Prelúdios para Amor e Guerra
2 Família Real Russa - Vermelho e Branco do Luto
Notas iniciais
"Quando um dos seus pais morre, você perde o seu passado; quando um dos seus filhos morre, você perde o seu futuro."
Desconhecido
The Band Perry- If I Die Young
A primeira vez que Dimitri presenciou a morte ele ainda não sabia o que aquilo era, uma mera criança de 5 anos que não entendia porque seus irmãos choravam ou porque as bandeiras da União estavam todas a meio mastro, não sabia que nunca mais veria o rosto de seu amado avô, também não sabia que sua vida a partir só pioraria.
Ele amava seu avô, um velho senhor de bondosos olhos castanhos e um sorriso caloroso, fora Czar por longos anos, gentil e amado por seu povo até que a frágil saúde o fizesse renunciar o trono em favor de seu filho e depois disso passou a dedicar-se totalmente a seus netos, especialmente ao caçula que era seu preferido enquanto Yelena favorecia o menino do meio e Ivan só tinha olhos ao primogênito. Dimitri não sabia, talvez ainda não saiba, mas era seu avô quem o protegia das tristezas da vida e com sua morte foi Liev quem assumiu a função.
Nos dias que se seguiram a tragédia ele ainda perguntava sobre o avô a qualquer um que via, mas ninguém tivera coragem de dizer ao amável garotinho que sua pessoa favorita no mundo tinha partido desse mundo. Foi somente no dia do velório que Yelena puxou o filho de lado e em palavras gentis explicou o acontecido e abraçou-o enquanto as lágrimas jorravam.
Dimitri ainda chorava quando foi levado por Liev para dar as adeus finais. O avô parecia pacífico, morrera em seu sono, caixão branco a exemplo da tradicional roupa fúnebre, as flores depositadas sobre o corpo do amado homem eram belas papoulas num forte tom de vermelho guardadas somente para tais eventos. O corpo foi enterrado ao pôr do sol e levou consigo um pouca da normalidade daquela família.
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A segunda vez foi mil vezes pior. Não só a visão do corpo, mas a situação em si era demais para um garotinho de 8 anos, alguém deveria ter-lhe protegido, mas Aleksei era apenas um pouco mais velho e seus pais estavam preocupados demais com outros assuntos para cuidar de algo assim. Liev estava doente e ninguém sabia o que fazer, seu amado irmão, que lia histórias para ele dormir agora que o avô não podia, que sempre arrumava tempo para brincar com ele, que intervia sempre que o pai começava a ficar assustador. Amável, inteligente Liev que amava a União o povo e a família estava morrendo.
No começo parecia uma gripe insistente, ninguém deu muita atenção afinal estavam em pleno inverno e Liev gostava de ficar na neve, mas então com a febre persistente vieram os delírios e os calafrios. Foi então que a preocupação começou a surgir e com razão, em um mês o herdeiro estava confinado a cama, sofrendo de dores horríveis e tossindo sangue. A nação inteira se desesperou, médicos iam e vinham como moscas só que nenhum parecia capaz de identificar o que lhe aflingia e conforme os dia passavam o rapaz apenas piorava, seus períodos de lucidez diminuíam e os delírios se tornavam mais fortes. Dimitri ficava sempre ao lado do irmão, desesperado para que este não o abandonasse também, Yelena também estava sempre lá, a Czarina recusava-se a sair do lado do filho doente e ignorava tudo que não ele, sua própria saúde sofrendo danos por negligência.
Foram eles que presenciaram os últimos momentos de Liev. Era um de seus poucos e curtos períodos de lucidez- E até hoje o príncipe não sabe dizer se isso foi bom ou ruim-, confortara a mãe e tentava preparar o irmão para sua partida estando ciente que estava morrendo, mas enquanto tentava a tosse começou, sangue lhe escapando dos lábios e manchando os lençóis brancos. A mãe gritou por ajuda e tentou acalmar Liev, mas Dimitri só pode assistir congelado o sangue corrompendo o branco e as respirações do irmão vindo cada vez mais difíceis. Então parou. O sangue, as tosses, a respiração entrecortada, o coração do herdeiro. Liev se fora.
Os dias até o enterro foram torturantes, Dimitri só conseguia chorar, Aleksei agora o herdeiro estava em total negação, a mãe hora parecia inconsolável hora catatônica, e o pai... Dimitri começou a ter medo dele, dos gritos e das palavras duras.
No momento que Liev foi enterrado Dimitri tinha certeza que sua vida nunca mais seria a mesma.
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(Na noite do enterro Dimitri encontrou seu pai chorando no quarto do filho morto. O menino fora até lá em busca de alguma coisa que o ajudasse a preservar a memória do irmão e a visão o chocou mais do que tudo, nunca antes vira Ivan triste quem dirá chorando.
Algumas horas depois era seu sangue que criadas perturbadas limpavam do chão do quarto e dos lençóis brancos. Foi a primeira vez que o senhor seu pai lhe bateu e não havia ninguém para salvá-lo ou consolá-lo)
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(Yeva foi envolta em uma manta vermelha quando nasceu, um lindo bebê com olhos azulados e risada contagiante, completamente alheia ao sofrimento anterior a seu nascimento, um raio de luz para uma família desestruturada desde a perda de Liev a um ano. Dimitri temia segurá-la, mas amava olhar e ajudar a mãe com ela- A Czarina recusava-se a deixar que outros tomassem conta da pequena, sussurros diziam que a soberana estava lentamente enlouquecendo pelo luto.)
