Predestinada

1 A Traição de Minako


Notas iniciais
Oi pra quem chega. Essa é uma ideia que me veio em mente há muito tempo! Era pra ser parte de uma história maior, mas to sem condições de escrever uma história grande de Sailor Moon agora. Então, pelo menos decidi escrever essa cena que não sai da minha cabeça. Só pra constar, Minako é minha personagem favorita de Sailor Moon, então eu sempre quis dar um destaque pra ela <3 Boa leitura!!

Minako sabia que aquele era o seu destino.

Ela soube desde o primeiro momento em que esteve no Milênio da Prata, quando foi convocada para ser líder das guerreiras que protegeriam a Princesa Serenity. Na época, era apenas uma criança em uma outra vida. Mesmo assim, lhe entregaram em mãos uma espada sagrada e deixaram sobre suas costas o peso da responsabilidade de cuidar do mundo inteiro.

A Rainha Serenity não lhe instruiu sobre o que ela precisava fazer. Minako simplesmente soube quando chegou o momento certo.

Era irônico pensar que a Deusa do Amor e da Beleza, protegida por Vênus, tivesse que carregar mais dor do que amor em sua vida. Mas foi nos momentos mais difíceis que a resiliência de Minako sobressaiu. Afinal, o que é o amor senão um pouco de sofrimento?

O que Minako estava prestes a fazer não deixava de ser um ato de amor pela pessoa que ela jurou proteger até o fim de sua existência.

Naquele momento — em que tudo parecia estar perdido e as forças das trevas derrotaram todas as proteções instauradas pelo Milênio da Prata que se reerguia em Tóquio — Minako tinha um único objetivo em mente.

Em frente ao palácio onde Usagi estava refugiada, ela lutava ao lado de suas companheiras para evitar que o inimigo se aproximasse da Princesa da Lua. Porém, os adversários estavam em maior número. Eram clones das sombras que se alastravam rapidamente. Enormes, de formas abstratas e animalescas, liderados pela Imperatriz das Trevas.

Por mais que tentassem, as Sailors estavam em desvantagem. Suas defesas eram neutralizadas, enquanto a mulher que cobiçava o poder da realeza se divertia com o sofrimento das guardiãs do sistema solar.

Minako viu algumas de suas amigas sucumbirem. Mercúrio e Marte foram as primeiras a cair. As demais tentavam resistir, mas a Sailor Vênus sabia como aquilo ia terminar. Sabia que aquela luta estava perdida e sabia também que a imperatriz chegaria inevitavelmente até Serenity.

Ela mordeu o lábio, nervosa, certa de que não tinha outra alternativa a não ser tomar uma medida drástica, mesmo sabendo que seus atos trairiam a confiança de Usagi.

“Me perdoa, Usagi”, ela pensou.

Então, com a decisão tomada, Minako correu para longe do campo de batalha, deixando para trás as amigas que, enfraquecidas, a observaram abandonar a sua função.

––– xxxx –––

Não demorou para que os espectros derrotassem e capturassem cada uma das Sailors que, agora, feitas reféns, tinham esgotado as suas energias e mal tinham forças para se manter em pé.

— Apareça, princesa! — a Imperatriz das Trevas ordenou, dizendo a última palavra com um tom de desdém — Ou será que a herdeira da Lua vai deixar as suas preciosas subordinadas morrerem?

Foi então que do alto do palácio, diretamente da torre central, uma silhueta iluminada e angelical surgiu. Por detrás dela, a Lua estava encoberta por nuvens escuras. A tensão aumentou e as Sailors ficaram incrédulas ao notarem que a reencarnação de Serenity havia cedido à pressão de sua inimiga.

— Usagi…não! — Amy disse

— Fuja! — Foi a vez de Haruka gritar — Saia daqui!

Mas a princesa não moveu um músculo. Os loiros cabelos presos em seu habitual penteado se esvoaçavam pelo vento, assim como o longo vestido branco que usava. A Lua crescente reluzia em sua testa, símbolo de sua nobreza.

