Notas iniciais
Gente, me deculpem! Sei que fui irresponsável por atrasar a história da minha gêmea, mas simplesmente não tive tempo nem disposição pra acessar o pc... [/apanhageral kkkkkkkk
Para vocês verem como sou legal, darei um bônus para vocês...
DOIS CAPÍTULOS! AÊÊÊÊÊÊÊÊÊ O
Aproveitem, pois essa história não irá - infelizmente - durar para sempre... :/ [/Não liguem, estou em choque pois já sei o final]

–- Você não se cansa? – Leonor resmungou pela vigésima vez desde que começara a contar, franzindo o cenho mais uma vez para o garotinho que poderia ser considerado uma miniatura de seu marido. Ele estufou o peito orgulhosamente.

–- Não. Meu irmão me mandou ser seu guarda-costas e a seguirei aonde for.

E então ela ganhou uma sombra. Drustan se apresentou a ela como o braço direito de Duncan McGregor e que recebera a missão de protegê-la. No entanto, no vocabulário dele proteger era sinônimo de perseguir e desde então ela estava se movendo e ele estava cronometrando seus passos. Certa vez, Leonor se refugiou nos estábulos e trocou de roupa dentro da baia de Vento Selvagem, transformando-se “misteriosamente” em Leonard. Quando ela saiu, ele a reconheceu. Ao menos manteve seu segredo muito bem guardado e assistia animadamente seus treinos, torcendo para ela e a animando a ser mais cruel com os homens. Ele era um bom garoto e ela gostaria mais dele se não a seguisse.

Drustan McGregor levava muito a sério seu trabalho. Leonor comia e ele estava lá. Leonor saia para a aldeia com Mary e ele estava lá. Leonor pensava e ele estava lá. Não havia como escapar do fedelho. Sabendo que podia confiar nele, permitiu que visitasse Duncan e guardasse segredo sobre seu real estado. Drustan também se afeiçoara a Gengis Khan. Brincava com o lobo sempre que iam visitar McGregor.

Seu marido, no entanto, não possuía essa mesma presença de espírito. Cada vez estava mais teimoso e tenebroso, com o humor de mil demônios. Olhava-a como se fosse estrangula-la, as mãos coçando por agarrar o pescoço de gazela dela. Leonor teve de ameaçar dopa-lo sempre que lhe desse de comer se ele não ficasse de cama. Um dia ele desconfiou e ele cumpriu sua promessa, fazendo-o dormir o dia inteiro. Ele acordou furioso, esbravejando e cuspindo imprecações. Tentou se levantar e ela o empurrou de volta para a cama. Drustan e Iain se uniram a ela, sustentando seus argumentos. Sem mais alternativa, seu marido aceitou seus cuidados com a ameaça de ser acorrentado aos postes da cama.

Ele não sabia, mas ela dormia sentada todas as noites ao lado dele, cantando para ele as músicas que tia Elizabeth e sua mãe cantavam quando ela era menina. Às vezes, não resistia e acariciava os cabelos dele, cantando baixinho para não acorda-lo. Saía do quarto antes do amanhecer para se ocupar de suas tarefas. Ajudava Iain com as papeladas, fazendo contas, pregando o selo dos McGregor em documentos, fazendo o balanço dos lucros e perdas. A pesca e a lã eram muito produtivas, principalmente quando exportavam para a Escócia. Leonor cuidava de tudo que um lorde deveria cuidar. Iain a instruía e tirava suas dúvidas. Era o único que sabia que ela falava gaélico e outras quatro línguas.

Os homens a respeitavam como Leonard e brincavam com ela. Leonor zombava deles também. Certa noite, fizeram uma fogueira no barmkin e beberam até o amanhecer, contando histórias de batalhas, fazendo piadas e zombando uns dos outros. Ela já era amiga de todos eles. Conhecia suas famílias, seus nomes, suas histórias.

No entanto, como mulher, era chamada de Senhora Fantasma, porque ninguém nunca mais a viu. Começaram a espalhar boatos de que McGregor a matara no dia que brigaram na cozinha e depois ele adoeceu de remorso. Ela teve vontade de rir, mas estava tentando extinguir tamanha barbaridade.

Leonard era respeitado e adorado por todos, mesmo depois de dizer que era inglês. Elogiaram seu gaélico, brincaram com seu porte “musculoso”, mas não a detestaram. Talvez porque estavam todos bêbados quando ela revelou. Já Leonor caíra no esquecimento, já dada como morta. Keena, uma das criadas, dissera que deveriam chamar um padre para rezar uma missa pela falecida senhora devorada pelo Mensageiro da Morte. Mas o padre que chamaram recusou, dizendo que rezaria pelas vidas de todos eles, mas que jamais pisaria nas terras do Diabo. E Leonard partiu na defesa do senhor, conquistando a confiança dos homens e os corações das criadas.

Sim, a vida dela estava emocionante.

McGregor ainda não sabia de sua vida dupla, provavelmente achava que ela estava se limitando a reger o castelo. Pobre tolo. Leonor chegava exausta no quarto. Ultimamente dormia no chão com Gengis Khan, perto da lareira; um olho no sonho e o outro em seu marido. Certa noite acordou com Drustan aninhado as suas costas. Ela o abraçara e dormiram assim. Leonor estava mais forte, os músculos mais rígidos, mas não parecia nada máscula. Na verdade, os exercícios modelavam seu corpo, deixando-a ainda mais feminina. E recebia mais comentários dos homens.

Estava muito próxima de Ewan, um rapaz da aldeia que treinava com eles. Ele tinha uma filha pequena chamada Caledônia e era viúvo. A mulher morrera de parto. Seamus e Angus também eram grandes amigos e até Iain estava se juntando a sua íntima bolinha de amizade masculina. Ele a repreendia veemente quando ela bebia socialmente com os outros. Mas Leonor não era de beber muito. De início, tolerava o vinho. Mas lhe deram cerveja certa vez e uma única taça a fez perder o controle de si mesma. Iain a jogou vestida na tina com água gelada para que caísse em razão.

Agora, depois de duas semanas desde o ataque, ela continuava com Drustan em seus talões, vestida de rapaz e deixando transparecer sua verdadeira natureza sem reservas. Não tinha sido atacada desde aquele dia, o que a deixava ainda mais apreensiva e alerta.

–- Drustan – resmungou Leonor outra vez – Por que não descansa um pouco?

–- Estou cansado de descansar – balbuciou ele.

