Notas iniciais
O próximo capítulo vai ser um pouco diferente. Bom, é isso, espero que gostem, e não esqueçam por favor de comentarem e votarem, é muito importante para mim. XOXO Thai :).

Fiquei estática encarando o homem adormecido a minha frente, tudo que demorei um mês para esquecer voltou com força total, o que Giovanni me fez acreditar, praticamente que estava obsessiva e fiquei repetindo para mim mesma todos esses dias, que era só isso, uma obsessão, algo ligado a ter salvo a vida de Dominic, apagou-se, qualquer explicação lógica se foi.

Olhar em seus olhos e ouvir sua voz simplesmente fez aquela sensação inicial voltar com tudo e ainda mais forte do que era. Não achei que fosse possível gostar tanto da voz de alguém, mas ouvi-lo foi como se estivesse no paraíso. Quando ouvi a palavra anjo meu coração começou a bater tão rápido que achei que fosse parar. Pode ser egocêntrico da minha parte achar que o referido anjo era eu, mas o que eu posso fazer se meu coração insiste em dizer que ele estava falando de mim? Não posso fazer absolutamente nada em relação a esse sentimento avassalador que está me consumindo de dentro para fora, e isso está literalmente me enlouquecendo. Isso não pode ser uma simples obsessão, é algo maior, muito maior, eu só não se nomear esse sentimento ainda.

– O que aconteceu? Ele vai acordar agora?

– O corpo dele sobrecarregou, o que provavelmente fez seu corpo reagir, mas agora que a adrenalina passou não temos como saber se ele acordará ou continuará dormindo. — Respondo a pergunta de Matthew, mas continuo parada olhando fixamente para Dominic, como se ele pudesse acordar a qualquer momento. — Vou fazer alguns exames nele agora e verificar se houve alguma alteração.

Saio do meu transe e chamo dois enfermeiros para ajudarem-me a levar Dominic para outra sala onde realizarei os exames.

Duas horas depois estou sentada analisando os resultados que por sinal, não demonstram nenhuma alteração desde semana passada, parece que ele nunca houvera acordado, não saiu do coma, absolutamente nada, sabia que isso poderia acontecer mas não deixo de ficar desanimada, não sabia nem o que esperava ver nesses exames, mas definitivamente, não era esse o resultado que esperava, suspiro levanto da cadeira e encontro Matthew na cafeteria do hospital, sento-me a sua frente e começo a contar-lhe as notícias:

– E então Rubi? — Pergunta-me com expectativa em seu olhos, encaro-o desanimada.

– Nada de novo, nenhuma alteração, mostram exatamente a mesma coisa da semana passada, ou seja, continuamos sem uma resposta, não tenho como saber o que acontecerá daqui para frente.

Matthew suspira, recosta-se em sua cadeira e leva as mãos ao cabelo em um gesto nervoso.

– Eu não entendo. O que pode ter feito seu coração acelerar. — Pergunta-me.

A resposta que tenho para dar-lhe é tão louca que acho que ele me mandará daqui direto para um hospício, mas decido lhe dizer o que penso mesmo assim, não é saudável remoer coisas assim sozinha.

– Olha, não estou falando como médica certo?

– Sim.

– Ok. — Puxo uma longa respiração e começo. — Lembra quando lhe falei para conversar com Dominic porque existiam estudos e relatos que afirmam que isso poderia ajudá-lo?

– Claro, mas porque essa pergunta agora?

– Quando entramos no quarto essa manhã, lembra sobre o que estávamos conversando?

– Sobre os três homens mal encarados que entraram aqui hoje de manhã, dos quais pedi-lhe para manter distância, e você fez exatamente o contrário do que pedi. — Diz aumentando seu tom de voz.

– Me desculpa, agi por impulso ta legal? Voltando ao assunto em questão. — Prossigo retomando meus pensamentos de onde havia parado. — Exatamente, quando terminamos de falar sobre os homens e dissemos que estavam armados, o coração de Dominic acelerou, como se ele estivesse nervoso, preocupado até, consegue me entender? Isso faz algum sentido para você?

Matthew está encarando a mesa como se a qualquer momento ela fosse sumir diante de seus olhos e ele não quisesse perder tal fato, mas continua ouvindo tudo que digo atentamente, de repente levanta sua cabeça e vejo em seus olhos uma angústia sem tamanho quando responde:

– Sim, isso faz todo sentido.

– Ele ter ficado nervoso por causa da nossa conversa ou eu ter ficado louca e você querer me mandar para um hospício?

