Premonição 3: Redenção
1 Babilônia
Notas iniciais
ps: O termo "pledge", usado muitas vezes durante esse capítulo, significa "calouro", uma pessoa que está na fase de aceitação em uma fraternidade (aquela fase em que, nos filmes, têm de passar por "provas" nojentas e etc).
"E clamou fortemente com grande voz, dizendo: caiu, caiu a grande babilônia, e se tornou morada de demônios, e covil de todo espírito imundo, e esconderijo de toda ave imunda e odiável." (Apocalipse 18:2)
Kelsey acordou com o barulho alto que as garotas da Omega Chi Delta faziam no andar de baixo. Algumas gritavam, enquanto outras pareciam estar movendo sofás ou coisas do tipo. A garota revirou-se na cama durante poucos segundos, tentando abafar o som vindo de fora. De repente começou a música, e Kelsey teve certeza de que seu sono não tinha mais salvação.
— O que diabos vocês estão fazendo? – A garota perguntou, já impaciente.
Kelsey era morena (de cabelos) e não possuía uma beleza estonteante. Na verdade, recusava-se a acreditar que possuía qualquer beleza: era magrela, orelhuda, nariguda e testuda. Possuía os olhos de um castanho avermelhado e usava uma maquiagem esdrúxula, lhe dando a impressão de ser uma criaturinha estranha de outra galáxia. Era incrível que tivesse um namorado.
— É que você sabe... Hoje é dia de festa. Precisamos dar uma mexidinha nos móveis.
Quem respondera a pergunta foI Nikki, uma das irmãs da fraternidade. Esta, sim, era linda: cabelos completamente laranjas e os olhos índigo. Além de um sorriso capaz de derreter geleiras.
— Mas a festa não vai ser na casa dos Psi Alpha Zeta? – A morena questionou novamente.
Existiam várias fraternidades espalhadas pelo campus, embora apenas quatro delas fossem importantes e reconhecidas pelo grêmio estudantil. Duas delas, a Omega Chi Delta e a Sigma Phi, eram fraternidades só de garotas. Já uma terceira, a Kappa Tau Gamma, só aceitava garotos. A Psi Alpha Zeta era a única fraternidade mista do campus, por isso era vista como o ápice da liberdade e libertinagem do estudantes. Era a terra de ninguém, onde poderiam causar qualquer tumulto que fosse. “Babilônia, a grande”, como o reitor se referia à ela.
— Vai sim. Aqui vai ser uma pré e pós-festa... Sabe como é né? – Nikki disse, sorrindo maliciosamente.
— E a Sherry sabe?
— Claro... Ela é a nossa presidente...
Kelsey pareceu estar satisfeita com as respostas e deixou as meninas continuarem a revolução na casa. Subiu as escadas num pulo e pegou seu celular, discando o número do namorado.
— Oi amor...
— Gatinha. Acordada há essa hora? Achei que estaria dormindo, se não já teria passado por aí.
— Pois é, não consegui dormir. As irmãs resolveram mudar os móveis da sala de lugar por causa da festa na casa dos Psi Alpha Zeta... Mas espera aí: você ia vir aqui como? A Sherry não gosta de meninos visitando a nossa casa.
— Não gosta é? E o que me diz se eu disser que ela está aqui na casa dos Kappa Tau Gamma aos amassos com o namorado?
— Haha, sério? Como assim?
— Chegou cedinho, achando que não perceberíamos, e correu para o quarto do Chase. Pelo menos agora vou poder te ver quando quiser, só preciso chantageá-la.
Kelsey riu.
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Angel entretinha-se no jogo de videogame com a namorada.
— Ah, não vale escolher a Kitana, Monica! Você sabe todos os golpes dela. Escolhe a Sonya, por favor! – Ele implorava aos berros.
— Mas é muito medroso esse meu namorado! Tudo bem, escolho a Sheeva então, pra mostrar que sou melhor que você com qualquer lutador.
O rapaz riu e beijou o topo da cabeça da namorada. Ela empurrou-o de brincadeira, reclamando:
— Vai me atrapalhar, bobão! – Monica protestou, e Angel riu.
