Notas iniciais
Mais um capítulo! Vou tentar postar o oitavo (que é o antepenúltimo) o mais rápido possível! E ah! Estou desenvolvendo uma quinta fanfiction. Tive muitas ideias, e acho que "Noites De Terror" vai ser apenas o primeiro capítulo da nova trilogia! Mais informações em breve! Enjoy!

Pam acordou indisposta. O galo já havia parado de cantar fazia algumas horas, mas estranhamente sua avó não viera acordá-la. Ela sabe da morte da Sissy. A cidade inteira sabe. Fora um incidente horrível, e era pouco provável que fosse facilmente esquecido.

A garota sentou-se na cama e tentou lembrar-se dos eventos da noite anterior. Havia chorado por quanto tempo nos braços de Charlene? Não tinha certeza. Lembrava-se de estar sentada no banco traseiro do carro de Wade, sendo levada para casa. O elfo havia lhe dado uma carona? Não parecia o tipo de atitude que ele teria. Tragédias mudam as pessoas, Pam. Não se esqueça disso. Foram tragédias que te mudaram.

— Ah, a Bela Adormecida acordou! — A avó de Pam entrou com um sorriso no rosto, panquecas, suco, e uma belíssima flor num copo. Um café da manhã de uma princesa. — Eu fiquei preocupada com você, querida. Sente-se melhor?

— Um pouco. Foi horrível, vó...

— Eu sei, meu amor. Eu sei. — Adele Price disse, e beijou a testa da neta.

A mulher era extremamente gentil, e parecia sorrir até com os olhos. Já tinha mais de sessenta anos, e o tempo cobrava seu preço. A face estava enrugada, e os cabelos cinzentos estavam presos numa metódica trança.

Pam morava com Adele e com seu avô, Eustace. Os pais dela morreram quando a garota tinha três anos, em uma enchente. Lembrava-se vagamente do rosto da mãe e do pai, mas não tinha certeza se a lembrança era correta. Sempre que pensava na figura materna, o rosto da avó vinha à sua mente. Ela é minha avó, e minha mãe, e o meu rochedo.

— Bom, agora coma suas panquecas. Tem um amigo seu aí fora te esperando. Eu falei que não sabia quando você iria acordar, e que deixaria que você dormisse, mas ele disse que iria esperar. Ele está conversando com o seu avô lá na sala.

Adrian.

Aquela foi a palavra de ordem. Pam largou as panquecas, o suco e a flor, e correu para fora do quarto. Ainda usava seu pijama, mas não se importou. Adele tentou interceptá-la, mas foi em vão.

Quando o viu, seu coração despedaçou-se.

Aquele era apenas o fantasma do que um dia fora Adrian, o rapaz que ela amava. Os cabelos loiros pareciam mais pálidos, os olhos azuis não brilhavam como costumavam brilhar. Havia muita dor na expressão facial dele.

— Oh, você acordou! — Eustace disse ao vê-la. — Eu estava mostrando ao seu amigo Adrian as fotos de quando você era pequena.

— Vô! Que... Vergonha!

O velho riu, e Adrian esboçou um leve sorriso.

— Você deveria ter vergonha é de vir recebê-lo de pijamas, garota. Vai se trocar, o Adrian esperou bastante tempo, pode esperar mais alguns minutos.

Pam corou e foi trocar-se. Quando voltou, Adrian estava sozinho na sala. A garota voltou usando uma camiseta regata amarela e um short jeans desbotado.

— Pra onde foram os meus avós?

— Tirar leite de uma cabra ou algo assim.

— Ah. — Pam não viu, mas ficou extremamente vermelha. — Olha, eu sinto muito sobre a Sissy, eu...

Adrian fez uma expressão de “deixa pra lá”.

— Não foi culpa sua. Na verdade não foi culpa nem dos paspalhos que deixaram a tinta ferver. É tudo culpa da lista. Dessa maldita lista.

Pam sentou-se ao lado dele no sofá e pegou em suas mãos. Elas eram quentes, macias e grandes. A garota sonhara com aquele momento desde sempre, embora não naquelas circunstâncias. A namorada dele acabou de morrer, Pam, controle-se. Mas era difícil. Ela o amava, e não queria esconder.

— Nos últimos tempos estava sendo difícil lidar com a Sissy, eu admito. Mas... Mas... Ela sempre foi tão... Perfeita. Claro, não pra você. Eu sei como ela fazia da sua vida um inferno, como era cruel e...

