com estofamento azul, igual das outras.

***

Já era a quinta vez que Terry Lewis, uma senhora de quarenta e poucos anos, verificava se havia pegado as chaves da garagem. Ela saiu de seu carro, fechou a porta, abriu a sua bolsa e começou a procurar. Sim, tinha pegado as chaves. Não sabia se ser insegura era defeito ou qualidade. Revisava várias e várias vezes sua bolsa antes de chegar a um determinado local para ver se tinha tudo o que precisava. Também viu que tinha trazido seu remédio para tonturas, mas não tomou.

Estava fechando a bolsa quando trombou com Carrie, uma mulher jovem e que seria esbelta, se não usasse tanta maquiagem. Ela sempre andava com um coque na cabeça, prendendo seus cabelos negros, e naquele dia, não era diferente.

Ai me desculpe!-a senhora se desculpou enquanto arrumava a bolsa em seu braço e tirava do rosto seus cabelos castanhos e quase grisalhos.

Não há problema... Carrie disse sorrindo, simpática.

Terry retribuiu o sorriso e saiu andando.

Velha escrota... Carrie murmurou arrumando seu vestido branco e saindo rebolando.

***

Adrian esperava do lado de fora. Emma havia entrado no ônibus já fazia alguns minutos, mas o loiro queria que a irmã esfriasse a cabeça. Esfriasse bastante a cabeça. Ele havia se encostado do lado de fora do ônibus. A tentação de acender um cigarro era bastante forte. Ajudava a relaxar. Ajudava a ficar calmo. Ajuda a morrer. O próprio rapaz se assustou com esse último pensamento, mas a caixa com os cigarros estava tão acessível no bolso de trás de sua calça jeans que quase não tinha opção. Foi quando Carrie se aproximou.

Oi gato... ela disse pousando as mãos no peito do rapaz.

Ahn... Oi. Adrian disse.

Carrie estava dando mole para Adrian há semanas, mas ele por sua vez não manifestou nenhum entusiasmo. Boatos sobre ela percorriam o escritório e comentários nada bondosos também. Comentários do tipo: Carrie é mais rodada que pratinho de micro-ondas ou Quem pegar ela agora vai ser o número centésimo sexto desse mês na lista dela. O pior é que Adrian suspeitava que fosse verdade.

Você está com uma cara péssima! Carrie disse fingindo estar com pena. Ela até podia ser atriz se quisesse. O que foi? Sua irmã está dando chilique novamente?

Como a notícia se espalhou pelo escritório, assim, do nada?! , foi o primeiro pensamento de Adrian. Ele nunca gostou que falassem de Emma. Nos tempos de escola, muitas crianças tiravam sarro dela por ser tão branca e ter cabelos loiros tão claros. Chamavam-na de fantasma, menina-talco ou menina-trigo. Ninguém falava nada para Adrian porque ele sempre foi mais bronzeado. Ter cabelos claros e pele bronzeada? Parecia um surfista.

Mas ele sofria vendo a irmã sofrer. Havia dias que Emma chegava a sua casa chorando, indo direto para o colo da mãe. E Adrian se sentia impotente, fraco, incapacitado. Porque ele não defendia sua irmã? Porque a mãe deles tinha que ir à escola, tomar as dores da filha?

Adrian havia defendido a irmã algumas vezes, quando via as situações acontecendo. Não importasse como fosse. Verbalmente ou fisicamente, ele defendia. Mas sua mãe não via isso como coisa boa. Várias vezes, quando era garoto, apanhava da mãe após a mesma ter que comparecer à escola por maus comportamentos do filho.

E agora, Adrian se sentia fraco novamente, sem saber como ajudar sua irmã, que estava sofrendo, apesar de tentar esconder. Havia algo que ela escondia. Ele tentava ajudar com palavras, mas acabavam discutindo.

Minha irmã tem completamente a noção do que faz. Não dá chiliques ele fez aspas com os dedos- como certas funcionárias loucas.

Ah, muito bom. Carrie disse, não percebendo o fora que havia levado na indireta-Pois saiba que estou para ajudar no que precisar...

