Premonição 3: Redenção
7 Jogo Do Contente
Notas iniciais
ps: relembrando: eu adicionei fotos dos personagens das fanfics aqui: http://www.premonicaofanficsource.blogspot.com/ pra quem tiver curiosidade...
"Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo." (Apocalipse 1:3)
Skip dirigia rapidamente, embora desejando jamais chegar a seu destino final. O Centro de Tratamento do Instituto Psiquiátrio de Stonybrook ficava em White Plains, uma cidade próxima à Boston. De carro a viagem duraria cerca de três horas para ir e mais três horas para voltar. Eles já estavam na estrada há mais de duas horas e ao que parecia eles já haviam chegado a White Plains.
— Ainda falta muito? – Kelsey perguntou.
— Mais meia hora. – Skip garantiu.
A garota bufou e apoiou a cabeça no vidro do carro. Enquanto Skip dirigia, Melissa estava sentada ao seu lado no banco do carona mexendo nas coisas do porta-luvas. Morgan, Angel e Kelsey estavam no banco de trás, sendo que a garota e Morgan estavam nas janelas. Angel ia a maior parte da viagem apoiado nos bancos da frente e conversando com o irmão e a outra garota. Foi em uma dessas conversas que o assunto surgiu.
— Institutos de qualquer espécie me dão calafrios. – Skip declarou.
— Por quê? – Melissa perguntou.
— Ah, sei lá. Deve ter a ver com a minha infância.
— Como assim?
O rapaz então sorriu.
— Angel não te contou?
— Contou o que? Eu estou perdida.
Os dois irmãos então riram. Foi Angel quem explicou:
— Quando Skip era criança ele morou num Instituto para crianças órfãs.
— Crianças órfãs? Você não tinha me contado que sua mãe morreu e...
— Mas minha mãe não morreu. Os pais do Skip é que sim.
Melissa fez uma cara de surpresa imensa, enquanto os olhos de Skip brilhavam.
— Nossa família adotou o Skip quando ele tinha seis anos. A história é bem bonita, não sei por que ele não te contou antes.
— Sou toda ouvidos. – A garota declarou triunfante.
Kelsey e Morgan também se puseram a prestar atenção, ao que Skip começou a contar sua história:
— Meus pais biológicos eram fazendeiros. Nós morávamos em uma fazenda imensa, com todo tipo de animais que você possa imaginar. Tinha vaca, boi, galinhas, cabras... Tudo. Eu tenho poucas memórias dessa época, mas são todas calmas e pacíficas. — E tomou fôlego. — Pois bem, um belo dia nós estávamos cuidando do celeiro quando minha irmã derrubou o lampião lá dentro e colocou fogo na estrutura. Meu pai começou a tentar desesperadamente apagar, mas não conseguiu. Ele chamou minha mãe e os dois acabaram se envolvendo no fogo e morreram. Minha irmã e eu escapamos, mas ela acabou morrendo dois anos depois de uma doença que até hoje não sei o motivo. Eu fui para um Instituto e fiquei lá até meus seis anos, quando a família de Angel me adotou.
Melissa estava consternada com a história. O modo como Angel e Skip tratavam um ao outro, o carinho e parceria que tinham, eram como de irmãos de sangue. Era como ela e Bobby. Jamais, em um milhão de anos, passaria pela cabeça dela que eles não eram biologicamente parentes.
— Você nunca reparou na gente? Olha só: temos a mesma idade. Isso só seria explicado se fossemos gêmeos, e não somos. Além disso, somos muito diferentes. Eu não tenho os olhos azuis dele... – Angel disse, em tom de falsa inveja.
O grupo riu.
— Irmãos adotivos... Quem diria... – Kelsey completou.
x-x-x-x-x
Heather havia ficado curiosa com o que Skip dissera a respeito da morte de Chase ter relação com a visão de Kelsey. Desde a visita do garoto a ideia não saía de sua cabeça, mas mesmo assim ela continuava remoendo-a. Foi então que resolveu apelar para a solução óbvia: uma busca na internet.
