Precipício
14 Catorze
Notas iniciais
Não preciso de uma fala perfeita
Não importa se as críticas furam a fila
Máscara da Morte suspirou, resignado. Tinha decidido ser uma pessoa melhor, diferente, mas era tão difícil. Era difícil olhar para Aiolia e lembrar de Afrodite e fazer diferente, por que não sabia como era "agir certo". "Agir errado" foi o que fizera a vida toda, Máscara simplesmente não sabia o caminho para "ser diferente".
E também era difícil não ser auto destrutivo, como fora a vida toda e como continuava sendo, agora mais que nunca.
— O quê te aflige? — Shaka arqueou a sobrancelha, curioso.
— Não é difícil deduzir, Shaka — respondeu ríspido, saindo da posição forçada de flor-de-lótus com a ajuda das mãos, fazendo em seguida a transição para a cadeira de rodas.
— Sinceramente, imagino o quê seja, mas não compreendo. Também não quero me intrometer mais do que já estou sendo intrometido ou sair deduzindo coisas que não me dizem respeito — Se levantando e alongando de leve as pernas, Shaka disse enquanto abria os olhos devagar, se agachando e olhando para o outro — Não precisa conversar comigo se não quiser.
Máscara riu de lado. Agir assim não era típico de Shaka, mas ultimamente nada que o virginiano fazia o era. — Você já está intrometido nisso até o pescoço, Shaka. Você gosta do Aiolia, não é?
Shaka riu com escárnio, passando a mão direita pelo cabelo, meio corado. — Você está louco — ao se esquivar de uma resposta verdadeira, para Máscara, Shaka apenas confirmou o que desconfiava, ainda que Shaka não soubesse qual seria a resposta sincera — Não vejo como eu estaria introduzido em sua vida de maneira tão profunda. Se não quer responder, é só ignorar.
— Não é isso — começou respondendo. Era óbvio que Shaka estava agindo diferente consigo e a reação dele indicava que sim, gostava de Aiolia, mas negava. De certa forma, era difícil encarar Shaka sabendo disso. Ainda mais com as atitudes estranhamente amigáveis do outro. Equilibrar o ciúme que tinha de Aiolia com Shaka e toda a aura estranha que sentia vindo do virginiano, essas atitudes incomuns e sem explicação. Máscara não sabia direito como agir — E só estou cansado, só isso.
Cansado, certo. Não era uma mentira completa. Ettore estava de fato cansado. De ser quem é, de tentar ser diferente, de falhar, de não saber como ser um bom namorado, uma boa pessoa. Da vida.
Shaka sabia disso, talvez não em toda essa extensão. Sabia o suficiente, de que Máscara da Morte precisava de ajuda, de que Aiolia precisava de ajuda e de que ele mesmo precisava de alguém.
E passara os últimos tempos apagando da sua mente esse nome, como com uma borracha que apenas esmaecia, mas não apagava totalmente as marcas do que foi escrito.
Ambos permaneceram calados enquanto caminhavam até a saída de Câncer a Leão, onde se despediram com um aceno de cabeça simples, no que Shaka voltou para casa sério e Máscara rodou até chegar à cozinha.
Não muito depois de Máscara da Morte começar a rodar em círculos, ansioso, apertando o braço da cadeira e as rodas, Aiolia voltou. Havia criado o hábito de sempre passar em Câncer para ver o namorado antes de ir à Leão. Hoje, particularmente, queria ficar só. Apenas por que Máscara estava melhorando e o queria ver bem que parara desta vez, mas faria o possível para sair logo.
Ou era isso que queria, até ver um Máscara da Morte bastante inquieto na cozinha.
— Aconteceu alguma coisa, Ettore? – disse Aiolia, se sentando em uma cadeira – Você parece nervoso.
— Não é nada – volveu o outro, parando a cadeira de rodas ao lado do namorado, apoiando os cotovelos na mesa e estalando os dedos – Eu só... Não sei qual é a do Shaka.
— Ah. – Aiolia não delongou o assunto. Primeiro por sentir ciúmes do namorado com o virginiano, que andava de fato estranho e solícito demais. Segundo, por querer passar um tempo decente a sós com Máscara. Depois de dias o canceriano finalmente parecia fora daquele poço sem fim e ambos precisavam respirar. Suspirando e dado um beijo de leve em Máscara da Morte, que sorriu e aprofundou o contato, Aiolia continuou – O que acha de passarmos em Leão para ver alguma coisa?
Máscara da Morte suspirou. Gostaria de fazer companhia ao namorado em Leão, mas se sentia mal cada vez que precisava de ajuda. Odiava aquelas escadas, odiava as 12 Casas, odiava o Santuário, odiava todas essas pessoas que o faziam se sentir mal. Queria ficar trancado dentro de casa, dentro do quarto, olhando pro nada e deixando seu corpo apodrecer e o tempo passar. Mas tinha que ser forte, que esconder esses impulsos autodestrutivos ao menos quando estava perto de Aiolia. Fingir estar melhor, que não se importa. – Vamos.
Aiolia sorriu, fingindo que não percebia que o namorado estava incomodado. Pegou Máscara da Morte no colo e subiu para Leão, carregando também a cadeira de rodas, em um malabarismo que havia se acostumado nos últimos tempos.