Os dois eram uma visão agradável juntos. A garota possuía os cabelos longos e repicados. Eram castanho avermelhados no topo e iam ficando claros a medida que o comprimento aumentava. Já os olhos eram de um verde claríssimo, quase brancos. Um nariz deveras grande e uma boca fina completavam a figura da bela deusa geek.
— Fatality!
Já Angel era uma figura bastante comum: olhos e cabelos escuros, nariz, boca e olhos de tamanho proporcional. O que talvez chamasse atenção fossem suas sobrancelhas espessas e o furo em seu queixo.
— Ganhei! Você realmente precisa de umas aulas, Eliott...
— Eliott não! – O rapaz protestou.
— Haha, tudo bem então... Angel! – Monica riu e beijou o namorado.
Ele ainda mantinha-se carrancudo. Não gostava de ser chamado por seu nome. Quem lhe dera fora seu pai, de quem tinha grande mágoa. O homem abandonara ele, sua mãe e seu irmão sem mais nem menos, deixando-os na miséria. Levou todas as economias guardadas por anos, e torrou-as em Vegas com uma prostituta que conhecera semanas antes. O que sobrara para a família fora a casa, que tiveram de vender para pagar as dívidas. Foram morar com a avó, e tiveram todos que começar a trabalhar. Se não fosse ela, sua bendita avó, Angel provavelmente não teria conseguido estudar o suficiente para entrar numa universidade.
— Angel! Você está bem? Parece pálido. – O tom de voz de Monica parecia denotar certar preocupação.
— Tudo, foi só que... Me distraí.
A garota pareceu satisfeita com a resposta.
— Sabe onde está o meu irmão? — Ele perguntou.
— Provavelmente na casa das irmãs da Sigma Phi.
— Como pode ter tanta certeza que ele está na sua fraternidade?
— Digamos que... Um passarinho me contou.
— Ah! Melissa!
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Skip apertou a campainha da casa das Sigma Phi ainda amedrontado. Quem veio atendê-lo não foi quem ele esperava.
— Oi Cassie! A Melissa está?
Skip era deveras bonito, apesar da aparência infantil. Era baixinho e não parecia nada com seu irmão Angel, exceto pela mesma sobrancelha espessa. Seu nariz era um pouco empinado, e a boca era grande. Possuía também um belo par de olhos azuis.
— Está sim... Espera um pouco que vou chamá-la.
Cassie fechou a porta na cara do rapaz antes que ele pudesse protestar. Subiu as escadas vagarosamente, bufando.
— Aquele palhaço do Skip de novo, Mel. Você poderia avisar a ele que não gostamos de garotos na nossa casa?
Cassie ficava ainda mais bonita quando estava brava, isso se deveria admitir. Era oriental, e possuía um sorriso encantador. Dentes alinhados perfeitos e branquíssimos, num rosto que ainda contava com belos olhos escuros. Seu cabelo, sim, era diferente: comprido e loiro. As más línguas diziam que sua intenção era camuflar sua real etnia, mas era bobagem. Se bem que às vezes isso era bom, servia para as pessoas respeitarem sua escolha religiosa. Ao contrário da maioria dos orientais, ela não era budista. Cristã protestante, era até fervorosa demais: ia aos cultos sempre que podia e rezava umas vinte vezes por dia. Um alvo perfeito para o bullying dos mais extremados.
— Estou descendo.
Melissa pulou da cama e em segundos já estava em frente à porta da casa, cumprimentando Skip.
— Oi...
— Oi!
Houve alguns segundos constrangedores de silêncio, que foram interrompidos pelo rapaz.
— Quer dar uma volta?
— Claro. Por que não?
A garota fechou a porta da casa e desceu os degraus. Skip andava a seu lado acanhado. Era apaixonado por Melissa, quanto a isso não havia dúvidas. Mas a garota jamais demonstrara qualquer sinal de reciprocidade, deixando-o com a eterna dúvida de se era correspondido ou não. Preferia acreditar que sim, embora nada confirmasse o fato.