Ela estava atrás do biombo, tirando as roupas de rapaz e pondo um formoso vestido azul-cobalto que tia Elizabeth lhe dera quando fez seus dezesseis anos. O veludo lhe caía perfeitamente bem, realçando suas curvas, pesando em seu corpo. Calçou as sapatilhas. Soltou o cabelo, deixando-o cair em cascata por suas costas, os cachos batendo em seu quadril, cada mecha erguendo-se em uma juba lisa e densa. Quando contornou o biombo, McGregor a olhava com sua típica expressão assassina e Drustan enrubesceu, sorrindo timidamente.

–- Vamos às cozinhas atrás de um doce? – disse ela para anima-lo. O menino saltou da beira da cama com um sorriso resplandecente, os olhos brilhando de ansiedade.

–- Sim, sim! Vamos, Leonor, rápido!

Ele agarrou sua mão, puxando-a na direção da porta.

–- Pode me esperar lá fora só um minutinho? – ela disse amavelmente – Vou falar com seu irmão.

Drustan franziu as sobrancelhas em uma careta de asco, alternando o olhar entre ela e McGregor. Por fim, deu de ombros e se retirou, deixando-os sozinhos. Ela se voltou para o marido, sustentando tranquilamente seu olhar de pura promessa de morte para ela. Leonor caminhou até ela, vendo como os olhos dele desciam dos seus para o balançar de seus quadris quando andava. Abaixou-se para tocar a testa dele, comprovando que não tinha febre.

–- Até quando você vai fazer minha família me ameaçar? – grunhiu ele – Tenho trabalho a fazer.

–- Sim, eu sei, mas você vai ficar aí até que eu diga o contrário – respondeu ela, erguendo as peles para ver como estavam as feridas. Ele já estava se sentando, recostado nos travesseiros. Não houve uma única infecção. – Está se sentindo bem?

–- Raiva conta como se sentindo bem? Sim, estou muito bem, esposa.

–- Vamos, McGregor, deixe disso. Está parecendo uma criança. Até seu irmão tem mais maturidade.

Ele resmungou alguma coisa que ela não entendeu.

Leonor revirou os olhos. Geralmente, apenas brigavam, então ela não sabia o que fazer quando estavam supostamente em paz. Nervosa, levou uma mão ao pescoço, pensando no que dizer. Logo, logo ele poderia voltar a comandar suas terras. Na verdade, ela não permitira que se levantasse ainda apenas para ter certeza de que não havia como partir os pontos. Disse a si mesma que os tiraria nesta tarde, depois do almoço. Sua única tristeza era se despedir de Leonard, porque valorizava muito seus novos amigos. Entretanto, Leonor precisava conquista-los como realmente era. Aceitaram-na quando era um rapaz, por que mudaria algo só por ser uma mulher?

Porque é uma Knightley, estúpida. Quem gostaria de você realmente?

Sim, era verdade. Conquistara o povo como soldado, mas não possuía nada como senhora. Temia contar a eles a verdade e ser ainda mais odiada. Não podia manter a vida dupla, sempre soube, mas não deixava de sentir falta dos momentos que passou com os homens. De todo modo, mais tarde seu marido voltava à ativa.

–- O que a está preocupando?

Ela piscou, surpresa, erguendo o olhar para o McGregor. Seu marido já não a encarava com fúria. Ela estava surpresa por ele ter percebido sua preocupação, mas não devia estar, sabia que ele era muito observador. Forçou um sorriso.

–- Não é nada que eu não possa resolver. – garantiu – Vou tirar seus pontos hoje, está bem?

Ele anuiu seriamente com a cabeça.

–- Está tentando desviar o assunto, moça.

–- Sim. Realmente não quero falar sobre isso com você.

Leonor aprumou os ombros e saiu em direção à porta. Sabia que ele se zangaria e não estava muito paciente para lhe contar que estava usando kilt no meio dos homens e treinando com eles. Mas McGregor deveria lhe agradecer. Graças a ela, seu povo não o detestava mais, apesar de ainda temê-lo um pouco. Ela e Iain estavam fazendo um bom trabalho. Saiu o mais rápido possível do quarto, deixando-o sozinho. Drustan sorriu para ela e, segurando-a pela mão, puxou-a escada abaixo, dizendo que deveriam ir o quanto antes pegar os doces de Bessie, ou os soldados comeriam tudo no almoço e não sobraria nada para eles.

☺

Mestre olhou para os guerreiros a seu serviço e sorriu de orelha a orelha, mostrando todos os dentes. Tinha treinado cada um deles desde a mais tenra idade. Quando recebiam sua primeira ordem, eram banhados em azeite fervente e seus lábios, costurados. Não podia permitir que nada desse errado. As orelhas eram cortadas como prova de sua devoção ao Mestre. Seus guerreiros eram os melhores assassinos que poderia existir no mundo. Entretanto, seu sorriso findou quando o líder de seu esquadrão reservado para certa missão entrou no grande salão com expressão fechada.

–- Mestre – ele se ajoelhou diante dele, baixando a cabeça em submissão – Sinto muito, Mestre, os outros não retornaram.

Mestre se levantou com toda a sua fúria, olhando para o verme que falhara com sua ordem com todo o desprezo de seu interior. O que havia de tão difícil naquela maldita missão? Era apenas uma mulher!

–- Inútil! – vociferou Mestre, esbofeteando a lateral corroída da face do servo com as costas da mão. Era imperdoável que falhassem em algo tão simples. Não os treinara arduamente para receber uma falha em algo tão ridículo. – Como eles falharam? Era apenas uma mulher!

–- M... Mestre – gaguejou o servo, olhando para seus pés – Não esperávamos que Duncan McGregor sentisse nossa presença e a defendesse.

Aquilo atingiu Mestre como um balde de água fria. Arregalou os olhos como pratos e quase deixou o queixo cair em choque. O Feto do Diabo, o Mensageiro da Morte, o cachorrinho de Edgar, este mesmo Duncan McGregor, arriscara a vida para defender a mulher? Não, impossível. Aquele homem sequer possuía uma alma, quanto mais a cortesia de proteger a própria esposa, que além de ser inglesa, era uma Knightley. Não era crível uma situação como aquela. Mestre conhecia o bastardo, sabia que ele não moveria um dedo sequer pelo irmão de oito anos.

Mestre estalou em gargalhadas, o som sinistro ecoando pelas paredes, reverberando por cada canto de sua moradia. O servo estremeceu, temeroso do que poderia vir disso, enquanto os outros eram sábios o suficiente para recuarem. Como um predador, Mestre começou a andar lenta e perigosamente ao redor de seu servo, olhando-o fixamente enquanto ria.