Carrie levantou a perna direita e entrelaçou a perna esquerda de Adrian, colocando as mãos em volta do pescoço dele. Logo se endireitou e entrou no ônibus. Ele também resolveu subir, mas antes, pegou a caixa de cigarros.

E jogou na lixeira que estava perto...

***

Realmente Dan só tinha três opções: ou estava ficando com hipotermia, ou o dia programado para estar com trinta graus baixou de temperatura rapidamente ou algo estranho estava acontecendo. A segunda e a terceira eram mais aceitas. A segunda porque ninguém estava com roupas frescas. A terceira porque era o quinto arrepio que ele sentia. Até sentou com Nicole em um banco de madeira embaixo de uma árvore para ver se descansava.

Está ficando frio né?-Dan comentou.

A morena franziu a testa, confusa.

É... Um pouco.

Dan estava prestes a se levantar e ir para o ônibus, quando uma mão pousou em seu ombro. Provavelmente a outra mão pousou no ombro de Nicole, pois ela soltou um gritinho.

Fala pessoas!-um rapaz cumprimentou sorrindo, mostrando seus dentes brancos.

Ben, o que está fazendo aqui?-Dan perguntou vendo o irmão, que aparentava ser o único que estava com calor, vestindo uma camiseta azul e uma calça jeans.

É passeio da empresa. Ben disse, como se isso explicasse tudo.

Dan olhou para Nicole, que parecia tão confusa quando ele.

Sim... Mas o que você está fazendo no passeio da empresa? Dan perguntou.

Ah, não te contei, não?-Ben disse-Me contrataram como modelo da empresa. Sabe... Agora a Destiny Center está entrando para o mundo da moda.

Isso era um insulto ao ego de Dan. Não que fosse o cara mais bonito do planeta, mas contratarem seu irmão de dezesseis anos para ser modelo, enquanto ele estava fazendo relatórios, preso em um escritório? Ben era mais moreno que Dan, com dentes perfeitos, tanto em ordem quanto em branqueamento. Seus olhos verdes intensos já haviam conquistado muitas garotas no colégio, enquanto os azuis de Dan só olhavam. Mas uma pequeninha parte de sua mente estava feliz por Ben. Era o primeiro emprego dele e bem, ele ganharia bem e deixaria de ser folgado.

Bom... Isso é ótimo!-Dan finalmente falou, apertando a mão do irmão e abraçando-o.

Parabéns Ben... Nicole elogiou.

Valeu. Não está na hora de entrarmos no ônibus? Ben disse olhando para o ônibus começando a andar.

Oh, droga!-Dan disse se levantando correndo e começando a correr, junto a Nicole, Ben e a mochila azul dele.

***

Desde que Adrian tinha entrado no ônibus, Emma estava ignorando-o. Estava até caminhando para sentar-se ao lado da irmã, mas ela chamou Larry para lhe fazer companhia. Isso era sinal de extrema ignorância. Então o loiro decidiu sentar-se ao lado de Lilian. Claro que primeiro ele pediu se podia, com cavalheirismo. A colega de trabalho estava meio distraída, olhando para o nada no céu. Então acordou e disse que ele podia.

Passando por um momento difícil?-Lilian perguntou. Ela olhava para Adrian com seus olhos azuis elétricos. Dessa vez ele não sentia como se sua vida e a vida da irmã estivesse sendo exposta, como quando Carrie perguntou.

É. Não sei como ajudar. Adrian disse olhando para os detalhes em vermelho no estofamento azul da cadeira da frente.

Talvez a melhor forma de ajudar é dando espaço... Lilian disse olhando para Adrian e depois para o céu novamente.

O loiro pensou naquelas palavras. Será que era isso que Emma queria? Espaço? Podia ser. Ela havia acabado de terminar o noivado, então podia estar querendo liberdade... Ou carinho. Tudo bem, Adrian não entendia as cabeças das mulheres. E ele achava que nenhum homem entendia.