— E então, vai hoje na festa dos Psi Alpha?
— Vou sim. A Kelsey vai me buscar pra irmos juntas.
— E por que você não vai com as irmãs da sua fraternidade? – Skip parecia realmente interessado no assunto.
— Não sei. Deve ser timidez. Eu não sou muito fã delas, e tenho certeza que o sentimento é recíproco. As Sigma Phi são muito fervorosas, sabe? Principalmente a Cassie.
— Entendo... Por que não se muda pra Omega Chi Delta então? Pode até dividir quarto com a Kelsey.
Melissa fez uma cara de pesar.
— Não é tão simples assim... Eu acabei de ser iniciada, depois de muito tempo... E foi um inferno! Se fosse tentar ser uma Omega Chi, eu voltaria a ser pledge e teria de passar por todas as provas de novo... Sabe como é né? Não que sair correndo pelo campus só de biquíni gritando não seja divertido, mas acho que posso evitar.
Skip ria com gosto. Melissa manteve-se séria por alguns segundos, mas logo estava às gargalhadas também.
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Morgan empurrava a cadeira de rodas de Kelly pelo campus com orgulho. Alguns olhares ainda eram atraídos pela diferente carruagem da princesa loura. Vários acenavam para a garota, que retribuía entre sorrisos.
— Morgan, pode, por favor, parar de fuzilar com os olhos cada pessoa que passa ao nosso lado? É desagradável.
— Desculpa, Kelly, mas é que eles me tiram do sério.
A garota travou a cadeira de rodas, quase fazendo o rapaz empiná-la. Virou o rosto, um pouco irritada.
— Por que, Morgan? Por quê?
— Você não entende... Essas pessoas... Elas não querem ser suas amigas. Elas não estão sendo simpáticas ou algo do gênero. A crueldade...
— Chega, Morgan! Chega! – Kelly esbravejou. — A única pessoa que tem problema com a minha condição é você. Só você!
— Como você pode dizer isso, amor? Eu te amo, mais do que tudo. Não me importo com coisa alguma. Eu sou a única pessoa que realmente te ama pelo que você é.
— Uma aleijada.
Morgan ficou calado.
— Viu? É isso que você pensa de mim. Pra você eu sou só a aleijadinha que você namora porque todas as outras garotas do campus não te dão bola. E sabe de uma coisa? Eu cansei.
O rapaz não soube o que dizer.
— Esse seu medo quase doentio de que as outras pessoas olhem ou comentem sobre mim, só reflete o seu próprio sentimento, o que você realmente sente a meu respeito. — E tomou fôlego: — Quando eu estou com as minhas amigas ou durante as aulas mesmo, eu esqueço completamente dessa cadeira. Sabe por quê? Porque ela não define quem eu sou. Eu sou muito mais do que isso. E quando eu disse que era uma aleijada, você não protestou. Quando eu estou com você... Só quando eu estou com você... É que eu realmente me sinto uma aleijada.
Ao terminar seu discurso, Kelly derrubava muitas lágrimas dos olhos. Morgan baixou o rosto, completamente abatido. Enxugou os olhos, sinal de que também chorava. Deu meia volta e foi embora, sem despedir-se.
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Morgan chorava porque era verdade. Kelly era a única que dera uma chance para ele. Todas as outras tinham medo ou se aborreciam diante de suas investidas. Tudo bem, ele não era um príncipe: gordinho, possuía uma barba rala e lisa, bastante agradável. Os cabelos eram negros e estavam erguidos num moicano estrategicamente arquitetado. A face se completava com uma boca pequena e bonita, nariz mediano e estreitos olhos castanhos.
Não, ele não era feio. Também não era burro: hacker, capaz de invadir quase que qualquer sistema, embora não se arriscasse a isso. Sabia que era crime e não queria desperdiçar seu talento e inteligência indo para a cadeia aos dezenove anos. Então qual o motivo de conseguir repelir todos ao seu redor? Morgan não tinha amigos, isso era certo. Mas o motivo ainda permanecia um mistério.