Vinte minutos e ela colhera uma grande quantidade de informações e nomes diversos. Alex Browning, Kimberly Corman, Wendy Christensen, Nick O’Bannon, Sam Lawton, Bobby Scott Davies… Eram nomes que se repetiam como pessoas que supostamente haviam tido visões de acidentes que acabaram por ocorrer. Como coincidência, todas estavam mortas. Com exceção de uma delas, Kimberly. A garota estava internada em uma clínica psiquiátrica, traumatizada. Seria loucura visitá-la? Talvez.
— Kimberly, Kimberly, Kimberly... Qual é o seu segredo...
x-x-x-x-x
O Instituto era um local terrivelmente depressivo. Qualquer pessoa que estivesse minimamente de bem com a vida e aparecesse por lá, perderia qualquer razão de viver. Era um local escuro, úmido e com uma neblina espessa. De longe parecia um casarão abandonado no meio de uma clareira. Já de perto se podia perceber a rústica arquitetura otoniana e o clima galado do lugar. Chovia uma garoa fina, coisa que incomodou a todos, já que eles não estavam acostumados.
— Podiam ter me dito que White Plains era tão chuvoso. – Kelsey reclamou.
Melissa sorriu. O grupo então subiu a longa fileira de escadas em direção à recepção do local. Morgan já havia telefonado e avisara que o grupo estava a caminho. Ele mentira que era primo de Kimberly, e, surpreendentemente, convenceu. A enfermeira falara com a garota e ela dissera que gostaria de ver o tal primo chamado Morgan. O plano fora idiota, mas funcionara: ou Kimberly realmente tinha um primo chamado Morgan, ou estava disposta a encontrar-se com o tal misterioso e mentiroso rapaz. Qualquer uma das hipóteses, eles já estavam ali.
— Viemos ver Kimberly Corman. – Morgan disse, na recepção.
A enfermeira olhou os nomes no computador, e disse:
— Vocês cinco? – Ela perguntou, espantada.
O rapaz mexeu a cabeça positivamente.
— Só se forem em turnos. A paciente disse que não quer receber mais de duas pessoas.
O grupo entreolhou-se, ao fim do que Angel disse:
— Eu e o Skip ficamos. Vocês três decidam quem vai.
Kelsey prontamente se manifestou:
— Eu prefiro ficar o mais longe que puder dessa merda toda. – E tapou a boca, percebendo o linguajar fulo que usara.
— Mas você precisa ir, Kel! Foi você quem... – E Melissa não terminou a frase, com medo de pensarem que ela era louca.
— Eu não me importo. Vá você, por favor!
Melissa ainda tentou persuadir à amiga, mas foi em vão. Quando se deu conta já estava em um corredor apertado entregando todos seus pertences perigosos para a enfermeira. Não foi necessária explicação do motivo, a loira imaginara que Kimberly estivesse em pânico com medo de qualquer coisa que pudesse causar seu acidente fatal. Era natural.
Quando a mulher apresentou-os a porta do quarto onde Kimberly estava e se afastou, Melissa sentiu um arrepio inexplicável. Uma onda de eletricidade percorreu todo seu corpo e por alguns segundos ela congelou.
— Você está bem? – Morgan perguntou, tocando o ombro da garota.
— Aham. – Melissa disse.
E abriu a porta que a separava de Kimberly. O que viu foi muito menos assustador do imaginara.
Kimberly era bela. Seu rosto era exatamente igual ao da fotografia que Melissa vira de quase dez anos atrás. Os olhos eram de um azul penetrante, tal quais os olhos de Skip. Quer dizer, Melissa imaginava, já que Kimberly parecia não conseguir manter seus olhos fixo em apenas um ponto. Seus olhos pareciam querer estar atentos a todas as coisas ao mesmo tempo, como uma paranóia.
— Morgan, certo? E você, quem é?
Melissa congelou quando a garota se dirigiu a ela.
— Melissa.
Kimberly não esboçou reação. Disse:
— Se karma existe, vocês estão aqui pra saber como lidar com a lista, certo?
A loira mexeu a cabeça afirmativamente, logo em seguida perguntando:
— Mas por que karma?
