Predestinados
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Dominic
Tiraram-me de perto da única pessoa que eu amava e amava-me também, venderam-me como uma mercadoria barata para a escória da humanidade, não importando se eu fosse um garotinho de apenas 7 anos com a vida toda pela frente...
Ainda recordo-me de seus cabelos cor de mel com alguns fios brancos em contraste com o resto por conta da idade avançada, eu amava aquela mulher, ela era meu mundo todinho. Quando estava com ela esquecia-me do quão insignificante era minha vida, sentia-me importante, útil até, ao menos por algumas horas não sentia-me um estorvo para aqueles a minha volta. Passei anos a fio tendo terríveis pesadelos com a angústia em seu rosto quando tinha de deixar-me ir pois eles vinham me buscar, eles, são os monstros que chamava de pais, nesse dia, eles me levaram para sempre, para longe do meu sol. Achei que a vida não poderia ser pior do que já era, ledo engano, tudo sempre pode piorar.
Depois de me largarem naquela cabana mal cheirosa e imunda, que chamavam de casa, com odor de álcool e drogas por todo o lugar, mandaram-me fazer faxina em tudo e depois disso saíram pela porta feita de madeira podre e caindo aos pedaços deixando-me sozinho.
23 anos atrás...
"Estou terminando de esfregar a privada do banheiro e quase vomitando com o cheiro que saia dela quando ouço três batidas na porta, estranho, penso comigo mesmo, ninguém nunca nos visitava. Estou com medo de abrir a porta, algo poderia me acontecer, tenho apenas 7 anos, como poderia me defender se tentassem me machucar? Não quero que nada de ruim me aconteça. Meus pais sempre disseram para abrir a porta para quem quer que fosse, a menos que fosse a policia, eles dizem que o máximo que pode acontecer é me matarem e isso seria um alívio para suas vidas, livrarem-se de um menininho ingrato e inútil como eu. As palavras feriam meu pequeno coraçãozinho, mas não tanto quanto a surra que levaria se os desobedecesse.
Com esse pensamento, larguei o esfregão o qual segurava como se minha vida dependesse de não largá-lo e saí do pequeno banheiro, fui em direção a porta, coloquei minha mãozinha que estava tremendo na maçaneta, respirei fundo e abri-a. Olhei para cima e parado a minha frente estava um homem com uma roupa que parecia cara e muito bonita, vi um dia em uma revista que o nome daquela roupa preta era terno, só pessoas importantes e ricas podem usá-lo eu acho, e tinha em seu rosto óculos escuros cobrindo seus olhos.
– Pois não senhor?
Ele se abaixa ficando na minha altura mas não tira o óculos para olhar em meus olhos, um sorriso se abre em seu rosto e sorrio de volta.
– Hey garotinho, você gostaria de dar uma volta naquele carro ali? — Diz apontando para um lindo veículo preto que reconheço como sendo o mesmo modelo do meu carrinho de brinquedo, a única coisa que possuo. Meus olhos brilham com a possibilidade de andar em um carro de verdade, ainda mais um como aquele, aceno em concordância e corro porta a fora da casa. Paro em frente ao automóvel esperando que o homem abra-o para que eu possa entrar, ele abre e pulo no assento, o cara dá a volta e senta no banco do motorista, depois ouço o click das travas impedindo que as portas possam ser abertas, acho que é para minha segurança, estou maravilhado com tudo isso.
– Para onde vamos? — Pergunto ansioso e curioso.
– Dar um passeio. — Diz ele enquanto arranca com o carro, olho pela janela e nesse momento vejo os monstros que se dizem meus pais parados em frente a casa com um sorriso estampado em seus rostos, algo está muito errado, em 7 anos nunca vi nenhuma demonstração de felicidade em suas faces, não existiam outras expressões se não alucinados por conta do álcool ou drogas e com ódio que geralmente é redirecionado a mim em forma de surras, em seguida só consigo ver os dois acenando como se estivessem despedindo-se.
– Para onde estamos indo, sei que você disse que vamos passear, mas aonde? e por que meus pais estavam sorrindo e dando tchau?
– Porque você nunca mais vai vê-los.
Nesse momento um misto de alegria, medo e tristeza percorrem meu pequeno corpinho. Alegria por nunca mais ver aqueles monstros, medo por não saber o que o homem ao meu lado fará comigo e tristeza por talvez nunca mais poder ver meu sol, minha vovózinha, eu a amo tanto."
Naquele dia descobri o quão ruim e impiedosos seres humanos podem ser. A pior escolha que fiz na vida fora entrar naquele carro. Durante 11 anos meu coração insistia em continuar a bater em meu peito, eu não sabia na época, mas minha alma morreu no instante em que entrei naquele veículo.
O maldito fim da minha vida começou quando tinha 7 anos e pus os pés naquele lugar. Virei um ser completamente morto em vida, e apenas três pessoas faziam-me ter força para continuar...
Um mês atrás...
19 de maio de 2015
Aqui estou eu, sobrevoei de Nova York para Los Angeles por conta da porra de um desfalque na conta de minhas empresas, estou puto pra caralho. É inaceitável que o corpo administrativo dessa filial ou de qualquer outra seja composto de canalhas corruptos e gananciosos, e é claro que isso se aplica a mulheres também. Inadmissível ter esse tipo de gente fazendo parte do quadro de funcionários da Davenport Industries.
Estou sentado em minha poltrona na sala de reuniões, com um semblante que julgo ser nada amigável aos que vêem de fora e esperando aqueles que são responsáveis pelo desvio do dinheiro chegarem, estou impaciente com a espera, não sou um homem paciente, nunca espero, sou aquele que fazem as pessoas esperarem por mim.
Não sou um homem sem palavra, e cumpro tudo aquilo que digo a risca, nunca faltei com uma promessa em minha vida, até por que nunca fiz muitas, também não faço ameaças infundadas, nunca. Antes de chegar a esse ponto em que me encontro, contratei um detetive particular para acompanhar todos os passos dos quatro homens que acabam de entrar na sala.