Talvez fosse seu espírito contrariador, que recusava quase que imediatamente todas as convenções. Não fazia parte de uma fraternidade, pra começar: morava junto à outros geek independentes, que, como ele, não tinham amigos. Mas todos estavam conscientes e em paz com a sua condição. Morgan não. Ele queria algo diferente para si. Algo que Kelly tinha, mesmo apesar de todas as adversidades.
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Kelsey se arrumava no banheiro junto a todas as outras garotas da Omega Chi Delta. Madonna tocava alto no local, enquanto um grupo animado de meninas de toalha dançavam e pulavam. Era um caos gracioso, quase um fetiche.
Foi quando a garota teve um flash e viu seu namorado Ryan se agarrando com outra garota em sua cama. Abriu os olhos assustada, e a cena ainda era a do banheiro.
— Bom, como todas sabem, as irmãs da Omega Chi Delta prezam pela total castidade do espírito e da carne, não é meninas? Então eu conto com todas vocês para beberem moderadamente e manterem suas calcinhas no local onde elas devem ficar. Entendidas?
Sherry terminou sua frase e caiu na gargalhada.
— Sua pervertida! – Nikki brincou, empurrando a líder de cima do vaso sanitário onde ela subira para fazer o pronunciamento.
Todas riram.
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Na Kappa Tau Gamma os rapazes estavam em festa. O mesmo clima descontraído da fraternidade das garotas acontecia por ali. Já passava das oito da noite e todos estavam em polvorosa. Alguns já estavam prontos para a festa, e zanzavam sem rumo, aproveitando para praticar brincadeiras com os que ainda se arrumavam.
Trip era um desses. Pledge, ele era sempre o alvo das brincadeiras. Além disso, seu físico e sotaque não ajudavam em nada a se adequar: magrelo, vindo da Inglaterra, mantinha o perfeito sotaque britânico que lhe era característico. Além disso, tinha um visual curioso: usava diversos piercings nas orelhas, nariz e boca e... Tinha o cabelo verde. Quando sorria, era um caos: apesar de branquíssimos, seus dentes eram completamente desalinhados, lhe conferindo a aparência de um completo jackass sem objetivo na vida. Era um milagre ter chego à formação superior.
— Bora jogar o Scotty na piscina! – Trip incitou, sendo seguido pelos outros rapazes.
O único alheio às brincadeiras era Chase, o líder da fraternidade. Ele estava acima do bem ou do mal, acima de qualquer brincadeira do gênero. Com ele ninguém ousava aprontar. Vantagens de ser o macho alpha.
— Ei, fecha meu notebook agora, Brent. — Chase ordenou ao ver um dos rapazes mexendo em seu computador.
O tal Brent obedeceu na mesma hora.
— O que será que o Chase tanto esconde nesse computador, hein? – Skip comentou com o irmão.
Angel deu com os ombros.
— Provavelmente o mesmo que todos nós.
E riu.
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Kelsey chegou à casa de Melissa com dez minutos de antecedência. Sentou-se na escadinha da varanda e ficou esperando. As ruas do campus estavam movimentadas. Além dos usuais alunos que corriam, brincavam ou namoravam por ali, haviam os visitantes. Pela primeira vez em oito anos a universidade tinha aberto o local para não-estudantes. Uma exceção que para Kelsey não fazia muita diferença, ela não tinha ninguém para convidar.
— Como estou? – Melissa apareceu de surpresa pela porta, pedindo o parecer da amiga.
— Uau... Linda! – Foi só o que Kelsey conseguiu dizer após o susto inicial.
— Vamos?
— Claro.
As duas caminhavam rindo e conversando, de braços dados. Foi quando o celular de Kelsey tocou. Era seu namorado.
— Oi amor, já chegou?
— Já sim, onde você está?
— Vim pegar a Melissa, já estamos chegando.
— Tudo bem, não tem pressa. Vou sair pra comprar umas bebidas com os rapazes. Não precisa me procurar, apareço em meia hora.
— Feito. Te amo, tchau.
