Para alguns, viajar de trem era um pesadelo.

Toda aquela velocidade era incomum para uma sociedade acostumada a andar a cavalo, e mesmo a tração animal já era considerada capaz de causar náuseas. Junte a rapidez do movimento ao cheiro de óleo, carvão e maquinistas sujos, sem falar do ruído irritante de metal contra metal, e é encontrada a fórmula perfeita para fazer qualquer um naquele reino botar as próprias entranhas para fora.

Mas para Kristin, era um momento de calmaria.

Bem, no início era realmente insuportável, mas com o passar dos anos, ela se habituou à mistura de sensações nauseantes.

E também, comparado ao que ela fazia quando descia na estação, sentar praticamente sozinha num fedorento vagão a quase oitenta quilômetros por hora era a experiência mais divertida das suas missões.

Daquela vez, fora enviada para Ilydas. Kristin gostava daquela cidade. Melhor o ar frio e o céu cinzento do que a garganta seca e um céu sem nuvens, tomado pelo sol, como era nas cidades ao Sul do Reino.

Obviamente, era preferível o clima ameno de Elyrasia, no centro do território, mas definitivamente, Ilydas não possuía o pior dos quadros climáticos. Kristin odiava, com todas as suas forças, o calor.

Passou a viagem sentada próxima à janela, observando a paisagem passar num piscar de olhos. Não era fácil tentar capturar algum detalhe, mas ela não estava realmente prestando atenção na visão externa ao trem.

Era, pelo que se lembrava, a terceira vez que ia a Ilydas. A primeira em que ia sozinha, a trabalho. Nas outras duas, fora junto a Darkas resolver problemas relacionados à ocupação de nativos das florestas boreais na região. Ela realmente não entendia o que aqueles indígenas faziam por ali, se seu território ficava mais próximo ao centro-sul, nas redondezas de Edhel e Terriser.

Dividia o vagão com apenas uma pessoa. Um senhor de idade, claramente acima do peso, mas bem vestido, lia algo num papel antigo e bastante avariado. Parecia analisar cada detalhe naquilo que, na visão de Kristin, parecia um mapa. Em seu dedo havia um anel negro, onde estava incrustada uma joia acinzentada brilhante.

Como que pressentindo a curiosidade de Kristin, o homem retribuiu um olhar severo por alguns segundos, logo tornando a atentar para o “mapa”.

Foi o suficiente para intimidar Galten, que não mais incomodou o idoso.

A viagem prosseguiu em silêncio, a não ser, é claro, pelo barulho das máquinas e das rodas contra os trilhos.

Aos poucos, o ar foi ficando mais gélido e o céu, mais nublado. Ela sabia; estava chegando.

O idoso misterioso também pareceu perceber, pois guardou o papel dentro de uma mala, e em seguida começou a organizar seus pertences. Ele carregava duas maletas numa mão e uma grande mala na outra, além de estar agora ornando um pequeno chapéu.

Após cerca de vinte minutos, a locomotiva foi lentamente desalecerando. Quando parou, o rangido agudo ecoou novamente nos ouvidos de Kristin, mas ela ignorou. Aquilo já era natural para ela; quase não notava que o trem fazia tanto barulho parando quanto fazia se movendo.

A porta do vagão foi aberta por fora pelo maquinista; Kristin se levantou, respirando fundo enquanto caminhava a passos curtos até a porta.

Era preciso aproveitar os últimos resquícios de ar puro, pois no momento em que pisou na estação, tudo se incensou com o característico cheiro de fumaça e o mundo tomou um tom cinzento, como que completamente coberto de fuligem.

A estação de Ilydas não era particularmente movimentada, mas naquele dia milhares de pessoas transitavam no local, entre idas e vindas, se esbarrando. Todos pareciam ter muita pressa.

Após pedir informações para dois ou três transeuntes, todos claramente sem paciência para responder uma turista, Kristin encontrou a loja de artigos. As vitrines estavam vazias, e os poucos produtos que restavam ali, cobertos por poeira.

Empurrou as portas, adentrando na loja.

O lugar estava escuro. A única fonte de iluminação visível era o par de vidraças redondas da porta atrás de Kristin, que dava no pátio principal da estação.

Kristin tateou à procura de uma vela ou qualquer coisa parecida.

Sentiu sua perna direita tocar algo; era frio e maciço. Talvez feito de metal.

— Há quanto tempo.

Num piscar de olhos, a sala se iluminou com dezenas de velas, e uma pequena janela se abriu no teto, dando um aspecto estranhamente belo ao local já desgastado pelo tempo.

