Prelúdio da Morte

8 Capítulo Extra - Regras de uma história de mistério e assassinato


Regras para se construir um mistério — Kyo

Nº1 – Sempre há um detetive em uma história de assassinato, ele nem sempre precisa se revelar, ou então, a narrativa não precisa revelar quem ele é, mas ele estará presente para analisar os fatos e desvendar quem é o assassino.

Nº2 – O Detetive não pode ser o assassino. Assim também como não pode ser o cúmplice e nem participar diretamente de mortes.

Nº3 – Em mistérios, não se pode conter nada sobrenatural, elementos do além, mágica, truques de mágica, ilusão de óptica ou coisas ligadas a espiritualidade. Tudo tem uma explicação lógica por trás de cada ato, nada acontece por acaso ou é jogado no contexto.

Nº4 – Não pode haver mais que um culpado. Só há um assassino em um mistério, podendo este ter no máximo um cúmplice que não matará ninguém, apenas ajudará e acobertará seus atos. É impossível que o assassino morra primeiro que o cúmplice.

Nº5 – O assassino não pode morrer até ser descoberto.

Nº6 – O cúmplice está sujeito a morrer sem que seja descoberto, mas deve ser revelado no final da trama. Ele precisa ter uma boa ligação com o assassino.

Nº7 – Em um mistério é proibido o uso de armadilhas, portas e passagens secretas, assim como situações de morte impossível.

Nº8 – É proibido ocorrer uma morte sem explicação. Todas as mortes precisam de uma explicação plausível e científica.

Nº9 – Há sempre um elemento central que move o assassino. Ele nunca age apenas por agir, há sempre algo que aconteceu no passado que o influencia a cometer seus crimes.

Nº10 – Nunca haverá mais que um detetive.

Nº11 – É proibido qualquer tipo de suicídio.

Nº12 – Todas os mortos identificados estão literalmente mortos.

Nº13 – Ninguém pode se fingir de morto.

Nº14 – Ninguém tem poderes especiais ou grandes habilidades que influenciam no crime.

Nº15 – Detetives não precisam ser policiais, investigadores ou espiões, apenas pessoas que querem descobrir a verdade.

Regras para se construir um mistério – S.S Van Dine

O leitor deve ter oportunidade igual à do detetive de solucionar o mistério. Todas as pistas devem ser claramente enunciadas.

Nenhum truque ou tapeação proposital deve ser utilizado pelo autor, senão os que tenham sido legitimamente empregados pelo criminoso contra o próprio detetive.

Não deve haver interesse amoroso no entrecho. A questão a ser deslindada é a de levar o criminoso ao tribunal e não a de levar um casal ao altar.

Jamais o detetive deve ser o culpado. Isso seria tapeação: naturalmente porque o raciocínio do leitor está voltado para o rol de suspeitos.

O culpado deve ser identificado mediante deduções lógicas e não por acidente, coincidência ou confissão forçada. O contrário disso seria mostrar ao leitor que todo o seu trabalho de dedução foi inútil pois o tempo todo o autor tinha o nome do criminoso.

É necessário que haja um cadáver. Quanto mais morto, melhor. Os crimes menores que homicídio são insuficientes. Só o assassinato desperta no leitor seu sentimento de vingança e horror.

O problema do crime deve ser solucionado por meios rigorosamente naturais. Métodos como leitura da mente, reuniões espíritas, bolas de cristal estão excluídos. O leitor deve ter oportunidade igual à do detetive para solucionar o mistério; se ele tiver que competir com espíritos, bolas de cristal, etc, fica em desvantagem.

O culpado deve ser alguém que desempenhou papel mais ou menos destacado no entrecho. Alguém com quem o leitor se familiarizou. Se o autor apresenta um desconhecido como criminoso, estará admitindo sua derrota diante do leitor.

Criados – mordomos, valetes, guardas florestais, cozinheiros – não devem ser escolhidos pelo autor como culpados. Isso constitui uma solução fácil demais. O leitor ficará frustrado, achando que perdeu tempo tentando identificar um personagem tão desimportante. Se o crime foi obra de um trabalhador braçal, o autor não deveria ter escrito um livro a respeito.

Deve haver apenas um culpado, por maior que seja o número de homicídios cometidos. Esse culpado poderá ter um auxiliar, mas é nele que recairá a cólera do leitor.

As sociedades secretas, máfias, camorras, etc, não devem ter lugar em histórias de detetives. O assassinato verdadeiramente lindo e fascinante estaria comprometido por essa culpabilidade por atacado. Além disso, se o assassino pertence a um grupo criminoso, ele conta com uma rede de proteção, o que tira o fascínio do suspense

Método utilizado para o assassinato e o meio de descobri-lo devem ser lógicos e científicos. Quer dizer que os meios pseudocientíficos e os dispositivos puramente imaginativos ou especulativos não serão tolerados no roman policier. O autor deve se limitar aos venenos e drogas conhecidos da população. Se inventar coisas mirabolantes sairá da área do romance policial e entrará no romance de aventura.

A verdade do problema deve estar bem à vista em todos os momentos da narrativa. O leitor tem que ser arguto para perceber. Quando o leitor chegando à última página recomeça a leitura deve pensar: Puxa, por que eu não percebi isso? O leitor tem que se convencer que não é tão arguto quanto o detetive. Uma novela de mistério nunca será de mistério para todos os leitores pois alguns deles descobrirão o assassino antes do detetive

Uma novela de detetives não deve conter compridas passagens descritivas, nenhum rebuscamento literário em questões secundárias, nenhuma análise sutilmente elaborada dos personagens, nenhuma preocupação “atmosférica”. Tais procedimentos retardam a ação e carreiam para a história elementos que não têm nada a ver com ela. Leitores de novelas policiais não buscam enfeites literários, estilo, belas descrições, mas o estímulo mental e a atividade intelectual.

Jamais se deve atribuir a um criminoso profissional a culpabilidade do crime em uma história de detetives. Os crimes cometidos por arrombadores e bandidos estão na esfera da polícia – e não na esfera de autores e detetives amadores (leitores). O crime verdadeiramente fascinante é o cometido por uma coluna-mestra da igreja ou alguma solteirona conhecida por seus atos de caridade.

O crime na história policial jamais deve ocorrer por acidente ou suicídio. Encerrar a história com esse anticlímax corresponde a um truque contra o leitor.

O móvel do crime na novela policial deve ser de ordem pessoal. Ciúme, cobiça, amor, ódio, vingança, medo, tara, etc. Sair desses motivos equivaleria a retirar do leitor um elemento de dedução. Tramas internacionais pertencem a outro gênero – o gênero da espionagem. O crime deve refletir a vivência cotidiana do leitor, proporcionar-lhe certo escapamento para seus próprios desejos e emoções reprimidas.

O autor “policial” não deve usar os meios dedutíveis ou provas já usados em demasia por outros autores, pois eles já são conhecidos dos leitores de romances policiais. Quando o escritor usa esses meios está confessando sua falta de talento e originalidade.

Notas finais
Todas essas regras estão sendo utilizadas na história. Não há brechas nem exceções, nada pode ser alterado.