Ele olha para mim e dá um pequeno, quase imperceptível sorriso, mas logo ele desaparece quando responde:

– Primeira opção.

– Mas porque ele ficaria nervoso sobre isso a ponto de ter uma parada cardíaca? Claro que não é algo que vá se ver todo dia, mas mesmo assim, para o coração dele acelerar tanto deve ter algum significado muito grande para ele esses três homens terem vindo armados procurá-lo, eu não entendo, a menos que quisessem...matá-lo. — Digo com o tom de voz cada vez mais baixo ao constatar tal coisa e recebo uma confirmação do que falei ao olhar nos olhos de Matthew.

– Sobre isso, só ele poderá lhe explicar, peço desculpas, mas não tenho o direito de lhe falar sobre a história dele

– Certo, eu compreendo.

Nos levantamos e o clima pesado para entre nós, olho meu relógio e vejo que já são duas da tarde e ainda não comi nada.

– Matthew, você já almoçou? — Pergunto para descontrair e esquecer um pouco o assunto.

– Não Rubi, ainda não.

– Que tal almoçarmos juntos?

Matthew me olha envergonhado e recusa o convite.

– Deixa de ser bobo, vamos logo, se não quiser ir a algum restaurante podemos comer aqui mesmo, só preciso de alguém que me faça companhia para que possa não enlouquecer remoendo meus pensamentos. — Ele me olha, ri da minha cara e concorda. Pego seu braço e saio arrastando-o pelos corredores, mas ele para subitamente e diz:

– Com uma condição. — Reviro os olhos e peço para que prossiga.

– Sim?

– Iremos almoçar aqui no refeitório.

Seguimos caminhando para o refeitório e quando estamos no meio de uma conversa divertida sobre nossas respectivas infâncias chega uma enfermeira correndo e parecendo um tanto quanto desesperada parando em frente a nossa mesa. Ofegante ela começa a dizer:

– Dra. Mantovani, o paciente do quarto 602 acordou e está chamando por alguém com nome Matthew Hall. Arregalo os olhos e redireciono minha visão para Matthew, ambos largamos os talheres que batem na mesa fazendo um barulho estridente e corremos porta a fora do refeitório para o quarto. Chegamos ofegantes, na verdade, eu chego, Matthew parece que não fez absolutamente nenhum esforço físico. Assim que avisto Dominic acordado e com uma bandeja de comida em seu colo meu coração se infla de alegria e sem perceber, abro um sorriso de orelha a orelha, entramos quarto a dentro e encorporo meu modo profissional. Faço um barulho com a garganta para que ele nos perceba, Dominic vira a cabeça para nós e dá um sorriso ao me ver e seus batimentos cardíacos aceleram, mas logo o sorriso some de seu rosto como se nunca tivesse existido, sua cara se fecha e seus batimentos voltam ao normal, franzo o cenho, mas paro de analisar suas reações e começo a falar:

– Olá Sr. Davenport, sou a Dra. Mantovani, mas pode me chamar de Rubi se preferir. Fui a responsável por sua cirurgia assim como pela sua recuperação, fico extremamente feliz em vê-lo acordado após tanto tempo. Agora preciso fazer alguns exames de praxe em casos como o seu, não se preocupe, não terá que sair daqui, enquanto lhe examino você pode tirar quaisquer dúvidas que tenha e eu possa responder, depois lhes deixarei a vontade para conversarem a sós.

Pego o aparelho para medir sua pressão arterial e ele começa a falar.

– Como cheguei aqui, e porque passei por uma cirurgia? — Pergunta-me e sua voz é fria, inexpressiva até, tiro o equipamento de seu braço e por um segundo minha pele toca a sua e de novo aquela conexão que sempre sinto em sua presença mostra-se mais forte do que nunca, olho para seu rosto para saber se ele sentiu também ou se fui eu e minha obsessão como Giovanni chama, nossos olhares se cruzam no ato e meu coração bate acelerado, assim como a máquina indica que o seu também, ele desvia seu olhar do meu e profere irritado:

– A doutora poderia por favor tirar essa máquina irritante de mim?

Franzo o cenho e desligo a máquina de seu corpo como ele não tão gentilmente pediu, como não sou de levar desaforo de ninguém, nem mesmo desse homem lindo a minha frente decido lhe responder ao mesmo modo:

– Você poderia pedir-me com um pouco mais de educação, mas já desliguei, satisfeito?

Ele arregala os olhos perante minha resposta petulante e eu arqueio as sobrancelhas.

– Sim, obrigado. — Diz voltando ao seu semblante indiferente. Acabo de examiná-lo, me ponho ao seu lado, cruzo os braços e olho em sua direção, enquanto Matthew continua em pé ao lado da porta observando a toda cena.