– Sr. Davenport, desculpe-nos a demora, estávamos resolvendo um problema. — Um deles tem a decência de desculpar-se por fazer o dono da empresa esperar.
Não me viro para encará-los, apenas o respondo em tom gélido, demonstrando minha raiva:
– Não me interessa o que os cavalheiros estavam fazendo, é inadmissível fazer-me voar de Nova York até aqui por pura incompetência e falta de caráter de vocês e ainda fazer-me esperar. — Os quatro olham-me boquiabertos sem saber o que responder ou fazer então continuam parados atrás de mim parecendo idiotas, o que faz meu nível de irritação elevar-se, como esses quatro babacas quase conseguiram me roubar? É algo além da minha compreensão. — O que estão esperando para sentarem-se?
Os quatro encaminham-se para as cadeiras a minha frente e sentam-se .
– Senhor, por que estamos aqui? — O que está a segunda cadeira á minha esquerda pergunta.
– Com toda certeza o cavalheiro possuí neurônios suficientes para deduzir que não sobrevoei seis horas e dez minutos de avião até aqui para jogar conversa fora, porque acha que estão aqui? — Pergunto.
– Não faço ideia. — Responde o outro.
Levanto-me de meu assento, escoro minhas mãos na mesa e projeto parte do corpo para frente intimidando-os com meu tamanho e postura.
– Vou deixar uma coisa extremamente clara para os senhores. Eu não aceito falhas nas minhas empresas estão me entendendo? — Digo olhando os incompetentes a minha frente.
– Não compreendo senhor.
– A quantia de US$ 20.896. 512,00 desapareceram da conta dessa filial, e o mais interessante é que foi gradualmente, começaram retirando US$ 3.000.000,00 em seguida, quando acharam que ninguém havia sentido falta o valor aumentou para US$ 7.096.200,00, e no terceiro mês surpreendentemente sumiram US$ 10.800.312,00, como vocês podem explicar o sumiço dessa quantia ridiculamente grande de dinheiro em apenas três meses?
– Senhor não sabemos como esse dinheiro sumiu.
Levo minha mão a testa e massageio o local como se para tentar conter a ira que está subindo pelo meu corpo.
– Ou esse dinheiro aparecerá na conta da filial até o fim do mês ou quem terá que pagar o que foi roubado serão os senhores.
Não é possível que esses homens tenham passado por mim antes de serem contratados, não posso ter cometido tamanha falha, mas isso é assunto para depois.
Já havia notado que essa filial particularmente estava lucrando menos a cada mês, mas com a economia de Los Angeles cada vez melhor como poderiam os lucros estarem diminuindo? Comecei a investigar e vi que a quantia desviada fora aumentando progressivamente, esse esquema durou 3 meses, mas no segundo mês o detetive o qual havia contratado já havia descoberto os responsáveis. Permanecemos o mês seguinte recolhendo tantas provas para incriminá-los que se apresentadas a polícia seriam o suficiente para deixar-los se ver a luz do sol por um longo tempo.
Um deles levanta-se irritado e bate na mesa mostrando-se indignado com minha decisão, mas a raiva que ele está sentindo não chega nem perto do quão puto eu estou.
– Você não pode fazer isso, é contra a lei, não pode simplesmente chegar aqui e nos culpar por um desfalque do qual não somos culpados, além disso, não sei nem o motivo de estarmos aqui se qualquer um da empresa pode ser o responsável. — Diz e os outros três concordam com suas palavras.
Sabia que essa hora chegaria, onde alegam-se inocentes e dizem que não tenho o direito de fazer o que estou fazendo, que não posso culpá-los sem provas e toda essa ladainha. Sento em minha cadeira, reclino para trás e meu semblante muda de raiva para pura serenidade quando começo a falar e suas feições irritadas mudam para medo e surpresa.
– Por um acaso os cavalheiros conhecem a Suíça? Lindo lugar, com impostos baixos ou inexistentes, sabem o que mais há lá? Uma conta com a exata quantia que fora desviada desta empresa, e pelas expressões que estão fazendo suponho que sabiam sobre essa curiosidade particular. — Levanto-me pegando folhas onde contém cópias de todas as provas que encontramos para incriminá-los e os entrego para que saibam que não estou brincando.
– Então senhores, vocês tem até o dia 31 desse mês para US$ 20.896. 512,00 reaparecerem na conta desta empresa. Um bom dia.
Antes de sair passo no RH e peço para formularem a carta de demissão dos quatro nomes escritos no papel que entrego a secretária e enviarem-me por e-mail, aviso-lhes também que quero sigilo total sobre isso e caminho até a porta de saída onde o motorista me espera, entro no banco de trás da limusine e digo ao motorista que vá para o hotel Beverly Wilshire, ele assente e arranca com o veículo. Subo a tela entre o banco do motorista e o de trás para ter mais privacidade, pego meu Iphone e disco o número de Matthew que atende no primeiro toque.
– Senhor.
– Matthew, alguma novidade sobre a operação?
– Sim senhor, três homens envolvidos estão na cidade.
– Já avisou Lili?
– Sim senhor, a senhorita já está ciente de que deve tomar cuidado.
– Ótimo, mande mais dois seguranças para reforçarem sua equipe, não a quero desprotegida em hipótese alguma entendido?
– Claro, senhor.
– Sabe o nome dos três?
– Ainda não senhor, estou trabalhando nisso, mas estou perto de conseguir.
– Ótimo, obrigado Matthew, por tudo.
– Você sabe que não precisa agradecer Dominic. — São raras as vezes que Matthew chama-me pelo nome, mesmo nos conhecendo a tanto tempo e o considerando quase um irmão, ainda insiste em chamar-me de senhor.
– Até logo Matthew.
– Até logo.
Desligo o telefone e no mesmo momento sinto o carro parar, olho pela janela e vejo que estamos em frente ao hotel, desço a tela para falar com Bart que continua olhando para frente como se ainda estivesse dirigindo.
– Bart.
– Senhor.
– Pode descansar, mas esteja aqui ás 23:30 em ponto.
– Tudo bem senhor, mais alguma coisa?
