Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
29 Capítulo 28
Notas iniciais
Ainda era estranho encarar o ancião novamente. Lars não se esquecera do que o velho havia lhe dito semanas antes. Estavam no porão dos Seolnann, um casal de idade próxima à do velho barbudo que, a pedido do próprio, estavam acolhendo Lars e Gael como hóspedes já há duas semanas. O porão era o lugar mais espaçoso que tinham, além de não ficar às vistas de guardas transitando do lado de fora. Já tinha perguntado para os dois porque atenderam tão prontamente ao pedido, mas eles se limitaram a dizer que deviam suas vidas ao ancião, cujo nome também não sabiam.
De fato, Eliza e Calvin eram naturalmente solícitos, mas em especial a K, como costumavam chamá-lo. Apenas no período em que esteve na casa, viu os Seolnann receberem dois desconhecidos (no caso, o próprio Lars e seu tutor), oferecerem banho e comida, esconderem uma adaga ensanguentada e saírem para distrair guardas com conversa fiada, tudo como pedido por K. O jovem aprendera com o tempo que nem adiantava questionar o que se passava na cabeça de K.
Desde então, ele fazia suas aparições vez ou outra, mas aquela era a primeira ocasião em que podiam conversar de verdade, pois ele costumava chegar enquanto Lars dormia. Estava de pé ao lado da mesa, segurando o que devia ser uma bengala. Não parecia precisar dela, a julgar por sua postura firme.
Lars deixou escapar um longo bocejo. Tinha acabado de acordar. K dissera, a seu próprio modo estranho, que era uma situação de emergência. Não sabia do horário, afinal o porão não tinha janelas, mas ouvia um grilo e via luz de velas vindo da porta aberta, então imaginou que ainda fosse madrugada.
A senhora Seolnann desceu, levando cuidadosamente um objeto envolto num pano até a mesa. Era a hospitalidade em pessoa. Não tirava o sorriso simpático em ocasião alguma, atitude que casava com seu visual de “senhora hospitaleira” com seus cabelos brancos já rareando, rosto redondo e olhos pequenos. Contrastava com o marido Calvin, que parecia um típico lenhador aposentado, exceto pela ausência de barba. Ele devia estar dormindo àquela hora, depois de um longo e cansativo dia sentado na sala comentando detalhes de sua juventude, quando os dois eram aventureiros e exploravam todo o Reino. Os tempos eram outros.
Ela deixou o pano na frente de Lars. K se aproximou e desenrolou o objeto, revelando a adaga que estava escondida na casa, curiosamente familiar e ainda suja.
— Para quê isso? – perguntou.
K manteve-se silencioso. Eliza Seolnann deu de ombros.
— Também não sei, querido. Apenas espere.
O rosto de Lars não poderia expressar mais dúvida.
O velho K estava de olhos fechados, aparentemente esperando como a senhora disse para fazer. Lars lembrou-se de quando o viu meditando nos arredores da cidade. Parecia ser especialmente perigoso quando fechava os olhos, mesmo que sua expressão indicasse que sua consciência estava bem distante dali.
Gael desceu. Lars estremeceu ao ouvir seus passos. Aquele som ritmado nunca mais seria o mesmo depois do que aconteceu na taverna. O homem também sentou-se à mesa. Eliza sorriu.
— Acho que temos todos prontos. Até logo, garotos. – falou com naturalidade, já se dirigindo de volta aos degraus que levavam à cozinha. Passava as mãos no avental azul, talvez sujas do sangue na arma que trouxera.
Ao olhar para a adaga, porém, notou que o sangue estava seco. Fazia sentido.
— Perdi alguma coisa? – Gael olhou para Lars, sabendo que o idoso não o responderia. Acordaram ao mesmo tempo, mas o homem parecia muito mais desperto.
— A adaga – surpreendentemente, K respondeu antes que Lars pudesse sequer formular uma resposta – Por isso, estou devolvendo.
Ao terminar a frase, ele abriu os olhos azuis. Gael e Lars trocaram olhares, em seguida fitando a lâmina sobre a mesa.
— Essa… como você… ? – seria divertido ver Gael com aquela expressão confusa, se Lars não partilhasse do mesmo sentimento.
— Não é importante – ele ainda olhava fixamente para o mesmo ponto, que não era nem o jovem nem seu tutor – É uma devolução.
— De quem é o sangue? – Lars tinha medo do que poderia ser a resposta.
— Ainda menos importante. Vão precisar. Peguem.
Após instantes de silêncio, Gael estendeu a mão até a arma. Analisava a adaga, provavelmente para ter certeza de que era a sua, entregue à guarda no momento em que entraram na cidade.
— Obrigado, eu acho.