– Respondendo a suas perguntas Sr. Davenport, o senhor chegou aqui no dia 20 de maio, após ter sofrido um sério acidente em seu jatinho particular segundo o que me foi passado, tivemos que realizar a cirurgia pois encontrava-se com múltiplas fraturas nas costelas, um braço e uma perna quebrados e traumatismo craniano grave, como pode ver, foram esses os motivos que o levaram a ser operado. O senhor provavelmente deve ter muitas perguntas e responderei-lhe a todas da melhor forma que conseguir.

– Certo, e que dia é hoje?

– 25 de junho, você ficou em coma durante um mês e cinco dias e só acordou hoje por volta das onze da manhã quando teve uma parada cardíaca e tive que ressuscitá-lo com um desfibrilador, depois falou algo sobre um anjo com o qual provavelmente sonhou e dormiu novamente, voltando a acordar somente agora. — Olho para meu relógio e continuo. — Por volta das três da tarde.

Ele se assusta ao ouvir-me falar sobre o que ele falou ao despertar pela primeira vez sobre o tal anjo, mas logo recupera a postura fria.

– E você veio me ver todos os dias? Quer dizer, você veio verificar meu estado todo esse tempo? — Pergunta, e sua voz parece um pouco...esperançosa.

– Sim...Como sua médica, é meu dever, mais alguma dúvida?

Não parece que essa era a resposta que ele esperava pois seu semblante leve dá lugar a uma carranca.

– Terei alguma sequela?

– Pelo visto não, mas terá que fazer fisioterapia por conta do braço e da perna que não pode mexer por muito tempo e voltar a exercitá-los.

– Certo, obrigada Dra. Mantovani, são só essas dúvidas por enquanto.

– De nada, deixarei vocês a sós, qualquer outra pergunta que venha a surgir, não exite em chamar-me, com licença.

Saio do quarto com uma sensação estranha, por que toda essa frieza e indiferença se no primeiro momento aparentemente ficou alegre em me ver. Agora o que tenho a fazer é esquecê-lo como qualquer outro paciente, agora que ele já despertou e está bem meu trabalho está praticamente acabado, tenho apenas que ficar observando se haverá alguma alteração em seu quadro e se está totalmente recuperado durante uma semana, depois disso poderei lhe dar alta e com sorte nunca mais verei Dominic. Só o pensamento faz meu coração apertar, e não de uma maneira agradável.

Ando pelo corredor indo até o final e voltando, pensando em tudo que acabara de acontecer e trombo com Giovanni que vinha em direção contrária a minha, olho para cima e ao ver seu rosto, algo dentro de mim faz-me ter uma enorme vontade de chorar e desabafar com meu melhor amigo.

Abraço sua cintura com força e ele sente que estou precisando de colo.

– Eu estou aqui, pode falar o que está lhe entristecendo.

Nesse momento deixo as lágrimas rolarem soltas e acabo molhando e manchando todo o jaleco do Gi com minhas lágrimas e rímel, me afasto e rio da sujeira que fiz.

– Espero que tenha acabado de atender seus pacientes hoje. — Digo ainda rindo muito e apontando para a mancha preta que fora formada em seu jaleco. Tento limpar meus olhos falhando miseravelmente e borrando cada vez mais meu rímel, Giovanni ri da minha cara e se aproxima passando os dedos debaixo dos meus olhos, estamos coincidentemente parados em frente ao quarto de Dominic e nesse momento a porta se abre e Dominic vê toda a cena, que vista de fora dá a entender que eu e Giovanni temos algo mais além de amizade, a expressão de Dominic tornou-se tão séria ao me ver com Giovanni que subitamente sinto que é errado estar tão perto assim do meu melhor amigo então me afasto, franzo o cenho para minha atitude e balanço a cabeça para clarear minhas ideias.

Matthew está segurando a porta aberta esperando darmos lhe passagem, para que possa sair do quarto. Nos afastamos e ele passa por nós fechando a porta e parando ao meu lado.

– Rubi, posso falar com você um minutinho?

– Claro. — Viro-me para Giovanni e peço para que me aguarde no carro, ele olha para Matthew com cara de poucos amigos mas assente e anda pelo corredor até sumir de nossas vistas.

– Você estava certa. — Matthew se põe a dizer imediatamente assim que estamos sozinhos.

– Sobre o que exatamente? — Pergunto confusa.

