Prazeres Sombrios - Indômita
13 Capítulo XII - Guerreira
Notas iniciais
Quando ele cambaleou para trás, Leonor correu o mais rápido que conseguiu e o agarrou antes que fosse ao chão. Segurando-o pela cintura com o máximo de cuidado, passou seu braço por sobre os ombros, ajudando-o a chegar até a cama. Ele mancava e arrastava dificultosamente os pés.
Se eu tivesse nascido homem, poderia leva-lo!
No entanto, era uma moça e estava se esforçando para conseguir manter a si mesma de pé ao sustentar seu marido. Ele não só era muito grande, mas muito pesado. Atenta a qualquer ruído que indicasse a presença de outro inimigo, tentou leva-lo para a cama.
-- Uma moça tão pequena não deveria levar um homem tão grande – provocou McGregor. Leonor franziu as sobrancelhas, dedicando-lhe um olhar mortal. Cuidadosamente, permitiu que ele segurasse no poste da cama e o ajudou a sentar na beira do colchão. Ela queria abraça-lo, mas não podia. Suas feridas pareciam todas graves e horrorosas demais.
-- Cale a boca, McGregor – respondeu ela num fio de voz. Quando ele esteve sentado, mesmo que ainda segurando no poste, ela se aproximou, tocando-o no rosto, afagando sua bochecha. Os olhos dele estavam enevoados, desfocados. Era impossível dizer se as pupilas estavam dilatadas ou não – O que está sentindo, grandão?
-- Sinceramente? – ele arrastou as palavras – Nada.
Leonor tirou seu cabelo do rosto suado, revelando sua face pálida. Para sua sorte, estava perto do amanhecer e a pouca luz no quarto estava se tornando lentamente mais intensa, dando-lhe melhor visão dos estragos feitos em seu marido. Ela poderia chorar por ele. Sentia sua dor como se fosse dela própria. Segurou seu rosto entre as mãos e pressionou os lábios contra os dele.
-- Vou revistar o quarto para me certificar de que não há mais ninguém e vou chamar Mary para me ajudar.
Incapaz de falar, ele apenas negou com a cabeça e ergueu a mão para segurar a dela. Aquele gesto chegou ao seu coração, destruindo como um aríete cada barreira que ela erguera. Leonor precisou de muita força de vontade para não chorar. Havia longas agulhas prateadas cravadas em suas costas como uma couraça de espinhos, uma flecha no ombro, um corte na coxa e outros nas costelas e no braço. Perdia sangue rapidamente, cada vez mais fraco, sob efeito da substância que provavelmente havia na seta.
E se fosse veneno?
Ela esperava que não.
Assentiu com a cabeça para ele e se afastou. Ajoelhou-se diante da arca, abrindo-a. Ao invés de vasculhar, jogou suas roupas para o alto sem lhes dar qualquer importância, desprezando-as. Lá no fundo, escondidinha, estava o baú com seus equipamentos e ervas. Leonor usou uma fita que estava dentro da arca para recolher o cabelo e correu de volta para seu marido, que oscilava para todos os lados, prestes a despencar para a inconsciência.
Tudo era culpa dela. Estavam tentando mata-la, mas ele a defendeu com a própria vida, sofrendo todos os danos sozinho. Seu marido era um idiota. Leonor engoliu em seco, deixando o baú aberto sobre o colchão.
-- Seu idiota – ela sussurrou – Nunca mais faça isso.
Leonor pegou uma adaga do interior do baú e se dispôs a cortar a roupa dele. Não queria lhe causar mais dor. Pouco a pouco, foi revelando um peito forte e marcado por músculos e cicatrizes de batalha. Não havia nada ali que nunca tivesse visto, mas agora era diferente. Da primeira vez que o viu, não se conheciam. Mas agora... Já não podia dizer o mesmo. Ele arriscara a vida por ela quando simplesmente poderia ter se livrado de uma esposa problemática sem sujar as mãos. Isso para ela teve um efeito incomensurável. Ninguém jamais a protegera com o próprio corpo; primeiro porque ela nunca necessitara, sempre se orgulhou de possuir um instinto aguçado para o perigo e suas habilidades eram o suficiente para sobreviver, e segundo, sua criação não se baseava em deixar brechas para fraquezas.