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Na terceira vez não houve nenhum aviso, nem mesmo um corpo propriamente dito. Só a terrível notícia de um acidente em algum lugar sobre a Mongólia que virou matéria de capa em todo o mundo e recebeu intensa cobertura da mídia. Um terrível acidente envolvendo um avião transportando membros do governo russo que retornavam de uma missão diplomática na Ásia, entre os passageiros encontrava-se o príncipe herdeiro Aleksei de apenas 15 anos. Não houve sobreviventes, o corpo do jovem nobre foi resgatado do local em terríveis condições e sua causa da morte foi determinada como um pulmão perfurado, o enterro estava marcado para uma semana em Moscou.
A notícia acertou a família real como um baque surdo. Ivan não mostrou qualquer reação além de aumentar seu consumo já elevado de álcool, Yeva era muito jovem para entender para a menina de quatro anos não havia nada de muito diferente, Yelena estava catatônica, não gritou ou chorou como fizera com Liev mas deixava claro que não estava lidando bem e Dimitri, pobre menino agora herdeiro da nação de apenas 11 anos, estava em choque como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo e nada fizesse sentido. Aleksei estava morto.
Os dois não eram particularmente próximos mas se falavam frequentemente e Alek sempre confessava seus medos e esperanças para o futuro. Dimitri sabia tudo que o irmão desejava fazer, todos os seus planos e paixões e de certa forma isso tornava sua morte muito pior. Alek era animado, aberto e sorridente, ele amava a vida, amava as pessoas e elas o amavam de volta. Ele não deveria ter morrido, Dimitri não deveria ser o herdeiro da União Russa, tudo estava errado.
O caixão estava fechado. O corpo não tinha condições de ser exibido para ninguém, quem diria para a já transtornada Czarina e os jovens irmãos do falecido, só houve um caixão de madeira rubra e as costumeiras papoulas vermelhas, a combinação só lembrando Dimitri da cor do sangue. Talvez por isso tenha deixado uma única rosa branca no mar de vermelho um lembrete da pureza infantil de seu querido irmão.
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(Naquela noite o pai foi tirar satisfação sobre essa quebra absurda de tradição, ele estava bêbado e furioso, seus gritos foram ouvidos por todos nas proximidades, bem como as súplicas de Dimitri. Mas ninguém fez nada, como nunca fizeram antes e nem nunca fariam, todos ignoraram as contusões no garoto)
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Perder Yeva foi como esquecer como respirar, como perder seus pulmões e ainda ter que continuar vivendo. Foi como perder Aleksei de novo, não houve avisos ou qualquer coisa que os preparasse, foi súbito, violento e destruiu o que restava de sua patética família, arrastou para a lama a sanidade de sua mãe e qualquer som de risos no palácio.
Devia ter sido seguro, uma semana passada em St Petesburgo por conta das reformas sendo realizadas no palácio de Moscou- Cortesia de um ataque rebelde-, ninguém previa que algo pudesse acontecer tão cedo, mas todos estavam errados. As seis horas da tarde ouviram-se os primeiros disparos e explosões nos muros, bem como os gritos de criadas e guardas, a situação rapidamente processada pelos presentes, rebeldes haviam se infiltrado no palácio. Dimitri foi rapidamente escoltado para um lugar seguro- O medo de perder outro herdeiro era forte mesmo depois de 2 anos do falecimento de Aleksei- o pai juntou-se a ele momentos depois, entretanto ninguém consegui encontrar a Czarina e a princesa.
Não foi um ataque longo, em menos de uma hora os guardas subjugaram os rebeldes e começaram as buscas pelas nobres desaparecidas. Foi uma criada que as encontrou, seu grito alertando a todos de que algo estava errado, Dimitri correu até lá. Nos anos após essa decisão ele aprendeu a se arrepender, a odiar ter seguido o som e se deparado com aquela cena medonha, depois de ver a morte de Liev ele nutri a impressão de que nada mais grotesco e triste podia existir, mas estava errado. Tão, tão errado.
O que primeiro o atingiu foi o cheiro de sangue, depois os gritos abafados de sua mãe, por fim a visão que ainda faz seu estômago embrulhar e lágrimas encherem os olhos. Sua mãe estava ajoelhada no chão, os cabelos platinados uma bagunça e sangue ainda lhe escorrendo de um corte na têmpora, o vestido encharcado de um sangue que não lhe pertencia. Yelena abraçava o corpo da filha caçula, a pequena estava morta, Dimitri soube assim que se aproximou, olhos vazios encarando o nada, pálida demais, uma poça de sangue se alastrando cada vez mais pelo chão de mármore e contaminando-o para sempre, a mãe chorava como nunca antes, a chegada deles parecia ter desencadeado seus gritos de gelar o sangue, súplicas desesperadas para que lhe devolvessem sua filha. Natalya estava em pé ao lado dela parecendo congelada e alheia a tudo, inclusive ao sangue que lhe escorria do lado esquerdo do tórax, sua boca aberta como se paralisada num grito surdo, as pessoas começaram a chegar e cuidar do que era necessário, mas a exemplo da tutora o czarevich estava congelado.
Yeva era uma criança, sua irmãzinha. Ela não deveria estar ferida quem dirá morta, a dor de perde-la era parecida e ao mesmo tempo totalmente diferente daquelas anteriores, o mundo estava errado e o sentido desaparecera para sempre, porque Yeva estava morta, porque ela era uma criança inocente que nunca fez nada de errado e mesmo assim fora tirada desse mundo de forma tão violenta enquanto Dimitri estava completamente ileso, um estorvo e um erro aos olhos do pai e um pobre substituto para a mãe.
No enterro eles eram um retrato de pedra. Ninguém chorou, Ivan parecia indiferente, Dimitri vazio como um boneco e Yelena era um fantasma de olhos assombrados. A morte de Yeva os quebrou de uma vez por todas.
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