— Qualquer coisa que a Sissy fez comigo em vida, foi apagado quando ela morreu. Eu sinto muito, Adrian. Mesmo. — E então o abraçou, num ímpeto. Sentiu as batidas ritmadas do coração dele junto ao seu, e pensou que poderia morrer naquele momento e estaria satisfeita. Ali, nos braços dele, era um bom lugar para morrer.

Adrian soltou-se do abraço e gaguejou um pouco antes de dizer:

— Desculpa desabafar com você, mas é que... Eu não tenho amigos.

Só podia ser brincadeira dele. Adrian Blanc, o garoto mais popular e desejado da escola... Sem amigos?

— Isso não é verdade. E quanto ao Wade? E a sua irmã? E os caras do time, o seu cunhado...? E aquele Petit?

O rapaz apenas balançou negativamente a cabeça.

— Desses que você citou só a Charlene é minha amiga. Mas porque ela é minha irmã, então é meio que obrigada a me amar. Ela não conta. Eu queria amigos que me amassem por opção, não por obrigação. Mas eu consigo ser tão estúpido, e sempre estragar tudo... — Adrian então sentiu que as lágrimas estavam prestes a vir. Apesar do desabafo, ele não se daria ao luxo de chorar na frente de Pam. Não derrubou sequer uma lágrima.

A garota continuou segurando a mão dele enquanto o rapaz fazia o possível para engolir o choro.

— Desculpa te meter nisso, Pam. De verdade.

— Você não tem culpa de nada, não precisa pedir desculpas.

Não? Então por que eu sinto que preciso?

— Ontem a Charlene salvou o Wade. Ele foi pulado. — Pam disse, de repente.

Um brilho de esperança surgiu nos olhos de Adrian.

— É verdade isso? Jura?

— Juro. Ele iria ser eletrocutado, mas ela puxou-o no último segundo.

— Há esperança. — Adrian murmurou para si mesmo, mas Pam conseguiu ouvir. — Nós ainda temos uma chance. Só precisamos escapar. Escapar até a lista toda ser pulada.

— Mas o Bill disse que isso não nos tira da lista. Ser salvo apenas nos coloca no fim.

— Mas e se todos nós formos salvos?

— Então a lista começa de novo, do primeiro.

— Merda! — Adrian disse, e logo se arrependeu. Ele estava na casa dos avós de Pam, uma garota com a qual não tinha qualquer intimidade.

Pam ficou pensativa. Havia maneira de deter a lista? Bludworth alertara-os para os sinais, e lhes disse que ser pulado não significa estar a salvo. Mas havia algo mais que eles deveriam saber?

— Eu li... — Ela começou, após ter um insight. — A Juliet, do livro que li, salvou-se da lista após sobreviver a uma experiência de quase morte. Ela se afogou, teve uma parada cardíaca e foi ressuscitada. E viveu o suficiente para escrever o livro.

— Então uma ressuscitação funciona, anotado. Mas não podemos nos dar ao luxo de quase morrer, Pam.

Nisso a garota concordava.

— O Bill disse que a morte segue uma ordem.

— A ordem da lista, sim. Mas e daí?

— E daí que só é preciso que essa ordem seja quebrada!

— E como você pretende fazer isso? Se estou conseguindo acompanhar sua linha de raciocínio, alguém teria que morrer fora da ordem. Mas se não é a vez da pessoa, ela não morreria por um acidente. Ela teria que suicidar-se ou... Ser morta. — Adrian engoliu em seco ao pensar nessa possibilidade. Seria ele capaz de matar Wade, Tommy, Pam... Charlene... Só para conseguir escapar da lista? Seria uma vida morta fora de ordem, para salvar a vida de quatro outras. Será que não valeria o sacrifício? Pam... Por Charlene, Wade, Tommy, e ele próprio. Pensar naquilo o arrepiou.

Pam então se lembrou de outra coisa.

— Em um trecho do livro, a Juliet dizia que vida se paga com vida. Que nova vida paga a morte.

— Provavelmente o que ela quer dizer com nova vida se refere a ser afogado e voltar do outro lado. — Adrian presumiu.

— Sim, isso eu sei. Mas é o outro trecho que me intriga, o primeiro. “Vida se paga com vida”. O que será que ela quis dizer com isso?

Por mais que Adrian se esforçasse para desvendar aquela charada, não conseguiu.

x-x-x-x-x

Wade deu tantos socos no saco, que ele rasgou. Uma fenda foi aberta, e por ela agora escorria uma enormidade de areia. A areia deslizava com rapidez, e logo havia apenas uma carcaça vazia. O rapaz então se sentou no chão e começou a esmurrar a própria areia.