— Também te amo.
E desligou.
— Ele já está lá? – Melissa perguntou.
— Já, mas está saindo. Disse que vai comprar umas bebidas.
— Comprar bebidas? Que estranho. Achei que à uma hora dessas os garotos já tivessem trazido toda a bebida de que pudessem precisar.
Kelsey deu com os ombros.
— Hein... Vai na festinha particular que vai ter na sua casa? – Melissa perguntou.
— Como assim?
— Não tá sabendo? Então, uma galera combinou de saírem da festa dos Psi e irem pra casa das Omega pra uma festa mais... Quente.
— E você vai? – Não havia tom de censura algum na voz de Kelsey.
— Não deveria? – Melissa sentiu-se ofendida.
— Haha, claro que deveria, amiga! Quem sabe não encontra o Skip por lá?
— Ah, qualé Kel... Vamos mudar de assunto?
— Ficou envergonhada... Sabia! Você também é afim dele, não é?
— E isso importa? Ele nem me dá bola...
Kelsey estava prestes a dizer que Melissa estava completamente enganada, quando um rapaz nu passou ao lado delas, gritando. As duas riram. A loira então olhou no relógio.
— Já está na hora da festinha das Omega Chi Delta...
— E por que essa cara, criatura? Vai lá, não vou ficar chateada. – Kelsey garantiu.
— É que eu marquei de encontrar uns amigos na festa.
— Que amigos?
— Você não conhece, não são daqui. É um casal que eu conheci há uns meses atrás, extremamente simpáticos. A garota é estagiária da Runway New York... Mia Kirklin.
Kelsey balançou a cabeça, e teve uma ideia:
— Quer que eu os avise? Só me dizer como são que eu os encontro e digo a eles onde você está.
— Você faria isso? – Melissa mordeu os lábios.
— Óbvio, Mel! Bora dizer aí como os dois são.
Melissa deu a descrição minuciosa de Kaleb e Mia e despediu-se da amiga, seguindo até a casa das Omega Chi Delta em passos largos.
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Dylan recarregou sua metralhadora pela quarta vez. Depois a descarregou. Estava nessa brincadeira há vinte minutos, e não se cansava. Era uma maneira de fazê-lo ter coragem para o que estava prestes a fazer. Virou mais um copo de tequila e logo em seguida jogou-o na parede.
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Kelsey chegou à festa animada. Sabia que Ryan não estava ali, então resolveu primeiro acabar com as pendências: ela deveria encontrar os tais amigos de Melissa.
Passou ao lado de um grupo nas escadas e foi ignorada. O som estava alto, e a luz estava fraca. Na mesa da cozinha diversas pessoas faziam disputa de quem bebia mais, sendo que algumas delas já estavam de roupas íntimas. Algumas pessoas passaram correndo por Kelsey, carregando alguém para jogar na piscina.
“Eles devem estar no segundo andar”, a garota pensou. Subiu as escadas rapidamente, desviando de uma garota desmaiada e vomitada que estava caída ali. Ao chegar ao corredor, ouviu gemidos vindos de um dos quartos. Por um segundo pensou na visão que tivera de Ryan com outra garota, mas logo descartou. Ele a amava e jamais seria capaz de algo assim. “Dane-se, se essa Mia e esse Kaleb têm coragem de fazer sexo numa universidade que nem é a deles, não vão ficar encabulados com a minha presença”, pensou, sobre o casal aleatório que encontraria ali.
Abriu com firmeza a porta de um dos quartos, e o que viu a deixou paralisada, chocada com nojo e desprezo.
Quem estava ali não era Kaleb ou Mia. Nem mesmo algum dos pervertidos usuais da Kappa Tau Gamma.
— Seu... Desgraçado.
Era Ryan. O namorado de Kelsey estava bem à vontade nu ao lado de uma das garotas da Omega Chi Delta.
— Calma Kelsey, eu posso...
— Explicar. Claro que pode.
A garota desceu as escadas furiosa, chorando convulsivamente. Ryan não tentou impedi-la: primeiro precisaria colocar uma cueca.
