Prefácio. I Cant Stop Loving You.
2 Capítulo 2
“As más companhias corrompem os bons costumes. “
Camila olhou em direção a um bar que estava extremamente lotado. Pensou em passar a noite ali, já que aparentemente lá, teria músicas ao vivo e muitas pessoas para conhecer. Foi caminhando em direção ao mesmo até que um homem, muito charmoso, alto, de cabelos negros e olhos azuis, esbarrou em si fazendo com que ela caísse no chão.
──── Desculpe-me! ── Disse um homem que foi logo pegando nas mãos da mesma, para que ela pudesse se levantar. ──── Deixe-me ajudá-la, por favor.
A garota segurou firme nas mãos do homem e pode perceber que por dentro do casaco deste, havia muitas tatuagens. E isso foi exatamente o que lhe chamou a atenção, porque era o que ela gostava: Homens com piercings, tatuagens, estilosos. E isso era algo dela. Detestava garotos que eram bonzinhos, muito educados, melosos demais e principalmente românticos. Camila achava que romance era uma perda de tempo.
Quando se levantou, percebera que estava mancando. A queda e o mancar de seus passos explicavam o seu pé direito torcido e obviamente que estava sentindo muita dor. Nesse momento pediu a ele para que a ajudasse a ir até o bar.
──── Esse bar não é para alguém como você, garota. Lá não tem classe, entende? Aliás, eu conheço uma balada “animal” nessa mesma rua. Vamos? ── Disse ele com um grande sorriso entre os lábios. A garota não sabia para onde poderia ir naquela noite, então apenas aproveitou a compahia dele e aceitou o convite.
Eles caminharam durante uns cinco minutos e entraram em uma rua sem saída. Estava tudo muito escuro e deserto. ──── Mas onde está a balada, afinal?! ──── Camila começou a desconfiar dele, pensou em correr ou arranjar qualquer desculpa para que pudesse sair dali, mas com certeza se ela pensasse em correr ele a alcançaria principalmente por estar meio manca e se arrumasse alguma desculpa, ele teria argumentos suficientes para fazê-la ficar ali com ele. Por fim, decidiu não demonstrar medo.
──── Está um pouco deserto para uma balada aqui, não acha não? ── Perguntou ela, fingindo estar rindo da própria situação que se encontrara.
──── Mais assim que é bom. ── Disse ele, sem demonstrar qualquer reação.
Naquele momento Camila entrou em desespero, um nó apareceu em sua garganta, suas mãos ficaram frias e seu estômago virou e revirou diversas vezes.
Eles estavam atrás de uma caçamba, nesse beco escuro. Provavelmente se acontecesse alguma coisa, ninguém ficaria sabendo, pois não havia nenhuma alma viva naquele local. Então o homem abriu uma porta e mandou ela entrar. Camila, muito assustada, fez o que ele lhe havia dito que queria. Quando eles entraram, ele fechou a porta com tanta força que fez ela dar um gritinho exatamente por já se encontrar tensa.
Eles estavam em um quartinho, onde só havia uma pequena sala, uma cozinha e um banheiro. Na sala, havia um colchão que ficava do lado de um sofá todo rasgado. Uma mesa toda empoeirada ficava ao centro da sala. Era um lugar muito pequeno e bagunçado. Camila ao dar o segundo próximo passo, viu alguma coisa correr para debaixo da mesa, o que lhe pareceu ser um rato.
──── Sente-se. ── Disse o homem, apontando os dedos para o sofá.
Ela olhou para o mesmo com um pequeno sorriso curvado aos lábios e sentou-se, mesmo quase entrando em pânico. O homem caminhou até a geladeira e pegou duas latinhas de cerveja. Uma delas ele jogou para a mesma e a outra ele abriu para si.
Ele sentou-se ao lado da menina e estendeu uma de suas mãos para ela.
──── Me chamo Victor e você? ── Disse ele, apertando as mãos pequenas e suaves de Camila. Direcionou seus lindos e hipnotizantes olhos azuis para os olhos da mesma, assim a encarando.
──── Camila. ── Respondeu ela numa voz distante e rouca.
──── Lindo nome. ── Victor disse ainda com os sorrisos presos aos lábios. ──── Eu não tenho certeza, mas me parece que você está um pouco assustada. Quer que eu faça algo para diminuir seu medo, hm?
