Predestinado

13 Capítulo Treze


A reunião da Casa Grande nunca fora tão tensa.

Sr. D, Quíron e os conselheiros sênior dos chalés estavam sentados em volta da grande mesa de madeira, usada especificamente para aquele tipo de situação. O sátiro Grover Underwood e Rachel Elizabeth Dare se apresentavam de pé, encarando Nico Di Angelo, que gesticulava sem parar enquanto falava.

—Se isso não é uma situação de urgência, eu não sei o que é. – Ele dizia. Estava perturbado pelos acontecimentos recentes, mais que todos os outros. –Preciso ir atrás de respostas. Devo falar com meu pai imediatamente para esclarecer tudo isso.

Will Solace sacudiu a cabeça em negativa.

—Você já esteve tempo demais no Mundo Inferior, Nico. Deixe que as coisas se resolvam naturalmente. Aquele garoto vem escondendo algo, e amanhã o faremos falar. Chega de brigas por hoje.

—Se Hades é realmente o pai daquele menino, com certeza tem um motivo para só ter aparecido agora. – sr. D disse, tomando um longo gole em sua diet coke. –O bafo de cadáver sempre foi muito engenhoso.

Grover suspirou e deu um passo à frente.

—Resolveremos essa questão mais tarde. Estamos preocupados com a mudança súbita do clima.

E com Eugene. –Quíron complementou, mas todos se remexeram em suas cadeiras, desconfortáveis.

—Certo. Rachel não pressentiu nenhuma nova profecia, então não parece ser tão grave. Mesmo assim, isso é mais delicado que aparenta ser. Talvez a floresta tenha sido envenenada ou amaldiçoada. Essa mudança só afetou os arredores do acampamento.

—Como da vez em que o Pinheiro de Thalia foi envenenado pelo exército dos titãs. – Quíron apontou, suspirando. –Deméter pode ter algo a ver com isso, Katie?

A conselheira do chalé quatro, Katie Gardner, mexeu a cabeça em negativa.

—Não podemos dizer ao certo. Nossos poderes não foram afetados e as plantas não estão doentes, o clima mudou e elas tiveram que se adaptar logo. Tive esperanças de que sr. D nos desse alguma explicação.

Do outro lado da mesa, Dionísio cruzou os braços e resmungou:

—Fiquei tão surpreso quanto vocês quando vi meus morangos apodrecerem. Talvez algum deus esteja lhes pregando uma peça, ou potencialmente furioso. O problema não é meu.

Alguns campistas reviraram os olhos. Dionísio nunca parecia disposto a ajudar.
Um silêncio constrangedor se fez. Nico bufava em sua cadeira, massageando as têmporas. Grover dedilhava sua flauta sem emitir nenhum som. Quíron olhou para todos e estava prestes a encerrar a reunião quando um garoto escancarou a porta.

—Totenn não está no acampamento.

Nico e Calíope se levantaram no mesmo segundo. O resto dos conselheiros correu para fora da Casa Grande, onde Dreus Ascia e Sophia Cavendish tinham olhares preocupados. O garoto de Hefesto se pronunciou:

—Eu fui atrás dele depois da confusão, mas já tinha sumido. Procuramos por toda parte.

—Espero que tenha sido devorado por monstros. – um filho de Hermes comentou. Quíron lhe lançou um olhar sério.

—Procurem na floresta. – ordenou o centauro. –Levem o tempo que for preciso. Nenhum semideus ficará perdido ou sozinho, sabemos muito bem como isso pode acabar.

∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞Ω∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞

A noite foi longa para todos, mas Dreus era o que mais parecia exausto.

Era normal para ele virar a noite consertando seu gavião de bronze celestial em miniatura. As câmeras quebravam fácil e ele não gostava de dormir, não dava para inventar a próxima maravilha tecnológica do mundo enquanto dorme. Acreditem, ele já tinha tentado.

Agora estava montado num pégaso junto com Sophia, voando em volta da floresta pela centésima vez para encontrar o novato. Seu irmão mais velho uma vez lhe disse: “Se estiver com medo não olhe para baixo”, as agora era forçado a vasculhar entre as árvores, o que lhe proporcionou três deliciosas crises de asma misturadas com pânico.

Tudo aquilo para achar Eugene Totenn.

O garoto novo desde que chegou pareceu bastante perturbado, e logo criou problemas com todos, mas Dreus não conseguia ter raiva dele. Sabia que ele estava confuso e aquelas boas-vindas nem um pouco acolhedoras não ajudou muito.
No geral tinha sido um grande babaca, mas Dreus lhe ofereceu ajuda mesmo assim. Não queria bancar o benevolente nem nada, mas sabia como era ser excluído. Não lhe agradava nem um pouco pensar que aquele menino estava sozinho na floresta. Talvez assustado, talvez com raiva, mas ainda assim, sozinho.
Solidão não ajudava absolutamente ninguém.