Para Duncan proteger Anna Leonor de ser morta por seus guerreiros só podia significar que seu coração enegrecido estava tolamente apaixonado. A julgar pela natureza do imbecil, não fazia ideia da profundidade de seus sentimentos por ela. Mestre sorriu, exibindo sua arcada dentária ameaçadoramente. Tinha um trunfo nas mãos que poderia lhe garantir uma vitória deliciosa. Anna Leonor não escaparia viva de seu próximo ataque. Mestre tinha um plano cruel se arquitetando em sua mente conscientemente distorcida de tanta maldade.

–- Duncan McGregor salvou a vida de uma Knightley? – gargalhou ainda mais – Que bonitinho.

–- M...M...Mestre, eu...

–- Pegue mais guerreiros. – interrompeu Mestre, já imaginando como seria destruir a pessoa que mais odiava de forma irremediável – O tanto que desejar.

–- Não sou digno, Mestre.

–- Eu sei – Mestre se ajoelhou ante o servo, mostrando seu sorriso mais macabro. O infeliz estremeceu, mas não ousou se afastar. Aquele era o único servo que ainda podia falar porque era apenas um observador e sempre lhe relatava os acontecidos durante as missões. – Mas minha bondade excede os limites do que você merece, verme.

–- Obrigado, Mestre! Prometo que não falharei.

O sorriso de Mestre se alargou ao máximo.

–- Sei que não falhará – disse amavelmente – Porque mais uma falha e terei seu intestino para o desjejum.

E todos sabiam que Mestre realmente fazia o que prometia. O último que falhou com suas ordens teve as vísceras servidas no almoço de Mestre. O resto do corpo foi dado aos cães. Mestre não tinha problemas com comida, tudo lhe era delicioso, principalmente quando era algum órgão de algum perdedor que falhara. Sim, isso tornava incomparavelmente mais delicioso.

–- Mestre, será uma honra servir-te um pouco mais!

Claro que era uma honra, não tinha dúvidas sobre tal fato. Esbofeteou o servo outra vez e riu ao ver o sangue escorrer do nariz dele. Olhou para a mancha vermelha no dorso da mão e fez uma careta. Ninguém podia mancha-lo daquela forma. O servo tremeu ao perceber que seu indigno sangue maculara a mão de Mestre, que o olhou nos olhos com desprezo. Com um simples gesto de sua mão limpa, ordenou que trouxesse os látegos, os pregos, o sal e a pimenta. Usou sua mão contaminada para esbofetear o indigno outra vez, sujando-se mais e mais.

–- Cumpra com seu dever, grande tolo, quero a cabeça daquela pessoa em minha mesa o quanto antes.

–- Como desejar, Mestre.

Oh, seu plano saíra do imaginado, mas agora tinha peças melhores em mãos! Riu alto enquanto andava e imaginava como seria acabar com quem mais odiava de uma forma muito mais dolorosa, a ponto de ser impossível uma recuperação.

☺

Leonor nunca comera nada tão gostoso na vida. O doce derretia em sua língua, um sabor suave e viciante como uma droga. Não era de se admirar que os soldados roubassem todos para eles, era simplesmente inexplicável as dimensões da delícia daquilo. Drustan estava igualmente hipnotizado pelos doces de Bessie, saboreando desesperadamente os que tinha diante de si.

No entanto, não importava o quanto Leonor elogiasse a culinária de Bessie, a mulher continuava a trata-la com fria animosidade, desprezando totalmente sua pessoa, mas mantendo o respeito e a submissão. Quando Leonor era Leonard, Bessie chegava a esconder doces só para agrada-la. Agora, escondia para que ela não visse.

–- Bessie, devia fazer mais destes – tentou Leonor outra vez – São deliciosos.

–- Obrigada, minha senhora.

Outra derrota.

Mas Leonor era teimosa. Conseguiria o que já colocara na cabeça que faria custe o que custasse. Se conseguira conquistar os corações do povo de seu marido uma vez, conseguiria outra e quantas vezes fosse necessárias. Continuou comendo com Drustan, a comida já não tão apetitosa pelo fato de todas as criadas estarem desconfortáveis com sua presença.

–- Drustan, o que acha de caminharmos pela praia hoje?

Os olhos dele se iluminaram e ele ergueu o olhar da comida para ela.

–- Podemos pegar conchas?

Leonor sorriu.

–- Sim. E podemos ir cavalgando, o que acha?

–- Sim, sim! E podemos procurar peixes nas cavernas?

–- Se a maré estiver baixa... – fingiu ponderar – acho que sim.

–- Você é a melhor irmã do mundo!

Criança tola, Leonor ouviu Bessie comentar. O comentário foi uma punhalada em seu peito, mas ela se manteve inabalável. O pequeno era cheio de vida e não se apegava a comentários que não podia ouvir. Leonor realmente se afeiçoara a ele e sua companhia a agradava muitíssimo.

Forçando seu sorriso a permanecer no rosto, terminou de comer os doces e esperou Drustan devorar os dele pacientemente. A caminhada na praia seria proveitosa, principalmente porque ela estava pensando em muitos assuntos ao mesmo tempo, como na atração que sentia por seu marido. Ela podia passar semanas recitando todos os defeitos dele, principalmente sua brutalidade, mas não encontrava uma única palavra que definisse as qualidades que ocasionalmente lhe mostrava. Ela não o conhecia bem, mas já se familiarizara com a natureza dele. No entanto, ele não permitia que ela se aproximasse muito.

Seu coração revoava no peito com o toque dele, com sua proximidade. Era arritmia, certo? Batimentos irregulares, podendo ser muito lentos ou muito acelerados... Ela só podia estar com alguma doença cardíaca. E a atração por ele era, bom, se fosse sincera, ele era um homem bonito e era natural que se sentisse sexualmente atraída por ele.

–- Pela barba de Moisés, menina! – ofegou Bessie, arregalando os olhos para ela, horrorizada. Mais uma vez, sua língua carente de atenção expôs seus pensamentos para o mundo. Drustan continuou comendo, alheio à indecência proferida por Leonor.

–- Desculpe-me – pediu Leonor, mas não estava constrangida. Não exatamente. – Não tive a intenção, mas minha língua, às vezes, age como uma vida independente agregada ao meu corpo.

Bessie se benzeu.

–- Conheço um rapaz assim.

Claro, Leonard se parecia muito com Leonor.

