Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
12 Capítulo 11
O dia estava, para variar, bastante nublado.
Kristin não sabia se conseguiria suportar a próxima manhã caso acordasse e visse um céu cinza novamente.
Apenas por precaução, resolveu fechar a janela, por mais que adorasse sentir a brisa da manhã (brisa deveras fria, naquela manhã específica) tocando seu rosto. Não queria correr o risco de se molhar, e consequentemente ao sobretudo de tecido sintético preto e cinza que comprara justo para a estadia em Ilydas.
Tecido sintético era novidade, e obviamente, material muito caro, mais por praticidade no uso e dificuldade de produção do que pela beleza. Kristin não gostava de seguir as ditas modas. Coisa fútil, para pessoas fúteis.
Apesar de ainda serem sete horas, horário em que a maioria dos cidadãos ou começavam a se preparar para a labuta diária ou dormiam profundamente, Kristin detestava as camisolas que a maior parte das mulheres usa no período matinal, então já se encontrava pronta. Pronta para o quê, era a dúvida.
As investigações quanto à feciter, por enquanto, estavam nas mãos de Alec. O veterano prometera ajudar no que pudesse, em especial naquele caso. Era a primeira vez que alguém além dos envolvidos numa missão da Fundação de Elyrach sabia a identidade do alvo e possuía o mesmo objetivo que os enviados dos Darchinia.
Esperava que Alec conseguisse avançar rapidamente em sua busca por informações, pois odiava ficar parada, sem agir. Embora soubesse que aquela parte do plano não lhe cabia, estava desesperada para participar ativamente da missão que, oficialmente, era a ela incumbida.
Sentou-se na cabeceira da cama, com as pernas de lado, se esticando para alcançar um dos biscoitos de cereal deixados em cima do criado-mudo pelo seu admirador secreto, e feitos com amor. Ignorou o pequeno bilhete colocado junto ao prato com os biscoito e uma xícara de chá forte, como ela preferia. Já estava acostumada ao modo que Alecsandar zombava dela, utilizando apelidos e métodos forçosamente românticos e melodramáticos para com ela, apenas com o intento de tirá-la do sério. Nunca fora muito apegada a questões amorosas.
Mas não funcionava mais. Alecsandar forçara tanto aquela zombaria, que se tornou corriqueiro para Kristin, todas as vezes em que ia a Ilydas.
Ouviu um chiado.
Chuva, pensou. Não era incomum. Ilydas se localizava no Norte, o que para a maioria das cidades significava muita neve, mas aquele ponto específico da região se tratava de uma depressão circundada por inúmeras montanhas. Ou seja, a maior parte da precipitação climática regional pairava sobre aquela cidade.
Como que em sincronia com a fina garoa que aos poucos tornava-se uma forte chuva, a porta se abriu de supetão, fazendo um blam ao bater na parede.
Kristin perguntou-se que tipo de pessoa teria coragem de escancarar assim a porta do quarto alheio numa pousada, mas não precisou de resposta ao virar-se e ver o rosto de Alecsandar.
Ao seu lado, um rapaz desconhecido, com óculos(objetos raros e de valor) de aros e lentes grossas, dotado de feições um pouco desconfiadas.
— Bom dia, flor do dia. Gostou dos biscoitos?
— Estou maravilhada. Uma pena que o remetente seja um completo imbecil.
— Não se preocupe; ele fica feliz só de saber que você gostou. Se eu contar, com certeza dará pulos de alegria.
Kristin esboçou um sorriso no canto da boca, como que não sabendo mais de que forma reagir.
— E esse seria…? – questionou, apontando com um dedo para o sujeito desengonçado de óculos, enquanto comia mais um biscoito. Deuses, ela era apaixonada por aqueles aperitivos.
— Ora, ora, senhorita Galten… não o reconhece?
Esforçou-se para tentar ver algo familiar na figura, mas simplesmente não encontrou nada reconhecível.
