Predestinado

20 Capítulo Vinte


A imagem do rosto fantasmagórico de Erika fazia Eugene esquecer das visões e sonhos que estava tendo, um na frente do outro. A raiva que crescia dentro de si por ela fez aqueles sorrisos inspiradores virarem semblantes malignos. Sua luz esbranquiçada se transformou em uma aura escura e fria, como a lâmina da espada do menino.

Ela era um agouro que se alimentava da angústia das próprias vítimas. Ele tinha certeza daquilo, mais do que tinha certeza de seu próprio nome.

Ele a cortaria e absorveria sua essência. Não se importava com o que fosse acontecer depois.

Caminhou com mais velocidade por entre as almas que vagavam nos Campos Asfódelos, que faziam o que podiam para contorná-lo. Os vultos que o cercavam sibilavam raivosamente para qualquer espírito que ficasse próximo, como se o protegessem. Como predadores guardando a presa que acabara de ser abatida de qualquer um que tentasse chegar perto.

Gritavam em línguas antigas. Suas vozes fazendo os espíritos vagantes lamuriarem em conjunto, apavorados.
Eugene não percebia. Estava muito focado no próprio caminho. Seus olhos negros refletiam a própria raiva.

—Onde ela está? — ele ordenou para as sombras, que pareceram hesitar ao escutar sua voz. Logo responderam:

Estamos guiando-o até ela.

Está perto. Muito perto.

Consegue sentir, filhote de deus?

—Não me chame assim. — rosnou, apertando o cabo da espada. A imagem da mulher de seus sonhos — sua mãe — atravessou seus olhos, que perderam um poco daquela escuridão, e ele mirou as sombras que rodopiaram em volta dele. —Totenn. Me chame pelo nome que ela me deu. O nome dela. Quero vê-la depois que matar Erika.

As vozes sibilaram e soaram em volta de sua cabeça, mas demoraram um pouco mais para respondê-lo.

Você verá sua mãe.

Perto. Está tão perto!

—Calem-se. Não quero ouvir mais nada.

E voltou o olhar na direção de seu objetivo. As vozes sussurravam entre si agora, mas ele não as entendeu.
Ele então seguiu para o pequeno vale murado habitado com espíritos macabros e sorridentes. Eugene os viu cobertos de sangue, os olhos brilhando com a malícia de demônios.

Então correu na direção deles, sua fúria aumentando mais e mais. Os espíritos agourentos se voltaram para ele com seus sorrisos crépidos, e ele os atacou. Eles se desfaziam em um pó malcheiroso antes que pudesse absorvê-los com o ferro estígio.

Eles não são importantes. Não lhe farão mal.

Mate-a.

Consegue sentir?

Atrás de você!


Ele virou-se e hesitou quando a viu, finalmente. O semblante demoníaco de Erika se modificava para a imagem que ele vira tantas vezes, antes de chegar ao acampamento: doce e compreensiva. Aquilo o fez ficar ainda mais raivoso.

—Chega de enganações. Enfrente-me como você realmente é!

Que está fazendo aqui? — Erika soava entre uma voz amável e outra perversa, como se falassem ao mesmo tempo. —Que houve com seus olhos? Está machucado?

—Pare de fingir! — rugiu, e desferiu o golpe.

Os vultos se dispersaram e ele foi levado para mais um sonho.

Ele e sua mãe aguardavam juntos para serem julgados pelos Três Grandes Juízes. Caronte, o barqueiro das almas, havia deixado-os passar sem pagar.
Estavam de mãos dadas todo o tempo.

Um fantasma veio na direção dele e suspirou tristemente.

—Tão jovem… Eu sinto muito, pequeno. Me acompanhe.

E se virou para os enormes portões, que abriram. Eugene apertou a mão da mãe com mais força.
Ela tinha um olhar distante. Indignado, até. Ele seguiu o fantasma até o pavilhão e andou até a bancada onde três espíritos dos juízes o encararam com firmeza, recolhendo todos os acontecimentos de sua vida. Os três usavam togas pretas e máscaras douradas sem expressão.

—Filho de Hades. — o primeiro juíz disse aos outros. —Dez anos de idade.