– Dominic ter ouvido nossa conversa, ele disse que havia ouvido-me conversando com uma mulher que não conhecia, e como só havíamos nós três no quarto, suponho que a mulher obviamente seja você. — Ouço tudo atentamente, feliz por não ter ficado louca com minhas teorias e ao mesmo tempo apavorada ao lembrar que se Dominic ouviu nossa conversa hoje mais cedo, provavelmente ouvira também tudo que lhe confidenciei durante um mês inteiro, ó.meu.deus, simplesmente não posso acreditar que foi para o homem arrogante e prepotente deitado naquela cama que contei coisas inacreditáveis sobre mim.

– Não sei o que dizer, estou surpresa.

– Sr. Davenport pediu para vê-la, eu sei que muitas vezes ele pode parecer um pouco arrogante e impaciente, mas tente entendê-lo, ele sofreu muito na vida e se fechar para as pessoas foi a única maneira que achou de não machucá-las, ou ferir a si mesmo. Peço para que por favor tenha um pouco de paciência com ele. — Suspiro, assinto com a cabeça e acrescento:

– Eu não tenho o direito de dizer-lhe isso, mas você sendo próximo dele sim, então por favor dê esse recado a ele sim?

– Claro, pode dizer.

– Por favor diga a ele que não tenho absolutamente nada haver com seus problemas, só estive tentando ajudá-lo durante todo esse tempo e gosto que tratem-me no mínimo com cordialidade, e não com a arrogância que seu chefe mostrou-me dentro daquele quarto.

– O recado será dado. — Matthew está com um sorrisinho quase imperceptível no rosto como se eu não tivesse acabado de insultar seu chefe.

Passo por ele abro a porta e sento na cadeira ao lado de Dominic, cruzo as pernas e recosto-me no assento.

– Olá Sr.Davenport, queria falar comigo?

– Sim.

– Prossiga.

– Eu estava ouvindo a conversa que teve com Matthew hoje pela manhã, quer dizer, eu consegui ouvir, só não conseguia esboçar reações, parecia que meu corpo não me obedecia, mas agora que consegui esclarecer um pouco as coisas que aconteceram enquanto permanecia em coma, gostaria que me contasse um pouco mais sobre os homens que vieram procurar-me e consequentemente assustaram á senhorita e sua secretária.

– Claro. — Respondo prontamente, na expectativa de que agora possa saber um pouco mais sobre o porquê desse fato causar tanto pânico em Dominic, e sinceramente espero que ele deixe escapar algumas respostas pois sei que de bom grado ele não as dará.

Conto-lhe tudo que aconteceu desde quando encontrei os três homens dizendo a Lydia que não importavam que seus nomes não constassem na lista de visitantes permitidos, que entrariam e veriam Dominic de qualquer jeito, até o momento em que cheguei e lhes disse que seria melhor deixarem o estabelecimento ou seria obrigada a chamar a segurança.

– E quando mencionei chamar a segurança um deles fez questão de mostrar-me que estava armado e me ameaçou dizendo que...

– Espera, espera, ELE FEZ O QUE? — Dominic exalta-se e praticamente grita. Levanto imediatamente para fazê-lo voltar a se deitar.

– Você não pode se alterar assim, respire fundo. — Digo empurrando-lhe levemente fazendo-o voltar a se apoiar nos travesseiros. Ele respira, fecha os olhos e quando os abre novamente está aparentemente mais calmo.

– Tudo bem, estou melhor obrigado. — Dito isso volto a sentar-me na poltrona.

– Como estava dizendo, ele me ameaçou, não diretamente, se bem me lembro suas palavras foram "Nós vamos voltar doutora, nos aguarde, e quando acontecer, não seremos tão simpáticos." algo assim.

– Merda. — Dominic xinga e bate na cama como se quisesse quebrar algo.

– Dominic, o que isso significa? — Chamo-o pelo nome indicando que não estou aqui como sua médica e sim como a pessoa que foi ameaçada por três homens que estavam procurando a ele.

– A palavra "merda"? Olha pode sig... — Interrompo-o no meio da resposta irônica que estava pronto para dar-me.

Respiro fundo e conto até 10 para não me indispor.

– Claro que não estou perguntando sobre a palavra "merda", sei muito bem o que significa. Quero saber o porque desses homens armados virem lhe procurar aqui, o motivo de ameaçarem-me, eu estou no meio disso, eles falaram que iriam voltar e provavelmente vão querer "falar" comigo, eu tenho o direito de saber o que está acontecendo. — Meu tom de voz aumenta gradativamente a cada palavra proferida.

– Hey, acalme-se doutora, e para você, é Sr. Davenport.

