Predestinado
14 Capítulo Quatorze
Já era delicado lidar com um semideus jovem e agressivo, mas a situação piorava ainda mais quando todos descobrem que ele é filho de um dos Três Grandes.
Sophia sabia da gravidade desse tipo de situação. Sabia também que sempre que os deuses fazem besteira, são seus filhos mortais quem têm que consertar tudo.
Já estava há quatro anos no acampamento, todos poderiam ver pelas quatro contas de seu colar. Tinha lutado na Batalha de Manhattan e sobrevivido à guerra dos gigantes. Estava lá quando a pretora romana, Reyna, pousou a gigantesca estátua da Atena Partenos no topo da Colina Meio-Sangue, não muito longe do pinheiro de Thalia. Estava lá quando queimaram as mortalhas de seus antigos companheiros. Mas sua lembrança mais forte foi de sua meia-irmã mais velha, Calíope, que agarrara sua mão quando pensou que tudo estava perdido. Gaia havia despertado, mesmo depois da união de gregos e romanos. Ela havia largado o arco no chão e começado a chorar de desespero, mas Calíope a amparou. Foi a única vez que elas compartilharam um verdadeiro momento fraterno.
“Vamos ficar bem. E vamos continuar lutando”, sua irmã disse, mais firme que nunca. “Lutando juntas, ouviu?”
Desde aquilo, as duas mantinham uma relação mais próxima. Não tão próxima quanto uma relação ideal de irmãs, mas próxima o bastante para lhe confiar a própria vida de olhos fechados.
Assim que o sol começou a nascer, ela preparou o arco e seguiu a trilha de magia luminosa que os filhos de Hécate fizeram para dentro do bosque, onde uma árvore foi derrubada. Aquela era a única pista do paradeiro de Eugene Totenn, que na verdade, não ajudava em porcaria nenhuma. Certo, uma árvore está aos pedaços. E agora?
Mesmo assim, Quíron mandava grupos para aquele perímetro, procurando dentro de árvores e em cavernas em potencial.
Nada.
Sophia achou irônico o fato daquele garoto ter desaparecido do mesmo jeito que chegou no acampamento, como se simplesmente tivesse sido cuspido pela floresta.
Agora parece que ela o engolira novamente. Isso não ajudava muito.
Buscaram por horas. Muitos semideuses já tinham desistido e voltado para suas rotinas, o que a enfureceu. Totenn poderia ter agido mal e pisado na bola com todos, mas ainda era um deles. Tudo bem, ela tinha dado um soco na cara do garoto, mas a situação era totalmente diferente.
Agora que todos queriam simplesmente esquecer da existência do novo filho de Hades, ela se sentia ainda mais motivada a encontrá-lo.
Na hora do almoço, parte dos campistas conversavam normalmente, como se nada tivesse acontecido. Nico Di Angelo não havia aparecido, então Sophia pensou que ainda estivesse na busca. Calíope encarava a maçã murcha em seu prato, afogada nos próprios pensamentos. Andy Schade, do chalé de Nêmesis, confrontava seus irmãos sobre não quererem ajudar.
—Qual o problema com vocês? – ela ralhou. Sempre fora a mais centrada do chalé dezesseis, e era uma ótima esgrimista também.
Seu irmão mais novo, Tyler, mordeu sua torrada um pouco queimada demais.
–Ele teve o que mereceu. Você deveria saber disso, Andy. Se aquele garoto fugiu, deve arcar com as consequências. Nada mais justo.
Sophia tentou ignorar aquele comentário, não havia nada de justo naquilo, só guardavam rancor e o deixavam controlar as decisões. Andy agora bufava e resmungava algo sobre ter de fazer tudo sozinha, descendo do pavilhão para continuar a patrulha.
Ela estava a ponto de comentar algo com Calíope quando passos ecoaram no piso de mármore. Koza, o sátiro, galopava em direção ao braseiro. Ele bateu com o casco de bode no chão para chamar a atenção de todos.
—O sr. Quíron quer que todos os envolvidos nas buscas vão para a arena imediatamente.
E saiu marchando na direção do anfiteatro.
Sophia se levantou, acompanhada de Calíope e Will Solace, e correu para a Arena.
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Chegando lá, Quíron os mandou sentar nas arquibancadas. Outros vinte e poucos campistas estavam lá também, olhando uns para os outros com ansiedade. Quíron estava acompanhado de Rachel Dare, a mortal óraculo do acampamento. Ela estava de braços cruzados, os cabelos ruivos e enrolados esvoaçando com a brisa. Ela vestia uma camiseta turquesa com estampa de um olho desenhado à mão. Talvez por ela mesma. A bermuda jeans colada a fazia ela parecer uma adolescente normal. Talvez seria, se não guardasse o espírito de Delfos dentro do corpo.
Quando os campistas pararam de chegar, Quíron limpou a garganta.
—Rachel teve um sonho com o sr. Totenn noite passada. – disse ele, sua voz tensa. –Ele está no Mundo Inferior.
Silêncio. Um calafrio desceu pela espinha de Sophia.
—Vivo, até então. – Quíron acrescentou, e o ar pareceu ficar mais leve. –Está sendo atacado por monstros, talvez neste mesmo momento. Enviarei uma equipe de busca, uma missão. Quaisquer voluntários levantem a mão, se lhes convém.
Por alguns segundos, todos pareceram ficar muito interessados nos próprios pés. Quíron mexeu a cabeça em desaprovação, mas de repente sua atenção virou-se para alguém no canto da arquibancada.
Dreus Ascia tinha seu braço levantado o mais alto que podia. Seu rosto estava escarlate e ele estava visivelmente suado. Sua expressão era algo entre o constrangimento e o pânico.
—Eu... eu q-quero. Poderia. V-vou.
E se levantou, trêmulo, para junto do centauro.
—Já pode baixar o braço, criança. – Quíron disse com um meio sorriso. Dreus assentiu e agarrou o braço para junto do peito. –Mais alguém? Precisamos de três heróis, como de costume nas histórias antigas.
Heróis, Sophia repetiu mentalmente. Não sentiu o peso do braço quando o levantou. Quíron pareceu aliviado e, com um gesto, a chamou para se juntar ao filho de Hefesto. Ela apertou a haste do arco com força, caminhando na frente de todos.
—Um último campista. Vamos, pessoal. – Rachel disse, suspirando.
Sophia percebeu Calíope respirar fundo, como quem acaba de ceder ao inevitável. Ela se levantou do banco e juntou-se a eles sem dar uma palavra. Todos os outros pareciam aliviados, mas ainda assim, desconfortáveis.
Quíron fitou os três semideuses do seu lado.
—Sua coragem será recompensada. A missão começará assim que arrumarem suas coisas. Que os deuses os guiem.
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