– Não, isso é só.
Ele levanta e dá meia volta no carro abrindo a porta para mim, saio e vou em direção ao hall do hotel. Noto os olhares cobiçosos que as mulheres lançam-me enquanto estou andando até o elevador, talvez eu escolha uma das belas senhoritas para me divertir durante as duas horas que tenho até ter que me arrumar para partir, quem sabe... Digito o código da suíte presidencial e o elevador começa a subir, por um milagre encontro-me sozinho no mesmo. Saio diretamente na sala de minha suíte, que mais parece um apartamento de tão ridiculamente grande que é, da varanda consigo ter uma vista grandiosa de Los Angeles, além do conforto e da esplêndida decoração dos cômodos. Passei muito tempo da minha vida vivendo na miséria, em lugares degradantes e imundos, agora só contento-me com o melhor.
Vou até o bar localizado perto da janela e sirvo-me de um copo de Whisky para tentar relaxar pelo menos um pouco do estresse do dia de hoje, solto o nó da minha gravata e retiro o paletó enquanto ando até o quarto, sento na cama e acabo de retirar minhas roupas, preciso de um banho urgentemente, olho o relógio e vejo que já são oito e meia da noite, o que me deixa com três horas livres até Bart vir buscar-me, levanto e vou até o banheiro ligando a água quente do chuveiro e entrando no box, deixo a água lavar tudo de ruim que acontecera em minha vida, e tudo que ainda acontecerá, sempre faço isso, não importa quanto tempo passe, gosto de achar que a água cura minha alma, mesmo que essa tenha sido levada há muito tempo...
Saio, seco-me e coloco uma toalha branca enrolada na cintura, estou com um pressentimento ruim que me persegue desde o momento em que pisei nesta cidade, mas levando uma vida como a minha, sempre há um pressentimento ruim, em todo lugar, aonde quer que eu vá, não dou muita importância a isso e vou até minha pequena mala pegar uma calça de moletom, visto-a e penso que uma boa dose de sexo não seria nada mal agora, mas não tenho tempo para isso, preciso checar que homens são esses os quais Matthew se referiu e porque estão em Nova York.
Pego meu celular e disco o número de Matthew novamente.
– Senhor
– Matthew, já tem os nomes?
– Sim, senhor.
– Excelente, mande os para meu e-mail.
– Acabei de enviá-los.
– Descobriu mais alguma coisa?
– Não, senhor.
Despeço-me de Matthew e pego o notebook para poder acessar meu e-mail, todos os meus aparelhos eletrônicos são altamente protegidos, pago muito bem minha equipe de informática para manter todas as informações contidas em meu celular, computadores ou tablets longe de olhos curiosos. Abro o arquivo e surpreendo-me ao ver que não apenas contém o nome dos homens mas também suas fichas completas, como idade, nacionalidade e fotos, salvo as imagens e mando-as para o e-mail de Lili, amo essa pequena encrenqueira, ela é o mundo para mim, a irmã que não tive, uma das poucas pessoas que permiti fazerem parte de minha vida, se algo a acontecesse nunca me perdoaria.
Pensando na baixinha, olho meu celular e o vejo tocando juntamente com uma foto sua.
– Fala maninho. — Começamos a nos tratar assim quando percebemos que éramos nós contra o mundo, e desde então somos como irmãos.
– Como anda minha irmã favorita?
– Eu sou sua única irmã seu tonto.
– Por isso é minha favorita. — Minha resposta lhe arranca uma risadinha do outro lado da linha, passei tanto tempo sem ouvir esse som de alegria vindo dela que fico feliz só de vê-la contente.
– Mesmo se existissem outras eu continuaria sendo a melhor do mundo, eu sou sensacional ninguém é pário para mim. — Rio de seu egocentrismo que ao mesmo tempo é ridículo e meigo.
– Humildade deveria ser seu sobrenome.
– Concordo plenamente Nick. — Não tenho nenhum apelido, nunca, odeio esse tipo de intimidade, menos por parte de Lili que insiste em chamar-me por esse apelido ridículo que inventou, no início eu detestei, mas fui me acostumando a ele assim que vi que essa era uma das formas que tinha de demonstrar seu carinho. Seu bom humor morre de repente quando me faz a próxima pergunta. — Acha que esses homens estão atrás de nós?
Passo a mão em meus cabelos em um gesto de nervosismo, não quero preocupar-la, mas sei que vieram atrás de mim, ou em uma hipótese que não posso nem pensar, atrás dela...
– Eu não sei Lili. Acho que não, como saberiam que mudei meu nome? — Minto para ela com o coração apertado, odeio não poder lhe dizer a verdade, mas pelas informações que recebi a organização está bem perto de localizar-me, não posso dizer isso a ela, não é justo, conhecendo-a como conheço sei que ela parará sua vida para ajudar-me da forma que puder, e isso não irei permitir. — É impossível, pare de pensar nisso e volte para sua vida, qual era mesmo nome do rapaz que você disse estar apaixonada semana passada? — Odeio conversar sobre esses assuntos, pode não ser de sangue mas porra, é da minha irmãzinha que estamos falando aqui, não quero nenhum desgraçado em sua cama, não mais do que os seres repugnantes que já passaram...
– Alex, Nick, o nome dele era Alex e descobri que era um cafajeste, ele tinha uma noiva sabia disso?
– Que filho da puta de merda.
Paro de prestar atenção no que minha irmã está falando assim que olho para meu computador e vejo ele, a porra do homem que me buscou e levou-me até as profundezas do inferno 23 anos atrás, fico olhando aquela foto estático, meu cérebro simplesmente não processa o que estou vendo.
– Lili, te ligo depois.
Desligo o telefone sem ao menos escutar o que ela disse e em seguida ligo para Matthew.
– É ele.
– Qual deles?
– O terceiro, pegue-o.
– Sim senhor.
