Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
31 Capítulo 30
Notas iniciais
O Elareum. De novo.
Pelo menos àquela hora não precisava perder cinco minutos burocráticos com Helmut. O homem parecia estar plantado ali há uns cinquenta anos, mas até ele tinha horário para descanso. Embora Arulus não duvidasse de que, em algum lugar dos dormitórios, Helmut sonhasse que estava escrevendo naquele mesmo lugar.
Estranhou também o fato de não dar de cara com nenhum dos irmãos Lakshmi, já que aquele costumava ser o momento preferido do dia para que eles resolvessem suas questões em paz. A madrugada tendia a ser um momento pacífico, como Mansel certa vez o confidenciara.
Deimos tinha algo em mente ultimamente, e não era sobre Aclus, ou a candidatura, ou nada que Arulus pudesse imaginar… pelos anos de convívio, sabia que o Pretor guardava algo mais problemático consigo. Talvez fosse essa a razão de tê-lo convocado para o Elareum às três horas da madrugada.
Soltou um prazeroso bocejo, levando a mão à boca em educação, mesmo sozinho. Só não estava completamente irritado com a inconveniência de Lyrael porque andava sonolento demais para isso. Precisava poupar suas energias para entender o que estava acontecendo.
Passeou tranquilamente através do salão e aproveitou para se imaginar ali em algumas semanas, frente a frente com o Conselho. Ainda não tinha começado a escrever seu discurso. Fez uma nota mental disso. Seguiu em frente. Era a sexta porta seu objetivo. Uma das três que nunca conquistara a permissão de entrar. Nem sequer sabia o que existia ali dentro, apesar de ter alguns palpites. Variavam de “cozinha” a “cripta dos fundadores”.
Observou os arredores antes de entrar, como que certificando-se de não estar sendo observado. Sabia, porém, que se estivesse mesmo sendo observado, aquela ação não faria a menor diferença. No fundo, tinha aprendido a conviver com o fato.
Tocou a porta e não evitou o espanto quando a mesma se moveu. Possivelmente nunca mais teria a oportunidade de ver aquilo acontecer. Não enquanto fosse um estudante. Passou pela entrada e viu escuridão pontilhada por tochas bruxuleantes. Ouviu o lento ranger da porta atrás de si acompanhar o feixe de luz do salão principal sumindo. Caminhou por mais vários metros de corredor, sempre com os quadros na parede. Imagens de antigos Conselheiros. Viu uma sala iluminada à esquerda, e não era a luz das tochas. Dela veio uma voz conhecida:
— Estava esperando você, Valet! – tinha eco.
Suas passadas ficaram mais largas até chegar na origem da voz.
— Por que me… – viu Aida sentada ao lado de Deimos – Por que nos arrastou para o Memorial, Deimos? E como conseguiu permissão para abrir isto?
Os quadros do corredor anterior eram apenas uma amostra do que aquele salão guardava. Arulus sabia de sua existência, mas não tinha a menor ideia de como acessá-lo. Centenas de molduras erguiam-se nas paredes, além de algumas estátuas que com certeza cumpriram bem seu papel de alimentar o ego de fosse lá quem as tivesse feito.
Duas dezenas de metros à frente, as duas outras almas vivas ali presentes estavam sentadas num banco sob a gigantesca pintura de Elac, o primeiro Grão-Mestre da Ordem e… primo em algum grau de Arulus. Nem Deimos nem Aida estavam lá muito sorridentes.
— Metodismo – respondeu ele, ainda com eco. O espaço era enorme, talvez maior do que o salão principal do Elareum – Além do mais, queria ter a certeza de que não estamos sendo ouvidos. Há muitos ouvidos atentos onde costumamos nos reunir.
— Você conta ou eu conto, Aida? – caminhava ainda deslumbrado com o palácio das lembranças erguido e escondido pelo Conselho.
— Eu dei a sugestão, Valet. Ninguém tem a permissão para visitar esse lugar, e quem a tem, não faz muito uso.
— E nesse momento eu volto à minha segunda pergunta. Como?
— Talvez você tenha se esquecido que está frente a frente com a responsável pela segurança da Academia. – disse Lyrael, confiante, apontando para a mulher ao seu lado.
— Você abre e fecha as portas por aqui. Esplêndido. Poderia ter avisado antes. – o syrel sempre tivera dúvidas acerca de Aida. Mesmo nas reuniões da Excelsis, ela sempre tomava a inteligente decisão de manter-se reservada. Só naquele momento se deu conta de que nem mesmo sabia o cargo dela na Academia. – Acho melhor seguirmos para a pauta, seja lá qual for.
Olhando de novo para o quadro de Elac Valesci, parou na frente dos dois. Lyrael gesticulou para que ele se sentasse.
— Lucas foi apagado. – Deimos foi direto ao ponto, para surpresa de Arulus. Não era típico dele.
— As notícias correm rápido. Quanto tempo levou para o Conselho ficar sabendo? Dois meses?
— Pelo que eu soube, o Conselho precisava confirmar. Achar o corpo, coisa do gênero. Nunca acharam o corpo, mas a mera notícia de avistamento da Cialeth na região já bastou.