Antes que chegassem lá, porém, encontraram Afrodite descendo. O pisciano sorriu de lado ao vê-los, parando, no que Aiolia fez o mesmo, mas a uma certa distância do outro.
— Eu estava mesmo descendo para falar com vocês.
Máscara da Morte desviou o olhar, tentando não encarar o sueco. Sentia vergonha por estar no colo de Aiolia, por precisar estar no colo de Aiolia, que transmitia uma calma que não tinha. O leonino sentia sim ciúmes de Afrodite, mas sabia que isso era infundado e tentava ignorar o sentimento.
— Pode ser em lá em casa? É mais confortável que aqui nas escadarias.
— Claro.
Afrodite deu meia volta e seguiu com o casal para a Quinta Casa, ficando em pé na entrada principal e esperando assim que Máscara da Morte se ajeitou na cadeira de rodas. – Não vou entrar, não quero me delongar muito.
— Ah, claro – respondeu Aiolia. – O que é então?
— As casas estão liberadas para mudança nesse fim de semana – o sueco começou – Quer dizer, a de Câncer foi a primeira a ficar pronta, ela teve prioridade.
— E tem necessidade de ser justo você a vir avisar?
Máscara da Morte estava calado até então. Ter que levantar a cabeça para ver Afrodite e Aiolia conversando era muito incômodo e somado com todos os problemas que já tinha, o fazia se sentir um lixo. No entanto, se sentiu aliviado por poder se livrar das escadarias intermináveis. Suspirou fundo antes de falar – Grazie per l'avvertimento¹, Afrodite.
Afrodite fechou o semblante ao ouvir a voz carregada de sotaque de Máscara da Morte. Ainda nutria sentimentos por ele, por mais que detestasse admitir, e o conhecia melhor que ninguém. Não sabia se Aiolia havia percebido, mas Máscara da Morte estava bastante afetado com sua presença aqui (a de Afrodite), mas provavelmente também estava incomodado com alguma outra coisa. O canceriano só disparava a falar italiano, palavras soltas ou frases completas, e carregava o sotaque que normalmente quase inexistia quando estava muito nervoso. E isso nunca era bom. – Athena pediu para que eu falasse, na desculpa que minha casa era a mais próxima do Décimo Terceiro Templo e pediu para que eu fizesse um favor. Na real, tenho certeza que ela está tentando aplacar tudo o que aconteceu. – o sueco suspirou e continuou – Mas não sei se tem algo a ser feito.
Afrodite não esperou que os outros dois respondessem e saiu como, aos olhos de Máscara, costumava fazer quando estava triste ou muito nervoso, apenas dava as costas e saía. Máscara da Morte sabia que era a primeira opção, os olhos brilhantes e a mania interminável de falar mais do que devia e morder o lábio inferior não mentiam. Se perguntava se um dia conseguiria ler Aiolia assim com tanta facilidade e percebeu que talvez já o fizesse, afinal conhecia Aiolia há tanto tempo quanto conhecia Afrodite, só não dava a atenção que o namorado merecia.
Talvez o início de sua vida como uma pessoa decente era fazer as pazes com Afrodite e ser sincero com Aiolia, por mais que isso fosse magoar os dois. Não era certo não ter conversado decentemente com o pisciano sobre o término, mesmo que ele tenha descarregado suas frustrações hora ou outra e muito menos forçar Aiolia em um relacionamento torto e tomado por sentimentos negativos e suicidas.
— Ele te deixa nervoso, não é? – Aiolia começou dizendo, com uma calma que não tinha, se sentando em frente a cadeira de rodas e olhando diretamente para o namorado – Ainda gosta dele?
— Io non diria que gosto – respondeu Máscara da Morte, respirando fundo e se tentando se acalmar — E 'solo...² Non quero ver Afrodite triste. E eu sei que ele está triste per colpa mia.³
— Aos poucos você resolve isso, Ettore. – Aiolia disse enquanto abraçava os joelhos e olhava para cima, sorrindo – Aos poucos sua vida vai voltar ao normal e você vai ver que está tudo bem. É só abrir os olhos e ver.
O que Aiolia não sabia, mas que Máscara da Morte sentia e não conseguia explicar, é que, às vezes, por mais que a gente tenha uma imagem perfeita do futuro – como queremos que seja, o que queremos fazer, sonhos, desejos, aspirações, mesmo estando perto, na nossa frente, é difícil dar o primeiro passo. É como se o caminho todo fosse um vão sem cor e sem vida, que vai se repetindo conforme os passos que damos, se prolongando e deixando aquela imagem perfeita cada vez mais longe.
Toda vez que Máscara pensava em como queria que as coisas fossem, uma imagem um pouco borrada e disforme, ele se perdia naquele vão negro. Não conseguia dar o próximo passo, não conseguia ver o caminho e a imagem perdia a pouca nitidez que tinha.
Aiolia se levantou ao ver as primeiras lágrimas verterem dos olhos do namorado e o abraçou. E, apoiado no ombro de Aiolia, Máscara da Morte chorou todas as lágrimas que tinha que chorar.
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