***

Por sorte, o motorista do ônibus estava de bom humor e parou o veículo quando Dan deu batidas com a mão no vidro da porta. Ben e Nicole chegaram logo atrás dele e os três embarcaram. O casal sentou-se nas cadeiras na frente de Lilian e Adrian, do lado direito do ônibus. Ben resolveu ir para algum lugar no fundo.

Alguns funcionários estavam com bolsas ou mochilas para levar suas roupas para o final de semana alegre da empresa. Outros já tinham levado suas roupas uma semana antes, quando foram ajudar a organizar o lugar onde ficariam hospedados.

O chefe, por exemplo, já estava no local, esperando os funcionários. O nome dele era Oliver Clampton, um homem careca, escroto, com seus quase cinquenta anos e que pedia favores para as funcionárias, assim elas ganhavam aumento ou uma promoção.

Dan percebeu que a viagem ia ser longa e cansativa. Nicole havia encostado a cabeça na cadeira e fechado os olhos, descansando um pouco. O barulho das teclas de alguém provavelmente Will- mandando mensagens no celular era ouvido pelo ônibus inteiro. Ben ria no fundo do ônibus, compartilhando piadas com alguém.

Ao olhar para trás, Dan viu Emma tentando resistir a tentação de espancar Larry, que soltava cantadas e tentava se exibir. Definitivamente ele era estranho. O rapaz ainda se perguntou porque Emma estava sentada junto de Larry, mas desistiu de achar uma resposta.

Ele resolveu encostar a cabeça na cadeira e fechar os olhos.

***

Lilian aceitava ser chamada de antipática. Mas quando aquele rapaz pediu para sentar-se ao seu lado, ela não resistiu. Logo notou que o homem tinha certa beleza, e que se preocupava com a irmã, diferente dos outros homens que ela conheceu, que só queria mulheres por uma noite. Mas logo cortou pensamentos sobre o jeito do rapaz.

E o que tinha dado nela quando resolveu dar palpite sobre o que ele deveria ou não fazer? Lilian não entendia nada de relações. Nem de amorosas, nem de familiares. Ela havia perdido a fé no amor. Para falar a verdade, nunca teve fé no amor, pois não teve tempo de conhecer o que era isso.

Quando o homem chegou, o nome dele era Adrian, pelo que lembrava- ela estava olhando para o nada no céu, lembrando-se de toda sua vida. Demorou um tempo para ver que Adrian estava ao seu lado e logo depois de uma breve conversa, voltou a olhar para o céu. Por quanto tempo não tinha visto o céu durante a sua infância, sua adolescência... Lilian quase chorou, mas acabou se segurando. Ela estava quase hipnotizada olhando o céu e nem viu o tempo passar...

Lilian só voltou para a realidade quando sentiu um tremor.

***

Quando Dan voltou a abrir os olhos, já estavam chegando a um viaduto. O ônibus havia percorrido vários quilômetros. Parecia apenas que havia piscado, mas Dan devia ter dormido. Não teria percorrido tantos quilômetros em um piscar de olhos.

O trânsito estava começando a ficar engarrafado. O ônibus percorreu mais alguns poucos metros, passando por caminhão que carrega carros, por um trator e por outro caminhão, que levava vários objetos de churrascaria. Uma camionete que levava vários objetos de construção quase bate em um carro. Então o ônibus parou, na metade do viaduto.

Não pense que é um viaduto qualquer. É um enorme viaduto. Um suicida amaria se jogar dele. Devia ter uns cinco metros de altura e dez metros de comprimento, com quatro pistas, que agora estavam lotadas de carros. Enquanto em cima estava tudo parado por motivos desconhecidos- em baixo vários veículos passavam tranquilamente.

Dos lados, apenas simbolizando proteção, havia grades de meio metro de cor verde, mas boa parte estava enferrujada. A cada dois metros, postes de iluminação (obviamente desligados) enfeitavam o viaduto. Um poste chamou a atenção de Dan, quando em um movimento rápido soltou várias faíscas. O rapaz teve a impressão de que as faíscas tinham formato a palavra fuja. Na parte de baixo do viaduto, uma placa vermelha escrita PARE estava fincada na grama.