Bessie trouxe mais doces para a senhora do castelo e o pequeno Drustan experimentarem, pondo as travessas de prata sobre a mesa. Não importava o quanto comesse, não conseguia enjoar da comida de Bessie, a mulher tinha as mãos encantadoras de uma Fae. Leonor estava tão concentrada em seu próprio mundo, ensimesmada e distraída, que só percebeu a aproximação das crianças quando Bessie gentilmente se aproximou para afasta-las, olhando muitas vezes por sobre o ombro com medo.

A antiga senhora do castelo era uma mulher cruel, para haver tamanha reação ou simplesmente temiam a cruel e gélida bruxa inglesa que ressuscitara após a fúria do McGregor?

–- Venham, meninos, não incomodem a senhora...

Leonor se levantou e Bessie tratou de empurrar amavelmente as crianças para as cozinhas, alternando o olhar entre eles com translúcido pavor. Leonor sorriu.

–- Pode deixa-los, Bessie – ela disse o mais alegremente possível. Pegou uma travessa de doces e se curvou, oferecendo aos pequenos – Vocês querem? Bessie faz doces extraordinários e estes são os meus preferidos até agora.

Uma menininha de juba revolta e acobreada deu um passo adiante. Chupava o polegar de uma mão e estendeu a outra hesitantemente, mas um garotinho a puxou para trás. Eles estavam tão apavorados, que Leonor se compadeceu por eles. Ela não era nenhum monstro. Nunca fizera mal a ninguém que não fosse seu primo ou seu marido, e desde que chegara, recebera ódio o suficiente para fazer a Caixa de Pandora parecer uma caixinha inofensiva. O que diziam sobre ela? Se seu marido comia as criancinhas amedrontadas, ela deveria ser a besta que caçava para ele? Talvez pior.

Leonor estava determinada a conquistar seu lugar como senhora do castelo. O título não tinha importância para ela se o povo não a aceitava. Deveria haver confiança mútua. Também faria seu marido ser mais simpático para com os outros.

–- Senhora, por favor, não se incomode... – pediu Bessie, os olhos suplicantes e temerosos por uma reprimenda. Timidamente, Leonor sorriu para acalma-la.

–- Não se preocupe, Bessie. – e voltou a olhar as criancinhas – Eu não vou morder. – estendeu a mão para a menininha – Venha aqui, prove um.

Hesitantemente, a pequena avançou por entre o grupinho de crianças, arrastando os pés. Seu vestidinho rosa estava desgastado, já sem cor e com muitas remendas, a barra amarelada pelo uso constante e o roçar na terra, uma vez que a vestimenta era muito maior que sua dona. A menina colocou a mão sobre a de Leonor, que sorriu radiantemente por estar conseguindo um lento progresso. Puxou a menininha para perto de si e lhe estendeu os doces. As outras crianças estavam penduradas nas saias de Bessie, olhando para o que aconteceria com o medo estampado em suas faces. Bessie estava pálida e agarrava as mãos de dois meninos como se fosse desmaiar. Leonor colocou a travessa sobre a mesa e pegou um doce, estendendo para a menina que segurava tremulamente sua mão.

–- Obrigada, minha senhora – sussurrou a pequena timidamente, pegando o doce que Leonor lhe oferecia com a mão do dedão chupado.

–- Qual é o seu nome? – Leonor perguntou, vendo-a comer com satisfação.

–- Ravenna – disse a menina enquanto mastigava.

–- É um belo nome. Eu sou Leonor, Ravenna, é um prazer conhecê-la. Gostaria de mais um doce?

–- Minha senhora – suplicou Bessie – O chefe não gostará de vê-la ajoelhada alimentando a filha de uma criada. Por favor, levante-se...

Leonor negou com a cabeça.

–- Está tudo bem. Qualquer problema com meu marido, pode me informar e eu resolverei.

–- Mas...

A pobre mulher parecia exasperada.

–- Está tudo bem – Leonor voltou a repetir. Ergueu-se em toda a sua altura, soltando a mão de Ravenna. A menina se encolheu, como se esperasse uma bofetada, mas a senhora apenas pegou a travessa outra vez e caminhou até as crianças que se escondiam atrás das saias de Bessie. – Bessie, poderia chamar Mary para mim?

–- Mas...

–- As crianças estarão bem, prometo.

Assentindo com a cabeça, Bessie se desvencilhou das crianças e saiu apressadamente do salão. Os pequenos se uniram em uma bolinha amedrontada, avançando lentamente até a travessa. Olharam hesitantemente para Leonor, esperando a reprimenda. Como ela não fez nada, pegaram os doces. Olharam para ela outra vez antes de comer e outra quando acabaram. Ainda a encaravam fixamente quando se afastaram. Leonor fez menção de voltar a se sentar e o grupinho saiu correndo para as cozinhas, tropeçando nos próprios pés, deixando uma tímida e assustada Ravenna para trás. A menina tropeçou na longa barra de seu vestido e caiu no chão em sua tentativa de fugir da monstruosa Leonor. Esta, por sua vez, apressou-se até a garota e a levantou cuidadosamente, verificando se estava bem. Ao não vê-la arranhada, começou a passar as mãos pelas saias da criança, limpando o tecido já encardido. Ravenna recuou. Não era próprio de uma senhora cuidar da filha de uma criada tão zelosamente, ainda mais quando a senhora era uma inglesa da família inimiga. Mas Leonor não estava preocupada com isso. A ela pouco importava qual seria a reação do Papa se a visse ajoelhada diante da filha de uma criada.

Quando Bessie voltou com Mary, Ravenna ergueu as saias e correu para a responsável pelas cozinhas. A mulher a abraçou, erguendo-a nos braços e murmurando palavras de consolo. Drustan havia terminado de comer e se dirigira a ela com o cenho franzido, descontente com a reação da menina para com a senhora, mas também não proferiu uma única palavra. Olhou ansiosamente para Leonor, chamando-a com olhos suplicantes para partirem logo. Sem vontade de forçar sorrisos aduladores, ela o pegou pela cintura e o sentou sobre a mesa. Bessie ofegou, abismada.

–- Drustan, gostaria de ouvir uma história?

Ele fez uma careta.

–- Uma história? – perguntou com descrença. Leonor assentiu com a cabeça e Mary sorriu, já entendendo aonde ela queria chegar. – Mas temos que ir pegar conchas na praia antes de a maré subir!

–- Tem certeza? – incentivou Mary, aproximando-se de Leonor com uma expressão radiante como o sol – Conheço um feroz guerreiro que lutou contra dragões para achar uma pista sobre a Espada Fantasma.

