Predestinada
4 Capítulo 04
Notas iniciais
— Vocês ficaram malucas? — Ethan questionava irritantemente em meus ouvidos.
— A ideia não foi minha de beber. — reclamei, seguindo-o até meu quarto, enquanto ele carregava Alexia em seu colo e a colocava na minha cama.
— Acontece que você não é tão ingênua para saber que as duas precisam trabalhar amanhã cedo.
Revirei os olhos.
— Você não deveria estar dormindo?
— Eu estava esperando vocês. — cobriu Alexia com as cobertas calmamente — Não fique pensando que era por quê eu queria olhar para sua cara antes de dormir. — falou ao notar minha expressão desconfiada — Acontece que vocês esqueceram a cópia da chave e ficariam do lado de fora se não fosse por mim.
Ah que lindo, quanta bondade! Pensei em responder ironicamente, mas queria que ele saísse do meu quarto o quanto antes, sem ter que arrumar uma briga que rendesse a noite toda.
— Quanto foi o táxi? — perguntou, tirando a carteira do bolso de sua calça jeans — Vou pagar a parte de Alexia.
— E-eu não vim de táxi. — gaguejei, esperando a bronca por ter pegado carona com um desconhecido.
Droga.
— Você o que? — apertou os olhos.
— Eu não vim de táxi. — repeti temerosa — Um amigo de Alexia nos deu carona.
Ele passou a mão em seu rosto.
— E como você sabe que era amigo dela se ela estava bêbada?
— Ele me disse que a conhece desde o ensino médio.
— E você simplesmente acreditou? — riu incrédulo — Como ele se chama?
— Joshua — tentei lembrar o sobrenome — Joshua Pottier.
O lampejo que passou por seus olhos não foi nem um pouco bonito.
— COMO É QUE É? — esbravejou.
Dei uns dois passos para trás, acanhada.
— Q-qual o problema?
Alexia se mexeu na cama e uma ruga se formou em sua testa, enquanto dizia algo inaudível, ainda dormindo. Aposto que Ethan havia entrado na sua cabeça e agora estava tendo pesadelos com o furor que emanava dele nesse momento.
— Acho bom que Alexia não fique sabendo disso amanhã. — sussurrou, acalmando-se para não acordá-la e fixou o seu olhar no meu — Ou você vai se ver comigo.
Um frio percorreu em minha espinha. Engoli em seco, controlando-me para não mostrar que tinha ficado com medo de suas ameaças.
— Mas por que? O que tem de errado com Joshua?
Ele soltou uma risada sarcástica, como se eu fosse a pessoa mais ingênua do mundo.
— Deixa eu adivinhar. — passou a mão em seu queixo — Ele te paquerou na boate, disse que é amigo de Alexia e você ficou caidinha pelo rosto de bom moço que ele tem, certo?
Abri a boca umas duas vezes para retrucar, mas fechei de uma vez, ficando calada. Caramba, esse garoto tem dom em adivinhar as coisas.
— Sinto muito em te dizer isso gatinha — aproximou-se e colocou a mão em meu queixo, levantando meu rosto e fazendo com que eu sentisse um choque fora do normal com o seu toque — Mas Joshua é ex-namorado de Alexia, o último para ser mais específico.
Tirei sua mão bruscamente de meu rosto.
— Como? — perguntei estática — Joshua não havia me dito isso quando conversamos no carro.
— Além de gatinha, é acéfala — revirou os olhos — Eu vou para o meu quarto — disse, virando-se para ir embora, mas olhou-me por cima de seu ombro — Não se esqueça, esse é nosso segredinho, Alexia não pode nem sonhar com essa carona. Eu não quero esse babaca perto da minha irmã novamente.
— Você não acha que sua irmã está grandinha demais para cuidar da vida dela sozinha?
Ele virou-se e arqueou uma sobrancelha, colocando as mãos nos bolsos dianteiros de sua calça jeans.
— Eu acho que você tem que cuidar da sua vida — e foi embora.