Após verificar mais sobre o homem que acabou com a minha vida descubro que já serviu o exército, fora preso duas vezes por tráfico e uma por agressão dentre outras coisas, esqueço o assunto por um breve momento e concentro-me em meu trabalho, olho o relógio e já são 23:00, fecho o computador, coloco um terno e termino de colocar as poucas coisas que usei dentro da mala. Aperto o botão do elevador que chega alguns segundos depois, faço o check-out e direciono-me para a saída onde Bart já me espera de pé ao lado da limusine, ele pega minha mala e abre a porta, sento-me e continuo a trabalhar e enviar e-mails, depois de 45 minutos sinto o carro parar e sei que chegamos ao aeroporto, desço, pego minha mala e despeço-me de Bart com um aceno de cabeça. Ando até a sala privativa do aeroporto esperando que meu jatinho particular já esteja pronto, olho para o relógio e vejo que são 00:30, assim que volto ai que estava fazendo uma linda aeromoça aparece na sala:
– Com licença Sr. Davenport, deseja algo para beber ou comer antes de embarcar na aeronave?
– Não, obrigado.
– Sendo assim acompanhe-me por favor.
Sigo-a até o avião, subo as escadas, sento-me em uma das confortáveis poltronas e afivelo o cinto de segurança,alguns minutos depois a aeronave levanta vôo e desta vez como planejei esta viagem de emergência não temos aeromoças disponíveis a bordo, assim que o piloto autoriza destravo o cinto e vou para a suíte contida no fundo do avião, dispo-me e deito na cama, durmo um sono cheio de pesadelos com minha infância e juventude, acordo suado e com raiva, olho para o relógio e constato que dormi apenas quatro horas e meia, tomo um banho gelado limpando de mim o horror que revivenciei em meus sonhos e visto-me novamente em seguida saio da suíte retornando a poltrona e atando o cinto novamente, de repente sinto uma pequena turbulência que vai aumentando gradativamente, meu coração acelera e o pressentimento ruim que senti mais cedo volta me atingindo com tudo, logo após a turbulência sinto o avião caindo e por fim o impacto sobre meu corpo, absolutamente tudo dói, não consigo me mover e meus últimos pensamentos são sobre minha avó e algumas palavras que ela me disse quando era bem pequeno antes de fechar os olhos e não sentir mais nada.
" — Meu netinho você ainda encontrará a felicidade em sua vida, tenha certeza, quando achar que tudo está perdido pense nisso, pense no que ainda virá, e na família linda que sei que irá construir..."
3 Dias Depois...
Não consigo me mover ou esboçar qualquer tipo de reação, é como se estivesse preso em um corpo que simplesmente não funciona, consigo ouvir tudo ao meu redor, mas o que me chama atenção é uma voz específica, quase angelical, e seu toque faz um sentimento á muito adormecido despertar, sinto como se um choque muito forte atravessasse todo meu corpo, meu coração acelera quando sinto-a tocar minha mão, e ouço os bips da máquina que controla meus batimentos cardíacos acelerarem, tão rápido quanto veio, a sensação se vai quando sinto-a se afastar.
– Oi, eu sei que não me conhece, mas meu nome é Rubi e eu sou a médica que operou você. — Ela para por um momento e prossegue. — Não sei porque, mas tenho essa necessidade avassaladora de ficar perto, de cuidar de você...Se estiver ouvindo, por favor, não me ache louca ou psicopata, na verdade não tenho o direito de lhe pedir tal coisa, até por que eu mesma estou começando a achar que sou ambas as coisas. Bom quero apenas que saiba que estou torcendo mais que tudo no mundo para sua recuperação e que se depender de mim você sairá daqui em breve.
Meu coração se enche de um sentimento antes desconhecido por mim, ela disse que está torcendo mais que tudo para minha recuperação, abro um sorriso interiormente que nunca antes dei na vida, mas não consigo esboça-lo. Ela continua falando cada vez mais e sua voz tão doce e meiga é música para meus ouvidos, ouço atentamente sobre os detalhes de sua infância, o que traz-me um aperto diferente, dessa vez com um gosto amargo por não ter tido uma também, mas ao mesmo tempo sinto-me extremamente feliz que sua infância fora a que eu não pude ter, ela merece, parece ser a melhor pessoa do mundo, e eu sei que é, ela é um anjo, meu anjo.
Ela começa a falar sobre as aulas de francês e alemão que seus pais a obrigaram a fazer:
– Eu detestava tanto que um dia coloquei um ovo meio quebrado na cadeira de cada professor e quando eles sentaram...BOOM. -Ela para de falar e começa a rir como se isso fosse a coisa mais engraçada do mundo, de certa forma, sim, é bem engraçado, mas no que preto mais atenção é em sua risada, e é o melhor som do mundo. — Mas é claro que depois disso fiquei de castigo por dois longos meses.
Ela comenta algo sobre os pais serem super protetores e amar morar com um tal de Giovanni, o que me enche de um ciúmes irracional – deve ser o namorado seu idiota, você não é nada dela. — meu subconsciente me alerta, mas não consigo conter essa onda de sentimentos, eu nunca nem vi essa mulher, como posso sentir qualquer coisa por ela porra?.
– Eu e Giovanni viemos morar em Nova York quando fizemos 18 anos, meus pais e os dele compraram-nos um apartamento enorme no Upper East Side. Nós dissemos a eles que não havia necessidade de tamanho luxo se quase não pararíamos em casa, mas eles insistiram, e tudo bem, nós não reclamamos por muito tempo, vivemos lá até hoje, mas agora nós pagamos nossas contas logicamente. Sempre quisemos ter um cachorro, quer dizer, eu e Gi, mas não conseguimos escolher a raça. — Ela para, parece relembrar algo e continua. — Chega a ser hilário o quanto somos indecisos, 9 anos para decidir qual cachorrinho comprar e ainda não conseguimos nos decidir, inacreditável não é? — Ela ri e de novo uma sensação estranha toma conta de mim.