– Não, para mim é o que eu quiser quando estamos falando da minha segurança e a de todos neste hospital, então contenha seu lado arrogante para si mesmo porque com pessoas como você eu convivi durante 18 anos da minha vida. Se não quer me explicar, tudo bem, mas saiba que descobrirei sozinha do que tudo isso se trata, se você não está preocupado com a sua vida o problema é inteiramente seu, mas eu dou muito valor a minha. — Dito isso levanto e caminho até a porta de saída deixando-o sem fala perante minha petulância, mas paro ao lembrar que tenho que lhe fazer uma pergunta, ainda virada de costas para ele digo:

– Posso lhe fazer uma pergunta?

– Acabou de fazer.

Fecho os olhos para sua petulância e continuo andando em direção a porta.

– Espere, faça.

Viro-me em sua direção e pergunto o que estava entalado em minha garganta desde a hora que ele acordou:

– Por que você está me tratando assim, quer dizer, você nem me conhece e parece que nutre um ódio profundo de mim, eu não entendo.

– Assim como?

Suspiro e retomo meu caminho até a saída vendo que essa conversa não vai chegar a lugar nenhum.

– Porque você é muito especial para se machucar tendo qualquer contato com alguém como eu. — Diz diminuindo o tom a cada palavra proferida, sua voz tem um que de dor.

Dou meia volta e o encaro.

– Como assim alguém como você?

– Olha Rubi, você tem razão, eu nem lhe conheço direito, desculpe-me por ser grosso e arrogante, mas é o único modo que eu sei de proteger aqueles que me importo.

– Como nós dois dissemos, você nem me conhece, por que se importaria comigo?

– Pelos mesmos motivos que você passou um mês inteiro vindo me ver e conversar comigo para que pudesse melhorar, sem que ao menos houvesse ouvido minha voz. Eu não sei porque, mas tem algo muito forte que faz com que eu me importe com você, e para mantê-la segura, eu preciso que por favor se afaste de mim e fique o mais longe que puder.

Paro para pensar em suas palavras, e ele tem razão, como posso cobrar algo dele se nem eu mesma entendo minhas próprias atitudes em relação a ele? Mas ele não decide o que eu faço ou deixo de fazer, não irei ficar longe, não sem saber o porquê dessa confusão toda.

– Você não decide o que é melhor para mim. — Dito isso saio do quarto deixando-o sozinho.

Vou caminhando até a saída do hospital tentando pensar na conversa que tive com Dominic, mas apenas cinco palavras me vem a mente "Porque você é muito especial."

Atravesso o estacionamento e entro no carro onde Giovanni já está me esperando curioso para saber o que aconteceu.

– E ai, o que ele queria com você?

– Gi, agora não.

– Agora sim Rubi, não tente se esquivar dessa conversa, vamos tê-la mais cedo ou mais tarde.

– Eu prefiro que seja mais tarde. — Dito isso, ligo o carro, saio do apartamento e enfrento o caótico trânsito de Manhattan para chegar em casa. Estaciono e desço do carro com a cabeça explodindo de pensamentos, Giovanni está andando colado em mim como se isso fosse fazer eu conversar com ele mais rápido, subimos de elevador e assim que passamos pela porta do apartamento Giovanni começa a falar:

– Agora já é mais tarde, pode começar a contar.

– Depois que eu esfriar a cabeça e tomar banho Gi, por favor, eu preciso desse tempo.

Ele olha minha cara e sabe que não vou ceder quanto a isso, então assente contra sua vontade sem ter outra alternativa. Caminho até ele e dou um beijo em sua bochecha, me afasto, pego em suas mãos, olho em seus olhos e digo:

– Obrigada por se preocupar. — Falo enquanto aperto suas mãos.

– Você sabe que você é a irmã que eu nunca tive e que sempre irei me preocupar com você. — Dito isso beija minha testa e anda até a escada, mas antes de subir vira-se e fala:

– Você tem uma hora, e quando você acabar de tomar banho vamos pegar um bom vinho sentar aqui na sala e falar sobre tudo o que se passou no dia de hoje, estamos entendidos?

– Sim pai. — Dou uma risadinha e ele revira os olhos para forma como lhe chamei.

Vou para o meu quarto e imediatamente entro no banheiro, ligo a banheira para só depois me preocupar em tirar a roupa e largar a bolsa em cima da cama, vou até meu closet separo uma roupa mais leve já que o clima de Nova York nessa época do ano é bastante agradável, pego uma calça de flanela bem larga dessas de ficar em casa, um top e minha calcinha, volto ao banheiro com tudo em mãos e deixo em cima da pia, me olho no espelho decidindo entre lavar o cabelo ou não, por fim decido prendê-lo em um coque bagunçado no alto da cabeça e para não molhar-lo. Tiro minha roupa e entro na banheira, água está tão quente que a fumaça saindo dela embaça o espelho.