A morena não titubeou em responder:
— Eu já vi essa exata cena acontecer, nesse exato local. E não foi nenhuma visão, não. Naquela ocasião eu estava na posição de vocês, querendo saber como diabos eu poderia deter a lista.
— E a quem você pediu ajuda nessa ocasião, Kimberly?! Talvez essa pessoa possa nos ajudar.
Kimberly riu sarcasticamente.
— Não, ela não pode. Foi Clear Rivers, e ela morreu dias após eu tê-la convencido a sair desse lugar.
Morgan engoliu em seco. O nome Clear era frequente nos artigos que ele lera sobre visões. A garota estivera envolvida em pelo menos duas dessas ocasiões. Uma delas aparentemente com Kimberly.
— Mas, Kimberly... Você... Sobreviveu. Por anos.
— Haha, pois é. É fácil quando se tem alguém que irá morrer antes de você. É como um alarme. Se algo acontecesse com o Thomas, eu sabia que iria acontecer comigo. É só que... Eu jamais esperava que algo fosse realmente acontecer, sabe? Nós vencemos a morte. Nós quebramos a lista. Não faz sentido...
Melissa ficou alguns segundos em silêncio, pensativa:
— Como? – Foi o que perguntou.
Kimberly tomou fôlego e começou a contar:
— Eu tive uma visão do que deveria fazer. Era a vez de o Thomas morrer, e eu precisava impedir isso, quebrar a lista. Eu deveria morrer para que isso acontecesse.
A frase de Kimberly trouxe flashes à cabeça de Melissa, todos relacionados à morte de Bobby.
— E eu fiz. Joguei a van em que estava dentro de um lago. Eu desmaiei e, quando acordei, descobri que havia tido uma parada cardíaca. De alguma forma eu havia “morrido” num momento em que eu não deveria. Eu havia quebrado a lista. Pelo menos era o que eu achava... – E a garota murmurou algo, ensimesmada.
— Mas você venceu a lista, Kimberly! – Um brilho estranho apareceu nos olhos de Morgan.
— Como assim?
— Olhe, eu pesquisei. — E Morgan retirou alguns papéis amassados do bolso de seu jeans. — As pessoas que acharam que tinham detido a lista e na verdade não o fizeram, morreram no máximo dias depois. Nunca semanas, meses e mais extraordinário ainda, anos! Não existe maneira de a morte esperar por tanto tempo, a não ser que você esteja trancada numa cela como esta... — E o rapaz olhou ao seu redor. — Dez anos, aí fora, com acidentes podendo ocorrer a qualquer momento. E Thomas morreu depois de todo esse tempo! Simplesmente não faz sentido.
— Mas foi o que aconteceu! – Kimberly gritou nervosa.
— Escuta Kimberly. — E Morgan se aproximou da garota. — Thomas Burke morreu porque ele entrou mais uma vez na lista. A lista do engavetamento vocês detiveram sim. Você está salva. Se algo te acontecer e você morrer, não vai existir relação com o engavetamento. Essa página está virada na sua vida!
Morgan terminou sua frase já bastante alterado. Ele não parecia bravo, raivoso ou algo do gênero. Apenas morbidamente entusiasmado com cada coisa que dizia. Melissa assustou-se um pouco, enquanto Kimberly parecia absorta em pensamentos.
— Foi você quem teve a visão? – Kimberly perguntou, ignorando toda a fala de Morgan.
Melissa mexeu a cabeça negativamente.
— Bom, acho que o aviso serve pra você também, de qualquer forma. Fique atenta aos sinais. Coisas agourentas ou estranhas, que não deveriam estar ali. Esses sinais podem ser indicadores cruciais que permita a vocês viverem por mais tempo.
E não disse mais nada. Virou-se de costas e pôs-se a olhar a parede branca acolchoada.
— De qualquer forma obrigada, Kimberly. E... Pense no que o Morgan disse.
A morena virou-se e olhou para Melissa com ternura. O casal saiu e Kimberly ficou mais uma vez sozinha consigo mesma. Será que os dois tinham razão? Será que a causa da morte de Thomas fora natural e ela estava sendo paranóica sem motivo algum? As chances eram grandes. A grande pergunta era: ela estaria disposta a arriscar?
