Prazeres Sombrios - Indômita
5 Capítulo IV - Animosidade
Notas iniciais
Pelo visto, vocês vão me ver bastante por aqui... kkkkkkkkk
Vamos ao que interessa, boa leitura o/
Leonor tomou o desjejum sem sequer saber o que comia, muito menos sentindo o sabor de seu alimento. Tess lhe informara que Elizabeth estava com a rainha Matilde, esposa do rei Henrique I e irmã do rei Edgar, enquanto seu tio se reunia com todos os homens no pátio para o treinamento matinal. Inclusive os escoceses estavam brincando de soldadinho naquela manhã.
Leonor gostava de pensar na história daqueles reis. Séculos e séculos de animosidade entre a Inglaterra e a Escócia... Henrique I não era um soldado, não fora educado para a guerra. Era um homem culto e gentil, mas bastante ardiloso, que substituíra seu irmão quando este morreu, ascendendo ao trono inglês com a promessa da paz em seus olhos. E Matilde... Matilde era uma boa rainha, formosa como Leonor jamais vira, de porte pequeno e delicado. Nunca teria imaginado que mulher mais adorável pudesse ter aquele sangue bárbaro fazendo pulsar seu adorado coração.
Edgar, seu irmão, tirara Donald III do trono e dizia o mundo que arrancara os olhos deste impiedosamente para que não houvesse uma revolta por parte dele. Como quarto filho de Malcolm III Canmore com Santa Margarida – sua bondade era conhecida por toda parte – a crueldade corria solta e sua essência. Mas Edgar era um homem justo. Já abatido pela idade, mas um homem que visava a paz acima de tudo, deixando a guerra como último recurso. O que mais surpreendia Leonor era que, mesmo sendo uma pessoa agradável e carismática a seu ver, Edgar nunca casara. Permanecia sendo o único rei do qual ela ouvira falar que jamais reivindicou uma mulher como sua.
Sua tola mente de menina se perguntava se ele não teria se apaixonado por uma moça na juventude e que, de algum modo, seu amor não foi aceito por Deus e isso o fez recusar uma prometida. Certamente foi um belo e viril homem na tenra idade. Talvez ela tivesse morrido. Ou, na mais cruel das hipóteses, recusado seu amor. Então ele decidiu que as mulheres eram víboras e que... Oh! Mas ela poderia ter sido forçada a casar com outro. Como alguém de suma importância como ele, não poderia propor uma fuga com sua amada.
E se propôs, algo deu errado e eles jamais se encontraram. Então ele passou a pensar que ela o traíra e desistiu de amar outra mulher. Ou, ela morreu quando ia encontra-lo. Sim, era plausível. O pai dela poderia ter descoberto os planos do casal e era bastante natural a morte antes da desonra. Ou, o noivo dela acabou com tudo. Matou-a, Edgar o matou e...
Certo, sua mente bulia milhares de tópicos para o motivo intrigante do Rei Edgar não ter casado. Não queria ter herdeiros? Ou, preferia outros homens? Muitos reis tinham amantes homoafetivos, não era uma surpresa. O próprio William Rufus tinha um affaire pelo mesmo sexo.
Não. Edgar não era assim, não parecia próprio de sua conduta.
Leonor ficou ruminando seus pensamentos mesmo depois de Tess recolher os pratos após seu desjejum. Já lhe informara que sua arca com o principal estava pronta e que o resto seria enviado em breve para as terras bárbaras daquele... senhor unido a ela até que a morte os separasse.
Malcolm III Canmore deveria estar se retorcendo no inferno ao ver sua ilha casada com um inglês. Isso fez Leonor sorrir, mas logo a momentânea e infantil diversão findou com o pensamento obscuro de que seus pais também estariam se retorcendo em suas tumbas ao ver com quem ela casara. A própria Leonor estava se retorcendo de raiva com essa realidade.
E não se recordava das bodas.
Como aquele... senhor poderia tê-la usado enquanto dormia?
