Predestinado
5 Capítulo Cinco
A viagem teria sido divertida se minhas axilas não estivessem tão machucadas e eu não estivesse tão exausto.
A medida que chegávamos mais perto do que aparentemente era a Colina Meio-Sangue, o sol já ficava quase totalmente mergulhado no horizonte.
Havia uma densa floresta que escondia um vale imenso com minúsculas construções a vista, a maioria delas emitia luz, o que queria dizer que não estavam abandonadas. Havia também algo como uma versão pequena de um vulcão perto das construções, que emitia bastante luz, como um farol.
Era deslumbrante, mesmo de longe.
Bem, não era de se esperar menos depois de tudo o que eu tinha passado.
Erika desceu ainda dentro da floresta, me pousando na grama com cuidado e pousou em minha frente.
—Eu lhe disse que chegaríamos.— ela sorriu, mas os dentes de fúria ainda me fizeram arrepiar. –Finalmente... Não é?
Ela parecia um pouco fora de si. Distante, até. Não percebi logo no começo pois ainda estava espantado com o fato do acampamento ser, de fato, real.
Só após alguns segundos eu me dei conta: Era um adeus. Ela estava livre. Poderia descansar em paz.
Eu estava feliz por ela, é claro. Mas ela tinha sido minha única companhia concreta nos últimos dois anos e nove meses. Apesar dos ataques, das cicatrizes e das frustrações, ela estava sempre lá.
E agora, ela tinha de ir.
—Vou sentir sua falta. – eu disse, encarando meus pés. –Muito, muito mesmo.
Ela deixou o corpo da fúria — sua essência branca escapando por entre sua boca repulsiva e seu corpo caiu no chão como um saco de pedras. – e se materializou na minha frente.
—Eu também, menino. Mas não se preocupe, bons momentos nunca desaparecem de verdade. Eles são uma parte de você agora. Eu sou uma parte de você. E você sempre será uma parte de mim. —– e aproximou seus braços de mim, como se fosse me dar um abraço. -Espero te ver de novo. — eles me rodearam e ela chegou um pouco mais perto, fazendo minha pele formigar. Não com a sensação gélida que estava acostumado, mas com um calor confortante. Um calor protetor. –Na hora certa.
Eu a senti se diluir em fumaça em volta de mim e desaparecer num suspiro contente. A lágrima que começava a escorrer pela minha bochecha tinha evaporado ao mesmo tempo, como se Erika a tivesse enxugado.
Não chore, eu a imaginei dizer, você está em boas mãos agora.
O momento de calma se desfez quando a fúria aos meus pés rosnou, começando a acordar. Eu pisei em sua cabeça horrenda com força, que respondeu com um creck agudo, como se eu acabasse de esmagar numa barata do tamanho de um texugo. Foi quando ela se transformou lentamente num monte de poeira mau cheirosa, como chorume efervescente. A essência do Tártaro, ao que parecia.
Foi a primeira vez que matei um monstro.
E eu não podia esperar por repetir aquilo, o máximo de vezes que eu pudesse.
Comecei a caminhada floresta a dentro, até encontrar um grande portal que parecia ser feito de mármore. Havia uma escritura em grego antigo, dourado brilhante quase fluorescente. Consegui decifrar:
ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE
Respirei fundo e dei mais alguns passos. As construções minúsculas que vi do céu ainda estavam longe, mas agora eram muito maiores e mais nítidas, muito distintas umas das outras. Uma casa muito maior que o resto de todas aquelas construções ficava um pouco mais afastada, mas não perdia a elegância, por mais que aparentasse ser uma casa de madeira qualquer.
Antes que eu pudesse apreciar um pouco mais o lugar, um som do que parecia ser uma espécie de trombeta soou ao longe. Não demorou para que vários adolescentes saíssem daquelas construções às pressas, olhando para os lados. O barulho de galope foi seguido pela visão de um grande centauro. Ele era acompanhado de um garoto — com pernas de, o que era aquilo? Um bode? – apontou para onde eu estava. Todos os que estavam do lado de fora pareceram ter uma discussão rápida e o centauro fez um gesto com a mão. O aviso era claro: Fiquem aqui.
Ele então trotou cuidadosamente em minha direção, parecia querer me analisar de longe enquanto o fazia.
Agora que estava mais perto, consegui vê-lo melhor. Seu dorso humano era bronzeado e um pouco musculoso, seu cabelo era descia em ondas até os ombros. A metade de baixo era um corcel de pelagem branca limpa e brilhosa.