Ele sentia a ira crescendo dentro de si, e não sabia a quem culpar.

Ricky estava morto. Nenhum outro conseguiria substituí-lo. A noite anterior servira para provar isso. Quando o sol se põe, não há vela que possa substituí-lo.

Ele próprio estaria morto se Charlene não tivesse salvado-o.

Será que não seria melhor assim?

O pensamento veio à sua mente e recusou-se a sair. Sua vida estava uma droga, definitivamente. Seu pai já sabia de tudo, e provavelmente o resto da cidade também. Se não sabiam, logo saberiam. Charlene havia visto, e por mais que não achasse que ela fosse contar de propósito, podia acabar vazando. E seu pai lhe contara sobre o comentário que fizeram na oficina...

Não há mais saída, Wade concluiu, por fim. Saiu da garagem e correu até o quarto do pai. Era lá que encontraria o que procurava. O que o libertaria de seu martírio.

Já havia passado do meio-dia, e o sol brilhava do lado de fora. Mais uma semana sem aula. A morte de Sissy havia deixado o colégio novamente em luto, e haveria uma nova folga forçada. Wade esperava que para ele aquela folga fosse permanente. A formatura estava logo ali, há alguns dias, e não haveria tempo para reposições.

Na sala, o rádio estava ligado, embora o rapaz não soubesse dizer quem o ligara. Ele conhecia a música, embora não gostasse nem um pouco. Your Song, do Elton John.

It's a little bit funny this feeling inside

I'm not one of those who can easily hide

I don't have much money but boy if I did

I'd buy a big house where we both could live

Subitamente Wade teve saudades de um passado que jamais existiu. Abriu o cofre do pai com facilidade, já que sabia a senha de cabeça. Lá dentro estava o que ele procurava. Uma arma. A arma que o pai mantinha para protegê-los no caso de um assalto. A mesma arma que Wade precisava para realizar o que tanto desejava.

My gift is my song and this one's for you

And you can tell everybody this is your song

Wade trocou de roupa com rapidez. Colocou seu melhor terno. Ajeitou uma belíssima gravata carmesim e se perfumou. Decidiu que pela primeira e última vez arrumaria os cabelos do jeito que a mãe gostava. Passou o gel e penteou-o para o lado. Olhou-se no espelho.

— Mamãe vai gostar.

E então se sentou na cama. Verificou a munição. Quatro balas. Seria mais do que suficiente.

Anyway the thing is what I really mean

Yours are the sweetest eyes I've ever seen

And you can tell everybody this is your song

Apontou a arma para a cabeça. Lágrimas escorriam por seu rosto. Desculpa mamãe... Desculpa pai... Desculpa...

E apertou o gatilho.

x-x-x-x-x

Quando Petit dormia, tinha pesadelos. Quando estava acordado, sua própria realidade era um pesadelo sem fim.

Será que algum dia ele deixaria de se culpar por tudo o que havia acontecido?

Eu fiz o que tinha de fazer para sobreviver, disse a si mesmo. Qualquer pessoa na minha situação teria feito a mesma coisa. Adrian ainda não fez, mas quando o calo dele apertar, ele vai agir da mesma maneira que eu num piscar de olhos. Ah se vai...

Ainda se lembrava da noite em que havia previsto o acidente de táxi. Estava saindo de uma festa com sua namorada Felice, e a melhor amiga dela, Skank. Os três riam e divertiam-se, bebendo vinho e qualquer outra coisa com álcool que encontrassem.

— Que porra foi essa que você deu pra gente fumar Felice?

A namorada de Petit era belíssima. Tinha os cabelos ruivos e compridos, mas desajeitados. Os olhos eram negros, e havia charmosas sardas em seu rosto. Ela sorria pouco, mas quando o fazia era como se o mundo do rapaz se iluminasse.

Skank também era muito bonita. De pele escura e lábios carnudos, tinha cabelos que caiam em grossos cachos castanhos, e usava sempre mais maquiagem do que deveria. Naquela noite havia batom rosa choque em seus lábios, e suas pálpebras estavam pintadas de uma mistura de rosa, roxo e azul.

— Não sei não. — Felice respondeu. — Isso é coisa do Petit.

O rapaz sorriu e soltou uma baforada de fumaça. Abraçou a namorada e lhe deu um demorado beijo.

— Vamos.