Demorei uns segundos para agir e fui atrás dele.
— Ei espera — chamei-o no corredor e ele virou-se impaciente — O que vamos fazer com ela?
— Eu vou ligar para o meu pai e dizer que ela vai passar a noite aqui.
— E eu vou dormir aonde?
— Oras — olhou-me como se eu fosse tonta — No sofá! Ou você acha que vai dormir na minha cama?
Apesar de ter sido uma pergunta retórica, fiquei envergonhada e ele riu ao perceber. Se aproximou, ficando frente a frente comigo e sussurrou com um sorriso malicioso no rosto.
— Sei que é a sua vontade, mas hoje não — e foi embora mais uma vez, deixando-me frustrada em não poder responder que aquilo jamais aconteceria.
Eu nunca odiei uma pessoa antes, mas estava aprendendo a ter esse sentimento com Ethan Sulivan. Um garoto arrogante, descarado e mulherengo. A pior raça humana que eu já havia conhecido em todo decorrer dos meus dezoito anos de idade. Olhei para Alexia que dormia genuinamente em minha preciosa cama, antes de descer inconformada até o sofá e ficar por lá, sem sequer tirar a roupa que eu havia saído do corpo, encarando o teto e dizendo a mim mesma que esse era o preço que eu teria que pagar por ter sido tão irresponsável pela primeira vez na minha vida.
Peguei-me pensando em Joshua. Como eu fui burra, é claro que ele fez aquilo para aproximar-se de Alexia novamente. Eu deveria ter desconfiado do seu excesso de bondade em relação a ela. Bom, agora é só esperar ele dar as caras para tirar satisfações, pois não confio plenamente nas palavras de Ethan.
Pronto, agora pego-me pensando nesse embuste sem noção.
Nós somos totalmente diferentes um do outro. Eu não queria que a discrepância pintasse um alvo em minhas costas, mas algo dentro de mim acreditava que aquilo era possível. Confesso que tive um certo interesse quando cruzei o meu primeiro olhar com ele na agência e pensei que ele tivesse sentindo a mesma atração por mim apenas pela forma veemente em que encarava-me, mas ele resolveu abrir a boca e soltar o seu primeiro veneno, provando-me do contrário.
Repassei todas as conversas que já tive com Ethan em minha cabeça, sendo o mais observadora possível no que se dizia respeito as suas atitudes. Ele gostava de estar sempre no controle da situação, sem ser contrariado ou ignorado. Então, a partir desse momento, eu pude notar que esses são os seus maiores pontos fracos e quer saber de uma coisa? Eu faria o de tudo para usá-los ao meu favor.
Eu, Marjorie Marie, ainda vou fazer Ethan Sulivan cair de seu pedestal e engolir de uma vez por todas o seu próprio egocentrismo.
**
Abri os olhos lentamente, sentindo a luz que vinha da janela invadir instantaneamente os meus olhos e tateei em meio as cobertas o celular que apitava sem parar, indicando que era o nascer de um novo dia — ou melhor — o grande dia e o desliguei. Hoje eu finalmente iniciaria a minha carreira no mundo da moda, como também nos estudos sobre ela, fazendo-me esboçar um sorriso satisfeito no rosto e espreguiçar-me.
Hoje ninguém vai estragar o meu dia, pensei.
Senti um aroma de café circular pela sala e procurei de que direção ele vinha. Levei um susto quando os seus olhos vieram de encontro aos meus e ali ficaram. Sentei-me no sofá a procura de um lampejo que entregasse suas emoções naquele momento. Bom, não havia nada de ameaçador ou que indicasse divertimento na forma como ele me olhava, mas continha um brilho tranquilo, como eu nunca tinha visto antes, deixando-me sem reação.
— Você fica linda sorrindo desse jeito quando acorda. — bebericou o café que estava na xícara que segurava.