──── E agora? Meu deus! Ele percebeu que estou com medo! O que eu faço? ── Pensou consigo mesma e sem tentar demorar mais, respondeu. ──── Medo? Eu? ── Disse a menina rindo. ──── Eu não tenho medo de nada. E quanto a tua pergunta.. Não, obrigada. Eu sei diminuir meus próprios medos sozinha, ok?
──── É disso que eu gosto.
Um grande sorriso se formou no rosto de Victor e ele foi se aproximando da garota, pelas poucas vezes na vida, Camila queria virar o rosto para um homem lindo e que não aparentava ser romântico. Mas, ele se aproximou e a beijou.
O garoto abriu a boca para que ela pudesse ter acesso e invadiu com a própria língua a boca da mesma. Não demorou muito para que ele entrelaçasse de leve a língua de Camila com a do próprio. Começou a dar pequenas chupadas na mesma. Os dois pareciam que foram feitos um para o outro naquele instante, exatamente pelo beijo ter sido tão sincronizado e intenso. Victor levou uma de suas mãos até o cangote de Camila, onde distribuiu diversos arranhões e por vezes alternava por caricias. E a outra mão que estava livre levou até a cintura da menina, trazendo-a para mais perto de si.
Ela não conseguiu resistir aquilo, alguma coisa nele fazia com que ela aceitasse tudo o que ele dizia ou queria. Apenas levou seus pequenos e finíssimos braços em volta do pescoço dele, onde entrelaçou seu braço de leve.
Eles apenas se beijaram e apesar de Camila estar com bastante medo, estava gostando tudo aquilo. Gostando o bastante, para que fosse suficiente de permanecer ali, sem fazer nada. Ambos trocavam caricias e ela sentiu um estúpido alivio de perceber que ele não era um “assassino” ou um “estuprador” como ela havia pensado.
De repente, eles ouviram alguém bater na porta. O que fez com que Victor encerrasse o beijo com diversos selinhos. E ele foi atender e a garota permaneceu sentada ali. Logo, oito pessoas vestidas apenas de preto e cheias de tatuagens e piercings, entraram no pequeno apartamento. A garota, por impulso, deu um pulo do sofá e ficou em pé ao lado de Victor.
──── Entrem pessoal, ── Ria Victor. ──── Carne nova no pedaço.
Disse ele, ainda soltando umas pequenas risadas, apontando para Camila. Todos eles entraram admirando a beleza excepcional de Camila. E ela? Ela sentiu-se o último pedaço de pizza, principalmente pelos olhares que os garotos estavam ao olhar para ela. Victor foi caminhando até a mesma, ficando agora ao seu lado.
──── Você se encaixa muito bem no nosso perfil, sabia disso? ── Perguntou Victor.
──── Perfil? Perfil de que? ── Respondia ela com outra pergunta, enquanto encarava os olhos do garoto ao seu lado.
──── Já ouviu falar em.. Quase vampiros? ── Sussurou ele.
──── QUASE O QUE?! ── Gritou Camila, querendo agora definitivamente sair dali o mais rápido que pudesse.
──── Vampiros.. ── Repetiu ele.
Camila não acreditava em história de vampiros, bruxas, ou nada do tipo que fosse sobrenatural. Ela amava ler livros sobre isso e até mesmo assistir filmes do gênero, mas ela era muito cética.
──── Hahaha. ── Disse ele, em um modo forçado. ──── Pare de brincar com essas coisas. Não adianta querer me botar medo, eu sei que essas coisas não existem ok? Se quer fazer eu sentir medo, que seja com algo real.
──── Ele não quer botar medo em você. ── Disse um homem vindo em direção a ela. ──── E, eu não ouvi ele dizer “vampiros”, e sim “quase vampiros”. ── Ele começou a passar a mão nos cabelos sedosos que Camila possuía e a olhar fixando nos olhos dela. ──── Onde você encontrou essa aqui, Victor? Ela é linda, me pareceu bastante decidida, orgulhosa. Hm... O que mais? Eu também vejo uma garota, não uma mulher. Mora sozinha não é? O que houve com seus pais? Morreram?
Ela começou a sentir pontadas no próprio estômago e isso se dava ao medo excessivo que estava sentindo dos homens que estavam ali com ela. Dividindo aquele espaço pequeno. ──── Como ele sabe disso, diabo? ── Ela pegou na mão dele e a tirou com toda a força de perto dela.