Os três entraram no táxi e o veículo seguiu seu caminho.

Foi quando, do nada, um caminhão apareceu na sua frente. O rapaz gritou, e viu quando o táxi bateu no outro veículo com fúria. Felice foi arremessada para frente com força, e seu crânio espatifou-se em diversos pedacinhos. Skank gritou alto, mas não por muito tempo, pois o impacto fez com que ela fosse arremessada para fora do táxi, e a garota caiu com força no asfalto. Petit só teve tempo de respirar pesadamente, e então o veículo explodiu com ele dentro.

Quando acordou, não sabia o que fazer. Tinha certeza que aquilo era efeito da maconha, que estava ficando desmiolado por fumar tanto. Mas e se não fosse? Preferiu pecar por ação que por omissão.

— Não vamos pegar esse táxi. Vamos... Esperar o próximo.

— O próximo? — Skank parecia ofendida. — Mas que porra? Eu quero ir embora hoje.

— Eu esqueci a minha carteira lá dentro. Vamos lá buscar comigo, por favor? — Arriscou.

Skank bufou e Felice assentiu. Os três entraram de volta na boate e Petit só saiu de lá quando ouviu o barulho do impacto do táxi contra o caminhão. Não era a erva. Que porra... E então se sentiu aliviado. Não contara sobre a visão que tivera, nem para Felice, e sentiu-se grato por isso. O que ela pensaria dele? Que era um maluco?

O que Felice pensaria ou não, não tinha e nunca chegou a ter importância. Ela morrera poucos dias depois, esmagada por um suicida que pulara de um prédio de doze andares. Na época Petit pensou no azar das circunstâncias. Mas então aconteceu o acidente no Baja Junkie, e Skank também fora levada pela morte. A segunda. E Adrian... Ele havia previsto algo também. Algo que, embora Petit não tivesse nem noção, presenciou em sua mente por alguns segundos. Eu repeti as mesmas palavras do Adrian. Não sabia os motivos, mas imaginava que estivesse incluído no pacote de maluquices.

E quanto a ele próprio, mantinha-se vivo por conta do que a velha senhora o instruíra a fazer. Mate. Mate alguém, qualquer pessoa. Um mendigo, um vagabundo, um assassino, um assaltante. Mas mate. Só nova vida pode deter a morte. Você não quer ir? Ótimo. Outra pessoa deve ir em seu lugar.

Por que eu não conto isso ao Adrian? Não precisaria dizer que eu testei o método, apenas dizer que o conheço. Poderia mentir que li em algum livro qualquer.

Era arriscado demais. Adrian sabia que ele estivera na lista, e mesmo assim mantinha-se vivo. Se falasse do método, bastaria que o rapaz somasse dois mais dois e descobriria o que ele havia feito. Eu matei alguém inocente. Se eu contar ao Adrian, estarei induzindo-o a fazer o mesmo. Não, eu não posso fazer isso. Ele vai precisar descobrir sozinho. Quem sabe se eu sugerisse que ele se encontrasse com a velha senhora...

Poderia funcionar.

x-x-x-x-x

Ding dong.

Ding dong.

Charlene apertava a campainha da casa de Wade de maneira frenética. Por que diabos ele não vinha atender? A garota certificara-se de que ele estava em casa: fora até a oficina de Cameron Turner e soubera que o elfo estava ali. O pai do rapaz assegura-a disso. Então por que ele não atendia?

— Mas que porra Wade! Abre essa porta!

Desistiu. Estava prestes a voltar para casa quando algo horrível passou por sua cabeça.

E se ela não o tivesse salvado? E se Wade ainda fosse o próximo?

— Merda!

A garota então tentou abrir a porta. Conseguiu, já que ela não estava trancada. Subiu as escadas com rapidez, sem preocupar-se com mais nada.

— Wade? Wade, cadê você?

Foi encontrá-lo na cama, com a arma em mãos.

— Oh meu Deus!

Wade tinha os olhos vermelhos de tanto chorar. Apontou a arma para sua cabeça pela sétima vez e apertou o gatilho. Click. Click. Click. Click.

Na primeira vez Charlene assustou-se, mas logo percebeu que nada acontecia. Wade continuava a tentar disparar contra sua própria cabeça, mas não surtia efeito. A arma está descarregada?

— Eu não consigo. Essa porra... Não... — Wade então ergueu o olhar em direção à Charlene. A garota continuava estupefata, assustada com a atitude dele. Wade estivera tentando se matar ou era apenas encenação?