Não se tratava de uma adaga qualquer. Se fosse uma adaga qualquer, afinal, Gael não teria se dado ao trabalho de roubá-la em Mirasia. A lâmina era de aço selenino, uma liga que apenas alquimistas eram capazes de criar. Ou pelo menos foi isso que o nobre e distraído antigo dono da arma disse durante o trajeto até Elyrasia. Lars estava surpreso com a arma ainda estando na cidade,
considerando seu alto valor.
K continuou com o discurso.
— O tempo corre. Não nos resta muito.
— Já ouvi isso mais do que gostaria – retrucou o garoto.
— Mas sabe que é a verdade. Ele também sabe.
Gael assumiu que fosse o referido ele.
— Não é nenhuma novidade. Era isso que queria dizer a esta hora da madrugada?
— Não, não – o velho balançava a cabeça lentamente – Mais do que isso. Distrações. Alçapões.
— Como o que fez para a Cialeth?
— Vários deles.
— Maravilhoso – Gael assumiu uma expressão mais tranquila – Podemos andar pela cidade, então? Temos que encontrar alguém, e como você mesmo disse, o tempo é limitado.
— Ingênuo – pela primeira vez, ele direcionou o olhar aos dois outros presentes no porão – Os alçapões não são suficientes. Longe disso.
— Que surpresa— Lars comentou.
— E o que espera que eu faça, huh? Quer que eu esfaqueie toda a guarda da cidade e todos os assassinos imperiais que encontrar por aí? – ele ergueu a adaga. – Não podemos ficar aqui dentro para sempre.
— Concordamos. Eliza e Calvin não se envolvem. Guardas tem olhos nesta casa.
— Nunca foi parte dos planos envolvê-los.
— Ficar aqui nem é uma opção – Lars comentou, como se quisesse mostrar que também estava ciente das pautas – Mas…
— Os rostos – K passou a mão sobre a própria face – não podem ser vistos.
— Isso. Mesmo com capuzes. – Gael concluiu o raciocínio. – A guarda anda mais atenta.
— E como exatamente nós podemos andar pela cidade sem sermos vistos por absolutamente ninguém?
O olhar de Gael se iluminou com uma faísca de epifania.
— Eu sei de um lugar. Acho que isso não é mais um problema.
Lars tinha curiosidade e medo pelas possibilidades da ideia do seu tutor. Aquele olhar iluminado já tinha levado os dois a uma dúzia de situações desagradáveis.
— Aguardo ansioso.
— Eu também preciso ir. – K já fitava intensamente um ponto vazio de novo – Deveres a cumprir. Alguém importante.
— Importante para o futuro, como você diz?
Não sabia o porquê, mas achou necessário destacar a frase que o velho havia sussurrado em seu ouvido no primeiro encontro deles. Talvez porque ainda não a compreendia muito bem. Concordar com a colocação parecia um pensamento megalomaníaco, mas não se via no direito de discordar. K parecia saber das coisas naturalmente. Não como Gael, que era bem informado; o idoso detinha um conhecimento mais… primordial. Como se aqueles olhos azuis pudessem decifrar todos os seus segredos.
— Assim como você, de fato. Agora, partimos – caminhou em direção à escada – Protejam-se.
— Vamos nos ver de novo? – questionou Gael.
Ele se virou.
— Vou para um lugar distante. Etéreo. E quente.
Em sua mente, Lars maquinou as possibilidades de lugares que poderiam ser associados aos três fatores mencionados, mas não teve muitas ideias que não fossem meras lendas. Cogitou perguntar diretamente o nome do local, mas sabia que K daria uma resposta confusa e nada satisfatória, então guardou suas palavras.
K subia as escadas. A senhora Seolnann apareceu na porta, ouvindo seus passos.
— Ora, está partindo de novo?
— Devo ir.
— Cuide-se. Traga lembranças quando voltar. Gostaria que Calvin estivesse acordado. Ele não vai ficar feliz quando souber.
Lars e Gael também subiam.
— Até logo, Eliza – era a voz já distante de K. Em seguida, o rangido da porta da frente se fechando.
Ela não respondeu. Em vez disso, virou-se para o garoto e seu tutor, os três próximos à porta do porão.
— Ele sempre faz isso. Calvin sempre está dormindo quando ele se vai. Bons tempos em que éramos almas livres como K.
— Também vamos partir, senhora Seolnann. Agradecemos a…
— Tem certeza? Ainda deve estar perigoso lá fora.
— Temos nossas soluções. Muito obrigado pela hospitalidade – disse Gael, embora Lars tivesse tomado gosto pela comida e pela referida hospitalidade do casal.
Ela assentiu, bocejando em seguida.
— Se vocês tem pressa, então também tenho pressa. Vou preparar alguma coisa para os dois e desejar boa viagem – antes de ir em direção à cozinha, ela olhou para Lars – E você, querido. Lars, não é? O velho K viu algo em você. Então há algo para ser visto. Tome cuidado.
Sem pressão, dizia o olhar de Gael naquele momento. Talvez com uma dose de cinismo.
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