Kimberly apertou o interfone do quarto, dizendo:
— Dra. Block? Eu estou disposta a abrir mão da minha internação voluntária.
E sentou-se, arrasada. Aquela podia ser a sua sentença de morte.
x-x-x-x-x
Angel, Skip e Kelsey estavam sentados na sala de espera quando Angel soltou:
— Sabiam que eu fui o responsável pela morte da Cassie?
Imediatamente Skip e Kelsey olharam para o rapaz.
— Como assim?! – Skip perguntou, chocado.
— Eu estava nervoso e joguei a bíblia dela em direção ao crucifixo. Foi isso que o fez cair e esmagar a Cassie.
E abaixou a cabeça. Kelsey e Skip não souberam o que dizer. Quando o rapaz pensou em se manifestar, foi interrompido por Morgan e Melissa que voltavam. A garota mantinha uma expressão indiferente, enquanto Morgan parecia bastante eufórico.
— E então, como foi?
— Não ajudou em nada. Vamos embora. – Melissa pediu frustrada.
x-x-x-x-x
Melissa ia encostada no vidro do carro, bastante desapontada. A conversa com Kimberly fora muito aquém do que ela esperava. A loira imaginava que ela fosse lhe dar conselhos reais e práticos de como enfrentar a lista, mas não fora isso que ocorrera. De certa forma ela esperava que Kimberly fosse como seu amigo Bill.
O motivo pelo qual ela não pedira a ajuda do velho amigo era bastante obscuro. Da última vez em que eles haviam se visto (na ocasião em que Melissa conheceu Kaleb e Mia) não tiveram tempo para conversar a fundo sobre nada. Depois disso Bill simplesmente desaparecera. A garota tentou de todas as formas contatá-lo, mas não havia jeito. Ligara para os pais e pedira que os dois o visitassem na escola e dissessem que Melissa gostaria de vê-lo, mas a resposta foi bastante desapontadora. O diretor da escola informou que William Bludworth havia pedido demissão há alguns dias, e de que não fazia ideia de seu paradeiro.
Pensando com mais clareza, era óbvio que com Bill ao seu lado Melissa teria mais forças. Afinal ele era como uma rocha, uma fortaleza. Não havia como se quebrar o tendo por perto. Talvez ele fosse a estabilidade emocional que Melissa procurava desde a partida de Bobby. Um irmão mais velho com o qual pudesse contar e que estivesse disposto a protegê-la apesar de tudo.
x-x-x-x-x
Quando o grupo chegou à escola, foram pegos de surpresa por várias notícias. A primeira (e mais importante delas) era de que as aulas haviam sido canceladas pelos próximos dois meses. Os alunos que moravam nos arredores ou mesmo em cidades vizinhas, eram aconselhados a irem para suas casas passarem férias forçadas com seus pais. O incêndio na Kappa Tau Gamma e a morte de Cassie foram a gota d’água para a universidade. Não havia jeito de eles manterem o local aberto.
O diretor Eddowes e a mídia estavam em polvorosa. Ele a cada dia ficava mais careca com a quantidade de tragédias seguidas que acometiam o local. Mal havia acabado de esclarecer a morte de Chase e Trip, e mais duas garotas haviam sido mortas em uma só noite. Tudo isso após um massacre tristemente memorável na história do país! Não havia solução senão cancelar as aulas.
Apesar de esclarecer que a medida era provisória e que as aulas voltariam em breve, era difícil dizer. O tempo de dois meses que ele anunciara ao grande público, nos bastidores, já havia dobrado. Extra oficialmente seriam quatro meses de folga até a situação se normalizar. Muitos alunos estavam revoltados e pedidos de transferência eram constantes.
Sentada na escadaria da casa das Omega Chi, Kelsey estava pensativa. Se ela tivesse permitido que Dylan matasse a ela e aos outros, talvez a confusão fosse menor. A tragédia da universidade, enfim, seria uma só. O que ela fizera fora apenas multiplicar o mal, espalhando-o aos poucos. Naquele momento ela só conseguia se sentir uma pessoa má.