— Oh. Eles estão pelas redondezas? Bem que eu desconfiei desse cheiro podre na cidade ultimamente.
— Não precisa se fingir surpreso.
— Não preciso e não estou fingindo. A última notícia que tive deles foi de antes mesmo que eu entrasse na Academia.
— Os amigos do seu tio tem esse mau hábito de exagerar na discrição.
— Ah, não. Até você, Lyrael?
O rapaz e seus olhos vermelhos sorriram.
— É maravilhoso ver sua cara quando você sofre esse tipo de pressão. – ao ouvir aquilo, Arulus sentiu suas orelhas queimarem – Não posso negar que ver você, Fjord e Zephyr se acusando me diverte. Pena que tenho que manter a fachada de Pretor sério e compenetrado. Basta um “mas o seu tio…” e você vira outra pessoa. Não concorda? – ainda sorridente, virou-se para a mulher ao lado.
— Às vezes esqueço que vocês ainda são crianças aprendendo a fingir que são adultos. – assentiu ela.
Sempre enigmática.
— Então. O que tenho a ver com Lucas? O que temos a ver com Lucas? – resolveu retomar o assunto.
Deimos o fitava com olhar analítico. Conhecia aquele olhar de perto.
— É uma oportunidade, Arulus. Uma peça acabou de cair do tabuleiro.
— Falando assim até parece que você foi o mandante do crime.
— Jamais faria algo tão torpe. Era um dos meus professores favoritos, e se estivesse mesmo interessado em me livrar dele, contrataria a Sibilo ou algum dos Irmãos Vésper. A Colheita me dá náuseas. Agora, admitir a gravidade do caso não implica em ignorar a brecha que surgiu no horizonte de gente como eu e vocês, que tanto gostamos de saber.
Arulus jurou, antes do fim da frase, que sua última palavra seria poder. Ademais, considerou razoáveis as palavras dele.
— Depende de quanto tempo será preciso até eleger um novo Conselheiro. É óbvio que os Darchinia – falou esta palavra em específico em tom mais baixo, como se, adentrando uma caverna, não quisesse acordar o urso adormecido – vão querer colocar mais um deles nas cadeiras. Vai saber, talvez eles tenham um neto ou sobrinho sobrando, de passagem por aqui. Se assim for, eles farão questão de agilizar o processo.
— Ingênuo. – disse Aida, curta e grossa.
Ofendido, Arulus fingiu que não se ofendera. Tentou fingir.
— Com todo o respeito, Aida, qual é o seu papel aqui?
— Aida é a maior informante da Excelsis. Junto com você. Eu não podia te contar, devido ao cargo dela, mas acho que o contexto é propício.
— Se for por isso, onde estão os Lakshmi? Toda semana eles aparecem com novos recados.
— Eles também são úteis, mas você consegue me dizer de que lado estão? – ele não esperou pela resposta – É, eu também não. De toda forma, por mais que eu não seja radical a ponto de chamar Arulus Valet de ingênuo, precisamos concordar: não seria tão simples nem se eles quisessem. Eles não tem quórum para mandar e desmandar no presente momento.
— Estão de viagem, por acaso?
— Fiquei sabendo de alguns Sentinelas realocados para se preparar para uma viagem a sua terra-natal. – disse a mulher, e os pelos de Arulus se eriçaram.
— Tarefa difícil é imaginar o que estariam fazendo por lá. – soltou.
Deimos levantou-se e passou a caminhar em círculos, talvez para alimentar o raciocínio. Conhecia bem aquele tique. Sempre o deixava nervoso.
— Alguns, porém, ficaram por aqui. Seria interessante tentar… huh, não posso dizer que conversar com eles seria a melhor decisão… poderíamos ficar de ouvidos mais atentos. – ele e Aida continuaram trocando palavras, mas Valet perdeu-se no discurso. Estava com uma coceira esquisita na garganta. Pigarreou para tentar melhorar, mas os outros dois ali presentes entenderam que o ato fora uma intromissão e se silenciaram.
Arulus trocou olhares constrangedores com eles. Resolveu falar, de qualquer forma.
— Hã… acho que Aida seria ótima para o que queremos. Já que ela é tão importante assim e tudo mais.
Aida pareceu não acreditar, nem tanto pela indicação, mas em quem havia
acabado de indicá-la. Percebendo a incredulidade, Valet prosseguiu:
— Não é brincadeira. De nós três… considerando todos, de todos os trinta, você é a única que tem a confiança de ambos os lados. Se queremos alguém dentro deste prédio, precisamos apostar com segurança.
— Curioso seu desprendimento. Muito inteligente, de qualquer forma. – respondeu Deimos. Estava apoiado na cadeira. Arulus sentia que, diferente de si, Lyrael não tinha tanto desprendimento daquela oportunidade de se aproximar dos conselheiros.
— Agradecida, Valet. Retiro um pouco das minhas palavras. Você não é tão ingênuo assim. – ela cruzou as pernas, talvez indicando maior interesse. – Mas não somos os únicos movendo as peças no tabuleiro.