Ficara tão distraída com os beijos daquele homem que sequer percebeu quando abriram a porta e se ocultaram nas sombras. Sua falha cobrara um preço muito alto. Isso não se repetiria.
Permitindo que a frieza a dominasse, pouco lhe importando sua nudez, jogou as roupas de seu marido sobre a cama. Deus tivesse piedade das mulheres, ele era lindo. Irresistível. Exalava poder e brutalidade. Pernas longas e fortes, coxas grossas, um traseiro extremamente sensual e... Certo, certo. Afagou seu rosto, sentindo sua temperatura. Ficou aliviada ao perceber que não estava com febre. Tirou seu cabelo do rosto, avaliando seus traços. Ele tinha muita dor. Ela sabia apenas pela rigidez de seu maxilar e pela forma como apertava o poste, os nódulos dos dedos brancos por sua força. Leonor deixou a raia qualquer emoção para poder se concentrar na tarefa que tinha. Seu marido era a prioridade.
Beijou-o suavemente na testa antes de circundar a cama e subir no colchão. Ajoelhou-se atrás dele, avaliando seu estado. Cinco agulhas perfuravam suas largas costas, havia uma flecha no ombro e ele estava vazando tanto sangue que poderia banhar um exército. Respirou fundo e se concentrou. Já cuidara de seus primos antes e não sentira tamanha angustia, por que agora seria diferente?
McGregor abriu a boca para contestar.
-- Vou tirar a flecha primeiro – Leonor disse, passando a mão cuidadosamente por seu cabelo castanho-escuro, como em uma tentativa de apaziguá-lo e distrai-lo. – Prepare-se.
-- Não... – ele balbuciou de forma arrastada e quase ininteligível.
-- Quieto. Eu vou cuidar de você, e se mugir qualquer coisa, castro-te com as unhas, entendestes?
Ele anuiu com a cabeça.
Ela segurou na base da flecha, perto do ferimento. Rogou uma prece para que tudo desse certo. Se não segurasse perto o suficiente da zona perfurada, a seta poderia quebrar e deixar resíduos dentro dele, o que causaria uma infecção infernal e poderia mata-lo. Controlando sua própria respiração para se acalmar, contou mentalmente até três e... Puxou a flecha de uma vez. McGregor não emitiu um grunhindo sequer, mas estava tão rígido que poderia partir a própria coluna. Cerrava os punhos fortemente, os dedos brancos pela intensidade de sua força, também trincando os dentes a ponto de quebra-los facilmente. O sangue começou a escorrer pelo buraco que ficara. Leonor daria tudo para ter cerveja em seu quarto. Se ele estivesse ébrio, não sofreria tanto.
Rapidamente pegou um pedaço de linho em seu baú e correu até a terrina sobre a mesinha, molhando o pano. Voltou correndo para seu posto, ajoelhando-se atrás dele. Com uma suavidade atípica de suas mãos treinadas para matar, começou a limpar a ferida, vendo o quão grave era. Para sua alegria, não tinha entrado tanto a ponto de lhe causar um dando maior que uma cicatriz. Sorriu com sincero alívio e esticou a mão para tocar o queixo pétreo de McGregor.
-- Só vai levar uns pontos – informou ela – Aguente mais um pouco. Se eu tivesse Mary comigo, terminaria mais rápido.
-- Você não vai sair daqui – ele grunhiu baixo e asperamente – Faça como achar melhor.
-- Sua forma de gratidão é lisonjeira – ironizou ela, pegando os vidrinhos com as ervas adequadas para o tratamento. Fez uma mistura viscosa na palma da mão e usou os dedos da outra para colocar o unguento no buraco aberto e horroroso da ferida – Já ouviu falar de obrigado? É uma palavra muito usada quando nos sentimos gratos.
-- Não estou grato.
Mas ela estava. Grata e sofrendo por ele ter sido tão... Imbecil para salva-la.
-- Ah, não? – Leonor provocou, colocando unguento no mais profundo da ferida – Não acredito em você.
-- Problema seu.
