Predestinado
6 Capítulo Seis
Apesar do cansaço, não consegui dormir.
Era estranho como tudo que Erika havia dito pareceu exagerado. Exagerado demais, na verdade.
Eu não me senti bem-vindo, não como esperei. Não como ela me disse que sentiria.
Parecia mais um dia como um novato numa escola em que eu sabia que não ficaria por muito tempo. Sabia que seria passageiro. Sabia que no final, não significaria absolutamente nada.
Realmente, não tinha como pegar no sono com aqueles pensamentos.
Uma hora se passou. Duas. Três. Eu não conseguia sequer descansar as pálpebras por um instante. Da janela pouco abaixo da cama de cima do beliche onde eu estava deitado era possível ver as folhas das árvores da floresta, dançando com as brisas que iam e vinham.
Pensei em Erika, e meus olhos arderam. Eu não a veria novamente, não enquanto estivesse vivo. Aquilo plantou uma sensação estranha no meu peito. Eu estava de luto por uma pessoa que já se fora, que não pertencia mais ao mundo. Erika estava agora... Nas mãos de Hades. O mesmo deus que enviara vários monstros em meu encalço. O imbecil responsável pelos meus ossos quebrados e cicatrizes. Responsável pela angústia e medo que passei por dois anos longos e cansativos.
Os deuses pararam de me fascinar depois que eu vi que não se importavam nem um pouco nem comigo, nem com nenhum dos campistas ali. Mas agora eu realmente tinha um deus para odiar.
—Que se fodam os deuses. — murmurei. Um raio cortou os céus seguido de um estrondo.
Ah, agora sim eles escutam.
Sorri para a janela, e só depois disso consegui adormecer.
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Logo cedo de manhã, os irmãos Stoll me convidaram para tomar café no pavilhão do refeitório, ao mesmo tempo que me ofereceram um par de camisetas laranjas, as mesmas que eles e alguns dos campistas acordando em volta de mim também vestiam. Guardei uma delas dentro da mochila e me troquei ali mesmo. Eles me acompanharam morro acima em direção a uma estrutura que se resumia a quatro grandes colunas de mármore, um altar com algo que parecia uma tigela dourada do tamanho de uma banheira cheia de brasa em chamas e várias mesas cobertas com toalhas de diferentes cores e decorações.
Os sátiros do acampamento se aproximavam aos poucos, juntos com algumas ninfas e náiades. Haviam algumas dezenas de campistas sentados.
Eles estavam aglomerados em pequenos grupos em volta das mesas, que deveria ter espaço suficiente para uma dúzia de pessoas, cada. Uma das mesas tinha sete adolescentes, todos mais velhos que eu. Pareciam focados e observavam em volta, soltando comentários entre si como se estivessem discutindo sobre cada campista presente. Todos tinham os mesmos olhos cinzentos como uma nuvem de tempestade, o que me deixou curioso. Um deles me fitou por um momento, tinha percebido que eu estava observando. Ele comentou algo com a garota morena com um rabo de cavalo sentada do lado e ela olhou de esguelha para mim. Desviei o olhar e olhei para outra mesa com meia dúzia de garotos e garotas que davam socos uns nos outros, e pareciam estar se divertindo fazendo aquilo. Outra mesa tinha quatro garotos e uma garota, a maioria era bem bronzeada e quando sorriam, parecia que o lugar literalmente se iluminava. Um deles se destacava dos outros, pois era o único bastante pálido e com cabelo preto. Ele tinha um casaco de aviador por cima do ombro e conversava com um outro garoto, loiro de olhos azuis tão claros quanto os do céu naquele momento. Eles riam juntos e encostavam os ombros vez ou outra.
—Novato. – o Stoll mais novo, Connor, chamou. –Você se senta aqui na mesa de Hermes por enquanto.
Assenti, e sentei ao seu lado. Ele me explicou como funcionava a questão das mesas: Cada um dos chalés homenageava uma divindade, e eram as estadias dos semideuses. Cada chalé tinha uma mesa para seus respectivos campistas.
Eu comentei sobre o garoto do casaco de aviador e Connor riu.
—Bom, ele é o único meio-sangue do chalé dele, então ele fica com o namorado, Will, do chalé de Apolo. O nome dele é Nico. Filho de Hades.
Franzi o cenho, mas não comentei nada.
