Predador Sombrio
3 Capítulo 3 - Calabouço de almas
A delegacia de St. Louis ficava à cerca de um quilometro do apartamento de Peter. Ele, após deixar a viatura, pegou seu carro no estacionamento e tomou rumo ao prédio onde morava. Já eram oito horas da manha e o sol já estava alto naquele momento.
Dentro de seu velho carro Americano, Peter dirigia lentamente enquanto parava nos faróis da avenida. Olhando por um momento para as pessoas, percebeu a pressa e o medo no movimento delas. Pareciam de alguma forma preocupadas com algo que nem elas julgavam saber.
Logo, Peter chegou a seu apartamento que ficava no segundo andar do prédio. Sua esposa, Catherine estava na cozinha preparando um café para Peter. Ele entrou, a beijou e foi para a sala.
Catherine era uma mulher loira e alta, exibia um corpo que lembrava a forma de um violão. Sua beleza enganava sua idade, aparentando ser uma jovem, porém já tinha trinta anos.
Ela julgava a vida com Peter um pouco doentia, principalmente na relação convivência e tempo. O trabalho de seu marido era à noite, com isso raramente desfrutavam de momentos para dormirem juntos durante a noite.
Aos poucos desde o casamento sua felicidade em ter se casado com um sargento foi caindo em desuso, muitas vezes sua vontade de fazer um divórcio vinha à mente, porém o amor e carinho que Peter dedicava a ela a impedia dessa decisão.
A família de Catherine já estava morta, seu pai e sua mão haviam morrido em um acidente à dez anos atrás, em 2002. Sua vida a partir daquele momento ficou frágil e dependente de toda a atenção de seu marido, que em todos momentos que precisou esteve lá para ajudá-la.
***
Como era de costume depois do meio dia, em dias que Catherine estava de folga os dois dormiam juntos até pelo menos seis horas da tarde. Peter já de férias não teve em nenhum momento preocupação em acordar para ir ao seu trabalho, então aproveitou e descansou.
Eram sete horas da noite quando o telefone que estava encima da escrivaninha ao lado da cama começou a chamar. Peter acordou de repente, olhou para seu lado na cama e Catherine não estava lá. Ele ligou o abajur que ficava do seu lado e então atendeu ao telefone, e uma voz grossa pode ser ouvida do outro lado da linha.
– Alo! Sargento, você está ai? – perguntou o delegado Thomas ofegante no telefone.
– Estou sim delegado, aconteceu alguma coisa? – perguntou Peter reconhecendo a voz de seu chefe.
– Você ainda me pergunta o que aconteceu! A cidade está em caos e você me faz uma pergunta dessas?! – exclamou o delegado irritado.
– Me desculpe delegado, eu dormi toda tarde, acordei agora com o telefone tocando. Mas o que está acontecendo?
– Simplesmente olhe pela janela de seu apartamento! Eu nunca imaginei que isso aconteceria, e ainda tão rápida-mente...
A ligação caiu quando Thomas terminava de falar. Peter se levantou da cama, vestiu uma camisa social de cor preta e uma calça jeans azul. Logo caminhou até a janela de seu quarto, local onde tinha uma visão privilegiada sobre algumas ruas de St. Louis. Peter abriu a janela e olhou para o longe e percebeu alguns focos de fumaça já subindo alto. Algumas ruas tinham carros batidos e parados de qualquer forma, pessoas corriam entre eles. Uma mulher, na rua de seu prédio corria com um bebê em seus braços, enquanto chorava. Ela tinha vários ferimentos pelo corpo, mesmo assim corria sem cansar.
Peter pensou para si: O que fez tudo isso? Foi nesse momento que ele notou como algumas pessoas andavam lentamente e cambaleavam o corpo. Elas corriam atrás de outras pessoas, que desesperadas se desviavam por entre os carros.
Sem dúvidas eram zumbis, e haviam tomado conta da cidade. A contaminação tinha se alastrado de forma brutal e provocado pânico sobre a população, que nem mesmo entendia o que poderia estar acontecendo.
Peter fechou a janela e gritou:
– Catherine?!!!
***
A escuridão da noite já tomava conta do céu da cidade de St. Louis. Sobre as ruas da cidade, pessoas desprevenidas ainda se encorajavam a abandonar suas casas buscando chegar a um local seguro. Algumas acabavam sendo mortas pelos fervorosos ataques dos zumbis que vagavam pelas ruas da cidade sedentos por carne.
Os tiros eram frequentemente ouvidos em meio as buzinas de veículos que circulavam pela avenida que dava rumo à rodovia que fornecia acesso para fora da cidade. Devido ao congestionamento e o medo de serem mortas por zumbis, algumas pessoas acabavam abandonando seus veículos, buscando fugir a pé pela rodovia que era rodeada por imensas floretas na direção norte de St Louis.
As luzes de certa parte da cidade haviam terminado devido aos acidentes que acabaram destruindo redes elétricas pelas principais ruas do oeste da cidade. Com isso alguns prédios ficaram sem funcionamento interno e totalmente escuro.
O delegado Thomas Xavier morava em um desses prédios a cerca de duas quadras do prédio de onde morava Peter e Catherine.