Das oito da noite até as duas da manhã eles procuraram, mas nenhum sinal do garoto. A maioria parecia até aliviada por tê-lo longe, ou talvez pensassem que ele mereceu ficar perdido por um dia ou dois na floresta. Dreus não concordava, mas também não os culpava por pensarem assim. Todos estavam tensos.

Quando sua patrulha com Sophia terminou e os chalés de Ares e Hécate os substituíram, ele foi direto para seu chalé. Estava exausto, mas não se daria o luxo de ir dormir. Quíron tinha razão, nenhum semideus vai ficar perdido. Não com Andreus Ascia por perto, não senhor.

Ele se apressou para apanhar seu drone em formato de corvo (sim, ele gostava muito de aves. Eram sempre úteis) e o ligou. Seus olhos de visão noturna acenderam e Corax estava pronto para a ação. Dreus pôs o relógio digital de bronze celestial no pulso e o conectou ao drone. A tela do relógio ligou e o garoto viu o próprio rosto numa versão esverdeada e cinza, a mesma visão do pequeno corvo.
Se aproximou da janela e apertou alguns botões. Corax estava agora em modo de busca, e Dreus lhe deu as informações para que achasse Eugene. O autômato estremeceu e abriu as asas metálicas, voando em direção as árvores. Tinha sido criado tanto para enviar mensagens quanto para missões de reconhecimento ou infiltração. Dreus nunca fora em uma missão antes, mas as imaginara em sua mente e se preparou para todos os tipos de situações. Tinha autômatos até para lhe ajudarem a escovar os dentes se fosse preciso.

Depois disso ele de se deitou em seu beliche e encarou a tela do relógio, que apitava toda vez que entrava em contato com um semideus. Era um pouco frustrante, mas ele teve paciência. Corax voou por entre galhos e assustou uma coruja em pleno ar, mas nenhuma pista de Eugene. Aparentemente tinha simplesmente desaparecido. Dreus se xingou por não ter acoplado um sistema de rastreamento de vestígios de DNA ou uma câmera ultravioleta. Como poderia ter sido tão descuidado?
Uma hora inteira se passou e Corax não encontrara absolutamente nada. Nenhum vestígio de roupa ou sinal de batalha. Nyssa já tinha lhe mandado desligar o relógio pela quarta vez e ameaçou fazê-lo dormir com uma martelada na cabeça, e foi só aí que ele desistiu. Não, desistir não. Adiar. Ele continuaria a busca pela manhã, bem cedo. Então mandou que o corvo voltasse para o chalé.

Na volta, o relógio apitou mais uma vez. Corax ampliou sua visão para um pinheiro despedaçado no meio do bosque. Nyssa tinha levantado da cama e carregava um martelo maço na mão, mas antes que o ameaçasse mais uma vez, Dreus pulou da cama.

—Aqui! Achei algo! – exclamou, correndo para fora do chalé às pressas. Encontrou Quíron perto do campo de vôlei, falando com um filho de Ares sonolento.

Quíron virou-se para ele e deixou que chegasse perto. Dreus lhe mostrou a imagem da árvore e o centauro assentiu, mas parecia preocupado.

—Onde fica esse bosque? – Perguntou, e Dreus apertou um botão das laterais do relógio, fazendo a tela piscar e lhe mostrar um pequeno mapa de todo a acampamento. Um pequeno ponto vermelho piscava na parte noroeste da floresta, apontando onde seu autômato estava. Quíron olhou para aquela direção e respirou fundo. –Muito bem, sr. Ascia. Mandarei um grupo para lá.

—Acha que ele está bem? Não tem nenhum corpo, então acho que isso é um bom sinal. Talvez esteja escondido de monstros, em alguma árvore ou algo assim.

Quíron coçou a barba.

—Muito engenhoso de sua parte, mas não vamos nos precipitar. – a voz dele estava tensa, mas lhe lançou um sorriso encorajador. –Está tarde. Por que não vai dormir? Já ajudou bastante com sua descoberta.

Ao ouvir aquilo, Dreus sentiu uma pequena vertigem. Não percebeu até então como estava cansado. Ele apenas assentiu e se arrastou de volta para o beliche. Nyssa estava dormindo abraçada com seu martelo como se fosse um urso de pelúcia.
Ele sorriu para a irmã e desabou na cama, caindo no sono instantaneamente.

Notas finais
Me digam o acharam da nova escrita.