Notas iniciais
Capítulo ligeiramente menor que o anterior, isso por que decidi dividir os capítulos por temática - e a temática de hoje é um tanto enxuta. Agradeço mil pelos reviews recebidos, amo todos eles

Até os meus planos darem errado

De toda a verdade que eu disse

Foram honestas, eu juro

Máscara da Morte observou a paisagem pela janela. O dia estava lindo, sem nuvens e com uma temperatura agradabilíssima. Quase o dava vontade de sair do quarto... "Quase" porque desistia ao pensar na cadeira de rodas. Não havia usado ainda, mas sentia que tudo seria muito mais real e palpável depois de uma. Imaginava quanto tempo estava ali, mas não era realmente um dado importante. E tinha coisas mais urgentes para pensar agora — como a visita que Atena lhe faria hoje.

Já havia dias que Máscara sabia da paraplegia e os mesmos passaram devagar, repetitivos e humilhantes. Tentava discutir e ofender Aiolia para extravasar a frustração, cada vez que tomava banho, trocava as fraldas e saía para fazer exames. Mas a reação do leonino sempre o deixava dividido — em parte, agradecido pela compreensão do outro, pela ajuda e por controlar sua irritação, e em parte furioso por Aiolia ficar impassível diante das provocações.

De qualquer forma, hoje seria o dia que poderia vislumbrar um pouco mais seu futuro em meio a neblina.

Mas não poderia de forma alguma dizer que Atena lhe daria uma luz, como um farol à beira mar. Servia a deusa sim, havia morrido e se redimido por ela e pela humanidade, mas Deus (ou seria Zeus?) sabe que isso nunca foi sua praia. Ele não era o tipo de pessoa a quem se dava poder, a prova disso emoldurou as paredes de Câncer por anos, mas poder lhe foi dado, assim como uma razão de viver, morrer pela humanidade, como um cavaleiro-paladino de um livro de rpg.

Mas, diferentemente dos livros de RPG, não existia magia de cura para medula partida. Ou magia de cura de qualquer maneira. Ou magia.

No momento, a única coisa que existia era uma solidão imensa.

E, no geral, sabia que Atena lhe diria apenas "Vou pagar seu hospital até você levar alta, depois disso, adeus, Ettore, nenhum aleijado pode ser Cavaleiro de Atena". Talvez não com essas palavras, mas seria exatamente isso. Até por que como raios sairia ou entraria na sua casa nas 12 Casas com aquele mundo de escadas? Teria que ser carregado para cima e para baixo e as cenas em sua cabeça ficavam ainda mais humilhantes.

E também não acreditava que o acidente não teve "uma repercussão tão grande" como dito por Aiolia. Duvidava muito disso, aliás. Era ele e, bem, sabia Máscara da Morte não ser bem quisto entre os companheiros de armas.

Só sobrava esperar ansiosamente a visita da Deusa. Se martirizar não adiantaria, mas era tarefa difícil. E justo agora que sua vida estava quase normal, sem batalhas ou deuses egocêntricos que hipnotizam (isso por que, para Máscara da Morte, tanta devoção é fruto de hipnose) humanos para partir pra porrada.

Riu de lado com escárnio, chamando a atenção de Aiolia, que lia algo do Batman. Vida filha de uma puta.

– O que foi, Máscara?

Niente. Só queria poder cortar o pescoço do filho de uma puta que decidiu que eu tinha que nascer.

– Tudo bem...

Aiolia ficou preocupado, talvez o canceriano decida de repente dar cabo à própria vida, mas deixou a ideia de lado. Não via o motivo de tanta comoção, Máscara já estava tão mais forte do que quando acordara, até sua voz já estava quase normal. E, por tudo de mais sagrado, Máscara é um Cavaleiro Dourado, o que diabos é um prognóstico médico diante disso?

Máscara não estava tão confiante e talvez estaria ainda mais debochado se ele e Aiolia estivessem um no lugar do outro. Sabia que provavelmente riria da cara de Aiolia e brincaria (e machucaria) as hipotéticas pernas inertes do outro e coisas ainda piores. Isso fazia com que a compreensão, paciência e boa-vontade (ainda que Aiolia não tenha escolhido estar ali) aumentar a quota de "gratidão" na balança imaginária em que Máscara pesava seus sentimentos pelo leonino.