Depois de passar o unguento, ela correu de volta para a terrina, lavando as mãos e pegando-a logo, levando-a para a cama. Acomodou-se em seu devido lugar e vasculhou o baú de madeira em busca da agulha e da linha. Preparou seu material. Era bom falar para distrai-lo, assim abrandaria seu sofrimento. Leonor começou a falar de sua infância, narrando suas aventuras com seus primos detalhadamente, enquanto segurava as extremidades da carne aberta de seu ombro e costurava cuidadosamente o primeiro ponto. Falava mecanicamente, colocando em palavras suas travessuras, como no dia em que saltou pela primeira vez do escarpado. Sua garganta estava seca quando terminou de costurar o ombro. Continuou tagarelando enquanto cortava a linha com a adaga e puxava seu baú para mais perto, puxando os potinhos em busca do bálsamo adequado. Misturou algumas substâncias na mão e passou o creme sobre a ferida costurada. Aquilo deixaria a região machucada levemente dormente e ajudaria no processo de cicatrização.
Certo. Cinco agulhas para serem retiradas, mais as feridas na coxa, nos flancos, no braço... Seu marido era uma peneira.
Leonor conversou com ele enquanto retirava as agulhas, quando limpou as feridas e passou creme nelas. Onde as agulhas atingiram não precisaram de pontos, para seu grande alívio.
☺
Horas e uma refeição mais tarde, McGregor estava deitado de bruços na cama, dormindo e costurado até a alma. Depois de trata-lo, exausta e completamente preocupada, correra até a cozinha, desejando bom dia para todos que cruzasse seu caminho e pegou tanta comida que poderia alimentar um exército inteiro. Ele se recusou a comer até que a visse devorar o desjejum. Leonor comeu à força uma maçã e metade de um pão, engolindo com uma taça de hidromel. As frutas, a carne, os pães, os doces e o vinho obrigou a engolir. Quando não sobrou um farelo sequer, deitou-o na cama e o cobriu com as peles. Ele estava mal-humorado e resmungão por estar sendo tratado como um inválido e ela o mandou pastar no inferno se achava que ela permitiria que partisse todos os pontos que ela cuidadosamente costurou.
Deus tivesse paciência com seu marido, porque ela não tinha.
Ele era trabalhoso, antipático, mal-humorado e teimoso. O Rei dos Asnos. Leonor sequer podia contar nos dedos quantas vezes o ameaçara até que o bálsamo que deu a ele quando acabou a operação fizesse efeito e o dopasse. Agora ele dormia coo uma pedra debaixo de todas as peles e ela acabara de dar leite ao filhotinho, que pulava alegremente ao lado da cabeça de seu marido.
Leonor estava exaurida, prestes a desabar de cansaço, mas não queria dormir e acordar com mais inimigos no quarto. Esperava que Iain viesse vê-la, uma vez que mandara uma criada busca-lo. Os corpos de seus inimigos estavam largados e seus respectivos lugares, o quarto banhado em sangue.
Leonor já tratara de observar os inimigos, mas precisaria falar com Iain. Ele era de confiança e era primo do McGregor. Um aliado que ela valorizava. Ela estava sentada em uma cadeira que arrastara para perto da cama quando ouviu batidas na porta. Iain entrou, a expressão austera, mas preocupada ao ver o cenário pós-guerra.
-- Que diabos aconteceu aqui? – disse ele, olhando ao redor.
Leonor esperou que ele fechasse a porta para falar. O aposento devia estar fedendo, porque ele franziu o nariz.
-- Fomos atacados à noite – respondeu ela – Não vimos quando entraram. Estão vestidos de preto e cobertos de fuligem para não serem reconhecidos e se disfarçaram na escuridão.
Iain franziu as sobrancelhas.
-- Não é típico do Duncan não notar a presença de outros.
Certo, desconfiança, ela podia aguentar isso.
-- Estávamos... – suas bochechas arderam, mas ela não desviou o olhar – nos entendendo. – a expressão dele abrandou um pouco – Ele foi ferido por me proteger – ela olhou para seu marido, a dor transparecendo em seus olhos – Foi culpa minha...
-- E por que seria?
-- Na noite em que chegamos tentaram me matar com flechas. Mary está estudando as ervas que usaram nas setas, não sabemos do que se trata. Pode ser uma droga, um veneno. Não sei. Mas alguém tentou me matar e persistiu noite passada. Mas esse... Imbecil – a voz dela tremeu. Limpou a garganta, recuperando a compostura – me salvou em todas as tentativas de ontem.