— Não. – denotou certa dúvida no final da frase.
Alec gargalhou com escárnio.
— É claro que não. Isso só prova como ele é bom no que faz!
Alheio ao estúpido e quase incompreensível senso de humor do veterano, o jovem deu alguns passos à frente, estendendo a mão para Kristin, que devolveu o gesto, antes limpando a mão das migalhas de biscoito.
— Bom dia, senhorita Galten. Chamo-me William Waldriff. É um prazer conhecê-la.
— Waldriff?
— Isso mesmo. Sou sobrinho de Henry III.
— E o que faz, andando com vagabundos maltrapilhos como Alecsandar?
Ele sorriu desconfortavelmente.
— Fui escolhido pelo meu tio para liderar em seu lugar a Terceira Ala da Idrafentur, a Mão Branca.
Só podia ser mentira.
— A… a Mão Branca? A sociedade?
— Somos mais uma ordem de bons homens do que uma sociedade, senhorita Galten. Nos chamar de sociedade passa má impressão. Mais do que precisamos.
— E quais seus objetivos aqui?
— Ajudá-la a encontrar o que deseja. A corrompida.
O modo como ele se referiu à garota irritou tanto quanto enojou a Kristin.
— Presumo que possua contatos que possam ajudar na busca.
— Em verdade, não. Eu costumo ser esse contato.
Um pouco de prepotência, também. Kristin estava cada vez mais adorando aquele sujeito.
— William é jovem, mas é especialista em achar rastros. Sabe a geografia de guetos inteiros. Os fe… eles costumam se alojar por lá. – Alec parecia ter medo de usar o termo feciter perto de Waldriff.
— Vou reunir alguns colegas próximos. Descobrir o que sabem sobre o nome Morrigan.
Com “colegas próximos”, Kristin entendeu “sujeitos racistas e xenofóbicos com quem compactuo”. De todos os contatos que Alec poderia ter, um membro – importante – da Idrafentur era o melhor possível para o que era preciso, por sua eficiência; mas também o pior, por suas atitudes e ideologias detestáveis.
— E quais as chances de você conseguir algo que me seja útil?
— Ceticismo é sempre bom. Não crie expectativas. Mas devo alertar que somos eficientes. A Idrafentur não mede esforços para pôr em prática os valores em que acredita.
O modo subliminar como o jovem sem jeito insinuava a má índole em seus atos (e nos de todos que compunham a Mão Branca) era até mesmo cômico.
— Que seja. Espero não me decepcionar. Obrigada pela disposição em… ajudar.
Ele fez uma mesura.
— E não é apenas isso – Alec adentrou o quarto, bebericando uma xícara de vinho que estava numa cômoda – Não achou que ficaria parada, achou? Vamos perambular sem rumo por alguns dias. Conhecer a gente das ruas. Arranjar contatos. Expandir hori…
— Certo, Alec. Já entendi. Sem mais termos.
— Isso é bom. Se entendeu, apronte-se. Temos muito a fazer, ainda hoje.
— Da mesma forma, a Idrafentur. Tenha um bom dia, senhorita Galten.
— O mesmo para você… William. – Kristin não sabia qual título se encaixaria melhor para o sobrinho do governador da cidade.
Alguns minutos se passaram, com os dois restantes na sala trocando olhares, intercalados por pequenos goles de vinho. Não era saudável beber álcool àquela hora, mas Kristin não sabia bem como proceder.
— O que achou?
Alec parecia debochar dela com tal pergunta.
— O que achei, Alec? A Idrafentur? Entre todas as opções, você foi falar com a Mão Branca? O que deu em você!?
— Eles são eficientes.
— Eficientemente racistas. Xenófobos. Possuem o pensamento preso a ideologias atrasadas, que se prevalecessem, levariam o Reino ao buraco!
Alec assumiu, com olhar sombrio.