A Imperatriz das Trevas exibiu um sorriso maléfico, sentindo-se vitoriosa. Sua pele cinzenta contrastava com os seus olhos vermelhos. Seus cabelos encaracolados e escuros encobriam parte de seu rosto e desciam até o chão. Com o caminho livre ela seguiu em direção ao palácio. Algumas guardiãs ameaçaram atacá-la, mas os seus súditos as imobilizaram antes que tivessem a chance de tentar.

A imperatriz saltou ao pegar impulso, voando pelo ar até o topo da torre principal, onde Serenity a aguardava com uma expressão implacável.

— Me entregue o Cristal da Prata, se quiser evitar o banho de sangue.

A princesa olhou para baixo, onde os monstros que prendiam as Sailors praticamente as enforcavam com os braços em volta de seus pescoços. Os gritos abafados de dor pesaram em seu coração, mas ela respirou fundo e se voltou para a adversária.

— Nunca!

— Quer dizer que não se importa? Todas elas vão morrer bem diante dos seus olhos, com exceção daquela covarde que fugiu. Pelo menos uma usou o cérebro e te abandonou antes que fosse tarde demais.

A princesa ficou tensa e apertou os punhos com força, mas não respondeu, permitindo que a adversária prosseguisse.

— Se não me entregar o Cristal, eu farei questão de te deixar viver até que a última pessoa que você ama caia ao chão sem vida. Depois, eu mesma te mato!

— Eu não vou permitir!

Serenity de repente esticou o braço lançando em direção a inimiga um raio de luz. A imperatriz foi rápida ao reagir, rebatendo com o mesmo tipo de poder. O seu raio púrpura se chocou com a luz dourada, criando uma explosão. As suas foram obrigadas a se afastar, evitando maiores danos.

— Sua maldita, como ousa me atacar?! Se queria ser a primeira a morrer, era só dizer logo!

A Imperatriz das Trevas conjurou a sua espada, de lâmina longa e afilada, e se jogou em direção à protegida da Lua que, ainda se recuperando da explosão, cambaleava na beira da torre. Quando a inimiga chegou perto, ela não desviou. A lâmina negra atravessou o seu corpo sem resistência alguma.

A princesa gritou. Um grito estridente de dor do fundo de sua garganta. O vestido branco agora estava manchado de sangue que escorria da perfuração em seu estômago. No pátio, as guardiãs protestavam aos berros enquanto tentavam se libertar dos monstros que as imobilizavam.

A imperatriz riu, ainda empunhando a espada dentro do corpo da princesa, saboreando o momento sem pressa para removê-la dali. Serenity, por sua vez, sentiu as pernas tremerem. A dor era lancinante, mas ela já havia se preparado para aquele momento. Aquilo era exatamente o que ela tinha planejado.

Ela agiu depressa. Aproveitando-se da distração da adversária, agarrou a imperatriz pelo pulso e, com a mão livre, materializou a sua espada sagrada para imitar o golpe que a havia apunhalado. A mulher maligna arregalou os olhos surpresa quando a lâmina divina atravessou o seu peito, cortando-lhe o coração envenenado pelo mal.

Ela tentou dizer alguma coisa, mas a sua voz falhou, trêmula. Então, viu a marca da Lua crescente se apagar no rosto da falsa-Princesa da Lua, dando lugar ao símbolo de Vênus.

— Eu não fugi — disse Minako, olhando-a bem nos olhos — Não sou covarde.

A espada das trevas e os espectros se desintegraram, assim como a mulher que os havia conjurado. Aos poucos, a imperatriz se desmanchou pelos ares até que não restasse nenhum vestígio de sua existência.

Minako suspirou aliviada e soltou a espada sagrada no chão. Os sons abafados de suas amigas viraram barulhos indistinguíveis. Ela sorriu sabendo que sua missão havia sido cumprida e que o seu reino estava a salvo.

Que a verdadeira Serenity estava a salvo.

Seus olhos se fecharam e seu corpo sem vida despencou da torre.

