Precious
1 Quatro bons-em-nada
Notas iniciais
― Permita que carreguemos esse fardo por você, Gintoki.
O sangue escorria por suas costas e ombros, nos quais suportavam o peso do homem ferido. Kagura e Shinpachi, assim como todos os outros, observavam os dois discípulos de Shoyou restantes lutarem, ajudando o de cabelos prateados a manter-se de pé, após a sangrenta luta contra Utsuro, onde não fora suficiente para matá-lo.
Não por falta de força ou de algum método eficiente para isso – Umibozu, como havia prometido, encontrara a forma de tirar a imortalidade daquele homem. Não conseguira fazê-lo simplesmente por não ser capaz. Vacilara no exato momento em que encarara aqueles olhos caramelados sorrindo para ele.
“Como eu já disse, sua espada não é capaz de me alcançar, Sakata Gintoki.”
Doía admitir aquilo, e como doía, mas ele sabia que o homem à sua frente estava certo. Por mais que Shoyou tivesse lhe dito que apenas uma espada humana seria capaz de derrotá-lo, aquilo não parecia ser verdade.
Eram seus sentimentos humanos que lhe impediam de tirar a vida infinita daquele homem.
E, dessa forma, enquanto o discípulo ainda permanecia paralisado por ver suas convicções estarem indo todas por água abaixo – mais uma vez –, o mestre se preparava para contra-atacar.
Antes de sentir o contra-ataque que o imortal preparava para ele, entretanto, os combatentes foram surpreendidos pela espada de Takasugi entre eles, protegendo o samurai ferido, que então fora carregado até os dois jovens do Yorozuya por Katsura. A partir dali, tudo o que Gintoki podia fazer, junto de seus outros companheiros, era assistir o combate travado entre os dois discípulos e seu mestre.
Takasugi e Katsura continuavam a lutar bravamente contra Utsuro, cumprindo o que haviam prometido ao companheiro de guerra. Não importava se precisassem chegar ao limite ou até mesmo à morte, apenas não permitiriam que Gintoki carregasse aquele fardo em suas costas novamente.
― Por quê...? – a voz grave de Otose ecoou ali perto. ― Por que mesmo podendo se sentir feliz por seus amigos estarem lutando por você, não é alegria o que vejo em seus olhos...? – questionou, encarando o mais novo, que ainda se apoiava nos ombros do jovem samurai e da yato. ― Por que mesmo que esses olhos não estejam derramando uma única lágrima, estão chorando... Gintoki...?
― Por que mesmo querendo proteger tudo, não fui capaz de proteger nada... Baa-san? – respondeu com outra pergunta.
Um sorriso compreensivo surgiu nos lábios da senhora, que então ascendeu seu cigarro.
― Imagino como deve ser difícil.— pensou consigo mesma, soltando a fumaça. ― Assistir aqueles que você protegeu, por serem o que aquele homem tinha de mais precioso, destruindo aquilo que você tinha de mais precioso.— passou a observar a luta novamente. ― Mesmo sabendo que é necessário para o futuro de todos aqui, é por isso que seus olhos, embora secos, choram tão profusamente... Não é... Gintoki?
Sua resposta, contudo, veio por meio do movimento inesperado ao lado, quando aquele com quem antes falava se movera rapidamente em direção à luta. Os presentes no local só compreenderam a ação do yorozuya quando esse já estava entre as espadas de Katsura e Takasugi e o coração de Utsuro, para onde elas apontavam embainhadas em altana extraterrestre.
O choque por tal gesto fora unânime, o que fez com que, no campo de batalha, os únicos sons ouvidos fossem o vento soprando forte contra os presentes e, em seguida, o do corpo de Gintoki caindo sobre os braços estáticos de Utsuro.
― Gin... toki. – escutara Takasugi o chamando, perturbado.
― Parece que minha espada realmente não pode te alcançar... – sussurrou com dificuldade, ainda nos braços do outro. ― E nem mesmo consigo permitir que as dos outros te alcancem... não é mesmo... sensei? – questionou ao homem, que naquele momento tinha seus olhos e parte de sua face escondidos sob os cabelos caídos à frente do rosto, enquanto suportava o peso do ferido em seus braços.
― O que está fazendo?! Gintoki?! – Katsura gritou atônito, retirando sua espada, que perfurara o ombro direito do maior; Takasugi fez o mesmo com a sua, que havia ferido a parte superior das costas do ex-joui. E só então ambos perceberam que as lâminas haviam sido impedidas de fazerem um corte mais profundo.
Pelas mãos daquele contra quem lutavam antes.
― Está enganado. – a voz tão conhecida surpreendeu aos dois. Não pelo fato de Utsuro ter falado, mas por perceberem que fazia anos que não a ouviam naquele tom. ― Eu não estava errado quando naquela época disse que somente uma espada humana poderia me alcançar. Sua espada... já me alcançou há muito tempo... – levantou seus olhos para encarar o rosto coberto de cabelos prateados, o que possibilitou aos outros dois enxergarem o que menos esperavam: lágrimas escorrendo de seus olhos gentis. ― Meu pequeno samurai.
― Sen...sei. – os dois discípulos chamaram, ainda não acreditando no que viam à frente de seus olhos.
A resposta, no entanto, não veio em seguida. Utsuro, ou devo dizer... Shoyou, ajoelhou-se, puxando Takasugi e Katsura pelos braços, fazendo com que assim os três companheiros de tantos anos deitassem a cabeça sobre seu colo, como um pai faz com seus filhos ao tentar fazê-los dormir.
Não... como um mestre faz com seus discípulos exaustos, após lutarem com sua alma.
― Obrigada... – agradeceu, sorrindo docemente. ― Por terem ido longe o bastante para conseguirem me alcançar. Não têm mais que se preocupar com o que vem pela frente. Não agora. – completou. ― Ouviu, Gintoki? Não seja teimoso ou terei realmente que te punir com um ou dois cascudos. – frisou para o discípulo mais antigo entre os três, fazendo-o sorrir levemente, de olhos fechados. ― Apenas permita que agora eu proteja o que é precioso para você. – terminou, levando seu olhar aos que assistiam a cena com sorrisos nos rostos, mesmo que ainda não entendessem o que exatamente acontecia.
― Sim... – murmurou em resposta, colocando o antebraço direito sobre seus olhos.
― Oe... não me diga que estão chorando. – Shinsuke chamou os outros dois, após ouvir Katsura fungar ao seu lado. Sua mão esquerda também tampando suas orbes.
― Não seja idiota, Takasugi. Deve ter apenas começado a chover... – explicou Zura, encarando o céu azul e ensolarado acima deles.
― Entendi... então são apenas gotas de chuva. – confirmou em seu tom grave, sem conseguir, entretanto, esconder a voz embargada.
― Não sejam estúpidos... – a voz do yorozuya ecoou, com seu dono ainda na mesma posição de antes. ― O dia está ensolarado. Isso é apenas suor porque da luta debaixo do Sol.
Assim que terminou sua constatação, a risada nostálgica tomou o ambiente.
― Não. Estão todos errados... – sorriu, abaixando sua cabeça, fazendo com que sua testa se encostasse à testa dos três, permitindo, assim, que as lágrimas caíssem sobre eles. ― São apenas lágrimas de quatro bons-em-nada.
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