Iain se aproximou devagar. Olhou para seu marido e ergueu as peles para ver seu estado. As pragas que escaparam por seus lábios fariam um padre açoita-lo por vergonha. As feridas ainda estavam vermelhas e inchadas, mas seria necessário esperar para ter certeza de que não infeccionariam. Leonor cuidaria dele, prometera com sua palavra e cumpriria mesmo se devesse matar todos os tolos que ousassem entrar em seu quarto sem que ela soubesse ou permitisse.
-- Cuidou dele muito bem, minha senhora – disse Iain em seu habitual tranquilidade, mas Leonor ouviu o tom de aço em sua voz – Ele não vai poder se levantar por muito tempo.
-- Sim. – Leonor suspirou – Quero seus favores, Iain.
Ele arqueou uma dourada sobrancelha para ela.
-- Como posso servi-la?
-- Primeiro, tudo o que conversamos e conversarmos neste quarto são confidenciais. Posso confiar em sua discrição?
-- Sim, minha senhora.
-- Leonor. Não sou sua senhora.
Os lábios dele se repuxaram em um sorriso.
-- Na verdade, é, uma vez que é a esposa do Chefe.
-- Mas você não vai me chamar assim. Ponto final. Entendido?
-- De acordo.
-- Pois bem. Como ninguém deve saber o que aconteceu, diga a qualquer curioso que meu marido está doente e, portanto, vou assumir todas as responsabilidades até ele melhorar.
-- São muitas responsabilidades.
-- Eu sei. E você e Mary vão me ajudar. Também quero que investigue tudo sobre esses homens.
-- Fá-lo-ei.
-- Ninguém deve saber que estou me responsabilizando pelo castelo e todo o resto. Para todos os efeitos, é o McGregor quem está trabalhando.
-- Muito inteligente, mas há brechas em seu plano.
-- Eu sei – ela franziu as sobrancelhas com desagrado, pensando em milhares de alternativas para levar adiante seu plano e obter sucesso – Desde que ele dormiu, estou pensando em tudo. Pedirei a Mary para cuidar dele quando eu não puder. Não quero que ele fique sem atendimento.
-- Escolherei os melhores homens para sua escolta, Leonor. Não pode andar sozinha quando estão tentando mata-la.
Ela negou com a cabeça.
-- Obrigada, Iain. Vou à aldeia mais tarde encomendar uma espada ao ferreiro. Uma para mim e outra para Mary, na verdade. Pensei que estavam tentando me matar por meu sangue inglês, mas minha prima não recebeu a mesma atenção.
-- Mas também há a diferença de linhagem entre vocês – ressaltou o viking, enchendo a cabeça de Leonor com dúvidas e suposições – É uma Knightley.
-- De fato... Argh!
Iain foi até a mesa e pegou a terrina com água suja. Leonor apenas o observou ir com ela o corpo mais próximo. Virou-a, derramando o líquido em cascata na face do bastardo morto, revelando o rosto imundo de fuligem. Ela se levantou e correu até o centro do quarto, ficando de cócoras e estreitando os olhos para a revelação. Ela e Iain praguejaram imprecações ao mesmo tempo. O rosto era deformado, cheio de fendas causadas por cortes e queimaduras profundas, o que tornava impossível reconhecer quem era. Os lábios foram costurados, provavelmente para que não houvesse forma alguma de revelarem o que não deveriam. Eram monstruosos. Tão disforme quanto demônios. Leonor ignorou o nojo que sentiu ao ver aquilo e esticou a mão para virar o rosto do homem. Ele era totalmente careca e suas orelhas haviam sido cortadas. Toda a face estava enrugada e distorcida por queimaduras. Leonor deduziu que foram feitas por azeite fervendo, método muito utilizado por romanos. Não existia a mais mínima chance de reconheceram o indivíduo, mesmo que ele ainda estivesse vivo. Por isso seu parceiro não revelara nada ao McGregor noite passada, não podia falar.
Em nome de todos os santos, que seria capaz de criar soldados mais sombrios para mata-la? Ela não conhecia ninguém tão engenhoso e cruel, ainda mais que nutrisse tanto ódio por ela, a não ser os homens de seu marido. Como Iain disse, ela era uma Knightley, era natural que tentassem se livrar dela.