Soprando fumaça destrutiva pelo nariz, ergueu-se do estrado e se dirigiu para as portas enormes e pesadas que levavam ao átrio exterior, saindo para um glorioso e ensolarado dia. O pátio estava animado, os reis observando com fria diversão, a rainha e tia Elizabeth conversando com Mary, lançando discretas olhadas aos soldados que praticavam suas habilidades no centro do círculo de homens suados e armados. Criados trabalhavam apressadamente, correndo de um lado a outro para dentro e ora do castelo, levando hidromel ou vinho para todos os que nada faziam, como se ainda comemorassem as bodas. Leonor ergueu as saias e desceu as escadas para perto das mulheres, reverenciando a rainha e desejando um polido bom dia.
Seu humor estava instável. Não conseguia tirar da cabeça o que o selvagem fizera consigo. Seu atestado de vergonha estava ali, pendurado para quem quisesse ver que finalmente um McGregor montou grosseiramente uma Knightley.
-- Nunca pensei que fosse bonito ver a luta amistosa entre os homens – comentou tia Elizabeth. Rainha Matilde sorriu com uma doçura que Leonor acreditou ser a que deixava seu marido, o rei, de quatro por ela.
-- Sim – aquiesceu a rainha, olhando agora para Leonor – Seu marido é um homem muito hábil, Lady McGregor. – aquele nome fez um arrepio sinistro lamber sua coluna, criando uma nuvem de vergonha desonrosa sobre sua cabeça que nunca a deixaria em paz – Desejo felicidade ao casal e espero que sua fertilidade os abençoe.
Leonor repuxou forçadamente os lábios em um polido sorriso.
Minha fertilidade morreu assim que noivei.
-- Agradeço sua gentileza, Vossa Graça, pois esse é maior desejo.
Nunca.
Leonor se voltou para os dois homens que treinavam entre o círculo de soldados e a surpresa a abateu como uma bofetada. Talvez muito mais. Empunhando uma espada, Will enfrentava com um sorriso maroto o enorme escocês que era seu marido. McGregor também sorria em mútua concordância, como se aquilo o divertisse tanto quanto duas crianças brincando sem os pais por perto. Não tinham a voracidade da guerra estampada em suas duras feições, mas uma aura de camaradagem os envolvia. Moviam-se veloz e precisamente, sempre olhando nos olhos do oponente, calculando brechas e avaliando seus estilos de combate. Will era mais baixo, mas isso não o fazia menos habilidoso. No entanto, McGregor tinha a elegância fatal de um felino, a força de uma muralha e a experiência de um demônio. Esquivava-se dos ataques de Will e o atacava em suas brechas. Will defendia bem, mas não conseguia acompanhar o bruto. Leonor não deixou de notar que o McGregor lutava com a esquerda.
Ninguém luta com a esquerda.
Ambos estavam dando muito pouco de si. Podia ver que se continham. Aquilo era apenas uma brincadeira, um espetáculo para um público ansioso, nada que significasse algo. Will disse algo e McGregor respondeu com um sorriso, murmurando qualquer coisa que a Leonor importou uma uva. Então, os olhos de seu prometido deslizaram para ela. Leonor se enrijeceu ao sustentar a seriedade daquele olhar. Qualquer traço de diversão desapareceu de suas feições assim que a viu e ela sentiu o coração gelar. Era como se desejasse mata-la pelo simples fato de existir.
Bom, era recíproco.
Leonor nem se dignou a sorrir. Alguns homens se voltaram para olha-la e ofegaram, alternando o olhar entre eles. McGregor tinha os olhos obscurecidos por algum sentimento que a ela não interessou – ou, simplesmente foi a carência deles, que assim fosse. De todo modo, vê-la observando-o não foi notavelmente de seu agrado. Seu tio murmurou algo para Iain, que assentiu com a cabeça.