––– Momentos antes –––

Com a intenção de chegar até Serenity antes que fosse tarde demais, Minako correu do campo de batalha em direção a entrada escondida do palácio, tomando cuidado para não ser seguida.

Nos aposentos da princesa, a encontrou observando Mamoru que repousava em sua cama após ter se ferido na batalha. Usagi acenou assim que a viu entrar. Em silêncio, Minako se aproximou, evitando fazer barulho para não acordar o príncipe.

— Ele acabou de dormir. Está muito machucado — Usagi sussurrou, a voz embargada em choro — Como está a situação lá fora?

Minako suspirou cansada.

— Não posso mentir para você. Estamos com problemas. Por isso, preciso te pedir pra não sair daqui.

— Minako…não posso. Agora que Mamoru está estável, eu vou ajudar vocês!

— Você precisa ficar aqui com ele. Não saia do lado de Mamoru.

— Não vou deixar vocês em perigo sozinhas. Eu não posso!

— Você precisa, Usagi. Ele precisa de você, todos precisam! O Milênio da Prata não pode te perder de novo. Eu mesma vou dar um jeito na situação.

Usagi inclinou a cabeça, tentando decifrar o que Minako queria dizer.

— O que pretende fazer, Mina?

Minako desviou o olhar e se esquivou da resposta.

— Me promete que vai ficar aqui? — ela perguntou.

— Não posso prometer isso. Desculpe — a resposta de Usagi foi curta e rígida.

A protegida por Vênus lamentou internamente. Sabia que não conseguiria convencer a reencarnação de Serenity do contrário. Naquele momento de tensão, ela se permitiu sorrir, achando graça da situação.

— Você é tão teimosa, Usagi. Nesse caso, me perdoe pelo que vou fazer. Não pense nisso como uma traição. Tudo o que quero é te proteger.

— Do que você...

Antes que Usagi pudesse reagir, Minako ergueu a mão e disparou uma rajada de energia. A luz envolveu Usagi e Mamoru, os aprisionando em uma barreira inquebrável. O domo brilhou ao redor deles, sólido como diamante. Usagi arregalou os olhos, o pânico crescendo em sua expressão. A princesa protestou, batendo na parede para tentar quebrá-la, mas de nada adiantou.

Vênus então pegou o Crescent Compact, dispositivo que lhe permitia usar inúmeros disfarces e o ativou, transformando-se simplesmente em Princesa Serenity. Tinha os cabelos longos presos como os dela, a mesma graciosidade de sua aparência e até mesmo o crescente lunar em sua testa.

“Vocês são tão parecidas”.

Minako perdeu a conta de quantas vezes tinha escutado aquilo. De fato, ninguém jamais poderia negar a semelhança física entre as duas, mas a guardiã do planeta Vênus sabia muito bem o motivo de ter nascido praticamente idêntica à Usagi. Ela era a peça a ser sacrificada para que a sua futura rainha continuasse viva. No momento certo, assumiria o lugar de Usagi e correria o perigo que a Princesa da Lua deveria correr.

Ela morreria por Usagi. Morreria como Usagi. Tal como o seu planeta natal era capaz de assumir as mesmas faces da Lua, Minako assumiria a face de Serenity*.

Assim, a impostora deixou para trás a verdadeira princesa e seguiu o caminho em direção ao destino que estava predestinada a cumprir.

Notas finais
* Vocês sabiam que Vênus “imita a lua”? Vista da Terra ela tem fases, do mesmo jeito que o nosso satélite natural. Será por isso que Naoko desenhou Minako e Usagi tão parecidas? Eu acho improvável, já que Minako foi a primeira personagem criada, mas nunca se sabe, né? Inclusive, pelo que parece em algum momento da criação, quase as duas acabaram sendo a mesma personagem. Pelo menos é o que mostram alguns esboços com o visual da Usagi tendo o Artêmis como acompanhante. De toda forma, como elas são quase idênticas, eu quis aproveitar as habilidades de disfarce da Minako (até porque não seria a primeira vez que ela se disfarçaria de Serenity).
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!