Conta-me sobre sua viagem a Roma com o tal amigo — e quem disse que é só amigo idiota? – meu subconsciente fala de novo e eu ignoro-o, mas a parte em que realmente prestei atenção fora quando falou que fazia aulas de pole dance, porra, essa mulher não pode existir, agora estou imaginando-a dançando sensualmente em um poste para mim, em meu quarto, e de preferência nua, meu pau acorda com tudo só ao imaginar a cena, preciso vê-la, preciso tê-la, mas sei que não posso e não irei arrastá-la para toda podridão que envolve minha vida...
– Bom Dominic, preciso ir embora, mas virei todos os dias lhe ver até que esteja melhor. — Essas palavras são como um soco em meu estômago, claro que não esperava que ela ficasse aqui ao meu lado o tempo todo, afinal ela tem sua própria vida, eu só esperava que...nem eu mesmo sei o que esperava, mas definitivamente sei que queria que ficasse aqui e continuasse a contar-me sobre sua vida.
Ouço a porta do quarto fechar e finalmente permito-me dormir, então paro de ouvir a tudo.
Acordo alguns minutos depois com a voz de Matthew que está conversando comigo.
– Dominic, por favor, acorde, o que será da senhorita Lili sem o senhor? Ela está desesperada, mas não permitirei que venha até aqui, podem estar vigiando-o e sei que não gostaria que ligassem sua pessoa a ela, poderia colocar-la em risco...- Seu tom de voz diminui gradativamente e sei que ele detesta essa situação tanto quanto eu.
Concordo em silencio com sua decisão, Lili realmente não pode vir visitar-me, e para todos os efeitos a única pessoa que todos neste hospital devem pensar ser ligada a mim é Matthew, e ele sabe disso.
– Não sei se você pode me ouvir, mas caralho Dominic, se você não levantar da porra dessa cama eu vou te matar. — Rio internamente com o modo que está falando comigo, nunca ouvira Matthew tão estressado em todos esses anos que conheço-o.
– Os três homens que lhe falei antes, eles estão a um triz de descobrir tudo Dominic, não sei como prosseguir sem você, não consigo sustentar esse plano todo sozinho, você precisa acordar, Lili precisa de você, porra, eu preciso de você.
Tenho certeza que está passando a mão pelos cabelos, ele sempre faz isso quando fica nervoso, não sei o que fazer, não consigo me mover caralho, e pode ter certeza que não é uma merda de escolha minha.
Escuto o som de uma cadeira sendo arrastada até o lado da cama em que estou deitado, Matthew senta-se e que pega minha mão para apoiar sua testa, sinto suas lágrimas escorrendo, merda, é isso que eu faço com as pessoas que entram na minha vida, tudo que faço é trazer infelicidade a elas, todos que amo sofrem por minha causa, primeiro minha avó, agora Matthew e Lili, por isso não posso permitir-me amar, não posso arrastar mais ninguém para este inferno, especialmente alguém que venha a amar, se é que isso um dia será possível...
Ouço batidas fracas a porta e logo em seguida a voz do meu anjo e logo meu coração acelera, essa merda de máquina tem sempre de mostrar o que sinto quando ela está perto de mim? Porra.
Matthew larga minha mão e parece surpreso pela presença de Rubi.
– Hmm...Matthew, desculpe-me, não queria lhe assustar nem atrapalhar, mas é hora de ir, me desculpe
– Pode ficar calmo, está tudo bem, não precisa se assustar.– Acho que ela está se referindo ao aumento de meus ritmos cardíacos, Matthew deve ter se assustado pensando que eu morreria, não hoje meu companheiro, ainda não.
– Que susto.
– Ele é muito importante para você não é mesmo? — Rubi lhe pergunta.
– Sim doutora, ele é a coisa mais perto de uma família que tenho. — Aceno em concordância com suas palavras mentalmente.
– Ao que me parece, você também é a coisa mais próxima de uma família que ele tem. Estou certa?
– Sim... — Matthew responde e agradeço-lhe mentalmente por não mencionar minha irmã.
– Venha, vamos conversar melhor no corredor.
A porta se fecha e imagino que os dois tenham saído, agora finalmente posso adormecer.
Um mês depois...
Muito tempo houvera se passado e ainda estou aqui, sem conseguir sair dessa maldita cama, pelo menos estou respirando sem aparelhos, o que é um bom sinal. O ponto alto de todos os meus dias é Rubi, ela vem diariamente conversar comigo, e a cada dia que se passa sinto algo mais forte por ela que não consigo nomear, sinto como se fosse minha obrigação protegê-la de tudo, inclusive de mim mesmo, e para isso farei oque for preciso. Ainda não consegui vê-la, mas sei que é linda, se não for por fora, por dentro com toda a certeza é.
Hoje mais cedo Rubi apareceu e contou-me algumas coisas engraçadas sobre ela e Giovanni, que agora sei se tratar de se melhor amigo e "irmão", quando meu cérebro processou que não era seu namorado um enorme alivio tomou conta de mim, o que essa mulher está fazendo comigo?
De repente ouço a porta do quarto se abrir e noto que as pessoas que entraram tratam-se de Rubi e Matthew, fico feliz em tê-los aqui, mas logo essa felicidade desaparece quando ouço sobre o que falam:
– Conte-me tudo Rubi, absolutamente tudo. — Percebo que meus sentimentos para com essa mulher estão ficando mais fortes quando sinto ciúmes de Matthew chamando-a pelo primeiro nome, porra, eles não podem ter essa intimidade.
– Três homens chegaram de roupas pretas e óculos escuros e começaram a fazer perguntas para Lydia sobre Dominic, como quem estava cuidando do paciente, qual era seu quarto, se alguém vinha visitá-lo com frequência, ela não respondeu a qualquer uma dessas e explicou-lhes as regras do hospital sobre a privacidade de nossos pacientes, ela me disse que pouco antes de minha chegada ela tentou chamar a segurança, mas quando ia colocar a mão no telefone um dos homens levantou a jaqueta e mostrou-lhe que estava armado, eu ouvi toda a conversa de longe e liguei para você logo em seguida.
– E eu disse pra você ficar longe deles.
– Sim, mas já lhe disse que agi por impulso e também já me desculpei sobre isso, não vou edir desculpas de novo.
– Tudo bem, continue.