O momento em que ela e o McGregor se olharam nos olhos pareceu durar uma eternidade silenciosa, no entanto, não passaram de alguns poucos segundos. Quando ele voltou a encarar Will, já era muito tarde. Seu primo, alheio à distração daquele troll, avançou com a espada em mãos e arremeteu um golpe que arrancou um sorriso orgulhoso de Leonor. Houve aplausos e murmúrios alegres quando a folha de Will cortou a lateral do rosto do McGregor. O escocês desviara no último instante, recebendo apenas um corte horizontal na bochecha.
Leonor não viu mais nada, pois o círculo de homens se fechou em torno deles, isolando-as do final da batalha. Ela suspirou aliviada. Will estava bem e o selvagem recebera um pequeno dano como castigo por ter nascido.
-- Algo me diz que está pensando crueldades, prima – sussurrou Mary em seu ouvido. Leonor sorriu ao ver o brilho animado e ansioso nos olhos de sua prima. Não era comum um pai deixar uma filha solteira viajar para longe sem sua companhia, mesmo em uma boa causa, mas Mary sabia ser bastante persuasiva. Ela queria viajar e conhecer outros lugares, assim como Leonor. O problema era apena a circunstância da realização daquele sonho.
-- Não estou pensando crueldades – sussurrou Leonor de volta – Não é fácil estar casada com o inimigo, Mary. Sinto estar traindo toda a minha família.
-- Seus ancestrais não vão voltar ao mundo para te recriminar, Leonor.
Leonor encolheu os ombros.
-- Não parece certo estar com ele.
Mary olhou para o grupo de homens suados e animados com complacência.
-- Ele não é mais seu inimigo, agora estão em paz. Não foi para isso que seu pai lutou a vida toda e não era o que você desejava?
Não podiam discutir aquele assunto em público. Leonor não costumava expor seus pensamentos a ninguém, era de sua natureza ser introspectiva, mas Mary rompera suas barreiras e conquistara sua confiança, tornando-se merecedora de certas confidencialidades. Esperaria o momento oportuno para abordarem o terrível assunto de suas bodas. Mary pareceu compreender seu silêncio e apenas anuiu com a cabeça.
A atenção delas logo foi direcionada aos dois homens que estiveram lutando há pouco, que agora se encaminhavam para elas com Iain e o outro escocês a tiracolo como uma sombra. Will ria abertamente e McGregor se limitava a abrir um meio-sorriso enquanto respondia às brincadeiras de seu primo. Quem ela acreditava ser Fergus se adiantou, dirigindo-se a elas muito antes que os outros pensassem em chegar às escadas. Reverenciou a rainha, cumprimentou tia Elizabeth com o mesmo decoro inglês e se voltou para as moças com uma expressão zombadora e marota.
Mary e Leonor intercambiaram um olhar de desconfiança.
-- Miladys – disse ele amavelmente. Elas sorriram por educação. – Minha senhora Leonor, peço encarecidamente que se encarregue de meu senhor. Sua ferida necessitará pontos e todas as criadas parecem temê-lo.
Fergus fez uma careta fingida e ambas as moças riram. O som pareceu atrair os olhares de Iain e McGregor como se temessem o que o companheiro pudesse estar dizendo a elas.
-- E por que seu senhor não pediu com a voz que Deus deu a ele? – brincou Leonor. O sorriso de Fergus se tornou radiante e cúmplice.
-- Creio que ele é tímido. – elas riram mais, completamente aduladas pelo bom humor dele – Não possui o meu charme, entende o que digo?
-- Oh, sim, de fato! – riu Mary – Viu, prima? Seu marido é tímido.
-- Como uma ovelha – zombou Fergus.
Uma constrangedora imagem de McGregor coberto pela branca lã das ovelhas a fez rir com eles. Não conseguia imagina-lo tímido como uma ovelha, parecia absurdo e improvável. Ele, um guerreiro feroz, uma criatura sombria da Escócia, completamente transformado em algo fofinho e felpudo.
Só em pensar nele, viu sua aproximação por sobre o ombro de Fergus. Alto e imperioso, mortal e gracioso, com felinos e predatórios movimentos de gelar o sangue do mais tenebroso guerreiro. Iain e Will o seguiam. A ferida em sua bochecha sangrava bastante, mas não parecia necessitar de pontos. Infelizmente, ele não morreria por aquilo. A naturalidade com a qual se movia atraía os olhares temerosos das moças para ele e espantava aos homens imediatamente.