– Meu Deus, era tudo que eu precisava para esquecer certas parte do dia de hoje, hmmm.

Fico deitada na banheira por uns quarenta minutos até a água esfriar, assim que saio enrolo-me em uma toalha e escovo os dentes, coloco minha roupa e decido por deixar o cabelo preso no coque mesmo por preguiça de pentear-lo. Abro a porta do quarto e ando pelo corredor até chegar na sala, onde Giovanni já está me esperando com uma taça de vinho em suas mãos e outra em cima da mesinha de centro. Caminho até sentar do seu lado no sofá e pego a taça disposta a minha frente, dou pequenos goles antes de criar coragem para contar-lhe tudo que aconteceu.

– Hoje pela manhã Dominic acordou.

– Disso eu sei florzinha, vamos pular para parte que você me diz o que eu não sei, mais especificamente o porque lhe encontrei chorando no meio daquele corredor depois de ter saído do quarto do Davenport.

– Calma. Estou falando que ele já tinha acordado antes de você vê-lo.

Giovanni franze o cenho em um gesto de confusão.

– Não estou entendendo, explique melhor.

– Ele teve uma parada cardíaca e eu o ressuscitei com o desfibrilador, o organismo não suportou toda essa adrenalina e ele acordou por volta das 11:00 da manhã, só falou uma frase e voltou a dormir, mas o mais intrigante foi o motivo dele ter acordado.

– E que motivo seria esse?

– Hoje de manhã apareceram três homens no hospital procurando por Dominic... — Conto toda a história para ele, incluindo a ameaça que fizeram-me até quando Matthew e eu vamos conversar de Dominic e ele tem a parada cardíaca.

Giovanni levanta-se bruscamente quase fazendo o vinho de sua taça se espalhar por todo o chão.

– ELES AMEAÇARAM MINHA IRMÃ? COMO VOCÊ NÃO CORREU IMEDIATAMENTE PARA ME CONTAR? ESSA SUA OBSESSÃO POR ESSE CARA ESTÁ TE DEIXANDO LOUCA. — Grita enquanto passa as mãos pelo cabelo em um gesto nervoso e anda de um lado para o outro.

– Gi, eu sei que eu deveria ter lhe contado. — Abaixo a cabeça e olho em direção a taça de vinho que está em minhas mãos. — Mas é que eu precisava entender melhor as coisas, por isso fui conversar com Matthew, por favor me entenda.

Giovanni vira sua taça de uma só vez bebendo tudo depois larga-a em cima da mesinha de centro e chega perto de mim colocando seus dois braços ao lado do meu corpo fazendo-o que o encare de perto, consigo ver em seus olhos uma mistura de raiva, tristeza e preocupação.

– Rubi, eu não sei se eu já te contei isso, mas vou lhe esclarecer uma coisa. — Diz com uma voz fria como gelo. Nunca vi Giovanni tão transtornado e preocupado com algo, ele olha no fundo dos meus olhos e continua. — Nos conhecemos desde sempre não é?

– Sim. — Respondo meio receosa por sua pergunta.

– Defina sempre. — Pede ele e se afasta de mim para andar de um lado para o outro.

– Desde que tínhamos 5 anos.

– Exato, e você sabe o que aconteceu comigo antes de conhecê-la?

– Não, nunca conversamos sobre isso. — Em todos esses anos de amizade nunca tocamos no assunto, achei desnecessário saber o que ele fazia até os cinco anos, pensei que como toda criança ele havia brincado e começado a se alfabetizar, simplesmente achei que não tinha nada colossal a saber sobre essa parte de nossas vidas, como ele nunca tocara no assunto eu também não toquei, ele não sabe o que eu fiz até os cinco anos e eu não sei o que ele fez, para ser sincera nem recordava-me desse assunto até agora.

– E você sabe o porque?

– Porque crianças até os cinco anos não fazem nada de tão importante que mereça ser comentado? — Claro que os primeiros anos de vida de uma criança são lindos e especiais, mas não faz sentido perguntar sobre coisas que provavelmente ninguém se lembra, por exemplo, tenho vagos flashes de meus primeiros anos e só, nenhuma memória completa.

– Não Rubi, pelo menos não de minha parte, nunca toquei nesse assunto porque é doloroso demais para mim.

– Como assim? — Franzo o cenho em confusão, não entendi o que ele quis dizer com doloroso.