Olhou para Iain, que já levava a terrina para outro corpo. Como ela esperava, todos eram iguais.
-- Um deles escapou ontem – ouviu-se dizendo a ele – Foi o que atirou a flecha no McGregor.
-- Também estava coberto por fuligem?
-- Sim – ele amaldiçoou, mas pediu desculpas por sua grosseria – Diga o que quiser, meu vocabulário é pior – Leonor suspirou – Como a distância não era muita, a flecha não fez o estrago que provavelmente ele desejava.
-- Seja cuidadosa – disse Iain, arrancando a adaga dela da parede. Ele olhou para a folha prateada e fez uma careta – Isto é seu, moça?
-- Meu primo me deu antes de nossa partida. Tinha-a guardado debaixo do meu travesseiro caso tentassem me atacar durante a noite.
Iain lançou a adaga e ela a pegou no ar habilidosamente, erguendo-se como uma rainha e deitando a arma sobre a mesa. Um brilho de respeito surgiu em seus olhos.
-- Fico feliz por meu primo ter encontrado uma boa esposa.
Leonor sorriu sem muita vontade.
-- Eu não diria isso – murmurou amargamente – Mas matarei quem lhe fizer mal.
Iain sorriu.
-- Sei disso. É uma boa senhora para uma inglesa.
-- É um bom homem para um ilhéu.
Eles intercambiaram um olhar de cumplicidade, prometendo lealdade um ao outro em silêncio. Assentindo solenemente com a cabeça, Iain agarrou dois corpos, jogando-os por sobre os ombros. Leonor ficou admirada com sua força, mas não podia esperar menos de um mestiço tão grande.
-- Vou me livrar dos corpos. Pedirei a Fergus que venha recolher o resto.
-- Obrigada por me ajudar, Iain.
-- Quem é nosso aliado, Leonor?
-- Mary. Acho que não há problema em Fergus saber também. Reforce a guarda, tanto no castelo como na aldeia.
-- Escolherei os melhores. Quer que eu a acompanhe quando for ao ferreiro?
-- Não será necessário. E, Iain, quando começa o treino dos guerreiros?
Os olhos dele chamuscaram de diversão.
-- Em breve. Gostaria de participar, minha senhora?
Leonor sorriu.
-- Sim, será uma honra.
-- Será inesquecível – disse ele – Mais alguma coisa que deseje de mim?
Leonor voltou a se sentar ao lado da cama de seu marido, ainda sorrindo para Iain. Esperava que ele e Mary ficassem juntos, mereciam companheiros maravilhosos.
-- Não, está liberado para cumprir suas funções.
-- Vou mantê-la informada.
-- Agradeço por isso. E também quero que me instrua nas tarefas de meu marido.
-- Como desejar.
☺
O quarto estava limpo e impecável, apenas com poucas e discretas manchas remanescentes do sangue dos inimigos. Fergus e Iain tinham insistido em ajuda-la a limpar, já que não foram capazes de detê-la. Não havia mais vestígios dos corpos. Leonor estava sentada mais uma vez, brincando com seu filhote no colo, a dor no peito a maltratando profundamente.
Não ficaria chorando e gemendo por culpa, martirizando a si mesma como uma vítima, não mudaria nada. Sofrendo ou não, era forte o suficiente para mudar o rumo das coisas. Não permitiria que seu marido fosse tolo o bastante para salva-la de novo. Nunca mais ele ficaria em uma cama por causa dela. Nem por causa de ninguém. Ponto.
Desistira de ir à aldeia e enviara Malcolm ao ferreiro com as explicações e um esboço que fizera com tinta da espada que queria. Mary também fizera a sua. Malcolm retornara com ordem cumprida. Pouco a pouco, Leonor pretendia conquistar o povo de seu marido, apesar de não saber como ainda. No entanto, sua prioridade agora era o jogo que seu inimigo invisível estava travando com ela. Ele era muito ardiloso, já não havia qualquer dúvida, mas ela também era. E tinha um espírito vingativo que faria o mais temível Berserk se encolher ante sua ira. A Arte da Guerra finalmente cobrava mais utilidade prática.