– Eu os enfrentei, e pedi para que deixassem o estabelecimento ou seria obrigada a chamar a segurança, depois disso eles olharam-me de cima a baixo fixando-se bem em meu roso, como se estivessem, não sei, gravando minhas feições, como se fossem procurar por mim algum dia e eles também me...
Estou ouvindo a toda conversa com muita atenção, ao escutar que Rubi chegou perto desses homens, falou com eles e o pior, os enfrentou, essas pessoas, se é que podem ser chamadas assim, não são o tipo de gente que esquece uma coisa como essa, e eliminam tudo e todos que um dia já ficaram em seu caminho, esses homens não estavam apenas olhando-a, estavam gravando sua aparência para irem atrás dela depois, Rubi acabou de assinar sua sentença, e por minha causa, adoeço só em pensar que tentarão fazer algo contra ela, e meu coração começa a bater tão rápido que achei que a maquina que media meu batimentos quebraria, tão rápido quanto começou a acelerar ele para de bater, e meu último pensamento é de que o mundo será melhor para todos aqueles que amo sem mim...
Achei que tivesse morrido, mas de repente sinto choques fortíssimos atingindo meu corpo, no terceiro choque sinto uma força tão grande vinda de dentro de mim que abro meus olhos, e tudo que consigo enxergar a minha frente é a coisa mais linda que já vi na vida, é incrível como a chamei de anjo em minha mente durante todo esse tempo e não fazia ideia de que ela realmente pareceria-se com tal criatura, linda, loira e com os olhos azuis como duas piscinas cristalinas, mas estão vermelhos por conta do choro, minha força está acabando e o sono tomando conta de meu corpo, então digo a primeira coisa que vem a minha mente:
– Anjo, você é o anjo... — Depois disso não lembro-me de mais nada.
Acordo mais tarde e finalmente consigo sentir meu corpo e falar, aperto o botão para chamar a enfermeira, sinto minha garganta seca, peço-lhe um copo d'água e também que chame Matthew Hall para mim, ela sai do quarto e dois minutos depois uma outra entra trazendo-me uma bandeja de comida que mesmo de hospital, é muito bem-vinda neste momento. Logo escuto a porta do quarto bater, mas não me viro sabendo que é Matthew e provavelmente Rubi, só consigo escutar sua respiração ofegante, como se tivesse corrido para chegar até aqui o mais rápido possível. Ouço o barulho que ela faz com a garganta para chamar minha atenção e viro a cabeça em direção a eles, quando a vejo meu coração se aperta e não me lembro qual fora a última vez que me senti assim, talvez nunca, não consigo correr o sorriso que invade meu rosto ao olhá-la pela segunda vez, e agora está ainda mais bonita do que me lembrava, se é que isso é possível, meus batimentos aceleram e a maldita máquina entrega a todos do quarto como me sinto sobre essa mulher, lembro que devo evitá-la e afastá-la de mim a todo custo, mesmo que não queria isso, é o que deve ser feito, pensando nisso tiro o sorriso que antes estampava meu roto e substituo-o por uma expressão fria e inexpressiva, logo meu coração volta a bater normalmente também, ela franze o cenho estranhando minha mudança de humor, e devo ressaltar que fica linda quando faz isso, mas não comenta nada e começa a falar:
– Olá Sr. Davenport, sou a Dra. Mantovani, mas pode me chamar de Rubi se preferir. Fui a responsável por sua cirurgia assim como pela sua recuperação, fico extremamente feliz em vê-lo acordado após tanto tempo. Agora preciso fazer alguns exames de praxe em casos como o seu, não se preocupe, não terá que sair daqui, enquanto lhe examino você pode tirar quaisquer dúvidas que tenha e eu possa responder, depois lhes deixarei a vontade para conversarem a sós.
Dito isso, ela pega um aparelho e checa minha pressão.
– Como cheguei aqui, e porque passei por uma cirurgia?– Pergunto-lhe em meu habitual tom de voz frio que uso com quase todos, mas quando ela tenta retirar o aparelho de meu braço, por uma pequena fração de segundo sua pele encosta na minha, e desta vez a eletricidade que sinto é muito maior, ela olha-me como se para confirmar que também senti o que ela sentiu e nossos olhos se cruzam, nesse momento me perco no azul mais puro que já vi e penso que o paraíso seria acordar todas as manhãs com essa mulher em minha cama olhando desse modo para mim, a máquina ao meu lado começa a fazer bips constantes indicando o aumento da velocidade de meus batimentos, isso está começando a me irritar para caralho.
– A doutora poderia por favor tirar essa máquina irritante de mim? — Meu tom de voz é irritado, prefiro não usar seu primeiro nome mesmo querendo muito saber como é senti-lo rolar pela minha língua, mas tenho que manter a distância.
Ela desliga o aparelho e depois da resposta que me dá fico boquiaberto e com os olhos arregalados pela sua ousadia em enfrentar-me e percebo que essa mulher não leva desaforo, de ninguém, e porra isso é sexy como o inferno.
– Você poderia pedir-me com um pouco mais de educação, mas já desliguei, satisfeito?
Volto ao meu semblante indiferente e lhe respondo:
– Sim, obrigado. — Deve ser a primeira vez em anos que agradeço alguém sem ser Lili ou Matthew.
Ela termina de examinar-me e põe-se ao lado da cama cruzando os braços, o que ressalta seus seios mesmo estando cobertos pelo jaleco, consigo imaginar-los cabendo perfeitamente em minhas mãos, chupando-os, só com o pensamento meu pau fica duro como pedra.
– Respondendo a suas perguntas Sr. Davenport, o senhor chegou aqui no dia 20 de maio, após ter sofrido um sério acidente em seu jatinho particular segundo o que me foi passado, tivemos que realizar a cirurgia pois encontrava-se com múltiplas fraturas nas costelas, um braço e uma perna quebrados e traumatismo craniano grave, como pode ver, foram esses os motivos que o levaram a ser operado. O senhor provavelmente deve ter muitas perguntas e responderei-lhe a todas da melhor forma que conseguir. — Isso esclarece muita coisa, mas ainda tenho algumas dúvidas.