O prédio estava dominado pela escuridão e os geradores já haviam parado de funcionar devido ao intenso uso do elevador nas ultimas horas.
Thomas, em seu apartamento, com uma lanterna em mãos juntava alguns mantimentos como remédios, munição e algumas peças de roupa, até sua mochila encher. Colocou sua pistola por baixo de sua jaqueta de couro e saiu de seu apartamento.
Pelos corredores do prédio notava-se a desolação, com roupas e diversos objetos caídos pelo chão. Vários apartamentos estavam de portas abertas, demonstrando de imediato a sensação de abandono.
O delegado Thomas andava lentamente por entre os objetos e roupas espalhadas nos corredores. Por um momento ele se abaixou e apontou com sua lanterna para uma fotografia caída no chão. Na foto havia duas pessoas conhecidas, seus vizinhos Charlie e Janeth. Lembrou de momentos felizes que passaram juntos, e agora mais do que nunca imaginava onde que eles poderiam estar. Será que estavam mortos? Será que tinham conseguido fugir a ponto de encontrar um local seguro para ficar?
Nada foi capaz de conter as lágrimas de um homem tão forte como Thomas. Lembranças do passado tomavam conta de si. Imaginou que talvez depois que tudo isso que estava acontecendo passasse, nunca mais a população de St Louis ou do mundo passariam por momentos felizes.
Apesar da tristeza, Thomas sabia que precisava ser forte e seguir em frente. Julgava que nada mais poderia fazer pelos outros, como em seu serviço, mas que poderia fazer por si mesmo e enfrentar todos os problemas que este caos havia gerado.
Thomas abandonou a fotografia, se levantou e continuou andando pelos corredores sombrios com sua lanterna na mão. Logo em sua frente ficava o elevador do prédio. Andou até ele e pressionou vagarosamente o botão para chamar o elevador, porém em um painel digital ,localizado abaixo do botão, apareceu uma mensagem informando: ”Estamos sem energia no prédio, por favor, use as escadas”.
Thomas deu um suspiro ofegante e partiu em direção as escadas do prédio. As escadas não estavam diferentes, todas elas com diversas roupas e objetos atirados pelos degraus. Descia lentamente com sua lanterna na mão. Ouvia apenas sua respiração e o coração batendo enquanto imaginava o que estava por vir.
Ao chegar à fachada do prédio, Thomas passou pela recepção e se deparou com diversos corpos mutilados pelo chão. A grande porta de vidro do prédio estava aberta, através dela viam-se alguns zumbis caminhando pelas ruas.
Por um momento, Thomas se descuidou e apontou a luz de sua lanterna para um zumbi que passava em frente a porta. Mesmo com raciocínio precário, o zumbi sentiu-se atraído por aquele clarão vindo de dentro do prédio.
Thomas decidiu que seria melhor matá-lo do que correr, mas precisava ser silencioso. Enquanto o zumbi se movia lentamente cambaleando-se para dentro do prédio, o delegado abriu sua mochila e retirou seu canivete italiano.
Rapidamente Thomas se encostou à parede, ao lado da porta do prédio, esperando o zumbi entrar. Num golpe ágil, com seu canivete, Thomas acerta o zumbi no cérebro:
– Toma seu desgraçado – falou Thomas em voz baixa.
O Zumbi caiu ao chão. Thomas pressionou seu pé direito sobre a cabeça do cadáver e puxou seu canivete.
Notando que dezenas de zumbis se aproximavam da frente do prédio. Thomas percebeu que seria suicídio seguir a pé pelas ruas até o prédio de Peter.
Com isso, decidiu voltar. Passou novamente pela recepção e chegou até uma porta que dizia: “Garagem”. Torcia para que o portão principal da garagem estivesse aberto, do contrário seria quase impossível sair do prédio.
Thomas abriu a porta de acesso à garagem e desceu as escadas até chegar naquele enorme estacionamento. O local estava extremamente escuro. A cerca de cem metros de onde estava Thomas, certa claridade penetrava no estacionamento.
Aquele local era tenebrosamente obscuro, além disso, havia a presença de muitos zumbis, alguns vagavam por entre os carros, enquanto outros devoravam violentamente alguns corpos.
Thomas ficou escondido entre a escada e a entrada do imenso estacionamento. A situação estava complicada para ele. Se usasse sua lanterna poderia atrair zumbis, e caminhar na escuridão até seu carro que estava longe, acabaria se esbarrando com algum zumbi. Apesar de possuir muita munição, sua pistola era lenta e suportava até seis balas. O primeiro tiro já atrairia todos os zumbis para sua direção. Era impossível.
O delegado começava a temer o pior, seria ali o local destinado a acontecer sua morte, igual a todas aquelas pessoas que os zumbis estavam devorando? Se não bastasse, as dezenas de zumbis em frente ao prédio, aos poucos penetravam instintivamente pela porta principal.
Thomas lembrou que havia trancado a porta de acesso à garagem antes de descer as escadas. Sentiu-se aliviado ao lembrar, mas agora sua única saída era por este enorme estacionamento. Estacionamento que mais parecia um calabouço de almas mortas prontas para dominar qualquer criatura viva.