Leonor passara horas ao lado da cama do McGregor, conversando com sua pessoa adormecida, contando histórias que ela e Mary inventaram para Tristan, quando ele tinha medo de algo, como o escuro. Elas narravam aventuras de generais macedônios ou trácios até que ele dormia. Revivendo todas as histórias de gregos corajosos e guerreiros em sua mente, narrou cada uma para seu marido, ao mesmo tempo em que brincava com um filhotinho de lobo travesso. Quando a hora do treinamento dos homens chegou, Iain veio busca-la, trazendo consigo as roupas de homem que ela lhe pedira pouco tempo atrás. Ele não tinha compreendido porque ela queria substituir seus vestidos de seda e veludo pelos rudes trajes de um rapaz, até que ela lhe explicou que sabia o quão importante era o orgulho para os homens e que eles não veriam com bons olhos uma mulher que pudesse supera-los em algum quesito, como a velocidade. E também pegariam leve com ela. Iain lhe explicou como vestir as indumentárias escocesas, como abotoar o broche do plaid. Ela se vestiu como mandavam as regras, pondo o kilt, o cinto com sua adaga chinesa, o tártan atravessado no peito, o broche no plaid. Teve de usar um pano para esconder os seios, o que se tornou uma tarefa quase impossível, porque os seus não eram minúsculos, apesar de não serem grandes. Vestiu a camisa de linho. Por fim, calçou as botas. Teve de enchê-las com os restos da roupa de seu marido – a que rasgara para tratar das feridas dele – porque eram muito grandes.
Suas bochechas estavam rubras por exibir suas pernas tão abertamente. Eram brancas, não douradas pelo sol como as de seu marido. Deus, ela parecia um fantasma. Mulher alguma deveria se mostrar tanto. E o vento que vinha pela saia curta, acariciando suas coxas e... Deus tivesse piedade. Ninguém poderia suspeitar que ela era uma mulher, mas Iain não podia se ocupar do treinamento dos homens sozinho.
Determinada a fazer algo por seu marido, prendeu o cabelo em um rabo-de-cavalo alto, como os guerreiros com cabelos longos faziam. Tirou qualquer adereço feminino que a delatasse. Eles não estavam muito familiarizados a ela, então, não a reconheceriam como sendo a senhora do castelo. Leonor teve vontade de colocar um elmo na cabeça, mas se encontrasse um, era grande demais para ela.
-- Proteja seu pai – ela disse ao pequeno lobo, que saltitava sobre a cama, mordendo as peles e farejando os cabelos do McGregor. Ele emitiu um som que se assemelhava a um latido.
Iain a esperava no corredor. Olhou-a dos pés a cabeça.
-- Não está exatamente um modelo de masculinidade, mas pode passar sendo um garoto franzino. Bem afeminado, se me permite dizer.
-- Não dê mais nenhuma palavrinha, Iain, estou com os nervos à flor da pele.
-- Relaxe, moça, dará tudo certo.
-- Diabos, meus joelhos tremem!
Ele sorriu um pouco.
-- Com uma língua dessas, ninguém esperará que seja uma dama.
Eles se dirigiram ao exterior do castelo em silêncio. Leonor limpou a garganta, forçando a voz para engrossá-la. Que zombassem dela era o de menos. O barmkin estava lotado de homens e rapazes. Até os mais franzinos eram mais másculos que ela. Leonor teve vontade de esconder o rosto nas mãos e pedir perdão a Deus até a garganta sangrar ao ver que a maioria deles tinha o torso descoberto, os músculos bronzeados e molhados de suor, mas se manteve firme e imparcial. Não era correto estar cercada de homens seminus, mas agora ela era um rapaz. Um rapaz envergonhado por tanta testosterona. Todos os olhares se direcionaram a ela. Leonor empinou o queixo altivamente.
Todos já tinham se aquecido, por isso suavam tanto. No entanto, o único aquecimento que ela tivera era o do rosto, por tanta vergonha. O único homem que deveria ver suas pernas era seu marido, mas meio mundo parecia estar de olho em suas canelinhas pálidas.
Ela se sentia uma criatura esquálida.
-- Quem é a moça? – disse um homem em tom zombador. Leonor enrijeceu, lançando um olhar mortífero para o ruivo arrogante. Iain sequer se alterou, como se aquelas brincadeiras fossem naturais entre os homens.
-- Esse é...