Até o presente momento Giovanni estava de costas para mim observando a rua pela janela, de repente ele vira e olha-me com um olhar tão cheio de tristeza que me faz querer chorar e abraça-lo para sempre.

– O nome dela era Alice, ela era tão linda com seus cachinhos dourados e sua voz angelical. — Giovanni olha para o chão e uma lágrima escorre em sua bochecha, ele a limpa e prossegue. — Um dia estávamos todos em casa menos Alice, eu havia ficado doente e não tinha ido para a creche, mamãe levou ela e quando foi por volta das quatro da tarde recebemos uma ligação da escolinha.

Agora Giovanni não se conteve e caiu de joelhos no chão começando a chorar como uma criança que teve seu doce arrancado. Largo a taça de vinho e corro até meu amigo sentando-me no chão e abraçando sua cabeça, choro com toda a dor que nunca vira Gi demonstrar enquanto ele deta em meu colo e faço cafuné em sua cabeça.

– Minha mãe atendeu o telefone e depois caiu de joelhos no chão desolada, com uma tristeza que ninguém nunca fora capaz de curar até hoje. Depois meu pai foi apara-la e eu fiquei lá parado vendo os dois se debulharem em lágrimas sem saber o que havia acontecido. Naquela noite meus pais me disseram que a creche onde eu e minha irmã estudávamos havia sido invadida pelo que um mês depois o detetive particular que havíamos contratado disse se tratar de sequestradores de crianças para tráfico humano. — Giovanni chora ainda mais alto agora e eu o acompanho sentindo a dor em suas palavras. — Eu tinha apenas cinco anos Rubi, e amava minha irmãzinha mais do que tudo nesse mundo, tiraram-me o bem mais precioso que eu tinha, e nesse dia eu só não morri pois ainda havia esperança de encontrá-la. As investigações nunca pararam, até hoje meu pai mantém o detetive particular e eu tenho o meu próprio, ainda tenho esperanças de encontrar Alice.

Giovanni levanta e dentro de suas íris castanhas há além de tristeza uma enorme preocupação.

– Com tudo isso Rubi, eu quero dizer que o tipo de homem que você descrevera para mim que estavam procurando Dominic hoje, são os mesmos tipos de monstros que levaram minha irmãzinha. Lembra quando nos conhecemos que eu não parava de te olhar?

Limpo meu nariz e os olhos por conta das lágrimas e respondo:

– Sim.

– É porque você e Alice eram tão parecidas que isso me assustou na época, eu lhe tomei como uma irmã, não para substituir a que eu perdi, mas por que eu te amo como uma. Depois dela você é o meu bem mais precioso, e o pensamento de te perder assusta a merda fora de mim, não consigo cogitar essa possibilidade, a vida já me tirou uma irmã e eu não posso perder outra. Você entende agora o por que da minha reação quando contou que confrontou esses homens e eu fui o último a saber?

As lágrimas nublam minha visão e só consigo pensar em um lindo garotinho de cinco anos com toda sua vida abalada pela perda da irmãzinha, e também um lindo homem com seus vinte e sete anos com extremo medo de isso acontecer-lhe de novo e com a irmã que a vida lhe deu, me jogo nos braços de Giovanni e choro enquanto peço desculpas por não ter lhe contado, por sua irmã, por não saber, por tudo.

– Me desculpa, eu não sabia. — Minhas lágrimas se misturam as dele enquanto estou pendurada em seu pescoço e beijando sua bochecha. -Eu te amo muito irmão, você nunca vai me perder, nós vamos achar Alice, eu prometo, te amo muito muito.

Giovanni me abraça apertado, naquela noite dormimos juntos abraçados, eu tentando consolar-lo pela perda de Alice e ele tendo a certeza de que eu estava ali com ele e nunca me perderia.

Acordamos os dois na manhã seguinte com despertador tocando as oito da manhã. Levanto da cama devagar achando que Giovanni ainda estava dormindo

– Bom dia florzinha.

– Gi você não precisa acordar, é segunda, você não trabalha hoje esqueceu?

– E nem você, vem florzinha, vamos dormir.

– Não posso, tenho que verificar Dominic.

Apenas com a menção do nome, Giovanni sobressaltase sentando na cama e em seu rosto não há mais nenhum vestígio de sono.

– Nós não terminamos a conversa de ontem, ainda tem muitas coisas que precisamos esclarescer, como por exemplo como você sabe que Dominic acordou por que estava ouvindo a conversa de vocês, não se sabe se um paciente em coma pode ouvir o que se fal...