—Enfim. – Connor continuou explicando. –Temos vinte chalés no total, de Zeus à Hécate. A parede de escalada, o lago de canoagem, a arena, o arsenal, as forjas... – ele parou para respirar. –Todo o resto é público para todos os campistas.
Algumas ninfas vieram com bandejas cheias de comida e começaram a oferecê-las de mesa em mesa.
—Todos os chalés estão ocupados? – perguntei, juntando algumas torradas e um cacho de uvas de uma ninfa com vestido de arbusto.
—Não. Os chalés um, dois, três e oito não têm nenhum campista. Zeus, Hera, Poseidon e Ártemis, respectivamente.
—Eu pensei que Poseidon tinha um filho. Percy Jackson.
Connor parou por um momento, e deu de ombros.
—Percy está fazendo faculdade no Acampamento Júpiter com alguns outros campistas. Travis também estuda lá. – ele olhou para o irmão. –Vai voltar daqui a alguns dias. Percy também vem de vez em quando, mas não fica por muito tempo. Você sabe do acampamento romano na Califórnia, certo?
Balancei a cabeça, então ele me contou sobre um acampamento militar para semideuses romanos em Berkeley Hills, duas vezes maior que o Acampamento Meio-Sangue e com uma pequena cidade, que chamaram de Nova Roma. Ambos os acampamentos eram aliados e o intercâmbio de meio-sangues era livre.
—A maioria dos semideuses vão cursar faculdade ou morar em Nova Roma quando mais velhos. – Travis disse, o que fez Connor suspirar.
—Envelhecer é uma droga. – ele falou em voz alta, o que chamou a atenção dos dois garotos que conversavam numa mesa mais distante. Eles sorriram e zombaram de longe, e Connor riu junto com o resto do chalé onze.
—Qual a graça? – perguntei. Travis balançou a cabeça.
—Aqueles dois patetas ali são filhos de Hebe, a deusa da juventude.
Sorri também, me virando para observá-los melhor. Um deles tinha a pele bastante escura e vestia um lenço estampado com a bandeira do Brasil em volta do pescoço. O outro era bem mais alto, tinha pele mais clara e olhos castanhos brilhantes.
—Aqueles são Paolo e Oliver. – uma menina do chalé de Hermes suspirou. -Eles são uma graça, não é?
Dei de ombros e me preparei para comer, mas Connor tocou meu ombro.
—Quase esqueci de dizer... – ele olhou para meu prato, depois para a tigela em chamas mais a frente. –Ali é o braseiro. Deixamos uma oferenda para os deuses antes de comer. Um pequeno agrado, entende o que eu digo?
Me esforcei para não revirar os olhos, mas eles estavam começando a ser mais legais, então me levantei e segui uma garota de cabelos negros para o braseiro. Ela jogou uma maçã gorda e escarlate nas chamas e murmurou:
—Atena.
As chamas dançaram e transformaram a fruta num monte de fumaça branca e bem cheirosa.
A garota se virou e me encarou por um momento, como se me analisasse, ou como se estivesse prestes a me chutar entre as pernas, ou os dois. Tinha olhos cinzentos intensos e sérios. Ela então fingiu que eu não existia e foi se sentar com os outros adolescentes assustadores que tinha observado mais cedo.
Tentei ignorá-la e respirei fundo, olhando para o braseiro.
—Certo. – resmunguei -Vocês sabem que não gosto de vocês, não é? Mas fiquem com isso.
E joguei uma única uva do cacho gordo que a ninfa me oferecera. As chamas se atiçaram e ficaram maiores que eu, cuspindo fumaça na minha cara, que fedia a comida queimada, e me fazendo tossir e dar um passo para trás. Alguns campistas pararam para olhar e escutei algumas risadas.
Quando voltei para os filhos de Hermes, um garoto abafava o riso com ambas as mãos. Ele perguntou o que havia acontecido, mas eu não respondi. Estava muito ocupado olhando para a garota assustadora e seus irmãos tão assustadores quanto.
—Quem são aqueles ali? – cutuquei-o. Ele os fitou e estremeceu.
—Filhos de Atena. Chalé seis. Não pise no calo desses caras, é sério.
Senti que deveria seguir seu conselho.
—A propósito, sou John Peter. Mas me chamam de P.A. – disse ele –Você já pode comer.
Foi exatamente o que fiz.
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