—Não é tempo o suficiente para ser julgado como deveria. — apontou o segundo, que parecia receoso. —Não sabia nem mesmo a situação que se encontrava.

O terceiro juíz assentiu. Tinha uma voz feminina.

—Mesmo sendo filho de nosso senhor, temos de ser justos. — disse. Eugene olhava para cada um deles, confuso. Não fazia ideia do que estava acontecendo.

—Campos Asfódelos.

O chão reverberou de forma voraz. Os juízes de desequilibraram de seus postos. Eugene cobriu a cabeça com os braços.

—Uma promessa quebrada. — a terceira juíza anunciou, mirando seus companheiros.

—Vá pára o Asfódelo, criança. Não há nada que possa fazer.

—A justiça deve prevalecer. Não há privilégios aqui. Seu pai aceitará sua sentença.

—Meu pai…? — perguntou, olhando para os lados. Mas já estava entre outras milhares de pessoas antes que se desse conta. Todos seguindo numa caminhada sem fim, com olhares vidrados e distantes. Talvez tivessem esquecido até o próprio nome.

Ele esperou por sua mãe, mas ela não apareceu. Ele nunca mais a viu desde então.

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Quando o sonho se dissipou, Eugene arquejou, sua visão turva clareando devagar. Não estava mais naquele vale medonho. Agora se encontrava num salão luxuoso, totalmente esculpido em obsidiana, ouro e prata. O piso era tão lustroso que refletia a imagem das colunas, como um grande espelho negro. Ele olhou para os lados e se assustou quando percebeu o homem que estava atrás dele.

Alto, e esbelto. A pele era tão branca quanto osso. O rosto, macilento, mas imponente. Vestia mantos de seda preta com detalhes em dourado que lhe cobria os pés. Uma coisa sobre aquelas roupas chamou um pouco a atenção, pois das dobras ele podia ver rostos sobrenaturais movendo-se em lamúria, costurados um ao outro, sem conseguir se livrar das vestes. O cabelo lembrava o de Eugene: se estendendo em pequenas ondas e pairando sobre os ombros, mas penteados e negros igual piche. Seus olhos pareciam feitos de sombras, as íris mais escuras que as escleras, mas eram controlados, ao contrário dos de Eugene.

O garoto estava boquiaberto, com as mãos e pernas tremendo. Nunca vira aquele homem antes, mas sabia exatamente quem era.

Hades o encarava com uma expressão dura. O menino se encolheu diante daquela presença egrégia.

—Eugene Totenn. — sua voz grave ecoou pelo salão. —Já faz muito tempo.

Da boca de Eugene, nada conseguia ser pronunciado. Ele não sabia o que sentir. Respeito ou medo, raiva ou… felicidade. Seus olhos negros agora voltavam ao verde-musgo. O deus continuou a falar:

—Se deixou ser tomado e manipulado por agouros de ódio e loucura. — suspirou em desapontamento. —Deve ter sido essa a maldição que caiu sobre mim. Não é do meu feitio quebrar promessas, afinal.

Levantou a palma da mão direita, onde estava um lenço branco. O mesmo lenço que sua mãe segurava no sonho, minutos antes de morrer.

Ao pensar na mãe, Eugene sentiu algo inflando em seu peito. Finalmente teve a coragem de falar.

—Onde ela está? Quero vê-la.

Hades franziu as sobrancelhas.

—Não posso deixá-lo fazer isso. Sei de suas intenções. De nada irá ajudá-lo.

—Por favor… — ele engoliu o soluço que subiu-lhe a garganta.

—Não entendo onde quer chegar. Os mania o manipularam de tal modo… — o Senhor do Mortos balançou a cabeça.

—Deixe-me vê-la, eu te imploro! — gritou, apertando o cabo da espada com toda a força. —Nunca pude dizer adeus! Dizer o quanto a amo!

A voz do menino ecoou, e por longos segundos apenas o silêncio envolveu aquele lugar.

—O deixarei vê-la. — decidiu. —Mas me responda… — os olhos de Hades encontraram os do filho. Estavam receosos. —Por que tentou matar sua mãe, Eugene?

A frustração sumiu numa fração de segundos.

—O quê?

O deus diante de si pareceu confuso.