Os olhos de Drustan se iluminaram de curiosidade, mas manteve uma carranca similar a de seu irmão. A antipatia deveria ser um defeito genético, e ela esperava que não passasse a seus filhos.

–- Não sei – ele balbuciou, estreitando os olhos enquanto pensava – Leonor me disse que brincaria comigo.

–- E eu vou, querido. – ela disse amavelmente – Mas Thorin era um guerreiro formidável.

Ele a olhou, duvidoso.

–- Como meu irmão?

–- Creio que sim – respondeu Mary – Mas o pobre Thorin não teve um final feliz.

Leonor juntou as mãos na frente do corpo e olhou com pesar para a prima.

–- Sim, pobre Thorin... Lutou tanto! Nem a Rainha Fae foi capaz de aprisiona-lo em suas montanhas.

–- Minha senhora – a doce e melodiosa voz de Ravenna atraiu a atenção de ambas as moças, que continham suas expressões de deleite por poder voltar a narrar suas histórias depois de tanto tempo. A menina chupava o polegar, mas seus olhos brilhavam de interesse pelo conto, esticando-se nos braços de Bessie. – Quem é Thorin?

–- Ah, Thorin? – Leonor fingiu desinteresse – Era apenas um guerreiro destemido.

–- Como ele escapou da Rainha Fae? – perguntou timidamente Ravenna.

–- Não gostaria de ouvir a história dele? – Leonor indagou – Thorin teve muitas aventuras, até mesmo muitos amores.

–- Não sei se eu ainda quero ouvir – resmungou Drustan com uma careta de nojo – Amor é para os fracos.

Leonor levou as mãos ao quadril e empertigou os ombros, fingindo uma expressão malvada.

–- Não vai dizer isso se ouvir a história de Thorin – replicou a moça, logo mudando drasticamente sua expressão para algo tranquilo e inocente – Mas você prefere partir impacientemente para a praia, não é certo, Drustan? É uma pena.

–- Sim – anuiu Mary – Era a minha história favorita – e se voltou para Leonor com uma empolgação admirável para ser improvisada – Lembra-te de quando Thorin derrotou todo o exército de demônios somente com a Espada Fantasma?

–- Como me esquecerei? A princesa dos demônios se apaixonou por ele por isso!

–- Tudo bem! – bufou impacientemente Drustan – Eu quero ouvir a história!

–- Gostaria de se juntar a nós, Ravenna? – Leonor perguntou. A menina olhou para Bessie, que sorriu e assentiu com a cabeça. Deixando a pequena no chão, Bessie se aproximou das jovens, vendo como Ravenna corria para elas, esticando os bracinhos roliços para ser colocada sobre a mesa também. Leonor a pegou nos braços com cuidado e a sentou ao lado de Drustan. As crianças estavam inquietas pela expectativa.

Olhando por sobre o ombro, Leonor viu que as outras crianças se amontoavam na porta da cozinha, todas curiosas e encolhidas para caberem no pequeno espaço, mas ainda não confiavam em Leonor o suficiente para se juntarem aos outros dois na mesa. Certo, aquele era um bom começo.

Ela e Mary foram para o outro lado da sala, onde todos podiam vê-las claramente, de frente para a parede das armas. Leonor olhou para Mary, ansiosa para começar. Olharam para seu público.

–- Houve uma época – começou Mary, a voz baixa e lenta, mas audível, instalando o suspense a cada palavra proferida – em que o mundo era apenas uma esfera de rocha e fogo. Não havia clãs ainda. As únicas criaturas existentes eram os demônios, filhos mestiços da Rainha Fae com o Rei dos Anjos. Eram seres mais antigos que a própria vida. – ela andou para longe de Leonor, sempre de olho nos expectadores – Alimentavam-se de emoções, por isso viviam em reinos muito unidos. Mas...

–- Um dia – prosseguiu Leonor – uma profecia foi escrita pela Deusa Mãe, a que originou a vida da vida, a Primordial de todos.

Guardou silêncio. Drustan franziu as sobrancelhas.

–- E o que tem a ver com Thorin? – resmungou.

–- Criatura impaciente – disse Mary, sufocando um riso – A vida de Thorin já estava determinada séculos antes de ele nascer. A Deusa deu o pergaminho celestial à Rainha Fae e lhe ordenou que o mantivesse em segredo, como todas as predições. No entanto...

–- O Rei dos Anjos, Baliol, não gostou de ser deixado de fora. Curioso e enraivecido pela Rainha não lhe contar nada sobre o futuro, invadiu o Salão dos Pergaminhos e roubou o de Thorin. Chocado por sua descoberta, o rei decidiu que, quando o rapaz nascesse, matá-lo-ia.

–- Anos depois – Mary disse, circundando lentamente a mesa como um predador. Leonor foi pelo outro lado, suas saias serpenteando com seus fluidos e graciosos movimentos – Thorin nasceu do ventre de uma camponesa. Filho de pais humanos.

–- Mas abençoado pela Deusa. Um bebê robusto, de olhos da cor do sangue e cabelos da cor do fogo. Seus pais temeram uma maldição. Não era possível que criatura mais estranha pudesse ser fruto da união deles. Transtornada, tresloucada, a mãe colocou a criança em um cesto e a jogou pelo rio para morrer.

–- Jesus! – Bessie ofegou, arregalando os olhos em choque.

As crianças se aproximaram da mesa, sentando-se aos pés de Ravenna e Drustan, sem sequer piscar de tão perdidos e hipnotizados pela história de Thorin. Isso encheu Leonor de força e animação. Ela saltou sobre um dos bancos da mesa, endireitando a coluna e empinando o queixo.

–- Mas a criança não foi destinada à morte – disse Mary, passando provocantemente os dedos pelo cabo de um machado – Nada poderia mata-la até a Deusa decidir que assim seria feito. Baliol explodiu em fúria ao ver que um casal de pescadores resgatava o menininho e resolveu cuidar disso com suas próprias mãos, assim forjando a Espada Fantasma.

–- Uma espada que, diz a lenda, foi feita do próprio sangue dos anjos. Inquebrável. Mortífera. E isso desagradou a Rainha Fae muito mais do que o esperado, principalmente depois de descobrir o que tramava o Rei. Ela não permitiria que nada assim acontecesse ao Escolhido da Deusa.