O rapaz apontou a arma para ela. E então novamente apertou o gatilho.

E, novamente, nada aconteceu. Click.

Wade abaixou a arma e recomeçou a chorar. O coração de Charlene ainda estava parado quando ela sentou-se ao lado dele e retirou a arma de suas mãos. Abriu-a. O que viu ali dentro fez seu coração congelar mais uma vez.

Quatro balas.

— Impossível. Como... Ela não... Funciona...

— Não é a nossa hora. — Wade disse, entre sussurros. — Eu tentei tanto. Atirei, atirei, atirei. Mas não consigo. Você me salvou, a morte me pulou. Não é a minha hora.

— E nem a minha. — Charlene constatou. — De qualquer forma... Por quê, Wade? Por que você queria se matar? Por Deus, eu te salvei ontem!

— Me salvou do que exatamente?

— Da morte!

Wade riu, como se Charlene tivesse lhe contado uma piada.

— Eu preciso é ser salvo da minha vida. — E voltou a chorar, um choro silencioso.

Ele está sem esperanças. Ele precisa de apoio. Pam também precisa. Adrian também precisa... E Tommy. Sobretudo Tommy. É a vez dele de morrer, ele precisa de mais apoio do que todos nós juntos.

Charlene só conseguiu abraçar o rapaz. Ele não se opôs, e a garota manteve-se abraçada a ele durante algum tempo. Lembrou-se então de quando o conheceu, dois anos antes. Ela era apenas uma mocinha de quinze, e o rapaz viera até sua casa com o irmão, para treinarem para entrar no time de futebol do colégio. Ela lembrava-se de achá-lo lindo, e de ficar apaixonada por ele por breves minutos. Ele parecia ser tudo que Charlene sempre quisera, com a aparência doce e gentil e os olhos bondosos.

Mas então ela conheceu-o realmente, e tudo o que pudesse ter chegado a sentir dissolveu-se num mar de repugnância. Wade era cruel, egoísta, mesquinho. E hipócrita. Sobretudo hipócrita.

Vendo-o ali, vulnerável num abraço, Charlene punha-se a pensar se aquele garoto de olhos bondosos que conhecera com quinze anos, estava de volta. E para onde fora o egoísta, cruel e mesquinho? Ele podia ter uma personalidade horrível, mas amava a vida. Onde ele fora parar?

— Sabe, quando eu nasci todos disseram que eu era perfeita. Que não havia nada de errado comigo.

— E não há. — Ele respondeu.

— Eu sei. — Ela sorriu. — Mas demorou muito tempo e esforço para que eu percebesse isso. Eu sempre fui diferente, e sempre soube disso. Mas meus pais me contaram, desde pequena, que isso me fazia especial, única. Não era algo de que eu devesse me envergonhar. Era algo de que eu deveria... Me orgulhar! Era algo que eu deveria celebrar todos os dias da minha vida.

— Do que você tá falando? Eu não to entendendo nada. Você é perfeita. O que de tão errado você via em si mesma?

Charlene sorriu de canto de rosto, e então murmurou:

— Te dou um doce se você adivinhar.

x-x-x-x-x

Petit chegou à casa de Adrian esbaforido. É agora ou nunca.

— Poxa, cara, quanto tempo! À que devo a honra?

O outro respirou fortemente, e então disse:

— Antes de tudo... Sinto muito pela sua namorada. Eu fiquei sabendo sobre o que aconteceu. — Adrian assentiu com a cabeça, agradecendo o gesto do rapaz. Cada vez que mencionavam Sissy, o loiro sentia um nó em sua garganta e uma enorme vontade de chorar. Mas não choraria. Era um homem, e homens não choram. — Mas não é isso que me traz aqui. É que eu... Eu descobri algo.

— Descobriu algo? Sobre a lista?

— Exatamente. Eu sei de alguém que pode ajudá-los.

— Aquele Bludworth tentou nos ajudar, mas ele foi inútil. Você realmente conhece alguém que saiba mais do que ele? Como você pode ter tanta certeza?

O outro rapaz se encostou ao batente da porta, ainda vermelho da corrida.

— Por que ela me ajudou. Eu estou vivo por causa dela. Eu escapei da lista da morte, Adrian.

Notas finais
Capítulo mais "calmo" e sem morte. Vocês devem imaginar quem é a velha que Petit mencionou né? XD Nesse capítulo revelei o segredo de Petit (embora ainda falte saber QUEM ele matou), e no próximo revelarei o de Charlene, finalmente! o See you guys o