Um motoqueiro costurava entre os outros veículos, mas até para ele era difícil passar.

Porque esse demora toda?!-Carrie reclamou enquanto retocava a maquiagem.

Deve ter alguma obra lá para frente... Adrian disse esticando o pescoço e depois relaxando na cadeira.

Own... Lindo e inteligente!-Carrie disse com uma voz infantil enquanto terminava de repassar um batom rosa choque nos lábios. Adrian revirou os olhos.

Dan olhou para um relógio digital em cima do motorista, que acabara de anunciar a mudança de horário, que agora era 08h10min.

Então ocorreu um tremor. Dan pensou que fosse coisa de sua cabeça, pois começava a ficar maluco, mas olhou para trás e viu que todos estavam espantados. Até Lilian, que olhava hipnoticamente para o céu.

Terremoto?-alguém perguntou do fundo do ônibus.

Mantenham a calma pessoal. -o motorista pediu, virando-se para os passageiros.

Por instinto, Dan levantou de sua cadeira, a tempo de ver o asfalto começar a rachar.

Oh droga!-Dan gritou-Pessoal, vamos sair daqui!

O rapaz agarrou a mão de Nicole e correu para a porta do ônibus, que foi aberta pelo motorista. Lilian, Adrian e Emma foram os segundos a descer. O asfalto rachava cada vez mais e muitos carros davam marcha ré, batendo uns nos outros, o que não ajudava muito.

Quando Dan saiu do ônibus, viu que algumas pessoas tinham perdido a paciência, saído de seus carros e estavam correndo histericamente. O rapaz se lembrou do irmão e virou-se em direção do ônibus, a tempo de o ver descer.

Ben!-Dan chamou-Vamos cair fora daqui!

O garoto correu até o casal e os três começaram percorrer um caminho para fora do viaduto, o que é um pouquinho complicado com veículos fazendo uma zona, partes do asfalto rachando e caindo, além de certo medo tomando conta da pessoa. Um muro de carros bloqueava a passagem. Pelo canto do olho, Dan percebeu que os carros de baixo do viaduto já haviam saído.

Então um grito percorreu o local. Dan virou rapidamente a tempo de ver que boa parte do asfalto em frente ao ônibus caindo, formando um imenso buraco. Will estava perto desse buraco, e uma nova rachadura começou a se formar, que parecia perseguir o homem.

Droga!-ele exclamou tentando correr, mas o pedaço do asfalto em que ele estava caiu, levando-o junto.

Dan correu para a borda do buraco — mesmo correndo o risco de cair junto. Quando estava chegando lá, ouviu vários crecs ossos se quebrando. Ao chegar à borda do buraco, viu Will numa posição estranha. Suas pernas, braços e pés deviam apontar para o lado? Ele soltava um gemido agonizante, pedindo ajuda, mas ninguém ousava ir lá e arriscar morrer ser esmagado.

Will!-Dan gritou. O homem lançou para ele um olhar de misericórdia.

O asfalto sobre os pés de Dan começou a rachar. Nicole percebeu isso e começou a puxar o namorado. O asfalto caiu sobre Will, fazendo uma mancha de sangue no chão. Dan ficou abismado com aquilo, mas precisava correr.

Evan, que estava do lado deles também corre, mas tropeça em uma rachadura perto de um trator, caindo direto em um buraco. Dan olhou para ele e viu que Evan havia caído bem e estava vivo, sem nenhum osso quebrado, por sorte um grande caminhão estava lá em baixo, esquecido, o que amorteceu a queda do rapaz.

Eu tô legal!-Evan disse para Dan sorrindo e fazendo beleza com os polegares.

Dan olhou para o lado e viu que a rachadura aumentara. Logo mais um pedaço do asfalto ia desmoronar e levar o trator junto.

Evan, você tem que sair daí!-Dan disse enquanto Evan recuperava o fôlego, ainda em cima do caminhão.

O que?-Evan perguntou-Não ouvi!

