Predestinado
8 Capítulo Oito
Havia pouco mais de uma dúzia de campistas na Arena, que ficava dentro de um grande círculo de pilastras gregas que tanto brilhavam forte com a luz do sol quanto faziam sombra nas arquibancadas de mármore, de onde sátiros e alguns semideuses mais novos assistiam a garota de cabelos negros (a que pareceu que fosse me atirar no braseiro como oferenda aos deuses) ensiná-los a segurar suas armas propriamente.
Quíron pousou uma mão em meu ombro e olhou para mim.
—Logo você terá uma agenda própria com as atividades que lhe interessam, e algumas outras nem tão convenientes. – ele deu uma olhada rápida para os estábulos, e percebi um pouco de nojo escondido de trás da barba espessa. -Calíope é a instrutora de esgrima substituta enquanto John Evans está em missão. Bem, se divirta. E não faça muitas perguntas, ela ainda está pegando o jeito para ensinar os novatos.
—Calíope? – olhei mais uma vez para ela. –Você quer dizer aquela Calíope? A musa?
Quíron olhou para mim como se eu tivesse a pior doença ocular do mundo.
—Não, não. Absolutamente não. Ela é a conselheira chefe do chalé de Atena. Apenas o nome é parecido. Apenas isso, acredite em mim.
Chegamos mais perto do grupo e Calíope ergueu uma mão, o que fez todos pararem e abaixarem suas armas rapidamente. Eles fizeram uma reverência para o centauro e ela andou em minha direção, ainda parecia que estava prestes a me dar um golpe de judô ou algo parecido.
—Está atrasado, novato. – ela disse, e eu pensei que naquele mesmo momento eu seria forçado a fazer cem flexões na frente de todos. Quíron sorriu nervosamente e disse:
—Ele acaba de conseguir uma arma e ainda estava conhecendo o lugar. Dispense o atraso, criança.
Ela semicerrou os olhos para mim e apontou com a espada para o resto dos campistas.
—É melhor que você não se empale com essa coisa. – ela olhou para a bainha pendurada em minha cintura. Aquilo soou mais como uma ameaça do que qualquer coisa. Talvez fosse.
—Sim, senhora. – eu me apressei em dizer, indo para perto dos outros, que não ousaram esboçar nenhum risinho.
Quíron me lançou um olhar piedoso e galopou para o campo de treinamento ao lado, que se focava apenas em armas de longo alcance.
Calíope se posicionou na frente de mim e dos campistas, nos analisou um a um com os olhos de tempestade e, como se não fosse mais óbvio, apontou com a espada para mim.
—As ninfas espalharam o boato de que você matou uma fúria com as mãos vazias. – ela começou, fazendo um gesto com a espada para que eu me aproximasse, ou para que eu fosse atravessado por aquela lâmina enorme de bom grado. –É verdade?
Olhares todos em mim. Senti as orelhas esquentarem.
—Não usei as mãos... – eu balbuciei, logo depois escutando cochichos atrás de mim.
—Ah. É claro. – Calíope andou em volta de mim. –Não precisa de armas, então?
—Aquilo foi diferente. – expliquei -Ela já estava nocauteada. É complicado de se entender quando-
—Saque a espada. – ela me interrompeu. Claramente não estava interessada na história. Fiz o que ela pediu. –Encoste a lâmina da sua espada na da minha. Vamos ver se está bem equilibrado.
Eu levantei a espada na altura do peito e deixei que sua lâmina roçasse levemente contra o fio da cimitarra de Calíope. A arma me lembrou as ilustrações de espadas dos piratas no livro de história do quarto ano. Elas não pareciam tão intimidadoras quanto a da instrutora. Ela deixou o peso da arma se debruçar contra mim e pareceu satisfeita com o que quer que tenha percebido.
—Está muito bem equilibrado. – ela disse. –Certo, todo mundo. Nós semideuses temos reflexos naturais para o combate. O novato aqui...
—Eugene. – rosnei. Não gostava de ser chamado por qualquer coisa que não fosse meu nome, depois de quase tê-lo esquecido no Cassino Lótus. O olhar que Calíope me lançou fez a espada parecer mais pesada.
—Não me interrompa. O novato, Eugene, vai lhes mostrar na prática como se defender, mesmo sem muito treinamento. Não fiquem muito perto.
E girou a cimitarra, desferindo um golpe em meu ombro. O talho não foi muito profundo, mas logo pude ver o filete de sangue que apareceu de dentro da manga da camisa. Aquilo me fez dar um passo para trás. Ela não estava brincando.