E tudo isso fazia Máscara pensar que nesse tempo todo (dias que pareceram anos) de hospital, não recebera nenhuma visita, telefonema ou cartão de melhoras. Nem sabia o horário disponível para visitação e não sabia o que sentir com relação a isso. Era tudo muito confuso e ele estava só. Só e com um enfermeiro grego gostoso no quarto. Completamente só.

E amaldiçoou o dia em que nasceu e renasceu. Se tudo era para dar tão errado, por que foi?

O canceriano não teve muito tempo de se martirizar e de se estapear mentalmente por estar se martirizando. Sentiu um cosmo quente e calmo pelos corredores do hospital e reconheceu como sendo da Deusa. Suava frio, com medo. Não sabia o que esperar, e por mais forte fisicamente que é (ou era) sua alma estava em frangalhos.

Assim que Atena adentrou a porta do quarto na companhia de Shaka, a dois passos atrás, Aiolia prestou reverência e Máscara fez o que pôde inclinando o pescoço, ambos voltando às posições de conforto à dispensa da Deusa, que se sentou em uma cadeira ao lado da cama de Máscara, fazendo um gesto para que Aiolia e Shaka aguardassem do lado de fora, sendo prontamente atendida.

– Espero que esteja se sentindo bem, Máscara da Morte. Você quase morreu.

– Devia ter morrido — o cavaleiro se irritou com a preocupação da Deusa — Nenhum cavaleiro é aleijado, Atena.

– Bem, de fato não temos nenhum cavaleiro em suas condições. — Saori sorriu — Então vamos aprender juntos o quê fazer, o quê me diz?

Máscara riu — Eu não posso nem chegar à minha casa sozinho ou limpar minha bunda, o quê diabos eu vou poder fazer?

– Eu não vou te desamparar agora, Ettore. Não agora que você mais precisa.

– Pois devia. É o que todos fazem.

Máscara da Morte estava irritado e desconcertado pela inclinação altruísta de Atena. Ele não esperava que ela fosse oferecer ajuda e a possibilidade de encarar, em cima de uma cadeira de rodas, todos os companheiros de armas, o assustava, o que aumentava sua irritação.

– Mas não é o que vou fazer. Infelizmente não posso te curar, quisera eu poder... Mas acredito que independente de diagnóstico médico, andando ou não, você terá uma vida independente, feliz e com toda ajuda minha que puder obter — Atena observou Máscara desviar o olhar e direcionou o rosto do outro para de encontro ao seu — Você não precisa se sentir só ou se martirizar... Já estamos tomando providências para te receber.

"Estamos construindo uma vila para os Cavaleiros de Ouro, mais ou menos como as dos cavaleiros de prata e bronze, toda adaptada para uma cadeira de rodas. As 12 Casas serão desabitadas e servirão apenas como templos, já que estamos em época de paz. Podemos fazer as reuniões em outro local mais acessível para você e te designar funções mais adaptáveis, como treinar aprendizes e determinadas missões.".

Máscara da Morte se felicitou por Atena ter pensado em tudo para recebê-lo deficiente (ainda que tal pensamento o irritasse), mas se sentia inseguro com relação aos demais.

– Eu agradeço, Atena, mas... É melhor não, ninguém realmente me quer lá.

– Eu quero, Máscara da Morte, e isso é mais do que suficiente. E ficar tão tristonho não é de seu feitio. Levante esse rosto e prove para todos que você é indiferente às provocações. Se mostrar fraco vai te deixar cada vez mais fraco. Mostre força, mesmo que você não tenha, e prove ser melhor do que todos eles.

– Não esperava ouvir algo assim, Atena — Máscara da Morte riu. Era um assunto complicado, mas Atena tinha razão. Chutaria a bunda... Digo, socaria o queixo (?) de quem quer que fosse que o provocasse. Se era para ser assim, daria jus às provocações. — Tudo bem então, eu continuo.

Atena sorriu.

Diferente de Shaka, que esperava pacientemente do lado de fora, na companhia de Aiolia, mas portador de uma expressão um tanto contrariada.

– Como ele está?

– Triste e pensativo. Tenta disfarçar se irritando, mas não é realmente culpa dele.

Shaka observou Aiolia, arqueando uma sobrancelha — Não imaginei que ele teria tal reação patética.

– Se acha que ter uma reação natural é patético... — Aiolia volveu — Ouvir que se ficou paralítico não é exatamente uma notícia boa.