Sai daí!-Dan gritou.

Infelizmente, Evan foi lento demais. O asfalto rachou e caiu, levando o trator junto. Quando Evan viu a cena, pulou do caminhão, mas o trator o atingiu em cheio, fazendo sangue voar para todos os lados.

Vem, Dan, vamos embora. Nicole o puxou.

Enquanto corriam, viram que entre dois carros, Carrie estava caída, provavelmente havia tropeçado, e seu pé estava torcido. Ela reclamava, falando sozinha. Uma pequena explosão ocorre perto dela, lançando uma moto em sua direção.

Carrie, cuidado!-Dan gritou.

O motor da moto atingiu o rosto da mulher, que soltou um grito de horror, mas logo seu corpo ficou imóvel, com seu rosto desfigurado.

Dan pulou um carro e ajudou a namorada e o irmão a passarem. Adrian, Lilian e Emma corriam desesperados, mas acabaram encurralados em uma parede de automóveis. O poste que antes havia soltado faíscas agora balançava perto deles.

Isso não vai dar certo... Ben murmurou ao lado do casal, enquanto corria.

O poste balançou mais e caiu em direção dos três. Dan, Nicole e Ben estavam longe para socorrê-los.

Pessoal! Cuidado!-Ben avisou.

Adrian conseguiu agarrar Emma e pular, mas Lilian ficou no lugar. O poste veio abaixo e a esmagou. Sangue espirrou nos irmãos, que estavam caídos, abismados e desmaiados.

À frente deles, como se estivesse em um campo de verão, a senhora Terry Lewis tentava correr, mas frequentemente tropeçava em alguma rachadura. A visão dela começou a ficar turva, pontos negros dançaram em seus olhos e quando ela percebeu, já estava cambaleando por causa de sua tontura.

Oh... ela conseguiu resmungar enquanto cambaleava em direção da beirada do viaduto.

Senhora Lewis, não!-Nicole gritou e correu até ela, mas foi tarde demais.

O pedaço de asfalto em que Terry estava rachou-se e caiu rapidamente. Ela soltou um grito agudo enquanto caía. De repente, Dan viu que o corpo dela estava pendurado no ar. Ao olhar para sua cabeça, percebeu o que havia acontecido. A senhora havia caído em cima de uma das placas de PARE, que agora atravessava sua testa, com miolos e muito sangue grudados.

Nicole soltou um grito abafado e ficou paralisada, mas Dan e Ben a puxaram e recomeçaram a correr.

O ruivo magrelo e chato de nome Larry estava perto de um caminhão que carregava coisas de churrascaria (inclusive quilos de carne, que tinha seu fedor destacado entre a correria e a gritaria). Um carro ao lado do caminhão explode, fazendo o veículo maior começar a tombar em cima de Larry. Uma das grades de proteção para prender os objetos começa a entrar na pele do homem, que começa a sangrar.

Ah!-Larry solta fechando os olhos e arranhando o asfalto, querendo escapar.

Vários espetos caem sobre a cabeça e o tronco de Larry, fazendo-o parecer um porco espinho. Ele arranha o asfalto por mais alguns segundos, mas para de se mexer, morrendo.

O viaduto começa a tremer mais fortemente. Duas de suas estruturas estavam cheias de rachaduras e agora estavam caindo, levando o viaduto junto. Dan, Nicole e Ben correm o mais rápido que conseguem. Eles se encontram com Adrian e Emma.

Uma parte enferrujada da grade de proteção verde do viaduto se solta e se prende em um carro, que está com combustível vazando. O líquido começa a ir em direção de uma pequena chama.

Vocês tão bem?-Dan perguntou chegando perto de Adrian e Emma, ajudando a levantá-los.

Sim... Ahn... Lilian... Adrian conseguiu dizer olhando para o poste, onde momentos antes, Lilian estava de pé. E viva.

Temos que cair o fora daqui. Emma disse arregalando seus olhos claros.

Os cinco se preparam para correr, quando Emma percebe o rastro de combustível indo em direção do fogo.