—Ai. – foi a única coisa que eu pensei em dizer. Ela atacou de novo, dessa vez o alvo era meu joelho. Senti a lâmina chegar perto da minha pele e simplesmente movi a perna para o lado, logo depois chutando a base da lâmina da cimitarra, que pulou da mão de Calíope e pousou logo do lado do campista mais próximo. Ele se encolheu e correu para o outro lado.
Acredite em mim, eu também não esperava por essa.
Calíope estava encarando a palma da mão, pareceu não ter entendido o que acabara de acontecer. Achei que ela fosse me parabenizar por tê-la desarmado, mas tudo o que recebi foi o baque da terra contra minhas costas depois que ela pulou na minha direção e tirou-me a espada com a naturalidade de quem amarra um cadarço. Um segundo depois seu joelho estava pressionado contra meu estômago e a ponta da minha espada cutucou-me o pescoço.
—Que porra você acabou de fazer, garoto? – ela me repreendeu. Tentei empurrá-la para longe, mas ela pressionou o joelho contra mim com mais força e eu senti o ar escapar dos pulmões. –Quem diabos chuta uma espada no meio da batalha?
Tentei dizer algo, mas tudo que saiu da minha boca foi um barulho que mais parecia um pneu murchando. Ela se levantou e jogou a espada do meu lado, juntando sua própria.
—Bem, isso não foi o que eu esperava de uma reação instintiva para o combate, mas vocês devem ter entendido. – ela disse para os outros campistas. –Levante, novato Eugene. Vamos fazer isso direito.
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Até a hora do almoço eu já estava repleto de cortes nos braços, pernas e bochechas. Calíope não baixou a guarda nenhuma vez enquanto eu tentava acertá-la. Ênfase no tentava. Ela mal parecia estar suando depois de quarenta minutos inteiros de estocadas e defesas aqui e ali, mas eu estava a ponto de desabar. Logo após ter me desarmado pela milésima vez, ela finalmente decidiu que já bastava. Logo todos os outros estavam escolhendo seus pares para treinarem eles mesmos, e eu me arrastei para a arquibancada, sentindo o suor escorrendo pelas feridas e fazendo-as arder ainda mais. Calíope se sentou um pouco mais distante e me empurrou um cooler com garrafas d’água, observando e corrigindo os outros entre um gole e outro. Algum tempo depois, ela olhou para mim e perguntou por que eu ainda estava ali e me mandou – leia-se expulsou – para os estábulos. Resmunguei um pouco no caminho, chutando o ar.
Quando cheguei, havia apenas um garoto em meio aos cavalos, e só depois de um momento percebi que eles tinham asas, asas incrivelmente grandes, diga-se de passagem. O garoto deveria ter seus dezessete anos de idade e lembrava um skinhead: grande, musculoso, cabelo loiro raspado e rosto duro como uma pedra. Daria bastante medo se não fosse pelo fato de estar falando com os cavalos com voz de criança, ou pela tatuagem de arco-íris no bíceps inchado. Eu limpei a pigarreei e ele se virou para me olhar, se recompondo.
—Não vi você aí... – ele parou e piscou -Ah, você é o novato, não é? Jenos?
—Eugene. – corrigi. –Totenn.
—Isso. Sou Butch Walker, chalé catorze. – ele encarou os meus ferimentos, mas não comentou nada. –As aulas de equitação são apenas depois do almoço.
—Calíope apenas me mandou para cá. Posso ver os cavalos voadores?
—Os pégasos, você quer dizer. Pode, sim. – ele seguiu para um pégaso castanho escuro com uma mancha branca no focinho. –Essa aqui é a Lassie. Talvez você possa montá-la. Venha, interaja com ela. Eles gostam de contato antes de qualquer vôo.
Assenti e aproximei a mão para acariciar Lassie, mas ela relinchou e se moveu para trás, claramente agitada. Olhei para Butch, mas ele parecia tão confuso quanto eu.
—Ela não costuma fazer isso. – ele me assegurou. –Ei, menina. Está tudo bem? Que houve?
Aparentemente Lassie não o havia escutado. Ela empinou e abriu as asas com uma mensagem muito clara: Fique longe.
—Tudo bem, acho que isso não vai funcionar. – eu disse e me apressei para sair dos estábulos. Os outros pégasos agiam da mesma forma quando passei por eles. Butch não se incomodou em tentar me parar, pois estava tentando acalmar os outros cavalos.
Certo. Nada de equitação. Não tem problema. Que se danem os cavalos voadores.
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