– Certo, e que dia é hoje?
– 25 de junho, você ficou em coma durante um mês e cinco dias e só acordou hoje por volta das onze da manhã quando teve uma parada cardíaca e tive que ressuscitá-lo com um desfibrilador, depois falou algo sobre um anjo com o qual provavelmente sonhou e dormiu novamente, voltando a acordar somente agora. — Ela olha seu relógio consultando as horas e prossegue. — Por volta das três da tarde.
Assusto-me ao ouvir que falei sobre o anjo, que no caso, é ela, mas acho que Rubi não sabe disso, achei que tivesse apenas pensado que falei, pelo visto não, mas logo recupero minha postura.
– E você veio me ver todos os dias? Quer dizer, você veio verificar meu estado todo esse tempo?– Merda, minha voz saiu um pouco, esperançosa, como se quisesse a confirmação e que ela viera me ver todos os dias quando eu já sabia a resposta, só queria ouvir essas palavras de sua boca.
– Sim...Como sua médica, é meu dever, mais alguma dúvida? — Não era essa a resposta que queria, não mesmo, fico irritado e meu semblante se fecha em uma carranca.
– Terei alguma sequela?
– Pelo visto não, mas terá que fazer fisioterapia por conta do braço e da perna que não pôde mexer por muito tempo e voltar a exercitá-los.
– Certo, obrigada Dra. Mantovani, são só essas dúvidas por enquanto.
– De nada, deixarei vocês a sós, qualquer outra pergunta que venha a surgir, não exite em chamar-me, com licença.
Meu anjo sai do quarto deixando-me sozinho com meu amigo, irmão e segurança.
– Não pense que não notei o jeito que olha para Rubi.
– E por que porras você a chama pelo primeiro nome e não de Dr. Mantovani? — Pergunto deixando meu ciúmes por essa mulher cristalino como a água e meu amigo ri de minha reação.
Durante este tempo consegui perceber que Matthew realmente se preocupava comigo, o que me fez dar mais valor a sua amizade.
– Hahahaha, não creio no que meus ouvidos escutam, o todo poderoso Davenport com ciúmes de uma mulher que nem conhece.
– Conheço-a melhor que você. — Digo querendo provar meu ponto.
– Como? — Pergunta não compreendendo o que eu disse.
Conto a Matthew que escutei tudo durante o tempo que estive em coma e conto sobre as conversas unilaterais que Rubi todos os dias tinha comigo, ele se surpreende e fala que isso faz sentido, pois durante todo esse tempo ela sempre demonstrara por mim uma preocupação maior do que uma médica teria por um simples paciente, disse que parecia ser algo mais...
Ele me põe a par de todos os acontecimentos, desde o andamento de minhas empresas até a operação e como Lili está desolada por não ter sido deixada visitar-me, sinto-me mal por minha irmã mas é para o seu bem, continua contando-me mas algumas coisas até chegar no assunto que eu queria:
– Os três homens que... — Interrompo-o e digo:
– Sim, eu ouvi você conversando com uma mulher que eu desconhecia, mas sei que era com Rubi.
Peço que chame-a para mim e ele assente e caminha em direção a porta abrindo-a.
A cena que vejo a minha frente faz-me explodir de raiva, um homem está com os dedos embaixo dos olhos de Rubi como se estivesse limpando algo e seus rostos estão tão próximos que parecem a ponto de se beijarem, o que me deixa insanamente enlouquecido de ciúmes e raiva, e um sentimento de posse toma conta de mim, ninguém a não ser eu pode chegar perto do meu anjo. Ela olha em minha direção e se afasta do homem, o que faz minha ira diminuir, mas não completamente, estou puto da vida, os dois pombinhos liberam a passagem e Matthew sai do quarto fechando a porta impedindo que eu veja o que acontece do lado de fora.
Momentos depois Rubi passa pela porta e caminha até a cadeira ao meu lado, recosta-se e cruza as belas pernas que possui, então começa:
– Olá Sr.Davenport, queria falar comigo?
– Sim.
– Prossiga.
– Eu estava ouvindo a conversa que teve com Matthew hoje pela manhã, quer dizer, eu consegui ouvir, só não conseguia esboçar reações, parecia que meu corpo não me obedecia, mas agora que consegui esclarecer um pouco as coisas que aconteceram enquanto permanecia em coma, gostaria que me contasse um pouco mais sobre os homens que vieram procurar-me e consequentemente assustaram á senhorita e sua secretária.
– Claro.– Responde prontamente.
Ela conta-me todo ocorrido desde quando encontrou os três homens dizendo a sua recepcionista Lydia que não importavam que seus nomes não constassem na lista de visitantes permitidos, que entrariam e veriam Dominic de qualquer jeito, até o momento em que chegou e lhes disse que seria melhor deixarem o estabelecimento ou seria obrigada a chamar a segurança.
– E quando mencionei chamar a segurança um deles fez questão de mostrar-me que estava armado e me ameaçou dizendo que...
– Espera, espera, ELE FEZ O QUE?– Exalto-me e praticamente grito, não acreditando que meus pensamentos estavam certos, por minha culpa Rubi assinou sua sentença, um desespero começa a tomar conta de todo meu corpo junto com o sentimento de raiva por ela não ter seguido as ordens de Matthew e ter ficado longe dos homens, porra de mulher teimosa.
Ela se levanta vindo até mim e fazendo-me deitar novamente.
– Você não pode se alterar assim, respire fundo. — Faço o que me disse e fecho os olhos tentando, acalmar-me, abro-os e estou um pouco menos furioso.
– Tudo bem, estou melhor obrigado. — Dito isso ela volta a sentar-se na poltrona.
– Como estava dizendo, ele me ameaçou, não diretamente, se bem me lembro suas palavras foram "Nós vamos voltar doutora, nos aguarde, e quando acontecer, não seremos tão simpáticos." algo assim.
– Merda. — Xingo e bato na cama por falta de um saco de pancadas para espancar, por que essa é minha vontade no momento, espancar alguma coisa para tirar essa raiva de mim.