–- Como não? – esbravejou Mary, puxando o machado do suporte. As crianças soltaram gritinhos empolgados e Bessie ficou boquiaberta. Segurando a arma com as duas mais com toda a força, a prima apontou para Leonor a lâmina curva ameaçadoramente – Ela não tinha o direito! O bebê era meu por direito, eu sei o futuro dele!

Leonor soltou uma gargalhada zombadora.

–- Seu? – debochou – Ele pertence à Deusa! Não tocará em um fio de cabelo daquele menino!

–- Você não pode me impedir, Rainha Fae.

–- Dizendo isto, o Rei empunhou a Espada Fantasma com a fúria de todos os deuses em suas costas – narrou Leonor, olhando para sua plateia de forma enigmática, atiçando a curiosidade de todos. Viu com contentamento que alguns criados deixaram seus afazeres e ficavam ao lado de Bessie para ouvir o conto. Tentou não sorrir, então saltou de seu banquinho e caminhou lenta e graciosamente para a parede de armas – A luta durou séculos para os humanos, mas para os Antigos, foram apenas algumas décadas. O sangue dos reis foi derramado no céu, assim originando as estrelas. – puxou uma lança do suporte e a girou habilmente com o pulso, obtendo olhares de choque e admiração. As crianças estavam boquiabertas, encantadas – Toque-o, Rei, e não pouparei sua vida.

Mary sorriu com crueldade.

–- E o que fará para me deter?

Com um imperioso grito de guerra, Mary saltou sobre Leonor, erguendo o machado no alto da cabeça. Gritos eufóricos e de medo reverberaram pela sala, mas o silêncio tenso pela expectativa do desenrolar da história pairou no ar assim que Leonor defendeu o impetuoso ataque e, com um suave girar de pulsos, manejou a lança em um arco até desarmar sua prima.

–- Naquele dia, o Escolhido viveu para ser feliz. Cresceu aventureiro e forte. Thorin era o homem mais rápido de seu reino. O mais forte, o mais inteligente – prosseguiu Leonor, pondo a lança em seu suporte. Mary continuou brincando com o machado, segurando-o como se fosse retalhar a prima a qualquer momento. – O mais hábil com as armas...

–- E o mais lindo – Mary sorriu e as meninas suspiraram – Em seu aniversário de dezoito anos, seus pais lhe contaram a verdade sobre ele.

–- E que a única forma de mudar seu destino seria encontrando a Espada Fantasma.

☺

Duncan olhou pela milésima vez para o teto cor de marfim do quarto. Mais uma vez, encarou sua superfície plana com aborrecimento palpável. Passara os últimos dias resmungando pragas por ter salvado a vida de sua esposa e receber como recompensa ameaças de sua família para ficar pregado à cama como um inválido. Ele já sofrera feridas piores e nunca parou de trabalhar, para agora uma fedelha arrogante virar seu clã contra ele e força-lo a ficar deitado até se recuperar. Teimou, tentou se levantar, mas a maldita apontou a adaga levemente curva para ele, ameaçando-o. Iain se juntou a ela. E logo o maleável Drustan. Ele ainda não acreditara que o rostinho angelical de sua esposa enganara a todos eles. Raposa ardilosa. Dessa vez, ela não escaparia de uma boa palmada no traseiro.

Ficara ainda mais furioso ao ver que a peste não ficara com ele enquanto estava de cama. Não que ele se importasse. Ela que se danasse. Mas era o dever da esposa zelar pelo marido e ela o negligenciara. Isso era imperdoável. Teria uma boa conversa com ela depois. Duncan não gostou de não vê-la por tanto tempo e esta manhã... Inferno, ele estava tentando ser gentil. Mas ela não reconheceu seu esforço e voltaram para o início de tudo: intriga.

No entanto, acreditara ter ouvido uma voz cantar para ele em seu sonho. Devia estar enlouquecendo. Passara a infância tentando achar a Rainha Fae e agora ela vinha reclamar sua alma finalmente. Era uma voz baixa demais, suave e leve como um veludo, nada aguda e doce como estava acostumado a ouvir das mulheres. Primeiro a canção foi entonada em um idioma que ele não conhecia, para logo ser traduzida ao gaélico, seguindo um ritmo calmo, tranquilizante. Ficou tão embevecido pela música que se esqueceu da própria dor. Mas acordou sem ninguém a seu lado, em um quarto vazio e silencioso, com a exceção de sua presença e da irritante companhia do canino de sua esposa.

Por sinal, o mencionado agora estava mordendo seu pé com alegria, agitando a cauda peluda e agarrando-o com as patas dianteiras, usando as unhas. Duncan queria arremessa-lo pela janela, mas não faria mal a um animal tão irracional quanto sua própria esposa. Ao menos a criaturinha não era tagarela.

Percebeu que seus ouvidos reclamavam do silêncio.

O quê, agora queria ouvir a voz inglesa de sua esposa?

Sim, era loucura. A perda de sangue arranjou alguma forma de afetar sua sanidade, ou finalmente a presença irrequieta e turbulenta de Leonor estava fazendo efeito.

Jogou as cobertas sobre Gengis Khan e colocou os pés no chão, sentando na cama. Sua cabeça girou e palpitou de dor, mas não era mais capaz de se manter naquele quarto. Levantou-se com cuidado, testando as pernas para se certificar de que não cairia. Passara muito tempo deitado e rondando o aposento com desespero. Vestiu seu kilt, a camisa de linho, o tártan... Quando ficou adequadamente pronto, colocou suas espadas atravessadas nas costas e se dirigiu para fora do quarto. O mundo que fosse ao inferno antes de ele passar mais um minuto sequer deitado naquela cama. Estava recuperado e sua esposa mesma disse que tiraria os pontos dele naquela tarde. Olhou para a coisinha preta que o olhava em súplica. Dando de ombros, saiu com o animal para o corredor. Mal pisou fora do quarto, ouviu o tinir inconfundível de espadas e um choro lamurioso. O lobo tentou uivar, mas saiu um gemido, enquanto pulava lentamente de degrau em degrau. O terror encheu o peito de Duncan.

O que podia estar acontecendo? Seus soldados sempre respeitaram fielmente sua ordem de que ninguém treinaria em seu salão, pois poderiam machucar uma das criadas ou alguma das crianças e Iain não permitiria que quebrassem suas regras enquanto não estava presente. Aproximou-se do balaústre, pronto para brigar com quem quer que estivesse desobedecendo suas ordens e quase ficou boquiaberto. Nunca, nem delirando de febre, teria imaginado algo como aquilo.

Deus, como ela conseguira?