– Se irritar não resolve os problemas.

– Queria te ver em uma situação parecida pra ver se reagiria assim, Iluminado.

Shaka torceu o nariz, irritado. Não entendia como se irritar ou abater era considerado "reação normal" quando obviamente permanecer calmo era a melhor solução ante um problema em tese insolucionável. Porém ignorou todo o discurso que tinha para convencer Aiolia. Além do leonino ser um de seus raros amigos, era sentimental demais para entender a racionalidade do virginiano.

– Atena está providenciando adaptações para o Máscara da Morte. Readaptação de função, acho que é o nome que Mestre Shion disse. E também uma vila para os Santos de Ouro, nos moldes das de bronze e prata.

– E as 12 Casas? — Aiolia arqueou uma sobrancelha — O que vai acontecer?

– Serão apenas templos. — Shaka passou as mãos pelo cabelo, não conseguindo esconder (e controlar) sua irritação — Atena está fazendo todo o necessário para receber Câncer, para que ele se sinta em casa e não se sinta mal ou rejeitado.

– Bem, isso é bom. Imaginei que ela faria isso — Aiolia se apoiou na parede ao lado de Shaka, com as mãos para trás, balançando uma das pernas apoiado no calcanhar. Olhou Shaka nos olhos, que olhava de volta, fitando aquela imensidão azul que ficara escondida por tanto tempo — Não acha?

– Não, não acho — Shaka fechou os olhos e pressionou a testa com um dos dedos — Acho na verdade um absurdo. Não considero... — Shaka ponderou por um momento, escolhendo a palavra melhor — Não considero útil e tampouco necessário. Ela vai ficar desprotegida e está acabando com uma tradição de milênios... E não é como se Máscara da Morte merecesse.

– E qual a diferença entre você, Shaka?

– A diferença é que ele sabia das más intenções de Saga e sempre demonstrou ser deveras cruel para alguém que diz proteger a humanidade.

– Devo te lembrar que você não é um amor de pessoa, senhor Homem Mais Próximo de Deus. Você protegeu a Casa de Virgem cegamente, Shaka, e nunca foi um exemplo de amor ao próximo. A diferença entre vocês dois — Aiolia continuou, ferino — é que você não morreu na Batalha das 12 Casas.

Shaka desviou o olhar do de Aiolia, ligeiramente envergonhado.

– Sinceramente eu espero que Máscara tire alguma boa lição disso — Aiolia suspirou, sem nenhum resquício de irritação — Dizem que coisas ruins às vezes acontecem por bem.

O virginiano olhou Aiolia, sorrindo — Nada ruim acontece com um propósito. Vivemos no meio do Caos. Nada é controlado ou medido. As coisas só acontecem.

– Então espero que aconteça algo de bom.

Máscara da Morte também esperava. Respirava fundo e decidiu por deixar seja lá o que for que estivesse lhe esperando vir. Já que tinha algum lugar para onde ir depois que saísse do hospital, que seja. O canceriano olhou para Atena, ela sorridente, e ficou se perguntando o porquê. Suspirou. Passou sua vida imaginando o que seria se não tivesse virado Santo de Atena, agora passaria o resto dela fazendo o mesmo, mas a respeito da paralisia.

– Essa semana vão vir aqui tirar suas medidas para encomendar sua cadeira de rodas – Atena disse – Vão conversar também com você sobre os modelos melhores para suas necessidades e os disponíveis e qual você prefere.

– Uhm.

– Não está animado?

– Não são muitas coisas que me animam ultimamente, Atena.

– Eu entendo.

Atena não sabia exatamente o que dizer. Nem todos os milênios de experiência com batalhas a preparava para situações como essa. Então pairou um silêncio leitoso e que escorria como geléia, devagar e brilhante. Por mais que a deusa quisesse ficar mais e confortar o canceriano, não seria muito útil. Ele precisava de tempo e de ficar sozinho agora, para por a cabeça em ordem. Ela se despediu do outro, o abençoando, no que foi respondida por um inclinar de cabeça mudo.

Assim que Atena saiu, Aiolia se despediu de Shaka e entrou de volta no quarto. Máscara estava pensativo, olhando para o teto.

– Como foi?

– Sei lá – ele disse, levantando um dos braços e passando nervosamente pelo cabelo – Eu não sei de nada mais, Aiolia. De nada.