-- Faria isso por mim, minha senhora? Não queria ter de aguentar os resmungos dele.
Ela olhou para Fergus com renovada simpatia.
-- Vou salvar sua pele, mas vai ficar me devendo uma.
Fergus tomou sua mão entre as dele e a beijou.
Ele parecia estar a ponto de dizer algo, quando McGregor se uniu a eles com uma carranca impossível de se ignorar. Toda a diversão do treino se esvaíra de seus traços austeros, dando a seu rosto uma rígida máscara de impassibilidade e antipatia. Olhou para Fergus, escrutinando-o e repreendendo-o com o olhar, antes de encara-la tão mordazmente que todo o interior de Leonor tremeu. Não seria uma surpresa se ele a decepasse ali mesmo. Ela ergueu o queixo, olhando naquelas profundidades densas e escuras. Um homem normal não podia ter olhos tão negros, parecia surreal. Tenebroso. Desafiaram-se com o olhar, sem pronunciar uma única palavra. Leonor sentiu o peso da atenção sobre suas costas, o desconforto de ter tantos olhares voltados para ela e seu marido. Fergus e Mary se afastaram um pouco, quase se unindo a Iain e Will, que não avançaram mais.
Leonor sequer piscou. Ele era grande. Era forte. Sabia lutar. Era ameaçador. E bruto. Mas ela era Leonor e isso por si só já era motivo para ser temida. Leonor tinha uma teimosia lendária por toda Ulster. Sua força de vontade superava a força física daquele cavalo.
Os olhares fixos e inseparáveis pareceram deixar óbvia a declaração de um confronto que duraria, provavelmente, eternamente. Ela não via nada além daqueles orbes intensas e negras, concentrada em mostrar sua força. O momento perdurou por tempo indeterminado, até que McGregor a surpreendeu ao reverencia-la polidamente e beijar sua mão como antes Fergus fizera. Diferente do primo, McGregor pressionou os lábios demoradamente sobre sua pele sem romper por um único segundo o contato visual, o que fez um infundado rubor colorir suas bochechas.
Ele estava dando seu primeiro ataque. Queria mostrar a todos que eram um bom casal e que ele era um marido maravilhoso. Uma perfurante onda de sarcasmo acidou a língua dela, mas ela se conteve e engoliu todos os sentimentos que pudessem defrauda-la. Dois poderiam jogar muito bem aquele jogo.
Quando McGregor se ergueu, Leonor manteve seu porte régio e inabalável, permitindo que ele ainda segurasse sua mão, por mais que repudiasse seu contato de inimigo.
-- Bom dia, esposa minha – ele disse educadamente. Ela quase riu quando Fergus arregalou os olhos e ficou boquiaberto.
-- Bom dia, marido meu – respondeu amavelmente – Lutastes muito bem.
Ele arqueou uma sobrancelha antes das comissuras de seus lábios se repuxarem em um ardiloso e irônico sorriso.
-- Agradeço.
Leonor pestanejou com inocência e até Mary ficou chocada. Will parecia tão perplexo quanto incrédulo.
-- Marido meu, poderia me acompanhar ao meu aposento para que cuide de sua ferida?
-- Não será necessário. Logo partiremos.
-- Já? Que pena. – ela segurou sua grande e calejada mão com uma firmeza impossível de pertencer a uma mulher e o puxou para as escadas – Venha, marido, dê-me o prazer de zelar por ti.
Ele a acompanhou pelas escadas, e até o momento no qual abriu a porta para que ela passasse primeiro, todo o pátio caíra em um sepulcral silêncio de puro choque. Ainda mantendo a pose de casal harmonioso, seguiram de mãos dadas até o terceiro andar, onde Leonor o guiou até o quarto.