──── NÃO ME TOQUE! ── Gritou novamente.
──── Não a assuste Mike. ── Disse Victor olhando para ele.
Camila foi andando em direção à porta, atravessou a sala e passou com a cabeça reta pelos homens presentes ali com ela. Não olhou nenhuma vez para nenhum deles. Ela levou uma de suas pequenas e brancas mãos até a maçaneta da porta, totalmente decidida a sair dali.
──── Chega, isso aqui é uma doença. ── Disse ela. ──── Vocês são doidos. . ── Falou mais uma vez, só que desta vez abriu a porta. O timbre de voz da garota saiu desta vez curto e um pouco frio.
Antes que ela pudesse dar o primeiro passo para poder sair daquele lugar, Victor correu agilmente em sua direção. Após chegar rapidamente perto da garota, o mesmo segurou firmemente no braço dela. Aproveitou que ela ainda não havia saído dali e levou a outra mão livre até a porta, tornando a fechá-la. Abaixou a cabeça, assim para poder ter visão do rosto de Camila, observando suas expressões. Mecanicamente a garota ergueu um pouco a cabeça, não muito, mas o suficiente para que pudesse encarar seus olhos. Enrrugou um pouco o nariz, com uma expressão séria. Era incrível, mas mesmo brava e fria ela conseguia ser linda.
──── Eu não sairia mais daqui sozinha se eu fosse você, garota. ── Avisou ele.
──── Ahhhhh é? E porque não, hein? ── Retrucou ela em um tom irônico, enquanto tirava seu braço das mãos firmes dele.
Victor agora abaixava um pouco o corpo para que seus finos lábios avermelhados pudessem chegar na ponta de cima da orelha da menina. Começou a falar entre sussurros. Camila sentia o ar quente da boca dele bater contra sua própria orelha e uma parte de seu cangote, o que fez com que os seus pêlos louros e finos ficassem totalmente eriçados.
──── Não seja malcriada, baixinha. É que já sabem de você. Sabem que esteve aqui, quem você é, e pelo visto até sabem de todo o seu passado. Eles não vão te deixar mais em paz se ficar andando por aí sozinha, até você fazer parte do nosso pequeno “grupo”. ── Respondeu Victor. Depois de falar, deixou que um sorriso se curvasse em seus lábios, mas não deixou que seus dentes branquíssimos aparecessem. Aproveitara para então morder de leve a ponta da orelha da garota. As bochechas de Camila ficaram levemente avermelhadas.
Ela tinha que admitir que ele tinha um próprio charme que a deixara encantadíssima. Não era como os garotos que havia conhecido, ou então, nunca conheceu algum homem que teria toda essa química que ela sentia. E apesar dos absurdos que havia ouvido ali, junto com os outros homens, no fundo de seu coração almejava que aquele sentimento fosse retribuído.
Deixou-se levar novamente pelos encantos e desejos carnais que acabara sentindo com aquele gesto tão pequeno que ele havia feito consigo. Mas não pode deixar de ouvir o que ele havia dito.
──── ”Não seja malcriada, baixinha.“ ── Talvez se não fosse pelas próximas palavras, ela teria feito algum tipo de escândalo desnecessário. Odiava quando as pessoas a chamavam de baixinha, embora não demonstrasse aquele tipo de encheção de saco a fazia gostar.
Deixou que o resto das palavras dele, entrasse finalmente em sua cabeça. Tentava se esforçar para poder entender o que aquilo iria significar. Ela tinha não saída? Era isso mesmo que ele queria dizer? Pelo visto, ela teria que fazer parte de tudo aquilo. Camila sentia medo do que poderia acontecer, e embora sentisse vontade de continuar com Victor ali, a vontade de sair dali era maior, bem maior.
Eles a deixavam assustada, apesar de serem e terem o estilo que ela adorava. A garota gostava de pessoas assustadoras, pessoas que gostassem de coisas estranhas. Chegou depois de muito tempo, que gostava de viver no limite, no perigo. Coisas normais e mornas não eram definitivamente para ela. Mas será que essa era a vida que queria?