— Eu sabia que isso ia acontecer, sabia. Eu tive uma premonição, mas não quis acreditar.
Kelsey saiu sem olhar pra trás, enquanto alguns amigos tentavam consolá-la, seguindo-a. A garota ignorou-os e seguiu correndo em direção à casa das Omega Chi Delta.
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Na sala da casa das Omega Chi Delta, um pequeno grupo brincava de verdade ou desafio, com uma garrafa no centro da rodinha.
Trip era o mais animado do grupo, seguido de Nikki, Skip e Melissa, que estavam às gargalhadas. Angel estava abraçado à Monica, assim como Chase à Sherry. Os únicos que não pareciam felizes ali eram Kelly, Morgan e Cassie. A primeira estava emburrada como o fato de Morgan tê-la seguido até ali, e ficar insistindo para que ela o beijasse. Ele, bêbado, coitado, tentava enturmar-se, sem sucesso. E Cassie... Bom, ela estava fingindo não gostar. Não podia. Não era coisa de Deus.
— E então Chase, verdade ou desafio? – Nikki perguntou, maliciosa.
— Desafio, óbvio.
— Eu desafio você a beijar, durante dez segundos, alguém dessa rodinha.
Um coro de “uuuuh” foi ouvido, seguindo pela reprovação de Sherry:
— Nananinanão, não quero você beijando nenhuma garota.
— Principalmente se for a minha garota. – Angel comentou rindo e beijando Monica.
— Não precisa ser uma garota... – Nikki sugeriu, ainda mais maliciosa.
— Ah, qualé! – Chase protestou.
Todos riram. Monica comentou com Angel:
— Amor, eu preciso ir até à Psi Alpha ver se a Dana precisa de mim, pode me esperar um minutinho?
— Por que você precisa ver se ela está bem? Vocês são só irmãs de fraternidade. Além disso, se precisa ir eu vou com você.
— Eu sou a responsável por ela, querido. Se algo acontecer àquela pledge, a Cassie me come viva. – E apontou discretamente para a oriental.
— Tudo bem então, vou com você.
— Não, fica. – Monica insistiu. — Volto daqui uns dez minutos. – E levantou-se. Antes de sair ainda disse: — Confio em você.
Angel lhe deu um último beijo antes de ela sair, demorando em soltar seu braço. Quando isso ocorreu, sentiu uma dor no peito. Como se aquela fosse a última vez em que seus braços iriam se tocar. Monica abriu a porta e saiu. Houve alguns segundos de silêncio.
Foi quando foram surpreendidos por Kelsey, que entrou meio abruptamente.
— Quase me mata do coração, Kel! – Melissa comentou. — Achou a Mia e o Kaleb?
— Achei algo bem pior... Posso conversar com você, à sós?
— Claro... – E Melissa levantou-se da rodinha, para a tristeza de Skip.
As duas seguiram para a cozinha.
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— E então Kelsey, o que aconteceu? O que de tão ruim você viu na festa que te fez voltar?
— Eu não sei se consigo dizer... O Ryan, ele... – E lágrimas vieram à seus olhos.
Foi quando alguém tocou a campainha. Trip, que estava mais perto da porta, abriu. Foi surpreendido por uma figura mascarada que disparou um tiro à queima roupa contra ele. Nikki, que estava bem em frente, gritou, com o rosto ensaguentado pelo sangue que respingara do rapaz.
Melissa e Kelsey correram até a sala e viram o caos que havia se instalado. Todos gritavam e corriam para algum lugar. Melissa tentou escapar pela porta entreaberta, mas o mascarado viu e disparou diversos tiros contra ela, primeiro nas pernas, depois no tronco e por último um tiro certeiro em sua cabeça.
— Seu desgraçado!
Chase resolveu agir e pulou em cima do atirador. Angel e Skip pularam para ajudá-lo, mas o assassino desferiu dois tiros contra Chase, um nas costas e outro na cabeça. Os rapazes ficaram apavorados e se afastaram da cena.