Por algum motivo, a sensação daquela palma áspera e dura contra a sua, daqueles dedos longos e nem de longe delicados entrelaçados aos seus, era simplesmente desconfortável. Leonor se sentia inquieta e incômoda. Já segurara a mão de um homem, mas eles eram de sua família, então não contava. E a sensação de ter a sua completamente envolta por aquela...
Balançou a cabeça, expelindo ideias tolas de sua mente. Bastava ver o maldito lençol para sua raiva arder com força em seu peito. Parecia que ele tinha degolado um porco sobre o fino tecido. Talvez um javali se encaixasse mais adequadamente, uma vez que foi um banho de sangue. Era admirável que ela não estivesse sem o movimento das pernas depois da noite passada, a relação aparentava ter sido violenta.
Fechou a porta atrás de si e largou a mão dele, dirigindo-se a um pequeno baú que deixava sobre a redonda mesinha perto da janela. Sabia que o olhar do escocês estava fixo nela, mas tratou de ignora-lo. Abriu o baú e procurou o que necessitaria. Sua tia Elizabeth a ensinara muito bem como cuidar de feridas e remediar doenças, assim como também o sabia Mary, fazendo-as repetir durante horas os nomes e as funções das ervas que conheciam, além de leva-las ao jardim nos fundos do castelo para apontarem qual erva era. Eram experientes em tratar de soldados e quaisquer que fossem os necessitados de seu amparo. Pegou um pequeno pedaço de linho de um dos seus bordados abandonados – sempre os embolava naquele baú com seus equipamentos e ervas – e o molhou na terrina com água que usara hoje mais cedo para lavar o rosto.
-- Sente-se – ordenou.
-- Não me dá ordens, moça.
Leonor soprou com impaciência e o olhou por sobre o ombro. Lá vamos nós de novo.
-- Sente-se – repetiu com menos suavidade, importando-lhe uma pulga se ele gostava ou não de seu tom de voz. Como não se moveu, ela franziu as sobrancelhas – Não vou cuidar de você em pé.
Inabalável. Inescrutável.
-- Não há necessidade de fingir aqui dentro, inglesa.
-- Não estou fingindo, McGregor. Acontece que subimos para eu tratar dessa maldita ferida, o que pensarão que estávamos fazendo...?
-- Há muitas coisas que marido e mulher podem fazer em um quarto.
-- Do que está...? – ela se interrompeu, arregalando os olhos, completamente perplexa. Seu rosto esquentou, enrubescendo, e se ficasse ainda mais acalorado, poderia explodir. Desviou o olhar, sem saber como responder à provocação. Crescera entre homens, não era uma surpresa as vulgaridades e as liberdades das línguas libertinas, mas da boca dele parecia algo definitivamente pecaminoso e errado, quase vergonhoso, a ponto de deixa-la sem fala e tímida. Para obter o controle de si mesma outra vez, recordou-se do lençol manchado pela matança de sua virgindade e a raiva a acalmou do acanhamento. Ergueu o queixo de forma petulante e jogou o linho molhado sobre ele, que instintivamente o apanhou no ar, recebendo os respingos da água – Use esse pano para esfriar sua libido, McGregor – grunhiu.
-- Você é uma McGregor agora.
-- Nem sonhe. Meu coração e minha essência sempre serão Knightley e morrerei antes de vestir suas cores.
Ele franziu as sobrancelhas.
-- Cuidado com o que diz, moça, pode se realizar.
Ela se aproximou dele, esticando a coluna e empinando o queixo ao máximo, sem sequer piscar ante seu ameaçador olhar. Colocou as mãos no quadril, confrontando sua ferocidade bestial com seu orgulho inglês indestrutível. Estreitaram os olhos e não seria surpreendente se rosnassem um para o outro.
-- Está me ameaçando?
-- Interprete como bem lhe convém – rebateu ele asperamente, abaixando a cabeça para a dela como uma serpente se aproximando de sua presa, arrepiando-a até as entranhas da alma – Ou, não é capaz de pensar sem sua donzela?