Seus mais ferozes homens, os criados e as crianças se amontoavam no salão, em pé, sentados nos bancos ou sobre a mesa, até mesmo no chão; todos juntos sem discussão, os olhos vidrados em... Sua esposa e Mary. Duncan viu admiração pelas moças nas expressões de cada um. O exército de Lúcifer poderia invadir suas terras e nenhum deles se mexeria, apenas para ver o desenrolar daquela encenação. Ele se curvou sobre o balaústre, apoiando os cotovelos na madeira, observando com fascinada diversão a atuação de sua esposa. Ela exalava uma energia vívida e contagiante, uma empolgação natural que fazia qualquer um querer prestar atenção nela. Sentiu aquela pressão no peito enquanto a via empunhar uma espada contra Mary. Os movimentos de ambas eram calculados, controlados e breves, exatamente para evitar resultados ruins.

Tudo bem, daria palmadas em sua esposa em outra ocasião.

–- Não! – gritou Mary. Até mesmo seus homens ficaram tensos, curvando-se levemente para frente, quase arregalando os olhos. Rionna, filha de Bessie, estava chorando. Duncan franziu as sobrancelhas. Leonor segurava a espada entre as costelas e o braço cuidadosamente para não se cortar de verdade, mas seu vestido de veludo a protegia. Do ângulo de sua plateia, realmente dava a impressão de que a espada a atravessava. Duncan sorriu quando, teatralmente, ela olhou para a suposta ferida e, lentamente, encarou Mary com horror.

–- Thorin... – ela disse em um fio de voz. As jovens arfaram, algumas chorando, enquanto os homens ficavam ainda mais tensos.

–- Gwyneth, meu amor – disse Mary. A espada foi ao chão e Leonor desabou nos braços de Mary, lânguida e fraca – Não pode morrer...

–- Mate-o, Thorin... Não deixe que Baliol destrua o reino...

Mary agitou a cabeça com veemência, ajoelhada no soalho com sua esposa em seus braços.

–- Gwyneth, não...!

Leonor tossiu fracamente e o sorriso de Duncan se ampliou.

–- Voltarei para ti, querido.

O corpo de sua esposa ficou mole, seus olhos fechados. Mary enterrou o rosto nos cabelos escuros de Leonor, tremendo como se estivesse chorando. Para sua surpresa, não demorou muito para a moça se levantar, uma expressão abatida em seu delicado rosto. Mary pegou a espada e circundou a mesa, como se estivesse viajando. A plateia acompanhou, hipnotizada, cada movimento seu. Ninguém além dele viu que Leonor escapulia para as escadas, mais viva que nunca, enquanto Tess substituía seu lugar. A criada tinha uma expressão diabólica, cheia de crueldade.

–- Thorin não podia deixar sua amada morrer – disse Mary com uma voz que incitava a curiosidade de qualquer ouvinte – Depois de tudo o que passara por causa de Baliol e sua ganância por ser o Escolhido da Deusa, não permitiria que seu bem mais precioso fosse tirado dele. Com a fúria de mil demônios, atravessou mares e terras até encontrar as pedras druidas.

–- Esperou que a lua-cheia dominasse o céu do inverno – prosseguiu sua esposa, atraindo a atenção dos ouvintes como se fosse mel para abelhas – Quando a lua esteve em seu ápice, o portão se abriu. Thorin viajou imediatamente para uma dimensão atemporal, buscando pela cabeça de Baliol.

–- Thorin! – riu Tess e sua plateia ficou boquiaberta – Vejo que chegou até aqui ainda vivo!

–- Você matou minha mulher! – rugiu Mary.

–- Oh, não, Thorin! Quem matou foi você.

–- Estava controlando meu corpo...!

–- Eu apenas lhe dei a oportunidade de se livrar de Gwyneth, você a aceitou, grande tolo.

Tess agarrou um bastão de madeira e apontou para Mary. A dama, por sua vez, avançou com uma espada de verdade. Elas travaram um confronto curto, que terminou com a morte de Tess. Desfalecida, Tess ficou largada no chão, enquanto Mary jogava a espada ao lado do suposto cadáver.

–- Thorin retornou para seu mundo com a cabeça de Baliol na mão, mas não era o suficiente. Tinha a Espada Fantasma, completara sua vingança, mas não tinha Gwyneth de volta. Não foi o suficiente. Ele nunca tinha amado ninguém como amara a ela. Seus sorrisos, sua valentia e sua doçura estavam marcados no mais profundo de sua alma. Determinado, ajoelhou-se no círculo de pedras druidas e cravou sua espada no chão, ao lado da cabeça de Baliol – disse sua esposa. A voz dela era como um bálsamo para seus ouvidos depois de tanto tempo no silêncio, mas não se apegou muito a tal pensamento. – Pela primeira vez, Thorin rezou e chorou para a Deusa, para a Rainha Fae, para qualquer criatura que ouvisse suas súplicas.

–- A Deusa sofreu por ele. Thorin tinha feito tudo o que ela esperava que fizesse, desafiando a predição para mostrar a todos que o destino depende unicamente de suas próprias escolhas. A pobre Gwyneth, princesa dos demônios que Thorin derrotara anos atrás, agora estava morta e sua alma estava no Poço dos Puros, onde qualquer mácula ficava atrás de suas portas de vidro. – prosseguiu Mary solenemente – Compadecida, apareceu diante de seu guerreiro mais corajoso.

–- Só há uma forma de reaver sua esposa, guerreiro – disse sua esposa com um estranho tom de voz profundo e cadenciado – Terá de entrar no Poço dos Puros e resgatar sua alma. Se o Poço o considerar digno, trará a moça de volta. Se não, ficará preso com ela.

–- Mas tudo possui um preço – advertiu Mary – Para se conseguir algo, é necessário dar outro algo de mesmo valor em troca.

Elas fizeram um longo silêncio. O público começou a se inquietar pela curiosidade, as crianças fazendo caretas, aguardando com impaciência. Drustan bufou de forma deselegante.

–- E o que aconteceu? – inquiriu saber.

Leonor e Mary intercambiaram sorrisos.

–- Ele teve Gwyneth de volta – disse Leonor por fim – O Poço dos Puros viu simplesmente o amor que ele nutria pela princesa.

–- E o preço? – perguntou Seamus, as sobrancelhas franzidas, quase invadindo o espaço teatral das damas. Duncan nunca que o imaginaria ouvindo histórias narradas por mulheres, ainda mais as que eram românticas. Surpreendente. – Disse que havia um preço, minha senhora, então, qual foi o dele?