-- Leonard – interrompeu Leonor, pondo a mão sobre o punho de sua adaga apenas para ganhar coragem. Sua voz possuía a firmeza que seus joelhos não sentiam – E quem é a senhorita?
Alguns homens riram.
-- Sou Angus – disse o ruivo, seus olhos turquesa faiscando diversão. Ser um homem era muito difícil para o coração dela. – De onde vem tamanha beldade?
-- Leonard – disse Iain, atraindo a atenção totalmente para si, o que quase a fez suspirar de alívio – Vai me ajudar com o treino a partir de hoje.
Os murmúrios que se seguiram foram incômodos. Os homens franziam as sobrancelhas, especulando, falando, o que lembrou a Leonor um grupo de comadres fofoqueiras. Angus se adiantou dentre os homens. Talvez fosse mais bonito se não possuísse uma barba ruivo-acobreada.
-- O que aconteceu com o Chefe? – perguntou Angus.
-- Está indisposto – respondeu impassivelmente Iain – Creio que está adoecendo. A senhora ordenou que ficasse de cama até que soubesse do que se tratava.
-- E uma mulher manda nele? – zombou outro homem. Leonor cerrou os punhos.
-- Ainda mais uma inglesa – debochou outro. Houve risos. As unhas dela se cravaram no punho da adaga.
-- Acredito que vocês ainda não perceberam o que está acontecendo – Leonor rugiu, dando vazão ao seu temperamento. Agora que era um rapaz, não haveria quem a reprovasse por desrespeitar a soberania dos homens – O Chefe está de cama porque a doença é grave e precisou ser dopado para não vir – brincar de soldadinho – treinar conosco. Respeito por seu líder não é o que faz parte da sua honra? – ela apontou com um gesto de nariz para o moreno que zombara primeiro – Então, baixe a cabeça e faça algo de útil servindo ao líder.
O silêncio foi sepulcral. Iain a olhou com renovado respeito, mas não era o suficiente. O moreno desembainhou sua espada e apontou a lâmina para ela.
-- Frangote filho de cadela – rosnou. Ante que fizesse algo a mais, Angus se colocou em seu caminho, empurrando-o para trás.
-- Quieto, Seamus! – Angus disse – O rapaz está certo.
-- Ele debochou da minha honra!
-- E você debochou do seu senhor! – gritou Leonor. Angus lançou um olhar que expressava claramente o seu cale-se. Mas quem silenciou a todos foi Iain, que se mostrava frio e mortal em sua tranquilidade inabalável. Ele colocou uma mão no ombro dela.
-- Já chega – disse ele – Ninguém falará mais nisso. – os homens assentiram – Agora vamos começar o treinamento. Se houver outra briga, não esperem por um castigo qualquer.
Os guerreiros com armas de longo alcance seguiram Iain para o outro lado do barmkin, deixando Leonor sozinha com dezenas de soldados e escudeiros com espadas, lanças e outras armas de curto alcance. Certo. Ela separou as pernas e cruzou os braços sobre os seios achatados, imitando a posição que vira muitos deles fazendo. Encarou cada um deles, memorizando suas feições e armas. Daria a eles todo o conhecimento que possuía. Ela se sentia pequena e quebradiça entre eles.
Leonor não seria covarde porque estava cercada de homens musculosos e armados. Estava acostumada a treinar com o sexo oposto, a empunhar todos os tipos de armas. Seu tio a treinara para ser uma assassina quando fosse necessário; não havia arma que não soubesse usar, não havia idioma que não pudesse aprender facilmente, sabia contar, ler, escrever, jogar xadrez, nadar e, as mesmas mãos que matavam, também curavam e faziam partos. Conhecia de tudo um pouco. Costurara várias vezes suas próprias feridas e tio Richard ensinara a seus filhos e a ela como aguentar as piores torturas sem baixar a cabeça e se entregar aos delírios da dor. Então, não seria um homem raivoso e temperamental que a faria tremer de medo.
Olhou fixamente para Seamus, que era um dos que ficaram, junto com Angus.
-- Vamos ver o que vocês sabem fazer – murmurou ela – Eu não conheço vocês e vocês não me conhecem e não existe forma melhor de apresentar dois guerreiros que lutando – houve sons discretos de aprovação – Escolham as armas que possuem maior afinidade. Apontarei seus defeitos durante o combate para que possamos melhora-los. Não quero soldados que choram por frio ou dor. Estamos entendidos? – assentiram – Vão.