– Dominic, o que isso significa? — Chame-me pelo nome indicando que não está aqui como médica e sim como alguém que foi ameaçada por três homens que não faz a mínima de quem são.
– A palavra "merda"? Olha pode sig... — Tento expressar minha fúria em ironia mas ela me interrompe.
– Claro que não estou perguntando sobre a palavra "merda", sei muito bem o que significa. Quero saber o porque desses homens armados virem lhe procurar aqui, o motivo de ameaçarem-me, eu estou no meio disso, eles falaram que iriam voltar e provavelmente vão querer "falar" comigo, eu tenho o direito de saber o que está acontecendo. — Seu tom de voz aumenta gradativamente indicando que é melhor não brincar com ela.
– Hey, acalme-se doutora, e para você, é Sr. Davenport.
– Não, para mim é o que eu quiser quando estamos falando da minha segurança e a de todos neste hospital, então contenha seu lado arrogante para si mesmo porque com pessoas como você eu convivi durante 18 anos da minha vida. Se não quer me explicar, tudo bem, mas saiba que descobrirei sozinha do que tudo isso se trata, se você não está preocupado com a sua vida o problema é inteiramente seu, mas eu dou muito valor a minha. - Olho-a embasbacado e sentindo um puta tesão por essa mulher que acabou de colocar-me em meu devido lugar, a única pessoa que tem coragem de desafiar-me enquanto ela se levanta e caminha até a porta de saída, mas de repente para e sem virar-se de frente pergunta:
– Posso lhe fazer uma pergunta?
– Acabou de fazer.– Acho que não tenho medo de morrer, pois é isso que estou pedindo provocando-a desse jeito, mas ela é tão sexy com raiva que não consigo evitar.
Ela continua andando e de repente sinto uma enorme curiosidade de saber o que ela queria perguntar.
– Espere, faça.
Ela vira-se em minha direção e faz sua pergunta:
– Por que você está me tratando assim, quer dizer, você nem me conhece e parece que nutre um ódio profundo de mim, eu não entendo.
– Assim como? — sei exatamente sobre o que ela está se referindo. Ah querida, não é ódio, com certeza não, tesão, eu diria que com certeza, e também algum outro sentimento que ainda não sei nomear, mas não ódio docinho, penso comigo mesmo.
Rubi respira fundo como se não aguentasse mais meus joguinhos e retoma o caminho até a porta, mas sinto uma súbita necessidade de lhe dizer a verdade, pelo menos sobre isso.
– Porque você é muito especial para se machucar tendo qualquer contato com alguém como eu.– Digo a verdade a ela e meu tom de voz diminui a cada palavra proferida, pois cada uma delas me machuca e lembra-me de quem eu sou de verdade e como nunca vou ser merecedor de ter alguém tão pura como ela.
Ela dá meia volta e me encara.
– Como assim alguém como você?
– Olha Rubi, você tem razão, eu nem lhe conheço direito, desculpe-me por ser grosso e arrogante, mas é o único modo que eu sei de proteger aqueles que me importo.
– Como nós dois dissemos, você nem me conhece, por que se importaria comigo?
– Pelos mesmos motivos que você passou um mês inteiro vindo me ver e conversar comigo para que pudesse melhorar, sem que ao menos houvesse ouvido minha voz. Eu não sei porque, mas tem algo muito forte que faz com que eu me importe com você, e para mantê-la segura, eu preciso que por favor se afaste de mim e fique o mais longe que puder.
Ela para e reflete sobre minhas palavras, mas como a mulher decidida que já notei que é responde:
– Você não decide o que é melhor para mim. — E com essa resposta sei que ela não irá a lugar algum, a menos que eu mude minhas estratégias, já que frieza e inexpressividade não funcionam, temo que agora terei que machucá-la, não sei por que, mas sinto que ver o sofrimento em seu rosto machurá dez vezes mais a mim do que a ela.
No mesmo dia peço para que proíbam a entrada da Dr. Mantovani em meu quarto e também para que troquem meu médico supervisor, ressalto que não houve nenhum problema e ela é uma médica excelente.
– Só acho que ela acompanha meu quadro a muito tempo e está abrindo muito tempo de sua vida para isso, então acho que seria melhor proibi-la de vir ao meu quarto para que retome sua vida, compreende?
– Sim, claro Sr. Davenport, completamente, excelente decisão, Rubi precisa mesmo voltar a viver. — Diz a enfermeira chefe e sai logo em seguida.
No dia seguinte Rubi entra em meu quarto com tudo enquanto Matthew e eu estamos tendo uma animada conversa que interrompemos assim que a vimos.
– Matthew, poderia nos dar licença por favor? — Pede gentilmente, mas aposto que está se controlando para não me matar.
Matthew olha para mim esperando minha confirmação e eu assinto e ele se levanta saindo do quarto nos deixando a sós.
– Qual é a porra do seu problema? — Pergunta elevando seu tom de voz.
– O meu problema? Você está brincando? Uma louca vem todos os dias aqui me contar sobre sua vida e quer se meter nos meus assuntos e eu não tenho o direito de pedirem para afastarem-na de mim? Sim, realmente quem tem o problema aqui claramente sou eu. — Digo essas palavras com firmeza, mas por dentro estão me consumindo, não quero machucá-la, mas é preciso.
A tristeza e decepção ao ouvir o que acabei de dizer parece acertarem-lhe como um soco no estômago, ela tenta esconder mas vejo a lágrima que escorre de seu olho e isso me quebra em mil pedaços, a única coisa que quero agora é pedir-lhe desculpa e tê-la em meus braços.
– É, você tem razão.
– Sim, tenho. — Digo mantendo minha posição.
– É mais seguro para mim manter-me o mais longe possível de você, até nunca mais Sr. Davenport.
Ela sai e eu penso na merda que acabei de fazer. Eu acabei de deixar a única mulher que fez sentir-me como se houvesse recuperado minha alma e a deixei ir, quão estúpido eu sou?
Mas foi melhor assim, talvez não para mim, mas para ela...
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