Diversos itens pendiam na parede, em cima de tábuas. Alguns eram relíquias que Kristin podia reconhecer, outros pareciam simplesmente objetos inúteis.

Ele estava sentado à frente de Kristin, atrás de uma mesa...de metal. Fora ali que Kristin encostara.

Na mesa, uma plaquinha com os dizeres “Gerente” e só.

— Você não anda em alta, não é?

Ele deu um sorriso de canto de rosto, melancolicamente.

— O tempo passa. Pode-se dizer que eu já tive épocas melhores.

— Para um trabalho de fachada, você não está tão mal assim.

Ele se levantou, levando o dedo indicador em riste até a boca de Kristin.

— Sssh, os clientes podem te ouvir!

Alecsandar continuava com o estúpido senso de humor sarcástico. Kristin já desistira de alertá-lo sobre a desnecessidade daquilo.

Quanto à aparência, era exatamente o mesmo de cinco anos antes. Ou quase isso.

Seu cabelo estava mais grisalho, apesar de permanecer penteado da mesma maneira, com o mesmo corte.

E uma cicatriz horizontal atravessava todo o hemisfério esquerdo da sua cabeça, terminando na bochecha, quase no canto do lábio.

Mas, por algum motivo inexplicável, Kristin sabia que aquele não era o momento de tocar no assunto. Quando Alec julgasse conveniente, ele mesmo comentaria da cicatriz.

Ela sabia bem disso, pois o conhecia como poucos. E vice-versa.

O silêncio pairou no ar, mesmo que brevemente.

Desconfortável, Alecsandar se recompôs, tornando a sentar na cadeira de maneira incômoda.

— Imagino que esteja aqui a trabalho. – disse, desinteressado.

— Alec, você sabe. Eu sempre estou a trabalho, não importa onde ou quando.

— Claro. Nada mais justo para alguém que não possui nenhum aspecto relevante na sua vida que não seja o trabalho— ele pronunciou a última palavra com certo desprezo. – O que procura vindo aqui, dessa vez? Minha humilde loja não tem muito a oferecer. – sua voz estava rouca, mas ainda era forte e de uma firmeza tremenda. O apelido Garganta de Trovão fazia todo o sentido.

— Quero informações. As melhores que você tiver.

— Sobre o que, especificamente? Exijo detalhes. – ele agora apoiava os cotovelos na mesa, entrelaçando as mãos junto ao queixo.

— Uma garota.

— Conheço várias garotas. Traga-me um bom vinho, e a maioria delas aparecerá como num passe de mágica.

— Me deixe terminar. – Kristin fez questão de denotar irritação em sua frase. Alec fez um gesto, pedindo para que ela prosseguisse – Uma feciter, se não me falha a memória. Por volta dos 18 anos.

— Espere. Uma feciter? Por aqui? – ele parecia incrédulo.

— Qual o problema?

— Os cidadãos de Ilydas odeiam os feciter. Não dão a mínima para aquele papo “democrático” – ele fez o sinal de aspas com os dedos – do Império. Eles não são aceitos por aqui. Aliás, quem nesse Reino possui algum respeito pelo Império? – ele riu num tom baixo, como se não quisesse ser ouvido.

— Meus superiores. E eu acho que isso é o suficiente para que eu ao menos finja respeitá-los.

Alec pigarreou.

— Humpf. Nunca fui com a cara dos Darchinia, de qualquer modo.

— Talvez por isso tenha trabalhado para eles por mais de vinte anos?

— E foi exatamente nesse período que percebi que eles não merecem o posto que possuem.

— Você demanda um longo tempo para tomar conclusões.

— Apenas sou minucioso. Detalhista.

Kristin não tinha muito tempo, então retomou a pauta.

— Então...presumo que você não conheça nenhuma garota feciter, certo?

Alec olhou nos olhos dela, de maneira irônica.

— Acho que eu não disse isso.

Kristin não entendia o que ele queria dizer.

— Mas você…

— Só porque eles não são aceitos pela população – interrompeu – não quer dizer que os corrompidos não estejam entre nós. Tenho muitos contatos, vejo e ouço de tudo. Então, diga-me, Kristin Galten, o que exatamente você deseja saber sobre a suposta garota de 18 anos?

Ele, mais uma vez, sorriu sarcasticamente.

Kristin adorava odiar aquele estúpido e velho guerreiro.

Mas antes que ela pudesse dar uma resposta a Alec, a porta se abriu atrás dela.

Se virou, e na entrada da loja se encontrava um jovem de pele muito clara e cabelos muito escuros, como que num contraste proposital da natureza.

Possuía um anel negro em seu dedo.

— Com licença – falou educadamente – o senhor Alecsandar se encontra?