Achei que seria poupado dessas analogias quando saí de Vallerica. Não conseguiu evitar o comentário, mas se esforçou para que o mesmo se limitasse à própria cabeça. Deimos pediu palavra.
— Fiquei sabendo de uma diplomata zwan a caminho daqui. A Liga do Comércio e, acreditem se quiser, a Sociedade dos Grimoristas estão interessados na vaga.
— É uma guerra em quatro frentes – ela complementou. – A Ordem está cercada de abutres.
— Nenhum dos abutres é tão próximo do Conselho quanto a Excelsis. – fez aquela colocação com certa amargura. – Não precisamos de pressa.
— Ainda estou ponderando se coloco a questão em pauta na próxima reunião. – o comentário de Deimos quase fez Arulus bufar.
— Faça isso e prepare-se para mais uma sessão de dedos apontados para todos os lados. Eles não vão nos deixar dormir. Como já fazem.
Finalmente, o rapaz voltou a se sentar.
— Quer guardar segredo do grupo de pessoas que se junta todo mês para guardar segredos?
— Eu não faria diferente – Aida comentou – Mas não sou Pretora. Nem Vice-Pretora. Mas se os outros descobrirem a ideia antes que ela se concretize, vocês dois serão massacrados. Não quero ser arrastada junto.
Se sentia estranho naquele momento, identificando-se com Aida. De todos os membros da sociedade, não esperava tamanha noção de estratégia de alguém como ela. Por mais que a mulher não mostrasse muita simpatia para com Valet, começava a considerar a ideia de convidá-la para uma caminhada ou
um café. Ela bocejou e de repente Arulus lembrou-se que eram quase quatro horas da manhã.
— Bem, o que mais precisa ser dito? Não quero acabar caindo no sono aqui. – já acontecera certa vez, numa reunião da Excelsis. Não sentia a menor falta de Magnus, e menos ainda de sua retórica insuportavelmente lenta.
Uma voz rouca ecoou pelo salão. Uma silhueta imponente, embora curvada, surgiu através das sombras das estátuas. Seus passos cuidadosos não emitiam som algum.
— Curioso. Achei que o Memorial estivesse trancado.
À luz da Grande Lua, o ancião revelou estar vestindo a túnica referente a seu cargo. O tecido branco e dourado quase reluzia em contraste com a monocromática e discreta roupa formal sob ele. Aquele homem nunca abandonava o posto, mesmo às quatro horas da manhã. Especialmente às quatro horas da manhã.
— Boa noite, Grão-Mestre. – retrucou Deimos, cortês e pacífico – Já estávamos prontos para sair e fechar o local. Belo memorial que o Conselho tem, a propósito.
Darkas sorriu, ou emulou um sorriso.
— Gostaram da visita? Já pensei em abrir o local para exposição, mas imagine o desastre que seria… milhares de pessoas visitando um local tão quieto. Estas estátuas precisam de paz.
— O senhor fala como se os alunos ao menos tivessem interesse em museus.
— Se ninguém viesse, seria outro desastre. Gostaram da visita ou não?
— Lugar maravilhoso. – disse Arulus. Aida permaneceu calada.
Darkas soprou suavemente a superfície da estátua de Dedalus Mihalidis, patrono da cadeira dezessete do Conselho. A poeira se espalhou pelo ar.
— Tinham razão em tudo que disseram. Ou no mínimo o que eu ouvi. Estamos, de fato, cercado de abutres. Por isso, fiz questão de me adiantar.
Oh oh. Sentia que Darkas nunca mais teria a mesma confiança na Excelsis e, especialmente, na família Valet.
— Não precisam se preocupar com os arranjos políticos. Esse é o trabalho do Grão-Mestre. Espero que estejam presentes na cerimônia amanhã.
— Quer dizer que… já convidou alguém para o Conselho? – perguntou Lyrael, quase ultrajado.
— Das figuras mais nobres que já conheci. Uma pena que seu mestre não esteja mais vivo. Seria uma opção ainda melhor. Agora, se os três me dão licença, preciso fechar o Elareum. Vocês merecem um descanso.
O Grão-Mestre sempre preparado e cheio de trunfos à disposição, tudo bem. Arulus conhecia aquela faceta de Darkas Haldhopper. Só não imaginou que existisse outra faceta. O Darkas cínico afetava os seus nervos de maneira que ficou praticamente imóvel desde que o ancião aparecera nas sombras do Memorial. Em momentos como aquele, entendia porque aquele era o Grão-Mestre. Até os Darchinia tremiam em frente ao velho.
Em silêncio, os três deixaram o local pela mesma porta por onde entraram. Fora do Elareum, a lua já começava a desaparecer no éter, e os primeiros raios de sol despontavam no horizonte distante. Tanto Aida como Deimos seguiram seus caminhos anestesiados, e Arulus não tinha o direito de se sentir muito diferente, mas mesmo assim teve ânimo para se espreguiçar e dirigir aos colegas algumas palavras:
— Então… vejo vocês na cerimônia.
Eles olharam para Valet, depois se entreolharam e deram de ombros. Não responderam. Sozinho, Arulus bocejou. Um plano que nunca aconteceu. Uma noite de sono desperdiçada.
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