Como os seres humanos poderiam um dia chegar a aquela situação? Pensava Thomas olhando os vultos que circulavam pelo estacionamento.
Suas expectativas, sonhos e acontecimentos passados reuniam uma fonte de infinitos pensamentos lúdicos, os quais não saiam de sua cabeça. Pensamentos que incomodavam, deixando-o cada vez mais irritado pelo fato de não conseguir traçar seu futuro a partir dali. Muito menos imaginar o que seria dele daqui alguns minutos. Será que se tornaria um deles? Sua vida terminaria ali, naquele calabouço?
Somente o tempo poderia dizer...
Diante daquela situação, para Thomas os segundos se tornavam horas. Nada era mais perturbador que uma situação complicada e impiedosa psicologicamente como aquela. Esperar não era a solução. Mas agir e ser morto era? Thomas não encontrava respostas, mas estava sentindo na pele a tensão e o medo quase indefinidos se caso julgados, afinal já demonstravam características fora do comum, mas inevitáveis.
A situação em que Thomas se encontrava era praticamente um encontro com a morte ou o caminho para ela, naquele imenso calabouço obscuro.
***
Sentado na escada de entrada para o estacionamento, com sua bolsa no colo, Thomas se sentia calmo. Parecia ter encontrado alguma forma de conviver, nos últimos minutos, com aquela situação.
Foi instantâneo o momento em que algo começou a vibrar dentro da bolsa. Ele a abriu com cuidado. Era seu celular e no display dizia “Peter chamando”. Mas como? Pensou. Só poderia ser um milagre. Todas as linhas telefônicas móveis haviam perdido sinal. Mas de fato, era Peter ligando para ele.
Thomas atendeu:
– Peter, é você? – sussurrou o delegado ao celular, sendo cauteloso olhando para os zumbis que circulavam nas proximidades.
– Sim, sou eu delegado, você está bem? – perguntou Peter olhando para Catherine sentada ao sofá da sala.
– Não sargento, estou preso no estacionamento de meu prédio, e estou rodeado por zumbis, não tenho como sair, por favor me ajude!
– Minha nossa! Fique tranqüilo delegado, eu e Catherine já iremos até você!
– Ah! Graças a Deus – comemorou Thomas – Mas ande logo, não sei quanto tempo vou conseguir ficar aqui sem ser percebido.
– Mas procure se acalmar, todos aqui do meu prédio também já evacuaram – concluiu – estamos indo para lá.
– Ok, até logo.
***
Eram cerca de duas horas da madrugada. O silencio já dominava aquela cidade repleta pelos mortos vivos. Notava-se apenas a desolação e milhares de zumbis circulando pelas imensas avenidas e becos de St. Louis. Alguns zumbis apenas caminhavam sem destino perdidos diante de seus precários raciocínios. Outros aproveitavam e eram insaciáveis aos restos mortais de pessoas.Pessoas, que possuíam família, trabalho e moradia, mas que agora não passavam de alimento para aquelas criaturas insanas.
Ao longe, pela avenida, um velho carro americano circulava por entre outros carros que estavam parados de qualquer jeito. O veículo percorreu a avenida e penetrou rapidamente em uma grande porta para dentro de um estacionamento.
Ao volante, Peter tentava descobrir a posição em que se encontrava o delegado. Percebeu ao longe uma luz de lanterna balançando, deveria ser ele. Dirigiu com seu veículo na direção. Foi inevitável atropelar alguns zumbis que vagavam naquela escuridão.
Com velocidade, Peter rodopiou seu carro formando um zero. Estava em posição para pode sair novamente do estacionamento. A cerca de vinte metros notou o vulto de Thomas que se aproximava de seu carro. Alguns zumbis tentavam agarrá-lo, mas por sorte não tiveram sucesso.
Thomas conseguiu chegar até o carro e entrar. Sentiu-se aliviado ao ver Peter e Catherine. Por um momento até se achou na obrigação de pedir desculpas por metê-los naquela situação perigosa, mas sabia que isso era importante para sua sobrevivência.
Não demorou muito, e numa reação instantânea Catherine gritou.
–Vai!
Zumbis já subiam pelo capô e pelas laterais do carro, instintivamente, tentando se apoderar daqueles três seres humanos aparentemente indefesos.
Os pneus cantaram alto e Peter acelerou o carro. Aos poucos foi se livrando de alguns zumbis que estava sobre o veículo. Foi um alívio quando conseguiram sair de dentro do prédio.
Dentro daquele veículo, aqueles três sobreviventes estavam diante de um calabouço, agora, ainda maior, a cidade de St. Louis. E agora, para onde seguir no meio daquela cidade dominada pelo medo e horror de uma tragédia? Foi só um segundo para Peter concluir:
– Tenho certeza de uma coisa. Enquanto ainda existir sobreviventes como nós, os zumbis sempre terão alimento. Mas quando eles não tiverem mais alimento isso só significará uma coisa...
– O que sargento? – perguntou o delegado.
– ...que nós estaremos todos mortos.
Notas finais
É essencial para a continuação do trabalho.
Lembre-se, plágio é crime.
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