— Sou eu. – respondeu Alec, levantando-se da cadeira e se afastando da mesa – E você seria…?

Ele estendeu a mão de modo cortês.

— Meu nome é Tarsius. Poderia conversar em particular com o senhor?

Alec retribuiu, a contragosto, o gesto.

— Claro. – olhou com o canto do olho para Kristin, que entendeu a mensagem e caminhou até o lado externo da loja.

Vinte minutos se passaram. Ela já estava cansada de esperar ali em pé, atrapalhando a passagem das pessoas ali presentes.

A porta foi aberta.

Tarsius surgiu dela, novamente apertando a mão de Alec.

— Agradeço pelas informações. Nos vemos novamente em breve, imagino. – o final da frase soou quase como uma sentença para Alec.

O garoto carregava um boneco de madeira feito pelos indígenas kalari. O artesanato daquela cultura era bonito, mas o boneco estava velho e desbotado.

— Senhorita Galten? – disse Alec quando Tarsius se afastou. Moveu os olhos para dentro da loja, e novamente Kristin captou a mensagem.

Quando entraram, Alecsandar, sem pestanejar, foi direto ao ponto.

— Você tem um concorrente.

— O quê?!

— Ele também está atrás de uma garota feciter de cerca de 18 anos.

— Impossível...os Darchinia sempre enviam apenas uma pessoa para esse tipo de missão.

— Por isso eu chamei ele de concorrente. Pelo menos ele comprou um artigo da loja. Os Darchinia deixam você fazer isso? – após um pequeno intervalo de silêncio, ele continuou – Então, acho que estou do lado dele. – após ver que a expressão de Kristin não transmitia nenhum tipo conhecido de humor, ele mudou o tom da conversa – Certo, então, o que você fará sobre isso? É com certeza um problema e tanto.

— Não sei – ela ainda não acreditava na possibilidade de algum outro tipo de organização possuir os mesmos objetivos que a Fundação de Elyrach – Contatar os Darchinia?

— Hmm… arriscado. Eles não tem vários outros problemas para lidar? Eu não os incomodaria com isso estando no seu lugar.

— Mas isso é urgente. O que teria em mente um outro grupo procurando as mesmas pessoas que nós procuramos?

— Espero que esse nós não me inclua.

— Preciso fazer algo. Não sei o quê, exatamente, mas eu preciso agir. E rápido. – ela se sentou na mesa metálica, sem sequer prestar atenção em onde se apoiava.

— Fique aqui por mais alguns dias. Esfrie a cabeça. Ajuda a raciocinar melhor, acredite.

— Não posso… você sabe.

— Tenho certeza que os Darchinia tem outros idiotas aptos a cumprir o mesmo papel que você em outras missões. Ou eles seriam muito estúpidos em confiar todo um projeto secreto a uma única pessoa.

— Não sou a única no que faço. Apenas a melhor.

— Isso… autoconfiança é o primeiro passo para uma vida mais feliz. Alivie toda essa tensão dentro de você.

Kristin riu. Não queria, mas riu, mesmo que brevemente.

— Eu vivo para o que faço, Alec. Assim como você, anos atrás.

— E veja só onde vim parar. Nessa espelunca empoeirada e ridiculamente pequena, onde consigo uma peça de prata a cada três meses, quando muito. Tem certeza que quer seguir o mesmo caminho que eu? Pense um pouco… na minha proposta. Você decide, mas eu, como amigo, e não como informante, recomendo que passe uns dias a mais em Ilydas. Principalmente porque essa maldita garota que você procura não será fácil de achar.

Aquilo era inesperado.

— O que quer dizer com isso?

— Essa garota à qual eu presumo que você esteja se referindo...o Tarsius me contou um pouco sobre ela. E devo lhe dizer que ela não quer ser encontrada.

— Do que está falando? Entrar na Grande Academia é o sonho de qualquer jovem no Reino.

— Se eu fosse você, pensaria numa proposta melhor para suborná-la, porque, pelo que eu soube, essa garota em especial não gosta muito de aparecer em público.

— Então você a conhece? Tem algum nome?

— Nome, não...mas tenho um sobrenome. – ele olhou para Kristin, que meneou com a cabeça, ordenando-o que seguisse em frente – É um tanto estranho. Tenho a impressão de que já ouvi falar nele. Mas não lembro de onde…

— Apenas diga logo!

— Calma, calma… – ele fez uma pausa – O sobrenome da garota, pelo que ouvi, é… – as velas se apagaram, como se a palavra que Alec estava prestes a dizer carregasse uma mística, ou melhor dizendo, como se trouxesse a escuridão consigo – Morrigan.