-- Acredito que não sou eu quem é incapaz de raciocinar sem a presença de seu séquito – rebateu Leonor, tocando a ponta de seu nariz com a do dele. Suas respirações se mesclavam em um torvelinho de gélida e contida fúria. Ela estava tão rígida e esticada que sua coluna poderia se romper facilmente pelo esforço hercúleo que empregava para não ficar tão diminuta perto dele. McGregor fez uma careta de desgosto e segurou seu queixo entre os dedos com força, por pouco não a machucando. – O que foi? – ela provocou – Não tem palavras e usa sua força para me suprimir?
Ele se apartou dela bruscamente, andando pelo quarto como um leão enjaulado, irrequieto e de natureza destrutiva. De repente, o aposento pareceu muito pequeno ao tê-lo ali dentro. Leonor observou como ele se movimentava com impaciência, grunhindo imprecações que fariam um padre lhe fechar as portas da Igreja na cara. Ela suspirou com alívio ao ser liberada de seu aperto, tocando a região já sensível pelo mesmo gesto da noite passada, já imaginando o quão roxo ficaria depois de umas horas. Pegou um vidrinho delicado dentro do baú que continha uma pasta cremosa de coloração levemente esverdeada. Estava mais que disposta a passar cataplasma em sua ferida, não permitiria que sua família pensasse que estava fornicando com aquele cavalo em plena luz do dia.
Passou um pouco da substância nos dedos antes de guardar o recipiente no baú e começar a formular uma estratégia para vencer sua primeira batalha contra seu marido. Ele permanecia agitado e enfurecido, vez ou outra olhando para ela com desprezo tangível, cuspindo injúrias.
Ela poderia quebrar uma cadeira na cabeça dele, mas como explicaria à tia Elizabeth o misterioso desaparecimento da mobilha?
-- Maldita seja – resmungou McGregor outra vez, fazendo-a revirar os olhos – Por que, em nome de Deus, não podia ser submissa e obediente?
Era uma pergunta retórica, mas Leonor fez pouco caso.
-- Porque sou uma Knightley e faz parte de meu sangue jamais dobrar-se à vontade de outros, principalmente a um McGregor. Agora, poupe-nos de mais estresse e pregue seu infeliz traseiro gordo na cama.
Ele parou de andar e franziu tanto as sobrancelhas que, se não fosse por ser um McGregor, ela teria rido de sua expressão ultrajada. Ela não sabia se seu desagrado era dirigido à ordem ou ao traseiro gordo. Talvez os dois. De todo modo, ele não estava nenhum pouco adulado.
-- Não me provoque, inglesa.
Seu tom de voz era cortante e perigoso. Como estava se tornando habitual em tão pouco tempo, a ela lhe importou uma pulga o que gostava ele ou não.
-- O quê? – Leonor arqueou uma sobrancelha provocantemente – Está com medo de um cataplasma? Asseguro-lhe que ele não faz nada além de impedir que sua ferida infeccione.
Aqueles olhos negros brilharam, mas eram tão insondáveis que ela não foi capaz de definir o que ele pensava.
-- E eu lhe asseguro que não temo nada, inglesa.
-- Então, acha que eu posso envenenar sua ferida? – prosseguiu, sem conseguir dissimular o sorriso implicante que teimava em dar seu oi – Eu sou mais criativa em assassinatos, sabia?
Ele arqueou uma sobrancelha, aproximando-se inconscientemente.
-- É mesmo? Como o quê, drogar-me e me jogar em um fosso cheio de crocodilos?
-- Claro que não. Posso quebrar uma de minhas inglesas unhas com o trabalho – zombou ela, revirando os olhos. – Se quiser passar você mesmo, fique à vontade.