A vida de Camila estava tão monótona, que talvez, mas só talvez, fazer parte de algo novo seria até bom. Afinal, ela queria mesmo conhecer novas pessoas. Desta vez não tentou tirar a mão de Victor que estava fixa na porta, tentando impedir a sua passagem dali. Apenas virou e deu um tapa no peito do menino. Tornou a observar os outros homens ali, com medo da reação deles.
──── Tudo bem, então. Mas me digam, o que vocês são mesmo? ── Perguntou.
──── Acho que o Victor já respondeu isso por todos nós. ── Disse uma mulher de cabelo bem curto e com as pontas avermelhadas, que tinha um timbre de voz rouco. Ela era magra e possuía altura mediana. Camila acabou tomando um pequeno susto por não ter reparado nela, nem ter visto que havia uma mulher ali, além dos homens.
──── Não! Eu digo.. O que vocês são de verdade? Quase vampiros? Isso não existe, porra! ── Retrucou Camila.
──── Acredite no que quiser acreditar, só estamos falando a verdade aqui. Se você quiser acreditar será ótimo, senão.. ── Disse a mulher, sendo interrompida por Camila.
──── Senão o que, hein? Vão me matar, me perseguir? ── O som desafiador de sua voz saiu em um tom alto e claro.
──── Parem com isso as duas, se controle Olívia! ── Intrometeu-se Mike.
As duas ficaram se encarando com expressões de raiva e ódio no rosto, sendo interrompidas pelo Mike que estava segurando o braço de Olivia apenas por precaução e Victor fazia o mesmo com Camila.
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Já era madrugada e ela ali, presa com aquelas pessoas que pelo visto iriam matá-la mais cedo ou mais tarde, ou seja, quando fosse conveniente para eles. Ela olhou para uma janelinha, que tinha um pouco mais do que quinze centímetros, e não conseguiu ver nenhum movimento no meio daquele beco. Parecia que nenhuma alma viva iria para lá. ──── Agora eu sei porquê.. ── Pensou ela.
Victor estava sentado no chão perto da cozinha, levantou-se e deu alguns passos até chegar perto da mesma. Sentou-se ao seu lado sem manifestar, por enquanto, qualquer diálogo ou atitude, apenas ficou ali... Sentado, olhando pro nada ao lado da garota. Todos os outros estavam dormindo, um casal estava no colchão e Mike e outro homem estavam no sofá que ao abrir, formava-se um sofá cama. Um outro casal também estava acomodados no chão, com somente um travesseiro e um cobertor formando sua pequena “cama” e mais outros dois homens estavam em suas poltronas.
──── Por que você me trouxe pra cá, afinal? ── Perguntou Camila, iniciando ali um dialogo. Virou o rosto para Victor, na face da mesma, estava uma expressão de indignação.
──── Por que eu vi em você, muito mais do que qualquer outra pessoa poderia ver. ── Respondeu Victor com a voz baixa, direcionando seus olhos, nos olhos da menina, assim a encarando.
──── Desculpe.. Mas ainda não entendo. O que você viu em mim? Seja lá o que for.. Deve ter sido o suficiente pra me trazer aqui e me deixar morrer.
Victor novamente deixou que aquele sorriso maravilhoso aparecesse em seus lábios, mas não demorou muito para que ele se transformasse em uma curta risada. Encostou suas costas na cadeira e apoiou a própria cabeça em seus braços. Virou-se agora para ela.
──── Eu prometo pra você que eu não deixarei nada de ruim acontecer contigo e você poderá participar do nosso “grupinho”, sem nenhum medo, pois nenhum deles enconstará a mão em você enquanto eu estiver aqui. ── Disse ele. ──── De acordo?
──── Eu não tenho outra opção mesmo. ── Disse Camila se conformando com a situação.
Eles acabaram ficando por ali, parados e às vezes um olhando para a cara do outro. ──── Porque ele me faz com que eu me sinta desse jeito? Merda.. ── Ela tinha todos os motivos do mundo para ter nojo dele, para querer manter distância, mas.. Tinha algo nele que a fazia querer continuar ali. Mesmo sabendo que não podia confiar, algo a fazia sentir como se pudesse. Deixou seu corpo cair em cima do corpo dele e automacamente tirou um seu braço, fazendo com que ela deitasse sobre o seu peito. Ficou repetindo em sua cabeça que não podia de jeito nenhum confiar nele até que por fim, acabou pegando no sono.