— Quem mais quer bancar o herói, huh? – O atirador desafiou.
Sherry aproximou-se do corpo inerte do namorado e começou a chorar abraçada a ele, enquanto Cassie tentava puxá-la para longe. O assassino riu maleficamente e disparou um tiro contra o pescoço de Sherry e outro direto na cabeça de Cassie, assassinando-as imediatamente.
Nesse momento Kelsey já estava escada à cima discando loucamente o número da segurança do campus, embora sem sucesso. Viu o exato momento em que Kelly e Morgan, juntos, foram alvejados. Primeiro ele, com tiros no pescoço e no tórax. A garota foi atingida por diversos tiros: era um alvo fácil. A maioria das balas acertou suas pernas, enquanto outras foram na cabeça e tórax.
O massacre estava feito, e os poucos sobreviventes gritavam sem parar. Nikki tentou sair pela porta, mas como Melissa não obteve sucesso. O assassino segurou-a pelos cabelos e colocou o cano da arma no peito da garota, sussurrando em seu ouvido:
— "Este é o estatuto da lei, que o senhor ordenou, dizendo: dize aos filhos de Israel que te tragam uma novilha ruiva, que não tenha defeito, e sobre a qual não tenha sido posto jugo".
E apertou o gatilho. O corpo inerte de Nikki escorregou lentamente até cair no chão. Skip revoltou-se com a cena e tentou mais uma vez investir contra o assassino, enquanto Angel já estava escada à cima chamando o irmão. Kelsey ainda tentava o telefone.
— Skip! – Angel gritou.
O mascarado empurrou o rapaz para longe, aproveitando para se recompor e desferir diversos tiros no pescoço e na cabeça de Skip. Angel gritava descontroladamente.
— Corre Kelsey, corre!
Angel alertou a garota empurrando-a para um dos quartos, enquanto o atirador subia furiosamente às escadas. Ele dava passos largos, tentando arrombar a porta dos quartos do andar de cima.
O casal estava escondido dentro de um armário, e Angel sussurrou para Kelsey:
— Quando ele passar aqui em frente, você pula em cima dele, ok? Eu aproveito e pego a arma.
A garota concordou, tremendo de medo. Os passos se intensificaram, e quando Kelsey sentiu que o assassino estava bem em frente a eles, saiu do armário. Conseguiu derrubá-lo, fazendo a maior força de sua vida. Mas o restante do plano não funcionou: o mascarado não perdeu sua arma, e teve tempo de atirar diretamente no rosto de Angel, fazendo uma quantidade imensurável de sangue respingar no rosto de Kelsey. A garota gritou e saiu correndo.
De repente parou. Estava encurralada. Não havia escapatória. Não se dignou a virar. O assassino aproximou-se lentamente dela, com certo prazer mórbido de vê-la assustada. E aconteceu. Kelsey sentiu as costas em chamas, e o sangue esvaindo-se. Caiu ajoelhada.
Kelsey estava atônita. Algumas lágrimas escorriam de seu rosto e ela não conseguiu ter qualquer reação. Tudo que acabara de ver... Era brutal demais.
— E então Kelsey, o que aconteceu? O que de tão ruim você viu na festa que te fez voltar?
A frase já ouvida por Kelsey foi como um soco no estômago. A garota gritou:
— A campainha. Ele vai tocar a campainha, não atendam!
De repente ouviu-se o barulho da campainha. Enquanto Melissa esperava explicações do que acabara de ocorrer, Kelsey correu até o hall e empurrou Trip antes que ele pudesse abrir a porta. A garota então fez sinal para que todos fizessem silêncio absoluto. Ninguém entendeu o motivo, mas o único que teria culhões para ir contra uma ordem de Kelsey era Trip, e ele estava devidamente calado.
Os passos escada a baixo foram ouvidos, e a morena teve certeza de que o assassino tinha ido embora.
— Pode diabos me explicar o que está acontecendo, Kel? – Melissa perguntou, já receosa de ser exatamente o que ela tinha em mente.
Foi quando o grupo ouviu um único tiro sendo disparado.
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