— Você não tem culpa por nada disso.
Kelsey assustou-se com a frase e apressou para olhar quem havia dito. Era um homem careca, negro e de meia idade com a voz mais rouca e gutural que a garota já havia escutado.
— Quem é você?
— William Bludworth. Mas meus amigos me chamam de...
— Bill!
Quem exclamara aquilo fora Melissa, que corria com rapidez em direção ao amigo. A loira o abraçou por um período de tempo demorado, como se eles não se vissem há anos.
— O que você está fazendo aqui? Eu estou tentando falar contigo há meses!
— Haha, eu cansei do trabalho na escola. Sabe como é né? Acabei me esquecendo de deixar meu número com os seus pais, mas já ajeitei isso. Fiquei sabendo pelo jornal que as aulas haviam sido canceladas e resolvi vir aqui oferecer uma carona para casa. Topa?
Os olhos de Melissa brilharam.
— Claro! É só que... – E então se lembrou da lista. — Eu preciso ter uma conversa séria contigo. Eu... Preciso de ajuda.
Kelsey ouviu aquilo e apressou-se a levantar para sair do local, mas Melissa a segurou pelo braço.
— Fica, Kel. Nós precisamos de você.
E Melissa começou a contar toda a história à Bludworth. De como Kelsey previra uma parte do massacre da universidade e de como ela salvara o grupo. Também anunciara que quatro deles já estavam mortos e os outros sete estavam apavorados.
— Chega a ser poética a ironia de tudo isso estar se repetindo com você...
Melissa riu, nervosa.
— Parece que a morte gosta de mim.
Bludworth pareceu não discordar. Disse:
— Chame seus amigos antes de ir, Mel. Precisamos deixar claro a eles a gravidade da situação.
A loira concordou e correu para longe. Kelsey ficou ao lado de Bludworth, encarando-o. Por alguma razão a morena não confiava nele.
x-x-x-x-x
O pequeno grupo se reuniu no pequeno quarto de Melissa na pequena casa das Sigma Phi. Angel, Skip, Morgan e Nikki estavam sentados na cama, enquanto Kelsey, Melissa e Bludworth se mantinham de pé, esse último ao lado da porta. Kelly estava sentada em sua cadeira, distraidamente mexendo nos penduricalhos da alça do armário de Melissa.
— Antes de tudo esse é o meu amigo William. Podem chamá-lo de Bill.
— Você conhece a Kimberly Corman? – Morgan perguntou, à queima roupa.
— Não posso dizer que a conheço, mas a vi uma vez. Ela veio até mim com dois amigos procurando ajuda para deter a lista.
A frase de William terminou e o silêncio começou a reinar.
— Mel, não acha que está na hora de deixar toda a ordem da lista... Pública? – Skip perguntou.
Melissa então olhou para Kelsey, para que ela tomasse a decisão.
— Por que olhou para mim? – A garota disse.
— Por que... A lista é sua, sei lá? – Melissa não soube o que dizer.
Morgan e Nikki riram, mas ao ver que o restante do grupo se mantinha sério, ficaram envergonhados. Kelsey tomou fôlego e disse:
— Bom, na minha visão, depois da Cassie quem morria era você...
A garota não pôde terminar sua frase porque o ventilador de teto soltou-se e fez um barulho ensurdecedor. Ele havia caído com toda a sua fiação e ainda estava em movimento. Bludworth puxou Morgan no exato momento em que o objeto iria decapitá-lo. Skip que estava próximo acabou com um corte profundo em seu braço esquerdo.
— Ele era o próximo. – Nikki disse, apavorada.
Skip escondeu a ferida no braço, com medo de que todos prestassem atenção naquilo e esquecessem o foco da discussão.
— Ele foi pulado. – Bludworth disse. — A morte agora irá pra o próximo da lista e só voltará para ele quando todos já tiverem tido sua vez. — E deu dois tapinhas no ombro de Morgan, que ainda estava congelado pelo susto.
— Obrigado. – Morgan murmurou ainda atônito.