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──── ACORDA! ── Gritou Olívia em seu ouvido, no dia seguinte.
Camila acordou na hora com o susto, e seu coração quase saiu voando pela boca. Sua cara estava levemente inchada, o que lhe acontecia quando dormia algumas horas. Ainda meio dormindo, olhou para a janelinha, por onde estava entrando um pouco de luz. Sem mais delongas a garota levantou-se e foi caminhando até a cozinha. Não demorou muito a chegar ali, exatamente pelo local ser pequeno. Pegou um copo que havia em cima da pia e abriu a torneira para pegar um pouco de água, mas não saía nada de dentro dela. Colocou o copo de novo no lugar, mas desta vez com ele virado para cima e virou-se para ver todos que estavam ali.
──── Vocês moram todos juntos? ── Perguntou Camila.
──── Não querida, estávamos dormindo aqui ontem por que não temos mais o que fazer. ── Disse Olívia num tom extremamente arrogante e sarcástico.
Camila não gostou dela desde a primeira vez que à viu, cada vez que Olívia falava com ela, ela tinha vontade de tacar qualquer coisa forte o bastante para quebrar um osso do corpo da garota.
──── Obrigada pela resposta educada. ── Respondeu Camila com um meio sorriso no rosto.
Camila ouvia que eles conversavam entre si e durante algum tempo, deixavam-na por fora dos assuntos. Ela apenas ficou parada observando tudo aquilo, mas sem escutar nada. Não era como se ela estivesse interessada no que eles falavam. Ela estava ficando com fome e foi até a geladeira na tentativa de encontrar algo para comer. Mas, para sua surpresa a geladeira estava completamente vazia, não havia absolutamente nada.
──── Olhem só! ── Desta vez outra mulher falou e pela primeira vez se dirigiu a Camila. E todos riram descontroladamente, exceto Victor.
──── Parem com isso, ela ainda pode comer o que quiser comer, flw?! ── Disse ele indo em direção a ela. Victor pegou cuidadosamente uma de suas mãos e entrelaçou seus dedos nos dedos dela e após fazer isso, foi caminhando com a menina até a porta. ──── Volto daqui a pouco,hm. ── Ele abriu a porta com a mão que estava livre e saiu junto da mesma. Podia ouvir alguns resmungos das outras pessoas que ficaram ali, mas desta vez, ignorou.
Eles foram caminhando até uma lanchonete que havia umas três quadras pra cima do beco, e entraram nela. A lanchonete apesar de ser pequena, era bastante arrumada e aparentemente limpa. Os dois sentaram em uma mesa para casal e Victor até disse que ela poderia comer o que decidisse. E exatamente por estar morta de fome, tudo que lia no cardápio parecia-lhe muito apetitoso.
──── Por mim eu pegaria tudo. ── Falou num tom de brincadeira, seguida de uma risada.
──── Então pegue tudo, não tem problema. ── Disse ele, enquanto aproximava sua cabeça da dela, depositando sobre sua testa um pequeno e curto beijo. Logo em seguida, ele levantou a mão para uma garçonete que estava passando ali perto deles para que ela parasse e atendesse os dois.
──── E então, o que vão querer? ── Perguntou a garçonete, com um bloquinho nas mãos. Victor olhou para Camila que parecia estar quase se contorcendo de fome e começou a fazer o pedido por ela.
──── Bom, vamos querer essa sala de frutas especial, Wafles com mel e também um desses com sorvete. Uma porçãozinha de pão de queijo, um misto quente, um pedaço de torta de morango, um bolo de chocolate, um pão de batata com requeijão, um suco de.. Do que você gosta mesmo? ── Perguntou ele, desta vez olhando nos olhos Dela, que estava completamente boca aberta.
──── A-ab-abacaxi. ── Novamente as maças de sua face ficaram levemente avermelhadas, respondeu um tanto sem jeito.
──── É, é isso mesmo. Um suco de abacaxi e um de Manga pra mim e eu acho que é só. Está bom assim para você, cami? ── Perguntou ele novamente olhando em seus olhos.
──── Tá, claro que tá! ── Disse ela meio que monossilábica por que estava assustada com a quantidade de comida que iria vir. Por um lado estava feliz, não iria ficar com fome outra vez tão cedo, mas por outro.. Era realmente muita comida.