Oh... Droga!-ela disse correndo ainda mais.

O rastro atinge a chama. Logo surge uma linha de fogo que faz vários automóveis explodirem. O pedaço da grade de proteção junto com restos do carro onde ele estava encostado- voa com o impulso da explosão, em direção de Emma. O pedaço de metal verde enferrujado atinge o tronco da loira, atravessando-o. Seu corpo ensanguentado cai no chão.

Não! Emma!-Adrian gritou.

O loiro se ajoelhou ao lado do corpo da irmã, chorando.

Emma... ele disse passando carinhosamente a mão em sua cabeça.

Adrian, vem... Vamos embora... Dan o puxava. Podia ser até indelicado de sua parte, mas o viaduto todo tremia e estava caindo cada vez mais. Ele olhou para a parte segura há alguns metros talvez três metros. Pessoas que já estavam seguras na parte que não era suspensa ligavam para ambulância, polícia, bombeiros ou para seus familiares.

Emma... Adrian repetiu e olhou para Dan, com seus olhos claros e tristes.

Adrian se levantou, deu uma última olhada no corpo de Emma e correu junto com os amigos. Eles estavam quase lá.

Um caminhão que transporta carros está do lado de um muro de carros, impedindo a passagem. Só havia um carro em que podia pular por cima, pois os outros estavam amontoados. E esse carro estava do lado do caminhão.

Vamos, estamos quase lá... Ben tentou animar.

O moreno passou por cima do carro. Depois Nicole e Dan. Então Adrian foi passar, ficou em cima do carro e virou-se, olhando Emma pela última vez.

Vamos, Adrian, vamos!-Dan chamou.

O rapaz estava paralisado vendo a irmã. Não havia ajudado ela. Havia fracassado ali e em sua vida toda. Será que Emma havia amado ele?

Mais rachaduras se formam no asfalto. Ninguém havia percebido, mas metade do viaduto já estava ao chão, agora, na forma de escombros. Um novo tremor ocorre e o caminhão começa a tombar em direção de Adrian, que ainda está em cima do carro. Ele se assusta, mas o carro impede o grande veículo de tombar completamente.

O loiro relaxa.

Mas então um dos carros que o caminhão transportava se solta e capota em cima de Adrian, que fica espremido entre os dois carros. Apenas sua cabeça e um de seus braços ficam livres, o que não impede dele morrer. Sua cabeça e seus braços ficam imóveis.

Dan estava desesperado. E suando. Todos ao seu redor estavam morrendo. Apenas sua namorada e seu irmão estavam junto a ele. Então eles voltaram a correr. Tremores e explosões aconteciam cada vez mais.

Os três passaram por uma camionete que levava coisas de construção, que explodiu. Dan continuou a correr, até perceber que um deles não estava ali.

Ben...?-ele chamou. Então se virou.

Lágrimas vieram em seus olhos. Lutando para estar de pé estava Ben, com um cone cheio de sangue atravessando seu peito.

Não... Dan conseguiu dizer. Nicole também viu a cena, mas não sabia o que dizer.

O corpo de Ben caiu e o que sobrava do viaduto começou a desmoronar.

Nicole puxou Dan, que estava em choque, e começou a correr, enquanto o viaduto caía. Agora eles estavam em um espaço que começava a ficar em diagonal, caindo. Nicole corria, puxando Dan. Mais explosões e tremores acontecem. Vários vergalhões são lançados do carro com equipamentos para construção por uma explosão. Seis deles atingem Nicole, que perde as forças e cai.

Nicole!-Dan gritou.

O chão ficou mais um pouco em diagonal. Dan se ajoelhou perto do corpo de Nicole, que agora parecia um porco-espinho. Não havia motivos para ele viver. Sua namorada, seu irmão e seus amigos haviam morrido. Para que ele viveria? Para viver sozinho? A única companhia que teria era a tia e a prima.

Então mais um tremor aconteceu e tudo foi ao chão, incluindo Dan...

Notas finais
Espero que tenham gostado. Logo, logo o capítulo 2.