Predestinado

18 Capítulo Dezoito



A situação da missão estava no mínimo, esquisita. Depois do pequeno plano de Calíope ter tido sucesso, os caminhos parecia estar se formando por vontade própria, o que não tinha como saber se era um bom ou mau sinal. Não havia mais por onde ir, então tudo o que podiam fazer era seguir em frente. Nenhum monstro cruzou o caminho dos três, nenhuma charada ou enigma, nem mesmo um penhasco para saltar. Estava tudo fácil demais.

—Não parece ter nenhum tipo de movimento à frente. — Dreus disse, os olhos fixados na pequena tela brilhante de seu relógio. Estava mais nervoso que nunca, mas parecia querer ajudar da maneira que podia, e aquilo era um avanço.

Sophia, que seguia com o arco preparado para atirar, mirou Calíope com uma expressão tensa. Calíope conseguia ler a irmã com facilidade, e sabia que as duas compartilhavam do mesmo sentimento. Algo estava muito, muito errado ali.

Não era só o fato de estarem no Mundo Inferior, tinha algo ainda mais… obscuro. Alguns minutos antes, uma brisa gelada os pegou de surpresa dentro do Labirinto. Os três já tinham preparado suas armas, mas nenhum monstro apareceu. Desde então, quase não trocaram palavras entre si. Sophia tentava passar por cima do visível medo que os infestou. Dreus tinha um machado de lâminas gêmeas nas mãos e tremia dos pés à cabeça, mas não hesitou em continuar em frente. Calíope apenas tentava manter a calma e seguir a intuição que parecesse mais promissora, mas mesmo ela sentiu a cimitarra parecer mais pesada em sua mão. Mesmo ela estava apreensiva. Isso não acontecia desde…

—Uma saída! — Dreus sussurou, mirando as meninas. Calíope sacudiu a cabeça para dispersar o pensamento que lhe ocorreu e apertou os olhos e percebeu uma luz arroxeada no fim da caverna.

—Apertem o passo, mas de olhos bem abertos. — disse ela, e caminharam mais depressa, as armas preparadas. Um bipe sonoro foi o que os parou. Dreus arregalou os olhos e mirou o relógio, seu rosto ficando escarlate. Calíope estava prestes a dar uma bronca nele. Aquele som ecoou pelas paredes da caverna, poderia chamar a atenção que eles realmente não precisavam naquele momento. Dreus devia ter percebido esse erro, mas sua expressão mudou de vergonha para surpresa. Ele olhou para perto do fim da caverna e apontou com o machado. As meninas seguiram o gesto e viram algo largado no chão. Mesmo de longe, conseguiram distinguir:

—A mochila dele! —Dreus correu até lá, e Calíope xingou baixinho, acompanhando-o com mais pressa. Antes que ele chegasse perto o suficiente, ela agarrou a alça da mochila dele e o puxou para trás. Ele caiu sentado no chão com um som engasgado e olhou para ela. —Mas que diabos...

—Fique quieto, seu idiota! Vai acabar nos matando. — ralhou ela, e fez um gesto para a irmã, que estava logo atrás.

Sophia preparou a flecha e acertou a mochila em cheio, e elas esperaram por alguma reação. Nada. Ela andou para perto do filho de Hefesto.

—Dreus, você não pode sair correndo quando achar conveniente. Não sabe que tipo de armadilhas podem nos esperar. — ela disse, o ajudando a levantar. Então seguiu para a mochila e pegou sua flecha de volta. Calíope checou o que estava ali dentro e puxou uma camisa laranja do Acampamento Meio-Sangue.

Dreus engoliu em seco.

—É do Eugene, não é…?

Calíope abriu a boca para responder, mas um vento forte e ainda mais gelado que o anterior os atingiu. A intensidade daquilo fez todos eles cobrirem os olhos.

Do lado de fora da caverna, um som estrondoso de água chamou a atenção dos três, que avançaram para tentar entender o que estava acontecendo. A terra rubra e arenosa fez seus passos ficarem mais sonoros, e a visão à frente lhes tirou o fôlego.

Uma figura rodeada de vultos escuros avançava num espaço onde as águas se separavam, caminhando por dentro do Rio Estige. Estava de costas para eles, mas Calíope o reconheceu por conta dos cabelos loiros.

—Eugene! — Dreus chamou, quando o garoto finalmente atravessou por completo para o outra margem, a água oleosa rugindo ao se reunir. Ele não pareceu reagir. Dreus olhou para as meninas como que pede ajuda, e o chamou mais uma vez, agora mais alto.

Eugene!

Ele parou, o que fez os vultos se remexerem com mais intensidade, raivosos. Quando se virou para encará-los, o trio arquejou em completo horror.

No rosto do menino havia uma expressão sem nome. A boca estava entreaberta e ressecada, e o rosto pálido de forma doentia. E seus olhos… vazios e pretos, como se os tivessem arrancado das órbitas. O cabelo loiro se remexia com a intensidade daquelas figuras girando em torno dele. Na mão direita ele segurava a espada, mas a lâmina antes de Bronze Celestial agora tinha o mesmo brilho da espada de Nico Di Angelo. Ele estava voltado para os três, mas não os via.

Calíope congelou onde estava, suas pernas começaram a tremer. Ela já tinha visto aquilo antes. Naquele dia horrível. Viu aquela mesma expressão há tantos anos atrás, mas tempo algum conseguia fazê-la esquecer.

Ela viu o reflexo do rosto do próprio pai, momentos antes de tentar matá-la, em Eugene Totenn.

Ele se virou novamente, de um jeito macabro, como se apenas deixasse seu corpo fazer o que quisesse. Estava sendo manipulado por aqueles vultos como um fantoche, — um fantoche sem vontade e sem vida. — que o fizeram caminhar para dentro da floresta sombria de choupos do outro lado do rio. Calíope ficou no mesmo lugar, apenas assistindo-o tempo o suficiente para que desaparecesse de vista.

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Todos sentiam o mesmo vazio lhes invadindo as entranhas. Dreus tinha caído de joelhos no chão, encarando a floresta. Sophia apertava o arco com tanta força que os nós de seus dedos tinham ficado brancos.

—Chegamos tarde. — Calíope disse, sua voz por um fio. Os outros dois a escutaram, mas ainda estavam muito chocados com aquela cena. —Ele está morto.

Sophia sufocou um soluço, cobrindo a boca com o punho rijo e fechando os olhos com força.

—Que iremos fazer…? — Dreus perguntou, os olhos vermelhos.

Calíope mexeu a cabeça em negativa.

—Eu… Não sei...