As expressões delas ficaram tristes. Leonor juntou as mãos diante do corpo, encolhendo os ombros e fazendo um biquinho deprimido. O tipo de face que fazia um homem querer defendê-la de todos os males. Mary mordeu o lábio inferior e abraçou o próprio corpo, como se estivesse prestes a chorar. Elas trocaram um olhar penoso antes de se voltar para eles.

–- Thorin abdicou de todos os dons que a Deusa lhe dera, inclusive a presenteou com a Espada Fantasma. Agora que era um homem comum – disse Mary tristemente – já não podia continuar com suas aventuras. A Deusa, em troca da vida de Gwyneth, também lhe tirou a visão e a beleza. Fez com que ele próprio rasgasse a própria face, deformando seu rosto com a Espada Fantasma, tornando-o tão monstruoso que era repulsivo a qualquer um que o visse. Chamaram-no de Diabo. Pobrezinho. A Deusa lhe disse que, por ama-lo, tiraria sua visão para que não visse sua aparência bestial.

–- E Gwyneth? – indagou uma empolgada Annie, já com lágrimas banhando sua face.

As moças suspiraram com pesar.

–- Gwyneth continuava perfeita – prosseguiu Mary – E Thorin sabia quando tocava no rosto de sua amada. Temeu por seu rechaço.

As mulheres caíram em prantos no salão e os homens cruzaram os braços diante do corpo. Duncan estava relaxado, encantado com a forma como sua esposa se infiltrava sorrateiramente nos corações de sua gente. Era uma raposa ardilosa, não tinha dúvidas.

–- Gwyneth também provou seu amor. Até o último dia de suas vidas mundanas – disse sua esposa – fingiu estar cega, jurando que não via sua feiura, quando tudo o que via era um homem corajoso que arriscara tudo por ela.

–- Fim – cantarolou Mary.

Os aplausos explodiram no salão. As crianças correram para elas, sorrindo e falando todas ao mesmo tempo, animadas e chorosas, felizes e tristes pelo final. Os burburinhos animados se estenderam por longos minutos. Duncan viu que sua mulher, lentamente, estava ganhando a confiança do povo, provando que não era a besta inglesa que muitos alegavam ser. Ao contrário dele, que não se preocupava com o que os outros pensavam de si. Devia provar que não era o monstro que fizeram dele, mas nunca realmente teve tal necessidade.

Ele sempre gostou de ouvir histórias, mas seu pai simplesmente não aceitava. O lugar de um homem era no campo de batalha, longe de qualquer distração ou futilidade. Duncan parou de ouvir os contos dos bardos. Seu pai o amarrava a um poste no barmkin diante de todos os homens e o açoitava com látegos até que caísse na inconsciência. Suas feridas não eram tratadas por ninguém, senão ele mesmo. Lachlan não queria um fraco. Um filho seu, mesmo bastardo, devia ser forte o suficiente para superar uma correção. Duncan passou a ver os bardos como sinônimo de surra e os deixou de lado. Agora, ouvindo a narração de sua esposa, todas as lembranças de sua infância vieram à tona. As surras, as palavras ditas por seu pai, as noites trancado no escuro para ser devorado por ratos, o frio, o desprezo de sua mãe e de sua madrasta... Seu sorriso findou e sua expressão se tornou sombria. Agitou a cabeça, como se assim pudesse expulsar as lembranças do passado, mas elas continuavam ali, perseguindo-o como uma sombra, lembrando-o de quem ele realmente era.

Duncan não queria mais ouvir historinhas. Aquilo era ridículo. Voltou para o quarto e fechou a porta. Inutilidades eram para as mulheres tolas.

Estava mais que na hora de voltar para seu próprio quarto. Um homem jamais dividia seu espaço com uma mulher; essas víboras eram traiçoeiras e manipuladoras. Ele seria apunhalado quando menos esperasse. Leonor era sua inimiga e estava conquistando sua família, infiltrando-se em suas entranhas. E o que mais o fazia odiá-la era que já percebera que se importava com a maldita.

Furioso, deu voltas no quarto por um tempo infindável. Antes que percebesse, estava olhando para os pertences de Leonor. Ela gostava de coisas simples e práticas, pelo o que pudera ver. Seus vestidos eram de alta qualidade, mas não tinham bordados de ouro ou prata. Trouxera poucas coisas consigo, apenas o que fosse realmente útil. Esbravejou maldições.

Por que ela tinha de ter uma presença tão marcante em sua vida?

A raiva queimava em seu peito. Ódio pelo passado, ódio por seu pai, ódio por sua esposa, ódio por tudo.

Vagueou pelo quarto, sem sequer saber por que estava ali. Deveria ir se ocupar de suas responsabilidades como chefe do clã, não ficar enchendo a mente de bobagens. Ele não tinha alma, coração ou consciência, era uma besta nascida do pecado, criada no pecado e de natureza infame, por isso era tão temido. Ter surtos de gentileza para com sua esposa o tornava fraco. Estava se tornando um frouxo por causa dela. Um bobo.

Estava para sair do quarto quando viu o pé de uma bota de caça que não era sua. Era pequena demais para ser sua, grande e masculina demais para ser de sua mulher. Estreitando os olhos, aproximou-se como um predador, circundando o biombo. Franziu as sobrancelhas ao ver um par de botas. De homem. E seu cenho se tornou mais profundo ao ver roupas emboladas atrás da tina. Ajoelhou-se e pegou os trajes, avaliando-os. Não precisava ser um perito em moda feminina para saber que aquilo não se tratava de um vestido e que as mulheres da corte não se vestiam de homem.

O que roupas masculinas faziam no quarto de sua mulher, tão escondidinhas?

A raiva queimou em seu interior, mas uma dor odiosa em seu peito foi ainda maior, o que aumento sua raiva por não saber o motivo do desconforto. Sua esposa poderia estar sendo infiel?

Ah, maldita víbora!

Percebeu que estava trincando os dentes com muita força quando eles doeram. Cerrou os punhos na roupa. Que Deus o impedisse, porque a estrangularia. Mataria sua esposa e que Edgar explodisse sua histeria onde quisesse. Duncan não permitiria que a cadela o traísse debaixo de seu próprio teto com um de seus homens. Ela teria de se explicar a ele. Mataria a desgraçada e seu amante, custe o que custasse.

Notas finais
E aí galera, o que acharam? EU A-D-O-R-O o pequeno Drustan, que nome de guerreiro incrível, não? Mas o meu negócio mesmo é com o Iain... (HOHOHO)
Até o próximo capítulo!