Suspiro não querendo voltar ao assunto e interrompo-o para acabar logo com isso.

– Ele me disse que ouviu, naquela hora em que estávamos no corredor e Matthew apareceu me chamando, era porque Dominic queria falar comigo.

– Continue.

– Ele me disse que havia ouvido minha conversa com Matthew e que realmente se alterou, mas não conseguia esboçar reações, então ao que parece seu coração fez isso por ele, não aguentou o estresse sozinho e parou.

– Ok, e porque ele ficaria tão nervoso a ponto de ter uma parada cardíaca se nem te conhece? Isso tudo não poderia ser preocupação com você.

– Eu pensei a mesma coisa, mas eu acho que isso tem algo haver com a vida dele, entende? Acho que ele esconde algo que não quer que ninguém saiba, e isso pode lhe custar a vida, que pelo que me pareceu, era o que aqueles homens ontem queriam lhe tirar.

– Você acha que queriam matar ele?

– Sim. — Respondo e meu coração se aperta tanto com a possibilidade que dói.

– Mas o que ele pode estar escondendo de tão perigoso a ponto de alguém querer matá-lo?

– Isso é o que eu vou descobrir.

– Rubi, você não vai se meter no meio disso, está me entendendo? Não sem mim pelo menos, essas pessoas são perigosas e você não vai mover um dedo sem me avisar compreende?

– Sim.

– Promete?

Fico meio receosa em fazer uma promessa que sei que provavelmente irei quebrar, mas pela paz de espírito de Giovanni eu aceno afirmativamente confirmando que prometo.

– Ótimo. Agora você vai me explicar direitinho porque estava chorando naquele corredor quando te encontrei.

– É bobo, ridículo até, não sei porque exatamente estava chorando, mas acho que foi pela forma como Dominic me tratou, com tanta frieza e indiferença, no fundo eu pensei que ele sentia por mim a mesma atração que nutri por ele durante esse mês todo, essa conexão inexplicável, acho que foi só a dor da rejeição, achei que ele era completamente diferente, não sei. Mas ai depois ele disse que eu sou especial demais para me envolver de qualquer maneira com alguém como ele, e também disse que se preocupava comigo, eu adorei esse lado dele, mas logo em seguida disse que eu tinha que permanecer o mais longe possível dele para manter minha segurança.

– Concordo com ele nessa última parte, florzinha, não fique chateada, sei que você gosta dele, mas vai passar, como você mesma disse ele é completamente diferente do que pensava, então talvez agora essa atração vá embora.

Suspiro e aceno em concordância.

– É, talvez.

Saio do quarto de Giovanni e vou para o meu, tomo banho, seco o cabelo e faço uma maquiagem leve, escolho uma calça jeans, uma blusa de manga comprida vermelha leve e soltinha, coloco meus acessórios e pego meu salto não tão alto Christian Louboutin preto e minha bolsa Prada na mesma cor. Passo pela cozinha e como algo rápido e prático, tomo meu café e volto para escovar os dentes, saio de casa e pego a estrada. Estaciono o carro pego meu celular e deixo a bolsa no carro, visto meu jaleco e quando estou indo em direção ao quarto de Dominic sou parada por Lydia.

– Desculpe Rubi, mas o Sr. Davenport proibiu sua entrada em seu quarto e pediu para que trocassem seu médico supervisor, eu lamento, sei que você o acompanhou até aqui mas...

Paro de ouvir tudo assim que minha mente processa as palavras "pediu para que trocassem seu médico", não quero nem saber, passo por Lydia como um furacão e vou em direção ao quarto de Dominic, ele não pode fazer isso, qual é a porra do problema desse homem?

Abro a porta do quarto com tudo e ele e Matthew estão tendo uma animada conversa que interrompem assim que me vêem.

– Matthew, poderia nos dar licença por favor? — Peço gentilmente, mas por dentro estou espumando de raiva.

Ele olha para Dominic esperando uma confirmação de que pode nos deixar a sós. Dominic acena positivamente e Matthew se levanta e sai do quarto.

– Qual é a porra do seu problema?

– O meu problema? Você está brincando? Uma louca vem todos os dias aqui me contar sobre sua vida e quer se meter nos meus assuntos e eu não tenho o direito de pedirem para afastarem-na de mim? Sim, realmente quem tem o problema aqui claramente sou eu.

Suas palavras acertam-me em cheio e uma lágrima escorre pelo meu rosto mas limpo antes que ele a veja.

– É, você tem razão.

– Sim, tenho.

– É mais seguro para mim manter-me o mais longe possível de você, até nunca mais Sr. Davenport.