— Mas continuam sendo eficientes. – murmurou. – Se quer achar a tal garota, e rápido, o meio mais óbvio é conversar com quem sabe onde ela está.
— Eles não sabem onde ela está.
— Mas sabem onde ela pode estar. O que já é mais do que sabemos, certo? Abandone logo suas noções de caráter, honra, ou que quer que tenha trazido de Elyrasia, Kristin. Conheço os Darchinia; não estão nem aí para como você consegue, mas apenas se você consegue. A Fundação sobrevive há séculos dessa forma. E não acho que vá mudar tão cedo. Que tal, então, levantar-se, respirar fundo, pôr uma capa de chuva e acalmar os pensamentos, antes de me acusar de mau-caratismo?
Sua posição permaneceu tão firme quanto suas palavras. Seus argumentos eram convincentes. Mas a Idrafentur continuava sendo idiotice.
Kristin pôs-se de pé, mastigando o último biscoito do prato.
— Se pensa que eu o estou perdoando, ou que a partir de agora considero a Mão Branca uma opção sensata, quero que saiba…
— Que estou muito enganado. Tudo bem, Kristin. Eu diria o mesmo quinze anos atrás. E sei bem que a Idrafentur não é exatamente a mais bem-intencionada das sociedades. Vamos, temos alguns comerciantes e mensageiros com quem conversar. O dia será cansativo. – ele pôs a xícara de volta na cômoda.
— Todos os dias estão sendo cansativos, Alecsandar. – disse, pondo uma capa de chuva num tom de verde tão morto que mais parecia cinza.
— E é melhor que continue assim. Cansaço remete a trabalho duro. E logo teremos resultados. Você verá.
— Posso saber por que se dispõe a me ajudar com tanta vontade?
— Não pelo mesmo motivo que Waldriff, pode ter certeza. – ele riu com aquela característica voz rouca.
— Não duvido de nenhuma possibilidade. – os dois saíram do quarto, e Kristin girou as maçanetas, fechando ambas as portas. – Quanto custa a estadia aqui?
— Não sei. Mas não deve ser barato. Não são todas as pousadas que servem vinho e biscoitos para seus hóspedes.
— Eu sei bem quem fez isso. Não foi a pousada. Mas devo dizer que considerei a atitude amável.
— Ora, que sorte do sujeito que o fez, então. Acho que contarei a ele. Dará pulos de alegria.
— Ou rirá em deboche do meu acesso sentimental súbito.
— É. Essa também é uma possibilidade válida. Acho até que prioritária.
O saguão de entrada da pousada era luxuoso. As cerâmicas brancas do chão reluziam, e os candelabros cristalinos reluziam como brincos, embora o dia estivesse particularmente escuro.
O balcão era ornado com alguns vasos floridos, mas sua beleza era ofuscada pelas expressões rudes dos funcionários ali dispostos. A pousada não era sequer movimentada, mas a maior parte dos empregados ali era acometida pelo que Kristin chamava mal de Ilydas: uma melancolia profunda e crônica. A aura nublada da cidade parecia afetar os nervos de seus habitantes.
Pagou à mal-humorada dona da pousada sete moedas de prata, e dirigiu-se até a saída do local.
— As pessoas daqui entristecem a alma.
— Um sorriso é o máximo que a maioria dos súditos deste Reino pode expressar.
— Mas Ilydas bate recordes.
Cruzaram a larga abertura na entrada da pousada. Estavam agora num calçadão lotado de comerciantes. O piso, molhado, devido à chuva que aos poucos se tornava uma fina garoa.
— Então… para onde iremos primeiro? – Alec semicerrava os olhos, apesar da fraca luz solar ali fora.
— Você decide. Conhece a cidade melhor que eu.
— Tem certeza que está pondo até isso em minhas mãos?
— O que mais posso fazer? – ela deu de ombros.
— Bem… a manhã será mais longa do que eu pensava. – começou a caminhar lentamente, com um toque de cinismo em seu rosto.
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