Entreabrindo os olhos em uma silenciosa ameaça de morte, ele passou o pano molhado no rosto, limpando o sangue e revelando a ferida. Assim como supusera, não necessitaria pontos como dissera Fergus, carecia apenas de alguns poucos cuidados para não infeccionar e deixaria uma cicatriz. Ele fora muito habilidoso ao esquivar do golpe de Will. Ele esticou a mão bruscamente, entregando-lhe o pano com desprezo. Quando ela pegou o tecido manchado, ele lhe tomou a outra mão, roçando os dedos nos dela para pegar o cataplasma. Eram dedos ásperos e calejados em mãos com cicatrizes de batalha, nada parecidos com o que ela estava acostumada a ver. A proximidade também lhe revelou que McGregor não cheirava a rosas e especiarias como a maioria dos homens, a não ser madeira de sândalo e couro. Um aroma extremamente masculino que gritava acasalamento. Era um varonil bruto, um selvagem que brincava de arremessar troncos com seus semelhantes.
E um McGregor.
Leonor lavou a mão na terrina enquanto ele cuidava de si mesmo, ignorando sua marcante presença com todas as forças de suas células. Marido ou não, ainda era seu inimigo. Um inimigo que não merecia sequer seu pensamento de tentar conciliar a paz em prol dos anos longos de guerra.
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Eles partiram depois do almoço. Edgar observava ao lado de Henrique e o duque de Ulster como os recém-casados cavalgavam pela estrada, acompanhados por Lady Mary, Fergus McDougall e Iain, o Bastardo, além da donzela da condessa de Westminster. Um boi levava a arca da senhora, logo atrás deles. Henrique lançou um divertido olhar para Edgar, que pensava exatamente a mesma coisa que ele: que tinham acabado de assinar o atestado de morte daquele casal. Não haveria mais guerras entre os McGregor e os Knightley, mas Anna Leonor e Duncan não pareciam muito capazes de se acertar. Ao menos seria apenas uma briga entre eles. Os reis esperavam que se apaziguassem com o tempo, que talvez encontrassem o amor que Matilde e Henrique encontraram com sua união.
De todo modo, as batalhas entre os McGregor e os Knightley levaram embora muitas vidas e perdurou no passar dos anos, o ódio sendo passado hereditariamente, até que lutavam mais por instinto do que pelo motivo que culminou aquela animosidade. Edgar tomara a decisão certa ao obrigar seu melhor guerreiro e grande amigo a se casar com a moça inglesa. Finalmente tudo poderia acabar e ele poderia se concentrar em seus problemas de reinado.
Ele sabia que os escoceses o aceitavam por ser um bom rei, mas tinham receios por sua natureza pacifista. Seu povo deixara bastante claro o quanto desprezara a ideia de um rei que simpatizava com os ingleses. Ao contrário de seu pai, Malcolm III, Edgar não se sentia impelido a desperdiçar vidas e terras por um ódio que não era seu. Henrique era um bom homem, um inglês honrado e fazia feliz a sua amada Matilde, que muito se parecia com Santa Margarida, sua preciosa e falecida mãe. Edgar queria a paz entre a Inglaterra e a Escócia e ainda haveria um dia que ambos os reinos deixaram as guerras de lado.
Os McGregor, liderados por Lachlan, espalharam o terror durante o governo de Donald, invadindo as terras anglo-saxãs para saquear e matar por puro júbilo. Os Knightley, liderados por Hugh, devolveram na mesma moeda, violando e destruindo terras, queimando e jogando sal sobre os plantios para tornar infértil cada terreno que passavam. Confrontavam-se envolvendo a gente que deveriam proteger, semeando o caos por toda parte e estressando seus reis. Tudo começou durante a invasão de William, o Conquistador da Normandia, quando este destronou Harold Godwinson na Batalha de Hastings. Na época, Malcolm era rei e atiçava o ódio dos escoceses pelos ingleses. Naquele ano, os Knightley ainda eram chefiados por Henry, o Terrível e os McGregor, por Archibald, a Flecha do Rei.