—Você se dirigiu ao Elísio, possuído por mania, e tentou matar Erika Totenn. Que foi que eles colocaram em sua cabeça, criança? Como lhe convenceram de fazer tal coisa depois de tudo o que lhe mostrei?

—Mostrou? Aqueles sonhos… Aquilo foi você? Espere… — ele chegou mais perto do pai. —Não. Erika… eu vi o verdadeiro rosto dela. Ela estava se alimentando das minhas emoções. Era uma parasita.

—Entendo... Isso foi o que os mania fizeram-no acreditar. Eles moldam a Névoa para lhe mostrar o que desejarem. — explicou, os olhos frios. —Há muito que precisa lhe ser esclarecido. Isso foge meus planos originais, mas como eu saberia que você cederia para agouros da insanidade? Pensei que seu espírito fosse mais forte que isso, honestamente.

Eugene encarou o chão, seu peito se enchendo de vergonha. Hades o fitou e respirou fundo, lhe tocando o ombro.

—Depois que você nasceu, eu avisei Erika que tinha que lidar com meus deveres. Disse a ela que não poderia vê-los frequentemente, mas ela me fez prometer pelo Rio Estige que eu os protegeria. Você era tudo para ela, e ela não admitia que você não fosse um herói, sendo filho de quem é. — o deus fez uma careta de irritação para si mesmo. —Eu a disse o quanto meus filhos podem ter vidas difíceis, mas ela tinha certeza que você seria grande. Me fez prometer que eu o ajudaria em sua jornada, mas a Segunda Guerra veio e… Com um de meus filhos ligado diretamente a ela, não pude olhar por você naquela época. Então as Parcas o levaram muito cedo, e seu espírito vagou lúcido pelo Asfódelo, amaldiçoado pela minha promessa quebrada. Sua mãe foi levada ao Elísio por ter tentado salvá-lo, e esperou encontrá-lo. Trazer os mortos de volta é terminantemente proibido pelas leis ancestrais, mas Erika não poderia se importar menos. Era extremamente determinada...— ele sorriu levemente. —Além disso, as promessas do Estige são tão sagradas quando as leis ancestrais. Ela não descansou até que eu o levasse ao Lete e apagasse suas memórias. Foi quando eu lhe deixei no Cassino Lótus até que os tempos melhorassem. Foi depois a Guerra Dos Titãs que eu decidi agir e tirá-lo de lá. Não esperava que você demorasse tanto tempo para chegar ao Acampamento.

Eugene apenas escutava, tentando processar toda aquela explicação. Ele se deixara enganar e quase matara a própria mãe. Como pôde chegar àquele ponto?
Hades não o esperou e continuava a falar:

—Não pude ajudá-lo mais do que já tinha feito, mas deixei que Erika o guiasse. Não permiti que ela o contasse da sua história, para que você não se prendesse ao passado e cometesse os mesmos erros de meus outros filhos. Escondi você dos outros deuses para que não o fulminassem ao saber quem você é. Achei que já estaria a salvo quando chegou ao Acampamento, mas você fugiu. E cá está.

Eugene engolia em seco, encarando o pai.

—Eu… onde… Onde está Erika?

—Você só chegou ao Elísio por conta do poder dos mania. Não poderá voltar até lá enquanto estiver vivo. Já quebrei várias regras para que chegasse até aqui, então não poderá vê-la. Mas ela entende os acontecimentos. Ela o perdoa.

Ele suspirou, cabisbaixo.

—Queria lhe dar um último adeus…

—Ela o escutará de onde quer que você esteja. Está vendo você neste exato momento, e irá acompanhar sua jornada e assistir você se tornar um herói. — no rosto de Hades, Eugene viu um sorriso gentil. Talvez ele se sentisse bem com aquilo, mas ver o senhor dos mortos esboçar qualquer expressão que não fosse uma carranca na verdade o deixou mais desconcertado, mas tentou não transparecer o sentimento, então inflou o peito, e pela primeira vez em tanto tempo, ali, diante de seu pai, conseguiu finalmente relaxar.

Hades sessou o momento de silêncio e olhou nos olhos do filho. Sua voz untuosa ecoou mais uma vez.

—Você foi predestinado a andar entre os vivos por mais uma vez, Eugene. Aproveite esta chance. Você não terá outra.