Victor dispensou a garçonete que voltou rapidamente para o galpão, e olhou através do vidro que estava ao lado de Camila. A lanchonete tinha todas as paredes feitas de vidro e isso facilitada para poder ver o que acontecia lá fora. Ele parecia estar preocupado com alguma coisa, porém, não queria demonstrar isso. Do mesmo jeito quando Camila estava com medo, não gostava também de demonstrar que estava.
Passaram-se alguns minutos e as comidas finalmente começaram a chegar. Primeiro Camila decidiu comer o bolo de chocolate, pois fazia muito tempo que não comia algum doce. Percebeu que o homem nem se quer chegou a tocar na comida ou olhar para tal.
──── Não vai comer não? ── Perguntou a menina, enquanto pegava mais um pedaço daquele bolo delicioso.
──── Não. ── Respondeu ele, friamente.
──── AH NÃO! Pode me ajudar a comer isso aqui! Vamos, AGORA! ── Disse ela com um tom divertido na voz. ──── Não tem como eu comer tudo isso aqui, nãããão.
──── Então aproveite enquanto pode. Olha eu aqui, não posso comer nada.
──── Mas por que não? ── Franziu levemente a testa, confusa com tudo aquilo.
──── Depois falamos disso, é melhor quando todos estivermos juntos. Agora, anda, coma. ── Respondeu ele. Camila estava comendo tudo aquilo sozinha, e estava maravilhosamente bom. Não tinha comido nem a metade do que ele havia pedido e já estava estufada.
──── Posso te perguntar uma coisa? ── Ela perguntou séria com a boca suja de sorvete.
──── Pode, claro. ── Victor respondeu rindo, enquanto se aproximava do rosto da menina, e encarava os olhos dela. Levou uma de suas mãos até o queixo da mesma, onde segurou com sutileza. Lambeu lentamente a parte que estava suja e depois de um curto e rápido selinho sobre os lábios dela. Via novamente ela ficar corada, o que o fez abrir um pequeno sorriso nos lábios. Embora achasse aquilo super fofo, não era algo que ele falaria. Pelo menos.. Não agora.
──── O que vocês fazem nesse grupo? ── Perguntou ela tentando rir pra disfarçar a timidez.
──── Projetos, lutamos, moramos juntos , não comemos nada disso aí e fazemos algumas coisas que não são nada legais. . ── Agora ele tornou a ficar seria, mas respondia com sinceridade.
──── Que tipo de coisas que não são legais? ── Perguntou ela, não gostando muito das idéias que surgiam na sua mente.
──── Você vai ver.
──── Você gosta disso? ── Continuava olhando fixamente nos olhos dele.
──── Não é como se eu pudesse escolher entre gostar ou não gostar. ── Ele respondeu com uma expressão descontente no rosto, parecia estar meio triste com aquela situação toda. ──── Caramba! Você faz muitas perguntas.
──── Então por que entrou nisso? ── Apesar de perceber a demasia nas perguntas, continuou perguntando.
──── Eu não tive escolha.. A um tempo atrás, Willian um cara muito mal veio com sua gangue pra cima de mim. Eles me juraram de morte e obrigaram-me a fazer parte de um grupo de pessoas que protegem certas áreas. São como gangues. Só que estas, só podem se alimentar das mesmas coisas. É como se fosse um ritual feito a cada dois dias, a meia noite, pra ser mais exato. Ele morreu a um ano e me deixaram como lider para que eu pudesse fazer o que eu quisesse. Eu já havia reunido mais oito integrantes para o nosso grupo e os dez que ele já tinha se viraram contra mim, pensando que eu tinha matado o Willian. Os meus oitos amigos, ficaram do meu lado e sim, são esses oitos que você conheceu e que moram comigo. ── Disse ele, antes que ela pudesse fazer outra pergunta, e então continuou. ──── Eu era um cara normal sabe? Eu morava com meus pais e com um irmão pequeno que eu tinha. Quando eu recusei entrar para aquele grupo, ele disse que mataria os meus pais. Eu fui tentar aviá-los, mas chegando na minha casa.. Eles já.. Bom, já estavam como eu pensei que estariam. Mas meus pais ficaram vivos, apenas Jack, meu irmão... você sabe. Willian apareceu naquele mesmo instante que eu entrei ali, falando que se eu não participasse daquela gangue, ele iria matar meus pais do jeito mais cruel que sabiam. Então foi aí que eu entrei nisso. Já faz quatro anos, meus pais ainda estão vivos, vivendo suas vidas, me culpando pela morte de meu irmão. Eu não tenho mais nenhum vinculo com eles, mas eu sei que eles estão bem e isso faz com que eu continue nesse grupo. Entendeu agora?