Desviei o olhar e só então percebi que tinha prendido a respiração. O vento que rodeava o ambiente fazia seus cabelos negros balançarem, deixando-o levemente bagunçado. Ele já estava arrumado com uma calça slim fit preta, acompanhada de uma jaqueta jeans que ele havia levantando as mangas até a altura dos cotovelos e um par de tênis pretos que o deixava com um ar mais jovial. Em seu pescoço uma alça sustentava sua câmera fotográfica profissional. Céus, odeio ter que admitir isso, mas ele estava incrivelmente lindo.
Não se esqueça que ele continua sendo Ethan Sulivan, minha consciência lembrou-me gentilmente.
Despertei de meus pensamentos quando ele disparou um clique de sua câmera fotográfica e tirou uma foto minha.
— O que deu em você? — indaguei franzindo o cenho — Acha mesmo que vou cair nas suas provocações?
— Eu precisava registrar você em um momento como esse. — sorriu calmamente.
Ok, essa ceninha toda está muito estranha.
— Por quê acordou tão cedo? — apertei os olhos — Para me infernizar?
— Eu queria te olhar dormindo — deu de ombros — fica tão genuína e doce.
Levantei-me irritada. É óbvio que ele estava debochando da minha cara. Até parece que de um dia para o outro ele resolveu ser amável comigo.
— Já chega — Caminhei em sua direção — O que você quer?
Era possível sentir o cheiro de seu perfume assim que me aproximei, deixando-me inebriada. Droga, a vida é muito injusta por ter caprichado em uma pessoa tão arrogante.
— Eu queria te ver irritada, mas consegui fácil demais — riu, voltando a ser o mesmo engraçadinho de sempre — Que garota nervosinha.
Fechei os olhos e respirei fundo. Pronto, alguém já havia estragado o meu dia e não tinha uma pessoa melhor para esse papel que Ethan Sulivan. Agora eu teria que suportar isso todos os dias, semanas e meses, durante quatro anos. Sinceramente, aja paciência! E sinto informar, mas eu não nasci com essa virtude.
Provocar, irritar e te tirar do sério é o grande legado de Ethan em sua vida, lembrou-me novamente a minha complacente consciência.
Abri os olhos e Ethan encarava-me como seu fosse uma parasita. Eu jurava a mim mesma que se eu não desse as costas naquele momento, algo como um crime por exemplo, aconteceria naquela manhã. Então subi as escadas satisfeita comigo mesmo por ter dado a minha própria sanidade um pouco de paz e não ter arrumado uma briga com Ethan como ele queria, afinal eu já havia sacado que ele odeia ser ignorado.
Cheguei ao meu quarto e dei de cara com uma Alexia de resseca, se virando na cama de um lado para o outro e grunhindo algo entre as cobertas.
— Não adianta reclamar agora. — sentei-me na beirada da cama — Eu avisei que não deveríamos ter saído para beber.
— Eu prometo que nunca mais vou beber na minha vida. — murmurou.
— Vou fingir que acredito — ri — Agora levanta dessa cama e se arruma, pois temos que ir a agência
Ela sentou-se assustada.
— Que droga! — correu para se olhar no espelho — Eu tenho uma sessão de fotos hoje.
Cai na gargalhada e ela apertou os olhos.
— Como você tem coragem de rir da desgraça alheia? Eu estou sem condições de trabalhar.
— O seu pai vai te matar se você não ir.
Ela respirou fundo e massageou suas têmporas.
— Eu não consigo lembrar de nada da noite passada — olhou-me através do espelho — Eu passei alguma vergonha sobrenatural?
— Não, apenas bebeu e dançou descontrolada.
— Ah, eu já contava com isso — deu de ombros — Mas como viemos embora?
— Vocês voltaram de táxi — Ethan apareceu do além para responder, invadindo o meu quarto.
— Você estava escutando atrás da porta? — Alexia indagou em tom acusatório.
— É claro que não. — olhou para o chão, desconcertado — Eu só vim dizer que se vocês quiserem carona, é bom estarem prontas dentro de trinta minutos.
— Quarenta. — pediu.
— Fechado. — revirou os olhos — E não se preocupe, pois eu paguei a sua parte do táxi ontem para a nervosinha da sua amiga.