Kelly aproximou-se de Morgan e pediu para que ele se abaixasse. O rapaz assim o fez, e a garota beijou sua testa e começou a passar a mão pelos seus cabelos. Murmurou em seu ouvido:
— Eu não saberia viver sem você.
O rapaz sorriu ternamente. Kelsey, que não estava prestando atenção no momento romântico, continuou o que estava dizendo pouco antes do ventilador cair:
— Na minha visão a ordem era Trip, Melissa, Chase, Sherry, Cassie, Morgan... — E engoliu em seco. — Kelly.
Todos olharam para a garota, que não parecia nem minimamente abalada.
— Continua, Kel. Está me deixando aflita. – Kelly pediu.
— Depois de você o Dylan matava a Nikki. Depois o Skip, depois Angel... E depois eu.
x-x-x-x-x
Kelly estava sentada no banco traseiro do carro dos pais de Morgan, ao lado dele.
— Caso eu me esqueça de dizer umas cem vezes, obrigada pela carona Sr. e Sra. Shoels.
— Não tem de quê, Kelly. – E a mãe de Morgan sorriu.
Os dois estavam de mãos dadas, e Morgan estava completamente surpreso com a calma e frieza com a qual a garota estava lidando com a situação. Como diabos ela conseguia não estar com medo ou paranóica?
— Foi um jogo que eu aprendi. – Kelly disse.
Morgan olhou para ela, assustado. Como ela sabia no que ele estava pensando?
— É o jogo mais lindo do mundo! Ele não me deixa ficar triste, nunca. E quanto mais difícil é, mais bonito é jogá-lo! – Kelly parecia ensimesmada, refletindo sobre coisas que o rapaz não entendia.
— Como é esse jogo esplêndido que consegue te manter tão calma, amor?
Kelly sorriu, os olhos brilhando.
— Chama-se jogo do contente e eu aprendi com uma amiga, Nancy. Quem inventou esse jogo foi o avô dela, pai de sua mãe Pollyanna.
Morgan parecia interessado e a garota continuou:
— A história do jogo é a seguinte: após a morte de sua mãe e seus irmãos, a tal Pollyanna morava só com seu pai, um missionário religioso e que vivia de doações. Essas doações vinham dentro de pequenas barricas com provisões, que davam o básico para o homem viver com a sua filha. Por isso, qualquer coisa supérflua, quando aparecia, fazia a festa da garota. Um dia o missionário conseguiu pedir uma boneca para sua filha, e quando a barrica chegou, a Pollyanna viu só um parzinho de muletas. Ela ficou muito desapontada e começou a chorar. Foi então que o pai dela lhe ensinou o jogo. Ele disse que ela deveria sentir-se feliz por ter recebido as muletas. E sabe por quê? Porque ela não precisava delas! Não existia coisa que pudesse ser mais feliz que receber um par de muletas e aquilo ser inútil!
O rapaz olhava a namorada, consternado.
— Você joga esse jogo desde quando?
— Desde que eu nasci. — A garota declarou convicta. — Eu sei que soa um pouco irônico eu contar a história das muletas da Pollyanna quando eu mesma estou numa cadeira de rodas, mas... É assim. O jogo do contente é isso, é sempre encontrar, mesmo nas piores coisas, uma maneira de ficar contente, feliz. E eu fico contente com o fato de ser a próxima na lista. Por vários motivos.
— Me diga um. — Morgan desafiou, já com lágrimas nos olhos. Seus pais não prestavam qualquer atenção à conversa deles, e isso aliviou-o. A última coisa que queria era os dois lhe fazendo perguntas sobre a lista.
— Ah, é fácil: eu posso ficar feliz porque você não é o próximo. Nada me mataria mais que te ver partir. Também posso ficar feliz por que enquanto for minha vez, os outros não precisam se preocupar. Posso ficar feliz porque se eu morrer agora morrerei ao lado das pessoas que mais amo. As razões são muitas!
Morgan então não se segurou e beijou Kelly com toda a força do mundo.
— Eu te amo. Nunca se esqueça disso, tudo bem?
E entre protestos dos pais, Morgan beijou a garota mais uma vez.
Fale com o autor