──── Mas isso é horrível! ── Disse ela. ──── Olha, só mais uma pergunta. A última, eu prometo. Pensa comigo, você não teve nenhuma escolha, teve que entrar de qualquer jeito. Agora, por que eu? Eu ainda tinha chances.
──── Agora as coisas não são mais as mesmas, minha linda. Eu prometi pra você lembra? Não vou deixar nada de ruim acontecer com você, nada. E em você, eu vejo uma pessoa que quer ser mais do que uma simples garota caminhando pelas noites atrás de diversão. Você é inteiramente linda e pelo visto é uma garota inteligente. Mas, como o Mike disse, é um pouco orgulhosa demais. Eu percebi que estava com medo ontem quando eu te levei pro beco, mas você se negou a dizer até o último momento. Você é uma pessoa que pode ter quem quiser, só que se sente muito sozinha não é mesmo? Eu quero fazer você viver alguma coisa real, ter um objetivo sem rotinas, sem planejamentos. Isso você não tem quando sai por aí todas as noites para baladas, bares, restaurantes, enfim. Você faz tudo isso sozinha, pois pelo que parece, você não gosta de compromisso, estou certo? ── Perguntou Victor.
──── Nossa, parece que isso está mesmo estampado na minha cara. ── Fez um pequeno biquinho entre os lábios, enquanto bufou. ──── Você e o Mike disseram a mesma coisa, hunf. ── Disse ela um pouco emburrada.
──── O Mike enxerga por trás dos olhos das pessoas. Esse foi um dos motivos para eu ter pego ele, para participar do grupo. Ele praticamente lê mentes, ou melhor dizendo, ele enxerga o passado das pessoas e o que está acontecendo com elas. Ele viu seu medo e por isso quis te assustar mais, mostrando que sabia tudo sobre você. ── Disse ele, levando uma das mãos até o cabelo de Camila, onde começou a distribuir algumas caricias carinhosas.
──── ”Só podemos nos alimentar das mesmas coisas..."── Repetiu o que ele havia dito momentos antes. ──── O que isso significa exatamente Victor?
──── Cortes.. Sangues.. Não podemos comer nada, a não ser isso. E fazemos um ritual, acho que como você havia imaginado, para não precisarmos comer nada a não ser isso. Nós não matamos ninguém, se é isso que vai me perguntar agora. ── Respondeu ele antes mesmo dela perguntar. Ele viu que ela iria perguntar algo do tipo, pois ela fez um gesto com a mão e começou a mexer a boca e somente um murmúrio saiu dali.
Ela estava sentada comendo ainda, pegou um último pão de queijo e deu um gole em seu suco. Não agüentava saber de mais nada, pelo menos, não naquele dia. Se tentasse comer mais alguma coisa, provavelmente iria explodir. Ela ficou imaginando que nunca mais poderia comer nada daquelas coisas gostosas que estavam ali em cima daquela mesa e que iria começar a comer sangue, só a cada dois dias ainda pra piorar a situação e fazendo rituais sagrados. Camila nunca imaginou que algo do gênero pudesse acontecer em sua vida, mas ela até estava gostando da companhia de Victor e iria fazer isso para poder continuar tendo ele. Também, depois de saber da sua história de vida e perceber que não havia ninguém do lado dele, talvez fosse uma boa oportunidade para demonstrar que existe sim uma pessoa e que talvez essa pessoa pudesse ser ela. Olhou fixamente para ele e ele retribuiu ao olhar fixo, mantendo seus olhos nos olhos hipnotizantes de Camila. E assim ficaram por um tempo: Se encarando.
Até que a atenção de Victor que estava focada em Camila foi interrompida por uma movimentação estranha na rua. Quando olhou novamente atrás do vidro, pode perceber um grupo com cerca de dez pessoas. As mesmas cercaram a lanchonete em que os dois estavam.
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