Mirei o travesseiro em sua direção e o atirei, enquanto ele fugia porta afora.
— Um dia eu ainda acabo com esse garoto! — ralhei, enquanto Alexia ria e colocava a mão em sua cabeça logo em seguida, angustiada com a dor que havia causado.
Comecei a me arrumar e Alexia fez o mesmo. Coloquei uma calça jeans skinny, um cardigã longo por cima de uma camisa branca de algodão e calcei sapatilhas para finalizar. Ethan nos levou até a porta da agência em poucos minutos. Ele resolveu correr com o carro a uma velocidade um pouco fora do normal, ultrapassando os carros e xingando aqueles que atrapalhavam o seu caminho com a desculpa de que estávamos atrasados, mas a verdade é que ele queria apenas se divertir com as expressões assustadas e temerosas de nós duas ao som de Nex to me da banda Imagine Dragons.
Sim, eu também achei isso incrivelmente estranho.
Alexia parou para conversar com uma recepcionista da agência, enquanto eu e Ethan ficávamos a sós no elevador. Resolvi quebrar o silêncio que pairava entre nós para colocar um assunto pendente que havia martelado em minha cabeça durante todo o trajeto até aqui.
— Nós precisamos conversar — balbuciei.
Sua testa vincada denunciava sua curiosidade.
— Desde quando temos assuntos em comum?
— Desde que você me impediu de dizer a verdade para Alexia sobre Joshua.
A verdade é que eu não via motivos para sustentar a mentira de Ethan. Alexia tem todo o direito de saber que seu ex-namorado havia nos levado até em casa na noite anterior.
Ele bufou.
— Você vai querer mesmo insistir nesse assunto? — murmurou entredentes, encarando-me de forma fulminante.
— Sim, até por quê eu e Alexia somos amigas e seria injusto da minha parte não contá-la, ainda mais depois de tudo que ela tem feito por mim.
— Amigas? Ah me poupe, vocês acabaram de se conhecer.
— Não importa — ralhei — A questão é que vou contar sim para Alexia e não vai ser você que vai me impedir.
Ele aproximou-se irascível, fazendo-me dar dois passos para trás. Os seus dois braços prenderam-me na parede do elevador, enquanto rapidamente apertava algum botão que não consegui distinguir qual, mas sabia que sua intenção era que permanecêssemos ali por mais tempo, até esclarecer essa questão de uma vez por todas de forma premeditada. Senti todo o meu corpo enrijecer e o ar se esvair dos meus pulmões com sua súbita aproximação, mas ele não precisava saber daquilo, então tentei recompor-me rapidamente.
— O que eu preciso fazer para você ficar calada? — indagou com sua voz grogue.
A tensão entre nós era palpável.
— Ela vai ficar sabendo mais cedo ou mais tarde — tentei desenvencilhar de seus braços, mas ele não permitiu — Joshua disse que reapareceria, pois quer me ver.
Ele riu incrédulo.
— É óbvio que está te usando.
— O caso não é esse Ethan — repreendi-o enervante por saber que ele tinha razão em suas palavras — Mas sim que Alexia vai saber de tudo através dele.
— Eu vou matá-lo se ele aparecer para infernizar vida da minha irmã novamente — passou as mãos pelo cabelo e eu aproveitei o seu descuido para afastar-me antes que ele me matasse com aquele perfume.
— Escuta — segurou em meu braço delicadamente, fazendo-me acará-lo — Não conte nada a ela agora, por favor.
Eu mal podia crer no que tinha acabado de escutar. Sim, ele estava pedindo-me um favor. Sim, estou com um sorriso radiante em minha face.
— Eu vou pensar no seu caso — respondi sarcasticamente, fingindo ponderar a ideia com um sorriso pretensioso nos lábios, deixando-o para trás assim que a porta do elevador se abriu.
Desfilei para fora sentindo por trás de mim uma fumacinha fulminante sair da cabeça de Ethan Sulivan.
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