Alguns escolheram espadas, outros lanças, outros maças. Fizeram um círculo ao redor dela. Criadas se aprumavam nas janelas para observar, os cavalariços pararam seus trabalhos com curiosidade. Leonor praticamente sumia no meio de todos aqueles gigantes e ela não era uma mulher baixinha. Com a mão no punho de sua adaga, esperou que o primeiro se adiantasse e não se surpreendeu ao ver que seu desafiante era Seamus, que bufava pelo nariz como um dragão, enquanto os outros esperavam sua vez ansiosamente. Leonor respirou fundo, inspirando demoradamente e expirando lentamente, regulando seus batimentos cardíacos e amenizando a própria ansiedade. Nunca treinara ninguém na vida, tampouco participara de um rodízio de lutas.
-- Pode vir.
Não esperou muito. Soltando um grito de guerra, Seamus avançou para ela, empunhando ferozmente sua claymore. Leonor se preparou para o momento oportuno de avançar. Assumindo a posição do falcão, Seamus ergueu a espada acima da cabeça e a desceu com toda a sua força. Leonor esquivou para o lado e desembainhou sua adaga, tocando com o cabo as costelas dele. Alguns homens riram. Ela girou nos calcanhares para ficar atrás dele, mas ele se virou com tudo, cortando na horizontal. Para um homem tão corpulento, ele era bastante veloz. Ela dobrou a coluna para trás, a folha da claymore passando raspando por seu queixo.
-- Controle a sua fúria e veja meus pontos fracos antes de atacar. Distribuir golpes cegamente não vai salvar a sua vida em uma guerra.
Ela ficou ereta e rapidamente o chutou no estômago. Por estar usando o peitilho, seu golpe não teve tanto efeito. Os outros guerreiros e seus escudeiros observavam atentamente. Seamus voou sobre ela, erguendo a espada outra vez. Leonor franziu as sobrancelhas. Porém, ao invés de descer a espada como ela esperava, ele a chutou no ventre. Ela ofegou, dobrando-se sobre o próprio corpo. Diabos! Podia estar vestida como um homem, mas aquele pé amassou seus ovários. Grunhindo pragas mentalmente, Leonor se jogou para frente, mergulhando por entre as pernas quando ele desceu a espada para mata-la. Rolou no chão e se levantou habilmente. Seamus não estava treinando, estava tentando mata-la por menosprezar sua honra diante dos outros. Se ele estava furioso por isso, pior seria se soubesse que ela era uma mulher. Sem conseguir resistir a uma travessura, Leonor o chutou no traseiro antes que ele se virasse, fazendo-o cambalear para frente.
-- Está se expondo muito, homem. Proteja suas costas.
Ele rosnou para ela. Maldito seja, tinha avelãs no lugar do cérebro?
Seamus voou como uma codorna histérica para ela. Leonor girou a adaga entre os dedos. Defendeu seu ataque com a folha, mas a força do golpe fez seus braços tremerem. Ele sabia que era forte e estava usando isso a seu favor.
-- Não dependa unicamente da sua força, existem homens mais fortes que podem derrota-lo.
-- Como você? – zombou ele.
Leonor sorriu cruelmente.
-- Não. Eu te venço na experiência, Seamus.
Ela girou habilmente, chutando-o nas costelas e esticando o braço até a ponta da adaga ficar rente a garganta dele. O silêncio caiu sobre o barmkin. Então, houve vaias e gritos de excitação. Os homens estavam empolgados como crianças ao encontrar um novo jogo. Apenas quando Seamus se ajoelhou ante ela e pediu desculpas, ela viu que Iain e seu grupo de pupilos também estavam de olho em sua batalha. Até Malcolm e Fergus estavam sorrindo. Leonor tentou não enrubescer. Depois que Seamus se retirou, todos os seus novos alunos correram para ela, pedindo para ser o próximo a treinar.
-- Seamus! – Leonor chamou. Ele se virou para ela. – Você lutou bem.
-- Obrigado, senhor.
Ela sorriu.
Certo. Tinha muito trabalho a fazer com todos os homens de seu marido e milhares de criativas ideias voavam por sua mente. Oh, McGregor se surpreenderia ao ver o resultado.
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