Uma guerra tão antiga, que já deveria ter sido esquecida, mas foi criando raízes nos corações de cada descendente, ganhando força no passar das décadas. Edgar pensou que nunca acabaria e já estava pensando em enviar uma missiva à Inglaterra, quando recebeu a missiva de Henrique. Chegaram à conclusão de que não podiam mais tolerar tantas perdas: terras, pessoas, riquezas e paciência. Como os Knightley estavam praticamente acabados e ainda existia a possibilidade de um McGregor perseguir a condessa de Westminster para encerrar com sua linhagem tão pura, os reis decidiram unir dois polos tão opostos e inconciliáveis, pondo um ponto final naquela chacina. Não havia motivos para permitirem que continuassem destruindo e semeando o ódio, ainda mais quando ambos queriam estabelecer a paz.
Eles sequer almoçaram. Edgar sabia que Duncan queria desesperadamente voltar para suas terras. Um ilhéu não aguentava ficar muito tempo em terra, enlouqueceria. Sua vida era para seu povo e para as águas. Duncan era um bom homem, maltratado por seu próprio pai muito antes de nascer, desprezado pela própria mãe e por sua madrasta. Foi jogado de lado a outro como uma mercadoria, feito de escravo por ingleses aos dez anos. Edgar o admirava por não se prender ao passado, por mais cruel que fosse esse, por tentar conquistar o apoio de sua gente. Mas seu nome era pronunciado por toda a Europa e pelo além-mar de forma tão atroz que até a Igreja se negava a recebê-lo. Não foi batizado, tanto por Lachlan não se importar, como pelo rechaço dos padres. Filho do Pecado. Mensageiro da Morte. Criatura infame.
Edgar olhou para as costas de Anna Leonor Knightley. Era uma mulher de beleza estranha, com traços pecaminosos, que fariam qualquer santo querer pecar. Ele nunca vira cabelos tão negros a ponto de terem reflexos azuis. E os lábios, vermelhos e cheios como cerejas, deliciosos e sedutores apenas com a visão. Era alta para uma mulher, mas com curvas voluptuosas e femininas, agraciadas por um quadril largo e seios que tirariam um monge do celibato. O mais intrigante eram seus olhos de gelo, tão azuis e penetrantes quanto os negros de Duncan. Era um presente perfeito para Duncan, só esperava que ele também visse isso.
-- Espero que eles não se matem – disse Henrique em tom suave. Edgar anuiu com a cabeça.
-- Creio que Duncan terá de ter uma paciência de santo – comentou o duque de Ulster, suspirando com certo cansaço – Minha sobrinha é muito teimosa e, infelizmente, não fui capaz de educa-la como se faz com uma dama.
-- Sinto dizer, mas paciência é algo que Duncan só possui em uma batalha – informou Edgar. Os três homens se entreolharam.
-- Leonor não vai aceitar ninguém que menospreze sua opinião – disse Richard Campbell com preocupação – Foi criada entre os homens, não está acostumada a ser tratada como uma mocinha submissa.
-- Rezemos para que tudo dê certo – disse Henrique passivamente – A paz depende deles.
-- Sim – concordou Edgar – Agora só podemos esperar que sejam sábios.
Os dois homens assentiram com a cabeça. Edgar sabia que Duncan jamais faria mal a ela, mesmo que perdesse a paciência, mas ninguém mais sabia disso. Era natural que ele fosse temido e desprezado e Edgar se surpreendeu ao ver como a condessa sustentava o frio e diabólico olhar de seu soldado, como se nada a fizesse baixar a cabeça. Essa força a ajudaria muito a sobreviver em Skye. Os ilhéus não aceitavam a liderança de Duncan – submetiam-se por medo – e pior ainda aceitariam uma inglesa em suas terras. Aquela menina era jovem, mas a vida a fortalecera para o mundo e isso a salvaria de perecer ante a inimizade incorrigível entre ingleses e escoceses. Por mais que as Hébridas não fossem consideradas propriamente escocesas, o povo que as habitava era legitimamente escocês.
Tudo precisava dar certo. A paz seria construída a partir daquele casamento e logo o fruto de tanto ódio converteria guerra em aliança. Ao menos, Edgar esperava por isso.
Notas finais
VAMOS LÁ, A CAMPANHA "NOTA MIL POR UM REVIEW" CONTINUA! Pleeease, os escritores vivem de comentários!
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