—Você é Quíron? – perguntei, quebrando aquela silêncio tenso. Ele franziu o cenho por um instante.
—Exatamente. – respondeu com calma. –E quem é você, rapaz? De onde veio?
Ri nervosamente.
—De vários lugares, na verdade. – sorri, mas ele pareceu mais preocupado com aquela resposta.
—O que é você, meu jovem? – sua voz soou mais séria. Me senti um alienígena.
—Aqui é o acampamento de semideuses, não é? É por isso que estou aqui. Também sou um semideus. Meu nome é Eugene.
—Qual seu parente divino? – parecia que ele estava prestes a me pegar numa mentira que não contei.
—Não sei. – fechei os punhos. Detestava ser tratado como se tivesse feito algo errado.
Por um momento, eu pensei que ele não havia entendido uma palavra que eu disse, mas respirou fundo. Um de seus cascos bateu no chão com força.
—Venha comigo. Preciso saber mais.
Me irritei um pouco. Que tipo de boas-vindas é essa?
Ele me olhava de esguelha enquanto eu o segui para a casa que antecedia as construções coloridas. Os mesmos adolescentes que vi estavam reunidos na entrada, e me olhavam como se eu fosse alguma aberração, cochichando entre si. Quíron pediu que eu entrasse na casa primeiro e fechou a porta atrás de si com o casco traseiro.
—Eugene. – ele falou. –Peço perdão pela desconfiança. Sente-se.
Não me sentei. Ele esperou e me analisou com curiosidade.
—Certo. – ele coçou o queixo. –Não costumamos receber novos campistas assim. Normalmente são acompanhados por um sátiro guardião, que nos avisa de antecedência. Você... simplesmente apareceu aqui. Nenhum de nós sentiu sua presença. E, confie em mim, você tem uma presença forte. Sentiríamos de muito longe – ele disse aquilo como se eu não tomasse banho há semanas -Como sobreviveu sozinho? Você não tem nenhuma arma, não é?
—Não. Mas não estava sozinho. – deixei claro. Ele me olhou com pena. –Um fantasma me acompanhou até aqui. Já foi embora.
O centauro ergueu uma sobrancelha. Pareceu impressionado.
—Fantasmas não tem essência, talvez estivesse encobrindo seu cheiro. – apontou ele. Me senti o mendigo mais sujo de Long Island –Muito bem, vou apresentá-lo aos demais. Perdão, mais uma vez. Você nos assustou um pouco.
Ele abriu a porta e deixou que eu saísse primeiro. Alguns garotos estavam correndo para perto do restante, como se estivessem com medo, ou tentado ouvir nossa conversa pela da porta.
Heh. Que gente estranha.
—Campistas. –A voz de Quíron ecoou em alto e bom som. –Apresento-lhes seu novo colega... – ele se voltou para mim. –Qual seu sobrenome?
—Totenn.
—...Apresento-lhes seu mais novo colega, Eugene Totenn! – bradou, esperando uma recepção melhor dos outros. Eles não pareciam empolgados. –Por favor, Senhores Stoll, o acompanhem para o chalé onze.
Os dois garotos que queriam bisbilhotar deram um passo à frente. Ambos tinham o mesmo cabelo castanho e feições que me lembravam ninfas das árvores. Pareciam gêmeos, mas um era poucos centímetros mais alto que o outro.
—Sim senhor. – disseram juntos, mas não pareciam querer obedecer. Chegaram mais perto de mim e olharam para Quíron. –Normal ou indeterminado?
—Indeterminado.
Eles pareceram aliviados com aquela resposta, e me encaminharam por entre os outros campistas, que abriram passagem para nós, ainda cochichando. Os irmãos seguiram para uma construção — um chalé — marrom com detalhes em prata e um grande caduceu — um bastão com asas e duas cobras o rodeando – em verde brilhante logo acima da entrada. Eu os segui e eles limparam a garganta.
—O.k., Temos dois beliches vagos. – o Stoll mais alto disse –Pode escolher a cama de cima ou a de baixo, não terá ninguém para dividir com você. Os banheiros ficam do lado de fora, logo atrás do chalé, público para todos os campistas
—Além disso... — o mais baixo continuou –Amanhã você pode ir até a lojinha e pegar umas roupas. Travis vai te ajudar a escolher uma arma no arsenal, também. – ele sorriu para o irmão, que o fuzilou com os olhos e suspirou. –Enfim, novato, bem-vindo ao Acampamento Meio-Sangue.
E logo se afastaram para seu próprio beliche.
Que deprimente.
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